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“Em meio às panelas, também anda o Senhor”
Espiritualidade

“Em meio às panelas,
também anda o Senhor”

“Em meio às panelas, também anda o Senhor”

A tradição carmelitana conta que, certa vez, Santa Teresa estava preparando alguns ovos para a refeição das monjas e… entrou em êxtase, segurando a frigideira na mão.

Uma Monja Carmelita16 de Outubro de 2017
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A tradição carmelitana conta que, certa vez, Santa Teresa estava preparando alguns ovos para a refeição das monjas e… entrou em êxtase, segurando a frigideira na mão. Que situação estranha para ser arrebatada por Deus! Afinal, não era um momento de oração… nem se estava no sossego da capela… mas na agitação da cozinha!

Contudo, ao voltar a si, a santa, como que justificando-se, disse às suas filhas: Entre los pucheros, también anda el Señor – Em meio às panelas, também anda o Senhor”.

Nesta resposta encontramos a explicação para o fato tão insólito. Santa Teresa pôde encontrar o Senhor em meio às panelas, porque vivia a admoestação de São Paulo: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Cor 10, 31). Em outras palavras: ela vivia na presença de Deus.

Então, agora, nos perguntamos: num mundo em que as comunicações são sempre mais fáceis e exigem respostas imediatas, em que as solicitações são sempre mais prementes e crescem em número, onde fica o empenho de estar na presença de Deus? O ritmo acelerado nos absorve e a dispersão toma conta de nós. E, na verdade, não são poucas as pessoas que, sedentas de intimidade com o Senhor, buscam seu momento diário de oração, mas, ao ajoelharem-se, não conseguem fazer “a poeira assentar”. Passaram o dia dando atenção a coisas exteriores, estão impregnadas de impressões e preocupações. Resultado: a lembrança de Deus esvaiu-se no correr das horas.

Aparição de Cristo a Santa Teresa d'Ávila, de Bartolomeo Guidobono.

Esquecido no “fundo da gaveta” de nossas vidas, o exercício da presença de Deus é extremamente importante para a vida de oração. E, sobretudo, nos tempos atuais. Ele pode ser definido como uma prática que tem por fim manter o contato com Deus durante as diferentes ocupações do dia. É verdade que Santa Teresa não falou diretamente sobre isso, mas seus exemplos de vida e os conselhos espalhados aqui e ali em seus escritos constituem um tesouro para nós.

Referindo-se à meditação, a santa diz que “o essencial não é pensar muito – é amar muito” [1]. No caso do exercício da presença de Deus, esta indicação adquire um peso ainda maior do que em seu contexto original. Ele é vivido no desenrolar de outras atividades e, como não temos a capacidade de pensar em duas coisas ao mesmo tempo, o pensamento — que serve apenas para orientar a vontade para Deus de modo a estabelecer um contato e unir-se com Ele — já deve ter sido feito. Durante o dia, é a simples lembrança deste pensamento que será evocada, suscitando amor e levando a alma ao contato com Deus.

O exemplo do êxtase na cozinha ilustra perfeitamente isso. Ocupada nos afazeres culinários, a santa tinha o coração preso a um sentimento que lhe falava de Deus e a levava a amá-lo e a entregar-se a ele.

Prática aprendida nos primeiros anos passados no mosteiro, o exercício da presença de Deus foi uma constante em toda a sua vida, pois buscava encanar o preceito da Regra Carmelitana de viver “meditando dia e noite na lei do Senhor e velando em oração” [2]. Logo após sua tomada de hábito, ela atesta:

Na verdade, algumas vezes, estando a varrer em horas que antes costumava ocupar com meus divertimentos e vaidades, sentia uma estranha felicidade sem saber de onde vinha, ao lembrar que estava liberta de tudo aquilo. [3]

Por detrás dessas linhas, podemos ver que Santa Teresa meditava e apreciava a graça da vocação e as maravilhas operadas por Deus em sua vida. Ficava presa neste sentimento de gratidão e felicidade e, com isso, unia-se a Deus sem interromper suas obrigações, ora dizendo-Lhe uma breve palavrinha, ora absorta na doce impressão que lhe envolvia a alma.

Contudo, nem sempre é fácil chamar à tona a síntese de um pensamento que já nos levou a Deus e, desta forma, provocar um impulso de amor que nos una a Ele. Sem dúvida, uma coisa é varrer ou fritar ovos; outra é, por exemplo, estar empenhado num trabalho intelectual sério que nos suga tanto, a ponto de ficarmos incapazes de pensar em outra coisa ou de interromper sua execução. Nossa atenção está toda e exclusivamente dedicada ao tal trabalho. Nosso ser está na presença do trabalho e não na presença de Deus! O que fazer? Afinal, trata-se de uma obediência aos nossos deveres de estado…

Mas Santa Teresa nos adverte: “É mister, entretanto, que mesmo nas obras de obediência e de caridade, andeis atentas e não vos descuides de acudir muitas vezes a vosso Deus que está no íntimo de vós” [4]. E, em outro lugar, constata: “Se vivêssemos com cuidado, lembrando-nos frequentemente de que temos em nós tal Hóspede, acho impossível darmo-nos tanto às coisas do mundo” [5].

Eis, então, um conselho simples, prático e eficaz:

Sabeis o que vos pode ajudar para vos manter na presença de Deus? Procurai trazer convosco uma imagem ou retrato deste Senhor, que seja de vosso gosto. Não para a colocardes no seio sem a olhar, mas para lhe falardes muitas vezes. [6]

Uma pequena estampa ou imagem na mesa de trabalho, um crucifixo na parede… Isto bastará para que, ao esbarrar os olhos nestes objetos, nossa memória avive o pensamento e este, por sua vez, inflame o amor. O recolher-se dentro de si será, então, imediato. Se possível, uma breve pausa que não comprometa o andamento do trabalho, será ocasião para um rápido colóquio com Deus. Mas se isto for inviável, uma simples jaculatória impregnada de afeto ou um mero suspiro cheio de significado para nós será suficiente para reacender a impressão de nosso último momento de oração e nos manter “pendurados” em Deus. Às vezes — é verdade — o ambiente de trabalho não é propício para se ter uma estampa sobre a mesa, mas, enfim, nada impede que tragamos conosco uma medalha ou outro objeto piedoso de uso pessoal o qual possamos pegar ou apertar.

Santa Teresa pede que nos acostumemos a estas pausas, sob o risco de acabarmos passando o dia distantes de Deus e, a longo prazo, diminuir a amizade com Ele.

É preciso acostumar-vos a isto, adquirir o hábito. A falta de trato com uma pessoa causa estranheza e embaraço, nem se sabe falar com ela. Mesmo sendo aparentada conosco, parece que não a conhecemos. Com a falta de comunicação pouco a pouco se perdem o parentesco e a amizade. [7]

Fica claro: no início, a vontade está disposta a fazer oração, mas a agitação interior impede o recolhimento. Se esta agitação interior não perder sua força, a vontade, sempre derrotada, encolhe e… o relacionamento com Deus fica mais distante até que a amizade venha a morrer. Trata-se, como a santa diz, de criar um hábito e, portanto, pressupõe-se um esforço inicial para isto.

Algumas práticas monásticas podem ser adaptadas ao mundo secular com proveito. Por exemplo: às noviças se ensina estarem atentas às badaladas de um determinado toque de sino que se repete muitas vezes ao dia, ou ao timbre de um relógio de carrilhão nas horas cheias. A cada vez que esse som ecoa, fazem uma pausa e se colocam na presença de Deus. Por que não programar o smartphone para despertar em intervalos regulares de tempo? Por que não procurar um som cíclico que se repete no tempo do trabalho, como o sinal do término de uma aula no caso de uma escola? Por que, a cada vez que se vai reiniciar um processo de montagem, não se eleva o coração a Deus? Coisas pequenas, mas que realmente surtem efeito!

E para os que, por circunstâncias da vida, estão mais imersos na comunicação contínua com pessoas ou na preocupação do deslinde de diferentes atividades, a santa diz:

Se tiver que falar com alguém, procure lembrar-se de que possui dentro de si mesma com quem se entreter. Se tiver que ouvir outras pessoas, preste atenção a uma voz que de mais perto lhe fala. Em suma, esteja persuadida de que, se quiser, poderá estar sempre na ótima convivência de seu Deus. [8]

Uma vez criado o hábito, Deus se torna o Amigo mais próximo, com quem não temos cerimônia, mesmo nos “imprevistos previstos” no nosso dia-a-dia que, na falta deste Amigo de todas as horas, nos levariam a perder a calma. Tornou-se assunto das recreações das monjas a reação de Santa Teresa rumo a uma de suas tantas fundações. Chovera muito; a carroça deveria atravessar uma ponte que mal se distinguia em virtude do nível alto a que subira a água do rio. De repente, a carroça se desequilibra e tomba na água. Saltando com a água pelos joelhos, a santa, ao invés de impacientar-se, olha para o alto e diz: “Senhor, com tantos males e ainda por cima isto?... Se tratas assim teus amigos, é por isso que os tens tão poucos!”.

Se almejamos uma amizade assim com Deus, tão próxima e que, embora cheia de respeito pode manifestar tanta liberdade no trato, tenhamos em mente as palavras da santa:

Quem quiser adquirir este hábito, não desanime. Trabalhe por acostumar-se ao que ficou dito. Procure adquirir pouco a pouco o domínio de si mesma, sem se dissipar à toa. É ganhar a si para si e utilizar os próprios sentidos para a vida interior.

[...]

Nada se aprende sem um pouco de trabalho; por amor de Deus, Irmãs, dai por bem empregada a diligência que nisto fizerdes. Esforçando-vos, tenho certeza de que dentro de um ano, ou talvez meio ano, o conseguireis, com o favor de Deus. Considerai como é pouco esse tempo para tão grande proveito [...]. Praza a Sua Majestade jamais consentir que nos apartemos de sua divina presença. Amém. [9]

Referências

  1. Quartas Moradas, 1, 7.
  2. Regra, 8.
  3. Livro da Vida, 4, 2.
  4. Fundações, 5, 17.
  5. Caminho de Perfeição, 28, 10.
  6. Ibid., 26, 9.
  7. Idem.
  8. Caminho de Perfeição, 29, 8.
  9. Ibid., 7-8.

Recomendações

Quer se aprofundar na vida de oração? Então não deixe de assistir a nosso curso sobre a obra Caminho de Perfeição, de Santa Teresa d'Ávila!

A seguir, o trailer de apresentação deste curso:

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Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade
Oração

Conheça e aprenda
a rezar a Ladainha da Humildade

Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade

Uma oração simples, mas cativante, composta por um Cardeal da Igreja e amigo íntimo do Papa São Pio X.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Novembro de 2017
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Nesta oração composta pelo Cardeal Merry del Val, secretário do Estado do Vaticano durante o pontificado de São Pio X, peçamos juntos ao Senhor a graça da humildade de coração, alicerce da vida interior e remédio eficaz contra o pecado da soberba.

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser difamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu,
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído,
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado,
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado,
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas,
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

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Onde estava a Igreja de Cristo antes de Lutero?
Igreja Católica

Onde estava a Igreja de Cristo
antes de Lutero?

Onde estava a Igreja de Cristo antes de Lutero?

Se a Igreja Católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, então ela nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos. Do contrário, Jesus Cristo nos enganou.

Pe. Leonel Franca16 de Novembro de 2017
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Da infalibilidade da Igreja deriva um corolário fatal a todas as heresias. Qualquer grupo de almas batizadas que se separa da comunhão dos fiéis e rompe com os ensinamentos e tradições antigas já está condenado pela sua própria novidade.

A Igreja de Cristo é una como a verdade. O Espírito Santo nela habita com a sua assistência continuada todos os dias, até a consumação dos tempos. Impossível assinalar uma época na história em que a Esposa do Verbo se tenha desviado da senda real da ortodoxia. As promessas divinas falhariam, Cristo deixaria de ser Deus e a religião por ele instituída afundaria para sempre no pego imenso das superstições humanas.

Após 15 séculos de cristianismo levante-se um monge no coração da Alemanha e lança ao mundo o pregão de uma reforma. Simples regeneração dos costumes?

Não, reforma doutrinal.

O que então se chamava doutrina cristã admitida pela Igreja universal era uma adulteração profunda do Evangelho, um acervo de superstições e idolatrias, patrocinadas pelo anticristo de Roma. A Igreja se havia apartado da verdadeira fé: era mister reconduzi-la às fontes genuínas do Evangelho.

Cristo errara a mão. Fundara uma sociedade fadada a destinos imortais. Plantara-a no mundo como cidade visível para acolher os eleitos. Mas apenas saída das suas mãos divinas, apenas o mundo pagão, com a paz de Constantino, viera buscar à sombra da cruz a verdade e a vida, a Igreja desfalece, corrompe-se, paganiza-se. Onze séculos de ignorância, de trevas e de superstições ensombraram a obra do Salvador.

"A entrega das chaves a S. Pedro", de Pietro Perugino.

Foi mister que um frade apóstata, sensual e orgulhoso apontasse no horizonte religioso da humanidade para reconduzi-la aos mananciais cristalinos do Evangelho, e, mais feliz, mais próvido, mais sábio, mais poderoso que o Cristo, fundasse uma nova Igreja de vitalidade menos efêmera, Igreja imorredoura e incorruptível, destinada a acolher sob as suas tendas as gerações do porvir. Eis a significação real do protestantismo. Eis outrossim a sua condenação, a seta fatal que se lhe embebeu no peito e há de arrastá-lo à morte inevitável.

Se Cristo é Deus, se Cristo fundou uma Igreja, essa é indefectível e imortal como as obras divinas. Mas se a Igreja caiu no erro, as portas do inferno prevaleceram contra ela e Cristo não manteve a sua promessa. Cristo enganou-nos, Cristo não é Deus, e o cristianismo é uma grande impostura. É tão forte a consequência que muitos protestantes por este motivo abjuraram o cristianismo. É o exemplo de Staudlin, que dizia:

Se na religião partimos de um princípio sobrenatural (como uma revelação, a Bíblia, por exemplo ou o Corão), cumpre necessariamente admitir que a Divindade, comunicando uma revelação ao homem, deve prover outrossim o modo de impedir que o sentido desta revelação não seja abandonado às arbitrariedades do juízo subjetivo. Esta inconsequência de Jesus Cristo não me permite considerá-lo senão como um sábio benfeitor. [1]

Ochin, outro protestante, que no dizer de Calvino, era mais sábio ele só que a Itália inteira, chegava pelo mesmo caminho à mesma conclusão. “Considerando, de um lado, como poderia a Igreja haver sido fundada por Jesus Cristo e regada com o seu sangue, e, do outro, como poderia ela ser fundamentalmente adulterada pelo catolicismo, como estamos vendo, conclui que aquele que a estabeleceu não podia ser o Filho de Deus; faltou-lhe evidentemente a Providência” [2]. E Ochin, renunciando ao protestantismo, fez-se judeu.

Nada, com efeito, mais diametralmente oposto aos ensinamentos e promessas do Evangelho do que a ideia de uma Igreja que pode desgarrar da sua primeira instituição, pregar o erro e a corrupção. O Espírito de Verdade habitará nela para todo o sempre: prometeu-o formalmente Cristo. Formalmente mandou-nos o Senhor que obedecêssemos à Igreja em todos os tempos e em todos os lugares. Não nos disse: Escutai a Igreja durante 300 ou 1.000 anos, mas ouvi-a sempre, sem nenhum limite de tempo, sem nenhuma reserva, sem nenhuma restrição. “Quem não ouve a Igreja, seja considerado como pagão ou pecador” (Mt 18, 17).

Ora, evidentemente, antes de Lutero existia uma Igreja, a Igreja católica, que por uma sucessão ininterrupta de pastores ascendia aos apóstolos, e, por meio dos apóstolos, ao próprio Cristo. Esta era a Igreja instituída pelo Salvador, esta a Igreja de que falam as promessas evangélicas. Fora dela, a história não conhece outra.

Quando nasceram as igrejas luteranas, calvinistas e anglicanas, já a Igreja católica tinha uma existência quinze vezes secular. Desde Jesus Cristo só há uma Igreja, a grande Igreja, como a chamavam os pagãos, a Igreja, simplesmente, sem epítetos derivados de nomes humanos, como a chamamos nós. Diante deste fato, afirmai agora que essa Igreja entrou a corromper-se no 4.º século e de todo adulterou a doutrina evangélica nas “trevas caliginosas da Idade Média” e tereis anulado as promessas de sua Providência, atributo distintivo da Divindade. Staudlin e Ochin são lógicos. Entre o catolicismo e o naturalismo deísta não há racionalmente meio termo. Se a Igreja católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos [3]. Se não, Jesus Cristo enganou-nos. Seitas cristãs acatólicas são superfetação parasitária destinada a uma existência efêmera.

Por uma feliz incoerência, porém, muitos protestantes não resvalaram até ao fundo do abismo. Parando à meia encosta, esforçam-se por conservar alguns restos de cristianismo. Mas nem estes deixaram de sentir o fio cortante do argumento: onde estava a Igreja antes de Lutero?

Pergunta capciosa? Não, pergunta molesta, pergunta irrespondível, pergunta que vale por si uma apologia inteira, pergunta inexoravelmente fatal ao protestantismo.

Referências

  1. Magazin de l’histoire de la religion, 3e. partie, p. 83.
  2. Citado na obra Dialogues sur le protestantisme, p. 55.
  3. Bem dizia aquele filósofo: Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes.

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Preguiçoso não entra no Céu
Espiritualidade

Preguiçoso não entra no Céu

Preguiçoso não entra no Céu

A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Mons. Ascânio Brandão14 de Novembro de 2017
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A Sagrada Escritura diz que a ociosidade é a mãe de todos os vícios, porque ensina muita maldade (cf. Eclo 33, 29).

Comentando esta passagem, escreve S. Bernardo:

O ferro se enferruja quando não se usa. O ar se corrompe e gera doenças quando não é agitado por muito tempo. A água sem correnteza torna-se fétida e nela se desenvolvem os insetos. Assim também o corpo que se corrompe pela preguiça torna-se uma sede de todas as más inclinações.

A ociosidade é má conselheira. Por isto um Padre da Igreja dizia: “Um homem ocupado só tem um demônio para o tentar. O preguiçoso tem cem”.

A preguiça é um grande mal. É mãe de todos os males. Preguiçoso não entra no céu. O Reino dos Céus padece violência. Só quem luta o alcança.

Nosso Senhor no Evangelho nos fala tanto da luta, da penitência, da cruz, do sacrifício, da guerra às paixões. Como seguir o Mestre de braços cruzados, na ociosidade?

O preguiçoso não pode se salvar. A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Cuidado! Há uma preguiça espiritual verdadeiramente desastrada na piedade. É o mal dos nossos dias.

"Uma leitura interessante", de Miguel Jadraque y Sánchez Ocaña.

Muitos cristãos não perseveram na virtude por uma preguiça que os domina quando se trata das coisas eternas, do sacrifício, da luta pelo bem.

E queres saber quando nos domina esta preguiça espiritual? Eis os sinais:

  • Infidelidades contínuas à voz da consciência.
  • Um desprezo secreto das pessoas piedosas.
  • Distrações voluntárias e contínuas na oração.
  • Sacramentos recebidos com frieza e sem fruto.
  • Aborrecimento das coisas santas.
  • Inúmeras faltas repetidas e ausência de qualquer esforço para se corrigir.

Como sair deste triste estado?

Só há dois recursos: — Trabalho e Mortificação.

Referências

  • Transcrito e levemente adaptado de Meu ponto de meditação, do Padre Ascânio Brandão, Taubaté: Editora SCJ, 1941, p. 49s.

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Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima
Virgem MariaTeologia

Os fundamentos da
escravidão à Virgem Santíssima

Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima

O culto de escravidão sintetiza todos os cultos que devemos a Nossa Senhora, como Rainha que ela é de todo o universo.

Pe. Gabriel M. RoschiniTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2017
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Além do culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação e de imitação, à Virgem SS. é devido, como Rainha de todo o universo, um culto de escravidão. É este último ato de culto mariano que sintetiza todos os demais.

  • O escravo fiel à sua Rainha, se realmente o é, venera-a antes de tudo, reconhecendo sua singular excelência.
  • Em segundo lugar, ama-a e faz tudo o que a agrada, evitando tudo o que possa aborrecê-la.
  • Enche-se de gratidão por Ela, devido aos grandes favores que dela recebeu.
  • Está cheio de confiança em sua Rainha, se sabe que Ela conhece, pode e quer socorrê-lo em todas as suas necessidades.
  • O servo fiel à sua Rainha, enfim, se o é realmente, trata de imitá-la, uma vez que reconhece nEla o seu modelo ideal.

Eis aqui, portanto, como o ato de escravidão sintetiza todos os outros atos do culto singular que devemos a Maria SS., Mãe de Deus, Mãe dos homens, Corredentora do gênero humano, dispensadora de todas as graças divinas, modelo insuperável de nossa vida.

No conhecido Salmo 44, em que se celebram as núpcias do Rei messiânico, o autor inspirado não se esquece de ressaltar o culto de servidão tributado ao Rei incomparável e à Rainha, sua esposa, representada à sua direita. Diz-se do Rei que a ele se submeterão os povos (v. 6); põe-se de relevo a homenagem que lhe tributam suas filhas (v. 9). Depois, referindo-se à Rainha, o hagiógrafo nota como os habitantes de Tiro, uma das cidades ricas de então, vêm a Ela com seus presentes, e como os próceres do povo tratam de conquistar o seu favor (v. 13). Em outra parte, a Rainha é representada com um cortejo de virgens à sua volta, companheiras e servas suas, símbolo evidente daquela inumerável corte de almas — todas as almas verdadeiramente cristãs — que haveriam de servi-la.

Em outro lugar, prediz-se que todos os povos hão de servir o Rei messiânico: “Omnes gentes servient ei” (Sl 72, 11). Ora, não deveria dizer-se o mesmo da Rainha, Mãe e Esposa sua? Assim como Ela compartilha com Ele o domínio real sobre todas coisas, assim também deve compartilhar com Ele o culto de escravidão que lhe temos de tributar todos nós, já que o Rei e a Rainha constituem uma única pessoa moral.

O primeiro dos Padres da Igreja que se declarou expressamente “servo de Maria” foi, ao que parece, o diácono S. Efrém, o Sírio (306-373), chamado de “sol dos Sírios”, “harpa do Espírito Santo”, “o cantor de Maria”. Depois de proclamá-la “Senhora de todos os mortais”, S. Efrém se declara humildemente um “indigno servo seu”. Em seu primeiro canto de louvor a Maria, o santo lhe dirige esta ardente oração:

Ó Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, Rainha do universo, esperança dos mais desesperados, gloriosíssima, ótima e honorabilíssima Senhora Nossa! Ó grande Princesa e Rainha, incomparável Virgem, puríssima e castíssima Senhora de todos os senhores, Mãe de Deus, nós nos entregamos e consagramos ao vosso serviço desde nossa infância. Levamos o nome de servos vossos.

Não permitais, pois, que Satanás, o espírito maligno, nos arraste para o inferno. Enchei de agora em diante a minha boca, ó Santa Senhora, com a doçura da vossa graça. Aceitai, ó Virgem Santa, que o teu humílimo servo vos louve e vos diga: Saúdo-vos, ó vaso magnifico e precioso de Deus! Saúdo-vos, Maria, Soberana minha cheia de graça! Saúdo-vos, Soberana de todas as criaturas! Saúdo-vos, cântico dos querubins, doce harmonia dos anjos! Saúdo-vos, hino dos solitários! Saúdo-vos, Soberana, que tendes em mãos o cetro sobre os vossos fiéis servos!

Fundamentos racionais. O fundamento último do culto mariano de singular servidão apóia-se no domínio completamente singular que a bem-aventurada Virgem exerce sobre todas as criaturas, como Rainha do universo. “O servo”, observa o Angélico, “diz relação a seu Senhor”. Onde há, pois, uma especial razão de senhorio e de domínio, haverá também uma razão especial de servidão.

Ora, que na Virgem SS. exista uma especial razão de domínio e de senhorio sobre todas as coisas, é algo que se segue de sua universal realeza. Podemos, portanto, concluir com Dionísio, o Cartuxo: “Ela domina e pode mandar em todas as criaturas, no céu e na terra”; ou com S. Bernardino de Sena: “Tantas são as criaturas que servem a Maria quantas são as que servem a SS. Trindade”.

O servo fiel de qualquer rainha da terra está contínua e habitualmente perto dela, sem nunca abandoná-la. É isto que tem de fazer, de modo análogo, o servo fiel da Rainha dos céus. Deve estar sempre junto dEla, não perdê-la nunca de vista, ou seja, deve ter o seu pensamento constantemente nEla. Pensar habitualmente em Maria SS. lhe tornará mais fácil pensar habitualmente em Deus. Viver, pois, na presença de Maria é viver, com maior facilidade, na presença de Deus.

Ora, o meio mais eficaz para vivermos assim, continuamente — tanto quanto for possível —, na presença de Maria, é estar profundamente persuadido de que a Virgem SS., de uma maneira misteriosa, está sempre presente em cada um de nós, com o pensamento, com o afeto, com as ações. Ela está conosco

  • pelo pensamento, já que continuamente nos vê em Deus;
  • pelo afeto, pois está presente ali onde está o seu amor, e a Virgem SS. nos ama a todos com um amor inefável de Mãe; e
  • pelas ações, uma vez que todas as graças que preservam e fazem desabrochar a nossa vida sobrenatural passam, como por um canal, pelas mãos de Maria.

Referências

  • Transcrito e adaptado da obra La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 363-389.

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