Um célebre carnavalesco reconheceu há poucos dias: “Escola de samba é macumba... gostem ou não gostem”. E é inegável, de fato, a ligação entre os elementos do carnaval brasileiro e as chamadas religiões afro, como a umbanda e o candomblé.
Mesmo distante da realidade brasileira, também o Cardeal Joseph Ratzinger, de saudosa memória, já refletiu sobre as origens pagãs do carnaval. Muito antes de ser eleito Papa, o teólogo alemão lembrava a ambivalência dessa data, inconcebível “sem o calendário das festas litúrgicas”, mas na qual, ao mesmo tempo, “o culto da fertilidade e a evocação dos espíritos andam juntos”, tendo a festa se tornado, em grande medida, “um negócio que explora a tentação do homem”.

Acompanhemos o que ensinava Ratzinger em 1974, em seu livro Speranza del grano di senape (Queriniana, Brescia):
Não somos um pouco esquizofrênicos em relação ao Carnaval? Por um lado, afirmamos com muito gosto que o Carnaval tem direito de cidadania precisamente em terra católica; por outro lado, evitamos considerá-lo espiritual e teologicamente. Faz então parte daquelas coisas que cristãmente não se podem aceitar, mas que humanamente não se podem impedir? Então, seria legítimo perguntar: em que sentido o cristianismo é verdadeiramente humano?
A origem do carnaval é sem dúvida pagã: o culto da fertilidade e a evocação dos espíritos andam juntos. A Igreja teve de se insurgir contra essa ideia e falar de exorcismo, que expulsa os demônios que tornam os homens violentos e infelizes. Mas depois do exorcismo surgiu algo novo, completamente inesperado, uma serenidade demonizada: o carnaval foi relacionado com a quarta-feira de cinzas, como um tempo de alegria antes do tempo da penitência, como um tempo de uma serena autoironia que diz alegremente a verdade que pode estar muito intimamente ligada à do pregador da penitência. Assim, o carnaval, uma vez desdemonizado, na linha do pregador do Antigo Testamento, pode ensinar-nos: “Há um tempo para chorar e um tempo para rir…” (Ecle 3, 4).
Também para o cristão nem sempre é tempo de penitência. Há também um tempo para rir. O exorcismo cristão destruiu as máscaras demoníacas, fazendo explodir um riso sincero e aberto. Todos sabemos como o carnaval hoje em dia está frequentemente longe desse clima e, em certa medida, tornou-se um negócio que explora a tentação do homem. O realizador é Mamona e os seus aliados. Por isso, nós, cristãos, não lutamos contra, mas a favor da alegria. A luta contra os demônios e a alegria com aqueles que estão felizes estão intimamente ligadas: o cristão não deve ser esquizofrênico, porque a fé cristã é verdadeiramente humana.
Em outra oportunidade — na obra Cercate le cose di lassù. Riflessioni per tutto l’anno (Paoline), de 1986 —, o mesmo Ratzinger foi mais a fundo, procurando mostrar o que os católicos fizeram (ou ainda poderiam fazer) com o antigo festival pagão do carnaval.
O Carnaval não é certamente uma festa religiosa. No entanto, não é concebível sem o calendário das festas litúrgicas. Portanto, uma reflexão sobre a sua origem e o seu significado pode ser útil também para compreender a fé. As raízes do carnaval são múltiplas: judaicas, pagãs, cristãs. No calendário das festas judaicas, corresponde aproximadamente à festa de Purim, que recorda a salvação de Israel da iminente perseguição dos judeus no reino da Pérsia.
A alegria desenfreada com que a festa é celebrada pretende ser uma expressão do sentimento de libertação que, neste dia, não é apenas memória, mas promessa: quem está nas mãos do Deus de Israel está livre das armadilhas dos seus inimigos.
Ao mesmo tempo, por trás desta festa desenfreada e profana, que tinha e tem ainda o seu lugar no calendário religioso, está o conhecimento do ritmo do tempo, validamente expresso no Livro do Eclesiastes. Nem todos os momentos são adequados para todas as coisas: o homem precisa de um ritmo, e o ano dá-lhe esse ritmo, na criação e na história que a fé apresenta ao longo do ano. Chegamos assim ao ano litúrgico, que faz o homem percorrer toda a história da salvação no ritmo da criação, ordenando e purificando assim o caos e a multiplicidade do nosso ser. Neste ciclo de criação e história, nenhum aspecto humano é deixado de lado, e só assim é salvo tudo o que é humano, os lados obscuros como os luminosos, a sensorialidade como a espiritualidade.
Tudo recebe o seu lugar no todo que lhe dá sentido e o liberta do isolamento. Por isso, é tolice querer prolongar o carnaval como gostariam os negócios e os calendários: esse tempo arbitrário torna-se enfadonho, porque nele o homem torna-se apenas criador de si mesmo, é deixado sozinho e encontra-se realmente abandonado. O tempo não é mais o dom múltiplo da criação e da história, mas o monstro que devora a si mesmo, a engrenagem vazia do eternamente igual, que nos faz girar num círculo sem sentido.
Mas voltemos às raízes do carnaval. Ao lado das tradições judaicas, existem as pagãs, cujo rosto severo e ameaçador ainda nos encara das máscaras dos países alpinos e suevo-germânicos. Aqui celebravam-se os rituais da expulsão do inverno, do exorcismo das forças demoníacas. Neste ponto, podemos notar algo muito significativo: a máscara demoníaca transforma-se, no mundo cristão, numa divertida mascarada, a luta perigosa com os demônios transforma-se em alegria antes da gravidade da Quaresma. Nessa mascarada, acontece o que encontramos frequentemente nos salmos e nos profetas: ela torna-se escárnio daqueles deuses, que quem conhece o verdadeiro Deus não deve mais temer.
As máscaras dos deuses tornaram-se um espetáculo divertido, expressam a alegria desenfreada daqueles que podem encontrar motivos de comédia naquilo que antes causava medo. Neste sentido, está presente no carnaval a libertação cristã, a liberdade do único Deus, que torna perfeita aquela liberdade lembrada pela festa judaica de Purim.
É evidente que as “mascaradas” de que fala Ratzinger estão muito aquém dos espetáculos das escolas de samba que vemos atualmente no Brasil. Poderíamos até dizer que os dois entretenimentos têm em comum tão somente as máscaras.

Deixando de lado, porém, os grandes carnavais comerciais, com seu forte apelo à nudez e sincretismo religioso, é perfeitamente possível celebrar, sobretudo em família ou em ambientes de igreja, um outro carnaval — mais sóbrio, mais sadio e, justamente por isso, mais alegre também —, como um verdadeiro “adeus à carne” (carne vale), para depois entrarmos por inteiro na abstinência da Quaresma e prepararmo-nos com afinco para a festa — esta, sim, cristianíssima — da Páscoa do Senhor. Assim experimentamos aquilo que diz a Escritura e que nos lembra Ratzinger: “Há um tempo para chorar e um tempo para rir”; e, nos diferentes ritmos do ano litúrgico, vamos aprendendo a tudo recapitular em Cristo Jesus, no qual vivemos, nos movemos e somos (cf. At 17, 28).

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