O texto a seguir foi retirado de uma carta escrita por São José de Anchieta ao superior dos jesuítas, Diego Láyñez, no dia 1.º de junho de 1560, e conta um pouco o que enfrentavam os primeiros evangelizadores de nossa terra e com que espírito eles trabalhavam. O trecho consta no Ofício das Leituras de hoje, 9 de junho, dia em que a Igreja faz memória de José de Anchieta, "apóstolo do Brasil".

Para quem não sabe, apesar de tanto tempo passado, José de Anchieta só veio a ser canonizado em 2015, pelo Papa Francisco. Nós temos em nosso site uma aula especial sobre a vida deste grande apóstolo, a que vale a pena assistir.

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Destacamos do breve excerto abaixo a seguinte frase: "Nada é árduo aos que têm por fim somente a honra de Deus e a salvação das almas". Possamos também nós trabalhar com esse mesmo objetivo em mente, pedindo a Deus que nos inflame do mesmo amor que animou São José de Anchieta e os primeiros jesuítas a darem a vida por Sua causa:

Nada é árduo aos que têm por fim somente a honra de Deus e a salvação das almas

De outros muitos poderia contar, máxime escravos, dos quais uns morrem batizados de pouco, outros já há dias que o foram; acabando sua confissão vão para o Senhor. Pelo que, quase sem cessar, andamos visitando várias povoações, assim de Índios como de Portugueses, sem fazer caso das calmas, chuvas ou grandes enchentes de rios, e muitas vezes de noite por bosques mui escuros a socorrermos aos enfermos, não sem grande trabalho, assim pela aspereza dos caminhos, como pela incomodidade do tempo, máxime sendo tantas estas povoações e tão longe umas das outras, que não somos bastantes a acudir tão várias necessidades, como ocorrem, nem mesmo que fôramos muito mais, não poderíamos bastar. Ajunta-se a isto, que nós outros que socorremos as necessidades dos outros, muitas vezes estamos mal dispostos e, fatigados de dores, desfalecemos no caminho, de maneira que apenas o podemos acabar; assim que não menos parecem ter necessidade de ajuda os médicos que os mesmos enfermos. Mas nada é árduo aos que têm por fim somente a honra de Deus e a salvação das almas, pelas quais não duvidarão dar a vida. Muitas vezes nos levantamos do sono, ora para os enfermos, ora para os que morrem.

Hei me detido em contar os que morrem, porque aquele se há de julgar verdadeiro fruto que permanece até o fim; porque dos vivos não ousarei contar nada, por ser tanta a inconstância em muitos, que não se pode nem se deve prometer deles coisa que haja muito de durar. Mas bem-aventurados aqueles que morrem no Senhor (Ap 14, 13), os quais livres das perigosas águas deste mudável mar, abraçada a fé e os mandamentos do Senhor, são transladados à vida, soltos das prisões da morte, e assim os bem-aventurados êxitos destes nos dão tanta consolação, que pode mitigar a dor que recebemos da malícia dos vivos. E contudo trabalhamos com muita diligência em a sua doutrina, os admoestamos em públicas predicações e particulares práticas, que perseverem no que têm aprendido. Confessam-se e comungam muitos cada domingo; vêm também de outros lugares onde estão dispersados a ouvir as Missas e confessar-se.