Não esqueçam a oração de São Miguel Arcanjo!
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Não esqueçam a oração de São Miguel Arcanjo!
Espiritualidade

Não esqueçam a oração
de São Miguel Arcanjo!

Não esqueçam a oração de São Miguel Arcanjo!

Ainda que não seja mais recitada ao final das Missas, como acontecia antigamente, a oração a São Miguel Arcanjo continua sendo um auxílio poderoso “na batalha contra as forças das trevas e contra o espírito deste mundo”.

Bradley EliTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Maio de 2017Tempo de leitura: 2 minutos
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Depois de receber em 1884 uma visão terrível de forças diabólicas prestes a serem soltas na Terra, o Papa Leão XIII escreveu de próprio punho a oração a São Miguel, ordenando que ela fosse recitada logo em seguida a todas as Missas rezadas no rito latino. A oração ao Arcanjo tornou-se parte das chamadas "orações leoninas", as quais foram deixadas de lado pela reforma litúrgica da década de 1960.

Em 1994, porém, o Papa São João Paulo II fez notar a ausência dessa oração e pediu que ela fosse novamente recitada pelos fiéis. Foi no dia 24 de abril, no Vaticano, depois da tradicional oração do Regina Caeli:

"Que a oração nos fortaleça para aquela batalha espiritual de que fala a Carta aos Efésios: 'Fortalecei-vos no Senhor e no poder da sua virtude' ( Ef 6, 10). É a essa mesma batalha que se refere o Livro do Apocalipse, colocando diante de nossos olhos a imagem de São Miguel Arcanjo (cf. Ap 12, 7). Tinha certamente bem presente diante de si essa cena o Papa Leão XIII, quando, no final do século passado, introduziu em toda a Igreja uma oração especial a São Miguel: 'São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate contra a maldade e as ciladas do demônio…'

Ainda que hoje essa oração não seja mais recitada ao término da celebração eucarística, convido todos a não esquecê-la, mas a recitá-la para obter a ajuda na batalha contra as forças das trevas e contra o espírito deste mundo."

Curiosamente, uma década apenas depois que essa oração deixou de ser recitada nas paróquias após as Missas, o bem-aventurado Papa Paulo VI reconhecia, com pesar, as vitórias que Satanás e suas forças estavam obtendo sobre a Igreja. Em uma homilia no dia 29 de junho de 1972, ele alertava:

" Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Subsiste a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se a confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrermos a ele e lhe pedirmos se tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, que já somos os donos e os mestres [dessa fórmula]. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam, em vez disso, serem abertas à luz.

[...]

Na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los. Como aconteceu isso? Confiamo-vos um nosso Pensamento: houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é o Diabo."

A oração a São Miguel foi composta pelo Papa Leão XIII no dia 13 de outubro de 1884, exatamente 33 anos antes do Milagre do Sol, em Fátima. Seguem a versão latina original da oração e a sua tradução portuguesa:

Sancte Michael Archangele, defende nos in proelio, contra nequitiam et insidias diaboli esto praesidium. Imperet illi Deus, supplices deprecamur: tuque, Princeps militiae caelestis, Satanam aliosque spiritus malignos, qui ad perditionem animarum pervagantur in mundo, divina virtute, in infernum detrude. Amen.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede nosso refúgio contra a maldade e as ciladas do demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos, e vós príncipe da milícia celeste, pelo Divino Poder, precipitai no inferno a Satanás e a todos os espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.

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A primeira e a segunda vinda de Cristo
Espiritualidade

A primeira e a
segunda vinda de Cristo

A primeira e a segunda vinda de Cristo

Naquele tempo, em sua primeira vinda, Jesus veio para realizar um desígnio de amor, ensinando aos homens com persuasão e doçura. No fim dos tempos, porém, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.

São Cirilo de Jerusalém3 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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A meditação a seguir foi extraída do Ofício das Leituras do 1.º Domingo do Advento.

Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém, bispo
(Cat. 15, 1-3: PG 33, 870-874)

As duas vindas de Cristo

Anunciamos a vinda de Cristo: não apenas a primeira, mas também a segunda, muito mais gloriosa. Pois a primeira revestiu um aspecto de sofrimento, mas a segunda manifestará a coroa da realeza divina.

Aliás, tudo o que concerne a nosso Senhor Jesus Cristo tem quase sempre uma dupla dimensão. Houve um duplo nascimento: primeiro, ele nasceu de Deus, antes dos séculos; depois, nasceu da Virgem, na plenitude dos tempos. Dupla descida: uma, discreta como a chuva sobre a relva; outra, no esplendor, que se realizará no futuro.

Na primeira vinda, ele foi envolto em faixas e reclinado num presépio; na segunda, será revestido num manto de luz. Na primeira, ele suportou a cruz, sem recusar a sua ignomínia; na segunda, virá cheio de glória, cercado de uma multidão de anjos.

Não nos detemos, portanto, somente na primeira vinda, mas esperamos ainda, ansiosamente, a segunda. E assim como dissemos na primeira: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21, 9), aclamaremos de novo, no momento de sua segunda vinda, quando formos com os anjos ao seu encontro para adorá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor.

“Jesus recebendo de Deus Pai o mundo”, por Antonio Arias Fernández (1614).

Virá o Salvador, não para ser novamente julgado, mas para chamar a juízo aqueles que se constituíram seus juízes. Ele, que ao ser julgado guardara silêncio, lembrará as atrocidades dos malfeitores que o levaram ao suplício da cruz, e lhes dirá: “Eis o que fizestes e calei-me” (Sl 49, 21).

Naquele tempo ele veio para realizar um desígnio de amor, ensinando aos homens com persuasão e doçura; mas, no fim dos tempos, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.

O profeta Malaquias fala dessas duas vindas: “Logo chegará ao seu templo o Senhor que tentais encontrar” (Ml 3, 1). Eis uma vinda.

E prossegue, a respeito da outra: “E o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; e estará a postos, como para fazer derreter e purificar” (Ml 3, 1-3).

Paulo também se refere a essas duas vindas quando escreve a Tito: “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2, 11-13). Vês como ele fala da primeira vinda, pela qual dá graças, e da segunda que esperamos?

Por isso, o símbolo da fé que professamos nos é agora transmitido, convidando-nos a crer naquele que subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Nosso Senhor Jesus Cristo virá portanto dos céus, virá glorioso no fim do mundo, no último dia. Dar-se-á a consumação do mundo, e este mundo que foi criado será inteiramente renovado.

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Uma oração tempestuosa para o início do Advento
LiturgiaEspiritualidade

Uma oração
tempestuosa para o início do Advento

Uma oração tempestuosa para o início do Advento

“Despertai vosso poder e vinde, ó Senhor”, reza a liturgia nestes primeiros dias do Advento. Quando permite que “sejamos afligidos por nossos injustos perseguidores”, de fato, Deus parece dormir. Como naquela noite, em meio ao mar tempestuoso…

Michael P. FoleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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O 1.º Domingo do Advento (e do ano litúrgico) começa [no rito antigo] com a segunda Coleta “despertadora” consecutiva [1]:

Excita, quǽsumus, Dómine, poténtiam tuam, et veni: ut ab imminéntibus peccatórum nostrórum perículis, te mereámur protegénte éripi, te liberánte salvári: Qui vivis et regnas cum Deo Patre, in unitáte Spiritus Sancti, Deus, per ómnia sǽcula sæculórum. — Despertai vosso poder e vinde, ó Senhor, nós vos pedimos, a fim de que, dos iminentes perigos a que nos expõem nossos pecados, mereçamos ser resgatados e salvos por vós, nosso protetor e libertador. Que viveis e reinais com Deus Pai, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos.

Embora as orações romanas reflitam uma tradição retórica romana muitas vezes distinta das traduções latinas da Bíblia em termos de dicção e sintaxe, essa Coleta é extraída diretamente do Salmo 79 (80), versículo 3: Excita, Dómine, poténtiam tuam et veni, ut salvos fácias nos, “Desperta, ó Senhor, o teu poder e vem para nos salvar”.

O subtítulo tradicional do Salmo 79 é “uma oração pela Igreja em tribulação”. Como explica São Roberto Belarmino, nesse versículo o salmista pede a Deus que desperte seu poder, porque este parece estar sepultado quando Ele permite que sejamos “afligidos por nossos injustos perseguidores” [2]. Na semana passada, a Igreja rezou para que Deus despertasse nossa vontade a fim de que chegássemos a um bom termo; nesta semana, ela reza para que Deus desperte seu poder a fim de proporcionar um bom início em meio a uma situação ruim.

E [a oração] não [se dirige] apenas a Deus de forma genérica, mas a Deus Filho. Enquanto a Coleta da semana passada era dirigida ao Pai, a desta semana é dirigida à segunda Pessoa da Santíssima Trindade (ver o final “Vós que viveis”). Durante o Advento, faz sentido implorar ao Filho que Ele venha, já que do ponto de vista litúrgico nós recordamos a época anterior à sua natividade e imploramos por sua chegada em Belém; essa “reencenação”, por sua vez, ajuda-nos a nos preparar para sua vinda em nossos corações e no fim dos tempos. As Coletas do Advento reforçam o aspecto “a.C.” (anterior a Cristo) do tempo litúrgico de um modo maravilhosamente sutil. Independentemente de se dirigirem ao Pai ou ao Filho, todas as Coletas dos domingos do Advento evitam a menção ao Santo Nome de Jesus, mesmo na sua conclusão. O povo judeu soube durante séculos que o Messias viria, mas ninguém sabia o seu nome até que o Arcanjo Gabriel o revelasse à Santíssima Virgem Maria. Podemos experimentar como era viver antes de Cristo, sem conhecer o seu Santo Nome.      

Há outra dimensão na invocação do Filho com o verbo excita que nos remete à súplica do salmista durante um período de tribulação. Excitare é o verbo usado por São Marcos para descrever os Apóstolos acordando Jesus enquanto Ele dormia em meio à tempestade: “Jesus estava dormindo na popa, sobre um travesseiro. Acordaram-no (et excitant eum) e disseram-lhe: ‘Mestre, não te importa que pereçamos?’” (4, 38). 

A cena é quase cômica, pois o questionamento dos Apóstolos tem um tom passivo-agressivo. A Coleta deste domingo é um pouco mais antecipada. Ela pede: “Despertai, Filho de Deus, e vinde! Estais adormecido, e a barca, que é a vossa Igreja, está perecendo”. A barca de São Pedro que, como disse o Papa emérito Bento XVI há alguns anos, “às vezes está tão cheia de água que chega ao ponto de quase soçobrar”. Naturalmente, temos de admitir que merecemos essa situação: a Coleta identifica como principal perigo não uma ameaça externa, mas os nossos próprios pecados. Mesmo assim, isso não torna nossa situação menos turbulenta e, por isso, nós rezamos para ser resgatados e salvos.

O fim do mundo, que permanece em nossas mentes durante o Advento, também será um período tempestuoso. No Evangelho deste domingo [3], Nosso Senhor profetiza que na terra “haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia irão apoderar-se das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definha­rão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas” (Lc 21, 25-26).

Então, naqueles momentos em que estivermos propensos ao medo e suscetíveis a duvidar do “Senhor adormecido”, não nos esqueçamos do final da história de São Marcos, quando Jesus, “despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: ‘Silêncio! Cala-te!’. E cessou o vento e seguiu-se grande bonança. Ele disse-lhes: ‘Como sois medrosos! Ainda não tendes fé?’” (Mc 4, 39-40).

Notas

  1. Segunda consecutiva porque a oração Coleta do Último Domingo depois de Pentecostes, no usus antiquior, começa com as mesmas palavras: Excita, quǽsumus, Dómine, tuórum fidélium voluntátes; ut, divíni óperis fructum propénsius exsequéntes, pietátis tuæ remédia maióra percípiant, “Despertai as vontades de vossos fiéis, ó Senhor, nós vos pedimos, a fim de que, procurando com mais prontidão o fruto da obra de Deus, alcancem remédios maiores de vossa piedade”. Vale destacar que a oração Coleta do 1.º Domingo do Advento no rito antigo é rezada na Sexta-feira da 1.ª Semana do Advento no rito novo, na íntegra (N.T.).
  2. Cf. S. Roberto Belarmino, Explanatio in Psalmos, t. 2, Paris, 1866, p. 35: Potentia tua quasi sopita videtur, cum nos affligi sinis ab iniustis persecutoribus nostris — “O vosso poder parece como que adormecido, quando permitis que sejamos afligidos por nossos injustos perseguidores” (N.T.).
  3. A perícope lida no 1.º Domingo do Advento no rito antigo é sempre a mesma: Lc 21, 25-33. Neste Ano C, porém, 2021–2022, em que se proclamam as leituras do Evangelho de São Lucas, a primeira parte do Evangelho é comum às duas formas do rito romano (no Lecionário de Paulo VI, lê-se Lc 21, 25-28.34-36) (N.T.).

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A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara
Santos & Mártires

A procissão eucarística de
Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

“Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra, e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos”: o momento de sua morte.

K. V. TurleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Logo após eclodir a Grande Guerra, Charles de Foucauld quis retornar do deserto do Saara para a França. Ele desejava unir-se ao exército francês como capelão militar. Entretanto, o bispo a que estava subordinado instruiu-o a permanecer em Tamanrasset, uma pequena vila na atual Argélia.

Foucauld obedeceu ao que mais tarde revelaria ser sua sentença de morte.

Em 1914, o império da França se estendeu a grandes partes do norte da África — e estava agora sob ataque. O Império Otomano, lutando ao lado da Prússia, exigiu a expulsão de todos os infiéis das terras do Islã e a restauração do califado. Algumas tribos do Saara responderam ao apelo para a jihad, encorajadas a fazê-lo por um ordem religiosa muçulmana conhecida como Senussi. Foucauld vivia longe de qualquer ajuda militar francesa, em um eremitério improvisado. Nas primeiras horas do dia 1.º de dezembro de 1916, uma gangue armada de fanáticos Senussi saiu à procura do eremita cristão.

Foucauld estava realmente muito longe de casa. Nascido em Estrasburgo, em 15 de setembro de 1858, numa rica família aristocrática francesa, teve uma infância infeliz. Aos 6 anos, tornou-se órfão. Posteriormente, na escola, aprendeu pouco. Entrementes, tornou-se agnóstico. Por fim, a família o alistou nas forças armadas, na esperança de disciplinar a rebeldia do jovem. A esperança, porém, mostrou-se inútil. As intermináveis horas de vida no quartel só pareciam piorar as coisas: sua atenção centrava-se agora exclusivamente no prazer. Para a família, ele estava se tornando a passos largos um constrangimento; para os militares, um risco.

Por fim, Foucauld foi despedido em desgraça do exército. Quando finalmente veio o chamado para seu regimento deixar a França e ir para a Argélia, ele insistiu em levar sua última amante. Mas havia um limite de tolerância para os militares franceses.

Lançado de volta à vida civil, ele surpreendentemente descobriu que os antigos prazeres agora o entediavam. E apesar de toda sua indiferença, a vergonha de ser expulso do exército queimava dentro dele. Logo se viu na Argélia, oferecendo-se como voluntário para uma perigosa missão como espião dos franceses. Trajado como um judeu norte-africano e desejoso de fazer as pazes com a família e o país, Foucauld aventurou-se em territórios então não mapeados do Marrocos, para fazer registros detalhados da terra e de seus povos.

Dois anos depois, em 1884, Foucauld voltou para a França como herói. Por fim, graças à publicação de um livro de memórias de suas aventuras, tornou-se celebridade em Paris, sendo homenageado por seus serviços ao país com uma medalha de ouro conferida pela Sociedade Geográfica de Paris. Mas ele também retornara da África estranhamente mudado. Os dias passados, vividos em uma cultura estranha, e as noites passadas sob a vastidão do céu do deserto haviam deixado nele sua marca. Ele vira os muçulmanos prostrados no chão, cinco vezes por dia, em oração, e, impressionado, se perguntou se sua religião era a verdadeira. Voltou para a França em busca de respostas.

Inicialmente, a inquietação interior parecia apenas aumentar. Ele estudou o Islã, mas decidiu que a verdade não estava lá. Andava pelas ruas de Paris pensando e meditando o tempo todo. No final de outubro de 1886, viu-se nas ruas outra vez quando, ao raiar do dia, avistou uma igreja aberta. Entrou e viu um confessionário com um padre dentro. Aproximou-se e perguntou se poderia falar com ele. Uma voz, tão firme como sábia, o contrariou e, em vez disso, ordenou-lhe que se ajoelhasse e confessasse. Ele se ajoelhou e confessou tudo. Naquela manhã, depois de ouvir a Missa e receber a Sagrada Comunhão, Foucauld renasceu.

Daquele dia em diante, havia para ele um único ideal, o qual queimaria tão ferozmente quanto seus desejos passados, mas agora este era o fogo do Amor divino. Nos magníficos céus noturnos do deserto e na devoção religiosa dos estrangeiros, Foucauld vislumbrou indícios de transcendência; agora, ele finalmente encontrara a própria Verdade na fé católica de seus ancestrais, de sua família, de seu país. Em mais de um sentido, ele havia voltado para casa.

Depois de passar um tempo num mosteiro cisterciense nos Alpes e noutro mosteiro na Síria, ainda inseguro de sua vocação, caminhou para a Terra Santa. Por fim, foi ao mosteiro das clarissas, em Jerusalém. Trabalhou como porteiro por um tempo, morando em um barraco encostado à parede do convento e fazendo trabalhos manuais, absorvido sempre em orações. Foi na Terra Santa que lhe foi revelada sua vocação. Ele percebeu que, a partir de então, deveria buscar a vida oculta de Nazaré com todas as suas muitas vicissitudes.

Ordenado em 1901, voltou para o norte da África, estabelecendo-se no sul da Argélia, eventualmente em Tamanrasset, para viver entre a tribo mais pobre da região: os tuaregues. Ele sonhava em começar uma comunidade religiosa baseada em seu ideal de busca pelo lugar mais baixo. No entanto, ninguém o entendeu nem houve quem quisesse juntar-se a ele. Até a morte, ele trabalharia pelas almas entre os tuaregues muçulmanos, mas nenhum deles se converteu à fé cristã.

Em seu pequeno oratório, a quilômetros de qualquer outro, Foucauld fazia longas vigílias diante do Santíssimo, rezando pela conversão das terras por onde havia viajado e pelos povos entre os quais agora vivia. Ele escreveu:

Sagrado Coração de Jesus, obrigado por este tabernáculo, o primeiro em terras dos tuaregues! Que este seja o primeiro de muitos e anuncie a salvação a muitas almas! Irradiai, deste tabernáculo, sobre todos que estão ao seu redor, pessoas que vos cercam, mas não vos conhecem.

Ele permanecia estático diante do Santíssimo Sacramento; sua inquietação foi acalmada por um fogo interior que continuou a arder tão intensamente como quando ele o sentiu a primeira vez, naquela manhã decisiva de outubro, no confessionário de uma igreja parisiense. Agora, no calor ardente do deserto, sua fé deveria aperfeiçoar-se ainda mais. Tendo procurado permanecer escondido e desconhecido, em Tamanrasset seu desejo foi atendido — por um tempo, ao menos. Aos olhos do mundo, ele agora não tinha importância.

Mas o olhar do mundo mudaria com a guerra, e olhos cheios de ódio caíram sobre o eremita. A partir de então, houve quem decretasse que tanto o homem quanto sua missão deveriam ser destruídos.

Na manhã de 1.º de dezembro de 1916, havia uma testemunha ocular entre cavaleiros distantes, que saíram do deserto e chegaram ao eremitério de Tamanrasset.

A mesma testemunha viu o sacerdote ser arrastado de seu refúgio, silencioso e sem resistência, com o que parecia ser uma profunda expressão de paz. Ele o viu ser forçado a ajoelhar-se, enquanto lhe ofereciam a chance de renunciar ao seu Salvador, isto é, de confessar a Shahada. O padre recusou-se a fazê-lo e, posteriormente, foi baleado na cabeça. Seu corpo, ainda ajoelhado e com as mãos amarradas nas costas, foi deixado na areia, enquanto seus assassinos saqueavam a casa e o oratório; depois, embriagaram-se com o vinho do altar. No dia seguinte, quando estes partiram, os tuaregues que viviam nas proximidades vieram enterrar o homem que passaram a considerar como amigo.

Três semanas depois, uma patrulha militar francesa passou por Tamanrasset. A população local mostrou ao comandante a cova improvisada. Os soldados ergueram solenemente uma cruz de madeira simples sobre o lugar.

O relatório militar subsequente afirmou o seguinte:

Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos. Morreu na primeira sexta-feira de dezembro, dia consagrado ao Sagrado Coração, e da maneira que desejou, pois sempre aspirou a ser tratado com ódio por ser cristão e sofrer uma morte violenta, aceita com amor pela salvação dos infiéis de sua terra de eleição, a África.

Antes de o exército partir naquele dia, o oficial fez uma inspeção final do que restava do eremitério. Deparou-se com uma custódia, jogada na areia pelos assassinos do padre. O que eles não entenderam, e o que este católico francês percebeu imediatamente, foi que ela ainda continha as espécies sagradas.

Quando a patrulha militar se reuniu para partir, o comandante avançou solenemente com a custódia envolvida respeitosamente em um pano de linho. Então, ao som de uma única batida de tambor, os soldados começaram a marchar de volta para as vastidões do deserto de onde tinham vindo. Mas desta vez, à frente deles, em sua sela, cavalgava o oficial, segurando a custódia com o Santíssimo Sacramento exposto.

À medida que esta singular procissão eucarística prosseguia sob o Sol escaldante e sobre as areias do deserto, sopradas pelos ventos quentes do Saara, começou-se lentamente a cobrir o túmulo de Charles de Foucauld. — “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer…” (Jo 12, 24).

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Aprendendo com a castidade de São José
Doutrina

Aprendendo com a
castidade de São José

Aprendendo com a castidade de São José

Nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Com São José, no entanto, podemos aprender o que ela realmente significa.

Pe. Roger J. LandryTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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São muitas as virtudes atribuídas pela piedade cristã a São José que, sobretudo durante este Ano Josefino, os católicos são chamados a meditar com mais profundidade e a imitar com mais atenção. José é justo, fiel, obediente, humilde, homem de oração, silencioso, caridoso, trabalhador, providente, protetor, corajoso, zeloso, prudente, paciente, leal e simples. 

No entanto, uma de suas virtudes mais importantes para estes nossos tempos é a castidade. A Igreja a apresenta na Ladainha dos “Benditos”, proclamada durante a adoração a Jesus no Santíssimo Sacramento, chamando a São José “castíssimo” — título dado somente a Ele e a Nossa Senhora. Trata-se de uma tradução do latim castissimus, superlativo que pode traduzir-se como “o mais”, “muito” ou “supremamente” casto. Contra qualquer tentação de minimizar essa virtude, São José nos inspira a ser castos ao máximo

Vivemos numa época em que, provavelmente, nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Muitos fora da Igreja, e alguns até mesmo dentro dela, veem este ensinamento como algo tão antiquado quanto a moda vitoriana; um caminho de repressão, e não de amor; um campo de treinamento para puritanos, e não para santos. 

Os revolucionários sexuais — que alardearam o direito ao sexo com quem, quando, onde e como quisermos (cultura que tem contribuído para a epidemia de famílias, casamentos e corações partidos, doenças sexualmente transmissíveis, crimes e abusos sexuais, tráfico humano, prostituição e pornografia, vícios sexuais, gravidez na adolescência e abortos…) — afirmam que a castidade é contra nossa biologia, porque acorrenta um desejo natural, e é contra nossa natureza racional, porque nos restringe a liberdade. Faz parte das “más notícias”, não das boas. 

Ao contrário do que muitos acreditam de maneira equivocada, a doutrina da Igreja sobre a castidade não “asfixia” a mais veemente das experiências humanas. Trata-se antes de uma sabedoria que procura controlar estas “chamas”, impedindo-as de destruir o amor verdadeiro (que é para onde Deus quer que seja dirigido nosso desejo sexual), de modo que possamos amar genuinamente os outros como Cristo nos amou. Longe de ser negativamente apudorada, a Igreja não poderia ter maior estima pelo amor humano e pela castidade que o possibilita.

Em meio a este mal-entendido generalizado e às zombarias que se fazem ao ensinamento católico sobre a sexualidade humana (para não falar da crescente miséria devida à sua rejeição), é ainda mais urgente que Igreja ajude católicos e não católicos a recuperar, valorizar e proteger a verdade e a beleza do amor humano casto. O Ano de São José é um momento especial para os fiéis aprenderem a viver melhor o chamado de Deus à castidade

A necessidade é premente. São Paulo, logo após dar aos cristãos em Tessalônica um resumo da vocação cristã — “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4, 3) —, diz-lhes, ato contínuo, esclarecendo este chamado, que se abstenham da porneia, termo grego referente a todo pecado sexual, geralmente traduzido como “impureza”. 

Visto que a santidade é o pleno florescimento do amor na pessoa humana, não se pode amar verdadeiramente a menos que se seja casto. A castidade é indispensável para nos tornarmos plenamente humanos, santos e eternamente felizes. O evangelho da castidade, portanto, é parte essencial da missão da Igreja para a santificação e a salvação do gênero humano. 

Para atender a esse chamado, é essencial saber o que é castidade. Mesmo entre clérigos, religiosos, consagrados e catequistas, a castidade costuma ser confundida com a continência (abstinência da atividade sexual) ou o celibato (renúncia voluntária ao uso da sexualidade). Quando o Catecismo enfatiza que “todos os fiéis de Cristo são chamados a levar uma vida casta, segundo o seu estado de vida particular” (§ 2348) e que “as pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal” (§ 2349), muitos casais ficam a coçar a cabeça, perguntando-se como podem ser “castos” e, ao mesmo tempo, constituir família. O motivo da confusão, provavelmente, decorre do fato de o termo “castidade” ser frequentemente utilizado no contexto da educação sexual de adolescentes (chamados à castidade na continência), ou na descrição das promessas ou votos feitos por padres e religiosos (chamados à castidade na continência celibatária).

A confusão aponta para a urgência e a importância de todos, na Igreja, compreenderem o que é a castidade e como todos os batizados (casais, solteiros, padres, consagrados, pessoas com atração pelo mesmo sexo e pelo sexo oposto) são chamados a ela.

O primeiro passo no ensino da Igreja sobre a castidade encontra-se no Catecismo, o qual descreve a castidade como vocação, dom de Deus e graça, mas, ao mesmo tempo, fala dela como “fruto do trabalho espiritual” (§ 2345) que inclui a “aprendizagem do domínio de si”, para que a pessoa domine suas paixões e encontre paz, em vez de deixar-se dominar por elas (§ 2339). Está fundamentalmente ligada à virtude da temperança, ou autocontrole. Esse autodomínio é uma “obra de grande fôlego” que, prossegue, “nunca poderá considerar-se total e definitivamente adquirida. Implica um esforço constantemente renovado, em todas as idades da vida” (§ 2342). Mas, ao final, é uma “integração conseguida da sexualidade na pessoa, e daí a unidade interior do homem no seu ser corporal e espiritual” (§ 2337). 

A castidade, portanto, é uma “escola de doação da pessoa” (§ 2346) que “conduz à comunhão espiritual” (§ 2347), fundada na castidade de Cristo, que está na base de toda amizade, para não falar de outras relações.

Mas esse olhar para a castidade como integração e harmonização do desejo sexual nunca pareceu adequado ao Papa São João Paulo II. O impulso sexual tem como objetivo, escreveu ele em vários ensaios pré-papais, levar-nos em êxtase para fora de nós mesmos, para a comunhão com os outros e com Deus, para reconhecer que não somos autossuficientes. 

Moderar o desejo sexual não é o ponto principal; precisamos orientá-lo da forma adequada, para que realmente estabeleça comunhão ao invés de destruí-la. A castidade não está ligada fundamentalmente à temperança, escreveu ele em sua obra de 1960, Amor e responsabilidade, mas sim ao amor. Em contraste com a luxúria, que “reduz” a outra pessoa aos valores do corpo ou às suas zonas erógenas e que “usa” os outros para a própria gratificação emocional ou física, a castidade é o hábito moral que eleva a atração e as interações com a outra pessoa para a sua dignidade total, em corpo e alma

Em suas catequeses papais sobre o amor humano no plano divino, popularmente chamadas Teologia do Corpo, São João Paulo II ensinou que a virtude da castidade está igualmente ligada às virtudes da pureza e da piedade. A pureza impacta nossa visão: “Bem-aventurados os puros de coração”, ensinou Jesus, “porque verão a Deus” (Mt 5, 8). 

A pureza nos permite ver Deus nos outros, reconhecer um reflexo da imagem de Deus. A piedade é o hábito que nos ajuda — uma vez que nos lembramos ou reconhecemos que nenhuma outra pessoa é um “mero mortal” — a tratá-la de acordo com a imagem de Deus que nela está inscrita. Ligada à piedade, a castidade nos ajuda a ver e a tratar o outro como sujeito sagrado, e não como objeto sexual.

A castidade, portanto, está conectada a todas essas quatro virtudes (autodomínio, amor, pureza e piedade). É o que nos ajuda a manter nosso amor romântico (eros) capaz do amor de amizade (philia) e do verdadeiro amor cristão auto-sacrificial (agape). Viver castamente não relega as pessoas a uma “vida sem amor”, mas torna possível o amor verdadeiro, por meio da integração coerente de eros com philia e agape

São José nos mostra este tipo de amor casto em grau máximo. Ao contrário de algumas artes cristãs que o retratam com a idade do bisavô de Maria, José era certamente jovem o suficiente para viajar pelo deserto duas vezes e ser um tekton (“construtor”, muito mais do que um carpinteiro), um dos trabalhos fisicamente mais exigentes das profissões antigas. No entanto, embora fosse jovem e viril e vivesse com a mulher mais atrativamente virtuosa de todos os tempos, ele manteve seu amor “castíssimo” por ela, vendo a Deus dentro dela durante a gravidez e, depois, reverenciando-a com amor puro

São José é modelo de cavalheiro cristão, que regula e canaliza seu amor à esposa de acordo com a vocação e o bem integral dela, e não com seus próprios desejos e necessidades. 

É por isso que os cristãos de todos os tempos o bendizem diante do Filho eucarístico de Deus, reconhecendo que a forma mais adequada de louvor é a imitação.

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