Cogitatiónes Cordis eius in generatióne et generatiónem: ut éruat a morte ánimas eórum et alat eos in fame, “Os pensamentos do seu Coração foram, através das gerações, arrancar as almas da morte e saciá-las da fome” (Sl 32, 11.19): eis a antífona que a liturgia da Missa de hoje, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, propõe-nos à meditação. 

Os pensamentos do coração humano do Verbo eterno de Deus são apresentados, aqui, abarcando a humanidade inteira, pois foi para salvar, afinal, todos os homens, de todas as épocas, que Ele se encarnou. Nas palavras de Pio XII, “pela visão beatífica de que gozou apenas concebido no seio da Mãe Santíssima, tem continuamente presente todos os membros do seu corpo místico e a todos abraça com amor salvífico” (Mystici Corporis, n. 75). 

Isso significa que os pensamentos do Coração de Jesus, durante sua vida terrenal, dirigiram-se não só à Virgem Maria e aos Apóstolos, aos homens de seu tempo e aos primeiros discípulos: no retirar-se para rezar, nos milagres que realizava, nos trabalhos que fazia, Jesus pensava em mim, pensava em você. E a finalidade de suas palavras e obras era nada menos que arrancar-nos da morte e saciar-nos da fome

Se todos continuam a morrer, no entanto, e muitas pessoas continuam não tendo o que comer, teriam ficado os pensamentos de Deus “só no pensamento”? Teria sido em vão a obra de Jesus Cristo? O Pe. Antônio Vieira, pregando aos escravos em um de seus sermões sobre o Rosário (XXVII, 4) esclarece que o cativeiro de que veio libertar-nos Jesus não é o do corpo, senão o da alma:

Assim como o homem se compõe de duas partes, ou de duas metades, que são corpo, e Alma, assim o cativeiro se divide em dois cativeiros: um cativeiro do corpo, em que os corpos involuntariamente são cativos, e escravos dos homens; outro cativeiro da Alma, em que as Almas por própria vontade se vendem, e se fazem cativas, e escravas do Demónio. E porque Eu vos prometi que a Virgem, Senhora nossa do Rosário, vos há de libertar, ou forrar, como dizeis, do maior cativeiro; para que conheçais bem quanto deveis estimar esta alforria, importa que saibais, e entendais primeiro qual destes dois cativeiros é o maior. A Alma é melhor que o corpo, o Demónio é pior Senhor que o homem, por mais tirano que seja; o cativeiro dos homens é temporal, o do Demónio eterno; logo nenhum entendimento pode haver, tão rude, e tão cego, que não conheça que o maior, e pior cativeiro é o da Alma [...].

E se buscarmos o princípio fundamental, por que Cristo sendo Redentor do género humano só veio remir, e libertar os homens do cativeiro das Almas, e não da servidão dos corpos, o fundamento claro, e manifesto é: porque para libertar do cativeiro dos homens, bastavam homens; para libertar do cativeiro do Demónio, e do pecado, é necessário todo o poder de Deus [...].

Os Discípulos de Emaús, e os outros mais rudes da Escola de Cristo, cuidavam que a Sua vinda ao mundo fora para “libertar os filhos de Israel da sujeição, e cativeiro dos Romanos”: Nos autem sperabamus, quia ipse esset redempturus Israel (Lc 24, 21); mas por isso mereceram o nome de “homens néscios, e de tardo, e baixo coração”: O stulti, et tardi corde (Ibid., 25). Porventura para libertar os filhos de Israel do jugo dos Romanos, faltava-Lhe a Deus uma vara de Moisés, uma queixada de Sansão, uma funda de Davi, uma espada do Macabeu? Mas estas armas, e estes braços, só bastam para libertar do cativeiro dos corpos; porém para o cativeiro das Almas, e para as libertar do jugo do Demónio, e do pecado, só tem forças, e poder o mesmo Deus, e esse com ambos os braços estendidos em uma Cruz. Vede, vede bem, quanto vai de cativeiro a cativeiro, de resgate a resgate, e de preço a preço. Com admirável energia o ponderou São Pedro, como se falara convosco, vendidos, e comprados por dinheiro. 

Scientes, quod non corruptibilibus, auro, vel argento redempti estis: sed pretioso Sanguine quasi agni immaculati Christi (1Pd 1, 18–19). Exorta o Apóstolos a todos que tratem da salvação de suas Almas, e de as conservar em graça: e para isso diz que consideremos que “não fomos resgatados com ouro, nem com prata, senão com o preço infinito do Sangue do Filho de Deus”. Nas quais palavras é muito digno de ponderar que não só nos manda São Pedro considerar o preço, por que fomos resgatados, senão também o preço, por que não fomos resgatados. O preço por que não fomos resgatados, que é o ouro e a prata: Non corruptibilibus, auro, vel argento; e o preço por que fomos resgatados, que é o Sangue do Filho de Deus: Sed pretioso Sanguine quasi agni immaculati Christi. Pois se para tratarmos com todo o cuidado, e vigilância, da Salvação de nossas Almas, o único, e maior motivo é a consideração de que Deus as resgatou com o Sangue de Seu próprio Filho; porque ajunta o Apóstolo na mesma consideração o preço, com que não foram resgatadas, que é o ouro, e a prata? Porque o seu principal intento nestes dois preços, que nos manda considerar, foi: para que da diferença dos resgates conhecêssemos a diferença dos cativeiros. Para resgatar do cativeiro do corpo, basta dar outro tanto ouro, ou prata, quanto custou o Escravo vendido. Mas para resgatar o cativeiro da Alma, quanto ouro, ou prata será bastante? Bastará um Milhão? Bastarão dois Milhões? Bastará todo o ouro de Sofala, e toda a prata do Potosi? Oh vileza, e ignorância das apreensões humanas! Se todo o mar se convertera em prata, e toda a terra em ouro; se Deus criara outro mundo, e mil mundos, de mais preciosa matéria que o ouro, e mais subidos quilates que os diamantes; todo este preço não seria bastante para libertar do cativeiro do Demónio, e do pecado, uma só Alma por um só momento. Por isso foi necessário que o Filho de Deus Se fizesse Homem, e morresse em uma Cruz, para que com o preço infinito de Seu Sangue pudesse resgatar, e resgatasse as Almas do cativeiro do Demónio, e do pecado. 

Na mesma linha, ensina o Papa Bento XVI em seu comentário teológico aos Evangelhos: 

Mas então o que é que Jesus realmente trouxe, se não trouxe nem a paz para o mundo, nem o bem-estar para todos nem um mundo melhor? O que é que Ele trouxe?

E a resposta é dada de um modo muito simples: Deus. Ele nos trouxe Deus. Ele trouxe aos povos da terra o Deus cujo rosto lentamente tinha antes se desvelado desde Abraão passando por Moisés e pelos profetas até a literatura sapiencial; o Deus que apenas em Israel havia mostrado o seu rosto e que, no entanto, tinha sido venerado sob múltiplas sombras entre os povos do mundo; este Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o verdadeiro Deus.

Ele nos trouxe Deus: agora conhecemos o seu rosto, agora podemos chamar por Ele. Agora conhecemos o caminho que como homens devemos percorrer neste mundo. Jesus trouxe Deus e assim a verdade sobre o nosso fim e a nossa origem; a fé, a esperança e o amor. Somente por causa da dureza do nosso coração é que pensamos que isso seja pouco. Sim, o poder de Deus é suave neste mundo, mas é o verdadeiro, o poder que permanece. Parece que as coisas de Deus se encontram sempre “em agonia”. Mas se mostram como o que realmente subsiste e redime. As riquezas do mundo que Satanás podia mostrar ao Senhor desmoronaram-se entretanto. A sua glória, a sua doxa revelou-se apenas aparência. Mas a glória de Cristo, a glória do seu amor, humilde e sempre disposta para o sofrimento, nunca se desmoronou e nunca perecerá [1].

Por fim, um complemento de outro teólogo recente:

Henri de Lubac notou certa vez que, na era moderna, o ódio por hereges religiosos arrefeceu. Mas isso se deu, ele explicava, não porque desenvolvemos corações mais caridosos. Ao contrário, o que fizemos foi simplesmente transferir nossos interesses e nossas inimizades para a política. Nossa verdadeira paixão hoje é o poder, e eliminar qualquer coisa que seja um obstáculo para o alcançarmos e o exercermos.

Essas são verdades que homens de todos os tempos precisam ouvir, porque a tentação de reduzir o Evangelho a um plano de transformação social, a um projeto de libertação meramente política, está sempre à espreita. É muito fácil que também nós incorramos no erro dos discípulos de Emaús, que se entristeceram por causa do “fracasso humano” de Jesus. Observando tudo o que acontece ao nosso redor apenas com os olhos da carne, o desânimo parece apossar-se de nós. Só com um olhar verdadeiramente de fé para vencermos essa inclinação que nos deprime e desorienta

Neste dia em que a Igreja presta um culto todo especial ao Sagrado Coração, recordando como os pensamentos de Nosso Senhor se voltaram a nós, elevemos também as nossas mentes a Ele, em oração, e meditemos no amor com que Ele amou a nós, que estamos no século XXI; a nós, que moramos no Brasil; a nós, vítimas da pandemia do coronavírus; a nós, vítimas de tantas mentiras e desinformações que circulam, tentando confundir-nos.

Nosso Senhor pensou em nós! “Os pensamentos do seu Coração” atravessam as gerações e chegam à nossa: também agora Ele quer “arrancar as almas da morte e saciá-las da fome”. Mas essa morte e essa fome são espirituais, e nosso inimigo verdadeiro é o demônio. Se ele conseguir tirar-nos da graça, afastar-nos de Deus, condenar-nos ao inferno, então ele terá cumprido com êxito seu papel, e o resto são apêndices. 

Não nos esqueçamos disso. E que os pensamentos do nosso coração estejam continuamente voltados ao Coração que nunca deixou de pensar em nós.

Referências

  1. Joseph Ratzinger. Jesus de Nazaré: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta, 2007, p. 54.