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São Januário, os nossos pecados e os castigos de Deus
Liturgia

São Januário,
os nossos pecados
e os castigos de Deus

São Januário, os nossos pecados e os castigos de Deus

Ninguém é obrigado a crer num sinal como o do sangue de São Januário, em Nápoles. Mas no Deus que recompensa os justos e castiga os maus, neste, sim, estamos obrigados a acreditar, sob pena de deixarmos de ser católicos e vigilantes.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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Vimos nesta semana que antecedeu à do Natal algumas pessoas preocupadas com o fato de que o célebre sangue de S. Januário (guardado em um relicário em Nápoles) novamente não se liquefez, como é costume que aconteça no dia 16 de dezembro. A ausência do sinal milagroso — que sói acontecer em outras duas épocas do ano, desde tempos imemoriais — é vista pelos fiéis da região como um presságio de calamidades. Por isso o povo, crente de que o “silêncio” de seu santo padroeiro é devido a seus pecados, põe-se a fazer oração e penitência, invocando a misericórdia de Deus sobre si, sobre sua terra e, em última instância, sobre o mundo inteiro.

Trata-se de uma atitude tipicamente medieval esta (e não usamos o termo em sentido pejorativo): o povo católico, reunido dentro de uma igreja, dirigindo preces e súplicas aos céus, para se ver livre de algum mal iminente. Fenômeno “medieval”, nós o chamamos, porque o homem da Idade Média acreditava nestas coisas: Deus, sua Providência, sua justiça e misericórdia, seus castigos e favores aos homens.

Não incorramos em idealizações indevidas: sabemos que, noutros tempos e lugares, essa religiosidade podia facilmente descambar — como realmente acontecia — para uma credulidade excessiva, quando não para o próprio pecado de superstição. O extremo de nossa época, no entanto, e de nosso mundo, é o oposto: falta-nos o mínimo de fé, o mínimo necessário para nos dizermos católicos, ou para nos identificarmos com os católicos de outras eras e locais. A relíquia do sangue de S. Januário, por exemplo, hoje é facilmente desprezada como um artefato medieval (agora sim, em sentido pejorativo), e as pessoas que dão crédito ao seu caráter milagroso, ou que de algum modo se preocupam com o que a sua não-liquefação prenuncia, são sem mais tachadas de exageradas, fanáticas e adjetivos do gênero.

Mas por que os céticos e os despreocupados estão errados? Porque, seja qual for o estado em que se encontre o sangue milagroso de S. Januário, os fatos que se passam ao nosso redor, as notícias que recebemos nos jornais, o estado de decadência espiritual em que se acha a nossa civilização, são matéria suficiente para que coloquemos nossos joelhos no chão e invoquemos, entre gemidos e súplicas, o auxílio de Deus para nós e nossas famílias. (Só para não deixar demasiado abstrata essa descrição da realidade, consideremos como 2020 começou com Jesus Cristo abertamente humilhado por Satanás em plena Sapucaí, e terminou com uma “celebração ecumênica da maconha” dentro de uma igreja católica em São Paulo.)

É verdade que ninguém é obrigado a crer num sinal como o de Nápoles; mas no Deus que recompensa os justos e castiga os maus, como testemunha toda a história da salvação — do Antigo Testamento até os nossos dias —, neste, sim, estamos obrigados a acreditar, sob pena de deixarmos de ser católicos. Ninguém é obrigado a aceitar a tese (divulgada na internet por alguns bispos e bons teólogos) de que a pandemia de coronavírus é um castigo dos céus pela perversidade dos homens; mas que nossa sociedade vive uma situação sem precedentes de pecado, que clama a justiça de Deus, não são necessários dons especiais para reconhecer: basta ter olhos para enxergar a realidade e um mínimo de fé na divina Providência. 

Só que, aparentemente, a consciência moral e religiosa dos católicos se perdeu em meio às inovações tecnológicas, aos divertimentos e às dissipações das últimas décadas. A expressão “castigo” mesma, que usamos já mais de uma vez ao longo desta matéria, foi há muito abolida do vocabulário católico. E pior: muitos já nem crêem que Deus realmente castigue os pecados dos homens, com alguns chegando ao absurdo de afirmar que o Inferno não existe ou que, se ele existe, está vazio e quase ninguém vai parar lá. 

Em que mundo vivem estes teólogos da salvação universal? No mesmo em que nós. Mas, pelo visto, eles decidiram imputar a Deus a suprema indiferença, disfarçada sob uma aparência falsa de bondade e misericórdia. Comentando sobre isso, escreve o seguinte o Pe. Royo Marín (Dios y su obra, pp. 627-628, tradução e grifos nossos): 

É aterrador contemplar o espetáculo que oferece o mundo em matéria de deveres religiosos. […] A maior parte dos homens não tem para com Deus outra coisa além de frieza, apatia e indiferença […] Chega-se a combater a Deus, a declarar-lhe abertamente guerra. Tenta-se, sem rodeios nem dissimulações, destroná-lo, arrancá-lo de todas as inteligências e de todos os corações. Faz-se burla dele e de suas leis; Ele é desafiado, é provocado impudicamente, é amaldiçoado e blasfemado, é coberto de insultos e impropérios; é culpado por todos os males e desgraças do mundo. É impossível imaginar uma subversão mais total e monstruosa da honradez, do bem e da justiça.

[…] É coisa clara que Deus não pode permanecer indiferente diante deste monstruoso estado de coisas. Impede-lho sua infinita santidade e seu infinito amor. Um Deus que permanecesse indiferente à violação mais descarada de todas as suas leis, que permitisse fossem pisoteados seus direitos sem oposição alguma, não seria digno do nome de Deus. Uma tal atitude não poderia qualificar-se de bondade e de misericórdia, mas de debilidade, negligência e descumprimento das leis indeclináveis da justiça, da verdade e do bem. Tem de castigar, e castiga de fato, inexoravelmente, os delinquentes. A dor é o grande ministro e executor de sua justiça.

Assim é, de fato. E este ensinamento não se põe em questão na verdadeira doutrina católica, como se depreende da leitura de qualquer bom livro de Teologia (consulte-se, por exemplo, o excelente Manual de Teología Dogmática, de Ludwig Ott, p. 95ss) ou catecismo. O de S. Pio X, por exemplo, dá lições como as seguintes (grifos nossos):

317. Que pedimos na sétima petição: Mas livrai-nos do mal? — Na sétima petição: Mas livrai-nos do mal, pedimos a Deus que nos livre dos males passados, presentes, futuros, e especialmente do sumo mal, que é o pecado, e da condenação eterna, que é o seu castigo.

425. É um grande pecado a impureza? — É um pecado gravíssimo e abominável diante de Deus e dos homens; rebaixa o homem à condição dos irracionais, arrasta-o a muitos outros pecados e vícios, e provoca os mais terríveis castigos de Deus nesta vida e na outra.

429. Que devemos fazer para observar o sexto e o nono Mandamentos? — Para bem observarmos o sexto e o nono Mandamentos, devemos invocar frequentemente e de todo o coração a Deus, ser devotos de Maria Virgem, Mãe da pureza, lembrar-nos de que Deus nos vê, pensar na morte, nos castigos divinos, na Paixão de Jesus Cristo, guardar os nossos sentidos, praticar a mortificação cristã, e frequentar os sacramentos com as devidas disposições.

950. Que males causa à alma o pecado mortal? — O pecado mortal: 1.º priva a alma da graça e da amizade de Deus; 2.º fá-la perder o Céu; 3.º priva-a dos merecimentos adquiridos e torna-a incapaz de adquirir novos; 4.º torna a alma escrava do demônio; 5.º fá-la merecer o Inferno e também os castigos desta vida.

Ora, se é assim — e se o castigo divino aparece nos próprios Evangelhos —, o que explica que não se fale mais dele — e até que não se creia mais nele?

Uma das razões para esse silêncio e incredulidade deve ser encontrada no velho adágio católico: lex orandi, lex credendi, “a lei da oração é a lei da fé”. A verdade de que nossos pecados atraem sobre nós a ira de Deus, de que devemos fazer penitência por eles, só deixou de ser crida porque primeiro deixou de ser rezada. Não por todas as pessoas, é claro, porque os livrinhos populares de oração continuaram (e continuam) a nutrir a piedade dos fiéis e a inculcar nas pessoas mais simples a necessidade de reparar os próprios pecados [1]. O que não saiu das mãos e das bocas das senhoras do Apostolado da Oração, no entanto, foi sorrateiramente sonegado à mais importante classe de orantes dentro da Igreja: os sacerdotes, os ministros ordenados, tirados do meio do povo justamente para se unirem a Cristo vítima no altar, oferecendo-se em sacrifício pelo povo. 

Por que dizemos isso? Porque é triste constatar como foram tirados da liturgia reformada após o Concílio Vaticano II elementos que, noutros tempos, protegiam a vida ascética, primeiro dos padres e, depois, de todo o rebanho sob seu cuidado.

Trazemos a seguir dois, apenas dois exemplos, de como a “ira”, a “punição” e a “vingança” de Deus… simplesmente desapareceram da oração católica oficial desde a década de 1970, depois de milênios de cristãos (e, antes deles, de judeus) procedendo de forma completamente diversa em sua oração.

Um expurgo: os salmos imprecatórios

Em primeiro lugar, falemos da omissão dos salmos imprecatórios do Ofício Divino [2]. Todos sabem que a Liturgia das Horas é a oração diuturna da Igreja, constante, perseverante, incessante. A ela aderem religiosos e religiosas, sacerdotes e, (graças a Deus) principalmente após o Concílio Vaticano II, uma multidão de leigos. É a oração litúrgica mais importante que se faz na Igreja depois da Santa Missa. Não sem razão os ministros ordenados, ainda ao se tornarem diáconos, prometem diante de seus bispos rezá-lo com fidelidade — e fazem-no sob pena de pecado mortal (os que ainda acreditam nele, é claro). 

Desde 1970, no entanto, na contramão de dezenove séculos e meio de Igreja Católica, os Salmos não são rezados na sua integridade pelos clérigos do rito romano. Isso porque certos versículos, — e nalguns casos, salmos inteiros — tidos como difíceis e “obscuros”, foram simplesmente expurgados do Divino Ofício. O motivo para a mutilação parecia pastoralmente muito adequado: haveria uma “certa dificuldade de ordem psicológica” (Instrução Geral para a Liturgia das Horas, n. 131) na récita de maldições como as seguintes...

Os pecadores perverteram-se desde o seu nascimento [...].
Deus lhes quebrará os dentes na sua boca;
o Senhor quebrará as queixadas desses leões.
Serão reduzidos a nada como água que passa [...].
Serão destruídos como a cera que se derrete [...].
Alegrar-se-á o justo ao ver a vingança;
lavará as suas mãos no sangue do pecador.
E o homem dirá: Se deveras há recompensa para o justo,
é certo haver um Deus que os julga sobre a terra (Sl 57, 4.7-8.9.11-12).

Ó meu Deus, agita-os como uma roda,
e como uma palhinha diante do soprar do vento.
Como fogo que queima uma selva,
e como chama que abrasa os montes,
assim os perseguirás com a tua tempestade,
e com a tua ira os aterrarás.
Cobre os seus rostos de ignomínia,
e deste modo buscarão o teu nome, Senhor.
Sejam envergonhados e perturbados para sempre, sejam confundidos e pereçam.
E conheçam que te é próprio o nome de Senhor,
e que só tu és o Altíssimo em toda a terra (Sl 82, 14-19).

Ó Deus, não cales o meu louvor,
porque a boca do pecador e a boca do traidor abriram-se contra mim [...].
Sejam abreviados os seus dias, e receba outro o seu ministério.
Fiquem seus filhos órfãos,
E sua mulher viúva.
Andem vagabundos dum lugar para outro os seus filhos,
e mendiguem, e sejam lançados fora das suas habitações [...].
Não tenha quem o ajude, nem haja quem se compadeça dos seus órfãos.
Sejam exterminados todos os seus filhos,
em uma só geração fique apagado o seu nome (Sl 108, 2.8-10.12-13).

Palavras bem pesadas todas estas, é verdade, mas cabe perguntar: se por séculos os judeus e, depois deles, os santos, rezaram esses salmos — e com razão porque, constantes da Sagrada Escritura, são verdadeira Palavra de Deus —, não seria o caso de aprendermos a lê-los da maneira correta, à luz do Evangelho? Por que os católicos do século XXI não podem rezar os salmos imprecatórios dirigindo seu ódio, sua indignação e suas forças vitais contra os demônios, que querem nossa perdição eterna? Ou contra as seduções do mundo, que parecem rodear-nos agora com mais força do que nunca? O primeiro Papa escreve-nos dizendo: “O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar”, e ajunta: “Resisti-lhe, firmes na fé” [3]. Ora, de que modo se supõe que devamos resistir a um leão? Com rosas, sorrisos e afagos?

Não, os salmos imprecatórios, se são Palavra de Deus — e nós o cremos —, precisam, sim, ser rezados. Deus os pensou, cada um deles, assim como cada um dos versículos das sagradas páginas — e pensou-os especialmente para momentos como os nossos, onde abundam a covardia e a pusilanimidade, o desânimo e a anemia moral, a fraqueza e a sedição diante do mal. Não se trata de começar uma guerra, mas de saber que nós já estamos em uma, na qual está em jogo nada menos do que a nossa salvação eterna. 

Uma mudança de tom generalizada

Falemos em segundo lugar da mudança de tom que é notável, de modo geral, nas orações litúrgicas atuais, em comparação com o que se rezava antigamente. Devido à atual situação de peste em que nos encontramos, poucos exemplos ilustram tão bem o abrandamento de nossas súplicas a Deus do que a atual Missa in tempore universalis contagii, publicada pela Sagrada Congregação para o Culto Divino em 30 de março como suplemento litúrgico contra a pandemia de Covid-19 (e que pode ser encontrada aqui, em vários idiomas) [4].

Note-se bem o seguinte: não estamos falando aqui de erros teológicos ou de orações más. Os excertos que vamos comentar a seguir são parte de um texto litúrgico legítimo da Santa Igreja, que não só pode como deve ser rezado pelos sacerdotes pedindo a Deus misericórdia nestes tempos difíceis. Nada disso está em questão. Só não podemos fechar os olhos para as discrepâncias alarmantes entre o que a Igreja está rezando em 2020 e o que ela rezava um século atrás, por exemplo, diante da gripe espanhola. 

A antífona de entrada de hoje diz: “Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores” (Is 53, 4). Mas o intróito da Missa votiva in tempore mortalitatis, presente no Missal de 1962, rezava o seguinte: 

Recordare, Domine, testamenti tui, et dic Angelo percutienti: Cesset iam manus tua, et non desoletur terra, et ne perdas omnem animam viventem, “Lembrai-vos Senhor, da vossa aliança, e dizei ao Anjo que golpeia: Cesse já a tua mão, e não seja desolada a terra, para que não faças perecer toda alma vivente”. 

É claro, ninguém recriminará o autor da atual Missa contra a peste por ter citado a profecia do Servo Sofredor. Como já dito, não há nada de errado aqui. Mas a convicção de que é o Senhor, em sua Providência, que permite o mal, muitas vezes para nossa correção e salvação, infelizmente é uma verdade da qual poucas vezes ouvimos falar. E, no entanto, ela está presente não só no intróito desta Missa antiga, mas também na sua leitura epistolar, tomada do Livro dos Reis (II 24, 15-19.25), e antífona de ofertório, tomada do livro dos Números (17, 11).

Voltemos, porém, à atual Missa contra pandemias. A longa (e bela) oração de coleta de agora diz: 

Deus eterno e onipotente, nosso refúgio em todos os perigos, olhai benignamente para as nossas aflições e angústias; como filhos, com fé Vos pedimos: concedei o eterno descanso aos que morreram, conforto aos que choram, cura aos doentes, paz aos moribundos, a força aos que trabalham na saúde, a sabedoria aos nossos governantes e a coragem para chegarmos amorosamente a todos glorificando juntos o Vosso Santo Nome. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amém.

A coleta do Vetus Ordo, embora mais breve, possui uma mensagem direta e cortante: 

Deus, qui non mortem sed poenitentiam desideras peccatorum: populum tuum ad te revertentem propitius respice; ut, dum tibi devotus exsistit, iracundiae tuae flagella ab eo clementer amoveas. Per Dóminum…, “Deus, que quereis não a morte, mas a penitência dos pecadores: olhai propício para o povo que a vós se volta; para que, enquanto permanece devoto a vós, dele afastes com clemência os flagelos de vossa ira”.

Poderíamos ir adiante e comparar as demais orações das duas Missas para a mesma ocasião, mas estas da coleta são suficientes para nos deixar perplexos. Em ambas há, sem dúvida, um pedido comum a Deus para que “olhe” para nossa situação, se compadeça de nós e mude a nossa sorte. Mas só em uma se vê o reconhecimento humilde do que ensejou tudo aquilo por que estamos passando: o nosso pecado. Ora, é muito mais fácil ver o mal físico e pedir que cesse; exige porém um ato de fé e contrição olhar para ele e dizer: “Com meu pecado, Senhor, eu merecia muito mais do que isso”.

Essa atitude de coração — muito mais do que a linguagem — está ausente não só de muitos textos da liturgia reformada, como também das nossas orações pessoais, das nossas meditações e das nossas catequeses. Quantas vezes os chamados “grupos de oração” não servem senão para as pessoas afagarem os sentimentos feridos umas das outras, ao invés de dirigir a Deus atos de adoração, súplica, ação de graças e propiciação pelos pecados — que é como deve ser a prece de todo católico? 

Precisamos resgatar, com urgência, a consciência de que o nosso pecado ofende a Deus e exige reparação. Não podemos ser coniventes com este século, que perdeu por completo o senso do mal moral e chega mesmo a blasfemar contra Deus e tudo o que é santo. Precisamos reagir com vigor ao escarcéu que se faz mundo afora contra os direitos divinos, pois, se nós católicos não o fizermos, ninguém mais o fará. 

Para tanto, nós sabemos, é preciso começar batendo no próprio peito e confessando: Peccavi nimis, cogitatione, verbo, opere et omissione, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. É preciso lançar um olhar para dentro do nosso próprio coração e reconhecer: é aqui que começa a batalha contra o mal, eis o primeiro lugar onde Deus precisa triunfar sobre os seus inimigos

Nessa luta, só o que não vale é ficar parado, cruzar os braços, entregar os pontos. O sangue de S. Januário não se liquefez de novo, é verdade. O que fazer, então? “Penitência, penitência, penitência!” A começar por nossos pecados, que já não são poucos. Seria muito belo ver a Igreja do mundo inteiro convocando jejuns e vigílias depois que o sinal milagroso de S. Januário nos foi novamente negado! Seria muito sério — e certamente chamaria a atenção de muitos — se cada pároco de aldeia trovejasse de seu púlpito palavras inflamadas contra o nosso pecado, que mantém sólido o sangue de um santo e faz ser vertido o Sangue de um Deus, que ajunta males sobre as nossas cabeças e provoca fomes, pestes e terremotos…

Na falta de tudo isso, quem tem de agir somos nós: em nossa vida pessoal, dentro de nossas casas, no seio de nossas famílias. Sejamos os “pararraios” que Deus tão insistentemente pede que seus servos sejam, aplacando a sua ira e atraindo as bênçãos que Ele tanto deseja dispensar sobre uma humanidade que é, incluídos nós, tão ingrata ao seu amor.

Notas

  1. Veja-se, por exemplo, o singelo manual de orações da Serva de Deus Lola (uma leiga de Minas Gerais que sobreviveu alimentando-se apenas da Eucaristia por 60 anos e ofereceu sua vida em verdadeiro holocausto a Deus, até morrer, no ano de 1999, em odor de santidade).
  2. Sobre isso, ler P. Kwasniewski, The Omission of “Difficult” Psalms and the Spreading-Thin of the Psalter. Rorate Caeli, 15 nov. 2016.
  3. Estas palavras de S. Pedro, inclusive, constam nas Completas do antigo Ofício Divino em todos os dias da semana. Na atual Liturgia das Horas, elas foram preservadas na terça-feira.
  4. Para que se perceba que essa mudança de tom não é de hoje, vale a pena ler, entre outras coisas, P. Kwasniewski, Comparison of Old and New Prayers for Blessing of Ashes. OnePeterFive.com, 26 fev. 2020.

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“Maria intercedeu por mim mesmo quando eu a desonrava”
Testemunhos

“Maria intercedeu por mim
mesmo quando eu a desonrava”

“Maria intercedeu por mim mesmo quando eu a desonrava”

Ele tinha apenas 8 anos quando, por influência da mãe biológica, tornou-se protestante. Por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, no entanto, 20 anos depois, ele voltou para o lugar de onde nunca deveria ter saído: o seio da santa Mãe Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Meu nome é Júnior Luís França Casagrande, sou professor de História, tenho 30 anos, moro em Parobé-RS e venho por meio deste texto contar meu testemunho de conversão à fé católica.

Tive a sorte de nascer em um lar católico. Fui batizado ainda nos primeiros meses de vida em Sapiranga-RS, que também é minha cidade natal. Minha família não era grande conhecedora das verdades da fé; todavia, tenho algumas vagas lembranças da minha infância: tínhamos uma linda imagem de Nossa Senhora Aparecida, à qual lembro que, de vez em quando, prestávamos veneração. Também lembro que, desde pequeno, aprendi com minha mãe as orações do Pai Nosso e da Ave-Maria, além de irmos à Missa nos domingos.

Todavia, como eu disse, não éramos profundos conhecedores das verdades básicas do catolicismo (aliás, problema que infelizmente é cada vez mais comum, dada a pouca instrução que muitos católicos brasileiros têm sobre a sua fé). Ainda na infância, quando eu tinha por volta de 8 anos, abandonamos a Igreja Católica e passamos (eu e minha mãe) a frequentar uma igreja evangélica. Lembro que uma das primeiras coisas que aprendi nessa nova comunidade foi a menosprezar a Virgem Maria. Claro que não foi exatamente com essas palavras. Na verdade, não lembro bem as palavras exatas usadas porque isso ocorreu há mais de 20 anos, mas o sentido era mais ou menos esse. Além, é claro, de toda a “cultura iconoclasta”, houve uma pregação em que o pastor chegou a dizer que atrás de cada imagem tinha um demônio. Como ainda era uma criança, eu absorvia tudo aquilo que estava aprendendo e achava que era a verdade, a doutrina correta.

Aos 14 anos fui “rebatizado” junto com meu pai. Naquela época (há cerca de 15 anos), estávamos frequentando uma das muitas Assembleias de Deus espalhadas pelo país, onde era muito forte a questão dos usos e costumes (os homens não podiam usar bermudas, não podiam ter barba, nem jogar futebol, por exemplo), além de o uso da televisão não ser recomendado também. A essa altura do campeonato eu já havia tido contato de forma muito vaga com outras teologias protestantes, como a adventista, mas permaneci na Assembleia de Deus, ainda que a questão de guardar o sábado ainda me deixasse um pouco confuso.

Conforme os anos foram passando, aos poucos, fomos deixando de lado a questão dos usos e costumes. O que prevalecia e continuou por muito tempo ainda foi o sentimento antirromano que alimentávamos. Para mim, era muito claro que os católicos não estavam salvos, nem eram cristãos, e que precisavam se converter para ser salvos. Aliás, em muitas reuniões de “evangelismo” de que participei, lembro muito bem que eram ensinadas estratégias para “converter os católicos”. Hoje, quando vejo os protestantes fazerem isso, não os julgo pois, afinal, eu também fui um deles e fazia o mesmo! Eu achava que estava fazendo o certo, que estava levando a fé verdadeira aos menos esclarecidos. E a maioria dos que fazem isso, creio que tem boas intenções. Claro que isso não justifica suas atitudes, mas as explica.

Durante esse período, eu estava muito envolvido com as atividades da igreja protestante. Participei de coral, grupo de evangelização, missões, teatro, grupo de oração, por vezes até ajudava a fazer cultos, programas de rádio e pregações. Para mim, a fé deveria ser vivida intensamente e, aliás, preciso admitir que, nesse ponto, na maioria das vezes nossos irmãos protestantes levam vantagem sobre os católicos.

Assim como em outras áreas da vida, na fé também temos altos e baixos, e comigo não foi diferente. Principalmente no final da minha adolescência e início da juventude, minha fé começou a “balançar”. Afinal, eu havia crescido praticamente sem nenhum envolvimento com festas, bebidas etc., o que foi bom, mas em determinado ponto da vida eu tive curiosidade de experimentar essas coisas. Não demorei a perceber, todavia, que aquilo não era para mim. Aquela vida desregrada e de culto aos prazeres não trazia felicidade nem sentido para a minha existência. Então, após participar de um culto na Igreja do Evangelho Quadrangular, decidi voltar a viver aquela fé intensa que eu havia nutrido na maior parte da minha vida. É importante frisar que, pouco tempo antes disso, eu cheguei a “namorar” bem de longe o ateísmo, quando iniciei a faculdade de História.

Mas enfim, como membro da Igreja Quadrangular, não demorou muito para eu voltar a exercer diversas funções e ajudar nos cultos e atividades da igreja. A essa altura do campeonato, meu conhecimento sobre Teologia era mínimo; todavia, em meu íntimo eu já fazia silenciosamente alguns questionamentos religiosos. Um deles era com relação à multiplicidade de denominações evangélicas, com as mais variadas doutrinas e liturgias. Eu havia aprendido, na escola e na faculdade, que o protestantismo surgiu a partir dos protestos do monge Martinho Lutero contra os abusos da Igreja por volta de 1500; porém, eu sempre me perguntava: se Lutero estava certo, por que não o seguimos? Afinal, não é novidade para ninguém que as igrejas evangélicas ensinam coisas muito diferentes do que ensinava o pai da Reforma. Normalmente, justificava-se que as diferenças eram em questões de menor relevância e que éramos unidos no amor de Cristo. Mas, na prática, nem sempre era isso que eu via. Cansei de ver membros e obreiros de uma denominação serem repreendidos por visitarem outra denominação. Além do que, se as diferenças são em questões pouco importantes, por que elas são motivo de divisão? (Sendo que, na oração sacerdotal, Nosso Senhor Jesus Cristo disse que o desejo do Pai era que todos fossem um, como Ele e o Pai eram um.) Assim, diversos outros temas, que eu precisaria de um livro inteiro para tratar, foram aos poucos causando-me inquietação e deixando perguntas sem resposta. A questão do divórcio e de um novo matrimônio, por exemplo, era algo com o qual eu nunca concordei, embora fosse permitido nas igrejas que frequentei. Como fica o texto bíblico segundo o qual aquele que deixa sua mulher e se casa com outra comete adultério?

Nesse meio tempo, eu comecei a assistir (no começo, cheio de preconceito) aos vídeos do Padre Paulo Ricardo. Lembro, como se fosse hoje, que certa feita eu fui assistir a um vídeo a fim de refutá-lo, mas não consegui de jeito nenhum me contrapor àquilo que eu havia escutado. Eu cheguei a rezar, enquanto me dirigia a um culto protestante, pedindo a Deus que me levasse para a fé verdadeira e que, se essa fosse a fé católica, assim acontecesse.

Passado isso, no final de 2017, embora eu ainda não estivesse convencido da fé católica, a incompatibilidade que eu tinha com aquilo que era ensinado na Igreja Quadrangular tornou insustentável minha permanência nela. Nesse ínterim, eu havia conhecido pela internet diversos pregadores calvinistas — Paulo Junior, Augustus Nicodemus, Hernandes Dias Lopes, Sérgio Lima etc. Todavia, mesmo aprendendo muito com esses pregadores, não conseguia “engolir” o calvinismo. Era demais para mim crer que Deus havia predestinado algumas pessoas à salvação e, consequentemente, outras à condenação eterna. Comecei a frequentar então uma comunidade luterana, onde fui muito bem recebido e onde, ironicamente, comecei a me aproximar mais de Roma. Parecia que eu havia encontrado o meu lar! Afinal, estava em uma comunidade litúrgica, séria, sem aquelas campanhas malucas e cultos em forma de show. Além do que, o preparo filosófico e teológico dos ministros era excepcional.

Em 2018 e 2019, busquei intensamente ler e estudar as obras da Patrística, além de diversos tratados teológicos, vida dos santos e catecismos. Li o catecismo de Lutero, li o catecismo da Igreja Católica e, claro, continuei assistindo cada vez mais às aulas do Padre Paulo Ricardo. O preconceito que eu tinha com os católicos aqui já não mais existia. Eu ainda não concordava 100% com a doutrina católica, mas havia chegado à conclusão de que aquilo que antes eu pensava ser a Igreja, na verdade, era só um boneco que me havia sido apresentado. Tanto é que eu já estava até frequentando Missas de vez em quando

Quanto mais eu lia, rezava, assistia a aulas e estudava, mais certeza eu tinha de que Jesus havia fundado uma única Igreja e, depois disso, não demorou muito para eu perceber qual era essa Igreja. Foi entre 2019 e 2020 que doutrinas fundamentais do protestantismo, como a Sola Scriptura e a Sola Fide tornaram-se insustentáveis para mim. Além disso, tinha a confirmação cada vez mais clara das doutrinas católicas sobre a presença real de Cristo na Eucaristia, sobre a confissão auricular, sobre os sete sacramentos, sobre a sucessão apostólica, sobre o primado de Pedro etc.

No começo deste ano, procurei o pároco da comunidade aqui de Parobé para conversarmos. Eu ainda não estava totalmente decidido e achei interessante ter esse diálogo. O padre me recebeu muito bem e em nenhum momento falou mal da igreja protestante. Ele ouviu-me, respondeu algumas dúvidas e disse que as portas estavam sempre abertas quando eu quisesse conversar, e que não iria me pressionar para eu tomar a decisão de ser católico...

Por fim, no dia 31 de maio de 2020, domingo de Pentecostes, fiz minha profissão de fé na Paróquia São João Batista, na qual tive padrinhos solícitos e fui muito bem acolhido pelos padres. Hoje, estou me preparando para receber o sacramento do Crisma e estou cada dia mais feliz e realizado [*].

Antes de encerrar este testemunho, preciso dizer que, em todo esse tempo, fui guiado por Nossa Senhora Aparecida, minha Mãe, minha Rainha, aquela que intercedeu por mim mesmo quando eu orgulhosamente a desonrava. A recitação do Santo Terço em plena Sexta-feira Santa fez cair por terra todo o preconceito que eu ainda tinha com Nossa Senhora e me fez admitir o quão cristocêntrica é esta devoção.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Salve Maria Santíssima!

Notas

[*] — Testemunho enviado ao nosso suporte no dia 16 de dezembro de 2020 e publicado com o consentimento do autor.

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Sofrendo como Jó, mas com a Virgem Maria
Espiritualidade

Sofrendo como Jó,
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Sofrendo como Jó, mas com a Virgem Maria

Quem já leu a história de Jó e de seus sofrimentos pode dizer: certamente não é fácil imitá-lo em sua aceitação fiel das provações. Nós, porém, temos uma grande vantagem nessa matéria, que ele não tinha: o consolo de nossa mãe, a Virgem Maria.

Fr. Hugh BarbourTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A vida do homem sobre a terra é uma milícia;
os seus dias são como os dias dum mercenário.
Assim como um escravo (fatigado) suspira pela sombra,
e o mercenário espera o seu salário,
assim também eu tive meses vazios (de consolação),
e contei noites trabalhosas.
Se durmo, digo: Quando me levantarei eu?
(Depois de levantado) espero a tarde,
e sacio-me de dores até à noite.
Os meus dias correm mais rápidos que o cortar da teia pelo tecelão,
consomem-se sem esperança (de voltar).
Lembra-te que a minha vida é um sopro
e que os meus olhos não tornarão a ver a felicidade (perdida) ( 7, 1-4.6-7).

Bem, com essa e uma série de outras leituras no Lecionário [1], parece um pouco estranho responder, na Missa: “Graças a Deus!” Mas é o que fazemos. Como entender essa aclamação? Não estou absolutamente certo do que os compiladores litúrgicos tinham em mente, se é que tinham algo, mas vou oferecer minha própria explicação.

Detalhe de “Jó reprovado por seus amigos”, de James Barry.

Em primeiro lugar, os tremendos sofrimentos de Jó são prefigurações dos sofrimentos de nosso Salvador, Jesus Cristo. Embora fosse inocente, Jó suportou a malícia de Satanás e a incompreensão dos homens, e Deus permitiu tudo isso e o tirou de suas provações com a esperança da ressurreição e da visão beatífica: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que surgirá finalmente na terra. Então, revestido da minha pele, na minha própria carne verei o meu Deus. Eu mesmo o verei, os meus olhos o hão-de contemplar, e não os de outro” ( 19, 25-27a). Então, sim, ele “verá a felicidade novamente” e uma felicidade além de qualquer imaginação terrena. Para este evento futuro da história, conhecido por nós, cristãos, que ouvimos a lição que está sendo lida, podemos muito bem responder: “Graças a Deus”.

Mas, considerando o que sabemos sobre nossa vida espiritual em Cristo, também podemos dizer “graças a Deus” ao estado atual de Jó como apresentado na leitura. O mérito de sua árdua paciência é a preparação para seu triunfo final, pelo poder de Deus, sobre todos os ardis de Satanás. Como o Beato Solano Casey, frade capuchinho, gostava de dizer: “Dê graças a Deus antes do tempo”. Há um tremendo mérito nisso; tamanha gratidão, antes de que se dê o fato, é uma obra de grande amor a Deus. E o livro de nos fala de seu amor por Deus, visto que, apesar de todas as provações, ele jamais pecou por murmuração, expressando sua submissão à vontade divina mesmo quando admitiu sinceramente seu grande sofrimento e consternação. Ele não fingiu que não estava sofrendo, nem fez pouco caso de seu sofrimento, pois isso seria contrário à verdade. Manteve o equilíbrio, mesmo no extremo sofrimento.

Ele recebeu o poder de fazer isso pela graça do Redentor vindouro, que estava vivo e viria para levantá-lo e dar-lhe a visão de sua face — Jó estava convencido dessa verdade.

Pois é Cristo, e não Jó, o modelo absoluto. O sofrimento de Jesus superou infinitamente o de seu servo. Nosso Senhor não apenas foi provado por Satanás com os infortúnios da vida, como foi entregue às suas garras, na tentação do deserto — imagine o horror natural de ser fisicamente transportado pelo maligno (cf. Mt 4, 5)! — e sobretudo na Paixão.

S. John Henry Newman afirma isso de forma mais eloquente em um de seus sermões:

Tanto na alma como no corpo, este Santo e Bendito Salvador, o Filho de Deus e Senhor da vida, foi entregue à malícia do grande inimigo de Deus e do homem. No Antigo Testamento, Jó foi entregue a Satanás, mas dentro de limites prescritos: primeiro, o Maligno não tinha permissão para tocar sua pessoa; depois teve, mas não de tirar sua vida. Satanás teve poder para triunfar — ou o que ele pensava ser um triunfo — sobre a vida de Cristo, o qual confessa a seus perseguidores: “Esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22, 53b). Certamente, apenas a ele aplicam-se em plenitude as palavras do Profeta: “Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera” (Lm 1, 12) [2].

“Tudo bem”, você pode dizer a esta altura, “mas eu me sinto como Jó e certamente não sou o Salvador. Seus exemplos são fortes, mas o que eu devo fazer?”

Ouça interiormente esta passagem do mesmo santo, Cardeal Newman, sobre o auxílio de Nossa Senhora em nossas provações e você saberá o que fazer. Nós temos essa vantagem sobre as perfeições de Jó e de Jesus: a esposa de Jó o atormentava e Jesus teve de entregar sua Mãe (não podendo receber consolo dela em sua Paixão); nós, porém, temos Maria toda para nós. Leiamos com atenção e deixemo-nos consolar pela descrição do nosso estado, semelhante ao de Jó, e do poderoso auxílio de Maria:

O que vos fará avançar no caminho estreito, se viveis neste mundo, senão o pensamento e o auxílio de Maria? O que selará vossos sentidos, o que tranquilizará vosso coração, quando vos rodearem visões e sons de perigo, senão Maria? O que vos dará paciência e perseverança, quando estiverdes extenuados com a duração do conflito contra o mal, com a necessidade incessante de precauções, com a inquietação de observá-las, com o tédio de sua repetição, com a tensão sobre vossa mente, com a vossa condição de desamparo e de tristeza, senão uma comunhão amorosa com Maria! Ela vos confortará em vossos desânimos e em vossas fadigas, erguer-vos-á de vossas quedas, recompensar-vos-á por vossos sucessos. Mostrar-vos-á o seu Filho, vosso Deus e vosso tudo. Quando vosso espírito, dentro de vós, estiver ou agitado, ou sem energia, ou deprimido, quando ele perder o equilíbrio, quando estiver inquieto e rebelde, quando estiver cansado do que tem e ansioso pelo que não tem, quando vossos olhos forem aliciados pelo mal e vosso corpo mortal tremer debaixo da sombra do tentador, o que vos trará a vós mesmos, à paz e à saúde, senão o alento sereno da Imaculada [3]?

Demos, pois, graças a Deus e a sua Mãe santíssima!

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O testamento de Moisés para os católicos
Liturgia

O testamento
de Moisés para os católicos

O testamento de Moisés para os católicos

Pouco antes de morrer, Moisés compôs um cântico, narrando os benefícios de Deus a Israel e deplorando a ingratidão do povo escolhido. O que para muitos não passaria, porém, da “letra morta” de um testamento, a Igreja até hoje canta em sua liturgia.

Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Um dos grandes benefícios de se rezar o Ofício Divino é o contato contínuo que passamos a fazer com toda a história da salvação — contato que realmente nos toca o íntimo, como uma experiência viva, que não só acrescenta “cultura”, mas que também faz aumentar o amor a Deus e a devoção.

Essa é, na verdade, desde muito tempo, a grande diferença entre católicos e protestantes: enquanto estes se gabam de ter um cristianismo “bíblico” — principalmente através do “dogma” da sola Scriptura —, aqueles têm consciência de que sua religião nasceu muito antes da popularização dos livros

Por isso nunca houve, da nossa parte, uma “fixação” com a palavra escrita. A Igreja Católica conserva e venera a Bíblia, sim, mas ela não é uma “religião do livro”; somos também o povo da Missa e do presépio, do Terço e da Liturgia. É através desses instrumentos que entramos em contato com os mistérios da fé: na manjedoura de Belém, aprendemos que Deus se fez homem para nossa salvação e pão para nosso sustento; no Rosário, conhecemos praticamente toda a vida de Jesus; nos sacramentos, mais do que “conhecimento”, é a própria graça de Deus que nos transforma, desde a pia batismal até a Comunhão do Corpo e Sangue de Cristo.

Tudo isso faz da nossa vivência religiosa uma experiência integral, plenamente humana e “católica” (no sentido de universal): mais do que simples leitores do Evangelho, nós também ouvimos, contemplamos e apalpamos o Verbo da vida, para usar uma expressão de S. João (cf. 1Jo 1, 1). Afinal, somos chamados a servir a Deus não só com a visão e o intelecto, mas com todos os nossos sentidos e faculdades: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força” (Dt 6, 5).

O Segundo Cântico de Moisés

“Moisés no monte Sinai”, por Jacques de Létin.

Falávamos, porém, do Ofício Divino, e digressamos. Queremos chamar a atenção de nossos leitores justamente para uma dessas pérolas que a Igreja reza em sua liturgia e que nos põe em contato com a história da salvação, ao mesmo tempo que a insere na nossa própria vida.

Trata-se do chamado “Segundo Cântico de Moisés”, que se encontra no livro do Deuteronômio (cf. 32, 1-43). Diz-se que é o segundo, porque o primeiro é o famoso hino de vitória composto após a travessia do mar Vermelho, presente em Êxodo 15, 1-19, tão importante que a Igreja chega a cantar na própria liturgia da Vigília Pascal. Por estar já bem próximo do relato da morte do patriarca, esse segundo pode ser chamado também de seu último cântico. É o testamento de Moisés.

Para se ter uma ideia da grandeza desse poema bíblico, o Pe. Matos Soares o avalia como “uma das páginas mais belas da Sagrada Escritura. Mesmo sob o ponto de vista literário não se encontra composição comparável em qualquer literatura humana”.

Na Liturgia das Horas atual, esse cântico é rezado nas Laudes do Sábado da II Semana do Saltério, numa versão bastante abreviada, indo dos versículos 1 a 12. Compartilhamos a tradução litúrgica do Brasil abaixo:

Ó céus, vinde, escutai; eu vou falar,
ouça a terra as palavras de meus lábios!
Minha doutrina se derrame como chuva,
minha palavra se espalhe como orvalho,
como torrentes que transbordam sobre a relva
e aguaceiros a cair por sobre as plantas.

O nome do Senhor vou invocar;
vinde todos e dai glória ao nosso Deus!
Ele é a Rocha: suas obras são perfeitas,
seus caminhos todos eles são justiça;
é ele o Deus fiel, sem falsidade,
o Deus justo, sempre reto em seu agir.

Os filhos seus degenerados o ofenderam,
essa raça corrompida e depravada!
É assim que agradeces ao Senhor Deus,
povo louco, povo estulto e insensato?
Não é ele o teu Pai que te gerou,
o Criador que te firmou e te sustenta?

Recorda-te dos dias do passado
e relembra as antigas gerações;
pergunta, e teu pai te contará,
interroga, e teus avós te ensinarão.

Quando o Altíssimo os povos dividiu
e pela terra espalhou os filhos de Adão,
as fronteiras das nações ele marcou
de acordo com o número de seus filhos;
mas a parte do Senhor foi o seu povo,
e Jacó foi a porção de sua herança.

Foi num deserto que o Senhor achou seu povo,
num lugar de solidão desoladora;
cercou-o de cuidados e carinhos
e o guardou como a pupila de seus olhos.

Como a águia, esvoaçando sobre o ninho,
incita os seus filhotes a voar,
ele estendeu as suas asas e o tomou,
e levou-o carregado sobre elas.
O Senhor, somente ele, foi seu guia,
e jamais um outro deus com ele estava.

Sobretudo a imagem final desses versículos é muito consoladora: Deus é comparado à águia, que cuida de seus filhotes como a “pupila de seus olhos”, e que chega a colocá-los sobre suas asas.

Muito belo também é o contraste entre o que Deus fez com Israel e o lugar em que Ele o encontrou. A tradução brasileira diz que o povo estava “num lugar de solidão desoladora”, mas o latim da Vulgata é ainda mais enfático: Israel se encontrava in loco horróris et vastae solitúdinis, isto é, “num lugar de horror e vasta solidão”. A palavra “horror”, em particular, nos ajuda a pôr na recitação desse versículo a nossa própria vida de pecado. Longe de Deus, nossa situação é de “solidão desoladora”, mas também de “horror”. O pecado nos desfigura, torna-nos horríveis e horrorosos. A expressão latina é forte.

No Ofício Divino antigo, esse cântico assumia um caráter ainda mais penitencial, não só porque era rezado nas Laudes dos sábados do Advento e da Quaresma, mas também por conta de seus versículos finais (infelizmente omitidos no rito atual). Trata-se dos versículos 13 a 18, que compartilhamos abaixo, na tradução do Pe. Matos Soares (e cujo conteúdo vem bastante a calhar para os nossos dias): 

Levou-o às alturas da terra,
nutriu-o com os frutos dos campos,
deu-lhe a sugar o mel (que saía) da pedra,
e o azeite (que saía) do rochedo duríssimo.
A manteiga das vacas, o leite das ovelhas,
com gordura dos cordeiros,
e dos carneiros criados em Basan, e dos cabritos,
com a flor de farinha do trigo,
e ele bebeu o mais puro sangue da uva.
Mas Jesurun engordou e recalcitrou;
tendo-se tornado gordo, cheio e nédio,
abandonou a Deus seu criador,
e afastou-se de Deus sua salvação.
Provocaram-no com deuses estranhos,
e excitaram-no à ira com as suas abominações.
Sacrificaram aos demônios e não a Deus,
a deuses que desconheciam,
deuses novos, acabados de chegar,
que seus pais não tinham adorado.
Abandonaste o Deus que te gerou,
e esqueceste-te do Senhor teu criador (Dt 32, 13-18).

Vemos neste pequeno trecho final duas partes bem distintas. 

Primeiro, Moisés continua a narrar os benefícios de Deus a seu povo, só que agora com mais detalhes: Israel foi saciado não só de modo natural — com “os frutos dos campos”, a “manteiga das vacas”, “o leite das ovelhas” e a “gordura dos cordeiros”, com carneiros e cabritos, trigo e uva —, mas também de modo prodigioso, sobrenatural, isto é, com “o mel da pedra” e o “azeite do rochedo duríssimo”. 

Depois, porém, Moisés começa a relatar a ingratidão de Israel: mesmo “gordo, cheio e nédio” — no latim, incrassátus, impinguátus, dilatátus —, Jesurun (nome poético de Israel, que significa o “justo”, empregado aqui ironicamente) “recalcitrou” e voltou as costas para Deus. A descrição do que fez o povo escolhido é pesada, mas resume-se basicamente à idolatria: “Sacrificaram aos demônios e não a Deus”. No fim, os verbos que estavam na terceira pessoa passam à segunda, e somos confrontados com nossos próprios pecados: “Abandonaste o Deus que te gerou, e esqueceste-te do Senhor teu criador”. Assim acaba o cântico no rito antigo, sem afago nem consolação. 

Eis uma meditação muito oportuna não só para este tempo quaresmal, mas para toda a nossa vida. De um lado, está a prodigalidade de Deus, que nos cumula de toda sorte de bênçãos espirituais (cf. Ef 1, 3) e, pelo Batismo, nos faz não mais hóspedes ou estrangeiros, mas “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2, 19); do outro, está a nossa ingratidão, muito pior que a de Israel, pois, quanto maiores os benefícios que recebemos, maior a dívida que contraímos. 

Mesmo com todas as graças e com toda a misericórdia que recebemos de Deus, nós teimamos em lhe voltar as costas e, cedendo aos pecados, sacrificamos aos demônios. Apesar de, no clima atual de indiferentismo e relativismo religioso, essas palavras guardarem o seu sentido literal estrito, também nós precisamos considerar pessoalmente que, todas as vezes que consentimos no pecado, é com os demônios que estamos tratando. Nas palavras de Santo Tomás, tentari humanum est, sed consentire diabolicum: “Ser tentado é humano, mas consentir é diabólico” (Exp. in orat. dom., a. 6).

É Quaresma; é tempo de nos arrependermos de nossos pecados e buscarmos a Deus de coração contrito e humilhado. Isso vale muito mais aos seus olhos do que os sacrifícios externos que fazemos (cf. Sl 50, 18-19). Deixemos que calem em nossos corações as palavras severas do testamento de Moisés: Abandonaste a Deus; esqueceste-te dele

Sim, reconheçamos, não neguemos: sou eu o filho gordo e ingrato do cântico de Moisés; fui eu que dei as costas a Deus e sacrifiquei aos demônios; “Senhor, pequei. Tende piedade e misericórdia de mim.”

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A “primeira quaresma” da história
Espiritualidade

A “primeira quaresma” da história

A “primeira quaresma” da história

A Quaresma recorda tanto os quarenta anos do povo de Israel no deserto quanto os quarenta dias de jejum de Jesus, também no deserto. Mas há uma outra “quaresma”, do Antigo Testamento, da qual muitas vezes não nos lembramos...

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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A Quaresma faz referência aos quarenta anos do povo de Israel no deserto e aos quarenta dias de jejum de Jesus, também no deserto. Mas uma referência da qual muitas vezes não nos lembramos é que, pela mesma quantidade de dias, graças à pregação do profeta Jonas, o povo de Nínive jejuou e conseguiu poupar a cidade da destruição. Foi a “primeira quaresma” da história.

É tão forte a relação entre esse tempo litúrgico e a história de Nínive que, nas orações tradicionais que os sacerdotes faziam sobre as cinzas, no primeiro dia da Quaresma, a Igreja toda chegava a pedir a Deus a graça de imitar os ninivitas em sua penitência: 

Orémus: Omnípotens sempitérne Deus, qui Ninivítis in cínere et cilício paeniténtibus, indulgéntiae tuae remédia praestitísti: concéde propítius; ut sic eos imitémur hábitu, quátenus véniae prosequámur obténtu. Per Christum Dóminum nostrum. — Oremos: Deus eterno e todo-poderoso, que destes aos ninivitas, por fazerem penitência na cinza e no cilício, os remédios de vossa indulgência: concedei-nos, propício, imitá-los de tal modo na mortificação, que alcancemos como eles o vosso perdão. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje, apesar de as orações sobre as cinzas terem sido bastante simplificadas no novo Missal, a referência a Jonas e Nínive continua presente no Lecionário, mais especificamente na quarta-feira da 1.ª Semana da Quaresma (o primeiro dia das Têmporas de Outono). A leitura é tirada de Jn 3, 1-10 e o Evangelho, de Lc 11, 29-32.

“Jonas pregando aos ninivitas”, de Gustave Doré.

Tomando porém o relato veterotestamentário na íntegra, desde a fuga de Jonas da presença de Deus, passando por seu cativeiro no ventre de uma baleia, até a sua revolta em ver poupada a cidade de Nínive, o que mais chama atenção é a vontade firme que Deus tem de salvar os ninivitas. Toda a história do livro de Jonas é, na verdade, a da salvação de Nínive. De nenhuma outra missão foi encarregado o profeta, senão desta: “Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e profere contra ela os teus oráculos, porque sua iniquidade chegou até a minha presença” (Jn 1, 2). 

Aqui fica patente, desde o princípio, uma realidade da qual hoje muito pouco se fala: Deus é justo e castiga os homens por seus pecados. “Verdade ultrapassada”, alguns podem dizer. Ao que respondemos, simplesmente: se Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre, e se Ele declarou ser a própria Verdade, é simples arrogância nossa querer impor um “prazo de validade” às suas palavras. Se Deus de fato castigava no Antigo Testamento, por que deixaria de fazê-lo agora — especialmente agora em que, mais agraciados por Ele, aumenta em nós o dever de corresponder ao seu amor?

Não sem razão o Papa S. João Paulo II recordava, em sua Carta Apostólica Salvifici Doloris (n. 10), que:

Ao mal moral do pecado corresponde o castigo, que garante a ordem moral no mesmo sentido transcendente em que esta ordem foi estabelecida pela vontade do Criador e Supremo Legislador. Daqui se segue também uma das verdades fundamentais da fé religiosa, baseada igualmente na Revelação; ou seja, que Deus é juiz justo, que premeia o bem e castiga o mal: “Vós, Senhor, sois justo em tudo o que fizestes; todas as vossas obras são verdadeiras, retos os vossos caminhos, todos os vossos juízos se baseiam na verdade, e tomastes decisões conforme a verdade em tudo o que fizestes que nos sobreviesse e à cidade santa dos nossos pais, Jerusalém. Sim, em verdade e justiça nos infligistes todos estes castigos por causa de nossos pecados” (Dn 3, 27ss).

Deus, porém, não é um ser vingativo que quer simplesmente “fulminar” suas criaturas. É à luz do desejo de Deus por nossa salvação que devemos ler todos os relatos bíblicos sobre a “ira” e os “castigos” divinos. Como diz uma antífona que rezamos continuamente na Quaresma: Vivo ego, dicit Dóminus: nolo mortem peccatóris, sed ut magis convertátur, et vivat, “Vivo, diz o Senhor: não quero a morte do pecador, mas antes que se converta e viva”. É, pois, para que nos emendemos, para que mudemos de vida, que Deus nos busca. Muitas vezes com o chicote.

E Ele nos busca como buscou os ninivitas, persistindo com Jonas, apesar de sua teimosia e resistência, para que profetizasse em Nínive. Busca-nos também como buscou os judeus do tempo de Jesus. Estes, porém, diferentemente daqueles, fizeram ouvidos moucos à voz de Deus e não trilharam o caminho da penitência. Por isso diz Nosso Senhor no Evangelho: 

Esta geração é uma geração má. Ela busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. Com efeito, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do Homem para esta geração. [...] No dia do julgamento, os ninivitas se levantarão juntamente com esta geração e a condenarão. Porque eles se converteram quando ouviram a pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas (Lc 11, 29-30.32).

O relato da conversão dos ninivitas é, de fato, prodigioso. Apesar de toda a má vontade de Jonas, que não queria a salvação de Nínive e percorreu a cidade dizendo simplesmente: “Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída” (Jn 3, 4), o próprio rei da cidade “levantou-se de seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (v. 6); depois, publicou pela cidade um decreto proibindo “aos homens e aos animais, tanto do gado maior como do menor, comer o que quer que seja, assim como pastar ou beber” (v. 7). Ou seja, diante do aviso do castigo de Deus, a reação dos ninivitas foi de prontidão. Imediatamente se puseram a fazer penitência, implorando a Deus misericórdia pela cidade. 

O que aconteceu, então, em consequência? “Diante de uma tal atitude, vendo como renunciavam aos seus maus caminhos, Deus arrependeu-se do mal que resolvera fazer-lhes, e não o executou” (v. 10). O arrependimento dos homens gera o “arrependimento” de Deus. Lembrando sempre, porém, que essa é uma linguagem metafórica; ou seja, a verdade é que Deus, desde toda a eternidade, já havia decidido salvar a cidade de Nínive, mas Ele queria fazer isso através da pregação de Jonas e da penitência dos ninivitas. Sendo onipotente, Ele poderia fazer tudo isso de outro modo, mas — parafraseando S. Agostinho — o Deus que nos criou sem a nossa ajuda não a dispensa para nos salvar.

Também hoje, Deus quer a nossa penitência. A Quaresma é um tempo litúrgico favorável para que nós, ouvindo a voz de Cristo, da sua Igreja, dos seus santos, dos seus sacerdotes, nos voltemos para nós mesmos, reconheçamos os nossos pecados e mudemos de mentalidade e de vida. Nem Jonas nem Jesus vieram para encontrar “elementos positivos” em nossos pecados, como hoje, infelizmente, muitos procuram fazer, às vezes dentro da própria Igreja. Não, a mensagem que vieram trazer — e que os santos têm repetido ao longo desses dois mil anos de história da Igreja — é apenas esta: “Se não vos converterdes, perecereis todos” (Lc 13, 5).

“Perecereis”, diz o Senhor. Mas entendamos bem: o que está em jogo não é a destruição de uma cidade, tampouco a morte física, o perecimento natural de nossos corpos. O que está em xeque é a nossa salvação eterna

Uma última coisa, a respeito da palavra “cilício”, presente na oração que transcrevemos acima: o uso desse instrumento jamais foi reprovado pela Igreja. Ninguém vai ouvir, hoje, recomendações públicas do uso específico do cilício; e quem o usa, evidentemente, tampouco sairá por aí anunciando o fato aos quatro ventos. O que precisamos saber é que se trata de um instrumento legítimo de penitência, e não de “tortura” — como tem procurado fazer crer, em nossa época, uma forte propaganda anticatólica.

Para quem quiser entender em que, de fato, consiste esse objeto e qual a sua finalidade, recomendamos que assistam ao vídeo a seguir, de nosso programa “A Resposta Católica”.

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