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Por que Nossa Senhora de Fátima se preocupava tanto com a Rússia?
Virgem MariaComunismo

Por que Nossa Senhora de Fátima
se preocupava tanto com a Rússia?

Por que Nossa Senhora de Fátima se preocupava tanto com a Rússia?

Quando compreendemos o comunismo especialmente em sua dimensão cultural, a propagação dos erros da Rússia torna-se ainda mais evidente.

John-Henry WestenTradução: Sensus Fidei11 de Maio de 2017Tempo de leitura: 4 minutos
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Ao investigar as aparições de Fátima em razão de vários compromissos este ano, vi-me confrontado repetidamente pela insistência de Nossa Senhora com a consagração da Rússia. Depois que ela fosse feita, bem como a prática dos cinco primeiros sábados de reparação, Nossa Senhora prometeu que a Rússia se converteria e um período de paz seria dado à humanidade. Do contrário, advertiu a Rainha do Céu, a Rússia "espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja". E acrescentou: "Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas."

"Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará", ela disse. "O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz."

O Papa São João Paulo II, é claro, confiou o mundo ao Imaculado Coração em 1984, mas nós ainda estamos a esperar por esse período de paz. Nunca como no último meio século se viu tanta guerra, tantos massacres, tantos martírios e tantos abortos. Ominosamente, ainda não vimos o aniquilamento de várias nações. Mas o que tudo isso tem a ver com a Rússia?

Vladimir Lênin, protagonista da Revolução Russa, de 1917.

A Rússia representa, nas mentes de maior parte das pessoas, a origem do comunismo — pensado principalmente como um sistema econômico em competição com o capitalismo. No entanto, quando nós realmente compreendemos o comunismo, a propagação dos erros da Rússia torna-se evidente.

O livro The Naked Communist ("O Comunista Nu", lit., sem tradução para o português) é a fonte mais concisa e acessível que delineia as metas e a ideologia comunistas. Foi escrito por W. Cleon Skousen, um ex-agente do FBI que teve contato direto com várias fontes originais e a melhor inteligência da organização quando se investigou a infiltração comunista nos Estados Unidos. O livro está catalogado no Registro do Congresso e o presidente Ronald Reagan comentou sobre ele dizendo: "Ninguém está mais qualificado para discutir a ameaça do comunismo a esta nação."

Uma seleção dos objetivos do comunismo listados por Skousen servem para ilustrar a sua disseminação por todas as nações, especialmente no Ocidente:

  • Eliminar todas as leis que regulam a obscenidade, qualificando-as como "censura" e como uma violação da liberdade de expressão e de imprensa.
  • Romper os padrões culturais de moralidade, promovendo pornografia e obscenidade em livros, revistas, filmes, rádio e TV.
  • Apresentar a homossexualidade, a degeneração e a promiscuidade como sendo "normal, natural, saudável".
  • Infiltrar as igrejas e substituir a religião revelada pela religião "social".
  • Desacreditar a Bíblia e enfatizar a necessidade de uma maturidade intelectual que dispense "muleta religiosa".
  • Eliminar a oração ou qualquer tipo de expressão religiosa nas escolas, com o fundamento de que ela viola o princípio da "separação entre Igreja e Estado".
  • Desacreditar a família enquanto instituição. Incentivar a promiscuidade, a masturbação e o divórcio fácil.
  • Enfatizar a necessidade de afastar as crianças da influência negativa dos pais. Atribuir "preconceitos, bloqueios mentais e retardamento das crianças à influência supressiva dos pais".

Além do comunismo, no entanto, outro dos erros da Rússia que se espalhou com força por todo o mundo foi o aborto. A prática foi legalizada na Rússia pela primeira vez em 1920 e, até hoje, o país apresenta a maior taxa de aborto per capita do mundo: com uma população de 143 milhões, há 1,2 milhões de abortos por ano.

Não resta dúvida de que as predições e promessas de Maria se tornarão verdadeiras. Nossa Senhora de Fátima previu a Segunda Guerra Mundial e até mesmo um sinal de alerta que a precederia. Alertou sobre a epidemia de impureza que infestou o planeta. Deu aos fiéis tarefas a cumprir, a fim de que se realize o triunfo do seu Imaculado Coração — profecias estas às quais ela será igualmente fiel.

Então, assim como nós honramos nossas próprias mães neste mês de maio, vamos examinar novamente os pedidos de Nossa Senhora e colocá-los em prática. Ela pediu oração, particularmente a do Santo Rosário e a devoção do Escapulário do Carmo. Ela pediu reparação pelos pecados e ultrajes perpetrados contra a graça de Deus e pelas blasfêmias contra os Sagrados Corações de Jesus e Maria, especialmente com a prática dos cinco primeiros sábados. E, finalmente, ela pediu a consagração ao Imaculado Coração de Maria, tanto a título pessoal como, publicamente, a da Rússia pelo Papa e pelos bispos de todo o mundo.

Quase a totalidade dessas matérias está sob o nosso controle pessoal. Não há melhor oportunidade do que este ano, especialmente durante o período da Ressurreição, o Tempo Pascal, para implementar essas práticas em nossas vidas. Empunhemos, pois, a arma do Rosário, o cordão umbilical que nos liga à nossa Mãe Celestial. Façamos a devoção dos cinco primeiros sábados e ensinemo-la aos nossos filhos. Consagremo-nos, como ensinou São Luís de Montfort, ao Coração Imaculado de Maria, condição que São João Paulo considerava "indispensável a quem quer que deseje se entregar sem reservas a Cristo e à obra da redenção".

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Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo
Testemunhos

Guido Schäffer:
o médico surfista que decidiu ser santo

Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo

“Todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras de Chesterton se aplicam perfeitamente à vida de Guido Schäffer, cujo testemunho tem atraído muitíssimos jovens para a Igreja Católica.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Janeiro é o mês em que boa parte das universidades divulga a lista de aprovados no vestibular. Jovens de todo o país aguardam ansiosos a notícia de que finalmente poderão cursar o ensino superior. A rigor, a entrada na universidade representa, para muitos, uma espécie de redenção, que marca o início da maior idade, pois é nesse período que os filhos saem de casa, mudam-se para outras cidades e assumem algumas responsabilidades básicas que todo adulto deve ter.

Com todas essas mudanças, a universidade também é o lugar onde muitos abandonam a religião. E isso se deve à ideia absurda de que a fase universitária é o tempo das grandes experiências, não só no campo científico, mas especialmente no campo moral. Longe dos olhares dos pais — e consequentemente do que lhes freava os impulsos juvenis —,  quantos jovens se perdem por achar que agora, na universidade, têm toda chance de viver conforme lhes der na telha, sem qualquer “moralismo” ou “superstição”? É como se imaginassem que a vida acadêmica é um grande besteirol, como daqueles filmes hollywoodianos. Daí tantos “trotes”, “cervejadas” e outras recreações que costumam pautar os jornais todos os anos com as bizarrices dos nossos estudantes.

Mas o sistema universitário é, na verdade, uma grande ilusão. Trata-se, no mais das vezes, de um lugar onde o aluno não é incentivado a descobrir a substância das coisas, como na educação clássica, mas a mergulhar nas mais loucas abstrações, que o prendem num mundo absolutamente paralelo. Afinal de contas, a causa final de todo esse sistema é o título, a chancela, o diploma; ou seja, algo um tanto superficial. E a consequência disso não poderia ser outra senão a mesquinhez: a única preocupação dos estudantes é a de estarem na média no fim do semestre.

Há, porém, alguns jovens que não se iludem com o diploma e buscam manter-se acima da linha da mediocridade, preservando em seus corações aqueles valores inegociáveis da fé e da razão. É o caso de Guido Schäffer, cujo testemunho cristão no exercício da medicina atraiu muitas almas para a grei do Senhor. Atualmente, a Arquidiocese do Rio de Janeiro promove a causa de beatificação do jovem, que também foi seminarista e morreu em 2009, em odor de santidade.

Guido Schäffer nasceu em 22 de maio de 1974, no município de Volta Redonda (RJ). É da pena de G. K. Chesterton a afirmação muito sábia de que “todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras se aplicam perfeitamente à vida de Guido, que, como muitos santos da Igreja, teve também um passado miserável. De início, ele viveu boa parte de sua vida como aquele tipo de homem dado às paixões. Em suas memórias, ele confessa como precisou de muita oração e penitência para corrigir os erros de uma adolescência dissoluta: faltou à Missa, roubou, usou drogas, viu pornografia, teve relações sexuais... Era, afinal, apenas mais um rapaz “comum”, que gostava de surf e, vez ou outra, rendia-se aos impulsos do pecado.

Mas a graça de Deus tinha planos maiores. Aos seis anos, Guido havia sonhado com Nosso Senhor, que lhe dizia para ser obediente aos pais e participar da Missa todos os dias, porque, um dia, ele haveria de chamar muitos amigos para Jesus. E foi o que realmente aconteceu após a sua conversão. Guido começou a frequentar os encontros da Renovação Carismática e ali pôde fazer as primeiras experiências de oração, que despertaram nele a vontade de ser santo. Mais tarde, o jovem conheceu os exercícios espirituais de Santo Inácio, o desentortador de vidas, e entendeu que poderia ser amigo íntimo de Cristo, buscando a Deus em todas as circunstâncias e lugares, inclusive dentro da faculdade.

A vantagem de ser católico é que tudo pode ser convertido num caminho para Cristo. Foi a fé católica que fez Guido ver a medicina não como um fim, mas como um meio para a própria santificação. O estudo, em especial, era uma tarefa diária que ele teria de fazer com o coração aberto a Deus, em espírito de oração, para melhor servir o próximo. “A santidade”, explica o cardeal Saraiva, “não consiste certamente em fazer coisas extraordinárias, mas em fazer de maneira extraordinária as coisas de todos os dias”. Na oração, abrimos nossos olhos para a presença extraordinária de Deus nas coisas mais comuns. Guido Schäffer entendeu isso perfeitamente, de modo que procurou unir a vida ativa à contemplativa, fazendo tudo com atenção e diligência.

Guido mesmo dava testemunho da importância da oração. Certa vez, escreve ele em seu diário, “senti uma desolação por conta dos inúmeros trabalhos e provas que terei essa semana. Fui tentado pela impaciência a terminar minha oração antes do tempo”. A constância, todavia, ajudou-o a passar por tudo isso com tranquilidade, unindo-se ao Coração de Jesus.

Depois de formado, Guido decidiu dar uma resposta mais generosa a Deus. Ele havia meditado sobre a história do jovem rico e notara que precisava entregar seu diploma —  a única riqueza que tinha — a serviço dos pobres, a exemplo de São Francisco de Assis. Assim, Guido iniciou um trabalho junto às Missionárias da Caridade, de Santa Teresa de Calcutá, assistindo os irmãos de rua, enquanto ainda atendia na Santa Casa de Misericórdia, onde ajudou na Pastoral da Saúde e acompanhou todo tipo de pacientes. Esse trabalho era tão extraordinário que, mesmo como seminarista, Guido pôde continuar nos hospitais, com a licença do arcebispo do Rio de Janeiro.

A esse respeito, a irmã Caritas, que o auxiliou em várias ocasiões, dá o seguinte testemunho: “Muitas vezes usava dos carismas com que o Senhor o agraciava. Presenciei várias vezes, sobretudo o carisma da Palavra de Ciência. A todos tratava com delicadeza, paciência e compreensão”. Para quem acompanhou nosso curso sobre a Engenharia da Santidade, sabe que um dos sinais mais notáveis da santidade é a virtude da paciência (hypomoné), que se conquista apenas nas quartas moradas, a custo de muita penitência e oração. Deus vê a generosidade da alma e faz a passagem dela para um estágio no qual a caridade cresce com todas as demais virtudes. Vemos isso em Guido Schäffer, e não deve demorar muito para que a Igreja também o chame venerável.

O título de venerável é dado a “todos aqueles que pelo singular exercício das virtudes cristãs e dos carismas divinos suscitaram a devoção e a imitação dos fiéis” (João Paulo II, Divinus Perfectionis Magister). Sem a pretensão de antecipar o juízo de nossos pastores, os inúmeros testemunhos a respeito de Guido Schäffer não deixam dúvidas de que ele foi mesmo um herói da fé, seja pelo trabalho como médico, seja pelo seu apostolado nos grupos de jovens. Só isso pode justificar as várias homenagens e memoriais que já lhe foram dedicados pela piedade popular. “Em todo o tempo, dava testemunho de sua fé, no seu proceder irrepreensível com os outros. Vivia conforme os valores cristãos da cordialidade, temperança, caridade e justiça”, disse o professor de Guido, Clementino Fraga, numa homenagem após a sua morte.

A entrada no seminário talvez tenha sido o ponto decisivo nesse progresso espiritual que talvez leve Guido à glória dos altares. Tudo aconteceu no ano 2000, quando ele, durante uma oração, ouviu a voz de Deus, que lhe dizia: “Levanta-te, e serás sacerdote da minha Igreja”. Sabiamente, Dom Karl Romer, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, matriculou-o no mosteiro dos beneditinos, para que Guido pudesse continuar o trabalho nos hospitais. Desse modo, ele teve a chance de dedicar-se tanto à formação sacerdotal como ao serviço caritativo. Estudava filosofia, atendia na Santa Casa, liderava grupos de oração e ainda levava os jovens para cuidar dos mendigos, juntos às Missionárias da Caridade. E o que o fortalecia era a certeza de que Deus estava sempre ao seu lado.

Alguns testemunhos sobre o trabalho de Guido nos hospitais são mesmo surpreendentes. Conta-se, por exemplo, o caso de um policial cadeirante que voltou a andar após ter recebido a oração de Guido, durante um grupo de oração na Santa Casa de Misericórdia. Outros relatam como apenas a sua presença trazia paz e esperança aos pacientes mais angustiados. Além disso, ele tinha a grande preocupação de levar os doentes para a recepção dos sacramentos como a Unção dos Enfermos, a Confissão e, especialmente, a Santíssima Eucaristia. Até porque, a principal responsabilidade de um verdadeiro médico de Deus é salvar a alma dos seus pacientes. Não foi por menos que Guido Schäffer recebeu a alcunha de apóstolo da palavra e da paz.

Guido Schäffer morreu em 2009 num acidente, quando surfava com uns amigos. Pouco antes, ele já havia recebido alguns “avisos” de Deus, que o chamava para avançar a águas mais profundas. Também já confessara que “se pudesse escolher, gostaria de morrer no mar, surfando”. A prancha que Guido usava naquele dia 1.º de maio era dividida por um versículo do Evangelho de São Mateus: “Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (7, 14). Não deixa de ser significativo porque, em sua vida, Guido preferiu esforçar-se para passar pelo mais difícil dos vestibulares, pela mais estreita das portas, que é a entrada do Céu. Após sua morte, não demorou muito para que as pessoas reconhecessem nele os sinais claros de uma grande santidade.

Certamente, Guido Schäffer deve ser proposto como modelo para todos os jovens que aguardam a entrada na universidade. Nesse ambiente onde a religião é tantas vezes ofendida e desprezada, ele soube seguir o caminho de Cristo, fugindo da tentação e dos convites à mediocridade, fugindo da ilusão do diploma, a fim de ser um médico de verdade, que servisse aos outros, mormente os mais pobres. E fez isso com tanta convicção e amor que muitos já não hesitam em chamá-lo santo. Porque, de verdade, o real diploma que devemos buscar é a “coroa da salvação”.

Notas

  • As citações do diário de Guido estão contidas neste livro: D. Justino de Almeida Bueno. Guido Schaffer: apóstolo da palavra e da paz. 3.ª ed. Juiz de Fora: Subiaco, 2016.

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A teologia por trás do uso do véu na Igreja
Espiritualidade

A teologia por trás
do uso do véu na Igreja

A teologia por trás do uso do véu na Igreja

O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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A nobre língua latina, que alimentou a piedade durante séculos; a serenidade do canto gregoriano; o esplendor dos paramentos sacerdotais e a visível ênfase na natureza sacrificial da Missa, em que o Senhor da glória torna presente de novo sua oferenda na Cruz em benefício dos vivos e dos mortos — em maior ou menor grau, todas essas coisas e outras mais desapareceram rapidamente depois do Concílio Vaticano II, sob o ilusório pretexto de que o “homem moderno” precisava de algo mais imediatamente acessível do que solenidade, silêncio e sacralidade. Isso foi sem dúvida um grande erro, como leigos, sacerdotes e até bispos têm afirmado de modo cada vez mais franco nas últimas décadas. Em grande medida, o trabalho de restauração tem sido relegado ao nível das bases.

Em debates sobre as reformas pós-conciliares, católicos tradicionais muitas vezes insistem no banimento do latim, do canto gregoriano, da celebração ad orientem e da recepção da Comunhão de joelhos. Isso não surpreende, já que essas mudanças são as mais perceptíveis, e foi muito profundo seu crescente efeito sobre a natureza do culto católico. Porém, houve outras mudanças sutis que com o passar do tempo também afetaram nosso modo de compreender a Fé. Um exemplo é o abandono da genuflexão na seguinte passagem do Credo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine, et homo factus est. Da mesma forma, a maioria das pessoas já não curva a cabeça por reverência quando é pronunciado o santíssimo nome de Jesus.

Corte de uma pintura de José Gallegos y Arnosa.

Uma dessas mudanças foi a extinção quase completa do uso do véu pelas mulheres nas igrejas, quando estão em momento de oração. Antes do Concílio, quando alguém entrava numa igreja para assistir à Missa, via todas as mulheres com a cabeça coberta, fosse por boinas, gorros, véus ou toalhas de renda. Embora ocasionalmente possamos ver hoje mulheres de véu ou chapéu numa Missa Novus Ordo (esse número é maior em países não ocidentais que ainda não foram tomados pelo espírito moderno), em geral, o costume desapareceu fora de locais em que a Missa tradicional em latim sobreviveu ou retornou. E mesmo nestes locais o costume não é de modo algum praticado universalmente. Mulheres que adotam uma postura defensiva podem afirmar que o direito canônico não exige o uso do véu, que o bispo não o autoriza e que o pároco não o menciona. Na verdade, aqueles que olham para o uso do véu como sinal de uma era em que (creem eles) as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe alegram-se com o fato de o véu ter sido marginalizado.  

Porém, antes de descartarmos a mudança como exemplo de algo ultrapassado que foi deixado de lado por não ser mais relevante, temos de analisar o que significava o costume em si e se ele simboliza uma verdade importante, tão válida para nós como para nossos predecessores. Os costumes de piedade popular muitas vezes carregam consigo raízes religiosas e humanas mais profundas do que podemos pensar inicialmente. Neste mundo agitado, coisas boas do passado são muitas vezes abandonadas porque as pessoas se esqueceram de uma verdade fundamental que precisa, mais do que nunca, ser escutada e seguida.

O ensinamento do Apóstolo

A tradição do uso do véu pelas mulheres nas igrejas tem como fundamento as palavras de São Paulo: 

Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. Com efeito, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos (1Cor 11, 7-10). 

A palavra costumeiramente traduzida por “véu” é exousia, que significa “poder” ou “autoridade” [1]. Uma tradução bem literal da passagem ficaria assim: “a mulher deve ter um poder [ou autoridade] sobre sua cabeça”. Ocasionalmente, vemos o texto transformado numa paráfrase: “um poder sobre sua cabeça, simbolizado por um véu”. Isso está mais claro, mas ainda podemos nos perguntar: por que um véu? Temos de voltar à tradição da Igreja para encontrar a resposta.

De acordo com alguns Padres e Doutores da Igreja, essa passagem se refere aos anjos que encobrem seu rosto quando estão na presença de Deus adorando-o diante de seu trono [2]:

Eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!” (Is 6, 1-3).

Os anjos cobrem ou vendam seu rosto como sinal de reverência perante o poder e a majestade gloriosos de Deus; estão sob sua autoridade. São Paulo estaria dizendo, então, que assim como os anjos cobrem seu rosto diante do trono de Deus, também as mulheres deveriam cobrir sua cabeça para adorar. Mas por que apenas as mulheres? Os homens não estão também na presença de Deus? A resposta pode ser encontrada numa série de analogias que São Paulo realiza numa passagem anterior do mesmo capítulo. “Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, senhor de Cristo é Deus” (1Cor 11, 3). Isto é, Cristo está para o Pai como o marido está para Cristo, e o marido está para Cristo assim como a mulher está para o marido — numa sequência de autoridade decrescente. Observemos como é notável a última parte dessa analogia: em seu relacionamento com o marido, a mulher cristã é comparada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em sua relação com o Pai. Portanto, o sentido último da vocação de uma mulher como esposa e mãe é participar, imitar e manifestar o mistério da missão de Cristo: sua entrega é um reflexo do sacrifício de Cristo. 

Uma imitação específica de Cristo e da Igreja

Para esclarecer ainda mais o sentido dessa passagem, temos de levar em conta o que São Paulo diz aos Efésios ao acrescentar outra dimensão ao simbolismo. “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (Ef 5, 22-24). O marido está para a mulher assim como Cristo está para a Igreja. A partir disso, vemos que do mesmo modo uma esposa é chamada a imitar e participar do trabalho da Igreja, que segue Cristo e este segue o Pai. Um grande mistério sobrenatural é prefigurado nas coisas terrenas: a obediência das esposas está enraizada na obediência de Cristo ao Pai e na submissão da Igreja ao Senhor, e brota delas.

A obediência a que uma mulher se submete no matrimônio é uma escolha, uma resposta do seu coração a um dom do Senhor; assim como uma religiosa promete obediência a seus superiores como parte da vocação de servir a um só Senhor. A obediência da esposa está inserida no contexto de um sacramento; não é uma questão de dependência natural ou de inferioridade. Uma esposa se submete ao seu marido principalmente por amor a Deus e em obediência ao chamado dele. O sacrifício de si, mantido pela graça de Deus e corretamente entendido pela esposa, não ameaça sua condição de igualdade em relação ao marido [3].

O Filho é igual ao Pai (como afirmou Orígenes e foi posteriormente definido); no entanto, o Filho é obediente ao Pai. Uma coisa tão suavemente conhecida em muitas relações de amor humano está, além da imaginação, presente nos segredos centrais do céu. Pois o Filho em seu eterno agora deseja a subordinação, e ela lhe pertence. Ele quer que sejam assim; com obediência e de modo filial Ele é inseparável do Pai, assim como o Pai é, com autoridade e modo paternal, inseparável dele. E todas as três Pessoas são eternamente inseparáveis — e iguais [4].

No interior da Santíssima Trindade, a distinção de Pessoas não põe em perigo a unidade da Divindade, compartilhada igual e essencialmente por Pai, Filho e Espírito Santo. Na Trindade, essa hierarquia-na-igualdade é refletida na ordem da salvação ocasionada pelo envio de Cristo pelo Pai, na relação esponsal entre Cristo e a Igreja e, novamente, na ordem do matrimônio.

“A Virgem da Anunciação”, por Antonello de Saliba.

A ferida da rebelião pecaminosa foi curada pela morte de Cristo e a salvação da homem foi obtida precisamente por meio da obediência à vontade de Deus, que teve início com o fiat da Virgem Maria (“Faça-se em mim segundo a vossa palavra”). De modo semelhante, visto como uma participação no mistério de Cristo e de sua Igreja, o relacionamento da esposa com seu marido é salvífico; para ser mais preciso, é um sacrifício livremente consagrado ao único sacrifício de Cristo e inserido nele. Todos os cristãos são chamados a imitar a Virgem, a se unirem a Cristo e mutuamente nele, mas essa vocação tem naturezas distintas para homens e mulheres. Embora Maria seja o arquétipo para todos os cristãos, a vida dela como modelo da verdadeira feminilidade apresenta certas verdades aplicáveis particularmente às mulheres. O véu e qualquer outro símbolo associado às mulheres deve ser considerado à luz do fiat da Virgem, seu abandono à vontade de Deus, o ato por meio do qual ela esmagou a cabeça da serpente — assim como a submissão de Cristo à vontade do Pai “até a morte” significou a derrota de Satanás. “Eis aqui a escrava do Senhor.” “Não a minha, mas a vossa vontade seja feita.” Ao se oferecer, a Virgem se tornou a “ajudante” necessária para que o novo Adão, o grande Sumo Sacerdote, oferecesse o único sacrifício por todos: seu Corpo e Sangue. 

A corresponsabilidade do marido

Para obtermos um quadro completo, temos de nos lembrar do referido ensinamento que São Paulo transmite aos maridos no capítulo 5 da Carta aos Efésios. O Apóstolo diz que os maridos devem representar Cristo; devem servir como cabeça da igreja doméstica. O que isso significa? A verdadeira autoridade vinda dos sacramentos vivificantes tem pouco a ver com a compreensão que o homem caído tem do poder e do governo sobre outros em benefício próprio. 

Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir (Mt 20, 25-28). 

Os maridos devem agir como Cristo Rei — o Rei entronizado na Cruz: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). A autoridade do marido é legítima quando exercida segundo a imitação de Cristo. Santo Tomás de Aquino apreende bem esse ponto: “A esposa sujeita-se a Deus submetendo-se ao seu marido sob Deus” [subiicitur viro sub Deo], ou seja, ela é submissa ao marido na medida em que ele mesmo está “sob Deus”, isto é, governando de acordo com os mandamentos de Deus [5].

Portanto, em todo matrimônio marido e mulher são chamados a imitar e manifestar um ao outro e ao mundo o amor de Cristo e da Igreja, ele mesmo moldado pelo mistério de amor que existe no interior da Santíssima Trindade. Essa imitação e manifestação só pode ocorrer pela graça de Deus, o Deus que é Amor; ela requer oração constante, além de discernimento, paciência e perseverança. O equilíbrio entre hierarquia-na-igualdade e igualdade-na-hierarquia só pode ser mantido pela consciência permanente de nossa vocação para amar — governar e servir mediante o amor e pelo amor. O relacionamento adequado entre marido e mulher e o precioso dom da procriação foram afetados pela Queda (cf. Gn 3, 16), como podemos ver nos homens que abusam de sua autoridade como maridos e em homens que são muito tímidos ou efeminados para assumir suas responsabilidades. Podemos ver todo tipo de problema: homens que governam para satisfazer seu egoísmo; homens que se recusam a governar pelo bem de qualquer pessoa; mulheres que se recusam taxativamente a ser governadas; mulheres que agem como capachas e não questionam abusos de autoridade. Creio que esse é o motivo pelo qual achamos tão estimulante e encorajador o exemplo de um bom casamento no qual os cônjuges vivem em paz e alegria. Ele mostra que isso pode realmente ser feito por meio do esforço humano determinado e a graça de Deus resultante de nossas súplicas.

Deste modo, na teologia de São Paulo o véu é um símbolo de consagração e autossacrifício. Assim como a Igreja se submete a Cristo e Cristo Filho obedece ao Pai, uma esposa está “sob” o poder e a proteção de seu marido. Do ponto de vista litúrgico, faz sentido que a mulher porte um sinal exterior dessa verdade interior, um símbolo público e visível de sua vocação como esposa, especialmente quando está perante o Senhor em adoração. O véu dá testemunho silencioso da dignidade e poder dela em sua submissão ao marido. Em sentido lato, ele é sacramental: um simples objeto que simboliza uma profunda realidade espiritual. Assim como as religiosas dão testemunho ao mundo por meio de seu hábito (incluindo o véu), da mesma forma as esposas dão testemunho da natureza especial do matrimônio cristão ao cobrirem sua própria cabeça na Missa. Esse belo símbolo dá à esposa uma oportunidade de viver sua vocação de modo mais pleno por fazer com que ela e outras pessoas, inclusive suas filhas, recordem seu traço de humildade mariana. Podemos ir mais longe: esse delicado símbolo daquilo que é exemplo perfeito da “pequenez” teresiana pode ser um meio poderoso de reparação para aqueles que se rebelam contra sua identidade ou são infiéis ao seu chamado.

Tradição codificada em símbolos

Considerando o que vimos, é possível explicar outro detalhe de 1Cor 11 que pode passar despercebido. No início do capítulo, o Apóstolo insiste em que os cristãos de Corinto devem preservar as instruções que ele lhes transmitira. “Eu vos felicito, porque em tudo vos lem­brais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti. Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, e o senhor de Cristo é Deus.”

Parte da sagrada tradição que ele transmitiu a eles é o ensino sobre as esposas e a submissão delas aos maridos, e é nesse contexto que o “poder” simbolizado pelo véu entra em sua exortação. Em outras palavras, São Paulo exorta todos a se esforçarem para “imitar Cristo” (1Cor 11, 1) a fim de preservar as tradições que contêm e confirmam a boa doutrina e uma vida santa. “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Ts 2, 15). Esse é com certeza um ensinamento ao qual devemos nos aferrar no mundo moderno. A atual desintegração da vida familiar ocorre, até certo ponto, porque a tradição apostólica da hierarquia familiar não tem sido preservada nem pela família nem pela própria hierarquia eclesiástica.

O ensinamento de São Paulo parece deixar claro que o uso de algo que sirva para cobrir a cabeça só possui sentido “sacramental” pleno para mulheres casadas ou comprometidas  (incluindo religiosas que são casadas com Cristo e noviças que estão se preparando para esse casamento místico). Quando a estudamos de modo contextualizado, vemos que a recomendação segundo a qual “a mulher deve ter um véu sobre sua cabeça”, entendida  como símbolo do poder do homem (exousia), refere-se não ao homem e à mulher enquanto tais, mas às mulheres casadas relativamente aos seus maridos. (Também notamos, porém, que o mesmo capítulo dá instruções aplicáveis a todas as mulheres; São Paulo alterna entre as mulheres em geral e as casadas, dizendo coisas diferentes apropriadas a cada grupo.) Por essa razão, o costume tradicional de todas as mulheres usarem véu na igreja parece se justificar no chamado natural e sobrenatural de cada mulher a ser esposa — seja de Cristo, na vida religiosa, seja de um marido em um casamento cristão. Mesmo antes de esse chamado ser atualizado, e ainda que isso jamais ocorra, trata-se de uma realidade ontológica e espiritual que precisa ser reconhecida, honrada e inserida no grande mysterium fidei celebrado na Santa Missa.

Razões práticas

Também há razões práticas para o uso do véu, e como elas se aplicam tanto às mulheres casadas como às solteiras, corroboram a antiga convenção que prescrevia o uso do véu por todas as mulheres na igreja.

Antes de mais nada, o uso do véu pode evitar a distração tanto para quem o usa como para outras pessoas. Quantas vezes não nos pegamos olhando para outras pessoas na igreja, em vez de nos concentrarmos na oração? O véu pode ser útil às mulheres. Aquelas que estão protegidas e cobertas por ele podem se concentrar melhor [6], recordando-se qual é a principal razão pela qual estão na igreja: trata-se de um momento sagrado, e estou aqui para adorar a Deus.

Outra razão para o uso do véu na igreja é certa “privacidade”, uma necessidade de estar a sós com Deus, em vez de manter uma postura de intimidade e sociabilidade com outras pessoas. Na Missa, o divino Esposo visita a alma cristã esponsal; deveríamos estar preparados para a visita dele. A moderna ênfase desmedida na dimensão social do culto frequentemente leva a uma perda de contato com a única realidade que torna todo o resto real: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que deveria ser recebido com plena e absoluta atenção da alma. O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Uma mulher que usa véu diz ao seu próximo: estamos aqui reunidos para adorar a Deus. Assim, ela presta um serviço aos outros, ajudando-os a se lembrarem o que é realmente a Missa. No final das contas, outras mulheres podem seguir-lhe o exemplo.

Portanto, há muitas razões que mostram a conveniência do uso do véu. Para as esposas, sobretudo, tem a mesma natureza que o hábito tem para as religiosas: é um sinal de seu chamado à consagração ao Senhor, com e por meio de seu marido. Em vez de ser um sinal de opressão das mulheres, é sinal de um amor genuíno e comprometido, assim como a Cruz é o maior sinal de amor já dado à humanidade.

Até esse modesto costume de nossos ancestrais é, então, parte de uma renovação litúrgica mais ampla e bem-sucedida que incorpora o passado adequadamente, compreende as verdadeiras necessidades do presente e preserva a beleza e o simbolismo do culto católico para os séculos vindouros. 

Notas

  1. Segundo Ronald Knox, alguns comentadores afirmam que Paulo está tentando, por meio dessa palavra grega, cunhar uma palavra hebraica que signifique o véu usado tradicionalmente por uma mulher judia.
  2. Esses anjos, usualmente identificados como querubins, são descritos dessa forma por Isaías, Ezequiel e o Apocalipse de São João, e sistematicamente em toda a tradição rabínica judaica. Para referências bíblicas, ver Cornélio a Lápide, Commentaria in Scripturam Sacram (Paris: Vives, 1868), 18: 355-56.
  3. A doutrina segundo a qual as mulheres não são iguais aos homens é herética e análoga à heresia do subordinacionismo, que nega a igualdade entre o Filho e o Pai. Isso está claro na encíclica Casti Connubii, do Papa Pio XI, que ensina que homens e mulheres possuem “igualdade na diferença” e “igualdade em chefia e subordinação”.
  4. Charles Williams, citado em Mary McDermott Shideler, The Theology of Romantic Love, Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Co., 1962, 81-82.
  5. Cf. Lectura super primam epistolam ad Corinthios, c. XI, l. 3, n. 612.
  6. Obviamente, estou falando de um véu mais longo, e não da versão estilo “toalhinha” que vemos às vezes. Não precisa ser feito de renda (embora esse tecido tenha a conveniência de poder ser afixado ao cabelo), mas pode ter o comprimento de um lenço comum de um material leve. Há também a questão dos chapéus. Embora seja verdade que chapéus possam cumprir a função de cobrir a cabeça (e de fato já cumpriram), pertencem mais ao mundo da moda do que à esfera da vida sacramental e litúrgica. Eles não possuem o peso simbólico pleno do véu.

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Eu estava indo para o Inferno!
Testemunhos

Eu estava indo para o Inferno!

Eu estava indo para o Inferno!

Com uma Igreja muda a respeito do pecado, foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente…

Pedro Penitente16 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Eu ainda me lembro do dia da minha conversão. Era julho, e eu estava de férias, na casa de alguns parentes, sentado diante de uma tela de notebook e lendo o livro “Preparação para a morte”, de Santo Afonso Maria de Ligório. Como fui me deparar com essa obra eu já não me lembro mais. Sei que o trecho que mexeu comigo estava num capítulo sobre os maus hábitos, e ele dizia o seguinte:

...o mau hábito os privou da luz. Diz Santo Anselmo que o demônio procede com certos pecadores como aquele que tem um passarinho preso por um cordel.

Ele o deixa voar, mas, quando quer, o faz cair por terra. Tal semelhança — afirma o santo — é aplicável àqueles que são dominados pelo mau hábito. Alguns há, acrescenta São Bernardino de Sena, que pecam sem que a ocasião se apresente. Compara-os este grande santo aos moinhos de vento que qualquer aragem faz girar e que continuam em movimento mesmo que não haja grão para moer, e, às vezes, até rodam contra a vontade do dono. Estes pecadores, observa São João Crisóstomo, vão forjando maus pensamentos, sem ocasião, sem prazer, quase contra sua vontade, tiranizados pela força do mau hábito.

Porque, segundo disse Santo Agostinho, o mau hábito se converte logo em necessidade. O costume, segundo nota São Bernardo, se muda em natureza. Daqui se segue que, assim como ao homem é necessário respirar, assim parece que o pecado se torna necessário para aqueles que habitualmente pecam e se fazem escravos do demônio.

Quando li aquelas palavras, senti-me perdido. Era a mim que elas se referiam! A mim, mais um infeliz fruto da educação liberal desta época; a mim, que tive um contato muito precoce com pornografia e ainda no começo da minha juventude aprendi a me masturbar, e a achar que não havia mal nenhum naquilo; a mim, que já olhava para todas as mulheres à minha volta como objetos sexuais à disposição, como as prostitutas dos filmes pornográficos a que eu assistia… 

Eis que eu estava ali. O “passarinho preso por um cordel”, o viciado que peca “sem que a ocasião se apresente”, o infeliz atormentado por “maus pensamentos”, o escravo do demônio… era eu, era eu

Que vergonha a minha, mas ao mesmo tempo… “eu preciso mudar”, disse a mim mesmo, “não posso continuar nessa situação”, “tem de haver uma saída”. Daquele dia em diante lembro-me de ter tomado a peito a batalha pela castidade. Eu não acreditava de verdade que aquilo fosse possível, porque, desde que meu corpo se tinha despertado para a sexualidade, eu a havia vivido de forma distorcida e depravada. Mas decidi “pagar pra ver” e, com a graça de Deus, pouco a pouco fui sendo transformado e redimido.  

De lá para cá muitos anos se passaram, muitas recaídas eu experimentei, mas hoje estou de pé e buscando dia após dia forças, nos sacramentos e na oração, para não voltar a essa situação terrível com que comecei minha juventude. Minha juventude, que poderia ter sido muito pior, que poderia ter sido arruinada, não fosse este santo do século XVII chamado Afonso me alertar, através de um arquivo “pdf”, que eu, com meu mau hábito, estava sendo escravizado por Satanás… 

Por isso, esse testemunho é, em primeiro lugar, um canto de gratidão a Deus e a Santo Afonso, instrumento dEle em minha vida. 

Mas esse testemunho também é um grito de socorro: foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente… Sim, porque esse “puxão de orelhas”, ou melhor, esse verdadeiro “chacoalhão”, eu não o iria receber jamais do pároco da minha cidade, nem no púlpito, nem no confessionário. Se eu me aconselhasse com ele para saber o que fazer, talvez ele me dissesse para “não me preocupar” com isso, para aproveitar a minha juventude ou algo do tipo. 

A começar pelo fato de que muitos padres hoje, infelizmente, não pregam nem atendem confissões: o púlpito foi abandonado pela transformação do sacerdote em “mais um” do povo, e o confessionário foi substituído pelas “salinhas” de consulta psicológica (e nelas, talvez, a gente escute com mais facilidade justamente o contrário do que ensina a doutrina de sempre da Igreja). Na Missa, o que temos são as homilias “motivacionais”, cheias de obviedades humanas e vazias de fé divina, cuja mensagem central você acha em um livro de autoajuda qualquer. Combinadas com a eloquência, essas palavras “bonitas” talvez até arranquem aplausos e lágrimas da “plateia” que as escuta; conversão, porém, verdadeiro arrependimento dos próprios pecados e confissão… disso nada se fala. Alguns padres hoje estão mais para coaches que verdadeiros curas de almas.

Como consequência disso, o que temos em nossas igrejas é um punhado de gente que, ou por ignorância ou por malícia mesmo, leva a vida como “escravos do demônio”. As pessoas vivem afundadas em seus maus hábitos, não se sentem minimamente incomodadas com o estilo de vida mundano que têm, e vão à igreja por puro hobby, como quem vai a um clube (às vezes até trajados a rigor). A conversão que eles conhecem é a do “bom-mocismo”: importa comportar-se, ter boas maneiras, não usar drogas e ser amigo de todo o mundo. No restante cada um é livre para fazer o que bem entende, desde que não incomode ninguém.

Esse infelizmente é o cenário de muitas paróquias Brasil e mundo afora. Como em muitas delas a Tradição da Igreja simplesmente desapareceu, como o vínculo que nos une — a nós, católicos do século XXI — com os fiéis católicos de todos os séculos anteriores, com os santos dos tempos passados, foi dissolvido sem que ninguém desse notícia, o que restou a muitas pessoas foi buscar recursos na internet e descobrir ali o que anos de frequência paroquial lhes sonegaram. 

Entenda-me bem: não se trata de defender aqui uma espécie de “catolicismo de internet”. (A imagem que vem à mente, com a expressão, é a de um indivíduo egoísta, sentado em frente a uma tela de computador, disposto a apontar o dedo para o mundo inteiro, exceto para si mesmo; a convocar uma “cruzada” contra os infiéis dentro da Igreja, ao mesmo tempo que evita “cruzar” com os próprios defeitos para mudá-los.) Nesse campo todo cuidado é pouco. Não podemos esquecer que a Igreja é uma realidade viva ainda hoje, na sua hierarquia, nos sacramentos e nos sacerdotes que os administram. Continua sendo verdade que unus Christianus, nullus Christianus, “um cristão sozinho não é cristão nenhum”. 

Mas eu também preciso pensar na grande providência que é a internet para a formação dos católicos hoje. Com ela, hoje, temos acesso fácil, instantâneo e gratuito a uma verdadeira biblioteca de bons livros católicos, que nos põem em contato com a fé de sempre e nos dão uma lufada de ar fresco, uma verdadeira libertação da falta de catequese, e até mesmo da má formação, que tantos de nós recebemos em nossa infância, seja dentro de casa, seja nas nossas paróquias. 

Não fosse esse instrumento, eu muito provavelmente ainda estaria deitando e rolando nos vícios do meu começo de juventude… Em outras palavras, eu estaria indo para o Inferno

Esse drama que eu estava vivendo, no entanto, é o drama atual de muitíssimas pessoas (católicas batizadas!), que se encontram na mesmíssima situação de miséria em que eu estava dez anos atrás. Quando elas ouvirão a voz da verdade (se é que terão a chance de ouvi-la)? Quando procurarão o sacramento da Confissão e voltarão para a amizade de Deus (se é que o farão)? Até que despertemos de nossa letargia, de nossa mudez e de nossa covardia em pregar a doutrina de sempre da Igreja, para salvar os vivos, talvez Deus precise continuar ressuscitando os mortos...

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Por que ficou tão difícil defender o óbvio?
Sociedade

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

É normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador...

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Continuamos a cambalear por conta dos golpes desferidos pela cultura da morte. O ataque à vida, e particularmente à família, instituição que gera e alimenta a vida, prossegue implacavelmente. Agora, nossos governos e tribunais deram o nome de “casamento” a um tipo de relacionamento antinatural e estéril, que noutra época não se poderia mencionar num ambiente respeitoso. Ser enxovalhado dessa maneira pode ser desorientador, e temos visto até pessoas boas começando a falar como se tivessem sido atingidas na cabeça muitas vezes.

Infelizmente, temos de admitir: nós aceitamos ser encurralados. Todavia, podemos mudar o ímpeto dessa luta, assumindo, em primeiro lugar, o controle da conversa, para que não sejamos controlados por chavões que servem apenas como distração; temos, por isso, de afastar o debate da palavra “casamento”, da qual tanto se abusa, e focar na palavra “matrimônio”, que pressupõe um vínculo que dá origem à maternidade. E não nos esqueçamos de acrescentar o adjetivo “santo”, que aponta para a sacralidade do ato diante de Deus.

Dessa maneira, levamos a discussão de volta ao princípio do que é uma família e qual é o seu papel na sociedade. Ao longo de toda a história humana, do mundo antigo ao moderno, a família sempre foi o “tijolo” fundamental da civilização. E é o que constrói, de fato, não apenas as quatro paredes do lar, mas também as paredes que protegem a cidade. Portanto, destruir a família equivale a destruir a sociedade, e redefinir a família é essencialmente o mesmo que destruí-la.

Se realmente quisermos ganhar essa batalha, deveríamos ler muito mais G. K. Chesterton, por exemplo. Na verdade, todos deveriam lê-lo. Chesterton é um defensor da fé, da família, da vida e — o que é especialmente necessário para os dias de hoje — ele é um defensor da normalidade. Afinal, é mesmo normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É mesmo normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador. Por isso Chesterton pode ajudar bastante.

Fundamentalmente, protegemos o lar porque é um lugar de liberdade, ainda que às vezes seja difícil defini-la. A esse respeito, Chesterton argumenta que o mundo fora da casa — o escritório, a empresa, o banco, a loja — é mais regrado e restritivo, além de ser menos respeitoso com a dignidade humana e a liberdade do que o lar. Vejam que o comércio está sempre preocupado com a moda, assim como a chamada “vida social”. Ambos estão sempre em busca do prazer, o que é bem diferente da felicidade; trata-se de uma questão de gosto, o qual acaba conduzido justamente pela moda. Assim, as pessoas terminam mais presas ao pequeno, estranho e badalado mundo fora do lar do que ao vasto, belo e permanente mundo dentro do lar.

Chesterton diz: “Reclamo da tendência antidoméstica porque ela é tola. As pessoas não sabem o que estão fazendo, porque não sabem o que estão desfazendo”. Toda discussão, acrescenta ele, é “uma evasão ou fuga isolada” que não pretende enfrentar o seguinte: para que serve uma família e como ela está sendo destruída.

Mas como chegamos a este ponto? Chesterton viu há mais de um século que isso aconteceria. O colapso moderno da família, diz ele, deve-se à “emancipação sexual”. Essa expressão abrange muitas coisas que estão interligadas: a perda dos papéis distintos do homem e da mulher, do marido e da esposa, do pai e da mãe; a desonra às promessas matrimoniais, que levou ao divórcio, à segunda união e a crianças com um ou três pais; a relutância à própria realização dos votos, que gerou a epidemia de “coabitação”, a qual, por sua vez, perpetua a infidelidade, a ilegitimidade e o abuso violento; a praga da pornografia, que tenta fazer do sexo algo solitário; e, agora, a mais recente novidade, o escárnio chamado “casamento homossexual”. Tudo isso é parte da “emancipação sexual”, ou seja, “sexo sem sexo”, a vã tentativa de nos libertarmos não apenas do vínculo matrimonial, mas das consequências e responsabilidades da intimidade matrimonial. É também a completa negação do fato evidente de que o sexo gera bebês e o melhor lugar para eles é uma família.

No entanto, destruímos a família e o fizemos sem pensar no que a substituiria. Chesterton diz: “Ninguém jamais discutiu qual seria a alternativa à Família. A única opção óbvia é o Estado… A terrível punição para a emancipação sexual não é a anarquia, mas a burocracia.”

Temos de fazer com que as pessoas entendam isso. Quando uma sociedade está inflamada pela luxúria, deve encontrar uma maneira de manter a ordem enquanto gratifica a si mesma. Inicialmente, a medida é sutil, mas de repente passa a ser oficial. A emancipação sexual leva à escravidão. Embora a escravidão da luxúria seja um aprisionamento pessoal, a emancipação sexual em larga escala põe a sociedade num estado de servidão. O crescimento do governo implica a perda da liberdade, pois o Estado substitui o papel dos pais. 

E isso também leva a ataques contínuos contra aqueles que ainda vivem em família, pois o Estado obriga as empresas privadas a disponibilizar contracepção e aborto, a educação pública impõe mentiras para as crianças e as novas leis e camadas de burocracia implementam à força a redefinição do matrimônio e da família. As novas leis se intrometem em todos os aspectos de nossa vida, particularmente na dimensão mais sagrada e importante dela: nossa relação com Deus. A emancipação sexual é inimiga da liberdade e, particularmente, da liberdade religiosa.

É por isso que a Igreja defende a família. Ela é o tijolo fundamental da sociedade, mas a religião é o cimento que mantém os tijolos unidos. A Sagrada Família é o modelo de família humana e também foi atacada pelo Estado quase imediatamente. A Igreja ocupa a posição ingrata de ter de salvar almas numa sociedade ímpia que quer destruí-las. Diz Chesterton: “Quando Deus é suprimido, o governo torna-se Deus.” Mas este não é o Deus que adoramos. 

De qualquer modo, não devemos nos desesperar agora. Afinal, não apenas temos o Deus único e verdadeiro ao nosso lado, mas temos uns aos outros. Chesterton recorda que há mais pais do que policiais. Em outras palavras, a família ainda é maior que o Estado. É a hora da coragem, do sacrifício e da alegria da batalha.

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