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Uma resposta católica às indignidades do homem moderno
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Uma resposta católica às
indignidades do homem moderno

Uma resposta católica às indignidades do homem moderno

Em uma sociedade atingida pela desumanização cada vez maior da pessoa, nada como recordar a vida e o magistério do Papa São João Paulo II.

Brian Kranick,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Janeiro de 2017
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Muitos podem ficar perplexos, mas é fato histórico que Adolf Hitler, um dos mais prolíficos genocidas em massa que o mundo já conheceu, foi também um vegetariano a quem causava horror a crueldade com os animais. Esse mesmíssimo e peculiar enigma foi revisitado quando a organização PETA (sigla em inglês para "Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais") lançou a peça publicitária "Holocausto no seu prato" (Holocaust on Your Plate), em 2003, comparando animais confinados para consumo a prisioneiros judeus em campos de concentração nazistas. Como notou Richard Weikart, ironicamente ambos os grupos, os nazistas e o PETA, caíram na falácia do antropomorfismo, obscurecendo a distinção que existe entre humanos e animais. Esses são exemplos extremos, mas que lançam luz sobre uma profunda confusão filosófica da era moderna a respeito da dignidade da vida humana. Subjacente a essa desvalorização do homem está uma negação implícita da personalidade.

Essa visão misantrópica infelizmente está em ascensão na cultura ocidental. Para se ter uma ideia do problema, basta olhar para a grande onda de indignação e repúdio às mortes do leão Cecil e do gorila Harambe. O outro lado da supervalorização da vida animal pode ser, muitas vezes, o desprezo pela vida humana; o escândalo por causa de Cecil e Harambe contrasta fortemente com a complacência de nossa cultura em relação ao aborto, à eutanásia, à eugenia, ao suicídio e ao suicídio assistido. Essa "cultura de morte" é a dimensão negativa do esforço moderno por remodelar o ser humano simplesmente como um animal ordinário, não mais dotado de uma dignidade ontológica ou de um propósito teleológico dados por Deus. A vida humana se torna dispensável, em comparação com o reconhecido bem maior da sociedade ou do Estado, ou com o capricho do indivíduo. O valor da pessoa humana hoje se tornou obscuro.

Como chegamos a esse ponto?

A mistura da dignidade do homem e do animal não é senão sintoma de uma outra confusão, mais geral e sutil. O crescente desapreço pelo fato de o homem ser especial atravessa os séculos, tendo como incremento subversões filosóficas às bases do verdadeiro conhecimento.

O núcleo dessa crise está na epistemologia. A amplitude e a profundidade do conhecimento humano foram sacrificadas nos altares do ceticismo e do materialismo. Esse erro epistemológico moderno gira em torno da negação de nossa verdadeira natureza humana como seres compostos, de corpo e alma. Como consequência dessa separação, os primeiros passos em falso foram dados na filosofia.

Alguns traçam os erros do secularismo moderno até Guilherme de Ockham, no século XIV, para quem essências universais, como a humanidade, não eram reais, mas apenas extrapolações nominais em nossas mentes. A teoria de Ockham era de que não existiam formas universais, apenas formas individuais. Isso minou parte de nossa habilidade de explicar a realidade objetiva. Se não há nenhuma forma humana universal, ou natureza humana, então estamos privados de satisfazer os fins de nossa natureza e o nosso propósito teleológico. Uma vez que essas coisas se foram, não é difícil imaginar uma confusão de personalidade e uma perda de ética.

Na era do Iluminismo, empiristas como Locke e Hume propuseram que apenas o fenômeno de uma coisa podia ser conhecida, não a coisa em si. Assim como Ockham, eles rejeitaram o conhecimento abstrato dos universais em favor simplesmente da experiência sensível. Em outras palavras, eles trocaram nosso conhecimento intelectual e espiritual por um semelhante ao dos animais. Kant, de modo similar, só admitia que conhecêssemos "as coisas tal como se conheciam", tal como interpretadas pela mente, mas não "as coisas em si mesmas". Esse "geocentrismo epistemológico", como o chamava o padre Stanley Jaki, impede-nos de conhecer a Deus, a alma e a natureza completa da realidade.

Mas talvez o golpe mais devastador ao entendimento de nossa natureza composta venha do materialismo biológico, na forma do darwinismo do século XIX. A teoria de Darwin tornou o materialismo biológico estrito e o cientificismo os únicos conhecimentos predominantemente "aceitáveis". Não mais era necessária uma criação especial do homem por Deus, ou uma alma intelectual e imaterial. O homem seria apenas um primata evoluído, criado através de forças cegas, erros genéticos e graças à sobrevivência dos mais fortes. A separação de corpo e alma, iniciada em filosofias dos séculos anteriores, estava agora completa. Como notou Chesterton, "o que a evolução nega em especial não é a existência de Deus, mas a existência do homem". O homem não era mais um ente composto espiritual, mas apenas uma criatura física.

O mundo que o materialismo forjou

Esse reducionismo materialista teve grandes repercussões na visão de mundo moderna e na desumanização do homem. Quando os materialistas finalmente tomaram o poder, os regimes comunistas, de Stálin, Mao e Pol Pot, mataram cerca de 100 milhões de pessoas. Também o darwinismo social se infiltrou no pensamento do Ocidente, espalhando a ideia de que havia pessoas "aptas" e "inaptas", bem como raças "superiores" e "inferiores". Isso se tornou notável na Alemanha nazista, onde noções racistas eram supostamente "provadas" e "justificadas" pela ciência. Hitler abraçou completamente essa ideia da ética evolucionista em sua marcha rumo à guerra e ao genocídio.

A evidência do século passado mostra como a ética evolucionista é, na verdade, ética nenhuma. Ela mina nossa segurança em relação à moralidade, tornando-a subjetiva e, no espírito dos nossos tempos, relativista. O reducionismo material alterou a visão das pessoas sobre a santidade da vida humana, desvalorizando o que significa ser humano. A alma se tornou meramente um epifenômeno da matéria. Nesse sentido, o Cristianismo está em desacordo com o materialismo darwinista estrito, tal como oposto à teoria geral da evolução, com a qual, na verdade, não existe conflito algum. Esse materialismo dogmático nega a priori até mesmo a possibilidade de causalidade final no homem. Ela reprime falsamente a razoabilidade da fé em Deus, de nossos princípios morais e o conhecimento de nós mesmos como seres espirituais.

Infelizmente, esse reducionismo epistemológico não tem só persistido, mas também aumentado, até o presente. Ainda que haja algum progresso contra a cultura da morte, ainda permanece uma espécie de amnésia, persistindo em nossa psiquê cultural, acerca da dignidade humana. Não surpreendentemente, também tem acontecido um simultâneo afastamento da fé, como evidenciam os números recorde de não-religiosos e ateus em entrevistas recentes (i.e., o "crescimento dos Nenhum", que assinalam "nenhuma" preferência religiosa).

Uma resposta católica

Como nós, católicos, devemos reagir a tudo isso? Comecemos reafirmando que existem muitas razões boas, intelectuais e multifaces para crer. O Cristianismo e a fé em Deus são perfeitamente razoáveis, não obstante os protestos dos materialistas científicos modernos e dos ateístas. Ciência e teologia, fé e razão não são opostas uma à outra, mas são "como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade" [1]. De fato, nunca antes se teve disponíveis tantos registros científicos avançados que apontam para um Criador. Que melhor comprovação poderia haver, por exemplo, do argumento cosmológico de Santo Tomás para Deus como o "primeiro motor", que o Big Bang e a sua última evidência: radiação cósmica de fundo em micro-ondas?

O Cristianismo foi construído sobre a revelação, é claro, mas também sobre a razão. Jesus mandou-nos amar a Deus com todo o nosso entendimento (cf. Mt 22, 37). A tradição intelectual do Ocidente e a sua ciência empírica são, no fim das contas, frutos de nossa civilização cristã. A disputa com o secularismo moderno só surge com a negação materialista de Deus e da alma humana, por serem uma negação de nosso próprio ser. O ateísmo sofre de um defeito epistemológico, que é o de negar a personalidade. Como afirma o Papa Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum, de 1891, "o que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência" [2]. Devemos abraçar a ideia da personalidade e a filosofia do personalismo como parte de nossa ética e visão de mundo, e como um bastião contra as filosofias desumanizadoras de nosso tempo.

Um dos grandes proponentes da moderna filosofia do personalismo foi o Papa São João Paulo II. Quando era apenas Karol Wojtyla, ele testemunhou em primeira mão essas forças desumanizadoras do materialismo na Polônia, inicialmente sob a ocupação nazista e, depois, debaixo do comunismo soviético. Ele esteve no epicentro de ambas as sanhas totalitárias e observou o que chamava de "pulverização" da pessoa humana. Foi em reação a essas ideologias destruidoras e às tiranias políticas subsequentes que ele ajudou a liderar um novo movimento filosófico e uma teologia moral focada na dignidade absoluta da pessoa humana.

Wojtyla defendia um "personalismo tomista", uma filosofia focada na dignidade transcendente de cada pessoa. O seu personalismo em particular era fundado na metafísica clássica de Santo Tomás de Aquino, bem como na visão cosmológica do ser humano como um ente apartado do resto da criação por seu intelecto e por sua natureza racional.

Wojtyla procurou ir além disso, no entanto, a fim de explicar a "totalidade da pessoa". Ele reconhecia a grande importância, para a experiência humana, da perspectiva interior. Esta ele a chamava de "subjetividade", experimentada na consciência de cada pessoa, da qual não poderia sequer haver duas iguais. Cada pessoa, então, é absolutamente irrepetível, insubstituível, incomunicável e irredutível.

O Papa João Paulo falava disso em termos práticos, em seu "princípio personalista", dizendo que o ser humano deve sempre ser tratado como um fim em si mesmo, sem jamais ser submetido a outrem como meio para atingir um fim. Internalizar esse princípio produziria inevitavelmente aplicações práticas concretas, tais como ir contra a escravidão e o tráfico humano. Mas também poderia ajudar a colocar a sociedade atual contra a normalização dessa cultura de morte, com seus impulsos de descaracterizar a pessoa humana, como se viu recentemente na Holanda — onde praticaram a eutanásia com um homem por ele ser alcóolatra — e no discurso de Peter Singer — o ético utilitarista de Princeton que pediu pelo fim da vida de crianças deficientes.

Cada ser humano é único

Como católicos, nós devemos sempre defender a dignidade inviolável da pessoa humana, princípio que remonta ao próprio Gênesis, é claro, onde lemos que "Deus criou o homem à sua imagem" (Gn 1, 27). O Magistério faz eco disso ao chamar cada um de nós de "sinal do Deus vivo, ícone de Jesus Cristo" [3]. Temos uma transcendência interior em comum com nosso Criador. Nós, humanos, somos relacionais e seres sociais, feitos em conformidade com Deus, uma trindade de Pessoas intrarrelacionais.

Por ser imagem de Deus, há algo de especial no homem, que o separa de todo o resto da criação. Nós, sozinhos, podemos dizer "Eu". Nenhum outro animal, por mais belo que pareça, pode pronunciar algo assim. Eles estão limitados pelo instinto. Mesmo nos mais elevados primatas, como no caso fascinante de Koko, a gorila que se comunica por sinais, a disparidade continua sendo imensa. Nas palavras do Papa João Paulo, é preciso dar "um salto ontológico" para atravessar o "grande abismo" que separa pessoa e não-pessoa. Só o ser humano é capaz de pensamento racional e abstrato, livre arbítrio, autoconsciência, ação moral, linguagem complexa, progresso tecnológico, propósito elevado, altruísmo, amor, criatividade, oração e adoração. O ser humano é diferente em grau e em substância, porque Deus formou cada pessoa da infinitude de Si mesmo [4].

No Novo Testamento, Jesus dá-nos o coração do personalismo com seu mandamento de "amar ao próximo como a si mesmo". Porque, como ele revela noutro lugar, "o que tiverdes feito ao menor destes meus irmãos, foi a Mim que o fizestes". Ao abraçar essa noção personalista em nossas vidas, nós nos livramos de nosso próprio egoísmo e frieza em relação ao próximo. Tornamo-nos capazes de ver a face de Deus no outro. Essa é a nossa vacina contra a desumanização da pessoa, juntamente com a adoção de uma cultura da vida que resista a séculos de ceticismo e materialismo e nos atraia a um conhecimento mais completo. O materialismo é apenas parcialmente verdadeiro. Ele nega a natureza mais elevada de nosso ser espiritual. Ao reconhecer a imagem de Deus em cada um, vemos o valor universal ontológico de cada pessoa, mesmo dos aparentemente menores e mais fracos de nós. Assim podemos, à luz do sacrifício de Cristo, contemplar "quão precioso aos olhos de Deus e quão inestimável é o valor da sua vida" com "a dignidade quase divina de cada homem" [5] — e agir de acordo com essa verdade.

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Matrimônio, “um duelo até a morte”
Espiritualidade

Matrimônio, “um duelo até a morte”

Matrimônio, “um duelo até a morte”

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. Trata-se de um “duelo até a morte”, não contra a pessoa amada, mas por causa dela.

Nathanael Blake,  The Public DiscourseTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Dezembro de 2018
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O matrimônio é um duelo até a morte, do qual nenhum homem honrado deveria fugir”. Como muitos dos aforismos de G. K. Chesterton, essa linha ilumina… e surpreende. É uma bela fala de um personagem da obra Manalive, e muitos leitores sentirão que ela tem algo de verdadeiro.

Ainda assim, com um pouco mais de reflexão, ela não deixa de ser confusa. Quem são os duelistas? Se são marido e mulher, então o ditado torna-se sombrio de uma forma decididamente não-chestertoniana: não é possível que ele quisesse louvar os conflitos desagradáveis que tornam miseráveis tantos casamentos. E mesmo se a expressão quisesse referir-se tão-somente a uma “disputa romântica”, ainda assim ela seria exagerada e míope. Os cônjuges podem competir graciosamente às vezes, mas o casamento também está repleto de trabalhos terrenos — lavar roupas, agendar consultas médicas, lavar a louça etc. Descrever esse esforço comum na vida como um duelo seria entendê-lo da maneira errada. Além disso, Chesterton certamente não quis dizer com essa frase que os homens não-casados, inclusive os padres de sua própria fé católica, são todos desonrosos.

Mas a linha de Chesterton, nesse conto fantástico de sua autoria, soa como uma frase belamente articulada e de modo algum é destituída de sentido. Para os homens, o casamento é deveras um duelo até a morte, não contra a própria esposa, mas por causa dela. Os votos de nosso matrimônio tradicional são quase tão românticos quanto quaisquer juramentos que o cavaleiro de um livro de histórias já tenha feito. Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, renunciando a todas as outras pessoas, até que a morte nos separe — tais promessas são um desafio contra o mundo inteiro, se for necessário. O duelo não é contra a própria esposa, mas contra tudo e contra todos em potencial, inclusive contra si mesmo. A busca por viver fielmente os próprios votos é ora difícil, ora alegre, mas a medida não se distribui igualmente. Aderir a essas promessas pode acarretar um sofrimento terrível.

Tal é o risco do amor.

Como nos lembra C. S. Lewis, “amar plenamente é ser vulnerável”. Amar outra pessoa significa tornar-se refém seja da sorte, seja de uma vontade alheia. Os votos do matrimônio cristão tradicional são explícitos nesse ponto: a pessoa promete permanecer casada estando na pior situação, na pobreza e na doença, se for o caso. A prudência pode mitigar alguns dos riscos; mas, apesar de tudo, o casamento continua a ser uma aceitação de vulnerabilidade por toda a vida, se esses votos forem levados a sério. Para citar Chesterton (mais uma vez em Manalive): “Matrimônios imprudentes!... Onde no céu ou na terra existiram quaisquer matrimônios prudentes? Poder-se-ia falar igualmente de suicídios prudentes.” Um compromisso até a morte não é prudente, se uma pessoa está olhando apenas para si mesma.

E o casamento é uma morte de si, porque estabelece, no lugar do “eu” solitário do indivíduo, um “nós” por toda a vida. A união física do casamento, que a Bíblia descreve como “uma só carne”, é apenas uma parte da fusão que é o casamento, na qual o próprio eu, embora não seja abolido, volta-se de modo irrevogável para a outra pessoa. Ceder o controle sobre a própria vida dessa forma pode ser apavorante, e muitos se recusarão a fazê-lo. Pense-se, por exemplo, no eminente filósofo Jean-Jacques Rousseau, que ao longo de toda a vida procurou um meio de ter amor sem vulnerabilidade. Isso simplesmente não é possível nesta vida.

É possível ter prazer ao mesmo tempo em que se tem controle e segurança, mas amor não. E o prazer sem amor se esvai. Por isso, Lewis concluiu seus comentários sobre a vulnerabilidade do amor com um alerta: “O único lugar, fora o Céu, onde você pode ficar perfeitamente a salvo de todos os perigos e perturbações do amor, é o Inferno.” Aqueles que não arriscam seus corações acabarão fazendo de si mesmos pessoas sem coração. É por isso que os tradicionais votos matrimoniais admitem a possibilidade de corações partidos, pois, se os corações não endurecerem ao longo dos anos, ao menos um deles se partirá quando a morte fizer a sua parte.

Ainda assim, aqueles que amam continuam casados, não apenas por um costume social ou pelos benefícios que a estabilidade do romance e da família proporcionam à sociedade, mas porque o amor os impele a agir assim. Há algo a respeito do amor que nos induz a fazer promessas de fidelidade eterna, como se soubéssemos que tal fidelidade oferece um modo de vida melhor, sejam lá quais forem os riscos que se corram. É uma aliança o que permite que um relacionamento se mova da potência ao ato. O eu que sacrifica sua autonomia sobre o altar do matrimônio se verá mais plenamente realizado nesse relacionamento. Só quando eliminamos as outras opções do que nos poderíamos tornar é que podemos entrar no negócio de nos tornarmos alguma coisa; só renunciando a todas as outras pessoas é que poderemos realizar plenamente nosso relacionamento com uma única pessoa.

Mas, nessa matéria, há uma heresia em potencial que ronda nossa cultura: a da “alma gêmea” (da “tampa da panela”, da “metade da laranja”, ou seja lá como se queira chamá-la). Trata-se de uma noção quase espiritual: existe uma pessoa com a qual você nasceu para estar e, se você se casar com essa pessoa, você será feliz no casamento. Essa visão, abraçada por alguns cristãos, é como um bálsamo para as preocupações relativas aos riscos de se fazer uma aliança, mas ao mesmo tempo torna as coisas piores. A ideia passa a ilusão de que o romance e o casamento com a alma gêmea serão fáceis, mas essa garantia de conforto serve como uma desculpa, tanto para a preguiça (a moral e a outra) em um relacionamento, quanto para o abandono do casamento quando os problemas inevitavelmente aparecem. Além disso, a pessoa que parece ser a alma gêmea de alguém aos 20, 25 ou 30 anos pode se tornar um “encosto” mais tarde. O “par perfeito” para um ego imaturo impedir-lhe-á o amadurecimento, não deixará espaço para que ele se desenvolva. Assim, a ideia da alma gêmea, vinda da cultura pop, deixa de levar em conta o dinamismo e o desenvolvimento necessários para sustentar um relacionamento por toda a vida.

A noção da alma gêmea também ignora as realidades do livre-arbítrio e da pecaminosidade humana, que podem corromper e destruir inclusive relacionamentos entre almas gêmeas, se elas existissem na forma como são concebidas pela imaginação popular. Assim, a recusa de reconhecer a fragilidade de todos os pares humanos faz com que a noção da alma gêmea se transforme em um ídolo que nos afasta de nossos votos matrimoniais. J. R. R. Tolkien observou os perigos dessa falsa ideia das almas gêmeas em uma carta ao seu filho Michael. Eis o seu alerta:

Quando o glamour se vai, ou simplesmente diminui, as pessoas acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está por ser encontrada. A verdadeira alma gêmea se revelará, com muita probabilidade, como a primeira pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem, de fato, elas deveriam ter-se casado, com muito proveito para si mesmas, se pelo menos… Daí o divórcio, a fim de providenciar o “se pelo menos”. E, é claro, via de regra elas até que estão certas: elas cometeram de fato um erro. Só uma pessoa muito sábia poderia, ao fim de sua vida, fazer um julgamento sadio de com quem, entre todas as alternativas possíveis, ela deveria ter-se casado com mais proveito!... Mas a “verdadeira alma gêmea” é a pessoa com a qual você se encontra casado de fato.

É necessário escolher cuidadosamente a própria companheira de vida, é claro, mas não devemos supor que encontraremos apenas conforto e compatibilidade perfeita se encontrarmos a pessoa certa. Ademais, nós poderíamos acrescentar ao conselho de Tolkien o seguinte: mesmo se houvesse uma pessoa perfeita preparada para você, o que faria você pensar que a merece? Ou que você gostaria mesmo de uma alma gêmea perfeita? Talvez o que você procura em uma alma gêmea é bem diferente do que aquilo de que você precisa. Uma pessoa realmente perfeita para você, ao invés de o deixar correr solto, o que gostaria era de que você se tornasse uma pessoa melhor, e muitos de nós não acolheremos essa correção, não importando o quão docilmente estejamos orientados para melhorar.

A tolice das almas gêmeas não dá nenhuma resposta para a vulnerabilidade do amor e para os riscos de uma aliança matrimonial por toda a vida. O que há é apenas uma escolha inicial (tomada com prudência, assim se espera) e então a tentativa, que durará a vida inteira, de ser fiel aos próprios votos, não obstante as tragédias, os sofrimentos ou mesmo o agradável tédio de uma vida comum levada em meio à prosperidade do mundo moderno. Embora esteja na moda menosprezar como chato e sem graça um homem e uma mulher comuns partilhando a vida no casamento, normalmente um casal assim se compromete a uma missão muito mais desafiadora e romântica do que qualquer coisa a ser tentada por um boêmio libertino.

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. No casamento, homens e mulheres se prometem uns aos outros e mandam o destino às favas. As tradicionais promessas que tornam solene um matrimônio constituem uma das mais dignas e importantes atividades humanas. Nossa liberdade não se concretiza na possibilidade de fazermos algo, mas, sim, em fazer aquilo que demos a nossa palavra que faríamos. A liberdade humana se consuma na autolimitação voluntária da promessa feita e cumprida. No ato de fazer e manter promessas, nós nos posicionamos frente ao mundo e ao futuro como agentes ativos, e não como seres meramente passivos reagindo às circunstâncias. A força dos juramentos na ficção, na literatura e no direito deve-se à prova que eles fazem da vontade humana livre dentro do cosmos.

Como observava Hannah Arendt, é o ato de fazer e manter promessas, bem como o de perdoar, que põe fim às reações impulsivas e permite-nos começar alguma coisa nova. Vistos sob essa perspectiva, os votos matrimoniais não são um fim a inaugurar um estado imóvel, mas um começo a permitir o florescimento de algo novo. Ao viver nossos votos matrimoniais, renovamos nossa liberdade e nossa dignidade como agentes, ao mesmo tempo que unimos as duas metades da raça humana em uma união a dar-lhe continuidade.

E, para os cristãos, isso permite entrever um pouco como o matrimônio é uma fonte de graça e uma imagem de Cristo e sua Igreja. Jesus Cristo passou a vida em humilde serviço para estabelecer sua Igreja, até finalmente morrer por ela. Nada do que Ele nos pede, a fim de mantermos nossos votos no matrimônio, será mais difícil de suportar do que aquilo por que Ele já passou por nossa causa.

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Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...
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Quando uma vítima do nazismo
reencontrou seu torturador...

Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...

O que acontece quando uma vítima do nazismo, católica devota, fica face a face com o homem que a havia torturado, 40 anos antes? Conheça a história emocionante de Maïti Girtanner.

K. V. Turley,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Dezembro de 2018
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Esta é a história de uma jovem mulher, pianista de talento, que depois da invasão nazista à França começou a trabalhar na resistência ao regime. A prisão e a tortura que ela sofreu nas mãos da Gestapo fizeram com que ela ficasse inválida e sentisse dores agudas pelo resto da vida. É desnecessário dizer que, depois disso, ela não pôde realizar o sonho de se tornar uma pianista profissional.

Nas décadas que se seguiram, Maïti Girtanner, cristã devota, lutou com a raiva e com os sentimentos de vingança que a tortura havia deixado nela. Mal sabia ela que o médico nazista que a tinha torturado também sobrevivera à II Guerra Mundial. Menos ainda ela poderia prever que, 40 anos depois de seu primeiro encontro com aquele médico, seus caminhos viriam a se cruzar uma vez mais.

Maïti Girtanner, em sua juventude.

Em março de 2014, um obituário apareceu no jornal The Times falando da morte recente de Maïti Girtanner. Natural da Suíça, a história de Girtanner é mais conhecida pelo público francófono, mas permanece em grande parte oculta para o resto do mundo. Trata-se de uma história vinda de outra era, dos anos dolorosos da II Guerra Mundial, mas com uma lição permanente para todos os tempos. É uma história de sofrimento humano, e de uma resposta a ele. É uma história que nos recorda mais uma vez qual é a única forma verdadeira de enfrentar o sofrimento e suas dolorosas consequências.

Quando o exército de Hitler tomou a cidade de Paris em 1940, Marie Louise Alice Eleonore, conhecida como Maïti Girtanner, contava 18 anos. Ela havia nascido em uma família de músicos. Ainda pequena demonstrou que também possuía talento para a música, apresentando-se em seu primeiro concerto com apenas 9 anos de idade. “Soube desde cedo que um caminho havia sido demarcado para mim. Eu tinha nascido para ser pianista. A música era minha vida.”

Em meados de 1941, entretanto, Maïti viu-se envolvida em uma rede secreta: a Resistência Francesa. Ao mesmo tempo que dava recitais de piano para as elites nazistas que então ocupavam a França, ela coletava informações para os franceses que lutavam contra o ocupação alemã. Sem mais nem menos, ela foi presa em outubro de 1943 e levada para um centro de detenção na cidade de Hendaia, destinado a membros da Resistência.

Foi nesse centro que Maïti foi torturada por um jovem médico nazista chamado Leo e, como consequência disso, teve seu sistema nervoso central seriamente comprometido, a ponto de nunca mais poder tocar piano. Em fevereiro de 1944, ela ainda se encontrava encarcerada e mal podia ficar de pé sem ajuda de alguém, tão mal fora tratada. Só com a chegada da Cruz Vermelha ela foi finalmente resgatada de seu pesadelo e recebeu um tratamento hospitalar.

Maïti passou o restante de sua vida em meio a dores crônicas. Apesar de não poder mais tocar piano, o profundo desejo de voltar à música nunca a abandonou. Também como resultado da tortura sofrida, havia-lhe sido negada a possibilidade de ter uma família ou de levar uma vida minimamente normal, como a que levava antes de 1940. Pouco a pouco, ela foi-se dando conta de que pelo resto da vida as sequelas da tortura que sofrera imporiam limites à sua existência física.

Sempre devota, a partir de então ela abraçou a fé mais do que nunca, tornando-se uma terciária dominicana. Em carta a uma amiga ela disse simplesmente: “Eu não posso fazer da minha vida uma tragédia”.

Até aqui, a história de Maïti já impressiona por muitos aspectos, mas isso só aumentaria nos anos seguintes à guerra, quando ela começou a refletir sobre a sina que lhe fora reservada. A partir disso, ela se viu diante de um dilema: viver com ódio do homem que a havia debilitado ou escolher perdoá-lo. Ela começara a entender que o perdão não podia jamais ser uma ideia intelectual; ao contrário, tinha de ser algo dirigido a alguém. Ela escreveu: “O perdão não acontece em abstrato. Ele pede por uma pessoa a quem possa ser dirigido, alguém que o possa receber.” Ela começou a rezar por seus carrascos e, em particular, pelo jovem médico que a torturara.

Em 1984, tão inesperadamente como sua prisão em 1943, Maïti foi contactada por Leo, o médico nazista. Agora velho e enfermo, diagnosticado com uma doença terminal, ele enfrentava o medo da morte. Tendo se lembrado da jovem mulher cristã que, mesmo enquanto era torturada, se apegava à própria fé em Deus e em um céu, Leo escreveu-lhe perguntando se ela ainda acreditava em tais coisas. Maïti escreveu-lhe de volta e disse-lhe que sim, que ainda acreditava. Isso levou a mais contatos, não menos do que o que havia acontecido entre os dois 40 anos antes. Leo decidiu visitar Maïti.

Quantas memórias dolorosas aquela troca de correspondências havia trazido a Maïti, só se pode imaginar a partir dos pensamentos e das emoções que ela experimentou enquanto esperava a visita de seu algoz. Provavelmente, ela também sabia que esse segundo encontro seria, tanto para ela quanto para Leo, tão decisivo quanto o primeiro, 40 anos antes.

Ao chegar à casa de sua antiga “paciente”, o ex-médico implorou por seu perdão. Ela tomou-lhe a cabeça por entre as mãos, beijou-a e, enquanto o abraçava, perdoou-lhe.

Depois daquele momento, ela disse: “Eu o abracei a fim de colocá-lo dentro do coração de Deus. E [enquanto eu fazia isso] ele murmurou: ‘Me perdoe’.”

Seja qual for o presente que Leo recebeu naquele dia, outro presente ainda maior foi dado a Maïti Girtanner. Ela havia rezado ao longo de 40 anos pela graça de perdoar, pois sabia que, por meio daquele ato, também ela seria libertada. Daquele dia ela diria mais tarde: “Perdoá-lo libertou-me”.

Naquele encontro totalmente imprevisto, em 1984, as orações de Maïti Girtanner foram estranhamente atendidas.

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Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias
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Bispos anglicanos querem
ideologia de gênero em suas liturgias

Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias

Diretriz pastoral recém-publicada pela Igreja da Inglaterra orienta sacerdotes a oferecer cerimônias parecidas com o batismo para pessoas transgêneras e suas “novas identidades”.

Doug Mainwaring,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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A Igreja Anglicana, a maior denominação cristã no Reino Unido, está evitando chamar sua recém-instituída bênção para “transgêneros” de um “segundo batismo”, mas a orientação é para que seus sacerdotes ofereçam cerimônias parecidas com o sacramento para aqueles que anunciarem sua nova identidade sexual.

Em uma diretriz pastoral publicada nesta semana, o clero anglicano é orientado a chamar os homens por seus novos nomes femininos, e as mulheres por seus novos nomes masculinos. O documento declara: “O rito do ministro de se dirigir à pessoa trans usando pela primeira vez o nome que ela escolheu, pode ser um momento poderoso na liturgia”.

“Deve-se notar que o ato de dar ou adotar um novo nome tem uma longa história na tradição judaico-cristã, atestada pela Escritura”, diz o documento. “Em alguns círculos cristãos, por exemplo, existe o costume de os fiéis adotarem um nome adicional ou o nome de um santo no momento de sua confirmação.”

O clero também é aconselhado a respeitar os pronomes do gênero escolhido pela pessoa, ainda que eles não correspondam à realidade.

Denominado Afirmação da Fé Batismal, o rito convida as pessoas já batizadas e confusas com o próprio gênero a “renovarem publicamente os compromissos firmados no batismo e dá a possibilidade, aos que passaram por uma grande transição, de dedicarem novamente suas vidas a Jesus Cristo”.

Para as pessoas “transgêneras” ainda não batizadas e que procuram ingressar na Igreja da Inglaterra, a nova orientação descreve o batismo como o “contexto litúrgico natural para reconhecer e celebrar-lhes a identidade”.

Ao invés de criar um novo sacramento, os bispos anglicanos estão recomendando que o já existente sacramento do batismo e a afirmação dos votos batismais sejam deformados não apenas para acomodar mas também para celebrar a disforia de gênero dentro de suas igrejas.

A diretriz emitida pela Casa Episcopal da Igreja Anglicana na terça-feira (11) adverte os pastores a imporem as mãos sobre o fiel e a rezar usando o novo nome de transgênero por ele escolhido. Os pastores também são orientados a incorporar a esse rito a aspersão de água benta e a unção com óleo consagrado.

Andrea Minichiello Williams, chefe-executiva da organização evangélica Christian Concern e leiga membro do Sínodo Geral da Igreja Anglicana, criticou a nova orientação, dizendo que se trata de uma continuação da “trajetória devastadora [da instituição] rumo a uma franca negação de Deus e de sua Palavra”.

“A finalidade do batismo é configurar uma pessoa a Jesus, quando ela começa uma vida no seguimento dEle”, defende Andrea. “Usar uma afirmação do batismo para celebrar uma transição de gênero vira isso de ponta cabeça e encoraja as pessoas a seguirem seus próprios sentimentos e a viverem com identidades contrárias ao modo como Deus as criou.”

Não é sinal de amor desviar as pessoas — e, mais amplamente, a sociedade — para os mitos e as falsidades da ideologia de gênero”, ela concluiu.

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O impressionante martírio de Santa Luzia
Santos & Mártires

O impressionante
martírio de Santa Luzia

O impressionante martírio de Santa Luzia

Popularmente conhecida como protetora dos olhos, Santa Luzia deu um belo testemunho de pureza antes de ser martirizada e “só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor”.

Beato Tiago de Varazze12 de Dezembro de 2018
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O nome Luzia (ou Lúcia) vem de lux, “luz”. A luz é bonita de se ver porque, segundo Ambrósio, ela está por natureza destinada a ser graciosa para a visão. Ela se difunde sem se sujar, por mais sujos que sejam os lugares em que se projeta. Seus raios seguem linha reta, sem a menor curva, e sem demora ela atravessa imensas extensões.

Daí ser apropriado o nome de Luzia para aquela virgem bem-aventurada que resplandece com o brilho da virgindade sem a mais ínfima mácula, que difunde calor sem nenhuma mescla de amor impuro, que vai direto a Deus sem o menor desvio, que sem hesitação e sem negligência segue em toda sua extensão o caminho do serviço divino. Lúcia também pode vir de lucis via, “caminho da luz”.

Lúcia, virgem de Siracusa, de origem nobre, ouvindo falar por toda a Sicília da fama de Santa Ágata, foi até o túmulo dela com a mãe, Eutícia, que havia quatro anos sofria de hemorragias sem esperança de cura. Naquele dia, lia-se na Missa a passagem do Evangelho na qual se conta que o Senhor curou uma mulher que padecia a mesma doença (cf. Mt 9, 20-22; Mc 5, 25-29; Lc 8, 43-48).

“Martírio de Santa Luzia”, atribuído a Elisabetta Sirani.

Lúcia disse então à mãe: “Se acreditas no que foi lido, deves crer que Ágata está na presença dAquele por quem ela sofreu. Portanto, tocando o túmulo dela com fé, logo estarás completamente curada.”

Quando todo o povo partiu, mãe e filha ficaram orando perto do túmulo. O sono apossou-se de Lúcia, que viu diante dela, de pé, Ágata rodeada de anjos e ornada de pedras preciosas dizendo-lhe: “Minha irmã Lúcia, virgem toda devotada a Deus, por que pedes a mim o que tu mesma podes conseguir, neste instante, para tua mãe? Fica sabendo que ela acaba de ser curada pela fé.”

Lúcia despertou e disse: “Mãe, tu estás curada. Em nome daquela por quem acabas de obter a cura, peço-te que não me procures um esposo, e que meu dote seja distribuído aos pobres.” Respondeu a mãe: “Depois que eu fechar os olhos, tu podes dispor de teus bens como quiseres”. Lúcia replicou: “Se me dás alguma coisa ao morrer, é porque não podes levá-la contigo; dá-me enquanto estás viva e serás recompensada.”

Voltando para casa, passaram todo o dia a vender uma parte dos bens, distribuindo o dinheiro aos pobres. A notícia da partilha do patrimônio chegou aos ouvidos do noivo, e ele perguntou a razão daquilo à mãe de Lúcia. Esta respondeu que sua filha havia encontrado um investimento mais rentável e mais seguro, daí estar vendendo seus bens.

O insensato, crendo tratar-se de um comércio plenamente humano, passou a colaborar na venda daqueles bens, buscando os melhores negócios. Quando soube que tudo o que fora vendido tinha sido dado aos pobres, o noivo levou-a à justiça, diante do cônsul Pascásio, acusando-a de ser cristã e de violar as leis imperiais.

Pascásio convidou-a a sacrificar aos ídolos, mas ela respondeu: “O sacrifício que agrada a Deus é visitar os pobres e prover às suas necessidades, mas como não tenho mais nada a dar, ofereço a Ele a mim mesma.”

Pascásio retorquiu: “Poderias dizer essas coisas a um cristão insensato como tu, mas a mim, que executo os decretos dos príncipes, é inútil argumentar assim.”

Lúcia rebateu: “Tu executas as leis de teus príncipes; eu executo a lei do meu Deus. Tu temes os príncipes, eu temo a Deus. Tu não gostarias de ofendê-los; eu evito ofender a Deus. Tu desejas agradá-los; eu anseio ardentemente agradar a Cristo. Faz então o que julgares útil para ti, e eu farei o que sei que me será bené­fico.”

Pascásio replicou: “Tu dilapidaste teu patrimônio com uns depravados e agora falas como uma meretriz.” Lúcia retrucou: “Pus meu patrimônio num lugar seguro e nunca conheci os que depravam espírito e corpo.”

Pascásio perguntou-lhe: “Quem são esses corruptores?” Lúcia respondeu: “Os que corrompem o espírito são vós, que aconselhais as almas a abandonarem o Criador. Os que corrompem o corpo são os que preferem os gozos corporais às delí­cias eternas.” Pascásio ameaçou-a: “Vais parar de falar quando começares a ser fustigada”, zo que Lúcia respondeu prontamente: “As palavras de Deus nunca terão fim.”

“Então tu és Deus?”, perguntou-lhe Pascásio. “Eu sou escrava do Deus que disse: quando estiverdes em presença de reis e de juízes, não vos preocupeis com o que dizer. Não sereis vós a falar, pois o Espírito Santo falará por vós” (Mc 13, 11), respondeu Lúcia. “Então o Espírito Santo está em ti?”, tornou Pascásio. “Os que vivem em castidade são templos do Espírito Santo”, respondeu-lhe.

Pascásio afirmou: “Então vou mandar que te levem a um lupanar, para que sejas violada e percas o Espírito Santo.” Lúcia: “O corpo só se corrompe se o coração consentir. Se fizeres com que eu seja violentada, será contra minha vontade e ganharei a coroa da pureza. Jamais terás meu consentimento. Eis meu corpo, ele está disposto a toda sorte de suplícios. Por que hesitas? Começa a me atormentar, filho do diabo.”

Então Pascásio mandou vir uns depravados, aos quais disse: “Convidai o povo todo e torturai-a até a morte.” Mas quando quiseram levá-la, o Espírito Santo a fez ficar imóvel e tão pesada que não conseguiram forçá-la a se mover. Pascásio mandou chamar mil homens e amarrar seus pés e suas mãos, mas eles não foram capazes de movê-la de modo algum. Aos mil homens ele acrescentou mil parelhas de bois, mas a virgem do Senhor permaneceu imóvel. Então convocou feiticeiros para movê-la com seus sortilégios, mas eles nada conseguiram.

Pascásio então perguntou: “Que malefícios são esses? Por que uma moça não é movida por mil homens?” Lúcia respondeu: “Não são malefícios, e sim benefícios de Cristo. E ainda que acrescentasses dez mil homens, tu não me verias menos imóvel.” Acreditando Pascásio na opinião segundo a qual se poderia livrar uma pessoa de malefícios jogando urina sobre ela, mandou que se fizesse isso com Lúcia, mas ela continuou sem se mover.

Furioso, Pascásio mandou acender em torno dela uma grande fogueira e jogar em seu corpo óleo fervente, misturado com pez e resina. Depois desse suplício, Lúcia exclamou: “Obtive uma trégua no meu martírio para que os crentes não tenham medo de sofrer e os incré­dulos tenham mais tempo para me insultar.”

Vendo Pascásio irritadíssimo, seus amigos enfiaram uma espada na garganta de Lúcia, que apesar disso não perdeu a palavra: “Eu vos anuncio que a paz foi restituída à Igreja, porque hoje Maximiano acaba de morrer e Diocleciano, de ser expulso do seu reino. Da mesma forma que minha irmã Ágata foi eleita protetora da cidade de Catânia, assim também fui eleita guardiã de Siracusa.”

Enquanto a virgem assim falava, chegaram uns funcionários romanos que prenderam Pascásio, agrilhoaram-no e levaram-no ao César, pois este ficara sabendo que ele tinha saqueado toda a província. Chegando a Roma, Pascácio compareceu diante do Senado, foi declarado culpado, condenado à pena capital e executado.

Quanto à virgem Lúcia, não foi tirada do lugar em que sofrera e só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor. Então todos os presentes disseram: Amém. Ela foi sepultada naquele mesmo lugar, onde foi construída uma igreja. Seu martírio ocorreu no tempo de Constantino e de Maxêncio, por volta do ano 310 do Senhor.

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 77-80.

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