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São José não é um santo qualquer!
Santos & Mártires

São José não é um santo qualquer!

São José não é um santo qualquer!

Os católicos amamos todos os santos da Igreja e até elegemos um e outro como santo de devoção. Mas São José… São José é especial. Afinal, a que outro santo Deus chamou de pai?

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Março de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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Neste dia em que celebramos a grande solenidade de São José, nada é tão necessário quanto considerar a razão do culto tão fervoroso que prestamos a este santo. Por que nos deleitarmos ouvindo um Te Joseph, por que acendermos velas diante das imagens de São José, por que assistirmos a Missas, novenas e tríduos em sua honra? Qual o sentido, afinal de contas, de tantas orações, ladainhas e práticas devocionais?

Consideremos, em primeiro lugar, o motivo de toda a veneração que prestamos aos santos de modo geral.

A sagrada liturgia, dirigindo-se a Deus, reza o seguinte: “Na assembleia dos santos, vós sois glorificado e, coroando os seus méritos, exaltai os vossos próprios dons”. Essa passagem contida no Prefácio dos Santos é de uma catequese tão profunda que mereceu ser incluída no Catecismo da Igreja Católica (§ 2006). Para sondar-lhe melhor o significado, vamos logo a Santo Agostinho, de quem é tirada essa intuição (En. in Psal. 102, 7):

Deus coroa os seus dons, não os nossos méritos. — “É Ele quem te coroa de bondade e misericórdia” (Sl 102, 4). Quiçá já havias começado a te orgulhares, quando ouviste: “Te coroa”. “Portanto, sou grande”, dizes contigo; “portanto, hei pelejado”. Com as forças de quem? Com as tuas, por certo, mas ministradas por Ele. Porque é evidente que lutas; e por isso serás coroado, porque hás-de vencer: mas vê bem quem venceu primeiro, vê bem quem te há-de fazer vencedor ao seu lado. “Eu”, diz o Senhor, “venci o mundo. Alegrai-vos!” (Jo 16, 33). E por que nos havemos nós de alegrar, se foi Ele quem venceu o mundo? Não será acaso porque é como se nós mesmos tivéssemos vencido? Pois assim nos havemos de alegrar plenamente, porque fomos nós que vencemos. Os que fomos vencidos em nós pelo pecado, nele saímos vencedores pela graça. Portanto, Ele te coroa, porque coroa os seus próprios dons, não os teus méritos.

“Tenho trabalhado mais do que todos”, reconhece o Apóstolo, mas vê o que acrescenta em seguida: “Não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Cor 15, 10). E depois de todos esses trabalhos espera ele receber a coroa, e diz: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia” (2Tm 4, 7-8). Por quê? Porque “combati o combate”. Por quê? Porque “terminei a carreira”. Por quê? Porque “guardei a fé”. E como combateste? Como guardaste a fé? “Não eu, mas a graça de Deus que está comigo”.

Por isso, que também tu sejas coroado, é pela misericórdia que és coroado. Nunca sejas soberbo; louva sempre o Senhor, não “te esqueças de todos os seus benefícios” (Sl 102, 2). É benefício que, sendo tu um pecador e ímpio, sejas justificado. É um benefício que tenha Ele te erguido e guiado para que não tornes a cair. É benefício que te tenham sido dadas forças para que perseveres até o fim. É benefício que esta mesma carne sob a qual gemias venha a ressurgir, e que não se perca de tua cabeça um só fio de cabelo. É benefício que, após a ressurreição, sejas coroado. É benefício ainda que para todo o sempre louves a Deus sem defeito. Não te esqueças, pois, de todos os seus benefícios, se queres que tua alma bendiga ao Senhor (cf. Sl 102, 1-2), “que te coroa de compaixão e misericórdia”.

Respondamos, então, de uma vez: ao celebrarem os santos, os católicos não estão fazendo nada mais do que adorar a Deus, que os santificou nesta vida e os glorificou na eternidade. São festejados os coroados, sim, mas a glória dirige-se, no fundo, à bondade e à misericórdia de quem deu a coroa. Quando lemos a biografia de um santo, quando conhecemos sua vida, seus atos heroicos de virtude, o grande amor que eles tiveram a Deus, o que estamos contemplando senão a ação da graça divina neles? Seus méritos aparecem, de fato, mas por trás estão sempre os dons do alto.

Na vida de São José, porém, encontramo-nos na curiosa situação de conhecermos mais os dons com que ele foi agraciado do que propriamente os seus méritos. Sim, porque os atos de José não foram registrados por ninguém, nenhuma biografia a seu respeito legou-nos a história. O Autor Sagrado diz tão-somente que ele era “justo”, conta um e outro episódio envolvendo a Sagrada Família… e cala-se sobre todo o resto. Poderíamos dizer que a única grande notícia que temos a seu respeito é a sua paternidade, e nada mais.

Mas essa razão, se a um olhar superficial pode parecer pouco, a olhos espirituais é motivo suficiente para situarmos o culto a São José acima do culto que prestamos a qualquer outro santo da Igreja.

Santa Teresa d’Ávila, por exemplo, ao se perguntar o porquê da intercessão tão poderosa de José, tinha uma opinião muito razoável: “Parece-me que Deus concede aos outros santos a graça de nos auxiliar nesta ou naquela necessidade, mas sei por experiência que São José nos socorre em todas, como se Nosso Senhor quisesse fazer-nos compreender que, assim como Ele lhe era submisso na terra, porque estava no lugar de pai e como tal era chamado, também no céu não pode recusar-lhe nada” (Livro da Vida, VI, 6).

Na mesma linha e com muita simplicidade se manifestava o beato Cardeal Newman, no tríduo que ele compôs em honra ao pai de Jesus: “São José é santo porque seu ofício, de ser esposo e protetor de Maria, exigia especial santidade; é santo porque nenhum outro santo além dele viveu em tal e tão longa intimidade e familiaridade com a fonte de toda santidade, Jesus, Deus encarnado, e Maria, a mais santa das criaturas”.

Aprofundemo-nos um pouco mais, no entanto, e contemplemos a beleza destas linhas que o Pe. António Vieira compôs, mostrando como é especial a coroa reservada a São José, e distinta da coroa de todos os outros santos (cf. Sermão do Esposo da Mãe de Deus, São José, pregado em 19 de março de 1643):

Sonhou José, o que depois foi Vice-Rei do Egito, que o Sol, a Lua, e as Estrelas, abatendo do Céu à terra a majestade luminosa de seus resplandores, humildemente prostrados o adoravam. Quis interpretar este sonho seu Pai, e disse que ele, Jacó, era o Sol, Raquel, sua esposa, a Lua, seus filhos desde Rúben a Benjamim as Estrelas; e que viria tempo a José, em que Deus o levantaria a tão soberana fortuna, que seu mesmo Pai, sua Mãe, e seus Irmãos com o joelho em terra o adorassem (cf. Gn 37).

Os Doutores comumente têm esta interpretação do sonho por verdadeira; mas o certo é que um José foi o que sonhou, e outro José foi o sonhado. O José que sonhou foi José, o filho de Jacó: o José sonhado foi José, o Esposo de Maria. O José filho de Jacó sonhou somente; porque ainda que digamos que em seu Pai o adorou o Sol, e em seus Irmãos as Estrelas, é certo que em Raquel, sua mãe, lhe faltou a adoração da Lua; porque quando Jacó, e seus filhos adoraram a José no Egito, já era morta Raquel, e ficava sepultada em Belém.

Segue-se logo que o José verdadeiramente sonhado foi José o esposo de Maria; porque nele se cumpriram cabalmente todas as partes do sonho. Adorou a José o Sol; porque a título de sujeição filial lhe guardou reverência, e acatamento o mesmo Sol de justiça, Cristo: Et erat subditus illis (Lc 2, 51); adorou a José a Lua; porque a título de verdadeira esposa lhe deveu obediência, e amor aquela Senhora, que é como a Lua formosa: Pulchra ut Luna (Ct 6, 9); adoraram a José as Estrelas; porque a título, ou reputação de Pai de seu Mestre o respeitaram com grande veneração os Apóstolos, aqueles de quem diz o Espírito Santo: Fulgebunt quasi stellae in perpetuas aeternitates (Dn 12, 3).

A excelência de São José pode ser resumida, pois, nesta questão: a que outro homem sobre a terra Jesus chamou de “pai” e foi em tudo submisso como filho? A que outro Deus confiou uma missão tão assombrosa como esta, de ser pai do próprio Verbo de Deus feito carne? A que outro cumulou de graças tão abundantes e numerosas como a esse homem?

Portanto, não, a devoção a São José não é uma devoção como qualquer outra. O Patriarca da Sagrada Família está envolvido diretamente e de modo especialíssimo no mistério da união hipostática, de modo que o culto a ele é, juntamente com o da Virgem Maria, quase que uma “consequência necessária” da simples fé que os cristãos temos em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Fortaleçamos, pois, nosso amor a este grande Patriarca, certos de que, se até mesmo o Sol, a Lua e todas as estrelas se prostram diante desse humilde carpinteiro… só o que nos resta — a nós, que nem no céu estamos, a nós, homens tão terrestres e carnais — só o que nos resta é elevarmos a ele os nossos corações e dizermos, cheios de gratidão a Deus: “Valei-nos, glorioso São José!


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Deus, o vinho e as Sagradas Escrituras
Doutrina

Deus, o vinho
e as Sagradas Escrituras

Deus, o vinho e as Sagradas Escrituras

É muito comum que se celebrem ocasiões especiais com uma boa taça de vinho. Mas também a Bíblia está cheia de referências a essa bebida, principalmente no Evangelho, onde Jesus transforma a água em vinho e converte este líquido em seu próprio Sangue.

Mark HaasTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Cresci numa casa em que o vinho era presença constante. Católico de berço, vi adultos tomarem vinho em diversas ocasiões, seja durante uma festa ou uma reunião. Em casa, partilhávamos uma abençoada taça de vinho para celebrar qualquer ocasião especial, como uma primeira comunhão, um aniversário de batismo etc. Alguns de meus amigos não católicos ficavam espantados de ver o espaço de nossa geladeira reservado aos vinhos. 

Qual o problema do vinho? As Sagradas Escrituras são claras: Deus ama o vinho!

No Antigo Testamento, o vinho é usado como símbolo poderoso. Ele representa a sabedoria (cf. Pr 9, 1-5; Eclo 17-21), a Lei e as bodas (cf. Ct 1, 2ss; 4, 10; 5, 1; 7, 2). O profeta Isaías fala de uma reunião de todos os povos para um “festim de vinhos”, no qual Deus irá salvá-los (cf. Is 25, 6-9). O profeta Amós prediz os dias em que Deus restaurará o reino de Davi e “o vinho correrá pelas montanhas e todas as colinas derreterão” (Am 9, 13).

As bodas em Caná.

Jesus usa vinho ao longo de todo o Evangelho. Seu primeiro milagre ocorreu durante as famosas bodas de Caná. Jesus e sua Mãe foram à festa, mas o noivo ficou sem vinho que servir aos convidados. Hoje, ficar sem ter o que servir em uma festa ou reunião pode ser uma frustração ou um inconveniente menor, tanto para o anfitrião quanto para os convidados. Mas, na antiga tradição judaica, ficar sem vinho durante uma festa de bodas teria sido uma gafe catastrófica, capaz de destruir a posição social da família na comunidade. 

Maria percebe a iminente calamidade e diz a Jesus: “Eles não têm vinho” (Jo 2, 3). A afirmação desencadeia o primeiro milagre público de seu Filho. Maria vê as necessidades das pessoas e intercede por elas. Depois de uma breve conversa com Nosso Senhor, Maria diz aos servos: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5). A interação entre Maria e Jesus é muito similar à doutrina católica sobre a oração de intercessão mariana. Assim como os convidados das bodas, nós recorremos a Maria com nossas orações. Maria, por sua vez, as apresenta diretamente a Deus com esperanças de bênçãos abundantes. Nosso Senhor Jesus Cristo, que não se deixa vencer em generosidade (cf. 2Cor 8, 2), abençoa então as nossas vidas com transbordante generosidade. 

Depois de ouvir a intercessão de sua Mãe, Jesus acolhe com benevolência a solicitação. Quando Deus deseja fazer vinho, Ele o faz em abundância. As talhas de pedra usadas no ritual judaico comportariam entre 20 e 30 galões de água (cf. Jo 2, 6). Ao todo, Jesus encheu milagrosamente 120 galões de vinho! Sabemos que aquele era o vinho mais saboroso e fermentado:

Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora” (Jo 2, 9-10).

Jesus produziu o melhor vinho, um vinho celestial, para que durasse até o final da festa.

Isso, obviamente, não equivale a dizer que a Bíblia admita a embriaguez. Pelo contrário, as Escrituras são claras ao apontar que sempre se deve evitar bebida em excesso. Depois de fazer vinho, Noé logo ficou bêbado e caiu (um paralelo com Adão), perpetuando o ciclo de falhas humanas que perdura em todo o Velho Testamento (cf. Gn 9, 21). No Novo Testamento, S. Paulo alerta sobre o uso de bebida em excesso (cf. 1Tm 3, 8; 1Cor 5, 11). É melhor beber vinho com moderação: “Sede sóbrios e vigiai” (1Pd 5, 8).

Em preparação para a morte de Cristo, o vinho mostra-se um símbolo relevante para dirigir nossa atenção à crucifixão. Consideremos a comparação tipológica entre a Páscoa judaica, no Livro do Êxodo, e a Paixão do Senhor, nos Evangelhos. Depois de salvar os israelitas dos grilhões da escravidão, Moisés foi instruído por Deus a celebrar uma ceia perpétua seguindo instruções bastante específicas: Deus diz a Moisés que sacrifique um cordeiro de um ano de idade, puro, sem mácula nem qualquer osso quebrado. Deus lhe diz então que colete o sangue do cordeiro em uma tigela e pinte os batentes das portas dos israelitas com ele, usando para isso um feixe de hissopo (cf. Ex 12, 21ss). Esse momento histórico foi entronizado na tradição judaica com a celebração anual da Páscoa. 

É interessante notar que nessa antiga refeição pascal eram servidos quatro cálices de vinho, que representavam a libertação dos israelitas da escravidão [1]: 

  1. O cálice da santificação: Eu vos farei sair
  2. O cálice da libertação: Eu vos resgatarei
  3. O cálice da redenção: Eu vos redimirei
  4. O cálice do louvor: Eu vos tomarei como meu povo (cf. Ex 6, 6-7).

Um quinto cálice era reservado a Elias, na esperança de que ele os visitasse durante a celebração. Dessa taça não se bebia.

Avancemos rapidamente até Nosso Senhor Jesus Cristo, que João Batista disse ser “o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29). Jesus, o novo Cordeiro sacrificial, celebrou a Páscoa judaica com seus discípulos na Santa Ceia:

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai” (Mt 26, 26-29).

Jesus declara que não beberá o último cálice de vinho até que o Reino de seu Pai esteja completo.

No dia seguinte, durante sua Paixão, Jesus se recusa a tomar qualquer vinho: “Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se recusou a beber” (Mt 27, 34). Jesus então é elevado na Cruz, e lhe oferecem vinho de novo:

Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: “Tenho sede”. Havia ali um vaso cheio de vinagre. Os soldados encheram de vinagre uma esponja e, fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca (Jo 19, 28-29).

Depois de finalmente receber o vinho numa vara de hissopo, Jesus disse: τετέλεσται (tetélestai), “está consumado”. O que estava consumado? Na noite anterior, Jesus omitira o quarto cálice da ceia pascal, transformando-o na ceia pascal da Nova Aliança: a Sagrada Eucaristia. Nosso Senhor e Salvador bebe agora da taça final, que estava reservada a Elias. Numa interpretação bastante convincente, o dr. Scott Hahn, estudioso bíblico católico, sugere que a nova celebração pascal termina quando Jesus recebe o vinho na Cruz. Cristo recebe o cálice final, que consuma a Nova Aliança. O cálice final está agora à disposição de todos os que recorrem a Ele na Santa Eucaristia. 

O plano de salvação de Deus é apresentado por meio do consumo físico de pão e de vinho. Que nós possamos eternamente “comer e beber e encontrar satisfação em todo o nosso trabalho, pois esse é o dom de Deus” (Ecle 3, 13).

Notas

  1. “À primeira vista, o vinho pode não parecer tão essencial ao seder quanto, digamos, o cordeiro ou o pão ázimo. Na verdade, ele não aparece nas rubricas prescritas pela Torá. Os historiadores acreditam que os quatro cálices de vinho foram acrescentados depois a fim de sublinhar o sentido festivo do banquete — ‘vinho para alegrar o coração do homem’ (Sl 104, 15).” (Scott Hahn. The Fourth Cup. New York: Image, 2008, pp. 107-108. A nota e a tradução são nossas.)

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Como ser ou escolher um bom padrinho de batismo?
Espiritualidade

Como ser ou escolher
um bom padrinho de batismo?

Como ser ou escolher um bom padrinho de batismo?

Se você foi convidado a ser padrinho, ou está à procura de um para o seu filho, lembre-se: este é um papel que deve ser levado muito a sério. As ações de um bom padrinho podem fazer, de fato, uma diferença eterna na nossa vida e na de nossos filhos.

Woodeene Koenig-BrickerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Ser padrinho é uma daquelas honras e responsabilidades, não tão bem compreendidas, que alguns de nós somos chamados a assumir em nome de crianças, da família e de amigos. Embora possamos estar dispostos, nem sempre sabemos o que significa ser padrinho.

O papel do padrinho se desenvolveu a partir do catecumenato da Igreja primitiva. Sua função era garantir que uma pessoa estivesse pronta para receber os três sacramentos de iniciação — Batismo, Eucaristia e Confirmação — e, depois, ajudá-la a viver a vida cristã. Foi no início da Idade Média, quando o batismo de crianças se estabeleceu firmemente, que se popularizou o termo patrinus, ou “padrinho”; na Igreja antiga, essas pessoas também eram chamadas de sponsores, offerentes, susceptores e fidejussores — termos latinos que significam, em suma, “patronos” ou “testemunhas” [1].

A Igreja primitiva sabia que um padrinho tinha uma função prática bem definida; hoje, porém, ser padrinho é visto muitas vezes como uma honra cerimonial (por exemplo, quando Bono Vox, da banda de rock U2, foi nomeado “padrinho” dos gêmeos de Brad Pitt e Angelina Jolie, crianças que provavelmente jamais verão o interior de uma igreja, muito menos serão batizadas ou confirmadas). O padrinho é visto ora como uma fada madrinha da vida real, que serve para dar presentes em ocasiões especiais, ora como uma espécie de tutor civil, encarregado de assumir a educação da criança no caso de os pais biológicos morrerem.

Na verdade, nada disso tem a ver com a função real de um padrinho. Essencialmente, um padrinho é quem ajuda e auxilia no desenvolvimento espiritual de uma criança (às vezes de um adulto convertido que é uma “criança” na fé). Como diz o Código de Direito Canônico: “Dê-se, quanto possível, ao batizando um padrinho, cuja missão é assistir na iniciação cristã ao adulto batizado, e, conjuntamente com os pais, apresentar ao batismo a criança a batizar e esforçar-se por que o batizado viva uma vida cristã consentânea com o batismo e cumpra fielmente as obrigações que lhe são inerentes” (Cân. 872).

Certos requisitos e responsabilidades com relação aos padrinhos devem ser cumpridos de acordo com a lei da Igreja [2], mas ainda permanece uma pergunta prática: o que faz um bom padrinho?

“O Batismo”, de Pietro Longhi.

Em primeiro lugar, um padrinho deve ser uma pessoa de fé profunda. Sua responsabilidade é ajudar a desenvolver e estabelecer a fé no afilhado. Por isso, é essencial que ele entenda a doutrina católica e viva a fé diariamente, de maneira pessoal e profunda. Você não pode transmitir aquilo em que não acredita total e completamente. Não basta conhecer a fé; um padrinho deve vivê-la. Isso significa ter o hábito de assistir à Missa aos domingos e observar as leis da Igreja. Mas significa também ser comprometido com o próprio crescimento espiritual, de maneira contínua através do estudo, da oração, dos sacramentos e das obras de misericórdia corporais e espirituais.

Um bom padrinho também está, na medida do possível, envolvido positivamente na contínua experiência de fé do afilhado. Isso não significa apenas estar fisicamente presente no batismo ou na confirmação, mas assumir um papel tão ativo quanto na preparação para a primeira confissão e a primeira comunhão, bem como, mais tarde, para o matrimônio ou as Ordens sagradas. Isso significará, no mais das vezes, um encorajamento, um apoio ou um entusiasmo ao próprio afilhado; nos casos, porém, em que os pais não puderem ou não levarem o filho à catequese, ou não o acompanharem na preparação para os sacramentos, os padrinhos precisam estar dispostos a intervir de maneira mais incisiva.

À medida que as crianças crescem, comemorar o dia do batismo e/ou da confirmação com uma ligação, uma visita, um cartão ou um presente apropriado pode ajudar a manter intactos esses laços espirituais. Em suma, um bom padrinho caminha ao longo de toda a jornada da com o afilhado, não apenas em seus primeiros passos ou nas comemorações.

Um padrinho pode ser particularmente valioso ao oferecer uma referência segura para discutir dúvidas e resolver perguntas, sobretudo quando os afilhados chegam à adolescência. Os pais, naturalmente, ficam nervosos quando os filhos começam a questionar os ensinamentos da Igreja em temas morais. Um padrinho pode ser a pessoa que ouvirá e falará sobre tais questões, emocionalmente pesadas, sem entrar na defensiva ou na ofensiva. Os adolescentes podem achar mais fácil discutir com outra pessoa assuntos como a doutrina da Igreja sobre o sexo fora do casamento, a contracepção, a homossexualidade etc., embora questões sobre a divindade de Jesus, o significado da salvação e a importância de ser católico sejam também pontos importantes de discussão com um padrinho.

Outra área em que um bom padrinho pode fazer a diferença é na exposição aos sacramentais e às práticas devocionais. Embora não seja necessário sobrecarregar os afilhados com quinquilharias religiosas, garantir que eles tenham um Rosário digno, uma medalha do santo padroeiro, uma Bíblia católica e um crucifixo é certamente um dever importante dos padrinhos.

O mesmo se aplica às devoções. Garantir que os afilhados saibam rezar o Rosário, dizer as estações da Via-Sacra e conhecer os santos, as novenas e as práticas sazonais de piedade, como a coroa do Advento, são outras maneiras de os padrinhos serem proativos na vida dos afilhados, sem correr o risco de serem invasivos.

Obviamente, tudo isso supõe que o padrinho more perto o bastante do afilhado, a ponto de poder estar presente com certa regularidade, o que nem sempre é o caso na sociedade móvel de hoje. É por isso que o ato mais importante de um padrinho em favor do afilhado é a oração regular e constante. Como disse o poeta Alfred Tennyson: “Mais coisas são feitas pela oração do que este mundo pode sonhar”. Embora seja verdade que os pais são os principais mestres na fé, os padrinhos podem fazer uma enorme diferença em como essa fé lança raízes, ao encomendarem na oração os seus afilhados.

Se você for convidado a ser padrinho (ou estiver pensando em escolher um), lembre-se de que esse papel deve ser levado a sério, pois as ações de um bom padrinho podem fazer, de fato, uma diferença eterna na vida de uma criança.

Notas

  1. Este parágrafo foi adaptado para explicar com mais clareza a origem da função dos padrinhos. Sua complementação foi retirada de: William Fanning, “Baptism”. The Catholic Encyclopedia, 1907.
  2. A esse respeito, ler o que diz o Código de Direito Canônico, Cân. 874, § 1: “Para alguém poder assumir o múnus de padrinho requer-se que: 1.º seja designado pelo próprio batizando ou pelos pais ou por quem faz as vezes destes ou, na falta deles, pelo pároco ou ministro, e possua aptidão e intenção de desempenhar este múnus; 2.º tenha completado dezesseis anos de idade, a não ser que outra idade tenha sido determinada pelo Bispo diocesano, ou ao pároco ou ao ministro por justa causa pareça dever admitir-se exceção; 3.º seja católico, confirmado e já tenha recebido a santíssima Eucaristia, e leve uma vida consentânea com a fé e o múnus que vai desempenhar; 4.º não esteja abrangido por nenhuma pena canônica legitimamente aplicada ou declarada; 5.º não seja o pai ou a mãe do batizando.”

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Por que Jesus morreu na casa dos trinta?
Doutrina

Por que Jesus
morreu na casa dos trinta?

Por que Jesus morreu na casa dos trinta?

Deus não faz nada de modo arbitrário. Por isso, até mesmo detalhes aparentemente menores nas Escrituras têm algo a nos ensinar. Por que, então, Jesus morreu com trinta e poucos anos, e não antes nem depois?

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Por que Cristo morreu com trinta e poucos anos, e não mais velho? Isso daria a Ele mais tempo para ensinar e estabelecer a Igreja. Santo Tomás de Aquino respondeu a essa questão da seguinte maneira:

Deve-se dizer que Cristo quis sofrer em idade jovem por três razões. Primeiro, para que nisto manifestasse mais sua caridade, pois deu sua vida por nós quando estava no estado mais perfeito. Segundo, porque não convinha que nele aparecesse <nenhuma> deficiência [diminutio] de natureza, como tampouco doença, como acima foi dito. Terceiro, para que, morrendo e ressuscitando em idade jovem, Cristo mostrasse em si mesmo, por antecipação, a qualidade dos que hão de ressuscitar. Daí que se diga em Ef 4, 13: “Até que cheguemos todos juntos à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura de Cristo em sua plenitude” (STh III 46, 9 ad 4).

Especulações como essas parecem puramente arbitrárias. Outros consideram o raciocínio uma justificação post hoc: Cristo morreu aos 33 anos, então vamos inventar algo para tentar explicá-lo.

O raciocínio de S. Tomás, porém, não se baseia em meras especulações. Há premissas para o seu raciocínio.

Primeiro, está a premissa de que Deus não faz nada arbitrariamente, e fazemos bem em admitir que até mesmo detalhes aparentemente menores nas Escrituras (como, por exemplo, a hora do dia) têm algo a nos ensinar.

Outra premissa é baseada na natureza da perfeição. A perfeição pode ser prejudicada por excesso ou insuficiência. Considere o caso da idade: um jovem pode não ter maturidade física e intelectual (nesse caso, a juventude é uma “insuficiência” de idade); mas chega um momento em que a idade se torna problemática em outra direção, à medida que o tempo afeta o corpo, e a mente torna-se menos perspicaz (nesse caso, a velhice é um “excesso” de idade). Assim, há um período de tempo em que a idade está na faixa “perfeita”: não é prejudicada nem por excesso nem por insuficiência.

Na época de S. Tomás, os trinta anos eram considerados a época da perfeição. Pode-se dizer que ainda é assim, embora pareça que levamos muito mais tempo para atingir a maturidade intelectual e emocional nos dias de hoje.

S. Tomás observa que, porque Jesus morreu no auge da vida, o sacrifício foi maior. Sua aparente falta de doenças e imperfeições físicas também aumentou a dimensão de seu sacrifício. Isso nos serve de exemplo. Devemos oferecer a Deus em sacrifício aquilo que temos de melhor, não apenas os nossos trapos ou coisas das quais poderíamos dizer: “Isso serve”. O Senhor uma vez lamentou, por meio do profeta Malaquias:

Se ofereceis em sacrifício um animal cego, não haverá mal algum nisto? E, se trazeis um animal coxo e doente, não vedes mal algum nisto? Vai, pois, oferecê-lo ao teu governador; crês que lhe agradarias, que ele receberia bem? — diz o Senhor dos exércitos (Ml 1, 8).

Portanto, o que para alguns pode parecer um simples detalhe (a idade de Jesus), na verdade proporciona ensinamentos importantes para a alma perspicaz. Cristo deu tudo de si, o melhor e o fez quando estava no auge da vida. Nós também somos chamados a crescer em perfeição.

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Beato Carlos, o Imperador da Paz
Santos & Mártires

Beato Carlos, o Imperador da Paz

Beato Carlos, o Imperador da Paz

Seu desejo de paz, infelizmente, não foi correspondido pelos chefes de Estado de sua época. Mas o Beato Carlos da Áustria não deixou de buscá-la jamais, tanto na vida quanto na morte. Por isso, mesmo os seus inimigos se lembram dele como “o Imperador da Paz”.

Denis KitzingerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).

Carlos I (1887-1922), imperador da Áustria e rei da Hungria, despediu-se da esposa, a imperatriz Zita. “Vou te amar para sempre”, declarou, assim como fizera onze anos antes, quando se casaram. Em seguida, chamou o primeiro filho, Otto, para “testemunhar como um católico e um imperador se comporta quando morre”. O imperador recebeu a Extrema Unção e pronunciou suas últimas palavras: “Faça-se a vossa santa vontade. Jesus, Jesus, vinde! Sim, sim. Meu Jesus, seja feita a vossa vontade. Jesus”.

Carlos morreu no exílio. Em 1919, a nova República da Áustria baniu o imperador de sua terra natal, por decreto das detestáveis Leis de Habsburgo. Após duas tentativas fracassadas de recuperar o trono da Hungria, ele foi exilado em Portugal pelas potências da Entente. A família residia numa casa de montanha na ilha da Madeira. Em março de 1922, o imperador contraiu um forte resfriado que logo evoluiu para pneumonia por causa da casa fria e úmida. Com o pensamento sempre voltado para o bem de seu povo, Carlos ofereceu sua doença e seu sofrimento em sacrifício pela paz e a unidade de suas terras: “Devo sofrer assim para que meu povo esteja unido”. Carlos I, imperador da Áustria e rei da Hungria, morreu no dia 1.º de abril de 1922, com trinta e cinco anos de idade.

Seis anos antes, o reinado de Carlos começara com o funeral de seu tio-avô, o imperador Francisco José (1830-1916). No nascimento de Carlos, poucos pensavam que um dia ele herdaria o trono. Um sobrinho-neto estava simplesmente muito distante na linha de sucessão.

Assim, o jovem príncipe recebeu pouca atenção pública. Ao crescer, tornou-se um rapaz encantador, dedicado a quaisquer que fossem as suas tarefas, caridoso sempre, reverente e piedoso. Ele adorava brincar de soldado, sua futura vocação. “Sua maior alegria”, porém, “foi poder ser coroinha”, relembrou seu tutor. Desde muito jovem, Carlos teve uma devoção especial e perpétua à Santa Eucaristia e ao Sagrado Coração.

Em 1900, Carlos repentinamente se viu em segundo lugar na linha de sucessão ao trono. Ele tinha apenas treze anos. Seu tio, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro direto do trono, decidira casar-se com alguém abaixo de sua posição (sua esposa era uma mera condessa), e seus filhos, consequentemente, foram excluídos da sucessão imperial. Deu-se então prioridade ao casamento de Carlos com a princesa Zita de Bourbon-Parma, que compartilhava o mesmo amor à vida familiar e ao ar livre. Depois do casamento, Carlos disse-lhe: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu”. O casal foi abençoado com oito filhos durante os dez anos de uma vida matrimonial feliz e exemplar.

Cinco anos depois, Carlos liderou a grande procissão fúnebre da Catedral de Santo Estêvão até a Cripta Imperial de Viena (ou Cripta dos Capuchinhos), onde os membros da Casa de Habsburgo eram colocados para o repouso. O arcebispo de Viena, juntamente com outros quatro cardeais, vinte bispos e quarenta e oito padres, celebrou a Missa de exéquias de Francisco José. Milhares se enfileiraram nas ruas de Viena, observando a procissão passar, prestando homenagens e demonstrando afeto pelo velho imperador. O reinado de Francisco José, que tinha sessenta e oito anos, fez dele um símbolo de estabilidade e continuidade. Com a morte dele, um novo período da história da Áustria-Hungria começou, e seu futuro agora estava nas mãos do inexperiente sobrinho-neto de 26 anos.

A época em que Carlos ascendeu ao trono não era feliz. A terrível Grande Guerra assolara a Europa por dois anos. Ele herdou um império internamente multiétnico, dilacerado pelo fanatismo nacionalista e em necessidade desesperada de reformas políticas e sociais, sofrendo com a miséria e a pobreza generalizadas, agravadas ainda com a guerra.

Desde o início, Carlos concebeu seu ofício “como um serviço sagrado ao seu povo”, e sua principal preocupação era “seguir a vocação cristã à santidade”. O arcebispo de Budapeste, que coroou Carlos como rei da Hungria, recordou que “não era a ornamentação nem a pompa que lhe interessava, era apenas o dever que cumpria perante Deus, perante a nação e perante a Igreja. Ele desejava ser digno daquilo para o qual fôra escolhido”. Diante do altar-mor da magnífica igreja de Matias Corvino, em Budapeste, Carlos comprometeu-se a trabalhar incansavelmente pela paz e justiça em seu reino.

Em sua primeira declaração, sublinhou seu compromisso com este dever sagrado, declarando que faria “tudo para banir, no menor tempo possível, os horrores e sacrifícios da guerra e para reconquistar para meu povo a bênção perdida da paz”.

Em seu compromisso com a paz, seguiu os esforços do Papa Bento XV. O Santo Padre pediu uma paz sem vencedores. Mas a proposta da Santa Sé encontrou ouvidos moucos em todos os lugares, exceto em Viena. Entre os estadistas europeus, Carlos ficou sozinho.

A guerra começou com a animada partida das tropas, certas de uma vitória rápida. Em 1916, um número incontável de filhos da Europa havia caído na implacável Guerra de Trincheiras. A tragédia que desencadeou a cadeia de eventos que levaram à eclosão da desastrosa guerra foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, Sofia, em Sarajevo, por um terrorista sérvio. Por ironia, Francisco Ferdinando era particularmente simpático aos eslavos do sul e à busca por uma Iugoslávia unida. Além disso, seus planos inovadores para a reforma imperial prometiam às nações menores dentro do império um grau sem precedentes de independência e autonomia.

Carlos também reconheceu a necessidade de reorganização interna e previu sabiamente o futuro da monarquia de acordo com os princípios federalistas. Após sua ascensão, ele iniciou uma série de reformas sociais criticamente necessárias e preparou o caminho para uma federação de nações, unidas por sua lealdade à Casa de Habsburgo com base no reconhecimento de benefício e interesse mútuos. Essa constituição tradicional serviria tanto às nações menores quanto ao império e, assim, proporcionaria o equilíbrio de poder europeu. A identidade e cultura de cada nação seriam devidamente reconhecidas e respeitadas em uma verdadeira unidade na diversidade.

No entanto, a política genuinamente europeia da Casa de Habsburgo entrou em conflito com visões menos judiciosas e rivais de uma nova ordem europeia. O jovem e ambicioso Império Alemão e seu imperador, Guilherme II, marcharam por um lugar ao Sol à frente de uma Europa Central germânica. Embora as democracias ocidentais favorecessem a ideia de um Estado-nação organizado de acordo com a forma republicana de governo, elas não procuraram quebrar o Império Austro-Húngaro, ao menos de início. Quando os Estados Unidos entraram na guerra ao lado da Entente, seguindo a retórica poderosa de Woodrow Wilson, as potências ocidentais perseguiram rigorosamente a visão de uma Europa do pós-guerra sem monarquias nem impérios. A Guerra para acabar com todas as guerras chegaria ao clímax de uma paz permanente, com a realização de uma Europa de repúblicas democráticas baseada no princípio progressivo da autodeterminação nacional.

Nos primeiros meses de 1917, Carlos deu os primeiros passos concretos para a realização de uma paz sem vencedores. Ele ofereceu concessões de longo alcance. Infelizmente, para a Europa e para o mundo, os poderes da Entente não podiam ser influenciados. No final, a ideia mal concebida de autodeterminação nacional, juntamente com o desprezo por políticas antigas apresentadas na conferência de paz de Versalhes, apenas preparou o solo para a próxima catástrofe.

A política de paz de Carlos teria sido a escolha mais prudente. Na época, porém, seu desejo de paz não foi correspondido. A Alemanha embotou seus esforços. A Entente recusou suas ofertas. A paz, aquele “belo dom de Deus, cujo nome […] é a palavra mais doce aos nossos ouvidos e a melhor e mais desejável posse” (Bento XV, 1920), Carlos não a alcançou.

E no entanto, mesmo os seus inimigos republicanos, compatriotas, se lembram dele como o Friedenskaiser, o Imperador da Paz. Ao meditar sobre a vida do bem-aventurado imperador Carlos, temos um exemplo encorajador de fé. Lembramos que a justa medida está profundamente ancorada na fé. Lembramos que só podemos ordenar bem a nós mesmos e ao mundo à nossa volta quando unimos nossa vontade à do Pai do céu e, assim, abandonamos toda a inimizade entre Deus e nós. Somente quando nos reconciliarmos com Deus e lutarmos para permanecer em paz com Ele poderemos lutar genuinamente pela paz na terra. Como imperador e rei, Carlos sempre procurou imitar Jesus, o verdadeiro Salomão, o verdadeiro portador da paz, e por isso pode ser chamado um filho de Deus.

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