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São José, o maior de todos os santos
Santos & Mártires

São José, o maior de todos os santos

São José, o maior de todos os santos

“Constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem”, São José “transcende em dignidade todos os outros santos”, pois “foi estabelecido em uma ordem superior a todas as outras na Igreja”.

Edward Healy ThompsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Junho de 2019Tempo de leitura: 12 minutos
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Tudo o que Deus ordena está disposto em maravilhosa e perfeita ordem. Por isso, a Igreja que Jesus veio fundar na terra imita a Sião celestial. Como no céu existem hierarquias angélicas, e nessas hierarquias há ordens diferentes, assim também na terra existe uma hierarquia de graça, e nessa hierarquia estão incluídas várias ordens ou ministérios que, de acordo com o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, destacam-se em proporção à sua proximidade a Deus (cf. STh I, q. 107, a. 6).

A mais alta de todas essas ordens, sejam elas angélicas ou humanas, é a ordem da união hipostática, à qual pertence Jesus Cristo, Deus e homem. Por união hipostática entende-se que o Filho eterno de Deus, em sua Encarnação, assumiu a natureza humana e uniu-se a ela em unidade de pessoa. Em outras palavras, a única Pessoa divina de Jesus Cristo subsiste  em duas naturezas, divina e humana, distintas em si mesmas, mas agora inseparáveis e para sempre unidas.

Se é maravilhosa a ordem que se vê em todas as obras da natureza, é sumamente perfeita a que existe em todas as obras da graça, especialmente por sua relação com a Encarnação do Verbo. Entre essas ordens da graça, algumas precedem no tempo o mistério da Encarnação, enquanto outras o seguem.

  • Entre as que o precedem, a mais remota é a dos Patriarcas, escolhidos como progenitores de Jesus, até São Joaquim e Sant’Ana. A alguns deles, como Abraão e Davi, foi expressamente revelado que de seu sangue e família o Salvador dos homens havia de vir ao mundo.
  • A ordem seguinte é a levítica e sacerdotal, que foi predestinada por Deus como prefiguração, em todos os seus ritos, do sacerdócio de Jesus, de sua Igreja e sacramentos, do sangrento Sacrifício da cruz e do sublime Sacrifício do Altar.
  • A terceira é a dos profetas, destinados a predizer e anunciar ao mundo, tantos séculos antes da vinda de Jesus, seu nascimento de uma Virgem, seu país, o lugar de sua Natividade, sua fuga para o Egito, seus Apóstolos, sua pregação e milagres, sua Paixão, Morte e Ressurreição e sua Ascensão gloriosa ao céu. O maior de todos esses profetas foi João Batista (cf. Lc 7, 28), predestinado a ser o Precursor imediato de Cristo, a fim de apontar que Ele estava realmente presente na terra; donde o próprio Jesus ter afirmado que entre os nascidos de mulher não havia nenhum profeta maior do que João Batista.

São essas as ordens que sob a Antiga Lei precederam Nosso Senhor.

Outras ordens o sucederam, e estas são as várias ordens ou ministérios que, na Santa Igreja, formam a hierarquia eclesiástica, começando pelos Apóstolos.

São José, Patrono da Igreja, em um altar lateral da Basílica do Sagrado Coração, em Roma.

Os Apóstolos deviam dar à terra inteira e todas as idades o seu solene testemunho da divindade de Jesus Cristo. Eles deviam anunciar toda a sua doutrina, sua Lei, seus sacramentos; deviam difundir a sua Igreja por todo o mundo, para que todos possam alcançar a salvação eterna. E como a ordem apostólica era a mais próxima do que qualquer outra a Jesus, por isso mesmo, diz o Angélico Doutor, os Apóstolos receberam mais graça do que qualquer santo nas demais ordens da Igreja (cf. In Epistolam ad Ephes. I, 8). Das ordens inferiores não precisamos falar aqui.

Acima de todas estas se ergue supremamente a ordem da união hipostática. Todas as outras ordens, incluindo as angélicas, estão subordinadas e sujeitas a ela. Por esse motivo, Jesus é o princípio, o autor e a cabeça desta ordem, e de Jesus, como príncipe soberano, depende toda hierarquia, todo principado sagrado no céu e na terra, visto que Ele, como diz o Apóstolo, é o fim de toda a Lei (cf. Rm 10, 4). Jesus é a pedra angular sobre a qual repousa todo o edifício sagrado da Igreja (cf. Ef 2, 20). Jesus, de acordo com o profeta Isaías (11, 10.12), é o estandarte para o povo, é o desejo de todas as nações, é o centro da esperança universal. É Ele a única e verdadeira fonte de salvação para todos os homens.

Pela fé naquele que viria, foram salvos todos os que viveram desde Adão até a Natividade de Cristo; e todos os que viveram e viverão em justiça, desde a sua vinda, foram e serão salvos por Ele. Somente nele, a partir dele, e somente através dele, está a verdade, a salvação e a vida, de modo que, assim como os planetas no firmamento giram ao redor do Sol, recebendo dele luz, calor e poder, assim também ao redor de Jesus, Sol eterno de justiça, todas as várias ordens da graça circulam, dele mesmo recebendo a sua luz, a sua virtude e o seu poder, para cumprir fielmente os santos ofícios para os quais foram ordenados. E tanto o mais como o menos agraciado dele recebem graça, segundo a medida em que estão mais ou menos próximos de Jesus, Autor da graça, segundo seus ministérios próprios, assim como o que está mais perto do fogo participa mais amplamente do seu calor. É evidente, portanto, que a ordem da união hipostática transcende e ultrapassa as outras ordens subordinadas, da mesma forma como o Sol transcende as estrelas inferiores.

Pois bem, São José, por divina predestinação, foi colocado nesta ordem soberana. Apenas três tiveram essa honra, e foram justamente Jesus, Maria e José. Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; Maria é verdadeira Mãe de Deus e Mãe dos homens; José, por sua vez, é o verdadeiro esposo de Maria e pai adotivo e virginal de Nosso Senhor. Jesus é o centro da Encarnação e o Redentor do mundo; Maria é a imediata cooperadora e aquela em cujo seio se deu a Encarnação; José, enfim, é o fiel depositário dessas duas dádivas preciosas, a fim de garantir que este sublime mistério da Encarnação e da Redenção fosse realizado da melhor forma possível, preservando intacta a honra da Mãe e do Filho.

Que São José deveria estar compreendido nesta ordem suprema não é uma mera opinião devota ou fruto de piedosa meditação. É, antes, uma conclusão segura da mais sensata teologia. Suárez, o eminente teólogo, depois de ter falado da ordem dos Apóstolos, à qual disse terem sido concedidas as maiores graças, prossegue afirmando:

Há outros ministérios relativos à ordem da união hipostática, que em sua espécie é a mais perfeita, como afirmamos a respeito da dignidade da Mãe de Deus, e nesta ordem está constituído o ministério de São José; e, embora esteja no grau mais baixo dela, no entanto, supera todas as outras, porque subsiste em uma ordem em si mesma superior.

Assim falou Suárez, mais de quatrocentos anos atrás, quando a opinião dos fiéis a respeito de São José e da devoção a ele devida não tinha ainda sido tão aberta e geralmente proclamada.

Mas os Doutores que se lhe seguiram falaram com ainda maior clareza. Giovanni di Cartagena, contemporâneo de Belarmino e Barônio, muito querido do Papa São Pio V por sua piedade e ciência, das numerosas homilias que redigiu, treze quis dedicar aos louvores de São José. Após falar da ordem apostólica, ele passa a tratar da ordem da união hipostática e diz que, em sua espécie, é ela a mais perfeita que as anteriores, e que nessa ordem o primeiro lugar é ocupado pela humanidade de Cristo, que está substancialmente unida à Pessoa do Verbo; o segundo lugar é ocupado pela Santíssima Virgem, que concebeu e trouxe em seu ventre a Palavra encarnada; o terceiro lugar, enfim, é ocupado por São José, a quem foi confiado por Deus o cuidado especial, nunca dado a ninguém mais, de alimentar, educar e proteger o Deus feito homem. Depois de Cartagena vem Giuseppe Antonio Patrignani, muito elogiado por Bento XIV, que, três séculos atrás, assim escreveu de São José: “Ele, constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem, transcende em dignidade todos os outros santos. Ele, por conseguinte, foi estabelecido em uma ordem que é superior a todas as outras ordens na Igreja” (Il Divoto di S. Giuseppe, Novena, Gior. VI).

Poderíamos aduzir outros Doutores de elevada autoridade, mas continuaremos a considerar algumas das consequências legítimas que fluem dessa doutrina:

1. É uma grande honra para São José ser compreendido na mesma ordem em que está Jesus, o próprio Filho de Deus, o Rei dos reis, e Maria, Mãe de Deus e Rainha do universo, para se unir a eles nas mais íntimas relações e desfrutar da sua maior confiança.

Os nobres da terra consideram-se altamente honrados por poderem desfrutar de íntima relação com monarcas conhecidos, ocupando os lugares mais importantes em seus tribunais e sendo os mais confiáveis em seus conselhos. O que diremos, então, do glorioso São José, que, colocado na ordem da união hipostática, foi destinado por Deus não apenas para ser o primeiro em sua corte e o mais próximo em sua confiança, mas ainda para ser honrado como pai do Rei dos reis, e para ser não só o amigo confidencial, mas o cônjuge exaltado da Imperatriz do universo? Ao lado da maternidade divina, nenhuma honra no mundo é comparável a isso.

2. Ser compreendido na ordem da união hipostática implica ser, depois de Jesus e Maria, superior a todos os outros santos, tanto do Antigo como do Novo Testamento. E a razão disto é clara: como esta ordem é superior a todas as outras ordens na Igreja, segue-se que quem quer que tenha nela um lugar, ainda que seja em seu mais baixo grau, como José, é anterior a todos os que estão no grau mais elevado das ordens inferiores, como a dos Apóstolos, que é a mais eminente entre elas.

3. Daí se segue que São José é superior, não em natureza, mas em dignidade, aos próprios anjos, já que as ordens angélicas estão subordinadas à ordem da união hipostática, por estarem sujeitas a Jesus, seu Rei e Cabeça, e a Maria Santíssima, sua Rainha. Logo, como declara o Apóstolo, quando o Pai eterno enviou seu Filho divino à terra, Ele ordenou que todos os anjos o adorassem (cf. Hb 1, 6). E por causa de Jesus, os anjos se tornaram sujeitos também a Maria e a São José. Não é acaso assim que os vemos na Escritura, a servi-lo, avisá-lo, consolá-lo de bom grado: uma vez, para assegurá-lo de que sua esposa concebera o Filho de Deus; outra, para o fazer conhecer a trama de Herodes; depois, para que ele pusesse a Virgem e seu divino Filho em segurança, fugindo para o Egito; e, enfim, para lhe anunciar que era já seguro retornar à terra de Israel (cf. Mt 1, 20-21; 2, 13.19-20)?

4. Podemos concluir ainda que José foi compreendido nesta ordem porque era, verdadeiramente, o chefe e guardião da Sagrada Família. Maria e José, exaltados segundo a sua dignidade, eram no entanto apenas criaturas; mas Jesus quis dar exemplo da mais perfeita humildade. Foi vontade sua engrandecer o nosso santo e conceder-lhe esta alta glória, fazendo dele cabeça e guardião de sua Família, de modo que José tivesse verdadeiro domínio e autoridade sobre o próprio Filho de Deus e sobre a Mãe do Filho encarnado. São José, estando assim destinado a ser defensor e guardião de Jesus, cabeça e defensor de Maria, tornou-se ao mesmo tempo Patrono e guardião de toda a Santa Igreja, que é a esposa de Cristo e, de certo modo, filha de Maria Santíssima. Daí que o Papa Pio IX, de feliz memória, ao proclamar São José Patrono da Igreja, não só lhe conferiu um novo título de honra como, ademais, confirmou e declarou esta sua prerrogativa, que não tinha antes sido tão expressamente promulgada pela Igreja.

5. Segue-se, além disso, que José foi posto nessa ordem e Família em função da mais elevada missão que é possível conceber, na medida em que ele foi constituído representante do Pai divino, a quem cabe o direito de chamar a Jesus seu Filho natural, por gerá-lo desde toda a eternidade. E esse mesmo Deus, que pela boca do profeta Isaías (42, 8) protestou que nunca daria sua glória a outrem; esse Deus, que ao comunicar ao Verbo e ao Espírito Santo sua única e indivisa essência divina, não lhes transmite contudo sua divina paternidade, foi, não obstante, tão generoso para com São José, que lhe quis conceder sua glória e comunicar-lhe seu nome e paternidade: não em sentido próprio, pois isso seria impossível, mas de modo que ele pudesse estar em seu lugar e ser chamado pai do Verbo Divino, e que o próprio Verbo o pudesse chamar com este dulcíssimo nome, para que, assim, a São José se pudesse apropriar felizmente aquela passagem na Sagrada Escritura: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (Hb 1, 5).

Aqui vemos, pois, manifestar-se o grande amor que as três Pessoas da Santíssima Trindade têm para com São José e a confiança que nele depositam, porquanto o Pai eterno incumbiu-o totalmente do cuidado de seu Filho bem-amado; o Filho divino, por seu turno, entregou-se-lhe inteiramente, tanto aos seu cuidados como à sua vontade; e o Espírito Santo, por fim, encomendou-lhe sua esposa imaculada. Tudo isto para que a Sagrada Família, da qual José foi constituído chefe, fosse como que outra trindade na terra,  imagem resplandecente da Santíssima Trindade no céu: José, representante do Pai eterno; Jesus representando e sendo em verdade a Palavra eterna; e Maria, representando o Amor eterno, o Espírito Santo. Este pensamento, tomamo-lo de empréstimo a São Francisco de Sales, Doutor da Igreja (Entretien, 19): “Podemos dizer”, são palavras dele, “que a Sagrada Família foi como uma trindade na terra, que representava de certa forma a própria Trindade celestial”.

6. Finalmente, conclui-se que José, por estar compreendido nesta ordem sublime, superior à de todos os outros santos, deve, como consequência natural, ter sido predestinado a receber maiores dons e graças do que todos os outros santos, de maneira que ele fosse digno de estar tão perto de Jesus e Maria e, além disso, preparado para cumprir mais fielmente os altos ministérios para os quais foi escolhido. Confirma-o o piedoso Bernardino de Bustis com ousada afirmação:

Uma vez que José havia de ser o guardião, companheiro e governante da Santíssima Virgem e do Menino Jesus, é quiçá possível conceber que Deus pudesse ter cometido um erro em sua eleição? Ou que Ele pudesse ter permitido que São José fosse imperfeito em algum aspecto? Ou pudesse ainda ter falhado em torná-lo perfeito? A própria ideia soa como o erro mais grosseiro. Quando Deus escolhe alguém para realizar um grande trabalho, Ele concede toda a virtude necessária à sua realização (Mariale, Sermo XII).

Alegremo-nos, pois, com o nosso Patriarca amorosíssimo, porque ele foi exaltado a uma ordem tão sublime e obteve tamanha graça, poder e dignidade como ninguém mais, depois de Jesus e Maria, jamais recebeu, para a glória de Deus, que o fez tão grande, e para nosso bem e de toda a Igreja.

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Lições da Semana Santa em tempos de pandemia
Liturgia

Lições da Semana Santa
em tempos de pandemia

Lições da Semana Santa em tempos de pandemia

Pessoas em todo o mundo estão sofrendo — com a doença, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou a separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os.

Michele ChronisterTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Eu vivo para a Semana Santa.

Sei que não estou só em meu amor pela Semana Santa e pelo Tríduo Pascal. Quando estudava na Universidade de Notre Dame, eu era um dos muitos estudantes que faziam fila às portas da Basílica do Sagrado Coração por horas antes de elas serem abertas para as liturgias do Tríduo. Eu não era a única que corria para garantir um lugar. E não era a única que tinha de se virar com qualquer espaço disponível — mesmo que esse lugar fosse no chão.

Assisti às liturgias do Tríduo em diferentes estados e dioceses, e embora poucas pessoas fossem tão extremas em seu entusiasmo quanto meus colegas de graduação da Notre Dame, em todas as paróquias das quais participei eu encontrava pessoas devotas das liturgias mais sagradas do ano. Desde que cheguei à idade da razão, perdi alguns dias específicos do Tríduo, mas jamais ele inteiro. Mesmo grávida e sofrendo de hiperêmese gravídica, não suportava a ideia de perder o Tríduo. 

Mas neste ano vejo-me na mesma situação de muitos leigos espalhados pelos Estados Unidos e pelo mundo — numa diocese em que as Missas públicas foram suspensas como parte de um esforço por “achatar a curva” e retardar a disseminação de uma pandemia. Este ano só poderei assistir às liturgias do Tríduo em meu laptop escorado num altar doméstico provisório na sala de estar

Porém, mesmo que a região onde moro não tivesse de seguir a política de confinamento e eu pudesse participar do Tríduo Pascal, não veria exatamente as mesmas belas práticas litúrgicas que havia memorizado no coração. Até as liturgias do Tríduo foram alteradas por causa da estranha época em que estamos vivendo.    

Não sou a única a lamentar por isso. As redes sociais estão cheias de leigos desolados por não poderem participar das liturgias do Domingo de Ramos, do Tríduo e até do Domingo de Páscoa.

Esse certamente não será o Tríduo que desejávamos; apesar disso, poderá ser o mais autêntico que vivemos até agora.

Um mistério re-presentado

O mistério pascal não é apenas um evento histórico que recordamos todos os anos. O propósito da Semana Santa e do Tríduo não é somente relembrar coisas que aconteceram dois mil anos atrás. Ao contrário, a Semana Santa torna presente outra vez aqueles mistérios sagrados. De fato, é isso que acontece toda vez que vamos à Missa. Quando o sacerdote eleva a hóstia na consagração, não é simplesmente como se estivéssemos ao pé da cruz — nós realmente estamos ao pé da cruz. O sacrifício de Cristo não ocorre várias vezes. Seu sacrifício único e perfeito foi suficiente. O dom da Missa está precisamente no fato de aquele sacrifício tornar-se presente outra vez para nós (“re-presentado”). Isso também faz parte do dom da Semana Santa. Por meio da celebração daquelas liturgias e Missas, compreendemos que somos uma parte do mistério pascal — uma realidade viva que ainda está se desvelando.

Nós tomamos parte no drama da Semana Santa todos os anos, mas é fácil cair no hábito de participar dele como espectador. É fácil enxergá-lo como mera comemoração do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo, sem lembrar do papel que somos convidados a exercer nesse mistério.  

Uma pandemia e um convite

Nos outros anos, tínhamos de encontrar formas de mantermo-nos concentrados durante a Semana Santa. No domingo, levávamos para casa os ramos distribuídos na Missa e os colocávamos atrás das imagens e crucifixos em nossos lares. Íamos à Missa, jejuávamos na Sexta-feira Santa, pedíamos que um padre abençoasse a refeição de Páscoa… mas parmanecíamos distraídos. Na ausência de sofrimento, é fácil esquecer que também precisamos da cruz

Mas este ano é diferente.

Pessoas de todos os lugares do mundo estão sofrendo — com a doença, a enfermidade de um ente querido, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os. Como os Apóstolos, estamos separados da presença de Cristo, nossas igrejas estão fechadas e a Eucaristia não se encontra à nossa disposição. Estamos no Cenáculo, assustados; não ousamos ter esperança. Como todos os que estão ao pé da cruz, tentamos permanecer firmes, ainda que à beira do colapso. De repente, deparamos com muito sofrimento. De repente, o sofrimento tornou-se inevitável. 

Mas, quando estivermos em nossos próprios cenáculos na manhã do Domingo de Páscoa, é nosso dever escutar e permanecer em silêncio, a fim de que possamos ouvir o Cristo ressuscitado dirigir também a nós aquelas palavras de esperança: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo 14, 27).

Nesta Semana Santa, somos convidados a uma experiência muito real da cruz, abraçando seja qual for o sofrimento por que estejamos passando. Mas também somos convidados a lembrar que a cruz é, verdadeiramente, nossa única esperança. 

Cristo venceu a morte. E como fez com os Apóstolos, tomados pelo medo, Ele estende a mão para nós — aquela que porta suas chagas glorificadas — e nos diz: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

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As profecias sobre o coronavírus
Sociedade

As profecias sobre o coronavírus

As profecias sobre o coronavírus

Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. O que pensar a respeito de tudo isso?

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. É natural que o ser humano se preocupe com o amanhã, sobretudo numa situação de calamidade pública. Mas é preciso critério para não nos deixarmos levar pelo pânico. A autenticidade dessas visões depende muito do quanto elas nos levam à verdadeira conversão do coração, provocada pelo temor de Deus, e não por um estado de desespero mundano.

No início dos anos 2000, falava-se muito sobre o fim do mundo, ou bug do milênio, que provocaria um verdadeiro caos na humanidade. Entre as tantas previsões “nostradâmicas” que havia, o Vaticano divulgou na mesma época o texto dos segredos de Fátima, “a mais profética das aparições modernas”, segundo o Cardeal Joseph Ratzinger. Pelo seu teor e contundência, a mensagem refletia “uma visão profética comparável às da Sagrada Escritura”, afirmou Ratzinger à época, uma vez que tratava da salvação da humanidade. Todavia, isso não a isentou de controvérsias dentro e fora da Igreja.

O reconhecimento de uma autêntica profecia é comprometido pelo contexto da falsa profecia. Como notou o Papa Paulo VI, o povo não está mais inclinado a acreditar na Igreja e em seu ensino, mas “no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se tem a fórmula da verdadeira vida”. É o que estamos vendo acontecer hoje, quando muitos estão se aproveitando do momento para emplacar agendas ideológicas e controlar a população através da coação. Essa situação só demonstra como o tema do profetismo é atual e muitíssimo relevante para uma adequada compreensão da realidade.

De algum modo, há um paralelo muito interessante entre o tempo atual e o tempo do profetismo bíblico, do qual se podem obter luzes para os nossos problemas. Precisamos entender, em primeiro lugar, que lugar ocupa o profeta no âmbito da fé e da sociologia, para depois reconhecermos a voz do verdadeiro mensageiro de Deus no meio de tantos outros intermediários, sobretudo no contexto de ameaças distópicas.

A missão do profeta

Diante de um Ocidente tão paganizado, podemos pensar na aliança de Deus com o povo de Israel. Quando este se esqueceu do seu compromisso, o Senhor levantou profetas para reconduzi-lo de volta ao caminho seguro da Palavra. Os profetas enfrentaram autoridades e, pior ainda, tiveram de disputar violentamente o coração dos homens, constantemente assediado por falsos visionários. Nos dias de hoje, essa mesma dificuldade é vivida pela Igreja, no confronto com aquilo que Paulo VI chamou de “profetismo profano”.

Na tradição bíblica, o profeta vai além das visões sobre o futuro. Ele faz parte da dinâmica da Revelação e, em razão disso, a sua mensagem precisa ser acolhida no conjunto do “depósito da fé”. A marca distintiva do profeta de Deus é, então, a de não servir simplesmente a uma curiosidade humana sobre o futuro, mas a de revelar a própria face do Senhor e, do mesmo modo, “o caminho para o autêntico ‘êxodo’, o qual consiste em que, em todos os caminhos da história, deve ser procurado e encontrado o caminho para Deus como autêntica direção” [1].

Neste sentido, o critério da autenticidade profética na tradição bíblica é a “homogeneidade ou, melhor, continuidade” [2]. Isso quer dizer que o profeta não é o homem dos “pruridos de novidades”, como diz São Paulo, mas alguém que coloca o povo numa linha em conformidade com a fé de sempre, a Promessa dos pais. Essa homogeneidade é, portanto, a da fé, “na proclamação do único e verdadeiro Deus... Na história sobretudo; na concordância entre a Palavra e a realidade como o tempo a revela, aos poucos” [3].

Com efeito, uma profecia não é verdadeira simplesmente porque apresenta uma série de calamidades e destruições. Ao contrário, é o dogma da fé que realmente importa. Por isso, a dificuldade de reconhecermos o verdadeiro profeta “evoca uma crise particularmente dolorosa com a qual se chocou a fé bíblica” [4]. Então entra em cena aquilo que é próprio da fé, segundo a fórmula clássica da Carta aos Hebreus: não é uma certeza experimental, no sentido das ciências naturais, mas “é a substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem” (11, 1).

Deus levantou profetas ao longo da história para despertar o dom sobrenatural da fé no coração dos homens, uma vez que sem fé é impossível agradar a Deus. Na disputa atual entre “profetas de Deus” e “profetas profanos”, portanto, a fé dos Apóstolos é que deve ser o objeto principal. E, ainda que a Revelação já esteja encerrada e não se deva um assentimento necessário às revelações “privadas”, estas, quando verdadeiras, ajudam a Igreja a viver a Revelação de Cristo mais plenamente numa determinada época da história, de modo que “o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n. 67).

Neste sentido é que o Magistério, repetindo a indicação dos profetas do Antigo Testamento, também ilumina a inteligência dos fiéis, dando critérios de como saber reconhecer uma autêntica mensagem de Deus nos “sinais dos tempos”. Esses critérios referem-se, obviamente, à coerência da mensagem com aquilo que é a fé verdadeira, às qualidades pessoais do mensageiro, à isenção de erros com relação ao dogma e, finalmente, à devoção sadia e à abundância de frutos espirituais. Em suma, todo o movimento profético católico serve para assegurar que aquela dramática pergunta de Cristo tenha, afinal, uma resposta positiva: “Quando vier o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8).

Os católicos diante do coronavírus

À luz do que aprendemos, a crise do coronavírus deve ser encarada como uma oportunidade de profunda conversão e retorno à fé de sempre. Se as profecias têm um sentido, ele não pode ser outro senão o do restabelecimento da verdadeira religião em nossos corações. Não é hora para especulações apocalípticas e desespero, mas para a oração, o jejum e a caridade. Em muitos lugares, temos notícias de igrejas fechadas, mortes de sacerdotes e Missas canceladas. Diante disso, restam-nos a penitência e a expiação vicária, pedindo perdão a Deus pelas inúmeras vezes que sujamos a Igreja com nossos pecados, abusos litúrgicos e irreverências para com a Eucaristia, agora que muitos já nos encontramos privados dela. Porque é para isso que servem esses momentos: para nos distanciar do mundo e voltar nossas almas a Deus.

Temos de reconhecer nossa infidelidade à aliança com Deus. A blasfêmia tornou-se direito em muitos lugares e a idolatria tomou conta das almas. Sem dúvida, a humanidade já foi longe demais no desrespeito à lei natural, à lei de Deus. Essa crise mundial que nos angustia é, nesse contexto, uma chance de revermos nossa finitude, nossa pequenez e necessidade de um Deus verdadeiro, vivo, pessoal, que se compadece de seus filhos. É hora de voltarmos a esse Deus, voltarmos à fé de nossos pais, à fé de Abraão, pela qual inúmeros cristãos, antes de nós, deram a vida a fim de conservá-la intacta.

A perseverança na verdadeira fé é necessária porque ela é o alimento dos “eleitos”, aqueles por cujo testemunho Deus promete o encurtamento da tribulação. Ela é fundamental para nos preservar dos falsos cristos e falsos profetas que surgirão nesses dias, fazendo “grandes prodígios e maravilhas para enganar, se possível, até os eleitos” (Mt 24, 24). Jesus dá-nos a seguinte orientação: “Quando virdes, pois, a abominação desoladora, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo, os que estiverem na Judeia, fujam para as montanhas” (Mt 24, 15). Nas Sagradas Escrituras, a “montanha” é o lugar para o encontro com Deus. Subamos, portanto, às montanhas de nossas almas, às moradas mais altas do castelo, a fim de que Deus envie logo seus anjos, “com forte som de trombeta, para reunir seus eleitos desde os quatro ventos, de uma extremidade dos céus à outra” (Mt 24, 31).

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: do batismo à transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007, p. 23.
  2. Louis Monloubou, Os profetas do Antigo Mandamento. São Paulo: Paulinas, 1986, p. 77.
  3. Id., ibid.
  4. Id., ibid.

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A “tolice” de quem se sacrifica pelo próximo
Doutrina

A “tolice”
de quem se sacrifica pelo próximo

A “tolice” de quem se sacrifica pelo próximo

Nestes tempos de pandemia, o que mais precisamos é de padres como John Hollowell, que se dispôs a assumir uma cruz pela salvação do próximo. Mas o protestantismo distorceu tanto o significado do sofrimento, que agora muitos confundem amor com... tolice.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Abril de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
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As reações à nossa matéria sobre o padre que ofereceu o próprio câncer em expiação pelos pecados de pedofilia na Igreja foram bem interessantes, para dizer o mínimo. Da parte dos católicos, naturalmente, a notícia serviu para confirmar a doutrina da Igreja acerca do sofrimento redentor de Cristo, ao qual podemos nos unir os batizados com nossos próprios sofrimentos. Entre o público geral (aqui incluindo católicos mal catequizados), todavia, o gesto corajoso do padre John Hollowell foi visto com desconfiança e repulsa.

Entre os que não leram o texto (e ainda assim se sentiram no direito de julgar o padre, como se ele tivesse cometido algum crime) e os que o leram (mas não entenderam nada), houve, por exemplo, quem se perguntasse sobre a necessidade de toda aquela exposição. “Ele não poderia sofrer em silêncio?”, perguntou um leitor. Outros, mais incrédulos, questionaram como tal oferta serviria para apagar as cicatrizes de quem viveu o crime de pedofilia. “Isso é uma bobeira e um voto de tolo”, afirmou outro comentarista, dizendo que Deus “não recebe esse tipo de oração”.

O pe. John Hollowell, da diocese de Indianápolis (EUA).

Ao fim e ao cabo, a maior parte dos que se escandalizaram parecia ter a opinião comum (e protestante) de que ninguém precisa oferecer sacrifícios pelos outros porque, de fato, Jesus já ofereceu um sacrifício definitivo por nós na Cruz. No texto anterior, chegamos a comentar, ainda que brevemente, como essa visão unilateral sobre a Paixão de Cristo levou a uma revolução teológica que culminou na própria negação da necessidade da Cruz. Se tivessem se dado ao trabalho de ler o artigo com atenção, talvez esses leitores não nos teriam brindado com tantos comentários estabanados e grosseiros. 

Seja como for, o imbróglio nos dá a chance de voltarmos ao assunto com mais rigor e profundidade. O tema é de suma importância, sobretudo agora nos tempos de coronavírus, quando necessitamos de tantas almas dispostas ao sacrifício heroico pela salvação dos irmãos.

O caráter definitivo do sacrifício de Jesus

De que o sacrifício de Jesus na Cruz foi definitivo e suficiente para a salvação do gênero humano não há dúvida alguma. Apenas Nosso Senhor poderia expiar os pecados da humanidade, porque, pela união hipostática, somente Ele é o pontífice que une o céu e a terra, a natureza humana e a divina. “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16), afirma São João em seu Evangelho. Por isso, toda a vida de Jesus, mas especialmente a sua crucificação, serviram para redimir e dar um novo significado aos sofrimentos dos homens. Com a Cruz, explica São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, “Cristo aproximou-se do mundo do sofrimento humano, sobretudo pelo fato de ter ele próprio assumido sobre si este sofrimento” (n. 16).

Acontece, porém, que o sofrimento não foi erradicado do mundo após a crucificação de Jesus. Ele permanece aqui, no meio de nós, e afeta crentes e não crentes, homens e mulheres, adultos e crianças, como se fosse uma condição da natureza. Aquela “vida nova” que Jesus nos deu com a sua Paixão, diz o Catecismo da Igreja Católica, nós a trazemos “em vasos de barro”, porque “vivemos ainda na ‘nossa morada terrena’, sujeita ao sofrimento à doença e à morte” (n. 1420). Sim, continuamos a sofrer na nossa carne. Jesus morreu e, aparentemente, permanecemos na mesma: ainda há homicídios, guerras, doenças, depressão, histeria e outros tipos de dores, sejam físicas ou morais. Jesus ressuscitou, mas seguimos enterrando nossos familiares e amigos. Ele venceu o pecado, mas ainda existem Judas no meio do clero.

Notem que as mesmíssimas questões levantadas contra o padre John Hollowell podem também ser feitas a Jesus. Aliás, elas já são feitas por muitas pessoas que relativizam a atividade espiritual da Igreja, julgando-a uma alienação incapaz de erradicar a dor dos pobres, dos doentes e dos famintos. Com isso, nega-se o valor da oração e dos sacramentos. O certo, para esses senhores, seria a luta pela igualdade absoluta, de modo que todos os homens pudessem desfrutar dos bens materiais em idênticas condições. Infelizmente, esse pensamento ideológico e mentiroso também contaminou muitos dentro da Igreja, como foi o caso dos padres operários e teólogos da libertação.

Mas em que consistiu, então, a Paixão de Cristo?

É preciso entender, em primeiro lugar, que a Encarnação de Cristo e a sua Paixão não tinham o objetivo de inaugurar um “mundo melhor”, entendido como um paraíso utópico aqui na terra, onde todas as dores e contrariedades seriam sanadas. Nunca é o bastante lembrar destas palavras do Senhor: “Pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12, 8). Antes de tudo, Jesus veio para nos revelar a face amorosa de Deus, e apenas um coração muito duro, adverte o Papa Bento XVI, pode achar isso pouco [1].

“Ele nos trouxe Deus: agora conhecemos o seu rosto, agora podemos chamar por Ele. Agora conhecemos o caminho que como homens devemos percorrer neste mundo”, insiste o Papa [2]. E é a partir dessa boa nova de Jesus que o sofrimento humano tem outra conotação. O nosso fardo se converte no fardo de Cristo: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 29-30).

Os sofrimentos do Corpo místico de Cristo

A pergunta que geralmente nos fazemos quando experimentamos alguma provação mais ou menos pesada, quando as coisas saem fora dos trilhos e não correspondem ao planejado, é: por quê? Por meio da Revelação, sabemos que a raiz do mal no mundo se deve ao pecado original. Por outro lado, a história de Jó mostrou também que o sofrimento não é simplesmente um castigo, mas uma situação da qual nem sequer os justos podem se furtar. E o profeta Isaías expôs o mesmo drama com toda clareza nos versos sobre o Servo sofredor, que “tomou sobre si nossas enfermidades” e “carregou-se com as nossas dores” (42, 2-6). Tratava-se de um homem inocente a quem, no entanto, não era estranho o sofrimento. Em razão disso, a Igreja jamais pretendeu dar uma resposta, em sentido estrito, à questão do sofrimento, que é um mistério dos desígnios de Deus para cada ser humano.

A Paixão de Jesus, consequentemente, não significou tanto uma resposta ao porquê do sofrimento quanto um para quê. O Filho do Homem veio para servir e fazer a vontade do Pai; Ele veio para assumir a natureza humana e torná-la participante da vida divina. Com isso, explica São João Paulo II, Jesus “não só realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido” (Salvifici Doloris, n. 19). A partir daí, todo membro do Corpo místico de Cristo pode, por meio da graça batismal, participar da obra da Redenção, oferecendo suas próprias dores para a salvação do gênero humano. Tal atitude não implica uma negação do sacrifício definitivo de Jesus, mas a aplicação desse mesmo sacrifício ao longo da história, em virtude da união mística de todo batizado à cabeça da Igreja, que é Jesus.

Assim se entende por que Nosso Senhor fez esta exigência a nós: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24). Ele não aboliu a cruz dos outros com a própria crucificação, mas permitiu que sofrêssemos ao seu lado pela redenção de todos os homens. O sofrimento pessoal, que antes era causa de angústia, tornou-se, com a Paixão de Jesus, causa meritória: podemos merecer a salvação de nossos irmãos, reparando seus pecados com a nossa oferta de amor. Por isso São Paulo exortava os cidadãos de Roma a oferecerem seus corpos “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. “É este o culto espiritual que lhe deveis prestar” (Rm 12, 1), insistia São Paulo; uma crença abstrata não é o bastante.

“A ajuda do padre” (Venezuela, 1962), fotografia de Hector Rondón Lovera.

Os textos do Novo Testamento estão repletos de versículos sobre a expiação vicária que os cristãos devem fazer como membros do Corpo místico de Cristo. Na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, lemos que “por toda a parte levamos sempre no corpo os sofrimentos de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo” (4, 8-11.14). Em outra passagem, o mesmo Apóstolo escreve acerca do conhecimento de Cristo: “Poderei conhecê-lo, a ele e à força da sua Ressurreição, e ser integrado na participação dos seus sofrimentos, transformado numa imagem da sua morte, com a esperança de chegar à ressurreição dos mortos” (Fl 3, 10-11). E o mesmo ensina São Pedro aos seus fiéis: “Alegrai-vos, antes, na medida em que participais nos sofrimentos de Cristo, para que também vos alegreis e rejubileis na sua gloriosa aparição” (1Pe 4, 13).

Alguém poderia afirmar, porém, que essa participação na Cruz de Cristo nada tem a ver com oferecimento de sacrifícios uns pelos outros. Mas as palavras de São Paulo, mais uma vez, não deixam dúvida: “Carregai os fardos uns dos outros; assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6, 2). O Apóstolo chega a ser ainda mais ousado, afirmando que completa na própria carne “o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24). Ele, obviamente, não nega a completude da Redenção, mas sabe que ela não se encerra com o evento histórico do Gólgota, mas deve se perpetuar misticamente em cada membro do Corpo místico. É o que diz São João Paulo II:

Isto significa apenas que a Redenção, operada por virtude do amor satisfatório, permanece constantemente aberta a todo o amor que se exprime no sofrimento humano. Nesta dimensão — na dimensão do amor — a Redenção, já realizada totalmente, realiza-se em certo sentido constantemente. Cristo operou a Redenção completa e cabalmente; ao mesmo tempo, porém, não a fechou: no sofrimento redentor, mediante o qual se operou a Redenção do mundo, Cristo abriu-se desde o princípio, e continua a abrir-se constantemente, a todo o sofrimento humano. Sim, é algo que parece fazer parte da própria essência do sofrimento redentor de Cristo: o fato de ele solicitar a ser incessantemente completado (grifos nossos) (Id., n. 24).

Os efeitos da expiação vicária

No horizonte da Redenção está a transformação do gênero humano pelo amor. Jesus veio para cumprir a profecia do profeta Ezequiel: “Tirarei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos” (36, 26). Os preceitos divinos se resumem a dois: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E é apenas pela graça batismal que o homem pode receber esse novo coração e mergulhar na Paixão redentora de Jesus para andar na sua lei e observar os seus preceitos.

A graça que recebemos no Batismo deve crescer conforme a nossa generosidade, dispondo-nos a amar Jesus no serviço aos nossos irmãos. Isso precisa gerar em nós a virtude da caridade, sem a qual é impossível agradar a Deus. Porque “se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres”, explica São Paulo, “e até entregasse meu corpo para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria” (1Cor 13, 3). O que importa na dinâmica do sofrimento, portanto, é a configuração a Cristo, que acontece por meio da aceitação de nossas dores pela salvação dos irmãos. Afinal de contas, “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Diante das dificuldades e injustiças que sofremos, nosso coração é frequentemente tentado a vacilar, escolhendo como resposta ora a vingança, ora a trapaça. Queremos ordenar as coisas à nossa medida, a partir de nossas ideias e paixões. Jesus, entretanto, mostrou-nos outro caminho e nos associou à sua Paixão para que pudéssemos dar testemunho da sua Cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1, 23). Ele nos fez entender que, diante de uma cruz inevitável, devemos abraçá-la amorosamente até o dia final, quando teremos nossa ressurreição.

O testemunho da cruz é sempre um remédio para os males do mundo e um conforto aos corações despedaçados. Por isso, toda pessoa que padece pode sentir-se amada novamente quando encontra alguém disposto a experimentar um pouco da dor alheia. É assim com doentes em fase terminal, é assim com pessoas depressivas, é assim com vítimas de alguma violência. Por mais que nossas mortificações não apaguem de fato a experiência dolorosa dos nossos irmãos, elas ao menos servem para nos conectar a eles, proporcionando-lhes alegria, amizade, compaixão e cuidado. Não se trata de julgar nossa dor como igual, maior ou menor que a deles, até porque não é uma competição. Trata-se de amar o outro e colocar-se em seu lugar como um amigo. Hoje chamam isso de empatia. Mas os católicos sempre o viveram como a Paixão de Cristo.

O oferecimento do padre John Hollowell é, portanto, a verdadeira oração que Deus recebe, o testemunho público do amor de Jesus e um gesto concreto de solidariedade por quem sofre. Certamente ele não substitui as medidas judiciais e assistenciais que devem ser tomadas contra os crimes que ocorreram. Mas, como outro Simão Cirineu, esse sacerdote se aproxima do Coração do próprio Cristo crucificado, que se ofereceu como vítima inocente pelos pecados de todos os homens.

É próprio da fé católica, especialmente entre os sacerdotes, a disposição a assumir uma cruz em benefício dos outros, como fizeram tantos padres e religiosos durante a peste negra; como fez São Maximiliano Kolbe, que se ofereceu aos nazistas no lugar de um judeu; como fez o padre Armindo Maria de Oliveira, que durante o surto de gripe espanhola em Cuiabá (MT) ofereceu-se a Deus como vítima para que nenhum de seus fiéis morresse pela enfermidade etc. Ao fazerem isso, esses homens não negaram o único sacrifício de Cristo, mas se uniram a ele pelo bem dos filhos de Deus.

E nada disso, nenhum desses exemplos é tolice. Isso se chama amor.

Referências

  1. Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2007, p. 54.
  2. Id., ibid.

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Monges de Núrsia combatem pandemia com procissões e orações
Espiritualidade

Monges de Núrsia combatem
pandemia com procissões e orações

Monges de Núrsia combatem pandemia com procissões e orações

Na cidade onde nasceu São Bento, no coração da Itália, estes monges contam com o poder da oração para vencer o coronavírus. “Perante essa ameaça invisível, temos de confiar num remédio invisível para nossa salvação final.”

Martin BürgerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Abril de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Escondidos nas montanhas da região central da Itália, os monges beneditinos de Núrsia estão combatendo a pandemia do coronavírus com orações e procissões diárias contra a peste.

“No período da tarde, saímos em procissão pela propriedade, portando relíquias da Vera Cruz, rezando para que sejamos libertos das ‘pragas, da fome e das guerras’, como faziam os antigos, que sabiam que essas tribulações muitas vezes surgiam juntas”, escreveu Dom Bento Nivakoff, OSB, prior da comunidade famosa por sua cerveja e por seu canto gregoriano.

“Todas as manhãs durante a Missa conventual solene, acrescentamos orações contra a peste”, explicou o monge.

O mosteiro está localizado nos arredores de Núrsia. Os monges seguem a liturgia tradicional da Igreja quando rezam o Ofício Divino e celebram a Missa. 

As orações contra a peste, encontradas na Missa votiva para a libertação da morte em tempo de peste, mostram que Deus não deseja “a morte do pecador, mas que se converta”. A Coleta pede a Deus: “Olhai benigno para o povo que a Vós retorna, e por vossa clemência dele afastai, enquanto vos é fiel, os castigos da vossa ira”.

A Secreta, oração feita antes do canto do Prefácio, implora a Deus que aceite o sacrifício da Missa oferecido pelo sacerdote, “a fim de por ela alcançarmos eficazmente o perdão de todo pecado e o sermos livres do risco de toda perdição”.

“Concedei, ó Deus e Salvador nosso, que o vosso povo seja livre dos terrores de vossa ira e protegido pela abundância de vossa misericórdia”, pede a oração final, conhecida como Pós-comunhão.

De acordo com o prior da comunidade, “a população da região da Úmbria está dispersa geograficamente, então aqui há menos casos de coronavírus do que no norte”. Porém, os monges sabem que a situação pode mudar rapidamente.

Como hoje as pessoas na Itália estão em grande medida confinadas em suas próprias casas, ele continuou, o escondimento do mundo “adquire um simbolismo quase sacramental durante essa crise extraordinária”.

Os monges estão acolhendo a celebração privada da Missa como um convite para a redescoberta do mistério “da eficácia invisível dela”, algo que foi esquecido na modernidade. “Perante essa ameaça invisível, temos de confiar num remédio invisível para nossa salvação final.”

“Durante séculos”, escreveu Dom Bento, “não foi possível ver de perto os mistérios do altar. Em certos períodos, cortinas eram usadas para ocultar os momentos mais importantes da Missa. Até hoje as orações solenes da consagração são pronunciadas num volume mais baixo — um sussurro — à medida que se desenvolve o drama da liturgia”.

A tragédia não é algo estranho para os monges de Núrsia. A vida monástica na região, terra natal de São Bento e Santa Escolástica, foi retomada apenas no ano 2000.

Até 2016, quando um forte terremoto atingiu Núrsia, os monges estavam vivendo no centro da cidade. Celebravam a Missa e rezavam o Ofício Divino na basílica de São Bento. A destruição decorrente do terremoto obrigou os monges a se transferirem para um antigo mosteiro capuchinho nos arredores da cidade, o qual havia sido danificado por um terremoto anterior. 

Em 2019, depois do início das obras e da construção da muralha, a comunidade acrescentou um lema no cume do mosteiro: Nova Facio Omnia (“Eu faço novas todas as coisas”). “Tirado do Livro do Apocalipse”, explicaram os monges em seu site, “ele descreve a Nova Jerusalém em todo o seu esplendor e enfatiza o que Cristo faz por todos os que cooperam com seu plano: ‘Eis que eu renovo todas as coisas!’”

Deveríamos estar dispostos a aprender as lições que Deus quer nos ensinar”, encorajou Dom Bento. “Uma grande tentação é exigir que Deus devolva aquilo que perdemos. Mas Deus planta sementes de vida nova no campo da tragédia. Todos nós devemos regá-las com nossas orações (tanto as públicas como as privadas), sacrifícios e, talvez, até com nossas vidas. Mas a morte não tem a última palavra.”

O autor conservador Rod Dreher afirmou que os beneditinos de Núrsia “sabem como permanecer firmes durante uma catástrofe. Temos muito a aprender com eles.”

“Como disse Dom Bento, agora todos temos de nos afastar do mundo e permanecer em nossos claustros domésticos para salvar vidas. Não devemos acomodar-nos a essa situação — quero dizer, jamais podemos achar que a igreja online seja outra coisa senão um simples fac símile da igreja de verdade”, comentou o autor do best-seller A Opção Beneditina, publicado em 2017.

“Apoio firmemente a exortação de Dom Bento para que meditemos sobre o que Deus está tentando nos ensinar com esse período de confinamento. O que significa descobrir (ou redescobrir) o mistério?”

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