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São José, o maior de todos os santos
Santos & Mártires

São José, o maior de todos os santos

São José, o maior de todos os santos

“Constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem”, São José “transcende em dignidade todos os outros santos”, pois “foi estabelecido em uma ordem superior a todas as outras na Igreja”.

Edward Healy ThompsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Junho de 2019Tempo de leitura: 12 minutos
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Tudo o que Deus ordena está disposto em maravilhosa e perfeita ordem. Por isso, a Igreja que Jesus veio fundar na terra imita a Sião celestial. Como no céu existem hierarquias angélicas, e nessas hierarquias há ordens diferentes, assim também na terra existe uma hierarquia de graça, e nessa hierarquia estão incluídas várias ordens ou ministérios que, de acordo com o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, destacam-se em proporção à sua proximidade a Deus (cf. STh I, q. 107, a. 6).

A mais alta de todas essas ordens, sejam elas angélicas ou humanas, é a ordem da união hipostática, à qual pertence Jesus Cristo, Deus e homem. Por união hipostática entende-se que o Filho eterno de Deus, em sua Encarnação, assumiu a natureza humana e uniu-se a ela em unidade de pessoa. Em outras palavras, a única Pessoa divina de Jesus Cristo subsiste  em duas naturezas, divina e humana, distintas em si mesmas, mas agora inseparáveis e para sempre unidas.

Se é maravilhosa a ordem que se vê em todas as obras da natureza, é sumamente perfeita a que existe em todas as obras da graça, especialmente por sua relação com a Encarnação do Verbo. Entre essas ordens da graça, algumas precedem no tempo o mistério da Encarnação, enquanto outras o seguem.

  • Entre as que o precedem, a mais remota é a dos Patriarcas, escolhidos como progenitores de Jesus, até São Joaquim e Sant’Ana. A alguns deles, como Abraão e Davi, foi expressamente revelado que de seu sangue e família o Salvador dos homens havia de vir ao mundo.
  • A ordem seguinte é a levítica e sacerdotal, que foi predestinada por Deus como prefiguração, em todos os seus ritos, do sacerdócio de Jesus, de sua Igreja e sacramentos, do sangrento Sacrifício da cruz e do sublime Sacrifício do Altar.
  • A terceira é a dos profetas, destinados a predizer e anunciar ao mundo, tantos séculos antes da vinda de Jesus, seu nascimento de uma Virgem, seu país, o lugar de sua Natividade, sua fuga para o Egito, seus Apóstolos, sua pregação e milagres, sua Paixão, Morte e Ressurreição e sua Ascensão gloriosa ao céu. O maior de todos esses profetas foi João Batista (cf. Lc 7, 28), predestinado a ser o Precursor imediato de Cristo, a fim de apontar que Ele estava realmente presente na terra; donde o próprio Jesus ter afirmado que entre os nascidos de mulher não havia nenhum profeta maior do que João Batista.

São essas as ordens que sob a Antiga Lei precederam Nosso Senhor.

Outras ordens o sucederam, e estas são as várias ordens ou ministérios que, na Santa Igreja, formam a hierarquia eclesiástica, começando pelos Apóstolos.

São José, Patrono da Igreja, em um altar lateral da Basílica do Sagrado Coração, em Roma.

Os Apóstolos deviam dar à terra inteira e todas as idades o seu solene testemunho da divindade de Jesus Cristo. Eles deviam anunciar toda a sua doutrina, sua Lei, seus sacramentos; deviam difundir a sua Igreja por todo o mundo, para que todos possam alcançar a salvação eterna. E como a ordem apostólica era a mais próxima do que qualquer outra a Jesus, por isso mesmo, diz o Angélico Doutor, os Apóstolos receberam mais graça do que qualquer santo nas demais ordens da Igreja (cf. In Epistolam ad Ephes. I, 8). Das ordens inferiores não precisamos falar aqui.

Acima de todas estas se ergue supremamente a ordem da união hipostática. Todas as outras ordens, incluindo as angélicas, estão subordinadas e sujeitas a ela. Por esse motivo, Jesus é o princípio, o autor e a cabeça desta ordem, e de Jesus, como príncipe soberano, depende toda hierarquia, todo principado sagrado no céu e na terra, visto que Ele, como diz o Apóstolo, é o fim de toda a Lei (cf. Rm 10, 4). Jesus é a pedra angular sobre a qual repousa todo o edifício sagrado da Igreja (cf. Ef 2, 20). Jesus, de acordo com o profeta Isaías (11, 10.12), é o estandarte para o povo, é o desejo de todas as nações, é o centro da esperança universal. É Ele a única e verdadeira fonte de salvação para todos os homens.

Pela fé naquele que viria, foram salvos todos os que viveram desde Adão até a Natividade de Cristo; e todos os que viveram e viverão em justiça, desde a sua vinda, foram e serão salvos por Ele. Somente nele, a partir dele, e somente através dele, está a verdade, a salvação e a vida, de modo que, assim como os planetas no firmamento giram ao redor do Sol, recebendo dele luz, calor e poder, assim também ao redor de Jesus, Sol eterno de justiça, todas as várias ordens da graça circulam, dele mesmo recebendo a sua luz, a sua virtude e o seu poder, para cumprir fielmente os santos ofícios para os quais foram ordenados. E tanto o mais como o menos agraciado dele recebem graça, segundo a medida em que estão mais ou menos próximos de Jesus, Autor da graça, segundo seus ministérios próprios, assim como o que está mais perto do fogo participa mais amplamente do seu calor. É evidente, portanto, que a ordem da união hipostática transcende e ultrapassa as outras ordens subordinadas, da mesma forma como o Sol transcende as estrelas inferiores.

Pois bem, São José, por divina predestinação, foi colocado nesta ordem soberana. Apenas três tiveram essa honra, e foram justamente Jesus, Maria e José. Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; Maria é verdadeira Mãe de Deus e Mãe dos homens; José, por sua vez, é o verdadeiro esposo de Maria e pai adotivo e virginal de Nosso Senhor. Jesus é o centro da Encarnação e o Redentor do mundo; Maria é a imediata cooperadora e aquela em cujo seio se deu a Encarnação; José, enfim, é o fiel depositário dessas duas dádivas preciosas, a fim de garantir que este sublime mistério da Encarnação e da Redenção fosse realizado da melhor forma possível, preservando intacta a honra da Mãe e do Filho.

Que São José deveria estar compreendido nesta ordem suprema não é uma mera opinião devota ou fruto de piedosa meditação. É, antes, uma conclusão segura da mais sensata teologia. Suárez, o eminente teólogo, depois de ter falado da ordem dos Apóstolos, à qual disse terem sido concedidas as maiores graças, prossegue afirmando:

Há outros ministérios relativos à ordem da união hipostática, que em sua espécie é a mais perfeita, como afirmamos a respeito da dignidade da Mãe de Deus, e nesta ordem está constituído o ministério de São José; e, embora esteja no grau mais baixo dela, no entanto, supera todas as outras, porque subsiste em uma ordem em si mesma superior.

Assim falou Suárez, mais de quatrocentos anos atrás, quando a opinião dos fiéis a respeito de São José e da devoção a ele devida não tinha ainda sido tão aberta e geralmente proclamada.

Mas os Doutores que se lhe seguiram falaram com ainda maior clareza. Giovanni di Cartagena, contemporâneo de Belarmino e Barônio, muito querido do Papa São Pio V por sua piedade e ciência, das numerosas homilias que redigiu, treze quis dedicar aos louvores de São José. Após falar da ordem apostólica, ele passa a tratar da ordem da união hipostática e diz que, em sua espécie, é ela a mais perfeita que as anteriores, e que nessa ordem o primeiro lugar é ocupado pela humanidade de Cristo, que está substancialmente unida à Pessoa do Verbo; o segundo lugar é ocupado pela Santíssima Virgem, que concebeu e trouxe em seu ventre a Palavra encarnada; o terceiro lugar, enfim, é ocupado por São José, a quem foi confiado por Deus o cuidado especial, nunca dado a ninguém mais, de alimentar, educar e proteger o Deus feito homem. Depois de Cartagena vem Giuseppe Antonio Patrignani, muito elogiado por Bento XIV, que, três séculos atrás, assim escreveu de São José: “Ele, constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem, transcende em dignidade todos os outros santos. Ele, por conseguinte, foi estabelecido em uma ordem que é superior a todas as outras ordens na Igreja” (Il Divoto di S. Giuseppe, Novena, Gior. VI).

Poderíamos aduzir outros Doutores de elevada autoridade, mas continuaremos a considerar algumas das consequências legítimas que fluem dessa doutrina:

1. É uma grande honra para São José ser compreendido na mesma ordem em que está Jesus, o próprio Filho de Deus, o Rei dos reis, e Maria, Mãe de Deus e Rainha do universo, para se unir a eles nas mais íntimas relações e desfrutar da sua maior confiança.

Os nobres da terra consideram-se altamente honrados por poderem desfrutar de íntima relação com monarcas conhecidos, ocupando os lugares mais importantes em seus tribunais e sendo os mais confiáveis em seus conselhos. O que diremos, então, do glorioso São José, que, colocado na ordem da união hipostática, foi destinado por Deus não apenas para ser o primeiro em sua corte e o mais próximo em sua confiança, mas ainda para ser honrado como pai do Rei dos reis, e para ser não só o amigo confidencial, mas o cônjuge exaltado da Imperatriz do universo? Ao lado da maternidade divina, nenhuma honra no mundo é comparável a isso.

2. Ser compreendido na ordem da união hipostática implica ser, depois de Jesus e Maria, superior a todos os outros santos, tanto do Antigo como do Novo Testamento. E a razão disto é clara: como esta ordem é superior a todas as outras ordens na Igreja, segue-se que quem quer que tenha nela um lugar, ainda que seja em seu mais baixo grau, como José, é anterior a todos os que estão no grau mais elevado das ordens inferiores, como a dos Apóstolos, que é a mais eminente entre elas.

3. Daí se segue que São José é superior, não em natureza, mas em dignidade, aos próprios anjos, já que as ordens angélicas estão subordinadas à ordem da união hipostática, por estarem sujeitas a Jesus, seu Rei e Cabeça, e a Maria Santíssima, sua Rainha. Logo, como declara o Apóstolo, quando o Pai eterno enviou seu Filho divino à terra, Ele ordenou que todos os anjos o adorassem (cf. Hb 1, 6). E por causa de Jesus, os anjos se tornaram sujeitos também a Maria e a São José. Não é acaso assim que os vemos na Escritura, a servi-lo, avisá-lo, consolá-lo de bom grado: uma vez, para assegurá-lo de que sua esposa concebera o Filho de Deus; outra, para o fazer conhecer a trama de Herodes; depois, para que ele pusesse a Virgem e seu divino Filho em segurança, fugindo para o Egito; e, enfim, para lhe anunciar que era já seguro retornar à terra de Israel (cf. Mt 1, 20-21; 2, 13.19-20)?

4. Podemos concluir ainda que José foi compreendido nesta ordem porque era, verdadeiramente, o chefe e guardião da Sagrada Família. Maria e José, exaltados segundo a sua dignidade, eram no entanto apenas criaturas; mas Jesus quis dar exemplo da mais perfeita humildade. Foi vontade sua engrandecer o nosso santo e conceder-lhe esta alta glória, fazendo dele cabeça e guardião de sua Família, de modo que José tivesse verdadeiro domínio e autoridade sobre o próprio Filho de Deus e sobre a Mãe do Filho encarnado. São José, estando assim destinado a ser defensor e guardião de Jesus, cabeça e defensor de Maria, tornou-se ao mesmo tempo Patrono e guardião de toda a Santa Igreja, que é a esposa de Cristo e, de certo modo, filha de Maria Santíssima. Daí que o Papa Pio IX, de feliz memória, ao proclamar São José Patrono da Igreja, não só lhe conferiu um novo título de honra como, ademais, confirmou e declarou esta sua prerrogativa, que não tinha antes sido tão expressamente promulgada pela Igreja.

5. Segue-se, além disso, que José foi posto nessa ordem e Família em função da mais elevada missão que é possível conceber, na medida em que ele foi constituído representante do Pai divino, a quem cabe o direito de chamar a Jesus seu Filho natural, por gerá-lo desde toda a eternidade. E esse mesmo Deus, que pela boca do profeta Isaías (42, 8) protestou que nunca daria sua glória a outrem; esse Deus, que ao comunicar ao Verbo e ao Espírito Santo sua única e indivisa essência divina, não lhes transmite contudo sua divina paternidade, foi, não obstante, tão generoso para com São José, que lhe quis conceder sua glória e comunicar-lhe seu nome e paternidade: não em sentido próprio, pois isso seria impossível, mas de modo que ele pudesse estar em seu lugar e ser chamado pai do Verbo Divino, e que o próprio Verbo o pudesse chamar com este dulcíssimo nome, para que, assim, a São José se pudesse apropriar felizmente aquela passagem na Sagrada Escritura: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (Hb 1, 5).

Aqui vemos, pois, manifestar-se o grande amor que as três Pessoas da Santíssima Trindade têm para com São José e a confiança que nele depositam, porquanto o Pai eterno incumbiu-o totalmente do cuidado de seu Filho bem-amado; o Filho divino, por seu turno, entregou-se-lhe inteiramente, tanto aos seu cuidados como à sua vontade; e o Espírito Santo, por fim, encomendou-lhe sua esposa imaculada. Tudo isto para que a Sagrada Família, da qual José foi constituído chefe, fosse como que outra trindade na terra,  imagem resplandecente da Santíssima Trindade no céu: José, representante do Pai eterno; Jesus representando e sendo em verdade a Palavra eterna; e Maria, representando o Amor eterno, o Espírito Santo. Este pensamento, tomamo-lo de empréstimo a São Francisco de Sales, Doutor da Igreja (Entretien, 19): “Podemos dizer”, são palavras dele, “que a Sagrada Família foi como uma trindade na terra, que representava de certa forma a própria Trindade celestial”.

6. Finalmente, conclui-se que José, por estar compreendido nesta ordem sublime, superior à de todos os outros santos, deve, como consequência natural, ter sido predestinado a receber maiores dons e graças do que todos os outros santos, de maneira que ele fosse digno de estar tão perto de Jesus e Maria e, além disso, preparado para cumprir mais fielmente os altos ministérios para os quais foi escolhido. Confirma-o o piedoso Bernardino de Bustis com ousada afirmação:

Uma vez que José havia de ser o guardião, companheiro e governante da Santíssima Virgem e do Menino Jesus, é quiçá possível conceber que Deus pudesse ter cometido um erro em sua eleição? Ou que Ele pudesse ter permitido que São José fosse imperfeito em algum aspecto? Ou pudesse ainda ter falhado em torná-lo perfeito? A própria ideia soa como o erro mais grosseiro. Quando Deus escolhe alguém para realizar um grande trabalho, Ele concede toda a virtude necessária à sua realização (Mariale, Sermo XII).

Alegremo-nos, pois, com o nosso Patriarca amorosíssimo, porque ele foi exaltado a uma ordem tão sublime e obteve tamanha graça, poder e dignidade como ninguém mais, depois de Jesus e Maria, jamais recebeu, para a glória de Deus, que o fez tão grande, e para nosso bem e de toda a Igreja.

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Uma reflexão sobre São João Maria Vianney
Santos & Mártires

Uma reflexão sobre
São João Maria Vianney

Uma reflexão sobre São João Maria Vianney

Embora os santos sejam a resposta para as crises do mundo, eles não ambicionam sê-lo — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles querem é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises.

Michael PakalukTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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No dia 4 de agosto de 1859 morria, em sua vila na França, João Batista Vianney, aos 73 anos de idade. A isso se seguiria uma das mais rápidas beatificações e canonizações da modernidade (antes das reformas desses processos, realizadas pelo Papa João Paulo II): Pio X beatificou o Cura d’Ars em 1905, e Pio XI o canonizou em 3 de maio de 1925. 

Há uma famosa citação de São Josemaria Escrivá, de que as crises no mundo são crises de santos (cf. Caminho, 301). Podemos concordar entusiasticamente com a afirmação sem entender precisamente o que ela significa. Seu sentido parece variar tanto quanto podem variar o indivíduo, a crise e a própria santidade. Pensemos em exemplos pertinentes: São Juan Diego, São Thomas More, São John Henry Newman, Santa Teresa de Calcutá e São João Paulo II. Hoje, porém, vamos refletir sobre São João Maria Vianney.

Olhando para trás, Vianney parece ser um dos muitos grandes sacerdotes e religiosos educados logo após a Revolução Francesa e o Período do Terror. Ele testemunhou a execução de sacerdotes e o fechamento de igrejas sob ordens das autoridades civis. Para ele, no entanto, a necessidade de sacerdotes tornou-se mais palpável, não menos. E ele não estava só: entre os que foram ordenados ao diaconato com ele em Lyon estavam Marcelino Champagnat (canonizado por João Paulo II em 1999) e Jean-Claude Colin — fundador dos Maristas.

Embora os santos sejam a resposta para as crises, eles não ambicionam ser “respostas para crises” — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles desejam é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises. O biógrafo de São João Vianney, Joseph Vianney, interpreta sob esse prisma os famosos esforços dele com o latim e a filosofia.

De uma perspectiva humana, diz Joseph, alguém poderia ter pensado que a crise na França teria sido enfrentada com mais eficácia por uma apologética brilhante na Sorbonne, ou por uma oratória atraente na catedral de Notre-Dame. Mas a Igreja precisava ainda mais de pastores do campo “para demonstrar com a santidade de suas vidas a verdade do Evangelho, no qual as pessoas já não acreditavam mais. A criança de Dardilly fora escolhida dentre todas as outras para ser o modelo daqueles sacerdotes santos, que são indispensáveis para a execução do plano divino”.

Posteriormente, um clérigo levou ao confessionário em Ars um complexo caso de consciência para pedir aconselhamento ao Cura. Ele viu, então, um problema, que havia deixado perplexos os maiores especialistas em teologia moral, ser resolvido de pronto pelo simples pastor, com elegância e persuasão. Questionado por seu irmão no sacerdócio sobre onde havia adquirido um conhecimento teológico tão perspicaz, o santo respondeu apontando para seu genuflexório.

O Cura estava profundamente convencido de suas indignidades, não recebia consolações por causa de sua virtude e orava com fervor para jamais ser alvo de atenção. Por exemplo, através de suas orações, milhares de peregrinos que se dirigiam a Ars eram curados de doenças físicas. Mas, aparentemente, em resposta às orações dele, as pessoas raramente eram curadas no local. Em vez disso, ele lhes dizia para retornarem a casa e fazerem a novena de Santa Filomena — e, no nono dia, elas ficavam curadas, sem alarde e estando bem longe de Ars.

É bastante conhecido o fato de que ele passava de 16 a 17 horas por dia no confessionário. Esse número já é, por si mesmo, impressionante o suficiente. Mas é preciso lembrar, também, de que não havia sistema de aquecimento em sua igreja. Ele costumava gracejar que, no fim do dia, durante o inverno, ele primeiro via os seus pés para só depois os sentir. Dizia ele que costumava apalpar os pés para ter certeza de que ainda estavam lá.

No calor intenso do verão, os peregrinos que esperavam na fila podiam sair da igreja por um momento a fim de tomar um pouco de ar fresco e não desmaiar. Ele, porém, ficava o tempo inteiro atrás de uma cortina, numa caixa, sentindo o hálito dos penitentes e muitas vezes o seu odor, já que a maioria deles era pobre.

E então ele se punha a escutar pecados por 16 ou 17 horas. Era essa a grande causa de seu sofrimento. “Sou tomado pela melancolia nesta terra miserável”, disse ele certa vez a um companheiro no sacerdócio, “minha alma se entristece até à morte. Meus ouvidos não escutam senão coisas dolorosas que me tomam o coração de tristeza”. Seu biógrafo compara a situação a São Pedro sendo obrigado a testemunhar a Paixão 17 horas por dia.

Ele dormia em tábuas por apenas algumas horas na noite e tinha de suportar uma dor crônica. Somente a graça e o amor podem explicar a energia que ele tinha ao longo do dia. Não era possível que uma pessoa sobrevivesse por meios naturais ingerindo uma quantidade tão pequena de comida. Numa etapa posterior de sua vida, por obediência ele passou a comer um pouco de pão e tomar um pouco de leite após a Missa. Seu biógrafo narra este incidente emblemático: “Irmão Jerônimo, que muitas vezes estava presente nessa ligeira refeição, logo percebeu que ele sempre comia primeiro o pão e depois tomava o leite. ‘Mas, senhor cura’, observou um dia quando notou a dificuldade com que o pão era engolido, ‘seria muito melhor se molhasse o pão no leite’. ‘Sim, eu sei’, foi a sua resposta gentil.” 

E era muito mais difícil para um pároco do que para um religioso, ele dizia: “Um sacerdote precisa de reflexão, oração e união íntima com Deus. O cura, no entanto, vive no mundo; ele conversa, envolve-se com política, lê os jornais, fica com a cabeça cheia deles; depois, lê o breviário e celebra a Missa, e infelizmente faz isso como se fosse uma coisa comum!”

De fato… infelizmente! As palavras dele se aplicam a leigos e a sacerdotes seculares. E “estas crises mundiais são crises de santos”.

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Orações para discernir a própria vocação
Oração

Orações para discernir a própria vocação

Orações para discernir a própria vocação

Aos que ainda estão escolhendo o próprio estado de vida, oferecemos abaixo algumas orações a fim de pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e constância para percorrê-lo até o fim.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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“Na empresa da própria santificação”, escreve o Pe. Antonio Royo Marín, “cada um há de pôr a suprema esperança de sua vida, o máximo interesse, empregando todas as forças recebidas de Deus segundo a medida do dom de Cristo. Só a este preço alcançará o cristão sua plena perfeição sobrenatural, que se traduzirá depois em um peso incomensurável de glória para toda a eternidade” (2Cor 4, 17) [1].

Mas esse belo empreendimento, o único que realmente vale a pena, não se leva a cabo de forma genérica, impalpável, no limbo dos “bons desejos”, mas nas circunstâncias concretas em que o Senhor põe a cada um de nós. Por isso, poucas coisas são tão necessárias ao fiel do que escolher o gênero de vida em que há de realizar, com matizes próprios, a única santidade cristã, a mesma que cultivam, substancialmente, os sacerdotes, no estado eclesiástico; os religiosos, na vida consagrada; os esposos e pais, nas ocupações da família; e os leigos celibatários, como fermentos de pureza na massa da sociedade.

Ora, como nenhuma decisão séria que tenha ressonâncias de eternidade deve ser feita com leviandade e sem reflexão, a escolha do próprio estado de vida, convém prepará-la com muita oração, imitando nisso o exemplo de Cristo, que dirigia ao Pai frequentes orações antes dos principais momentos de sua missão na terra. Com a intenção de ajudar os leitores que ainda estão discernindo a própria vocação, oferecemos abaixo algumas orações para pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e a constância para percorrê-lo até o fim.


Orações para discernir e escolher o estado de vida
(Coeleste palmetum, XXXII, pp. 365–366)

1. Oração a Deus Pai para pedir a divina sabedoria e o Espírito Santo (cf. Sb 9). — Deus eterno e todo-poderoso, que todas as coisas criastes pela Vossa palavra e que, por Vossa sabedoria, formastes o homem: fazei-a descer do Vosso santo céu e enviai-a do trono de Vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que Vos agrada. Que homem pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a sabedoria, e se do mais alto dos céus não lhe enviais o Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra.

Hino Vinde, Espírito Santo. — Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra. — Oremos: Ó Deus, que instruíste os corações dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos amar, no mesmo Espírito, o que é reto e gozar sempre a sua consolação. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.

2. Oração a Jesus, para oferecer-se com indiferença a todos os estados. — Eis-me aqui, ó meu Jesus, de pé diante de Vós, indiferente a todos os estados; seguirei sem demora aquele a que Vós me chamardes. Quereis que deixe minha terra, família e casa paterna? Meu coração está firme! Nem a pátria nem os parentes, nem riquezas nem cobiças me hão de reter. Quereis que, tendo a tudo abdicado, Vos sirva na pobreza, na castidade e na obediência religiosa? Meu coração está firme! Quereis que viva em estado eclesiástico? Meu coração está firme! Só Vos peço não me permitais ali chegar por vias ilícitas nem ali viver indignamente. Chamai-me antes deste mundo a Vós por uma morte súbita! Quereis que viva célibe no mundo ou contraia santo matrimônio? Dai-me conhecer Vosso beneplácito: meu coração está firme! Às alegrias e tristezas, às doçuras e asperezas me ofereço. Estou pronto a ir convosco tanto para a prisão como para a morte (cf. Lc 22, 33).

3. Oração à Bem-aventurada Virgem. — A vós, ó Estrela do Mar, entre as vagas instáveis desta vida, elevo meu olhar! Dirigi, ó Mãe da Eterna Luz, o meu coração ao Polo, vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e guiai-me àquele estado de vida em que eu dignamente sirva a este mesmo Filho vosso e chegue, enfim, ao tão ansiado porto da pátria celeste. Amém.

4. Oração ao Anjo da guarda. — Ó meu Anjo, a cuja tutela fui confiado por Deus; ó guia e companheiro de minha peregrinação, assisti-me neste tão grave negócio de minha salvação! Mostrai-me que caminho devo escolher para alcançar o fim para o qual fui criado, isto é, a eterna bem-aventurança, a fim de merecer contemplar e louvar convosco o meu Deus para sempre. Amém.

5. Oração para perseverar no bom propósito. — Ó benigníssimo Deus, mostrastes-me o caminho que hei de trilhar; manifestastes-me Vossos juízos e leis, dando-me saber que desejais ser servido neste estado… Concedei-me, pois, a Vossa graça, para perseverar constante neste meu propósito e alcançar a eterna salvação. Amém.

Referências

  1. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967, p. 28.

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Cristãos “esquisitos”?
Sociedade

Cristãos “esquisitos”?

Cristãos “esquisitos”?

Incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais estão de volta… E a iniciativa é justamente dos jovens! Mas de onde vem o interesse das novas gerações pela religião? E por que elas se sentem tão atraídas pelas formas tradicionais de culto?

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos autores de esquerda têm dificuldade em explicar a atração dos jovens pela religião, particularmente em suas formas mais tradicionais. Em tese, essa atração não deveria existir. Ela dá curto-circuito na lógica das narrativas prediletas da esquerda. Jovens deveriam sentir-se atraídos por narrativas revolucionárias que pregam o progresso e a igualdade. A história, dizem os esquerdistas, é uma sucessão de disputas de poder que dividem as pessoas entre exploradores e explorados. Jovens religiosos não se encaixam na narrativa porque buscam um Deus que é amor e perdão.

Quando esse autores não conseguem identificar a luta de classes nessa atração religiosa, resolvem elaborar uma ladainha de acusações, tachando os jovens crentes de “racistas”, “misóginos”, “homofóbicos” e até “elitistas”.

Recentemente, a jornalista Tara Isabella Burton causou alvoroço com um ensaio publicado em The New York Times, intitulado Christianity Gets Weird [“O cristianismo torna-se esquisito”]. Ela se identifica como uma jovem cristã tradicional, atraída pelas formas externas mais antigas. Ama incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais. No entanto, como moça pós-moderna alheia às principais narrativas ocidentais, ela acha difícil explicar sua atração pelo esplendor medieval e pela “pompa histórica” do culto em latim.

Os liberais que acompanham a tendência sentem uma perplexidade semelhante. Eles tentam minimizar essa atração rotulando-a como uma “moda” da juventude. Dizem que a culpa disso é o apego superficial e fetichista a uma “estética sobrenatural”, que os deixa exasperados, e rotulam de “esquisito” aquilo que não conseguem entender. Isabella e muitos outros que se unem a ela online adotaram o rótulo com certa ironia.

Portanto, cristãos “esquisitos” estão aparecendo na cena cultural, muitas vezes em espaços na internet onde podem se reunir e compartilhar suas opiniões.

A jornalista afirma que “cada vez mais jovens cristãos, desiludidos com binarismos políticos, incertezas econômicas e com o vazio espiritual que define a América moderna, encontram alívio numa visão da fé claramente antimoderna”. 

Os membros das gerações Y e Z percebem o vazio do deserto cultural pós-moderno. Também rejeitam o vazio das principais igrejas protestantes, que atenuaram as verdades sobrenaturais e exaltaram trivialidades. Esses peregrinos online detestam os aspectos estéreis, feios e cruéis da vida moderna.

Eles anseiam por algo verdadeiro e profundo. Sua propensão a “voltar” à Idade Média e à fé tradicional é o pior pesadelo de um esquerdista. Este fica perturbado não apenas por causa da atração que esses jovens sentem por um cristianismo vigoroso, mas também por sua rejeição dos fundamentos antimetafísicos da ordem de esquerda, que foram intensificados pela desagregação política e econômica dessa ordem, provocada pelo coronavírus.

O problema dessa corrente contracultural é a sua dificuldade em se definir e se expressar. Seus seguidores jamais conheceram o mundo tradicional, e agora o admiram. São vítimas de uma cultura pós-moderna caótica, destituída de estrutura e estabilidade. Isabella afirma que uma rebeldia “punk” caracteriza o movimento, que parece ser contrário a tudo o que faz parte do establishment, inclusive a economia moderna.  

Esses jovens são movidos pela “ânsia de algo que está além do que a cultura americana contemporânea lhes pode oferecer, algo transcendente, politicamente significativo e pessoalmente desafiador”.

Eles não sabem exatamente o que estão a buscar, mas detectam algo que os fascina e se apegam a isso com paixão. Críticos superficiais rejeitam esse apego, pois acham que a adesão a aspectos externos pode levar a vários perigos.

Mas esses críticos estão errados.

Existe um nome para o que esses jovens cristãos buscam e encontram nas formas tradicionais de culto, como nas Missas em latim, no incenso e nas Vésperas solenes. Eles encontram uma beleza autêntica que toca e eleva sua alma, fazendo-os distanciar-se da feiura da modernidade. O pensamento filosófico ocidental chama essa beleza de sublime.

É com acerto que Edmund Burke considera o sublime a “emoção mais forte que a mente é capaz de sentir”. Ele consiste em coisas transcendentes que provocam fascínio por causa de sua magnificência. É algo que nos convida a superar o egoísmo e a autossatisfação e a olhar para coisas mais elevadas — o bem comum, a santidade e, em última análise, Deus —, coisas que dão sentido e propósito à vida.  

Quer se manifeste em obras de arte, em grandes feitos ou na liturgia religiosa, o sublime fomenta sentimentos de lealdade, dedicação e devoção que podem preencher o vazio do deserto pós-moderno. 

A Igreja se cerca de coisas sublimes, coisas que sem dúvida atraem e convertem as pessoas para o culto e o serviço a Deus (coisas que, infelizmente, foram abandonadas pelos progressistas). Elas são manifestações externas que revelam algo da própria grandiosidade de Deus. A natureza humana se sente naturalmente atraída por elas e por princípios e doutrinas que fascinam o intelecto, em razão de sua lógica e sabedoria.

Os jovens cristãos estão certos ao presumir que as coisas que provocam fascínio são parte de um modo de vida distinto daquele que encontram hoje no mundo. Também estão corretos em sua percepção do colapso irreversível da ordem esquerdista, que nada lhes oferece de sublime. Não há nada de “esquisito” em sua descoberta de uma ordem social cristã que trilha o caminho oposto das alternativas individualistas e estéreis, que são, elas sim, a verdadeira esquisitice na história humana.

Os esquerdistas pós-modernos não se sentem ameaçados quando o cristianismo tradicional aceita ser apenas mais um de tantos elementos no bufê cultural. Porém, quando as pessoas rejeitam a infraestrutura filosófica que sustenta o esquerdismo, eles perdem toda a tranquilidade. 

O problema, para esse sedentos jovens cristãos, não está no objeto de seu fascínio, mas em como dar os próximos passos que levariam, normalmente, a um aprofundamento de sua fé. É preciso ir além da “esquisitice” e abraçar com sinceridade o sublime, em toda a sua plenitude e autenticidade.

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Jejuar ainda? Por quê?
Espiritualidade

Jejuar ainda? Por quê?

Jejuar ainda? Por quê?

O jejum é um dos costumes religiosos mais antigos da história. Sua prática, no entanto, tem sido bastante desprezada por nossa sociedade consumista e sem autocontrole. Por que, então, mesmo assim, a Igreja continua a recomendá-la?

Pe. Blake BrittonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Julho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O jejum é uma das práticas religiosas mais antigas da história. Hoje, porém, numa sociedade dominada pelo consumismo, pelo materialismo e por uma falta de autocontrole generalizada, a disciplina do jejum é bastante desprezada. A Igreja Católica ainda é uma das poucas instituições no mundo que defende a dignidade dessa prática e a sua importância para a vida espiritual. Portanto, devemos nos perguntar: por que a Igreja é tão “inflexível” a respeito desse antigo costume e quais as origens dele?

S. Basílio Magno, em suas homilias para a Quaresma, observa que o jejum é tão antigo quanto a humanidade. Na verdade, foi a primeira ordem que os seres humanos receberam de Deus: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2, 17). De acordo com S. Basílio, foi a incapacidade de jejuar que levou à Queda no Éden. O jejum como tal é um dos remédios para recuperar a dignidade original de nossa identidade como filhos de Deus: “Fomos banidos do Paraíso porque não jejuamos. Portanto, jejuemos para retornar a ele” (Hom. 1 sobre o jejum).

S. Basílio reconhece um duplo propósito nessa ordem primordial de jejuar. Primeiro, o jejum ajuda a alma a amadurecer. Qualquer psicólogo reconhecerá que a falta de disciplina e autocontrole são sinais claros de imaturidade. A incapacidade de ser paciente, tomar decisões sensatas e desfrutar com responsabilidade de comida, bebida ou relacionamentos representa uma grave lacuna no desenvolvimento humano. É por isso que a prática regular da autodisciplina por meio do jejum é tão crucial para a vida espiritual. Não se trata apenas de renunciar a algo porque a Igreja assim o determina. Quanto mais praticamos a abstinência, mais maduros nos tornamos, saindo da imaturidade da satisfação imediata para a maturidade do consumo regrado. Pois o jejum é o “companheiro da sobriedade e o artesão do autocontrole” (Ibid.).  

Portanto, o jejum nos ajuda a fomentar uma virtude específica — a saber, o autocontrole, uma qualidade não muito comentada em nossa época. São Paulo o identifica como um dos frutos do Espírito Santo: “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 22–23). O termo grego usado por Paulo é enkrateia (ἐγκράτεια), que é composto de duas outras palavras: en (de dentro) e kratos (de uma raiz que significa “aperfeiçoar”). Portanto, ter autocontrole significa literalmente “aperfeiçoar-se desde dentro”. Essa definição nos ajuda a entender melhor a segunda afirmação de S. Basílio a respeito das consequências do jejum.

Para S. Basílio, o jejum feito de forma correta ordena os apetites do nosso corpo para o bem da alma: “Quanto mais negar a carne, mais radiante de saúde espiritual se tornará a alma” (Hom. 2 sobre o jejum). Aqui vemos a influência dos Padres do Deserto na espiritualidade de S. Basílio. Esses cristãos da Antiguidade eram inflexíveis quanto à reconquista da dignidade perdida por Adão no Éden. Reconheciam que o erro de Adão estava relacionado à falta de disciplina. Ele cedeu aos seus desejos mais básicos, perdeu de vista a elevada vocação da humanidade como imago Dei (a “imagem e semelhança de Deus”). Assim, monges como Abbá João (525 d.C.) fizeram o seguinte alerta: “Deveríamos sempre evitar o apego [às coisas terrenas], pois isso é prejudicial à alma”. 

Jesus mesmo ensina que “não só de pão vive o homem” (Mt 4, 4). Os seres humanos não são meros animais. Temos apetites que vão além do carnal. Nossa vontade não está orientada pelo instinto. Deve haver uma razão mais profunda para as nossas ações. Quando meu estômago ronca por causa do jejum, tenho nisso um lembrete da fome espiritual que a minha alma experimenta em todos os momentos da minha existência. Essa também é a lógica do jejum antes da recepção da Sagrada Eucaristia. Por meio do jejum eucarístico, meu corpo fica temporariamente “fundido” à fome da minha alma por Cristo no Santíssimo Sacramento.

A alma anseia constantemente pela misericórdia e bondade de Deus. Estamos alimentando esse desejo ou deixamos a nossa alma faminta? Estamos alimentando o nosso espírito com os alimentos nutritivos da Eucaristia, da Confissão, da Sagrada Escritura e da oração contemplativa? 

Sabemos que o jejum foi parte integrante da vida de Jesus, tanto que passou quarenta dias no deserto abstendo-se de alimento terreno. O Senhor não faz nada por acaso ou sem planejar. Todos os acontecimentos de sua vida nos ensinam algo profundo sobre a nossa própria existência como pessoas e a nossa vocação como cristãos. Encontramos no jejum de Cristo uma forma de participar da vida divina de Deus. Ao crescermos no autocontrole a partir dos nossos impulsos imaturos e ao alimentarmos a nossa alma de forma adequada por meio do jejum, sem dúvida cresceremos na intimidade com o Senhor, que nos ama.

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