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Seis dicas para um casamento feliz
Sociedade

Seis dicas para um casamento feliz

Seis dicas para um casamento feliz

À luz da história, é possível dizer que o casamento “nasceu” em crise. Cristo, no entanto, veio redimir o homem — e também o matrimônio.

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2014
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Não há dúvidas de que a família está em crise. À luz da história, no entanto, é mais exato dizer que a família nasceu em crise. O plano primordial do Criador para o homem e a mulher - que vivessem o amor, como imagem do amor com que Deus os criou -, infelizmente, foi perturbado pelo pecado original. O Catecismo da Igreja Católica destaca que, “desde sempre, a união de ambos foi ameaçada pela discórdia, pelo espírito de dominação, pela infidelidade, pelo ciúme e por conflitos que podem chegar ao ódio e à ruptura" [1].

Mas, como é verdade que “Deus todo-poderoso (...), sendo soberanamente bom, nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem" [2], Ele mesmo enviou, na plenitude dos tempos, o seu Filho, para redimir não só o homem, mas também todas as suas relações, de que se sobressai a união entre o homem e a mulher. Elevando o matrimônio à dignidade de sacramento, Nosso Senhor fez da aliança conjugal um sinal de Seu amor pela Igreja e um meio para a santificação e o crescimento mútuo dos esposos.

Se o seu casamento começou do jeito certo, com a graça do sacramento e a bênção da Igreja, meio caminho já foi andado. Agora, é preciso conformar-se ao dom recebido e educar-se a partir da moral católica e da cartilha dos santos, para transformar a sua família em uma autêntica Igreja doméstica. Seguem, abaixo, algumas breves dicas para continuar bem o caminho ou, quem sabe, colocar o seu relacionamento no eixo. São palavras da sabedoria de dois mil anos da Igreja, que com certeza ajudarão na construção do seu lar.

1. Ninguém pode saciar plenamente o seu coração

A primeira advertência pode parecer desalentadora, mas é, sem dúvida, a mais importante de todas: ninguém - absolutamente ninguém - pode saciar o seu coração. Muitas pessoas hoje se casam para “serem felizes", com a esperança de que os seus esposos e as suas esposas as completem e montem para elas um “pequeno paraíso" nesta terra. Após um tempo, quando elas caem em si e percebem que o paraíso prometido não veio - e nem virá -, bate o desespero e a desilusão: afinal, o que deu errado?

O casal que entra nessa crise deve entender que nenhuma criatura pode saciar a sede de infinito do homem. Este só se realiza plenamente quando encontra o único Outro que o transcende: Deus.

“Fizestes-nos para Vós, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Vós" [3], reza Santo Agostinho. Mais do que ser companheiro para uma pessoa do sexo oposto, o ser humano foi “constituído à altura de 'companheiro do Absoluto'" [4], como ensinou São João Paulo II. Mais do que um pacto matrimonial, o homem foi feito para uma aliança eterna com Deus.

2. Homens e mulheres são real e profundamente diferentes

Nenhuma ideologia pode obscurecer este fato inscrito na natureza humana: homens e mulheres são real e profundamente diferentes.

Para explicar a diferença entre os sexos, o escritor norte-americano John Gray chegou a colocar homens e mulheres em planetas diferentes. Em seu famoso best-seller “Os Homens São de Marte, as Mulheres São de Vênus", ele conta que “marcianos" e “venusianas" viveram por muito tempo em paz, até que “os efeitos da atmosfera da Terra assumiram o controle, e certa manhã todos acordaram com (...) amnésia" [5]: tinham esquecido que vieram de planetas diferentes e, por isso, passaram a viver constantemente em conflito.

Pela história da Criação, nós sabemos que Deus criou o homem e a mulher no mesmo planeta, mas com as suas diferenças, e que a “amnésia" que iniciou o referido conflito nada mais é do que o pecado original, que “teve como primeira consequência a ruptura da comunhão original do homem e da mulher" [6].

Não se pode, porém, restaurar a harmonia entre o casal negando as diferenças evidentes entre os sexos, como em uma atitude de rebeldia contra o Criador. Mais do que uma história dos contos de fadas, o cavaleiro que, com sua armadura reluzente, mata o dragão e liberta a princesa do alto do castelo, é uma bela imagem de como o homem, por exemplo, é chamado à bravura. Na vida ordinária, isso significa enfrentar o mundo, trabalhando e provendo o sustento da casa e a segurança da família.

Para a mulher, a figura de mãe não é menos heróica. Significa a doação de amor para que os seus filhos vivam e recebam uma boa educação. Infelizmente, o feminismo tem introjetado na cabeça das mulheres que ser mãe é uma desgraça e que elas só serão felizes quando forem “iguais" aos homens. A realidade, porém, é que, após o tão sonhado “empoderamento" das mulheres, estas não encontraram a felicidade, mas tão somente a desilusão e a frustração de uma vida reduzida ao serviço do mercado e do próprio egoísmo. Como disse G. K. Chesterton, “o feminismo trouxe a ideia confusa de que as mulheres são livres quando servem aos seus empregadores, mas são escravas quando ajudam os seus maridos" [7].

3. Ame o seu cônjuge como Cristo amou a Igreja

Em sua Carta aos Efésios, São Paulo exorta os maridos a amarem as suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela [8]. Com isso, demonstra que o amor não é um “sentimentalismo barato", baseado no fundamento instável das emoções, mas uma determinação viril, baseada na rocha sólida da vontade. O pacto matrimonial é uma aliança de sangue, pela qual os esposos dizem um para o outro: “Eu derramo o meu sangue, mas não desisto de você". Não sem razão o autor do Cântico dos Cânticos canta que “o amor é forte como a morte" [9].

De fato, o próprio Deus, no ato mais extremo de amor, morreu pelos nossos pecados. Seguindo o seu modelo, todo casal que sobe ao altar deve pensar que está subindo o Calvário, a fim de oferecer a Deus o sacrifício de si mesmo, pela salvação do outro. Para o bem da pessoa amada, na verdade, tanto o homem quanto a mulher devem fazer o que for preciso, mesmo que a isso custe fazer o que não se quer. Muitas contendas entre os casais começam justamente porque um não é capaz de “dar o braço a torcer" em favor do outro. Sacrificam-se, então, a paz e a harmonia entre os dois, para satisfazer as próprias veleidades, ao invés de se sacrificar a própria vontade em favor do outro.

Também para o casamento vale o chamado de Nosso Senhor: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me" [10].

4. Deus deve ser o centro de suas vidas e de seus dias

Não adianta morrer um pelo outro se, primeiro, não se ama a Deus. Por isso, Ele deve ser o centro de suas vidas e de seus dias.

Para amar alguém, primeiro, é preciso conhecê-lo. O que se diria de um casal de noivos que, estando prestes a se casar, não soubessem nada um do outro e não fizessem o mínimo esforço para se conhecerem? Com razão se poderia chamá-los de loucos, pois querem permanecer unidos até o fim da vida a quem nem mesmo conhecem. Ora, se para o casamento terreno, que finda com a morte, é preciso preparar-se com cuidado e empenho, quanto mais para o encontro com Deus, a quem estaremos unidos não por um dia ou uma vida, mas por toda a eternidade!

Por isso, é importante estudar as verdades de nossa fé, contidas principalmente no Catecismo da Igreja Católica e nos Evangelhos, sem jamais descuidar da oração, pela qual o próprio Deus Se revela e Se comunica a nós.

Uma vez conhecido o grande amor com que Deus nos amou, então, é preciso que o casal O ame de volta, mudando toda a sua rotina e a sua vida para colocá-Lo no primeiro lugar de tudo. Se de manhã se acordava correndo para ir ao trabalho, urge levantar um pouco mais cedo, para oferecer a Deus o que dia que começa - e, quem sabe, até participar da Santa Missa. Se à noite a família se reunia para assistir à TV e acabava vendo programas que não prestam - como são as novelas -, por que não começar a rezar o Santo Terço em família? Se o domingo tem sido tão somente o “feriado", com passeios e viagens, está na hora de transformá-lo realmente em “dia do Senhor", levando toda a família para um encontro com a melhor de todas as famílias, que é a Igreja.

Lembrem-se sempre que a sua aliança matrimonial é, antes de tudo, um compromisso com Deus. Dois sozinhos não são capazes de levar adiante um casamento; ao contrário, “a corda tripla não se arrebenta facilmente" [11].

5. O sexo não é um parque de diversões

A Igreja, ao mesmo tempo em que valoriza a sexualidade como um dom precioso do Criador, reconhece que “a sexualidade é fonte de alegria e prazer". Com isso, ela não pretende dar aos seus filhos uma autorização para que, depois de casados, façam o que bem entenderem um com o outro, mas que vivam o sexo de forma equilibrada, mantendo-se, na expressão do Papa Pio XII, “dentro dos limites duma justa moderação" [12].

Infelizmente, em nosso mundo supersexualizado, o que deveria ser uma expressão de amor tem degenerado na busca do próprio egoísmo. É muito comum, por exemplo, que, saturados por múltiplas experiências com pornografia e masturbação, os homens queiram trazer o chiqueiro do mundo para o seu leito conjugal, transformando a mulher em um objeto de satisfação sexual, ao invés de amá-la e respeitá-la como pessoa e companheira. Por outro lado, as mulheres, em troca de compensação afetiva, acabam aceitando ser transformadas em “coisas" e usadas como objetos. Ao fim, o que deveria ser uma “aliança de amor" acaba se tornando um “consórcio de egoísmos".

Para consertar as coisas, é preciso desmascarar a ideia, que alcançou sucesso com a Revolução Sexual, de que o sexo seria como um parque de diversões, o qual se buscaria tão somente para o prazer próprio e para a satisfação dos próprios caprichos. Isso não é o sexo, mas a sua perversão. A relação sexual foi concebida por Deus para unir os esposos, mas também para gerar vidas. Por isso, sexo significa, antes de qualquer coisa, família.

De fato, na família, todos vivem - ou deveriam viver - como em uma “ilha de paz": a menina, por exemplo, pode andar tranquilamente por sua casa, consciente de que não será cobiçada por seu pai ou por seus irmãos. Para afastar do pensamento o adultério do coração [13], de que fala Nosso Senhor, seria sadio que os homens olhassem para as mulheres como se fossem suas “irmãs", e vice-versa. Afinal, é nesse estado que todos os seres humanos se encontram, desde que nasceram, e que se encontrarão principalmente no fim de suas vidas, quando estiverem face a face com Deus.

Quando seu cônjuge envelhecer, por exemplo, vão-se embora com o tempo não só o vigor da juventude, como também os atrativos físicos do outro. Se seu relacionamento está baseado só no sexo, essa é uma péssima notícia. Se desde o começo, no entanto, você foi treinado para amar - e como diz o Apóstolo, “o amor tudo suporta" [14]-, você chegará à velhice feliz por ter sido casto e fiel.

6. Estejam sempre abertos ao dom dos filhos

Esta dica é indissociável da anterior: estejam sempre abertos ao dom dos filhos. Quando um casal deliberadamente se fecha à transmissão da vida, inicia um círculo de egoísmo e morte que destrói pouco a pouco a si mesmo.

Para entender a imperiosidade deste ensinamento, basta olhar para a natureza do ato sexual, que foi concebido pelo Criador tanto para unir os esposos quanto para torná-los participantes de Seu poder criador, na geração dos filhos. Se separar essas duas dimensões fora do matrimônio significa falta de compromisso, separá-las dentro do próprio casamento não deixa de ser uma manifestação “mais refinada", por assim dizer, de egoísmo e falta de amor. Por isso a Igreja condena os métodos contraceptivos, que vão contra a própria verdade do sexo. Como ensina São João Paulo II, “o ato conjugal destituído da sua verdade interior, porque privado artificialmente da sua capacidade procriadora, deixa também de ser ato de amor" [15].

Todo casal deveria perguntar com sinceridade se a sua decisão de evitar filhos não vem mais de uma atitude de egoísmo por parte dos dois do que de uma razão realmente grave e justa. E, para quem argumenta que “filho dá despesa", o Catecismo da Igreja Católica responde dizendo que “o filho não é uma dívida, é uma dádiva" [16]. Basta lançar um olhar às numerosas famílias de alguns anos atrás, que, embora não vivessem imersas em luxo, eram muito mais felizes que as minúsculas e egoístas famílias de hoje.

O salmista diz que “os filhos são a bênção do Senhor" [17]. Mesmo que a sociedade de hoje os veja como uma maldição, as palavras do Espírito Santo permanecem. Continua valendo a pena esperar de Deus o número de filhos que Ele quiser, ao invés de reduzirmos o número de crianças à medida do nosso comodismo.

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1606
  2. Santo Agostinho, Enchiridion de fide, spe et caritate. 3. 11: CCL 46, 53 (PL 40, 236)
  3. Confissões, I, 1: PL 32
  4. Audiência geral, 24 de outubro de 1979, 2
  5. John Gray, Homens são de Marte, mulheres são de Vênus, Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 19
  6. Catecismo da Igreja Católica, 1607
  7. G. K. Chesterton, Social Reform versus Birth Control, 1927
  8. Ef 5, 25
  9. Ct 8, 6
  10. Lc 9, 23
  11. Ecl 4, 12
  12. Catecismo da Igreja Católica, 2362
  13. Cf. Mt 5, 28
  14. 1 Cor 13, 7
  15. Audiencia general, 22 de agosto de 1984, 6
  16. Catecismo da Igreja Católica, 2378
  17. Sl 127, 3

Notas

  • As dicas acima pretendem ser alguns curtos conselhos. Mas, não custa nada lembrar, de novo, que a plena felicidade o ser humano só alcançará no Céu, quando celebrar o matrimônio com o único e verdadeiro Esposo de nossas almas: o próprio Deus.

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A Revolução Sexual e suas mentiras
Sociedade

A Revolução Sexual e suas mentiras

A Revolução Sexual e suas mentiras

A história ensinada em praticamente todas nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia. Os adeptos da revolução não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que eles sempre fazem.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Outubro de 2018
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“O modo mais eficaz de destruir as pessoas”, notou certa vez George Orwell, “é negando e apagando-lhes da memória o próprio entendimento que elas têm da sua história”. Na cultura atual, o próprio conhecimento da história será em pouco tempo coisa do passado.

Apresentadores de programas noturnos às vezes fazem comédia desse crescente “Alzheimer” cultural perguntando a pessoas nas ruas questões banais como: “Quem foram os Aliados na Segunda Guerra Mundial?”, e recebendo respostas vergonhosas. Mas há um lado notadamente menos engraçado do nosso esquecimento. Nós estamos correndo o grande risco, como diz o velho ditado, não apenas de repetir a história por nos termos esquecido dela, mas de repeti-la sem sequer estarmos cientes disso.

Foi esse ponto que o experiente jornalista e autor canadense Ted Byfield fez questão de enfatizar mais de uma vez quando conversamos algum tempo atrás. “Nós estamos abandonando rápido muitos dos princípios sociais e morais fundamentais sobre os quais nossa civilização se encontra fundada”, disse ele. “Estamos cortando apaixonadamente o galho em que nos sentamos… Muito poucas pessoas, instruídas ou não, sabem de onde vieram esses princípios, e como viemos a abraçá-los. Ignoramos nossa herança e história, e isso é muito perigoso.”

Ted Byfiel está certo. Quando há vários anos eu comecei a pesquisar sobre a história da sociedade ocidental, fiquei muito surpreso com o simples fato de que muitas coisas que eu havia aprendido — ou pelo menos tinha sido levado a acreditar — não eram verdade. Se há muitos professores universitários generosos e eruditos, alguns dos quais tive o privilégio de conhecer, há também muitos hippies senis que trocaram suas comunas por uma forma mais fértil de disseminar a própria ideologia: a academia. Em auditórios diante de milhares de estudantes, eles vendem sua própria versão de como a história se desenrolou, deixando a maioria de nós completamente ignorante de como as coisas realmente aconteceram.

Desde que finalizei minha graduação em história, tenho percebido com frequência uma ironia: muitos pais cristãos lutam contra as influências da cultura a fim de inculcar em seus filhos os valores tradicionais e uma visão de mundo cristã, para depois bancar-lhes os estudos universitários e dar à faculdade quatro anos para convencer seus filhos a abandonarem essa visão de mundo.

Alfred Kinsey, uma fraude ainda celebrada nas universidades.

Eu aprendi, por exemplo, no primeiro ano de história, que não houve Revolução Sexual coisíssima nenhuma, porque os infames relatórios de Alfred Kinsey em 1950 haviam “revelado” que norte-americanos de todas as classes sociais já estavam praticando todo tipo imaginável de ato sexual. Praticamente ninguém era fiel a seu cônjuge, relações homossexuais eram comuns e até a bestialidade era supostamente frequente.

Essa ainda é a história que vem sendo ensinada sem questionamento — mesmo que os relatórios Kinsey tenham sido desbancados, e ele mesmo tenha sido desacreditado por inúmeras culpas, desde ter permitido atos horríveis de pedofilia para chegar a seus dados até tê-los distorcido de propósito para contestar a ética sexual cristã. Aqueles, porém, que ainda se dedicam de coração a celebrar a velha e doentia Revolução de 60 muito têm a perder com a divulgação desse conjunto perturbador de fatos históricos.

O mesmo se deu com a antropóloga Margaret Mead e seu famoso livro Coming of Age in Samoa (“Adolescência, sexo e cultura em Samoa”), de 1928 — uma obra que estourou na consciência ocidental “revelando” que outras culturas rejeitavam códigos tradicionais de comportamento sexual e estavam prosperando em consequência disso.

Depois de ter sido o livro de antropologia mais famoso já escrito (leitura obrigatória nas universidades de todo o mundo ocidental), mais tarde ficou provado que suas pesquisas foram mal conduzidas e eram até mesmo fraudulentas. De fato, as fontes de Margaret Mead revelaram a um professor que acompanhou suas teses anos depois que suas excitantes histórias haviam sido apenas uma piada. Ainda assim, você não verá a obra da antropóloga ser examinada criticamente na maior parte das universidades — ainda que seja ela a sustentar grande parte das atitudes de nossa sociedade em relação à chamada liberação sexual.

Dr. Bernard Nathanson, médico aborteiro que se converteu à causa pró-vida.

A rede de fraudes continuou com o aborto. O Dr. Bernard Nathanson — médico que ajudou a fundar (com líderes feministas eminentes, como Betty Friedan) a NARAL, uma associação para repelir leis contrárias ao aborto — foi uma voz fundamental para promover a maior clínica de abortos do mundo, no estado de Nova Iorque. Depois de se tornar pró-vida, como resultado de estudos avançados feitos na área da embriologia, ele revelou em uma série de memórias que o número de abortos clandestinos usado pela NARAL e o movimento abortista para defender a legalização da prática era inventado.

A informação é corroborada pelo fato de nenhuma fonte histórica confiável fornecer qualquer evidência dos números impressionantes de abortos ilegais que o establishment pró-aborto diz acontecerem nos Estados Unidos até hoje. Existem ainda dezenas de pessoas nos campi usando o argumento de que o aborto não diminui quando se torna ilegal. E por quê? Porque eles nunca aprenderam história alguma de fato, apenas a narrativa fictícia criada para o consumo público.

Esses são apenas três exemplos alarmantes de centenas que poderiam ser dadas. Nossas elites culturais — a mídia, o cinema, a academia e até muitos do establishment político — estão envolvidas demais no terrível experimento que foi a Revolução Sexual para examinar honestamente a sua história ou os seus trágicos resultados. Nossa história não é nossa. A história ensinada em praticamente todas as nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia.

Os revolucionários sexuais não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que revolucionários sempre fazem. Isso chamou minha atenção em particular há alguns meses durante uma viagem à China. Nossa guia turística, Anna, levava a mim e a um amigo meu da Cidade Proibida, passando pela Praça de Tiananmen, até o Mausoléu de Mao Tsé-Tung, onde o falecido ditador ainda repousa em um caixão de vidro. Depois de escutá-la exaltando por horas o ditador, perguntei-lhe como era possível que ela acreditasse que Mao havia sido bom para a China quando, segundo algumas estimativas, ele foi responsável pela morte de quase 70 milhões de pessoas. Primeiro ela se irritou e depois ficou agitada. Informou-me que Mao havia sido um “grande líder” e concluiu nossa discussão anunciando que “negar Mao seria como negar o Partido Comunista”! E, com isso, a verdade histórica foi facilmente descartada por obrigação ideológica.

A fim de entender a insanidade sexual e a carnificina que tomaram conta de nossa cultura em praticamente todas as frentes, é preciso devolver à história o seu lugar de honra. Nós temos de analisar honestamente e entender como chegamos a esse ponto. Sem isso, sequer começaremos a tomar consciência do que nos cabe fazer. Precisamos armar nossos filhos e as futuras gerações com a verdade do que realmente aconteceu na história, e com o porquê de nós acreditarmos no que acreditamos.

É precisamente isso o que me disse Ted Byfield, agora em seus 80 anos, quando lhe perguntei o que os mais jovens poderiam fazer para começar um processo de renovação cultural. Ler história com urgência, disse-me. As pessoas ficarão impressionadas quando descobrirem o que realmente aconteceu — “elas ficarão surpresas com as coisas completamente sem sentido que fizemos no século passado; o que precisa ser enfatizado em nossa geração é a descoberta do que aconteceu; em outras palavras, é preciso entrar em contato com a história.”

À medida que as pessoas fizerem isso, finalmente as coisas começarão a fazer mais sentido.

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Os filhos abortados do rock n’roll
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Os filhos abortados do rock n’roll

Os filhos abortados do rock n’roll

Eles se devotaram a pregar e viver sob o lema “sexo, drogas e rock n’roll”. Mas quase ninguém fala do que acontecia na manhã seguinte, quando era hora de arcar com as consequências dos próprios atos.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Outubro de 2018
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Há uma tragédia que acontece unicamente com o aborto. Trata-se de um procedimento que cruelmente dá fim à vida de um pequeno bebê, mas cuja feiúra quase nunca se dá a olhos vistos. A criança fica viva por apenas alguns instantes, mas frequentemente deixa um vazio enorme, que invade as profundezas dos que descartaram a vida daquele pequenino para o outro mundo. Sua ausência deixa perguntas impossíveis de ser respondidas: “Quem eu seria? Quanto você teria me amado? Quem eu poderia ter sido para você?”

Essas questões deixaram marcas na literatura norte-americana, permearam as canções de artistas angustiados, e a grande lacuna do que poderiam ter sido essas crianças tornou-se praticamente onipresente na arte dos cantores e escritores de nossos tempos rebeldes. Em poucos lugares isso é tão verdadeiro quanto nas biografias dos cantores responsáveis pela trilha sonora das assombrosas mudanças sociais do último século, aqueles que proclamaram sua fé na tríade “sexo, drogas e rock n’roll.

As estrelas do rock, que caíram nas graças de milhões de fãs apaixonados, tiveram de pagar um preço por suas tentativas de viver uma “eterna juventude” — ainda que, na maior parte das vezes, tenham sido suas mulheres e filhos as maiores vítimas de suas irresponsabilidades.

Elvis Presley.

Joyce Bova abortou um filho de Elvis Presley sem lhe contar nada — à época, ele ainda estava casado com Priscilla, a quem o astro abandonou depois de ela dar à luz sua única filha viva até hoje. Elvis tinha uma política pessoal hedionda de descartar mulheres se elas engravidassem.

O filho de Bob Dylan com Suze Rotolo foi abortado em 1963, e o evento trágico foi um catalisador para o fim do relacionamento dos dois, um ano depois.

Eric Clapton supostamente teria forçado sua namorada Lory Del Santo a abortar o único filho dos dois, Conor, e embora ela tenha se recusado a fazê-lo, o garotinho morreu com quatro anos, depois de despencar de um arranha-céus em Nova Iorque.

Não surpreende que os abortos estivessem em alta demanda entre os altaneiros canarinhos dos anos 60 que cruzavam continentes, cantando odes à liberdade pessoal pela qual alguém, em algum lugar, teria de pagar.

Janis Joplin passou por um aborto mal feito em Tijuana, no México, mas ainda assim decidiu tornar-se, depois, benfeitora da mesma clínica ilegal.

Suzi Quatro, uma das poucas artistas femininas de sucesso prolongado no rock, era constantemente torturada pelo aborto que fizera depois de engravidar de um executivo musical casado. Apesar de sua carreira, ela não conseguia escapar da consciência de suas raízes ítalo-católicas, e o bebê espreitava as arestas de seus pensamentos por décadas. “Aquilo nunca foi embora”, ela observava com tristeza. “Quando meus dois filhos nasceram, eu não conseguia tirar da minha cabeça quem aquele primeiro bebê poderia ter se tornado. Ele ou ela teria 46 anos agora. Qualquer mulher que tenha passado por um aborto e diga a você que não foi nada, está mentindo.”

A ética pró-vida de imigrantes católico-italianos nem sempre conseguiu segurar a todos, infelizmente. A mãe de Frank Sinatra, por exemplo, trabalhou como parteira e fornecia abortos clandestinos “seguros” para mulheres em Hoboken, Nova Jersey. Ela ganhou um registro criminal por seus esforços, tendo sido presa pelo menos duas vezes por cometer abortos ilícitos. Depois, pelo menos dois de seus netos também morreriam nas mãos de aborteiras — Ava Gardner provocou dois abortos ao longo de seu casamento com Frank Sinatra. O casamento dos dois era tumultuado, repleto de ciúmes e explosões de raiva, e Ava diria depois que não queria trazer filhos para a instabilidade do relacionamento que tinham os dois. O cantor teria ficado de coração partido ao descobrir os filhos que ele nunca chegou a conhecer.

Mesmo antes da era “sexo, drogas e rock n’roll”, o aborto era uma prática comum entre as estrelas musicais norte-americanas.

Ray Charles.

Uma amante da lenda dos R&B, o cego Ray Charles, revelou ter abortado um filho dos dois depois de um caso, quando ele ainda era casado com Della Robinson. Mas a amante nunca contou isso ao astro.

Inúmeros biógrafos apontam que a infertilidade da lenda do jazz Ella Fitzgerald era certamente devido a um aborto no passado.

A cantora do mesmo gênero Billie Holiday contou a um escritor de um aborto caseiro agonizante que ela foi obrigada por sua mãe a fazer ainda jovem.

A atriz Judy Garland foi forçada a realizar um aborto por um estúdio de cinema, pois, eles diziam, a maternidade arruinaria o aspecto doce e inocente que lhe tinha feito render tanto dinheiro.

Quando Tina Turner descobriu que seu abusivo marido Ike havia engravidado uma amante ao mesmo tempo que a ela… a cantora abortou o próprio filho.

Em meio aos jogos sujos de infidelidade que aconteciam nas elites musicais, eram seus filhos que “pagavam o pato”. Audrey Mae Sheppard, a primeira esposa da lenda do country Hank Williams, começou sua própria série de affairs para competir com as infidelidades do marido. Quando ficou grávida em 1950 — ninguém sabia se o filho era de Hank ou não —, ela teve um aborto ilegal em casa, e acabou parando em um hospital com uma infecção. Hank apareceu com presentes e tentou cobri-la de afeto, ao que ela respondeu com xingamentos, acusando-o de tê-la feito passar por aquela situação e rompendo com ele. Pouco tempo depois, Hank Williams escreveu uma música sobre tudo isso e intitulou-a Cold, cold heart (“Coração gelado”). O cantor morreu três anos depois com apenas 29 anos.

Patsy Cline, outra lenda country de curta duração, que morreu aos 30 em um trágico acidente de avião, também teve um aborto.

Steven Tyler e Julia Holcomb.

Como sempre, o aborto traz consigo o remorso e a dor pelos filhos ausentes e mudos, descartados antes que fosse possível descobrir quem eles realmente seriam.

Julia Holcomb, a jovem tiete que conheceu Steven Tyler, da banda “Aerosmith”, nos bastidores de um show de rock, embarcou em um vicioso relacionamento de três anos com o cantor. O caso dos dois quase virou casamento, mas terminou com o aborto do filho que eles conceberam juntos. Foi o amigo de Steven, Ray Tabano, que o convenceu em 1975 que um aborto era a única solução, e a experiência marcou-o permanentemente. “Foi uma grande crise”, escreveu o vocalista em sua autobiografia. “Convenceram-nos de que aquilo jamais daria certo, que iria arruinar nossas vidas.”

Mais tarde, seria do aborto, e não do filho, que o casal se arrependeria. Steven Tyler descreveu com horror o ato de ter visto o aborto acontecer. O bebê já estava com cinco meses. “Você vai ao médico, eles colocam a agulha na barriga dela, apertam aquele negócio (injeção salina) e você assiste. E a criança sai morta. Eu fiquei bem devastado. Na minha mente eu dizia: o que foi que eu fiz?” Julia depois escreveu que o bebê nasceu vivo e foi deixado para morrer.

Ray Tabano, o amigo que havia convencido Steven de que o aborto era a coisa certa a se fazer, admitiu que o impacto de tudo não foi como ele previra. “Eles tiveram um aborto e isso realmente deixou Steven perturbado”, contou o amigo. “Ele viu tudo acontecer e isso o perturbou por muito tempo.” Julia Holcomb se mudou com seus pais dois anos depois, e nunca mais falou com Steven. Ela agora é casada, tem seis filhos e é uma sólida defensora da causa pró-vida.

Testemunhar com os próprios olhos o que o aborto faz na realidade, como aconteceu com Steven Tyler, pode resultar, em muitos casos, numa incredulidade repulsiva. O grupo “Sex Pistols” chegou a gravar uma música aterrorizante sobre o aborto, baseada em uma fã que os acompanhava e havia realizado vários abortos. Diz uma das histórias que a mulher foi à porta da casa de John Lydon, vocalista da banda, segurando um bebê abortado dentro de um saco plástico transparente — em sua autobiografia, ele descreve a mulher, chamada Pauline, contando-lhe os abortos por que passou em todos os seus excruciantes detalhes.

O cantor satânico Marilyn Manson, por outro lado, que procurou transformar toda a sua vida em uma obra de arte que celebrasse a morte, descreveu o aborto de seu filho com tranquilidade e até com prazer em um de seus livros:

Os médicos introduziram na cérvix de Missi (Melissa Romero, namorada do cantor na década de 90) uma haste do tamanho de um palito de fósforo, com dois pequenos filamentos saindo para fora na parte de cima, dilatando o colo antes de arrancar o cérebro de nosso filho com um fórceps.

O perverso ato de Manson de celebrar a decapitação do próprio filho não é a norma. Ainda que as estrelas do mundo da música sejam em grande parte favoráveis ao aborto, suas biografias revelam com clareza o dano causado pela prática. Sharon, esposa de Ozzy Osbourne e que teve um aborto aos 17 anos, conta:

Foi a pior coisa que eu já fiz… Eu fui sozinha. Estava aterrorizada. O lugar estava cheio de outras jovens mulheres, e todas nós estávamos aterrorizadas, olhando umas para as outras, e ninguém era capaz de dizer uma palavra sequer. Eu gritava o tempo todo, e foi horrível. Eu não recomendaria isso jamais, a ninguém, porque é algo que volta para te assombrar. Quando tentei ter filhos, perdi três — acho que porque algo aconteceu com o colo do meu útero durante o aborto.

Até mesmo o rapper Eminem, conhecido por suas letras de música brutais e assassinas, compôs uma música que assumiu a forma de uma confissão detalhada de um aborto e do mal que havia sido feito a um “pequenino”.

Os exemplos são infindáveis. Anita Pallenberg foi forçada a fazer um aborto por seu namorado, Keith Richards, dos “Rolling Stones”, para que ela pudesse estrelar em um filme no qual eles estavam trabalhando. A cantora Sinitta Malone já falou de um aborto terrível que ela teve nos anos 80 depois de conceber um filho com o magnata da música Simon Cowell — aborto que, ela conta, deixou ambos “devastados”.

Mesmo Madonna, uma apoiadora clamorosa do aborto, admite ter se arrependido do aborto por que passou quando sua carreira estava começando. “Você sempre se arrepende quando toma esse tipo de decisão”, ela contou à revista “Time” em 1996, “mas você precisa olhar para o seu estilo de vida e se perguntar: ‘Será que eu estou numa posição da minha vida em que eu posso devotar tempo para ser realmente o bom pai e a boa mãe que eu gostaria de ser?’”

A declaração de Madonna resume com franqueza a situação. Ainda que muitos cantores e estrelas do rock se arrependam dos abortos que praticaram, causaram ou financiaram, seus estilos de vida normalmente eram (e ainda são) incompatíveis com filhos. A verdade nua e crua é que promiscuidade geralmente acaba em gravidez, e bebês são um fardo para os que se gabam das alegrias da Revolução Sexual em seus microfones, diante de multidões barulhentas, pulando, repletas de jovens com os hormônios à flor da pele e querendo se divertir.

“Sexo, drogas e rock n’roll” — mas ninguém fala do que acontece na manhã seguinte, quando é hora de pagar o preço do que se fez. A ressaca bate, o traficante quer seu dinheiro e o teste de gravidez dá positivo. O que acontece em seguida? Como os bebês esquartejados do cenário musical norte-americano nos falam sem dizer nada, o aborto vem depois — e as crianças são reduzidas a uma mera “sujeira de sangue”. As músicas então dão lugar ao silêncio, e o vazio da perda é avassalador o bastante para engolir vidas inteiras.

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Pecado mortal, inferno antecipado
Espiritualidade

Pecado mortal, inferno antecipado

Pecado mortal, inferno antecipado

“Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Outubro de 2018
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Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, amados e muitos queridos irmãos em Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo e conforto no precioso sangue do seu Filho, desejosa de vos ver como verdadeiros filhos, sempre vivendo no autêntico e santo temor de Deus, de maneira que jamais desprezeis o sangue de Cristo.

Muito ao contrário, vós deveis desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus. De fato, bem merece repreensão quem entrega o próprio corpo à maldade e à impureza. Pensando na perfeita união de Deus com a humanidade, meus queridos irmãos, quero que isso não aconteça convosco. Especialmente tu, Vanni! Põe tua alma diante dos olhos, bem como a brevidade. Lembra-te de que deves morrer e não sabes quando. Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará. Mas convido os três a sacrificar os próprios corpos e a aceitar morrer por Cristo crucificado (na Cruzada), se for preciso. Antes disso, até que chegue a hora, quero que sejais santamente virtuosos confessando-vos e alegrando-vos sempre em ouvir a Palavra de Deus. Porque, como o corpo não pode ficar sem o alimento, também a alma não pode ficar sem ouvir a Palavra de Deus. Cuidado com os maus companheiros, pois seriam um obstáculo ao bom propósito.

Nada mais acrescento. Queridos e bondosos irmãos em Cristo Jesus, permanecei no santo e doce amor de Deus [1].

Como muitos outros grandes santos e místicos da Igreja, Santa Catarina de Sena escolheu passar a vida no meio do mundo. Ela estava imersa em Deus, sim, mas justamente por amor a Ele, vivia “com as mãos na massa”, entregando-se ao apostolado, levantando as pessoas à sua volta e levando-as à comunhão com o Deus que ela mesma havia encontrado. A carta acima, aqui transcrita na íntegra, é apenas um exemplo das muitas correspondências que ela escreveu alertando seus filhos espirituais do perigo do pecado mortal.

Nesta carta em especial, a santa fala da importância de “desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus”.

Quando pecamos mortalmente — isto é, quando nos afastamos gravemente da lei de Deus querendo e sabendo o que estamos fazendo —, é como se serrássemos o próprio galho em que estamos sentados: o pecado grave corta nosso relacionamento com o autor da vida, com o sustentador do nosso ser, com Aquele que nos concede todas as graças de que precisamos. De modo que — é o que sempre ensinou a Igreja e é o que repete Santa Catarina nesta carta — se morrêssemos nessa condição, nosso destino eterno seria o inferno: “Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Ao que tudo indica, Santa Catarina escrevia a uma pessoa que já tinha fé católica. Hoje, porém, antes de recomendar às pessoas que se arrependam de seus pecados e procurem um padre para se confessarem, é necessário que primeiro elas creiam! Precisamos nos convencer de que, como diz Nosso Senhor no Evangelho, “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora”, “secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo e será queimado” (Jo 15, 6). As mil justificativas que nossa cabeça tenta arrumar para pecarmos — ou pior, para vivermos afundados na lama do pecado — não passam de tentações e precisam ser afastadas sem demora. O que está em jogo é nossa salvação eterna.

Mas o inferno de quem vive em pecado mortal se antecipa, de certo modo, já nesta vida. O martelo do “Rei de tremenda majestade” nem sentenciou ainda a alma ao inferno, e ela já sofre nesta vida as terríveis consequências de seu alijamento de Deus. A começar pelo fato de que, quando cai no pecado, a primeira coisa que costuma fazer o pecador é deixar a vida de oração.

Se estivesse realmente disposto a sair do buraco em que se enfiou — ou seja, se visse no pecado que cometeu o que ele deveria ser de fato: uma queda, após a qual é preciso levantar-se rápido, sem demora —, o pecador não tardaria a se pôr de joelhos, suscitar em seu coração um arrependimento vivo de sua culpa e suplicar o perdão divino pelo que fez. Mas não… ele prefere voltar as costas a Deus e levar a vida como se nada tivesse acontecido, adiando sua Confissão e conversão verdadeira para “amanhã, semana que vem ou mês que vem, quem sabe”…

Nessa toada, os dias de quem vive no pecado mortal se transformam ou em remorso ou em falta de fé. Ou a pessoa sente constantemente os “remordimentos” de sua consciência, chamando-a de volta para o caminho que abandonou, ou faz calar essa incômoda voz e deixa de acreditar em Deus, no pecado e no inferno, abraçando de uma vez a falsa paz do mundo. Assim é o inferno antecipado dos que perderam a graça de Deus: estão condenados ou à amargura ou à infidelidade, ou à desobediência ou ao ateísmo, ou a viver fugindo ou a viver negando a Verdade.

Para não cairmos nessa tragédia, é preciso que fortaleçamos a nossa fé: em Deus, em Cristo e na Igreja, sim, mas também no pecado, porque há muitos hoje na Igreja que dizem crer em Deus, mas que, ao mesmo tempo, perderam completamente a noção do pecado.

Não aconteça isso conosco! Coloquemos de uma vez por todas em nossa cabeça que o pecado mortal não é um simples acidente de percurso… Não, ele é o desviamento total da rota, é o veículo que deu perda total e do qual precisamos sair o quanto antes, antes que exploda, ainda que tenhamos fazer o caminho a pé, vivendo em constante penitência por nossos erros.

Quem caiu, portanto, levante-se logo e passe a viver o quanto antes “no autêntico e santo temor de Deus”. Não venhamos a desprezar, com nosso proceder, o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado no madeiro para nossa salvação. Trabalhemos em nossa conversão com a urgência que essa obra reclama.

Referências

  1. Santa Catarina de Sena, Carta 157, “Conselho aos jovens”. In: Cartas Completas (trad. de João Alves Basílio). São Paulo: Paulus: 2016, pp. 524-25.

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Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?
Doutrina

Se Cristo andava com os pecadores,
por que nem todos podem comungar?

Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?

Se Jesus Cristo comia e bebia com os pecadores durante sua vida pública, por que nem todos podem comungar do Corpo e Sangue de Nosso Senhor na Eucaristia?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Outubro de 2018
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Quem nunca ouviu versículos bíblicos sendo usados para a defesa de opiniões as mais disparatadas? Há alguns anos, em um vídeo que viralizou na internet, o Fantástico exibia o caso de um pastor protestante que, a partir de um versículo mal lido de Oséias, tinha chegado à conclusão (!) de que deveria “adulterar” uma fiel de sua igreja.

É claro que esse exemplo chega às raias do ridículo, mas serve para nos recordar como o ser humano pode distorcer e abusar do que Deus colocou à sua disposição. Antes de pensarmos, por exemplo, que uma citação da Escritura seja suficiente para legitimar uma posição qualquer, lembremo-nos que o próprio Satanás serviu-se de passagens sagradas fora de seu contexto para tentar Jesus no deserto (cf. Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).

Pois bem, assim como o inimigo de Deus conhece as Escrituras, também os inimigos da Igreja as conhecem, e até nosso orgulho ou vaidade pode se servir mal desse instrumento divino, fazendo com que nos iludamos ou, até pior, que façamos a cabeça de outras pessoas.

Um argumento muito comum, por exemplo, usado para justificar na Igreja o acesso indiscriminado à Sagrada Comunhão, ou até mesmo para defender uma vida de pecado, é o de que “Jesus comia e bebia com os pecadores”. — Se Ele se sentava à mesa com publicanos e pecadores públicos, se andava com eles e até se deixava tocar por eles, como aquela hemorroíssa que ficou curada apenas por encostar na orla de seu manto… quem seríamos nós, ou até: quem é a Igreja (quem são os padres!?) — diz-se com ares de orgulho — para dizer a este ou aquele pecador que não deve se aproximar da Comunhão, ou que não deve fazer tal e tal coisa?

À parte o fato de que Nosso Senhor, falando aos Apóstolos, disse: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16), e ainda: “Tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus” (Mt 18, 18) — e por isso a Igreja tem toda autoridade para regular as coisas espirituais —, o argumento de que Jesus andava com pecadores (e, portanto, todos podem comungar) parece poderoso aos que o escutam pela primeira vez, mas é falho. E é Santo Tomás de Aquino que identifica o erro e resolve o problema, em sua Suma Teológica (cf. III, q. 80, a. 4, ad 1):

Quando Cristo aparecia no seu aspecto próprio, não se deixava tocar pelas pessoas como sinal de uma união espiritual com ele, como é o caso na Eucaristia. Por isso, os pecadores, que o tocavam na sua própria figura, não cometiam nenhum crime de falsidade a respeito das realidades divinas, como o fazem os pecadores que comungam.

Cristo então estava ainda na “condição da nossa carne de pecado”. Era natural, pois, que ele se deixasse tocar pelos pecadores. Ora, tendo sido afastada a “condição da nossa carne de pecado” pela glória da ressurreição, ele proíbe de tocá-lo à mulher que mostrava falta de fé a respeito dele: “Não me retenhas, pois eu ainda não subi para o meu Pai” (Jo 20, 17), a saber, “no teu coração”, como Agostinho explica. Assim, os pecadores, que carecem da fé formada a respeito de Cristo, devem ser afastados da comunhão.

O argumento colocado pelo Aquinate é muito simples: tocar em Cristo é diferente de unir-se a Ele, assim como uma mulher casada pode ter contato com muitas pessoas, mas só com o seu marido ela mantém um relacionamento íntimo. É claro que Deus não nega a ninguém as suas graças; o que acontece na Comunhão sacramental, porém, envolve uma comunhão anterior, interna, de alma; sem isso, o ato de receber o Corpo e Sangue de Nosso Senhor não passará de uma “simulação”, de uma falsidade. É como quem dá um beijo, sinal de amor, mas por dentro não ama realmente aquele a quem beija. Como fez Judas.

A Comunhão não pode ser recebida por todo o mundo, portanto, não por um defeito da misericórdia divina, mas por uma falta de preparação adequada por parte do homem. Digno de receber este Santíssimo Sacramento ninguém o será plenamente, é verdade, mas desde sempre a Igreja exigiu dos fiéis um mínimo, sem o qual o ato de comungar não só deixa de produzir frutos, como se torna “causa de juízo e condenação”: “Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente”, diz o Apóstolo, “será culpável do corpo e do sangue do Senhor” (1Cor 11, 27).

O chamado estado de graça faz parte desse “mínimo” necessário para receber a Sagrada Comunhão. Por isso, todos os que têm consciência de haver cometido um pecado mortal — isto é, de terem transgredido os Mandamentos em uma matéria grave, com plena consciência e deliberação (sabendo e querendo) — “devem ser afastados da comunhão”. Com essa expressão, Santo Tomás está falando, evidentemente, de um juízo que cada fiel em particular deve fazer antes de entrar na procissão da Comunhão: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice” (1Cor 11, 28).

Isso não exclui, porém, a possibilidade de os ministros da Igreja negarem a Santa Eucaristia a fiéis que estejam em pecado público, como políticos que sejam manifestamente favoráveis ao aborto ou pessoas que estejam em uma situação de vida que contradiga de modo notório a doutrina da Igreja sobre o Matrimônio. O próprio Aquinate comenta essa questão em sua Suma (cf. III, q. 80, a. 6) e o Código de Direito Canônico prevê claramente que “não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto” (cân. 915).

Talvez surpreenda a muitos esse modo de agir, e alguns até acusem a Igreja de querer “excluir” as pessoas. A esses, é sempre oportuno lembrar as duras palavras que Cristo dirigia aos fariseus, chamando-lhes “hipócritas”, “raça de víboras” e “filhos de Satanás”. Quando a Igreja manda que seus filhos comunguem com responsabilidade, prestando atenção à grandeza dAquele que recebem na Eucaristia, ela procura prevenir-nos justamente desse “fermento dos fariseus”, que fazem consistir sua religião mais em ritos externos do que em um impulso do coração; que querem mais aparecer diante dos homens do que fazer a vontade de Deus.

Porque, afinal de contas, o que importa não é se estamos comungando ou não nas Missas de domingo; se estamos fazendo novenas ou rezando muitos terços; se estamos pagando o dízimo à risca ou se somos católicos “de carteirinha”... Tudo isso é muito importante, sim, mas deve ser precedido de uma relação verdadeiramente íntima com Deus, na oração e no cumprimento dos Mandamentos — em uma conversão radical, que brote do interior.

Sem isso, “ainda que toquemos mil vezes o Corpo do Senhor”, como diz S. João Crisóstomo, jamais entraremos realmente comunhão com Ele.

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