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O STF não tem competência para descriminar o aborto no Brasil
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O STF não tem competência para
descriminar o aborto no Brasil

O STF não tem competência para descriminar o aborto no Brasil

Relembre o dia em que dois juízes da Suprema Corte reconheceram, com honestidade, que é impossível legalizar o aborto por via judicial sem que se cometa um grave atentado à Constituição.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Março de 2017Tempo de leitura: 10 minutos
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Mais de 75% dos brasileiros não querem que o aborto seja descriminado.

O Congresso Nacional, igualmente, como mandatário do povo, não está minimamente a fim de avançar um projeto desse gênero.

Mas os militantes da causa contrária não se consolam. Eles querem ver o aborto legalizado no Brasil, custe o que custar. Por isso, trabalham dia e noite, dentro e fora das instituições, para encontrar alguma forma alternativa de vencer, já que nem a população nem o Poder Legislativo estão do seu lado.

Aparentemente, eles encontraram uma saída. Tendo como respaldo o voto do ministro Barroso ( proferido durante o julgamento de um habeas corpus, dezembro passado) que questionou a criminalização do aborto no primeiro trimestre de gravidez, o PSOL — que leva no nome a curiosa antítese "Socialismo e Liberdade" — acaba de ingressar no Supremo Tribunal Federal com uma ação solicitando "a legalização ampla do aborto para qualquer gestação com até 12 semanas". O instrumento processual em questão é a ADPF, sigla para "Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental". Trata-se de mais uma ação do complexo controle de constitucionalidade brasileiro, de competência do STF e com efeitos erga omnes, isto é, válidos para todos.

Para quem conhece um pouco a história das últimas tentativas institucionais para facilitar o acesso ao aborto no Brasil, a sigla ADPF não é nova. Foi com uma ação assim — a ADPF de n.º 54 — que o STF despenalizou, em 2012, o abortamento de bebês com anencefalia. Na ocasião, o argumento dos ministros favoráveis à causa era muito parecido com o de hoje: criminalizando o aborto de fetos anencefálicos por meio de seu Código Penal, o Estado estaria a violar "preceitos fundamentais", tais como a "dignidade da pessoa humana", os princípios da "legalidade, liberdade e autonomia da vontade" e o "direito à saúde".

Em meio à pane geral de que foi alvo o Supremo naquela oportunidade (uma constante hoje, para dizer a verdade), duas vozes corajosas se levantaram contra o que estava acontecendo: foram os ministros Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso (hoje aposentado). Os magistrados foram os únicos a afirmar, honesta e abertamente, o óbvio que se depreende do princípio da separação dos Poderes: o STF simplesmente não tem competência para descriminar o aborto no Brasil.

O voto do ministro Ricardo Lewandowski

Foi nessa afirmação que se sustentou de modo particular o voto do ministro Lewandowski, com alguns trechos que merecem menção integral:

"Caso o desejasse, o Congresso Nacional, intérprete último da vontade soberana do povo, considerando o instrumental científico que se acha há anos sob o domínio dos obstetras, poderia ter alterado a legislação criminal vigente para incluir o aborto de fetos anencéfalos, dentre as hipóteses de interrupção da gravidez isenta de punição. Mas até o presente momento, os parlamentares, legítimos representantes da soberania popular, houveram por bem manter intacta a lei penal no tocante ao aborto, em particular quanto às duas únicas hipóteses nas quais se admite a interferência externa no curso regular da gestação, sem que a mãe ou um terceiro sejam apenados."

[...]

" Não é lícito ao mais alto órgão judicante do País, a pretexto de empreender interpretação conforme a Constituição, envergar as vestes de legislador positivo, criando normas legais, ex novo, mediante decisão pretoriana. Em outros termos, não é dado aos integrantes do Poder Judiciário, que carecem da unção legitimadora do voto popular, promover inovações no ordenamento normativo como se parlamentares eleitos fossem."

Com uma fina ironia, o ministro Lewandowski ainda cita, para fundamentar seu entendimento, uma citação de ninguém menos que… Luís Roberto Barroso, o atual ministro do STF que, à época, era apenas o advogado da causa julgada. "Deveras, foi ao Poder Legislativo, que tem o batismo da representação popular e não o Judiciário, que a Constituição conferiu a função de criar o direito positivo e reger as relações sociais" — lição do livro "Interpretação e aplicação da Constituição", de Barroso, o qual parece não pensar o mesmo que ensina nos momentos em que julga.

O voto contundente do ministro Cezar Peluso

Ficou para o fim do julgamento, no entanto, o voto magistral do ministro Cezar Peluso — então presidente da casa —, o qual fulminou, de uma só vez, não só os partidários do "ativismo judicial", mas também os promotores da causa do aborto. Todos aqueles que estudam o Direito têm, na verdade, a obrigação de ler esta que é uma verdadeira aula de bioética (ressalvadas algumas considerações iniciais do ministro, relativas às células-tronco embrionárias, todo o resto se aproveita muitíssimo bem).

Vejamos, primeiro, o que diz Peluso ao adentrar no mérito da questão:

"Mui diversamente do que se aduz na inicial, o aborto provocado de feto anencefálico é conduta vedada, e vedada de modo frontal, pela ordem jurídica. E, a despeito dos esforços retóricos da autora, aparece, por conseguinte, de todo inócuo o apelo para a liberdade e a autonomia pessoais, fundado na pressuposição errônea de inexistência de proibição jurídico-normativa da conduta. Não há como nem por onde cogitar, sem contraste ostensivo com o ordenamento jurídico, de resguardo à autonomia da vontade, quando esta se preordena ao indisfarçável cometimento de um crime. Não se concebe nem entende, em termos técnico-jurídicos, únicos apropriados ao caso, direito subjetivo de escolha, contra legem, de comportamento funestamente danoso à vida ou à incolumidade física alheia e, como tal, tido por criminoso. É coisa abstrusa!"

" A conduta censurada transpõe a esfera da autonomia e da liberdade individuais, enquanto implica, sem nenhum substrato de licitude, imposição de pena capital ao feto anencefálico. E, nisso, atenta ainda contra a própria idéia de 'um mundo diverso e plural', que os partidários da arguente, como Débora Diniz e seu próprio patrono [Barroso], alegam defender."

"É que, nessa postura dogmática, ao feto, reduzido, no fim das contas, à condição de lixo ou de outra coisa imprestável e incômoda, não é dispensada, de nenhum ângulo, a menor consideração ética ou jurídica, nem reconhecido grau algum da dignidade jurídica e ética que lhe vem da incontestável ascendência e natureza humanas. Essa forma odiosa de discriminação, que a tanto equivale, nas suas consequências, a formulação criticada, em nada difere do racismo, do sexismo e do chamado especismo. Todos esses casos retratam a absurda defesa e absolvição do uso injusto da superioridade de alguns (em regra, brancos de estirpe ariana, homens e seres humanos) sobre outros (negros, judeus, mulheres e animais, respectivamente). No caso do extermínio do anencéfalo, encena-se a atuação avassaladora do ser poderoso superior que, detentor de toda a força, inflige a pena de morte ao incapaz de pressentir a agressão e de esboçar-lhe qualquer defesa. Mas o simples e decisivo fato de o anencéfalo ter vida e pertencer à imprevisível espécie humana garante-lhe, em nossa ordem jurídica, apesar da deficiência ou mutilação - apresentada, para induzir horror e atrair adesão irrefletida à proposta de extermínio, sob as vestes de monstruosidade -, que lhe não rouba a inata dignidade humana, nem o transforma em coisa ou objeto material desvalioso ao juízo do Direito e da Constituição da República."

[...]

"A vida intrauterina, ainda quando concebível como projeto de vida, é objeto da tutela jurídico-normativa por várias formas. É-o por normas infraconstitucionais, mas também, e sobretudo, por força da própria lei penal, cujo sentido primário de proibição do comportamento tipificado é expressão da tutela dessa vida intrauterina, a qual guarda, por conseguinte, o significado indiscutível de bem jurídico, que como tal merece a proteção da ordem jurídica. A história da criminalização do aborto mostra que essa tutela se fundamenta na necessidade de preservar a dignidade dessa vida intrauterina, independentemente das eventuais deformidades que o feto possa apresentar, como tem apresentado no curso de história. As deformidades das vidas intrauterinas não são novidade fenomênica. Novidade são hoje os métodos científicos de seu diagnóstico. A consciência jurídica jamais desconheceu a possibilidade de que de uma gravidez possa não resultar sempre nascimento viável. No instante em que o transformássemos [o feto anencéfalo] em objeto do poder de disposição alheia, essa vida se tornaria coisa ( res), porque só coisa, em Direito, é objeto de disponibilidade jurídica das pessoas. Ser humano é sujeito de direito."

[...]

" A vida humana, imantada de dignidade intrínseca, anterior ao próprio ordenamento jurídico, não pode ser relativizada fora das específicas hipóteses legais, nem podem classificados seus portadores segundo uma escala cruel que defina, com base em critérios subjetivos e sempre arbitrários, quem tem, ou não, direito a ela. Havendo vida, e vida humana – atributo de que é dotado o feto ou o bebê anencéfalo –, está-se diante de valor jurídico fundante e inegociável, que não comporta, nessa estima, margem alguma para transigência. Cuida-se, como já afirmei, 'do valor mais importante do ordenamento jurídico'."

"A curta potencialidade ou perspectiva de vida em plenitude, com desenvolvimento perfeito segundo os padrões da experiência ordinária, não figura, sob nenhum aspecto, razão válida para obstar-lhe à continuidade. A ausência dessa perfeição ou potência, embora tenda a acarretar a morte nas primeiras semanas, meses ou anos de vida, não é empecilho ético nem jurídico ao curso natural da gestação, pois a dignidade imanente à condição de ser humano não se degrada nem decompõe só porque seu cérebro apresenta formação incompleta. Faz muito, a civilização sepultou a prática ominosa de sacrificar, segregar ou abandonar crianças recém-nascidas deficientes ou de aspecto repulsivo, como as disformes, aleijadas, surdas, albinas ou leprosas, só porque eram consideradas ineptas para a vida e improdutivas do ponto de vista econômico e social!"

[...]

"A dignidade fundamental da vida humana, como suposto e condição transcendental de todos os valores, não tolera, em suma, barateamento de sua respeitabilidade e tutela jurídico-constitucional, sobretudo debaixo do pretexto de que deformidade orgânica severa, irremissibilidade de moléstia letal ou grave disfunção psíquica possam causar sofrimento ou embaraço a outro ser humano. Independentemente das características que assuma na concreta e singular organização de sua unidade psicossomática, a vida vale por si mesma, mais do que bem humano supremo, como suporte e pressuposição de todos os demais bens materiais e imateriais, e nisto está toda a racionalidade de sua universal proteção jurídica. Tem dignidade, e dignidade plena, qualquer ser humano que esteja vivo (ainda que sofrendo, como o doente terminal, ou potencialmente causando sofrimento a outrem, como o anencéfalo). O feto anencéfalo tem vida, e, posto que breve, sua vida é constitucionalmente protegida."

Mencione-se, por fim, o " non possumus" do magistrado, dado já ao final de seu voto, quando ele declara expressamente a "competência exclusiva do Congresso Nacional para normatizar" o tema em debate e a "impropriedade da atuação do STF como 'legislador positivo'":

"Essa tarefa é própria de outra instância, não desta Corte, que já as tem outras e gravíssimas, porque o foro adequado da questão é do Legislativo, que deve ser o intérprete dos valores culturais da sociedade e decidir quais possam ser as diretrizes determinantes da edição de normas jurídicas. É no Congresso Nacional que se deve debater se a chamada 'antecipação do parto', neste caso, deve ser, ou não, considerada excludente de ilicitude."

[...]

"A ADPF não pode ser transformada em remédio absoluto que franqueie ao STF a prerrogativa de resolver todas as questões cruciais da vida nacional, responsabilizando-se por inovação normativa que a arguente e os adeptos de sua tese sabem muito bem que, na via própria da produção de lei, talvez não fosse adotada pelo Congresso Nacional, como intérprete autorizado dos interesses e das aspirações da maioria silenciosa do povo, que representa!"

Essas últimas palavras, em particular, nunca foram tão apropriadas como agora, quando grupos progressistas querem, mais uma vez, impor judicialmente a sua agenda de morte a uma nação inteira, desconsiderando, para tanto, instituições caríssimas de nossa democracia, tais como o princípio da separação dos Poderes e o direito fundamental à vida desde a concepção — este consagrado por pactos internacionais (Convenção Americana sobre Direitos Humanos, art. 4), pela Constituição brasileira (art. 5.º, caput) e pelo próprio Código Civil (art. 2.º).

Nas condições normais de uma democracia, os juízes respeitam as leis e são responsabilizados se falham nesse mister. Mas, no Brasil, como já disse um ministro do STF!, eles não devem satisfação "depois da investidura a absolutamente mais ninguém".

A impressão é que vivemos em uma terra sem lei, governada tão-somente pelo arbítrio dos homens de toga. Irrefreáveis. Onipotentes. E, segundo eles mesmos, irresponsáveis. É como se a "morada dos deuses" tivesse mudado: do Monte Olimpo… para o Planalto Central.

Que Deus tenha misericórdia de nossa nação.

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Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente
Pró-Vida

Holocausto: tudo começou
com o assassinato do primeiro inocente

Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente

Agora, que 75 anos nos separam do fim do Holocausto, não nos esqueçamos o momento em que toda aquela tragédia começou. Tudo teve início quando o primeiro homem inocente foi, não obstante sua inocência, deliberadamente assassinado.

John GrondelskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Este ano marca o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz, campo de concentração nazista. Localizado no território da Polônia ocupada pelos alemães, Auschwitz começou como um campo para prisioneiros políticos poloneses, mas tornou-se um epítome simbólico do Holocausto, o extermínio sistemático do povo judeu. Também ao longo deste ano celebraram-se vários aniversários na senda do Dia da Vitória na Europa (n.d.t.: o dia 8 de maio), dia da derrota do Terceiro Reich: entre eles, o aniversário da libertação do campo de concentração de Dachau, em 29 de abril.

S. João Paulo II, em sua Encíclica “Evangelium vitae”, caracterizou os tempos modernos como uma luta entre a “cultura da vida” e a “cultura da morte”. Embora ele tenha escrito a Encíclica em 1995, seria um erro pensar que a “cultura da morte” é um fenômeno exclusivo das décadas recentes.

Auschwitz recorda-nos que os regimes totalitários do séc. XX adotaram a morte como instrumento de política estatal, que solapou a inviolabilidade da vida humana de cada indivíduo. Judeus (e não apenas judeus) foram sujeitos à execução arbitrária nas mãos de nazistas alemães, não por um “crime” de que pudessem ser culpados (embora os alemães formalistas tenham criado “crimes” — inclusive “raciais” — para justificar o que faziam), mas porque as vítimas eram quem eram. Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto. Auschwitz foi simplesmente a encarnação de toda essa mentalidade.

“Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto.”

Autores contemporâneos insistem em restringir o termo “Holocausto” ao extermínio dos judeus europeus, à “Solução Final” da questão judaica (Endlösung der Judenfrage). Eu entendo o esforço por reconhecer a singularidade do que ocorreu aos judeus europeus, tanto em escopo quanto em grau.

Mas não podemos esquecer que a eliminação dos judeus europeus foi parte de uma agenda racial e eugênica muito mais ampla abraçada pelos nazistas, que começou muito mais cedo com o extermínio de cidadãos alemães da própria Alemanha, por considerar-se que viviam uma “vida indigna de ser vivida” (lebensunwertes Leben). Na verdade, essa mesma ideia surgiu treze anos antes dos treze anos de reino de terror que foi o nazismo: a expressão “lebensunwertes Leben” apareceu no título de um livro publicado em 1920 por… dois professores. 

O Holocausto foi uma encarnação particularmente cruel dessa ideia, mas ela não surgiu do nada: as sementes do Holocausto foram plantadas no momento em que o direito de uma vida inocente deixou de ser autojustificável; quando a vida inocente em si mesma deixou de ser motivo o bastante para que a protegessem; quando a vida inocente passou a precisar de um outro motivo para permanecer inviolável. A essência disso foi bem captada no filme Julgamento de Nuremberg (1961), na cena em que o juiz americano Dan Haywood (Spencer Tracy) visita o nazista Ernst Janning (Burt Lancaster) em sua última cela prisional. “Aquelas pessoas… aqueles milhões de pessoas… eu nunca pensei que fosse chegar a tanto. Acredite”, declarou Janning. 

“Herr Janning”, respondeu Haywood, “chegou a tanto na primeira vez que você condenou à morte um homem que você sabia ser inocente”.

Embora Auschwitz tenha-se tornado um símbolo do extermínio dos judeus europeus, não nos podemos esquecer dos muitos outros crimes contra a vida humana praticados em toda a rede de campos de concentração montada pelos nazistas. Dachau era praticamente uma comunidade religiosa católica — ou mesmo um seminário —, e escreverei posteriormente sobre alguns daqueles sacerdotes que, em algum momento, partiram de Dachau para os Estados Unidos. Os ciganos também foram massacrados nos campos. Prisioneiros foram usados em experimentos “médicos” discutíveis — que estavam mais para sádicos (por exemplo, os “experimentos com água gelada” em Dachau, nos quais sacerdotes e prisioneiros de guerra soviéticos eram imersos em água gelada para ver quanto tempo sobreviviam e, assim, aplicar os dados colhidos desses Untermenschen, desses povos inferiores, ao pedigree da nação germânica, que sobrevoava, em bombardeiros, o gélido Atlântico Norte). O grau de colaboração de cientistas, em geral, e de médicos, em particular, com os nazistas era elevado. O dr. Josef Mengele era apenas o zênite daqueles que prostituíam suas profissões.

O desfecho da II Guerra Mundial levou, pelo menos, a um esforço temporário de proteger o direito à vida e a dignidade humana em instrumentos legais projetados pelos arquitetos da ordem pós-guerra. A nova constituição da Alemanha Ocidental, por exemplo, consagrou seu compromisso de abertura à “inviolabilidade da dignidade humana”. A ética médica do pós-guerra (por exemplo, o Código Internacional de Ética Médica da Associação Médica Mundial) exortou os doutores a sempre “respeitar a vida humana” e a obter [dos pacientes] consentimento informado. As lições do Holocausto foram universalizadas como uma ética da inviolabilidade da dignidade humana.

O Holocausto tem, é claro, uma dimensão única como testamento da dimensão letal do antissemitismo. Isso ninguém pode negar. Mas agora que celebramos o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz — tanto como símbolo da Solução Final quanto como nadir de um período de três meses e meio, em 1945, quando campos de concentração foram libertados e seus horrores dados a conhecer —, não nos esqueçamos de uma verdade fundamental: tudo isso começou quando o primeiro homem inocente foi, não obstante, deliberadamente assassinado.

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Uma novena a Santa Teresinha
Oração

Uma novena a Santa Teresinha

Uma novena a Santa Teresinha

Por esta novena, extraída de um antigo devocionário, somos chamados não só a invocar a intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus e suplicar-lhe graças especiais, mas também a imitar as virtudes que ela viveu.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
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Os mais devotos já sabem, mas não custa lembrar: começa hoje, 22 de setembro, a novena a Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, em preparação para a sua festa litúrgica, no dia 1.º de outubro (no calendário antigo, a memória dela se celebra no dia 3 de outubro, de modo que, se alguém “chegar atrasado”, pode iniciar a novena depois). As meditações abaixo foram extraídas e levemente adaptadas de um antigo devocionário à santa de Lisieux [1], e têm por objeto as virtudes que ela viveu e cultivou: fé ardente, esperança inabalável, amor, humildade, simplicidade etc.

As orações podem ser feitas juntamente com a tradicional (e muito mais simples) “Novena das Rosas” de S. Teresinha, que consiste em uma ação de graças à Santíssima Trindade [2], 24 Glórias em honra aos 24 anos que ela viveu na Terra, acrescidas da invocação “Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, rogai por nós!”, e um Pai-nosso e uma Ave-Maria.

É ocioso dizer que, embora seja costume fazer esses nove dias de oração para celebrar a memória de Teresinha, ambas as novenas podem ser feitas a qualquer tempo.


1.º dia — Fé ardente de S. Teresinha

Meditação. — Compenetrados de humildade, consideremos e admiremos em S. Teresinha do Menino Jesus o dom de misericórdia, concedido por Deus aos nossos dias, nos quais o triunfo da matéria ameaça sufocar e apagar nas almas o sublime dom da fé. Esta santinha viveu uma vida de fé, no pensamento e nas obras, respirou o sobrenatural, alimentou-se de Deus e a Ele ofereceu todas as suas penas interiores, a fim de reparar os pecados de incredulidade cometidos pelos homens.

Oração. — Ó S. Teresinha, flor puríssima do Carmelo, dada por Deus às almas para ensinar a todos o caminho certo e rápido do Céu, prostrados diante do vosso altar, abrimos o nosso coração à gratidão para com Deus pelos inúmeros dons que vos concedeu, sobretudo pelo dom da fé, que estabeleceu entre vós e o Céu uma relação contínua de ternura e de amor. Ó pequena esposa de Jesus, ensinai-nos, com o vosso admirável exemplo, as nossas relações para com Deus; lembrai-nos sempre que Ele está sobre nós e conosco por meio da sua santa graça; fazei com que O tenhamos sempre presente, quer na alegria, quer na dor, através do piedoso véu da fé, até que O possamos contemplar, face a face, convosco no pleno meio-dia da visão beatífica. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

2.º dia — Esperança de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos em S. Teresinha a sublime esperança na misericordiosa bondade de Deus, que nela se efetuava na mais sincera e incondicionada confiança. Com efeito, reconhecendo-se ela pequenina e fraca, quis permanecer sempre tal, entre os braços amorosos de Deus, a fim de ser guiada e levada por Ele, através do caminho da perfeição, ao Céu; na alegria e na dor, na aridez e nas tentações, confiou sempre em Deus, que para ela foi a riqueza da sua pobreza, o sol nas suas trevas, o tudo do seu nada; e o Senhor a levou ao Céu.

Oração. — Ó S. Teresinha, pequena filha de Deus, que vivestes de esperança e confiança, apoiando-vos unicamente na palavra infalível e nas promessas indefectíveis de Deus, e sempre esperastes contra todas as esperanças humanas, e sorristes nas penas e nas tentações, ensinai-nos o vosso sublime segredo da felicidade, fazendo-nos viver no esquecimento e na desconfiança de nós mesmos, confiando somente em Deus. Abri sobre todos o Céu, dilatai os horizontes da divina misericórdia sobre todos os pecadores, fazei com que a nossa confiança em Deus nos garanta o seu poderoso auxílio em todas as nossas necessidades, e possamos saborear a vossa inefável alegria e paz abundante. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

3.º dia — Amor de S. Teresinha para com Deus

Meditação. — Consideremos outra característica da santidade de Teresinha: o seu grande amor para com Deus. Digna filha da Serafina d’Ávila, ela compreendeu que o amor, assim como é a essência da bem-aventurança eterna, é também a alma e o fastígio da santidade na Terra. Amar a Deus foi para Teresinha o trabalho, a ocupação e a alma do seu espírito. Tudo quanto ela teve, fez vibrar no amor: sua alma, seu coração, seu pensamento, sua palavra, toda a flor do seu ser, foi abrasada pelo amor. Ela soube oferecer e padecer desfolhando aos pés de Deus as rosas da sua caridade até a morte.

Oração. — Ó S. Teresinha, hóstia puríssima, imolada ao amor misericordioso de Deus, vós que tudo quanto fostes e possuístes, inflamastes de amor e aniquilastes na voragem da divina caridade. Ó rosa perfumada do Carmelo, ensinai-nos a amar a Deus, concedei-nos as intuições do vosso amor que foi a medida das vossas obras, desvelai-nos o grande segredo de engrandecer as pequeninas ações com o fogo da caridade; fazei com que o amor de Deus seja a única norma das nossas ações e o único título pelo qual nos tornemos dignos da glória eterna. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

4.º dia — Amor de S. Teresinha para com o próximo

Meditação. — Consideremos como o amor de Deus em Teresinha foi maravilhoso em seus efeitos de caridade para com o próximo. Quem ama deveras a Deus, ama necessariamente as suas criaturas, as quais, sendo sua viva imagem, são outrossim obras da sua criação, termo da sua Redenção, objeto do seu grande amor. E S. Teresinha amou em seus irmãos a Deus, esquecendo-lhes os defeitos e as culpas; ela não viu nem quis ver no próximo senão a imagem viva de Jesus, por cujo amor proporcionava a todos caridade, compaixão e perdão generoso.

Oração. — Ó S. Teresinha, que espalhastes generosamente sobre todos os vossos sorrisos e alegrastes com o vosso amor todos aqueles que vos rodearam sobre a Terra; vós, que no próximo vistes e amastes a Deus, e tanto mais o amastes quanto mais sabíeis que precisava da vossa caridade, concedei-nos a fineza e a doçura do vosso amor para com os nossos irmãos e fazei com que, compadecendo e perdoando as fraquezas do nosso próximo, mereçamos da divina clemência o perdão dos nossos pecados. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

5.º dia — Zelo de S. Teresinha pela salvação das almas

Meditação. — Consideremos o ardente zelo que consumiu o espírito de S. Teresinha em desejar a salvação das almas. Atormentada pela sede do Crucificado, Teresinha apaixonou-se para cooperar, com todos os meios que estavam ao seu alcance, com a grande obra da Redenção. E o seu apostolado foi tão prodigioso e admirável, que pôs a serviço da Igreja e em auxílio das almas todas as suas riquezas interiores: suas orações, suas imolações e seus sofrimentos pela conversão dos pecadores.

Oração. — Ó S. Teresinha, apóstolo generoso da glória de Deus, que tanto vos apaixonastes pela sede do Coração de Jesus, até sacrificardes a vossa vida pela salvação das almas, fazei com que nós também, santificando-nos a nós mesmos, salvemos, com o nosso exemplo, as almas do nosso próximo e concedei-nos que, no humilde âmbito de nossa condição, cada um de nós ofereça à Igreja e às almas a própria cooperação, a fim de estender sobre a Terra o pacífico Reino de Jesus Cristo. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

6.º dia — Amor de S. Teresinha pelos sofrimentos

Meditação. — Consideremos o amor que S. Teresinha nutriu pelos sofrimentos desde a sua infância. Logo que ela compreendeu que a vida é dor e que, para se santificar, é mister sofrer muito, pediu a Deus todo o gênero de dores: o martírio do coração e o martírio do corpo. Com efeito, sendo dotada de um espírito profundo, de um coração sensibilíssimo e de um nobre sentimento, saboreou, até a morte, as angústias e as agonias mais atrozes e meritórias, por serem desconhecidas pelos homens.

Oração. — Ó S. Teresinha, mártir inocentíssima, que recolhestes em vosso coração virginal as lágrimas e as amarguras de um martírio que foi ignorado pelo mundo, e avaliado somente por Deus; ó pequena esposa do Crucificado, que pediste a graça de reproduzir na vossa alma as aparências amorosas e dolorosas do vosso muito amado Jesus, explicai-nos o profundo mistério do amor, oculto no sofrimento, e desvelai-nos os segredos da vossa alegria e dos vossos sorrisos na dor. Ó linda rosa, desfolhada debaixo dos pés sanguinolentos de Jesus, fazei com que nós também, purificados e santificados pelos sofrimentos, subamos ao Céu pela escada da cruz! — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

7.º dia — Humildade de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos como toda a generosidade de S. Teresinha consiste na humildade. Compenetrada do seu nada, ela, em vez de desanimar, regozijou-se da sua pequenez, e pôs todo o cuidado em ficar sempre pequenina, bem sabendo que numa criatura a humildade é a única fascinação para atrair a Deus. E Deus, comovido pela sincera e profunda humildade da sua serva, inclinou-se até ela, para elevá-la ao cume mais alto da santidade e da glória.

Oração. — Ó S. Teresinha, que da vossa humildade fizestes o vosso trono, e na vossa pequenez deparastes toda a vossa força, e que desse abismo de soberania imperastes sobre o Coração de Deus, ensinai-nos esta virtude de luz. Que a humildade nos ponha no nosso próprio lugar diante de Deus, e nos faça conhecer e compreender que, tudo quanto somos e possuímos, temos recebido da sua generosa bondade, e tudo o que está em nós redunde na glória de Deus, nosso Criador e fim último da nossa existência. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

8.º dia — Simplicidade de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos a virtude característica de S. Teresinha: a simplicidade, que é a virtude rainha das crianças, pela qual ela foi direitinha para o seu fim, sem se preocupar de mais nada. Por isso, esquecendo a si mesma e as criaturas, jamais procurou a própria satisfação e as utilidades pessoais; jamais buscou o amor e a estima dos homens, mas quis agradar unicamente a Deus, a quem consagrou todas as suas próprias ações, o perfume de todas as suas intenções e toda a chama do seu coração.

Oração. — Ó S. Teresinha, que tomastes em palavra a Palavra de Deus, e fizestes vosso estudo incessante e paraíso da vossa alma a santa simplicidade, vivendo deliciosamente a vida de infância espiritual, traçada pelo santo Evangelho. Inspirai-nos um amor apaixonado por esta virtude predileta de Jesus, e fazei com que, despindo-nos das ilusões da culpa e dos vãos artifícios do mundo, e compenetrados do único fim para que fomos criados, esforcemo-nos em consegui-lo diretamente, procurando só o que possa sossegar e beatificar eternamente o nosso espírito. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

9.º dia — Abandono em Deus de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos como a vida de infância espiritual em S. Teresinha se manifestou acompanhada da virtude do mais completo abandono no amor misericordioso de Deus. A pequenez, a fraqueza, a pobreza e a confiança foram as veredazinhas que a levaram a este abandono, que é o termo do amor. Pois se amar é doar, Teresinha, que amava a Deus de um amor imenso, doara-se a Ele com o mais perfeito abandono, que fez de toda a sua vida o dom mais sublime e afetuoso.

Oração. — Ó S. Teresinha, ó alma generosa, toda entregue a Deus no abandono mais filial e completo, vós que adquiristes o inapreciável lucro de vos entregar totalmente a Deus, e tudo dEle recebestes e fostes levada, em seus braços, verdadeiro elevador da vossa alma, até o último porto de salvação, obtende-nos do Senhor este santo e filial abandono. Despojai o nosso coração de toda a desconfiança e resistência, que nos retardam a efusão da graça. Fazei com que, guiados pela suprema bondade de Deus, através das tempestades e dos naufrágios da vida, possamos chegar, pela vossa valiosa proteção, ao último porto de salvação e de paz. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração para o dia da festa

Pintura de S. Teresinha, presente no “Royal English College” de Valladolid, Espanha (Flickr, Lawrence O.P.)

Prostrados diante do trono da vossa adorável majestade, Sacramento de amor, abrimos o nosso coração ao reconhecimento e ao amor, para vos darmos graças de terdes doado à Igreja e às almas S. Teresinha do Menino Jesus. Grande Deus, vós tendes falado milhares e milhares de vezes com todas as vozes da potência, da sabedoria e do amor, sempre e em toda parte, perante os homens que vos amam e adoram, e os que vos odeiam e ultrajam. Vós vos tendes manifestado para confundir a nossa presunção e a nossa miséria, para nos dizer que só vós sois o Criador, a Providência, o último fim de toda grandeza e felicidade. Nunca, porém, falastes como hoje, tão viva e deliciosamente, com a voz e a eloquência desta extraordinária santinha, deste anjo revestido de nossa carne, enferma e dolorida, a nossa querida S. Teresinha do Menino Jesus, feita vossa palavra para ensinar a todos o verdadeiro caminho do Evangelho e reconduzi-los ao Céu, seguindo o exemplo luminoso das suas admiráveis e imitáveis virtudes.

Nós vos rendemos graças, vos exaltamos e vos bendizemos, Senhor, que ainda continuais, misericordioso, a derramar sobre esta mísera humanidade, tão ingrata, mas sempre amada pelo vosso adorável Coração, os tesouros de vossas virtudes e graças. Escutai, pois, a prece que nós vos dirigimos por meio de S. Teresinha. Lembrai-vos, Senhor, que ela é a esposa predileta do vosso Coração e é também nossa irmã. Ela é filha deste século que muito se afastou de vós e vos ofendeu. Deus de bondade, Deus de misericórdia, tende piedade de nós! 

Vós não nos abandonareis, pois ainda vos lembrais de nós concedendo-nos tamanhos santos! Pelos méritos e pela intercessão desta santinha, dai à vossa Igreja paz e liberdade; concedei às nações e aos povos tranquilidade e amor, e fazei com que todas as almas entrem a fazer parte do vosso pacífico Reino, a fim de que, de um extremo a outro da Terra, todos, sociedade, família e indivíduos, reconheçam a soberania do vosso munífico Coração.

E vós, irmãzinha de nossos dias, de nossas penas, de nossas lágrimas, S. Teresinha do Menino Jesus, sorriso dos anjos, flor do Céu, caída sobre este abismo de lama e de choro, rogai por nós! Levantai a vossa voz até ao trono de Deus, falai a Ele por nós com a eloquência da vossa prece, aplacai-O e fazei-O voltar, sereno e benigno, no meio de nós. 

Pequena tesoureira do Coração divino, piedosa advogada de todos os pobres, de todos os miseráveis, abri a porta deste adorável e inesgotável Coração, e fazei descer copiosa a chuva das vossas rosas. Ó alma cândida e bela, nós esperamos a realização das vossas promessas! Lançai, a mão cheia, as vossas rosas sobre este século do qual fostes filha, e dignai-vos reconduzi-lo a Deus; sufocai com o perfume das vossas flores o seu ambiente saturado de impiedade e salvai-o. Atirai as vossas rosas sobre todas as almas, sobre todos os sofrimentos, sobre todos os calvários, para que mais fácil se nos torne o caminho para o Céu.

Ó rainhazinha dos corações, atraí-nos a vós com o perfume das vossas flores, ao bem, à virtude, ao Céu. Pequena consoladora, consolai-nos. Querida santinha, santificai-nos e obtende-nos, com a vossa poderosa mediação, sermos admitidos, um dia, à festa eterna do paraíso. Assim seja. — 3 Pai-nossos, Ave-Maria, e 1 Glória.

Notas

  1. Um carmelita descalço. O devoto de Santa Teresinha do Menino Jesus. S. Paulo, 1926, pp. 5-20.
  2. “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos agradeço todos os favores, todas as graças com que enriquecestes a alma de Vossa serva Teresa do Menino Jesus durante os 24 anos que passou na Terra. Pelos méritos de tão querida santinha, concedei-me a graça que ardentemente vos peço..., se for conforme a Vossa Santíssima vontade e para salvação de minha alma. Ajudai minha fé e minha esperança, ó Santa Teresinha, cumprindo, mais uma vez, sua promessa de que ninguém vos invocaria em vão, fazendo-me ganhar uma rosa, sinal de que alcançarei a graça pedida.”

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O lugar dos hipócritas no Inferno de Dante
Doutrina

O lugar
dos hipócritas
no Inferno de Dante

O lugar dos hipócritas no Inferno de Dante

“De todos os homens maus, os maus religiosos são os piores”, pois por meio da mentira eles zombam de tudo o que é bom e profanam o que é sagrado. Mas também não há nada mais belo do que ver almas justas que lutam com fervor para se unir a Deus.

Maria CintorinoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Certa vez, C. S. Lewis escreveu o seguinte: “De todos os homens maus, os maus religiosos são os piores”. Ao refletir sobre tantas coisas que têm sido reveladas na Igreja, relacionadas com liderança medíocre, hipocrisia e comportamento escandaloso (para dizer o mínimo), fica difícil não pensar nas palavras de Lewis e recordar o Inferno de Dante, na Divina Comédia.

Em sua obra, Dante é guiado por Virgílio no Inferno e no Purgatório e, depois, por Beatriz no Céu. Ao longo da jornada, Dante testemunha os diferentes castigos que os maus sofrem no Inferno e as diversas alegrias dos bem-aventurados no Céu. Essa recompensa se destaca mais no Inferno. A técnica genial que Dante utiliza no poema reflete sua percepção da gravidade do pecado, um conceito que tem sido negligenciado em nossa época. Dante manifesta a realidade do pecado e suas principais consequências por meio das engenhosas punições aos diversos grupos de almas no Inferno e no Purgatório, pois os castigos refletem os crimes cometidos por elas na terra.

No Inferno, Dante testemunha coisas perturbadoras e fica apavorado com elas. Viaja por cada círculo infernal e vê como cada punição reflete um crime específico que as almas cometeram na terra: aqueles que pecaram por luxúria são forçados a pairarem no vento, perseguindo uns aos outros, sem descanso nem paz. Os assassinos são condenados a afundar num fervilhante rio de sangue e fogo, enquanto os hereges queimam numa tumba ardente por toda a eternidade. De todos os castigos descritos por Dante, talvez os mais apropriados sejam os impostos aos hipócritas e líderes corruptos.

“Os hipócritas”, por Gustavo Doré.

Dante põe essas pessoas nos lugares mais distantes do Inferno, na sexta cova do oitavo círculo (c. XXIII). Aqui, Dante fala de diversas figuras históricas que procuraram benefícios pessoais quando ocuparam posições de autoridade e governo. O principal pecador nessa cova é Caifás, o sumo sacerdote que defendeu a morte de Cristo com a desculpa de estar preocupado com o bem-estar de Israel. 

Os hipócritas que estão nessa cova são forçados a vestir belos mantos por fora. No entanto, é possível perceber que, vistos mais de perto, os mantos estão cobertos de chumbo por dentro. Assim, eles refletem a vida dos hipócritas na terra: cheia de corrupção e sujeira, mas mascarada por indivíduos que passam a aparência de ser ordenados, bem-intencionados e preocupados com o bem comum.    

Esses indivíduos ocultaram habilmente aqui na terra sua busca superficial por poder, aplausos e prazer. Esses desejos, aliados à busca por ganhos materiais, os consumiram a ponto de fazê-los dominar a arte de ter uma vida dupla. Suas vidas se transformaram, portanto, em mentiras ambulantes. Como, para eles, o prazer e o interesse próprio foram mais importantes do que a salvação, perderam toda fé e crença no eterno, usadas como meio para seu próprio benefício. O mistério do sobrenatural lhes foi obscurecido por desejos mundanos, e suas paixões desordenadas puseram em risco aquilo que é mais importante: suas almas imortais.  

O Inferno de Dante serve como alerta para todos, particularmente para os que ocupam cargos de liderança. Esta, por sua vez, não deveria ser buscada, não deveria ser vista como uma oportunidade para obter poder, riqueza ou reconhecimento, pois o poder traz consigo grandes responsabilidades, e são graves as consequências de fracassar no cumprimento dos deveres de ofício e de orientar mal a outros. Cristo faz um alerta aos Apóstolos sobre essas punições: “Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!” (Mc 9, 42). O mesmo princípio se aplica àqueles que, em virtude de seu cargo e exemplo, escandalizam os que estão à sua volta.

S. João Batista usa palavras duras para falar dos hipócritas e dos que provocam escândalo. Ele chama os fariseus de “raça de víboras”. Por quê? Porque são tão desonestos e ardilosos quanto a serpente no jardim do Éden. Escondem suas verdadeiras intenções, dando a aparência de bom ao que é vil e perverso. Do mesmo modo, Cristo usa palavras fortes contra aqueles que, por palavras ou ações, desorientam os outros. Jesus diz o seguinte sobre os hipócritas: 

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade (Mt 23, 27-28).

Portanto, aqueles que, secretamente, não conseguem pôr em prática os ensinamentos da Igreja que eles mesmos pregam, ou que realizam boas ações apenas para serem elogiados, são comparados aos mortos, pois essas ações matam a vida da graça na alma. Por conhecer os perigos desse tipo de hipocrisia, Jesus alerta os discípulos contra os falsos profetas que se parecem com ovelhas, “mas por dentro são lobos arrebatadores” (Mt 7, 15).

Se tudo o que está acima pode ser dito dos maus religiosos, o que dizer dos bons? Embora C. S. Lewis observe com acerto que “de todos os homens maus, os maus religiosos são os piores”, é possível argumentar que de todos os homens bons, os bons religiosos, os cristãos fiéis, são os melhores, pois são capazes de avaliar suas vidas colocando-as numa perspectiva adequada e orientando-as para o bem. Homens devotos compreendem o horror do pecado, suas ramificações e efeitos; portanto, estremecem só de pensar em realizar qualquer ato mau. Por reconhecerem a seriedade do pecado e o escândalo por ele causado, têm consciência de como devem viver suas vidas para que Deus seja glorificado em tudo. Por seu compromisso diário de servir a Deus em suas palavras e ações, a vida dos homens justos testemunha silenciosamente o fato de que a salvação da alma imortal vale muito mais do que qualquer coisa oferecida pelo mundo, e que a luta para preservá-la é indispensável para a verdadeira felicidade do mundo que há de vir.  

Como os homens religiosos compreendem a futilidade desta vida, não buscam prazeres fugazes. Esforçam-se para viver cada dia cientes de que são “pó e ao pó voltarão”. Embora tenham consciência de serem fracos e pecadores, confiam na graça de Deus em sua luta diária para cumprir o chamado à santidade. Isso lhes permite compreender o propósito mesmo de sua existência, que, como explica S. Inácio de Loyola, é “louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e desta forma salvar suas almas”. Nesse sentido, Deus está no centro das vidas dos homens justos, pois eles reconhecem que o mundo ao seu redor serve apenas como meio para um fim. Seu propósito de vida, fundamentado na realização da união eterna com Deus, molda cada um de seus desejos e faz com que se coloquem à disposição de Deus para trabalhar sem descanso a serviço dos outros.

Esses fiéis cristãos, cujas vidas são fundamentadas em Deus e enraizadas na lei moral, irradiam o amor de Deus para todas as pessoas com que deparam, fazendo com que Ele seja conhecido por todos. Seu testemunho genuíno da beleza do Evangelho vivido e da alegria que daí nasce inspira seus companheiros a buscarem a virtude, pois os homens são atraídos pelo bem por natureza. O Papa Leão XIII escreve sobre a importância de viver uma vida virtuosa e, assim, servir de bom exemplo para os outros. Ele observa que “dar um bom exemplo é a melhor maneira de cultivar nos homens o amor à virtude”. A integridade desse testemunho só pode ter eficácia se for autêntica: deve surgir do relacionamento com Cristo, do desejo e do comprometimento dos cristãos com a busca da santidade. Assim, os fiéis cristãos inspiram as vidas daqueles com quem convivem, por causa do verdadeiro testemunho que dão do Evangelho, de sua fidelidade a Cristo, de suas virtudes e transparência consigo e com os outros. São estas as redes involuntárias que atraem outras pessoas para eles e, em última instância, para Cristo.

Portanto, o exemplo dos bons religiosos é poderoso. O testemunho dos santos ao longo dos séculos, independentemente de suas personalidades ou vocações, mostra-nos que isso sempre foi verdade. Por meio de suas vidas e do alegre abandono ao serviço de Deus, os santos refletiram o amor divino para todas as pessoas com quem conviveram, tornando-se faróis da luz da fé no mundo. 

Embora C. S. Lewis afirme que não há nada pior do que religiosos perversos, que pela mentira zombam de tudo o que é bom e profanam o que é sagrado, não há nada mais belo do que ver almas justas que lutam fervorosamente para se unirem a Deus. O exemplo dos justos não só dá esperança à humanidade, mas também faz com que as pessoas se lembrem de seu objetivo celeste. Este é o poder dos homens justos: em tudo o que fazem, refletem Deus para os outros; e, ao fermentar o mundo com a Palavra de Deus por meio de suas palavras e exemplos, os justos revelam o Céu aos homens e assim levam a humanidade a Deus.

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Vida e martírio de São Mateus
Santos & Mártires

Vida e martírio de São Mateus

Vida e martírio de São Mateus

Quem foi o Apóstolo e evangelista São Mateus, antes e depois de conhecer Nosso Senhor? Onde Ele pregou após a Ressurreição e Ascensão de Jesus aos céus? E como foi o seu martírio? É o que nos contam estas piedosas páginas da tradicional “Legenda Áurea”.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe CNP21 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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1. Nome. — Mateus teve dois nomes, Mateus e Levi. Mateus quer dizer “dom precoce” ou “conselheiro”. Ou Mateus vem de magnus, “grande”, e θεός, “Deus”, como se se dissesse “grande para Deus”, ou então vem de manus, “mão”, e de θεός, significando “mão de Deus” [1]. Com efeito, a) ele foi um dom precoce por sua rápida conversão, b) foi conselheiro por sua salutar pregação, c) foi grande diante de Deus pela perfeição de sua vida e d) foi a mão de que Deus se serviu para escrever o seu Evangelho. — Levi quer dizer “retirado”, “colocado”, “acrescentado”, “incorporado”. Ele foi a) retirado de seu posto de cobrança de impostos, b) colocado entre os Apóstolos, c) acrescentado à comunidade dos evangelistas e d) incorporados ao catálogo dos mártires.

2. Gestas. — O Apóstolo, ao pregar na Etiópia, em uma cidade chamada Nadaber, encontrou dois magos, Zaroés e Arfaxat, que entusiasmavam os homens com seus truques, parecendo ter o poder de os privar da saúde e do uso de seus membros. Cheios de soberba, faziam-se adorar como deuses pelos homens. Tendo chegado a essa cidade e sido hospedado pelo eunuco da rainha Candaces, batizado com o nome de Filipe, o Apóstolo Mateus notou como o prestígio daqueles magos era pernicioso aos homens e, por isso, os quis converter.

O evangelista S. Mateus, pintado por Francisco Bayeu y Subías.

Quando o eunuco perguntou a S. Mateus como era possível que ele falasse e compreendesse tantas línguas, o Apóstolo explicou que, depois da vinda do Espírito Santo, recebera o conhecimento de todos os idiomas. Porque, assim como, por soberba, alguns quiseram edificar uma torre que chegasse ao Céu, mas viram-se forçados a interromper a construção por causa da confusão das línguas, os Apóstolos construiriam, não com pedras, mas com virtudes, pelo conhecimento de todos os idiomas, uma Torre para todos os que crerem subirem até o Céu.

Então, alguém veio anunciar a chegada dos dois magos, acompanhados de dragões que vomitavam fogo sulfúrico pela boca e pelas narinas, matando a todos os homens [2]. O Apóstolo, munindo-se com o sinal da cruz, foi com segurança em direção a eles. Mal o viram, foram os dragões deitar-se aos seus pés. Mateus disse então aos magos: “Onde está vossa arte? Despertai-os, se puderdes. De minha parte, se eu não me houvera encomendado ao Senhor, ter-vos-ia feito a vós o que pensáveis fazer comigo”. Como o povo se reunisse, Mateus ordenou que os dragões fossem embora em nome de Jesus, e eles partiram no mesmo instante sem fazer mal a ninguém. Ele começou então a fazer um grande sermão ao povo sobre a glória do Paraíso terrestre, afirmando ser mais alto do que todas as montanhas, estar próximo do Céu; que lá não há espinhos, os lírios e as rosas não fenecem, a velhice não existe, os homens permanecem sempre jovens, os coros dos anjos cantam; quando se chamam as aves, elas obedecem imediatamente. Acrescentou ainda que o homem fora expulso do Paraíso terrestre, mas que, pelo nascimento de Cristo, fora chamado ao Paraíso celeste.

Enquanto falava ao povo, ouviu-se de repente um alarido: eram choros pela morte do filho do rei. Ora, como os mágicos não o pudessem ressuscitar, convenceram o rei de que o menino fora levado na companhia dos deuses; por isso, era necessário erguer-lhe uma estátua e um templo. O eunuco mandou vigiar os mágicos e convocou o Apóstolo, o qual, depois de ter rezado, ressuscitou no mesmo instante o jovem. Por causa disso, o rei, chamado Egipo, mandou que se divulgasse por todas as suas províncias: “Vinde ver um deus oculto sob a aparência de homem!”

Muitos vieram com coroas de ouro e diferentes tipos de sacrifícios a serem oferecidos ao Apóstolo; mas Mateus os impediu, dizendo: “Homens, que fazeis? Não sou um deus; apenas um escravo do Senhor Jesus Cristo”. Então, com a prata e ouro que tinham levado, as turbas construíram em trinta dias uma grande igreja, na qual o Apóstolo permaneceu por trinta e três anos e converteu o Egito inteiro. O rei, sua mulher e todo o povo fizeram-se batizar; Ifigênia, a filha do rei, consagrou-se a Deus e foi posta à frente de duzentas virgens.

Depois disso, Hírtaco sucedeu ao rei, enamorou-se de Ifigênia e prometeu ao Apóstolo metade do reino, se ele a fizesse aceitá-lo em casamento. O Apóstolo lhe disse que fosse no domingo à igreja, segundo costume de seu predecessor, e, na presença de Ifigênia e das outras virgens, ouvisse sobre os benefícios do casamento. O rei se apressou em ir, alegre por supor que o Apóstolo pretendesse aconselhar o casamento a Ifigênia.

Quando as virgens e todo povo estavam reunidos, Mateus falou longamente sobre as vantagens de se casar, sendo muito elogiado pelo rei, crente que o Apóstolo dissera tudo aquilo para animar Ifigênia e convencê-la a se casar. Depois de pedir que se fizesse silêncio, o Apóstolo retomou o sermão, dizendo: 

É coisa boa o matrimônio, quando nele se guarda a fidelidade. Sabei, pois, os presentes que, se um escravo se atrevesse a raptar a esposa do rei, não somente ofenderia o rei como também mereceria a morte, não por ter-se casado, mas porque convecera a esposa de seu senhor a violar o matrimônio. E o mesmo aconteceria contigo, ó rei: saibas que Ifigênia tornou-se esposa do Rei eterno e está a Ele consagrada por um véu sagrado. Assim, pois, como poderias tu tomar a esposa de outrem mais poderoso e unir-se a ela pelo casamento?

Quando o rei ouviu isso, retirou-se da igreja, louco de raiva. O intrépido e firme Apóstolo exortou todos à paciência e à constância; em seguida, abençoou Ifigênia, que, trêmula de medo, prostrara-se diante dele com as outras virgens. Terminada a Missa solene, o rei enviou um carrasco, que com a espada atingiu Mateus, que se encontrava de pé, orando diante do altar com os braços estendidos para o Céu. E assim fez dele um mártir. 

Ao saber disso, o povo acudiu ao palácio do rei para o incendiar, e só com muita dificuldade os padres e diáconos puderam contê-lo. Depois, celebrou-se com alegria o martírio do Apóstolo.

Como o rei não conseguisse por nenhum meio fazer Ifigênia mudar de resolução — apesar da insistência dos magos e das mulheres que para isso lhe enviava —, mandou atear fogo em volta da casa da jovem, a fim de queimá-la junto com as outras virgens. No entanto, o Apóstolo apareceu e afastou o fogo, que acabou atingindo e consumindo o palácio inteiro do rei. Só conseguiram escapar o rei e seu filho único, o qual, porém, foi imediatamente possuído pelo demônio e correu ao sepulcro do Apóstolo, confessando os crimes de seu pai. O rei foi atacado por uma lepra terrível, que não podia ser curada, e ele se matou com a própria espada. O povo pôs no trono o irmão de Ifigênia, que fora batizado pelo Apóstolo. Ele reinou por setenta anos e foi substituído por seu filho, que ampliou enormemente o culto cristão e encheu toda a Etiópia de igrejas em honra de Cristo. Quanto a Zaroés e Arfaxat, desde o dia em que o Apóstolo ressuscitou o filho do rei, fugiram para a Pérsia, mas foram ali vencidos por Simão e Judas [3].

3. As virtudes. — Sobre o bem-aventurado Mateus se devem notar quatro coisas.

a) Primeira: a prontidão de sua obediência, pois no mesmo instante em que Cristo o chamou, ele abandonou seu ofício de publicano e, sem temer seus senhores, deixou inacabadas as listas de impostos para juntar-se a Cristo. Essa prontidão na obediência induziu alguns ao erro, como relata Jerônimo em seu comentário a essa passagem do Evangelho: 

Porfírio e o imperador Juliano acusam-no, enquanto historiador, de mentira e inabilidade, e chamam de loucura a conduta dele e de outros que se puseram sem demora a seguir o Salvador, como teriam, sem motivo algum, seguido qualquer outro homem. Ora, Jesus dera antes tantos sinais de suas virtudes, que sem dúvida os Apóstolos já O tinham visto antes de crer. Com efeito, o brilho e a majestade divinos reluziam em sua face humana e podia, à primeira vista, atrair os que O viam. Se se atribui ao ímã a força de atrair anéis e varetas, com muito mais razão o Senhor de todas as criaturas podia atrair a si aqueles que queria.

Assim falou Jerônimo.

b) Segunda: sua generosidade ou liberalidade, pois logo serviu ao Salvador um grande banquete em sua casa, banquete que foi grande não apenas porque foi lauto, mas por quatro outras razões. Primeira, pela decisão de receber a Cristo com grande amor e afeto. Segunda, pelo mistério contido naquela acolhida e assim explicado pela Glosa sobre Lucas: “Aquele que recebe a Cristo em sua casa é tomado por uma torrente de delícias e prazeres”. Terceira, pelos grandes ensinamentos que Ele deu ali, como: “Quero misericórdia, e não sacrifício”, e: “Os sãos não precisam de médico”. Quarta, pela importância dos convidados que estavam à mesa, a saber: Cristo e seus discípulos.

“A inspiração de S. Mateus”, por Caravaggio.

c) Terceira: sua humildade, que se manifestou em duas ocasiões. Primeira, quando confessou ser um publicano. Os outros evangelistas — diz a Glosa —, por um sentimento de pudor e respeito, não lhe dão nome; mas como todo justo é seu próprio promotor, ele se chama a si mesmo de Mateus e publicano, para mostrar que ninguém deve desesperar da salvação, pois ele, de publicano, foi transformado em Apóstolo e evangelista. Segunda, quando suportou com paciência as injúrias de que era alvo. Com efeito, quando os fariseus murmuravam de Cristo por ter-se alojado na casa de um pecador, Mateus poderia com razão responder: “Sois vós os miseráveis e pecadores, pois recusais o socorro do médico pensando que sois justos, enquanto eu não posso mais ser chamado de pecador, porque recorro ao Médico da salvação e lhe mostro minhas feridas”.

d) Quarta: a honra que seu evangelho recebe na Igreja, lido com mais frequência do que o dos outros evangelistas e considerado, junto com os Salmos de Davi e as Epístolas de Paulo, entre os livros da Escritura que mais são lidos na Igreja. A razão disso é que, segundo Tiago, há três gêneros de pecado: a saber: o de orgulho, o de luxúria e o de avareza. Paulo, que antes se chamava Saulo (nome derivado do soberbíssimo rei Saul), cometeu o pecado de orgulho quando perseguiu desenfreadamente a Igreja. Davi entregou-se ao pecado de luxúria, cometendo adultério e, em consequência desse primeiro pecado e crime, mandando matar a Urias, o mais fiel de seus soldados. Mateus cometeu o pecado de avareza, pois era publicano e atraído por lucros desonestos. O posto de cobranças (o τελώνῐον, de τέλος, que, segundo Beda, quer dizer “imposto”), diz Isidoro, é um lugar em um porto marítimo onde são recebidas as mercadorias do navios e pagos os ordenados dos marinheiros.

Ainda que se possa dizer que os três foram pecadores, a penitência deles foi tão agradável ao Senhor, que Ele não apenas lhes perdoou as faltas como os cumulou de múltiplos benefícios. Do mais cruel perseguidor fez o mais fiel pregador; de um adúltero e homicida fez um profeta e salmista; de um homem ávido por riquezas e avarento fez um Apóstolo e evangelista. É por isso que as palavras desses três são tão frequentemente lidas: que ninguém que deseje converter-se perca a esperança, ao ver em que transformou a graça aqueles que tão grandes foram na culpa.

4. Sua conversão. — Note-se que, segundo o beato Ambrósio, na conversão do bem-aventurado Mateus há certas particularidades a considerar a) do lado do médico, b) do lado do enfermo curado e c) do lado da maneira de curar.

“A vocação de S. Mateus”, por Caravaggio.

a) No médico houve três qualidades: a sabedoria que conheceu o mal em sua raiz, a bondade que empregou e o poder dos remédios, que puderam transformar tão subitamente. Ambrósio fala dessas três qualidades como se falasse em nome do próprio Mateus. Quanto à primeira: “Aquele que conhece o que está oculto pode tirar a dor de meu coração e a palidez de minha alma”. Quanto à segunda: “Encontrei o Médico que habita nos Céus e semeia os remédios na Terra”. Quanto à terceira: “Só aquele que não as experimentou pode curar minhas feridas”.

b) No enfermo que é curado, isto é, em Mateus, há três ponderações a serem feitas, segundo Ambrósio. Ele se livrou perfeitamente da doença, permaneceu grato àquele que o curara e, depois que recuperou a saúde, conservou-se sempre limpo. Por isso disse: “Já não sou mais aquele publicano: não sou mais Levi. Despojei-me de Levi quando me revesti de Cristo”, que é a primeira ponderação; “Odeio minha raça, fujo de minha vida, sigo apenas a ti, Senhor Jesus, que curaste minhas feridas”, que é a segunda; “Quem me separará do amor de Deus, que reside em mim? Será a tribulação, a miséria, a fome?”, que é a terceira.

c) Segundo o bem-aventurado Ambrósio, o modo de cura foi tríplice. Primeiro, Cristo o acorrentou; depois, cauterizou-o; por fim, livrou-o de todas as podridões. Daí dizer Ambrósio, como se fora o próprio Mateus: “Fui atado com os cravos da fé e os laços da caridade. Enquanto estou preso pelos vínculos do amor, tira, Jesus, a podridão de meus pecados; corta tudo o que encontrares de vicioso”. É o primeiro modo. “Teu mandamento será para mim um cautério, e se o cautério do teu mandamento queima, queima apenas a carne podre, o vírus do contágio. De modo que, se o medicamento atordoa, é para extrair a úlcera do vício”. É o segundo modo. “Vem rápido, Senhor! Corta as paixões ocultas e profundas. Abre depressa a ferida, para o mal não se agravar. Purifica tudo o que é fétido em um banho salutar”. É o terceiro modo.

O evangelho de Mateus escrito por sua mão foi achado no ano do Senhor de 500, junto com os ossos do beato Barnabé. Este Apóstolo levava consigo o evangelho e o punha sobre os enfermos, que eram todos curados tanto pela fé de Barnabé quanto pelos méritos de Mateus.

Referências

  1. Trata-se de etimologias populares. Na verdade, Matthæus (gr. Μαθθαῖος ou Ματθαῖος) é, provavelmente, a transcrição da forma hebraica Mattai, que significa “presente” ou “dádiva” de Deus (= donatus a Deo), à semelhança de Theodorus, Adeodatus (cf. “Matanias”, em 1Cr 9, 15). Alguns autores, de posição minoritária, derivam o nome do termo hebraico emeth (= fé), sob a forma Amittai (= “Fiel”, cf. Jn 1, 1, vulg. Amathi), tendo a letra Aleph se perdido por influência do aramaico.
  2. Sobre os “dragões” e outras coisas fantásticas de que falam muitas histórias da Legenda Áurea, verificar as considerações que fizemos em um texto sobre São Jorge e em outro sobre São Cristóvão.
  3. Para saber mais sobre os fatos da vida de S. Mateus após Pentecostes, leia-se a breve exposição sobre o seu evangelho na aula n. 5 do nosso curso exclusivo Evangelhos Sinóticos.

Notas

  • Este texto foi publicado a partir da tradução brasileira da Legenda Áurea (trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 778ss), mas não sem ser cotejado, antes, com o original latino e adaptado passim.

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