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“Empoderamento” ou manipulação?
Sociedade

“Empoderamento” ou manipulação?

“Empoderamento” ou manipulação?

Estamos mesmo na “era do empoderamento feminino”? Até que ponto as bandeiras feministas realmente redimem e dão poder às mulheres? Como discernir o que de fato as liberta do que não passa, ao contrário, de uma amarga ilusão?

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Esta é a era do empoderamento feminino”, disse a advogada feminista Gloria Allred, em resposta ao movimento #MeToo (“Eu também”), que ganhou o mundo em 2017 depois que a atriz Alyssa Milano fez o primeiro tuíte com a hashtag, denunciando a gravidade do assédio sexual e convidando outras mulheres a revelarem suas histórias. Em pouco tempo, milhares de respostas vieram de toda parte, engrossando o coro feminino contra a “cultura do estupro”.

O estopim foi a denúncia de que o diretor Harvey Weinstein há anos assediava atrizes, modelos e funcionárias de seu estúdio em Hollywood, incluindo nomes como Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie. Logo outras histórias vieram à tona, culminando na condenação não só de Weinstein, mas de uma série de personalidades do show business americano. No fim das contas, a celeuma serviu para, além de expor um problema gravíssimo, também questionar o status da mulher e o que se considera como seu “lugar de fala” dentro da sociedade.

Assim como o #MeToo, outras reivindicações femininas ao longo da história confrontaram a visão da mulher como o “sexo frágil”, condenando o comportamento vil de muitos homens que, movidos por uma falsa virilidade, tendem a tratá-las apenas como “objetos de prazer” e nada mais. Foi a sensação de desprezo, abuso e irrelevância que, em boa parte, levou 90% das islandesas à rua, em 24 de outubro de 1975, para participarem do “Dia de Folga das Mulheres”. De lá para cá, outras tantas bandeiras foram levantadas, sendo o #MeToo apenas mais uma delas.

Mas, como toda revolução, o perigo de jogar o bebê fora com a água do banho também é perceptível nesse contexto, e as bandeiras hoje ditas “feministas” nos levam a debater até que ponto esse suposto “empoderamento” é realmente uma redenção da mulher e se muita coisa não passa, na verdade, de uma amarga ilusão.

Uma narrativa em contradição

A pergunta é justa diante dos modelos de “mulheres poderosas” que nos são apresentados. É “poderosa” a mulher que não preza por qualquer pudor ou modéstia e dá de ombros aos padrões ditos “convencionais”. Recentemente, a apresentação de duas cantoras num evento esportivo foi celebrada pela imprensa como uma demonstração do “girl power”, por conta das suas coreografias eróticas e figurinos sensuais. Ali, no palco, elas estariam exercendo livremente a própria sensualidade, sem qualquer submissão ou tabu.

No fundo, a questão não parece ser o modo como a mulher é tratada sexualmente pelo homem, mas se ela aceita ou não ser tratada assim. Tudo depende do consentimento. O que se busca, portanto, é a emancipação da vontade feminina, de modo que a mulher possa fazer o que quiser, acima de qualquer juízo moral. E, consequentemente, o corpo dela acaba se convertendo num instrumento de protesto, numa bandeira com a qual ela afronta papéis, instituições e a sua própria sexualidade. Trocando em miúdos, a mulher deveria ser livre para, inclusive, não ser mulher.

Simone de Beauvoir, filósofa e ativista francesa do século XX.

O sucesso de visuais andróginos é muito representativo desse pensamento, porque desconstrói qualquer estereótipo de feminilidade. Como disse Simone de Beauvoir certa vez, “não se nasce mulher; fazem-na mulher” — on ne naît pas femme, on le devient. Desse modo, considera-se que, no ser da mulher, não há uma natureza, mas apenas uma construção social, um ideal feminino, que agora deve ser desfeito para dar vez à vontade de todo aquele ou aquela que se identifica como mulher, tendo ou não uma genitália feminina...

Nem todas as mulheres, porém, comungam desse ideal feminino, sobretudo no que diz respeito a temas como vida, sexualidade e família. E aqui a narrativa do “empoderamento” parece entrar em contradição. Quando uma mulher se recusa, por exemplo, a aceitar a ideologia de gênero, ela não só é criticada, chamada de “fascista”, “machista” e “transfóbica”, como também acaba sendo excluída do seu (chamado) “lugar de fala”. Não lhe é dado o direito de divergir, restando-lhe apenas o desprezo e a zombaria, ao passo que à mulher-trans, seja lá o que esse termo signifique, são reservadas todas as deferências. Isso é particularmente sensível na área dos esportes, uma vez que o Comitê Olímpico Internacional não exige sequer a cirurgia de mudança física para que um homem possa jogar contra mulheres numa competição. Basta ao atleta declarar que “sua identidade de gênero é feminina”, e pronto, ele já pode sair distribuindo porradas em ringues femininos.

Testemunho revelador

Acontece que nada vem do nada, sobretudo ideias. O “empoderamento” feminino, nos moldes descritos anteriormente, não surgiu da cabeça de uma mulher que, de repente, tomou consciência de si e de suas colegas. Na verdade, foi da cabeça de um homem, Kingsley Davis, que, por meio de sua aluna, Adrienne Germain, convenceu as fundações Rockefeller, Ford, MacArthur etc. a investirem em engenharia social, a fim de mudarem o comportamento e a mentalidade das mulheres, especialmente sobre maternidade e família. Obviamente, não é possível reduzir a complexidade do tema à intervenção de uma ou duas pessoas, mas o financiamento de ONGs feministas por fundações internacionais é coisa amplamente documentada e admitida publicamente pelas próprias feministas.

Frances Kissling, fundadora do grupo Catholics for Choice.

O testemunho de Frances Kissling, fundadora das Catholics for Choice [no Brasil, CDD: “Católicas pelo Direito de Decidir”], é revelador nesse sentido. Numa entrevista a Rebecca Sharpless, em 2002, ela contou como “o fato de ter recebido uma doação da Fundação Ford” representava, para sua organização recém-criada, “um ponto de virada”, porque aquilo “significava que tínhamos sido finalmente admitidas naquele [outro] mundo”, ou seja, na militância abortista. Dentre as fundações listadas por Kissling estavam, além da Ford, outras como a Sunnen e a Playboy, todas interessadas na propaganda dos “direitos reprodutivos” como meio para o controle populacional. Em 2007, o jornal The New York Times divulgou que o orçamento anual das CDD chegava a três milhões de dólares, por meio do financiamento dessas fundações, especialmente da Ford.

O papel das ONGs é importantíssimo para a propaganda cultural, dada a representatividade delas na imprensa e na política. Na audiência pública sobre a legalização do aborto no Brasil, em 2018, essas entidades se apresentaram ao STF como legítimas porta-vozes das mulheres, ainda que a maioria dos brasileiros seja contrária a qualquer mudança na legislação sobre o tema.

No caso das “Católicas pelo Direito de Decidir”, elas têm a missão específica de minar a imagem da Igreja perante a opinião pública, impingindo-lhe a pecha de “machista”, “misógina”, e “intolerante”, porque, como explicou Frances Kissling na mesma entrevista, “a moral católica é a mais desenvolvida”, de modo que, concluiu ela, “se você puder derrubá-la, derrubará por conseqüência todas as outras”. Daí todo o investimento das fundações, a fim de criar um espantalho da Igreja e seduzir as mulheres para sua suposta agenda de “empoderamento”.

A Igreja oprimia as mulheres?

É frequente a acusação de que a Igreja Católica oprime as mulheres por não as admitir ao sacerdócio ou por conta da sua moral sexual [1]. Mas, no fundo, o que se pretende com tal ataque é, segundo Judith Butler, “a luta por aceitar o desejo como princípio de deslocamento metafísico e dissonância psíquica e o esforço orientado por deslocar o desejo com o fim de derrotar a metafísica da identidade” [2]. Traduzindo: trata-se de desmoralizar a única instituição no mundo que, no contexto atual, ousa proclamar que existe uma natureza humana — donde derivam os direitos e deveres da pessoa —, natureza que homens e mulheres devem respeitar e não podem manipular como lhes apetece [3].

Judith Butler, filósofa pós-estruturalista norte-americana.

A verdade é que, longe de oprimir as mulheres, a consciência da Igreja sobre a natureza humana foi justamente o que as libertou, numa época em que o direito romano e a cultura pagã as consideravam inferiores aos homens. Estes tinham direito de propriedade sobre esposas e filhos, podendo dispor de suas vidas como bem quisessem. O cristianismo, por sua vez, com sua noção de natureza humana, elevou o status da mulher à mesma dignidade do homem, considerando-a também “imagem e semelhança de Deus”, conforme ensinou São Paulo: “Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus” (Gl 3, 28). Essa novidade do cristianismo foi decisiva para o fenômeno das conversões entre as mulheres na Igreja primitiva.

O sociólogo Rodney Stark afirma taxativamente que “a mulher cristã desfrutava de segurança e igualdade conjugal bem maiores do que as de suas congêneres pagãs” [4]. E a razão disso, conforme avalia Stark, é que, com o advento da moral cristã, o feminicídio foi proibido e a castidade passou a valer também aos homens. Ademais, as viúvas cristãs tinham o privilégio de não precisar casar de novo, o que lhes permitia desfrutar livremente da herança de seus maridos. E se, por um lado, as moças romanas eram obrigadas a casar antes mesmo da puberdade, tendo o casamento consumado logo após a cerimônia, as mulheres cristãs, por outro, não só podiam se casar mais velhas como tinham o direito de escolher seus maridos.

A virgindade, nesse contexto, era tanto uma virtude como um grito de independência da mulher. As donzelas cristãs tiveram apoio da Igreja para escapar de casamentos forçados, impostos pelos pais, tendo muitas delas optado pelo martírio, como foi o caso de Santa Bárbara. E “negar a autoridade do pai de família, o único cidadão total, proprietário, chefe militar e sacerdote, no seu lar e na sua cidade era abalar o fundamento de toda uma sociedade”, explica a historiadora Régine Pernoud [5]. Por isso, o culto das santas mulheres foi algo bem notável no início do cristianismo, como consequência do “papel ativo que as mulheres tiveram no domínio da evangelização, numa época em que o Ocidente hesita entre paganismo, arianismo e fé cristã” [6].

Idade Média, apogeu da redenção feminina

Régine Pernoud, historiadora medievalista do século XX.

Mas se enganaria quem pensasse que essa redenção feminina, por assim dizer, foi algo particular da Igreja nascente. Na verdade, como Régine Pernoud afirma, “o apogeu corresponderia à idade feudal: do século X ao fim do século XIII”, período em que, segundo ela, “as mulheres exercem então, incontestavelmente, uma influência que não obtiveram nem as bonitas mulheres da Fronda do século XVII, nem as severas anarquistas do século XIX” [7]. De fato, Pernoud apresenta um conjunto de referências bem convincentes em seu livro A mulher no tempo das catedrais, leitura indispensável para quem acredita que a Igreja jamais concedeu “lugar de fala” às mulheres e lhes deve alguma desculpa por isso.

Exemplo contundente é o da santa religiosa Hildegarda de Bingen. Ela exerceu tal influência sobre o seu mundo que recebeu do próprio Papa Eugênio III a autorização para sair do claustro e pregar publicamente a vida mística e a doutrina cristã. Mosteiros masculinos e femininos acorriam a ela para pedir conselhos espirituais ou de outra natureza, dada a familiaridade da santa em assuntos de medicina, ciências naturais e inclusive música. O Papa Bento XVI, que a colocou no seleto rol dos Doutores da Igreja, disse que, em seus escritos, Hildegarda “manifesta a versatilidade de interesses e a vivacidade cultural dos mosteiros femininos da Idade Média, contrariamente aos preconceitos que ainda pesam sobre aquela época” [8].

Podemos aludir ainda a uma Santa Catarina de Sena — analfabeta, pobre, humilde, mas de grande sabedoria, a quem o Papa Gregório XI confiou missões diplomáticas num tempo de severa crise social e eclesiástica — ou à querela entre Henrique VIII e a Santa Sé  — quando esta se colocou ao lado de Catarina de Aragão, não do infeliz monarca —, como provas inconcussas de que a fé católica jamais teve qualquer inclinação misógina. O declínio social da mulher só aconteceu na modernidade, quando esta mesma Igreja foi posta de escanteio para dar lugar à revolução protestante, com a abolição do culto à Virgem Maria, e ao paganismo renascentista, com o culto ao corpo:

Tão-logo foi suprimida a autoridade da Igreja, a postura do marido em relação à mulher tendeu a retornar ao ideal pagão do mestre e do dono em lugar de um afetuoso amigo, companheiro e protetor. Evidências claras da triste deterioração do prestígio da mulher podem ser vistas na literatura inglesa dos séculos XVII e XVIII, quando os efeitos destrutivos do protestantismo na vida social já podiam ser percebidos plenamente. A estima e o respeito cortês pelas mulheres [...], reflexo da inigualável glória da Rainha do Céu, desapareceu da literatura inglesa [...]. A mulher voltou a ser valorizada apenas por seu sexo; e aquela que não exercia atração sexual (ou deixara de fazê-lo) muitas vezes era alvo de piadas grosseiras demasiado repulsivas à mentalidade verdadeiramente cristã [9].

O silêncio quase absoluto sobre esses fatos é simplesmente ideológico, porque nenhuma dessas mulheres católicas serve à causa dos “direitos reprodutivos”, por mais “empoderadas” que tenham sido. Para combater a “masculinidade tóxica”, elas não reivindicaram uma “feminilidade tóxica”, não condenaram o matrimônio, não queimaram sutiãs, não se despiram em cima dum palco, nem defenderam a legalização do aborto ou qualquer coisa do gênero. Pelo contrário, elas empunharam as armas da oração e da virtude, com as quais domesticaram os bárbaros, convertendo-os a Nosso Senhor. Não custa lembrar que, nas sagradas páginas do Evangelho, é a voz de Maria Santíssima que escutamos repetidas vezes, nunca a de São José. Mas nem a Mãe de Deus nem as demais santas mulheres têm “lugar de fala” dentro do feminismo.

Fundações empoderadas, não mulheres

Entretanto, as mulheres já começam a colher os frutos desse empoderamento artificial. Os homens podem continuar a tratá-las impudicamente, desde que elas consintam. E assim temos as “poderosas” canções de funk, sertanejo, pop etc., com letras do tipo que não ousamos citar aqui, ou os filmes feministas, que não temem explorar o fetiche masculino por lésbicas para conquistar uma boa bilheteria. Com tamanho estímulo, só poderia dar nisto: “Casos de feminicídio crescem 22% em 12 estados durante a pandemia” [10].

“Santa Catarina de Sena”, de Giovanni Battista Tiepolo.

É hora de as mulheres entenderem que a luta por “direitos reprodutivos” não é nada libertadora. Na mesma entrevista a Rebecca Sharpless, Frances Kissling dizia que sempre se perguntou o porquê de as fundações investirem tanto nos “direitos reprodutivos” e se elas continuariam a luta por esses direitos se ficasse provado que tal investimento não resulta num menor número de bebês. “Eu perguntei isto para um mundo de pessoas, e a maioria não quis responder a estas perguntas quando eu as fiz”. Kissling mesmo concluiu que seu trabalho servia apenas para empoderar as fundações, não as mulheres.

Desde o seu “lugar de fala”, Santa Catarina de Sena notava sabiamente que o mal da sociedade de seu tempo não era a Igreja ou a família, mas justamente a ausência de virtudes nos membros dessas instituições, que as rebaixavam e humilhavam com seus vícios e prevaricações. Uma coisa é a Igreja (ou a família) em si mesma, outra é quem dela abusa em benefício próprio. Por isso, não faltou à santa a bravura para dizer ao Papa, a quem considerava o “doce Cristo na terra”, estas palavras de encorajamento: “Seja homem”. Foi assim que Catarina, sempre piedosa, sempre contemplativa, pôs o clero e os demais homens de seu tempo no caminho da reta razão, levando o Papa Urbano VI a declarar: “Vede, meus irmãos, como nos tornamos desprezíveis aos olhos de Deus, deixando-nos tomar pelo medo. Esta pobre mulher nos envergonha” [11].

Para um texto que já vai longe demais, ainda teríamos exemplos mais recentes, como o de Madre Angélica, fundadora da TV católica EWTN, cujos protestos sobre a polêmica tradução inglesa do Catecismo foram acolhidos pelo então Cardeal Ratzinger, em oposição a muitos bispos; ou o de Madre Pasqualina Lehnert, que exerceu grande influência no Vaticano de Pio XII. A lista, no entanto, já é suficiente para desfazer qualquer desconfiança sobre as damas católicas. Diz um ditado antigo que, por detrás de todo grande homem, há sempre uma grande mulher. Oxalá não faltem mulheres com essa envergadura nos dias de hoje.

Referências

  1. Sobre a ordenação de mulheres, o Cardeal Ratzinger recorda em sua entrevista ao jornalista Peter Seewald, no livro O Sal da Terra, uma afirmação bastante simbólica da exegeta feminista Elizabeth Schussler: “A experiência feita com mulheres ordenadas na Igreja Anglicana levou-a a reconhecer: ordination is not a solution (‘a ordenação não é uma solução’), não é o que queríamos. E também explica por quê. Diz: ordination is subordination, portanto, a ordenação é subordinação — significa inserir-se numa ordem estabelecida e subordinar-se, e é exatamente o que não queremos” (Rio de Janeiro: Imago, 2005, p. 167).
  2. Judith Butler. Subjects of desire. Columbia University Press, 2012, p. 15.
  3. Cf. Papa Bento XVI, Discurso ao Parlamento Alemão, 22 set. 2011: “Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana.”
  4. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 120.
  5. Régine Pernoud. A mulher no tempo das catedrais. Lisboa: Gradiva, 1984, p. 22.
  6. Ibidem, p. 17.
  7. Ibidem, p. 8.
  8. Papa Bento XVI, Audiência Geral, 8 set. 2010.
  9. Rev. E. Cahill, S.J., The Framework of a Christian State, Roman Catholic Books, reimpressão de 1932, p. 432.
  10. O feminicídio é um crime injustificável e nenhum homem deveria se sentir estimulado a praticá-lo. Mas, numa cultura viciada, que está o tempo todo reforçando a imagem da mulher como objeto, seja por representações artísticas, seja por discursos midiáticos, homens machistas acabam tendo seus vícios ainda mais alimentados, o que muitas vezes acaba no extremo de um homicídio. A catequese cristã, por outro lado, insiste que os homens devem amar suas mulheres “como Cristo amou a Igreja”, ou seja, sacrificando-se por elas.
  11. Santa Catarina de Sena. O Diálogo. São Paulo: Paulus, 1984, p. 10.

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Uma reflexão sobre São João Maria Vianney
Santos & Mártires

Uma reflexão sobre
São João Maria Vianney

Uma reflexão sobre São João Maria Vianney

Embora os santos sejam a resposta para as crises do mundo, eles não ambicionam sê-lo — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles querem é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises.

Michael PakalukTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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No dia 4 de agosto de 1859 morria, em sua vila na França, João Batista Vianney, aos 73 anos de idade. A isso se seguiria uma das mais rápidas beatificações e canonizações da modernidade (antes das reformas desses processos, realizadas pelo Papa João Paulo II): Pio X beatificou o Cura d’Ars em 1905, e Pio XI o canonizou em 3 de maio de 1925. 

Há uma famosa citação de São Josemaria Escrivá, de que as crises no mundo são crises de santos (cf. Caminho, 301). Podemos concordar entusiasticamente com a afirmação sem entender precisamente o que ela significa. Seu sentido parece variar tanto quanto podem variar o indivíduo, a crise e a própria santidade. Pensemos em exemplos pertinentes: São Juan Diego, São Thomas More, São John Henry Newman, Santa Teresa de Calcutá e São João Paulo II. Hoje, porém, vamos refletir sobre São João Maria Vianney.

Olhando para trás, Vianney parece ser um dos muitos grandes sacerdotes e religiosos educados logo após a Revolução Francesa e o Período do Terror. Ele testemunhou a execução de sacerdotes e o fechamento de igrejas sob ordens das autoridades civis. Para ele, no entanto, a necessidade de sacerdotes tornou-se mais palpável, não menos. E ele não estava só: entre os que foram ordenados ao diaconato com ele em Lyon estavam Marcelino Champagnat (canonizado por João Paulo II em 1999) e Jean-Claude Colin — fundador dos Maristas.

Embora os santos sejam a resposta para as crises, eles não ambicionam ser “respostas para crises” — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles desejam é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises. O biógrafo de São João Vianney, Joseph Vianney, interpreta sob esse prisma os famosos esforços dele com o latim e a filosofia.

De uma perspectiva humana, diz Joseph, alguém poderia ter pensado que a crise na França teria sido enfrentada com mais eficácia por uma apologética brilhante na Sorbonne, ou por uma oratória atraente na catedral de Notre-Dame. Mas a Igreja precisava ainda mais de pastores do campo “para demonstrar com a santidade de suas vidas a verdade do Evangelho, no qual as pessoas já não acreditavam mais. A criança de Dardilly fora escolhida dentre todas as outras para ser o modelo daqueles sacerdotes santos, que são indispensáveis para a execução do plano divino”.

Posteriormente, um clérigo levou ao confessionário em Ars um complexo caso de consciência para pedir aconselhamento ao Cura. Ele viu, então, um problema, que havia deixado perplexos os maiores especialistas em teologia moral, ser resolvido de pronto pelo simples pastor, com elegância e persuasão. Questionado por seu irmão no sacerdócio sobre onde havia adquirido um conhecimento teológico tão perspicaz, o santo respondeu apontando para seu genuflexório.

O Cura estava profundamente convencido de suas indignidades, não recebia consolações por causa de sua virtude e orava com fervor para jamais ser alvo de atenção. Por exemplo, através de suas orações, milhares de peregrinos que se dirigiam a Ars eram curados de doenças físicas. Mas, aparentemente, em resposta às orações dele, as pessoas raramente eram curadas no local. Em vez disso, ele lhes dizia para retornarem a casa e fazerem a novena de Santa Filomena — e, no nono dia, elas ficavam curadas, sem alarde e estando bem longe de Ars.

É bastante conhecido o fato de que ele passava de 16 a 17 horas por dia no confessionário. Esse número já é, por si mesmo, impressionante o suficiente. Mas é preciso lembrar, também, de que não havia sistema de aquecimento em sua igreja. Ele costumava gracejar que, no fim do dia, durante o inverno, ele primeiro via os seus pés para só depois os sentir. Dizia ele que costumava apalpar os pés para ter certeza de que ainda estavam lá.

No calor intenso do verão, os peregrinos que esperavam na fila podiam sair da igreja por um momento a fim de tomar um pouco de ar fresco e não desmaiar. Ele, porém, ficava o tempo inteiro atrás de uma cortina, numa caixa, sentindo o hálito dos penitentes e muitas vezes o seu odor, já que a maioria deles era pobre.

E então ele se punha a escutar pecados por 16 ou 17 horas. Era essa a grande causa de seu sofrimento. “Sou tomado pela melancolia nesta terra miserável”, disse ele certa vez a um companheiro no sacerdócio, “minha alma se entristece até à morte. Meus ouvidos não escutam senão coisas dolorosas que me tomam o coração de tristeza”. Seu biógrafo compara a situação a São Pedro sendo obrigado a testemunhar a Paixão 17 horas por dia.

Ele dormia em tábuas por apenas algumas horas na noite e tinha de suportar uma dor crônica. Somente a graça e o amor podem explicar a energia que ele tinha ao longo do dia. Não era possível que uma pessoa sobrevivesse por meios naturais ingerindo uma quantidade tão pequena de comida. Numa etapa posterior de sua vida, por obediência ele passou a comer um pouco de pão e tomar um pouco de leite após a Missa. Seu biógrafo narra este incidente emblemático: “Irmão Jerônimo, que muitas vezes estava presente nessa ligeira refeição, logo percebeu que ele sempre comia primeiro o pão e depois tomava o leite. ‘Mas, senhor cura’, observou um dia quando notou a dificuldade com que o pão era engolido, ‘seria muito melhor se molhasse o pão no leite’. ‘Sim, eu sei’, foi a sua resposta gentil.” 

E era muito mais difícil para um pároco do que para um religioso, ele dizia: “Um sacerdote precisa de reflexão, oração e união íntima com Deus. O cura, no entanto, vive no mundo; ele conversa, envolve-se com política, lê os jornais, fica com a cabeça cheia deles; depois, lê o breviário e celebra a Missa, e infelizmente faz isso como se fosse uma coisa comum!”

De fato… infelizmente! As palavras dele se aplicam a leigos e a sacerdotes seculares. E “estas crises mundiais são crises de santos”.

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Orações para discernir a própria vocação
Oração

Orações para discernir a própria vocação

Orações para discernir a própria vocação

Aos que ainda estão escolhendo o próprio estado de vida, oferecemos abaixo algumas orações a fim de pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e constância para percorrê-lo até o fim.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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“Na empresa da própria santificação”, escreve o Pe. Antonio Royo Marín, “cada um há de pôr a suprema esperança de sua vida, o máximo interesse, empregando todas as forças recebidas de Deus segundo a medida do dom de Cristo. Só a este preço alcançará o cristão sua plena perfeição sobrenatural, que se traduzirá depois em um peso incomensurável de glória para toda a eternidade” (2Cor 4, 17) [1].

Mas esse belo empreendimento, o único que realmente vale a pena, não se leva a cabo de forma genérica, impalpável, no limbo dos “bons desejos”, mas nas circunstâncias concretas em que o Senhor põe a cada um de nós. Por isso, poucas coisas são tão necessárias ao fiel do que escolher o gênero de vida em que há de realizar, com matizes próprios, a única santidade cristã, a mesma que cultivam, substancialmente, os sacerdotes, no estado eclesiástico; os religiosos, na vida consagrada; os esposos e pais, nas ocupações da família; e os leigos celibatários, como fermentos de pureza na massa da sociedade.

Ora, como nenhuma decisão séria que tenha ressonâncias de eternidade deve ser feita com leviandade e sem reflexão, a escolha do próprio estado de vida, convém prepará-la com muita oração, imitando nisso o exemplo de Cristo, que dirigia ao Pai frequentes orações antes dos principais momentos de sua missão na terra. Com a intenção de ajudar os leitores que ainda estão discernindo a própria vocação, oferecemos abaixo algumas orações para pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e a constância para percorrê-lo até o fim.


Orações para discernir e escolher o estado de vida
(Coeleste palmetum, XXXII, pp. 365–366)

1. Oração a Deus Pai para pedir a divina sabedoria e o Espírito Santo (cf. Sb 9). — Deus eterno e todo-poderoso, que todas as coisas criastes pela Vossa palavra e que, por Vossa sabedoria, formastes o homem: fazei-a descer do Vosso santo céu e enviai-a do trono de Vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que Vos agrada. Que homem pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a sabedoria, e se do mais alto dos céus não lhe enviais o Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra.

Hino Vinde, Espírito Santo. — Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra. — Oremos: Ó Deus, que instruíste os corações dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos amar, no mesmo Espírito, o que é reto e gozar sempre a sua consolação. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.

2. Oração a Jesus, para oferecer-se com indiferença a todos os estados. — Eis-me aqui, ó meu Jesus, de pé diante de Vós, indiferente a todos os estados; seguirei sem demora aquele a que Vós me chamardes. Quereis que deixe minha terra, família e casa paterna? Meu coração está firme! Nem a pátria nem os parentes, nem riquezas nem cobiças me hão de reter. Quereis que, tendo a tudo abdicado, Vos sirva na pobreza, na castidade e na obediência religiosa? Meu coração está firme! Quereis que viva em estado eclesiástico? Meu coração está firme! Só Vos peço não me permitais ali chegar por vias ilícitas nem ali viver indignamente. Chamai-me antes deste mundo a Vós por uma morte súbita! Quereis que viva célibe no mundo ou contraia santo matrimônio? Dai-me conhecer Vosso beneplácito: meu coração está firme! Às alegrias e tristezas, às doçuras e asperezas me ofereço. Estou pronto a ir convosco tanto para a prisão como para a morte (cf. Lc 22, 33).

3. Oração à Bem-aventurada Virgem. — A vós, ó Estrela do Mar, entre as vagas instáveis desta vida, elevo meu olhar! Dirigi, ó Mãe da Eterna Luz, o meu coração ao Polo, vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e guiai-me àquele estado de vida em que eu dignamente sirva a este mesmo Filho vosso e chegue, enfim, ao tão ansiado porto da pátria celeste. Amém.

4. Oração ao Anjo da guarda. — Ó meu Anjo, a cuja tutela fui confiado por Deus; ó guia e companheiro de minha peregrinação, assisti-me neste tão grave negócio de minha salvação! Mostrai-me que caminho devo escolher para alcançar o fim para o qual fui criado, isto é, a eterna bem-aventurança, a fim de merecer contemplar e louvar convosco o meu Deus para sempre. Amém.

5. Oração para perseverar no bom propósito. — Ó benigníssimo Deus, mostrastes-me o caminho que hei de trilhar; manifestastes-me Vossos juízos e leis, dando-me saber que desejais ser servido neste estado… Concedei-me, pois, a Vossa graça, para perseverar constante neste meu propósito e alcançar a eterna salvação. Amém.

Referências

  1. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967, p. 28.

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Cristãos “esquisitos”?
Sociedade

Cristãos “esquisitos”?

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Incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais estão de volta… E a iniciativa é justamente dos jovens! Mas de onde vem o interesse das novas gerações pela religião? E por que elas se sentem tão atraídas pelas formas tradicionais de culto?

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos autores de esquerda têm dificuldade em explicar a atração dos jovens pela religião, particularmente em suas formas mais tradicionais. Em tese, essa atração não deveria existir. Ela dá curto-circuito na lógica das narrativas prediletas da esquerda. Jovens deveriam sentir-se atraídos por narrativas revolucionárias que pregam o progresso e a igualdade. A história, dizem os esquerdistas, é uma sucessão de disputas de poder que dividem as pessoas entre exploradores e explorados. Jovens religiosos não se encaixam na narrativa porque buscam um Deus que é amor e perdão.

Quando esse autores não conseguem identificar a luta de classes nessa atração religiosa, resolvem elaborar uma ladainha de acusações, tachando os jovens crentes de “racistas”, “misóginos”, “homofóbicos” e até “elitistas”.

Recentemente, a jornalista Tara Isabella Burton causou alvoroço com um ensaio publicado em The New York Times, intitulado Christianity Gets Weird [“O cristianismo torna-se esquisito”]. Ela se identifica como uma jovem cristã tradicional, atraída pelas formas externas mais antigas. Ama incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais. No entanto, como moça pós-moderna alheia às principais narrativas ocidentais, ela acha difícil explicar sua atração pelo esplendor medieval e pela “pompa histórica” do culto em latim.

Os liberais que acompanham a tendência sentem uma perplexidade semelhante. Eles tentam minimizar essa atração rotulando-a como uma “moda” da juventude. Dizem que a culpa disso é o apego superficial e fetichista a uma “estética sobrenatural”, que os deixa exasperados, e rotulam de “esquisito” aquilo que não conseguem entender. Isabella e muitos outros que se unem a ela online adotaram o rótulo com certa ironia.

Portanto, cristãos “esquisitos” estão aparecendo na cena cultural, muitas vezes em espaços na internet onde podem se reunir e compartilhar suas opiniões.

A jornalista afirma que “cada vez mais jovens cristãos, desiludidos com binarismos políticos, incertezas econômicas e com o vazio espiritual que define a América moderna, encontram alívio numa visão da fé claramente antimoderna”. 

Os membros das gerações Y e Z percebem o vazio do deserto cultural pós-moderno. Também rejeitam o vazio das principais igrejas protestantes, que atenuaram as verdades sobrenaturais e exaltaram trivialidades. Esses peregrinos online detestam os aspectos estéreis, feios e cruéis da vida moderna.

Eles anseiam por algo verdadeiro e profundo. Sua propensão a “voltar” à Idade Média e à fé tradicional é o pior pesadelo de um esquerdista. Este fica perturbado não apenas por causa da atração que esses jovens sentem por um cristianismo vigoroso, mas também por sua rejeição dos fundamentos antimetafísicos da ordem de esquerda, que foram intensificados pela desagregação política e econômica dessa ordem, provocada pelo coronavírus.

O problema dessa corrente contracultural é a sua dificuldade em se definir e se expressar. Seus seguidores jamais conheceram o mundo tradicional, e agora o admiram. São vítimas de uma cultura pós-moderna caótica, destituída de estrutura e estabilidade. Isabella afirma que uma rebeldia “punk” caracteriza o movimento, que parece ser contrário a tudo o que faz parte do establishment, inclusive a economia moderna.  

Esses jovens são movidos pela “ânsia de algo que está além do que a cultura americana contemporânea lhes pode oferecer, algo transcendente, politicamente significativo e pessoalmente desafiador”.

Eles não sabem exatamente o que estão a buscar, mas detectam algo que os fascina e se apegam a isso com paixão. Críticos superficiais rejeitam esse apego, pois acham que a adesão a aspectos externos pode levar a vários perigos.

Mas esses críticos estão errados.

Existe um nome para o que esses jovens cristãos buscam e encontram nas formas tradicionais de culto, como nas Missas em latim, no incenso e nas Vésperas solenes. Eles encontram uma beleza autêntica que toca e eleva sua alma, fazendo-os distanciar-se da feiura da modernidade. O pensamento filosófico ocidental chama essa beleza de sublime.

É com acerto que Edmund Burke considera o sublime a “emoção mais forte que a mente é capaz de sentir”. Ele consiste em coisas transcendentes que provocam fascínio por causa de sua magnificência. É algo que nos convida a superar o egoísmo e a autossatisfação e a olhar para coisas mais elevadas — o bem comum, a santidade e, em última análise, Deus —, coisas que dão sentido e propósito à vida.  

Quer se manifeste em obras de arte, em grandes feitos ou na liturgia religiosa, o sublime fomenta sentimentos de lealdade, dedicação e devoção que podem preencher o vazio do deserto pós-moderno. 

A Igreja se cerca de coisas sublimes, coisas que sem dúvida atraem e convertem as pessoas para o culto e o serviço a Deus (coisas que, infelizmente, foram abandonadas pelos progressistas). Elas são manifestações externas que revelam algo da própria grandiosidade de Deus. A natureza humana se sente naturalmente atraída por elas e por princípios e doutrinas que fascinam o intelecto, em razão de sua lógica e sabedoria.

Os jovens cristãos estão certos ao presumir que as coisas que provocam fascínio são parte de um modo de vida distinto daquele que encontram hoje no mundo. Também estão corretos em sua percepção do colapso irreversível da ordem esquerdista, que nada lhes oferece de sublime. Não há nada de “esquisito” em sua descoberta de uma ordem social cristã que trilha o caminho oposto das alternativas individualistas e estéreis, que são, elas sim, a verdadeira esquisitice na história humana.

Os esquerdistas pós-modernos não se sentem ameaçados quando o cristianismo tradicional aceita ser apenas mais um de tantos elementos no bufê cultural. Porém, quando as pessoas rejeitam a infraestrutura filosófica que sustenta o esquerdismo, eles perdem toda a tranquilidade. 

O problema, para esse sedentos jovens cristãos, não está no objeto de seu fascínio, mas em como dar os próximos passos que levariam, normalmente, a um aprofundamento de sua fé. É preciso ir além da “esquisitice” e abraçar com sinceridade o sublime, em toda a sua plenitude e autenticidade.

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Jejuar ainda? Por quê?
Espiritualidade

Jejuar ainda? Por quê?

Jejuar ainda? Por quê?

O jejum é um dos costumes religiosos mais antigos da história. Sua prática, no entanto, tem sido bastante desprezada por nossa sociedade consumista e sem autocontrole. Por que, então, mesmo assim, a Igreja continua a recomendá-la?

Pe. Blake BrittonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Julho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O jejum é uma das práticas religiosas mais antigas da história. Hoje, porém, numa sociedade dominada pelo consumismo, pelo materialismo e por uma falta de autocontrole generalizada, a disciplina do jejum é bastante desprezada. A Igreja Católica ainda é uma das poucas instituições no mundo que defende a dignidade dessa prática e a sua importância para a vida espiritual. Portanto, devemos nos perguntar: por que a Igreja é tão “inflexível” a respeito desse antigo costume e quais as origens dele?

S. Basílio Magno, em suas homilias para a Quaresma, observa que o jejum é tão antigo quanto a humanidade. Na verdade, foi a primeira ordem que os seres humanos receberam de Deus: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2, 17). De acordo com S. Basílio, foi a incapacidade de jejuar que levou à Queda no Éden. O jejum como tal é um dos remédios para recuperar a dignidade original de nossa identidade como filhos de Deus: “Fomos banidos do Paraíso porque não jejuamos. Portanto, jejuemos para retornar a ele” (Hom. 1 sobre o jejum).

S. Basílio reconhece um duplo propósito nessa ordem primordial de jejuar. Primeiro, o jejum ajuda a alma a amadurecer. Qualquer psicólogo reconhecerá que a falta de disciplina e autocontrole são sinais claros de imaturidade. A incapacidade de ser paciente, tomar decisões sensatas e desfrutar com responsabilidade de comida, bebida ou relacionamentos representa uma grave lacuna no desenvolvimento humano. É por isso que a prática regular da autodisciplina por meio do jejum é tão crucial para a vida espiritual. Não se trata apenas de renunciar a algo porque a Igreja assim o determina. Quanto mais praticamos a abstinência, mais maduros nos tornamos, saindo da imaturidade da satisfação imediata para a maturidade do consumo regrado. Pois o jejum é o “companheiro da sobriedade e o artesão do autocontrole” (Ibid.).  

Portanto, o jejum nos ajuda a fomentar uma virtude específica — a saber, o autocontrole, uma qualidade não muito comentada em nossa época. São Paulo o identifica como um dos frutos do Espírito Santo: “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 22–23). O termo grego usado por Paulo é enkrateia (ἐγκράτεια), que é composto de duas outras palavras: en (de dentro) e kratos (de uma raiz que significa “aperfeiçoar”). Portanto, ter autocontrole significa literalmente “aperfeiçoar-se desde dentro”. Essa definição nos ajuda a entender melhor a segunda afirmação de S. Basílio a respeito das consequências do jejum.

Para S. Basílio, o jejum feito de forma correta ordena os apetites do nosso corpo para o bem da alma: “Quanto mais negar a carne, mais radiante de saúde espiritual se tornará a alma” (Hom. 2 sobre o jejum). Aqui vemos a influência dos Padres do Deserto na espiritualidade de S. Basílio. Esses cristãos da Antiguidade eram inflexíveis quanto à reconquista da dignidade perdida por Adão no Éden. Reconheciam que o erro de Adão estava relacionado à falta de disciplina. Ele cedeu aos seus desejos mais básicos, perdeu de vista a elevada vocação da humanidade como imago Dei (a “imagem e semelhança de Deus”). Assim, monges como Abbá João (525 d.C.) fizeram o seguinte alerta: “Deveríamos sempre evitar o apego [às coisas terrenas], pois isso é prejudicial à alma”. 

Jesus mesmo ensina que “não só de pão vive o homem” (Mt 4, 4). Os seres humanos não são meros animais. Temos apetites que vão além do carnal. Nossa vontade não está orientada pelo instinto. Deve haver uma razão mais profunda para as nossas ações. Quando meu estômago ronca por causa do jejum, tenho nisso um lembrete da fome espiritual que a minha alma experimenta em todos os momentos da minha existência. Essa também é a lógica do jejum antes da recepção da Sagrada Eucaristia. Por meio do jejum eucarístico, meu corpo fica temporariamente “fundido” à fome da minha alma por Cristo no Santíssimo Sacramento.

A alma anseia constantemente pela misericórdia e bondade de Deus. Estamos alimentando esse desejo ou deixamos a nossa alma faminta? Estamos alimentando o nosso espírito com os alimentos nutritivos da Eucaristia, da Confissão, da Sagrada Escritura e da oração contemplativa? 

Sabemos que o jejum foi parte integrante da vida de Jesus, tanto que passou quarenta dias no deserto abstendo-se de alimento terreno. O Senhor não faz nada por acaso ou sem planejar. Todos os acontecimentos de sua vida nos ensinam algo profundo sobre a nossa própria existência como pessoas e a nossa vocação como cristãos. Encontramos no jejum de Cristo uma forma de participar da vida divina de Deus. Ao crescermos no autocontrole a partir dos nossos impulsos imaturos e ao alimentarmos a nossa alma de forma adequada por meio do jejum, sem dúvida cresceremos na intimidade com o Senhor, que nos ama.

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