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“Empoderamento” ou manipulação?
Sociedade

“Empoderamento” ou manipulação?

“Empoderamento” ou manipulação?

Estamos mesmo na “era do empoderamento feminino”? Até que ponto as bandeiras feministas realmente redimem e dão poder às mulheres? Como discernir o que de fato as liberta do que não passa, ao contrário, de uma amarga ilusão?

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Esta é a era do empoderamento feminino”, disse a advogada feminista Gloria Allred, em resposta ao movimento #MeToo (“Eu também”), que ganhou o mundo em 2017 depois que a atriz Alyssa Milano fez o primeiro tuíte com a hashtag, denunciando a gravidade do assédio sexual e convidando outras mulheres a revelarem suas histórias. Em pouco tempo, milhares de respostas vieram de toda parte, engrossando o coro feminino contra a “cultura do estupro”.

O estopim foi a denúncia de que o diretor Harvey Weinstein há anos assediava atrizes, modelos e funcionárias de seu estúdio em Hollywood, incluindo nomes como Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie. Logo outras histórias vieram à tona, culminando na condenação não só de Weinstein, mas de uma série de personalidades do show business americano. No fim das contas, a celeuma serviu para, além de expor um problema gravíssimo, também questionar o status da mulher e o que se considera como seu “lugar de fala” dentro da sociedade.

Assim como o #MeToo, outras reivindicações femininas ao longo da história confrontaram a visão da mulher como o “sexo frágil”, condenando o comportamento vil de muitos homens que, movidos por uma falsa virilidade, tendem a tratá-las apenas como “objetos de prazer” e nada mais. Foi a sensação de desprezo, abuso e irrelevância que, em boa parte, levou 90% das islandesas à rua, em 24 de outubro de 1975, para participarem do “Dia de Folga das Mulheres”. De lá para cá, outras tantas bandeiras foram levantadas, sendo o #MeToo apenas mais uma delas.

Mas, como toda revolução, o perigo de jogar o bebê fora com a água do banho também é perceptível nesse contexto, e as bandeiras hoje ditas “feministas” nos levam a debater até que ponto esse suposto “empoderamento” é realmente uma redenção da mulher e se muita coisa não passa, na verdade, de uma amarga ilusão.

Uma narrativa em contradição

A pergunta é justa diante dos modelos de “mulheres poderosas” que nos são apresentados. É “poderosa” a mulher que não preza por qualquer pudor ou modéstia e dá de ombros aos padrões ditos “convencionais”. Recentemente, a apresentação de duas cantoras num evento esportivo foi celebrada pela imprensa como uma demonstração do “girl power”, por conta das suas coreografias eróticas e figurinos sensuais. Ali, no palco, elas estariam exercendo livremente a própria sensualidade, sem qualquer submissão ou tabu.

No fundo, a questão não parece ser o modo como a mulher é tratada sexualmente pelo homem, mas se ela aceita ou não ser tratada assim. Tudo depende do consentimento. O que se busca, portanto, é a emancipação da vontade feminina, de modo que a mulher possa fazer o que quiser, acima de qualquer juízo moral. E, consequentemente, o corpo dela acaba se convertendo num instrumento de protesto, numa bandeira com a qual ela afronta papéis, instituições e a sua própria sexualidade. Trocando em miúdos, a mulher deveria ser livre para, inclusive, não ser mulher.

Simone de Beauvoir, filósofa e ativista francesa do século XX.

O sucesso de visuais andróginos é muito representativo desse pensamento, porque desconstrói qualquer estereótipo de feminilidade. Como disse Simone de Beauvoir certa vez, “não se nasce mulher; fazem-na mulher” — on ne naît pas femme, on le devient. Desse modo, considera-se que, no ser da mulher, não há uma natureza, mas apenas uma construção social, um ideal feminino, que agora deve ser desfeito para dar vez à vontade de todo aquele ou aquela que se identifica como mulher, tendo ou não uma genitália feminina...

Nem todas as mulheres, porém, comungam desse ideal feminino, sobretudo no que diz respeito a temas como vida, sexualidade e família. E aqui a narrativa do “empoderamento” parece entrar em contradição. Quando uma mulher se recusa, por exemplo, a aceitar a ideologia de gênero, ela não só é criticada, chamada de “fascista”, “machista” e “transfóbica”, como também acaba sendo excluída do seu (chamado) “lugar de fala”. Não lhe é dado o direito de divergir, restando-lhe apenas o desprezo e a zombaria, ao passo que à mulher-trans, seja lá o que esse termo signifique, são reservadas todas as deferências. Isso é particularmente sensível na área dos esportes, uma vez que o Comitê Olímpico Internacional não exige sequer a cirurgia de mudança física para que um homem possa jogar contra mulheres numa competição. Basta ao atleta declarar que “sua identidade de gênero é feminina”, e pronto, ele já pode sair distribuindo porradas em ringues femininos.

Testemunho revelador

Acontece que nada vem do nada, sobretudo ideias. O “empoderamento” feminino, nos moldes descritos anteriormente, não surgiu da cabeça de uma mulher que, de repente, tomou consciência de si e de suas colegas. Na verdade, foi da cabeça de um homem, Kingsley Davis, que, por meio de sua aluna, Adrienne Germain, convenceu as fundações Rockefeller, Ford, MacArthur etc. a investirem em engenharia social, a fim de mudarem o comportamento e a mentalidade das mulheres, especialmente sobre maternidade e família. Obviamente, não é possível reduzir a complexidade do tema à intervenção de uma ou duas pessoas, mas o financiamento de ONGs feministas por fundações internacionais é coisa amplamente documentada e admitida publicamente pelas próprias feministas.

Frances Kissling, fundadora do grupo Catholics for Choice.

O testemunho de Frances Kissling, fundadora das Catholics for Choice [no Brasil, CDD: “Católicas pelo Direito de Decidir”], é revelador nesse sentido. Numa entrevista a Rebecca Sharpless, em 2002, ela contou como “o fato de ter recebido uma doação da Fundação Ford” representava, para sua organização recém-criada, “um ponto de virada”, porque aquilo “significava que tínhamos sido finalmente admitidas naquele [outro] mundo”, ou seja, na militância abortista. Dentre as fundações listadas por Kissling estavam, além da Ford, outras como a Sunnen e a Playboy, todas interessadas na propaganda dos “direitos reprodutivos” como meio para o controle populacional. Em 2007, o jornal The New York Times divulgou que o orçamento anual das CDD chegava a três milhões de dólares, por meio do financiamento dessas fundações, especialmente da Ford.

O papel das ONGs é importantíssimo para a propaganda cultural, dada a representatividade delas na imprensa e na política. Na audiência pública sobre a legalização do aborto no Brasil, em 2018, essas entidades se apresentaram ao STF como legítimas porta-vozes das mulheres, ainda que a maioria dos brasileiros seja contrária a qualquer mudança na legislação sobre o tema.

No caso das “Católicas pelo Direito de Decidir”, elas têm a missão específica de minar a imagem da Igreja perante a opinião pública, impingindo-lhe a pecha de “machista”, “misógina”, e “intolerante”, porque, como explicou Frances Kissling na mesma entrevista, “a moral católica é a mais desenvolvida”, de modo que, concluiu ela, “se você puder derrubá-la, derrubará por conseqüência todas as outras”. Daí todo o investimento das fundações, a fim de criar um espantalho da Igreja e seduzir as mulheres para sua suposta agenda de “empoderamento”.

A Igreja oprimia as mulheres?

É frequente a acusação de que a Igreja Católica oprime as mulheres por não as admitir ao sacerdócio ou por conta da sua moral sexual [1]. Mas, no fundo, o que se pretende com tal ataque é, segundo Judith Butler, “a luta por aceitar o desejo como princípio de deslocamento metafísico e dissonância psíquica e o esforço orientado por deslocar o desejo com o fim de derrotar a metafísica da identidade” [2]. Traduzindo: trata-se de desmoralizar a única instituição no mundo que, no contexto atual, ousa proclamar que existe uma natureza humana — donde derivam os direitos e deveres da pessoa —, natureza que homens e mulheres devem respeitar e não podem manipular como lhes apetece [3].

Judith Butler, filósofa pós-estruturalista norte-americana.

A verdade é que, longe de oprimir as mulheres, a consciência da Igreja sobre a natureza humana foi justamente o que as libertou, numa época em que o direito romano e a cultura pagã as consideravam inferiores aos homens. Estes tinham direito de propriedade sobre esposas e filhos, podendo dispor de suas vidas como bem quisessem. O cristianismo, por sua vez, com sua noção de natureza humana, elevou o status da mulher à mesma dignidade do homem, considerando-a também “imagem e semelhança de Deus”, conforme ensinou São Paulo: “Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus” (Gl 3, 28). Essa novidade do cristianismo foi decisiva para o fenômeno das conversões entre as mulheres na Igreja primitiva.

O sociólogo Rodney Stark afirma taxativamente que “a mulher cristã desfrutava de segurança e igualdade conjugal bem maiores do que as de suas congêneres pagãs” [4]. E a razão disso, conforme avalia Stark, é que, com o advento da moral cristã, o feminicídio foi proibido e a castidade passou a valer também aos homens. Ademais, as viúvas cristãs tinham o privilégio de não precisar casar de novo, o que lhes permitia desfrutar livremente da herança de seus maridos. E se, por um lado, as moças romanas eram obrigadas a casar antes mesmo da puberdade, tendo o casamento consumado logo após a cerimônia, as mulheres cristãs, por outro, não só podiam se casar mais velhas como tinham o direito de escolher seus maridos.

A virgindade, nesse contexto, era tanto uma virtude como um grito de independência da mulher. As donzelas cristãs tiveram apoio da Igreja para escapar de casamentos forçados, impostos pelos pais, tendo muitas delas optado pelo martírio, como foi o caso de Santa Bárbara. E “negar a autoridade do pai de família, o único cidadão total, proprietário, chefe militar e sacerdote, no seu lar e na sua cidade era abalar o fundamento de toda uma sociedade”, explica a historiadora Régine Pernoud [5]. Por isso, o culto das santas mulheres foi algo bem notável no início do cristianismo, como consequência do “papel ativo que as mulheres tiveram no domínio da evangelização, numa época em que o Ocidente hesita entre paganismo, arianismo e fé cristã” [6].

Idade Média, apogeu da redenção feminina

Régine Pernoud, historiadora medievalista do século XX.

Mas se enganaria quem pensasse que essa redenção feminina, por assim dizer, foi algo particular da Igreja nascente. Na verdade, como Régine Pernoud afirma, “o apogeu corresponderia à idade feudal: do século X ao fim do século XIII”, período em que, segundo ela, “as mulheres exercem então, incontestavelmente, uma influência que não obtiveram nem as bonitas mulheres da Fronda do século XVII, nem as severas anarquistas do século XIX” [7]. De fato, Pernoud apresenta um conjunto de referências bem convincentes em seu livro A mulher no tempo das catedrais, leitura indispensável para quem acredita que a Igreja jamais concedeu “lugar de fala” às mulheres e lhes deve alguma desculpa por isso.

Exemplo contundente é o da santa religiosa Hildegarda de Bingen. Ela exerceu tal influência sobre o seu mundo que recebeu do próprio Papa Eugênio III a autorização para sair do claustro e pregar publicamente a vida mística e a doutrina cristã. Mosteiros masculinos e femininos acorriam a ela para pedir conselhos espirituais ou de outra natureza, dada a familiaridade da santa em assuntos de medicina, ciências naturais e inclusive música. O Papa Bento XVI, que a colocou no seleto rol dos Doutores da Igreja, disse que, em seus escritos, Hildegarda “manifesta a versatilidade de interesses e a vivacidade cultural dos mosteiros femininos da Idade Média, contrariamente aos preconceitos que ainda pesam sobre aquela época” [8].

Podemos aludir ainda a uma Santa Catarina de Sena — analfabeta, pobre, humilde, mas de grande sabedoria, a quem o Papa Gregório XI confiou missões diplomáticas num tempo de severa crise social e eclesiástica — ou à querela entre Henrique VIII e a Santa Sé  — quando esta se colocou ao lado de Catarina de Aragão, não do infeliz monarca —, como provas inconcussas de que a fé católica jamais teve qualquer inclinação misógina. O declínio social da mulher só aconteceu na modernidade, quando esta mesma Igreja foi posta de escanteio para dar lugar à revolução protestante, com a abolição do culto à Virgem Maria, e ao paganismo renascentista, com o culto ao corpo:

Tão-logo foi suprimida a autoridade da Igreja, a postura do marido em relação à mulher tendeu a retornar ao ideal pagão do mestre e do dono em lugar de um afetuoso amigo, companheiro e protetor. Evidências claras da triste deterioração do prestígio da mulher podem ser vistas na literatura inglesa dos séculos XVII e XVIII, quando os efeitos destrutivos do protestantismo na vida social já podiam ser percebidos plenamente. A estima e o respeito cortês pelas mulheres [...], reflexo da inigualável glória da Rainha do Céu, desapareceu da literatura inglesa [...]. A mulher voltou a ser valorizada apenas por seu sexo; e aquela que não exercia atração sexual (ou deixara de fazê-lo) muitas vezes era alvo de piadas grosseiras demasiado repulsivas à mentalidade verdadeiramente cristã [9].

O silêncio quase absoluto sobre esses fatos é simplesmente ideológico, porque nenhuma dessas mulheres católicas serve à causa dos “direitos reprodutivos”, por mais “empoderadas” que tenham sido. Para combater a “masculinidade tóxica”, elas não reivindicaram uma “feminilidade tóxica”, não condenaram o matrimônio, não queimaram sutiãs, não se despiram em cima dum palco, nem defenderam a legalização do aborto ou qualquer coisa do gênero. Pelo contrário, elas empunharam as armas da oração e da virtude, com as quais domesticaram os bárbaros, convertendo-os a Nosso Senhor. Não custa lembrar que, nas sagradas páginas do Evangelho, é a voz de Maria Santíssima que escutamos repetidas vezes, nunca a de São José. Mas nem a Mãe de Deus nem as demais santas mulheres têm “lugar de fala” dentro do feminismo.

Fundações empoderadas, não mulheres

Entretanto, as mulheres já começam a colher os frutos desse empoderamento artificial. Os homens podem continuar a tratá-las impudicamente, desde que elas consintam. E assim temos as “poderosas” canções de funk, sertanejo, pop etc., com letras do tipo que não ousamos citar aqui, ou os filmes feministas, que não temem explorar o fetiche masculino por lésbicas para conquistar uma boa bilheteria. Com tamanho estímulo, só poderia dar nisto: “Casos de feminicídio crescem 22% em 12 estados durante a pandemia” [10].

“Santa Catarina de Sena”, de Giovanni Battista Tiepolo.

É hora de as mulheres entenderem que a luta por “direitos reprodutivos” não é nada libertadora. Na mesma entrevista a Rebecca Sharpless, Frances Kissling dizia que sempre se perguntou o porquê de as fundações investirem tanto nos “direitos reprodutivos” e se elas continuariam a luta por esses direitos se ficasse provado que tal investimento não resulta num menor número de bebês. “Eu perguntei isto para um mundo de pessoas, e a maioria não quis responder a estas perguntas quando eu as fiz”. Kissling mesmo concluiu que seu trabalho servia apenas para empoderar as fundações, não as mulheres.

Desde o seu “lugar de fala”, Santa Catarina de Sena notava sabiamente que o mal da sociedade de seu tempo não era a Igreja ou a família, mas justamente a ausência de virtudes nos membros dessas instituições, que as rebaixavam e humilhavam com seus vícios e prevaricações. Uma coisa é a Igreja (ou a família) em si mesma, outra é quem dela abusa em benefício próprio. Por isso, não faltou à santa a bravura para dizer ao Papa, a quem considerava o “doce Cristo na terra”, estas palavras de encorajamento: “Seja homem”. Foi assim que Catarina, sempre piedosa, sempre contemplativa, pôs o clero e os demais homens de seu tempo no caminho da reta razão, levando o Papa Urbano VI a declarar: “Vede, meus irmãos, como nos tornamos desprezíveis aos olhos de Deus, deixando-nos tomar pelo medo. Esta pobre mulher nos envergonha” [11].

Para um texto que já vai longe demais, ainda teríamos exemplos mais recentes, como o de Madre Angélica, fundadora da TV católica EWTN, cujos protestos sobre a polêmica tradução inglesa do Catecismo foram acolhidos pelo então Cardeal Ratzinger, em oposição a muitos bispos; ou o de Madre Pasqualina Lehnert, que exerceu grande influência no Vaticano de Pio XII. A lista, no entanto, já é suficiente para desfazer qualquer desconfiança sobre as damas católicas. Diz um ditado antigo que, por detrás de todo grande homem, há sempre uma grande mulher. Oxalá não faltem mulheres com essa envergadura nos dias de hoje.

Referências

  1. Sobre a ordenação de mulheres, o Cardeal Ratzinger recorda em sua entrevista ao jornalista Peter Seewald, no livro O Sal da Terra, uma afirmação bastante simbólica da exegeta feminista Elizabeth Schussler: “A experiência feita com mulheres ordenadas na Igreja Anglicana levou-a a reconhecer: ordination is not a solution (‘a ordenação não é uma solução’), não é o que queríamos. E também explica por quê. Diz: ordination is subordination, portanto, a ordenação é subordinação — significa inserir-se numa ordem estabelecida e subordinar-se, e é exatamente o que não queremos” (Rio de Janeiro: Imago, 2005, p. 167).
  2. Judith Butler. Subjects of desire. Columbia University Press, 2012, p. 15.
  3. Cf. Papa Bento XVI, Discurso ao Parlamento Alemão, 22 set. 2011: “Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana.”
  4. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 120.
  5. Régine Pernoud. A mulher no tempo das catedrais. Lisboa: Gradiva, 1984, p. 22.
  6. Ibidem, p. 17.
  7. Ibidem, p. 8.
  8. Papa Bento XVI, Audiência Geral, 8 set. 2010.
  9. Rev. E. Cahill, S.J., The Framework of a Christian State, Roman Catholic Books, reimpressão de 1932, p. 432.
  10. O feminicídio é um crime injustificável e nenhum homem deveria se sentir estimulado a praticá-lo. Mas, numa cultura viciada, que está o tempo todo reforçando a imagem da mulher como objeto, seja por representações artísticas, seja por discursos midiáticos, homens machistas acabam tendo seus vícios ainda mais alimentados, o que muitas vezes acaba no extremo de um homicídio. A catequese cristã, por outro lado, insiste que os homens devem amar suas mulheres “como Cristo amou a Igreja”, ou seja, sacrificando-se por elas.
  11. Santa Catarina de Sena. O Diálogo. São Paulo: Paulus, 1984, p. 10.

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O ateísmo é o “novo normal”
Sociedade

O ateísmo é o “novo normal”

O ateísmo é o “novo normal”

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu. Hoje, é a pessoa religiosa que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe. É a pessoa de fé que precisa ter coragem para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

David CarlinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Este texto não foi escrito pelo Pe. Paulo Ricardo; trata-se de uma tradução, feita por nossa equipe, de um texto do professor David Carlin. A análise dele é feita a partir da observação do que tem acontecido recentemente nos Estados Unidos, lugar onde ele reside. Mas as manifestações criminosas do último fim de semana no Chile, que incluíram incêndios de igrejas católicas históricas, têm muito a ver com a situação que ele descreve abaixo. 

O texto original foi publicado em 4 de setembro no site The Catholic Thing, ou seja, bem antes dos fatos dos últimos dias. Mas ele fala de um colapso civilizacional que não é de hoje, nem do fim de semana passado. Daí a atualidade e importância do tema.


Não posso prová-lo, mas tenho a forte impressão de que, hoje, o ateísmo é a posição “padrão” dos americanos bem educados, relativamente ricos e com menos de 40 anos. 

Quando falo de ateus, penso em três categorias: (1) os ateus sinceros, pessoas bastante francas em relação à sua descrença; (2) os ateus tímidos, também conhecidos como agnósticos, que não creem em Deus, mas gostam de dizer a si e aos outros que são tolerantes em relação ao assunto (embora não o sejam); (3) os ateus indiferentes, cuja convicção da inexistência de Deus é tão grande, que não se importam em atribuir ao seu estado de espírito o rótulo de ateu ou agnóstico.

Também deveríamos observar que o ateísmo tem muitos “companheiros de viagem” semiateus entre protestantes, católicos e judeus progressistas. 

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu nos Estados Unidos. Era preciso realizar certo esforço mental e moral. A pessoa tinha de se rebelar contra a existência de Deus, uma coisa dada por certa. Além disso, era preciso encontrar razões para rejeitá-la. Finalmente, faltava coragem ou obstinação para aderir a essa perspectiva, apesar de ela contar com poucos apoiadores.

Em contrapartida, é fácil ser ateu nas primeiras décadas do glorioso século XXI. Quase tão fácil quanto respirar.

A situação mudou. Hoje, é a pessoa religiosa bem instruída que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe, o que é, agora, dado por certo. É a pessoa de fé que precisa encontrar razões para rejeitar a descrença. É o teísta que precisa ter coragem ou obstinação para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

A menos que alguma grande revolução religiosa ocorra, é provável que o ateísmo se dissemine nos níveis menos instruídos e privilegiados da sociedade. Existe uma espécie de princípio segundo o qual as crenças e valores das elites culturais da sociedade cedo ou tarde se disseminam entre as massas, ainda que de forma diluída. Na Idade Média, por exemplo, as crenças e valores cristãos dos sacerdotes, monges e freiras se espalharam entre as massas semicristianizadas, ainda que o cristianismo das massas fosse diluído com muitas doses de heresia e superstição.

Nos grandes dias da atividade missionária dos jesuítas, estes compreendiam que, se quisessem converter uma sociedade para o catolicismo, teriam de começar não pelos camponeses, mas pelo rei e a corte. Converta-se o rei, e o campo logo se converterá também.

Em resumo, em poucas décadas os Estados Unidos poderão ser uma sociedade em que elites ateias liderarão massas semiateias. Já é possível antever a formação dessa estrutura social. Elites ateias tendem a predominar em nossas grandes instituições dedicadas à “educação cultural” do público: instituições como o jornalismo, a indústria do entretenimento e as nossas melhores faculdades e universidades.

Tudo isso é bastante estranho, já que, ao longo da história da espécie humana, algum tipo de teísmo (ou politeísmo) foi praticamente universal. Quase todas as pessoas acreditavam em Deus (ou em deuses). Quase todos acreditavam que algum poder (ou poderes) divino sobrenatural governava o mundo. 

Isso funcionou assim por tantos milênios, que alguns criteriosos pesquisadores concluíram que os seres humanos são religiosos por natureza. Há algo em nossa natureza que nos impele a crer em Deus (ou deuses). O ateísmo, portanto, era algo raro e artificial. Mais ou menos como a homossexualidade. 

Naturalmente, por vivermos numa época extraordinária de esclarecimento científico e psicológico, a maior parte de nossas elites culturais aderiu ao novo entendimento de que a homossexualidade não é nem um pouco antinatural. Depois de fazerem essa grande descoberta, deveríamos nos surpreender com o fato de terem descoberto algo ainda mais importante, ou seja, que o ateísmo também não é antinatural?

Imaginemos que o ateísmo passe a predominar na sociedade. Isso causará algum dano significativo nas gerações que virão? Aqueles que, ao longo da vida, acreditaram na existência de Deus responderão que sim. Mas talvez este seja apenas um “preconceito” da nossa parte. Temos, pois, bons motivos para temer o triunfo do ateísmo?

Sugiro dois: por um lado, se Deus não existe, então a moralidade humana não tem fundamento divino; mas, se não possui fundamento divino, deve ter um fundamento exclusivamente humano. A moralidade terá de ser reconhecida como algo criado exclusivamente pelo homem. Ora, se é algo feito apenas pelo homem, então pode ser modificado por ele de forma súbita e radical. O que ontem se considerava mau (o assassinato, por exemplo) poderá, hoje, ser considerado bom. É claro que facilitaremos essa transição usando nomes suaves. Não chamaremos assassinato de “assassinato”. Chamaremos de aborto, eutanásia ou de qualquer outro nome suave que possamos encontrar.

Por outro lado, se Deus existe (ao menos o Deus racional no qual sempre creram a teologia e a filosofia ocidentais, em oposição ao Deus um tanto arbitrário do islamismo), então faz sentido crer que a natureza, criatura de Deus, é inteligível; que a natureza pode ser compreendida pela razão humana. Se nos livrarmos desse Deus racional, também nos livraremos da Criação racional. Abriremos as portas para crenças arbitrárias (por exemplo, a de que um homem se torna mulher apenas por sentir-se assim). Abriremos as portas para as mais selvagens superstições. As pessoas serão incentivadas a crer em qualquer coisa de que gostarem. 

Não me agrada a ideia, por ser já um homem velho, de que, em breve, terei de deixar o espetáculo terrivelmente interessante da história humana. Outras vezes, no entanto, agradeço a Deus por saber que não serei espectador do colapso total de nossa outrora magnífica civilização.

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Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha
Espiritualidade

Escolhendo tudo:
uma lição de Santa Teresinha

Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha

Quando nos aproximamos de Deus com a cesta da nossa vida, tendemos a esconder nossas fraquezas, pecados e feridas, oferecendo-lhe só o que nos parece mais agradável. Ele age conosco, porém, como na história da pequena Teresa, e nos diz: “Eu escolho tudo!”

Jim AndersonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Em sua autobiografia, História de uma alma, S. Teresinha conta uma bela história sobre um incidente de infância. Sua irmã mais velha, Leônia, que já estava muito grande para brincar de boneca, trouxera uma cesta com materiais para fazer vestidos de boneca para as irmãs mais novas, Celina e Teresa. A boneca de Leônia estava na cesta, em cima dos materiais. Ela ofereceu a cesta às irmãs, dizendo: “Queridas, escolham o que quiserem”. Celina, a mais velha das duas, pegou uma bola de lã que havia chamado sua atenção, mas Teresa, que tinha apenas dois anos, simplesmente afirmou: “Eu escolho tudo!” e, sem fazer cerimônia, pegou a cesta, a boneca e tudo o mais!  

Esse episódio reflete a postura de Teresa durante toda a vida, como ela conta em História de uma alma (Manuscrito A, 10r-10v): 

Este pequeno episódio de minha infância é o resumo de toda a minha vida; mais tarde, quando dei com a perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, procurar sempre o mais perfeito e esquecer-se a si mesma, compreendi que havia muitos graus na perfeição e que cada alma era livre de responder às solicitações de Nosso Senhor, de fazer pouco ou muito por ele, numa palavra, de escolher entre os sacrifícios que ele pede. Então, como nos dias de minha infância exclamei: “Meu Deus, escolho tudo. Não quero ser santa pela metade, não tenho medo de sofrer por vós; a única coisa que temo é guardar minha vontade, tomai-a vós, pois ‘escolho tudo’ o que quiserdes!...”

Embora a pequena Teresa ilustre, com sua precoce e vibrante audácia, a profundidade do desejo humano — um desejo que, no final das contas, só é saciado por Deus —, creio que seja possível extrair outra reflexão desse relato.

Deus fala a cada um de nós com o mesmo desejo entusiasta manifestado por Teresa quando nos apresentamos diante dEle com a cesta da nossa vida — muitas vezes, com temor e tremor — e a oferecemos a Ele pedindo-lhe que pegue algo dela. É claro que oferecemos, imediatamente, as partes preferidas: as que julgamos mais agradáveis a Ele, as que podemos oferecer com mais segurança ou as que supostamente não nos custarão muito.

Porém, há outros aspectos da vida que estamos menos dispostos a oferecer a Deus: nossas fraquezas, pecados e feridas; os rancores e queixas que guardamos secretamente; as partes da nossa humanidade ferida que nos atormentam e constrangem; todas as partes da nossa personalidade que estão cheias de imperfeições.

Isso também pode nos deixar irritados. O mandamento de Jesus: “Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” parece impossível de cumprir, algo flagrantemente absurdo de pedir a um ser humano! Conscientes da fraqueza e da escuridão que se escondem em nosso coração, nós, como Marta diante do sepulcro de Lázaro, clamamos: “Senhor, já cheira mal!”, e muitas vezes nos afastamos dEle e nos escondemos em nossas feridas.

Mas o amor não se satisfaz facilmente. Deus age como a pequena Teresa. Olhando para a cesta que somos nós, Ele diz sem meios termos: “Eu escolho tudo!” Em momentos como esse, brotam em nosso coração as palavras que Ele dirigiu a Marta: “Não te disse eu: se creres, verás a glória de Deus?”   

E o que é a glória de Deus? Irineu nos diz: “A glória de Deus é o homem plenamente vivo!” Aos olhos de Deus, isso é a perfeição — ser perfeito como pessoa humana é ser humano de modo autêntico e pleno, assim como Deus é perfeito sendo plenamente divino.  

S. João Paulo II disse a mesma coisa com outras palavras, exortando as famílias a “tornarem-se o que são”. Mas precisamos da graça de Jesus Cristo, que é “a ressurreição e a vida”, para renovar, restaurar, curar, aperfeiçoar e elevar todos os aspectos da nossa humanidade — os bons, os maus e os feios — à plenitude da imagem e semelhança de Deus. Isso significa ser plenamente humano, entregando a Deus tudo o que somos e temos para que, em contrapartida, possamos aceitar tudo dEle, como o fez Teresa.

É uma troca admirável: o nosso tudo (que, na verdade, não é nada) pelo tudo de Deus (que, na verdade, é Tudo). Nessa troca de tudo por tudo, ficamos com a parte boa do negócio.

Esse é o núcleo do gênio de S. Teresinha e de sua pequena via. Deus nos encontra quando aceitamos voluntariamente nossa imperfeição, fraqueza, pobreza e carência. Com a confiança de uma criança, Teresinha nos encoraja a confiarmos que até o menor passo em direção a Deus é suficiente para receber seu amor e misericórdia. Podemos ter certeza de que, se estivermos dispostos a nos aproximar de Deus tanto quanto possível — ainda que seja um caminho curto —, Ele fará a diferença em sua ternura e bondade.

Esse também é o núcleo do espírito missionário de S. Teresinha, padroeira das missões, pois, como sugere outra santa mulher, Catarina Doherty, o primeiro campo de qualquer missão é o coração humano — onde são tomadas todas as decisões favoráveis ou contrárias a Deus e ao próximo. Só precisamos aceitar humildemente nossas fraquezas como oportunidades para encontrar a Deus em profundidades cada vez maiores, e assim abrir nosso coração a Ele de forma mais plena, permitindo que Ele escolha tudo e transforme tudo em seu amor.

João Paulo II descreve a autêntica formação humana como um movimento que parte do autoconhecimento, passa pela aceitação de si e chega à doação de si. Isso requer uma visão integral da pessoa humana em todos os aspectos de seu ser — físico, espiritual, emocional, social e intelectual — e implica a Redenção e o aperfeiçoamento de todos esses aspectos em Cristo.

E Teresinha nos ensina isso. “Teresa é Mestra para o nosso tempo”, escreveu João Paulo em Divini Amoris Scientia, a Carta apostólica em que ele a proclamou Doutora da Igreja, “Mestra de vida evangélica, particularmente eficaz ao iluminar os caminhos dos jovens, aos quais compete ser protagonistas e testemunhas do Evangelho junto das novas gerações”. 

Sem dúvida, já vi esse testemunho ao longo de meus anos de trabalho como formador de jovens — uma miríade de esperanças, alegrias e vidas restauradas pela entrega inocente ao amor de Deus. Talvez nestes dias, como nunca antes, em meio ao medo disseminado pela pandemia, ao crescimento do isolamento e da divisão, da agitação social e da animosidade crescente mesmo no seio da Igreja, necessitemos de uma mestra como Teresinha, que pode nos ajudar a entregarmos tudo para escolhermos Tudo.

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Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?
Virgem Maria

Pode um cientista
ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

Pe. Andrew PinsentTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A pergunta na chamada implica que a resposta esperada é: não; mas, como antigo físico de partículas, a minha resposta é: por que não? Contra o preconceito comum, uma perspectiva científica não descarta milagres, e o evento de Fátima é, na visão de muitos, particularmente crível.

Com relação a milagres em geral, o preconceito de costume contra eles assume uma de duas formas. A primeira alega que um ponto de vista científico exclui milagres, erroneamente definidos como um rompimento das forças da natureza ou, especificamente, com a física. Este preconceito repousa num mal-entendido sobre o alcance das leis científicas, que descrevem de forma simplificada como sistemas ideais, tomados isoladamente, se comportam. Essas leis nos permitem realizar feitos extraordinários, como a viagem final que a espaçonave Cassini empreendeu em 2017 através dos anéis de Saturno.

Mas essa leis nada nos dizem sobre o que acontece quando um sistema não é isolado, muito menos quando um agente pessoal e livre nele intervém. Para dar um exemplo: se eu jogar uma maçã no ar, a sua trajetória será semelhante a uma parábola que pode ser prevista a partir da posição inicial e impulso da maçã; mas essa previsão nada diz sobre o que eu decido fazer ou não com a maçã. Ora, se eu posso intervir para mudar a trajetória de uma maçã, então (presumivelmente) Deus todo-poderoso pode fazer o mesmo. E muito mais. Portanto, não existem problemas reais em relação aos milagres do ângulo das leis científicas, uma vez que descrever como um sistema se comporta na ausência de interferências externas não diz nada sobre se uma intervenção pode ocorrer ou ocorre de fato.

Uma segunda forma de preconceito alega que uma combinação de causas naturais pode e deve ser encontrada para explicar o que aparenta ser milagroso, reduzindo o extraordinário ao previsível. Para dar apenas um exemplo: não é incomum entre padres e professores já de certa idade, que acham milagres embaraçosos, a ideia de que Jesus, na multiplicação dos pães, teria alimentado cinco mil pessoas dividindo a comida que elas mesmas trouxeram consigo. Seria um símbolo de “partilha”. 

Explicações como estas dificilmente quadram com as contas reais, menos ainda com a reação das testemunhas. Além disso, não são explicações necessárias ou úteis. Obviamente, nós devemos ter senso crítico na hora de avaliar relatos de milagres particulares, que deveriam ser sinais excepcionais num mundo de seres criados com as suas próprias potências naturais. Mas determinar, antes de considerar quaisquer evidências, que milagres são impossíveis ou nunca acontecem é contra o espírito de investigação crítica, além de uma declaração de desespero. Afinal de contas, se nenhum milagre acontece, é porque estamos presos num mundo de potências naturais, inadequados para a nossa felicidade e condenados à decadência e à morte individual e, finalmente, cósmica.

Pessoas presentes na Cova da Iria, em 13 de outubro de 1917, olhando para o Sol.

Como então avaliar o milagre de Fátima, especialmente o Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917? Este evento acompanhou a última de seis aparições de Nossa Senhora à Beata Lúcia Santos, de 10 anos, e seus primos, os santos Jacinta e Francisco Marto. Houve uma multidão de testemunhas, contadas em dezenas de milhares, sem contar o testemunho de professores universitários e repórteres, compilados mais tardes no livro de John Haffert Meet the Witnesses of the Miracle of the Sun (“Conheça as testemunhas do Milagre do Sol”). Por exemplo, Avelino de Almeida, de O Século (um jornal anticlerical do governo), que anteriormente zombava das crianças, escreveu que o Sol fazia movimentos súbitos e incríveis, “fora de todas as leis cósmicas”.

Hoje, a Igreja não exige que aceitemos o milagre, mas afirma apenas que as aparições de Nossa Senhora são dignas de fé [1]. No entanto, em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial em Portugal que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

As aparições da Virgem ocorreram quatro séculos após o início da Reforma Protestante, em 1517, e dois séculos depois da fundação da primeira Grande Loja maçônica, em Londres, no ano de 1717, marcos da apostasia das nações do catolicismo para o indiferentismo religioso. No dia mesmo do Milagre do Sol, em 1917, os sovietes assumiram o controle militar da Rússia, preparando o caminho para que o comunismo ateu começasse a ruinosa dominação de grande parte do mundo, perseguindo a Igreja e levando a mortes cruéis dezenas de milhões de pessoas.

Não surpreende, pois, que Deus nos tenha concedido um milagre espetacular, com avisos severos de arrependimento e penitência, para aprendermos a responder ao dom de sua graça, para a salvação de nossas almas e do mundo.

Notas

  1. A revelações privadas como a de Fátima não estão obrigados a prestar assentimento de fé divina os fiéis a quem elas não foram imediata e certamente dirigidas, embora convenha prestar-lhes assentimento de fé humana, na medida em que a autoridade da Igreja prudencialmente as reconhece como autênticas, isto é, livres de todo indício razoável de fraude, engano, manipulação etc. e de quaisquer elementos que contradigam o conteúdo da Revelação pública. Por isso, não peca contra a fé quem não crê, v.gr., nas revelações de Fátima ou em outras aparições marianas particulares, embora nisto possa haver certa indocilidade culposa ao Magistério eclesiástico, quando ele mesmo reconhece a autenticidade destas manifestações e as propõe aos fiéis, especialmente pela Liturgia, como dignas de fé e conformes à doutrina cristã (Nota da Equipe CNP).

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Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?
Virgem Maria

Por que a Virgem de Fátima
apareceu no dia 13 de cada mês?

Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?

É claro que houve um significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 em Portugal. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima.

Joseph PronechenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Comecemos com um simples fato. Nas principais aparições em Fátima, nossa Mãe Santíssima apareceu no dia 13 de cada mês, menos em agosto, quando as crianças foram levadas à cadeia de Ourém por um administrador ateu, que estava determinado a impedir que elas fossem até a Cova da Iria.

Depois que as crianças foram soltas, Nossa Senhora lhes apareceu no dia 15 de agosto, festa da Assunção. 

Houve algum significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 dos outros cinco meses? Claro que sim. O Céu não faz coisas sem propósito. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima, e elas podem, até o momento, ser consideradas mais um modo de enriquecer seu significado.

Primeiro, tenhamos em mente que certos números possuem grande significado e simbolismo para os judeus e para nós. É algo claramente bíblico. No Antigo Testamento, determinados números são associados a significados místicos e a certa sacralidade. Isso continuou no Novo Testamento e foi mantido pelos Padres da Igreja.

Consideremos os seguintes números: 3 (a Trindade, por exemplo); 7 (o sétimo dia da semana, quando Deus descansou); 12 (as doze tribos de Israel, os doze Apóstolos). Obviamente, isso não tem nada a ver com superstição.  

Antes de voltarmos ao 12, lembremos mais uma conexão. Os Padres da Igreja consideravam Ester, do Antigo Testamento, uma prefiguração da Santíssima Virgem. Trata-se de uma importante relação. Você se lembra da história dessa rainha, contada no Livro de Ester?

Em resumo, Ester estava entre os judeus exilados na Pérsia. Seu tio, Mardoqueu, cuidava dela e ao mesmo tempo era um diligente servo do rei. Ela era reverenciada por todos: “Ela ganhava as boas graças de todos os que a viam” (Et 2, 15). Quando o rei Assuero precisou escolher uma rainha entre as possíveis candidatas, “preferiu-a a todas as outras mulheres, e ganhou ela as graças e o favor real mais que todas as demais jovens. Tanto que o rei colocou sobre sua cabeça o diadema real e a fez rainha no lugar de Vasti” (Et 2, 17). Ele não sabia que ela era judia.

Entra em cena o vilão, que tinha ciúmes de seu tio e da posição que ele ocupava, porque ele mesmo queria ser o braço direito do rei, com todo o poder que a posição oferecia. Ele conseguiu isso imediatamente, ao armar uma trapaça contra Mardoqueu. Então, para manter-se no poder, escreveu e baixou um decreto no dia 13 do primeiro mês, determinando que, dentro de alguns meses, todos os judeus no reino — homens, mulheres e crianças — deveriam ser exterminados à espada. A execução em massa seria realizada no 13.º dia do mês de Adar do calendário judaico

Pediram a Ester que intercedesse junto ao rei. Ela o fez, mesmo que isso lhe pudesse ter custado a vida, pois ela apareceu diante dele sem pedir a permissão necessária para vê-lo — um aviso vindo dele mesmo autorizando-lhe a presença. Ela se dirigiu ao rei para fazer o pedido.

Ester revelou ao rei que o vilão havia ordenado em nome do rei a morte dos judeus, e usou o selo dele para determinar que aquilo fosse feito no dia 13 de Adar. Além disso, ela revelou que também era judia. O rei Assuero, que a amava afetuosamente, ficou indignado com tal vileza, condenou o vilão à morte e ordenou que os judeus fossem salvos.

“Ester diante de Assuero”, pintura de Guercino.

“No duodécimo mês, que é o de Adar, no dia treze do mês, data em que entrava em vigor a ordem e o edito do rei, no mesmo dia em que os inimigos dos judeus contavam fazer-lhes mal, aconteceu tudo ao contrário e os judeus dominaram seus inimigos”, diz-nos o livro (Et 9, 1). 

Ester salvou seu povo. Os judeus sobreviveram.

Em Fátima, Nossa Senhora apareceu para salvar seu povo mostrando-lhe o caminho correto a ser seguido.

Como um “extra”, a Enciclopédia Católica lembra que o nome Ester vem do hebraico e significa “estrela”, “felicidade”. Isso também reforça a conexão entre Ester e a aparição e mensagem de Nossa Senhora de Fátima.

Ela sempre tinha uma estrela em seu manto”, disse a Ir. Lúcia ao padre dominicano Thomas McGlynn, quando ele perguntou qual era a aparência de Nossa Senhora. A estrela era amarela. Mais uma vez, o Céu estabelecia uma conexão para nos dizer que Maria estava indo a Fátima também para salvar do mal seu povo e a Igreja.  

Ester era uma rainha. Nossa Senhora é uma Rainha infinitamente superior — que foi coroada, contemplamos no quinto mistério do Rosário, “como Rainha do Céu e da terra”. 

Por falar no Rosário, todas as vezes que apareceu em Fátima, Nossa Senhora nos pediu que o rezássemos (do dia 12 de maio ao dia 13 de outubro). Na aparição do dia 13 de outubro, ela se apresentou como Nossa Senhora do Rosário, e outubro é o mês dedicado ao Santo Rosário. 

Isso nos leva a outro 13. Foi no séc. XIII que Nossa Senhora deu o Rosário a São Domingos. E foi também nesse século que ela deu a São Simão Stock o escapulário marrom. No dia 13 de outubro, Nossa Senhora apareceu com três títulos — um deles foi o de Nossa Senhora do Carmo, dando-nos uma lição silenciosa sobre o escapulário. Alguns anos depois, quando frades carmelitas lhe perguntaram sobre o escapulário, Lúcia lhes disse que “o escapulário e o Rosário são inseparáveis. O escapulário é um sinal de consagração a Nossa Senhora”. 

Naturalmente, Nossa Senhora apareceu em Fátima para nos aproximar de Jesus. Um dos caminhos foi a recepção da Sagrada Eucaristia, que é a parte mais importante da devoção dos cinco primeiros sábados. Isso nos leva a outra conexão com o número 13. 13 de maio, data da primeira aparição, era o dia original da festa de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Com certeza essa data não foi escolhida a esmo; ela apontava propositalmente para a Sagrada Eucaristia.

Durante a primeira aparição, no dia 13 de maio, as crianças perceberam que a luz que saía das mãos abertas de Maria era a luz de Deus; então, ajoelharam-se e começaram a rezar: “Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro! Meu Deus, meu Deus, amo-vos no Santíssimo Sacramento”.

É claro que essa oração tem uma conexão com o Espírito Santo. Lembremos que Nossa Senhora e os Apóstolos somavam 13 pessoas no Cenáculo, onde o Espírito Santo desceu em Pentecostes.

Além dos doze Apóstolos juntos com Maria, podemos retroceder no tempo e mencionar as doze tribos de Israel e assim o 13 aparecerá novamente. Certo rabino especialista no tema mostrou que as doze tribos, dos doze filhos de Jacó, as quais se tornaram Israel, “estão unidas a seu pai Israel [Jacó]. Israel é o 13.º. O sentido do número treze é a união de muitos em um só”.

O rabino também observou que, na língua hebraica, toda letra possui um valor numérico, e a palavra hebraica ahava (que significa amor, como no Novo Testamento, na Bíblia) está ligada a Deus e ao valor numérico de treze.  

Em Fátima, Maria veio com amor para nos unir todos no amor de Deus, desde que sigamos suas instruções, que em última instância vieram de Deus — o qual, como nos diz São João, é Amor (cf. 1Jo 4, 8) —, para a única família de Deus que se dirige ao Céu.  

Portanto, o número 13 está, de fato, relacionado com Fátima de diversas formas, direta ou indiretamente. Trata-se de mais um dos muitos e diferentes modos que nos ampliam a mensagem e o significado de Fátima.

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