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Sexo e corporeidade na teologia católica
Doutrina

Sexo e corporeidade na teologia católica

Sexo e corporeidade na teologia católica

O que um católico crê a respeito da importância da masculinidade e da feminilidade? À luz da fé, como devemos reagir às atuais ideias de “gênero”? E como nos dirigir a um mundo secular cada vez mais desorientado em relação à sexualidade?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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No dia 6 de janeiro, a Igreja celebra a grande festa da Epifania do Senhor (ou Teofania, como a chamam os nossos irmãos bizantinos [1]): a revelação de Deus às nações e povos do mundo, representados pelos três sábios que, guiados pela divina Providência, caminharam das trevas do paganismo para a Luz do único Salvador da humanidade. Na cena da Epifania, vemos o núcleo da diversidade da Igreja: mãe, pai, bebê e sua família estendida; rainha, guardião, rei e cortesãos; judeus e gentios, pobres e príncipes, pequenos e grandes. No nível mais básico, vemos seres humanos, homens e mulheres cujas identidades e funções não foram atribuídas de forma aleatória e não podem ser trocadas livremente. 

Quando olhamos para a cena da Sagrada Família, podemos fazer uma pergunta inesperada: como Deus se revela para nós na masculinidade e na feminilidade?

“Adoração dos Magos”, de Carlo Dolci.

Recentemente, escolas católicas e seculares acolheram inúmeras discussões sobre a “expressão de gênero” e o chamado “gênero binário”. Não estamos falando de instituições obscuras, mas de locais famosos como Notre Dame, Villanova e a Universidade de San Diego. O pressuposto desses debates é a ideia de que “gênero” é algo fluido, capaz de assumir muitas formas diferentes, permitindo inclusive que uma pessoa mude de uma forma para outra. Como o conceito de “gênero fluido” é novo, até os fiéis católicos podem não saber como responder a essa situação. O que um católico crê a respeito da importância da masculinidade e da feminilidade? Como nos dirigimos a um mundo secular que está desorientado em relação à sexualidade [2]?  

A Igreja Católica fundamenta sua visão sobre a masculinidade e a feminilidade na Sagrada Escritura, que põe homem e mulher no centro de cada etapa da história da Salvação. Um breve tour por essa história, partindo de seu início, tornará manifestas a consistência e a profundidade de sua mensagem e também a razão pela qual seus protagonistas jamais poderiam ser redefinidos sem que sua mensagem fosse completamente subvertida — algo de que estão perfeitamente conscientes os mais inteligentes adversários do cristianismo, creio eu. Depois disso, analisarei o motivo pelo qual a cultura que nos circunda dificulta a compreensão dos ensinamentos contidos na Sagrada Escritura. Em seguida, apresentarei algumas reflexões sobre como podemos nos dirigir de modo eficaz a um mundo secularizado. Mas, antes, voltemo-nos para a história da Salvação.  

Criação. — No relato da Criação, o corpo humano torna visíveis coisas invisíveis. Quando Deus criou o primeiro homem, disse o seguinte: “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada” (Gn 2, 18). O Criador sabe que fez os seres humanos para viver uns com os outros; como diz o Catecismo, fomos criados para ser uma “comunidade de pessoas” (§372). Mas, como relata o Gênesis, essa “comunidade de pessoas” foi inscrita diretamente em nossos corpos por meio da masculinidade e da feminilidade. A mulher foi feita do homem como uma “auxiliar que lhe seja adequada”, e o homem alegra-se quando a vê: “Eis agora aqui — disse o homem — o osso de meus ossos e a carne de minha carne!” (Gn 2, 23). Masculino e feminino são “adequados” um ao outro. Seus corpos, que são complementares, tornam exteriormente visível o que é verdadeiro em relação àquilo que lhes é mais íntimo.

Juntos, homem e mulher recebem a seguinte ordem: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 28). Assim como seus corpos masculino e feminino mostram que são feitos um para o outro, também mostram que são feitos para servir outras pessoas — os filhos em primeiro lugar e, em última instância, a sociedade espalhada pelo mundo e fundada no amor procriador. O chamado ao espírito humano para viver em comunidade torna-se visível por meio do corpo sexuado [3]. 

Mas esse é apenas o início. Em última análise, temos um chamado para a vida em comunidade porque somos feitos à imagem da Trindade, a comunhão na unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Gênesis pode inclusive aludir a isso quando diz: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1, 27). No final das contas, o que o corpo humano torna visível (em seu dimorfismo essencial) é uma realidade divina que transcende o corpo, mas é capaz de ecoar nele. É uma obra-prima da arte de Deus.

Redenção. — Masculinidade e feminilidade tornam-se ainda mais importantes depois da queda de nossos primeiros pais. Já no Antigo Testamento os profetas falam de Deus como esposo de Israel e do povo escolhido como noiva dele: “Eu a desposarei para sempre, conforme a justiça e o direito, com benevolência e ternura. Eu a desposarei com fidelidade e conhecerás o Senhor” (Os 2, 21-22). No Novo Testamento, esse “casamento” entre Deus e o homem adquire um sentido muito mais profundo porque “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14), fazendo com que Deus e a humanidade se unam literalmente numa só carne. No Gênesis, os corpos masculino e feminino tornaram a pessoa humana visível externamente, mas nos Evangelhos o corpo de Jesus torna externamente visível a própria pessoa de Deus [Filho]! 

Para os católicos, a Encarnação dá pleno sentido ao corpo humano. Sentimos a importância de nossa união com o próprio corpo de Deus sempre que nos aproximamos da Sagrada Eucaristia, sobre a qual Jesus disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22, 19). O corpo de Cristo, crucificado no Calvário e glorificado no Céu, é a maior obra de arte feita por Deus. Esse corpo é o seu autorretrato definitivo! E a Encarnação também nos traz Maria, Mãe de Deus, a pessoa humana mais venerada em todo o universo e que recebeu sua elevada vocação precisamente por ser mulher.

A vida em Cristo. — Após a ascensão de Cristo ao Céu, a Encarnação continua a dar sentido aos nossos corpos. O Batismo santifica a nossa alma e o nosso corpo pelo poder de sua Cruz. O casamento místico de Cristo com a Igreja significa que os nossos corpos são membros dele. Dirigindo-se a cristãos viciados em fornicação, S. Paulo lhes pergunta: “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” (1Cor 6, 15). Ele prossegue e os confronta: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis?” (1Cor 6, 19). É desafiador viver à altura da santidade do corpo cristão!

Do mesmo modo, as ações corporais dos cristãos são poderosas. Como seus corpos são membros de Cristo e templos do Espírito, a união física no matrimônio cristão é inclusive um sacramento, sinal e fonte de graça sobrenatural. S. Paulo diz aos romanos: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a ofere­cerdes vossos corpos em sacri­fício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual” (Rm 12, 1). Este é o motivo fundamental pelo qual somos seres litúrgicos: Deus não nos deu apenas uma mente com a qual devemos pensar nele, mas um corpo no qual e pelo qual devemos adorá-lo e louvá-lo. A liturgia está completamente envolta pela corporeidade, particularmente pela comunhão numa só carne entre Cristo, o esposo, e a Igreja, sua esposa [4].  

Consumação. — O relato da história da Salvação terminará com uma forte ênfase no corpo humano quando todos os mortos ressuscitarem para o Juízo. A ressurreição demonstra de uma vez por todas a importância eterna do corpo no plano de Deus, porque a vitória de Cristo seria incompleta sem a salvação do corpo. O livro do Apocalipse descreve aquele último dia como as “as núpcias do Cordeiro”, quando Cristo finalmente desposará para sempre sua “noiva”, a Igreja (Ap 19, 7).

Essa maneira de descrever o fim resolve um enigma. Homens e mulheres ressuscitarão com seus respectivos corpos masculinos e femininos; apesar disso, Jesus diz que “não terão mulher nem marido” (Lc 20, 35). Isso quer dizer que masculinidade e feminilidade não serão mais importantes? Não, isso mostra que o significado natural do corpo humano se tornará pleno quando virmos Deus “face a face” (1Cor 13, 2), num “matrimônio” com nosso Criador. O fato de que fomos feitos para a comunhão significa não apenas que fomos criados à imagem da comunhão trinitária, mas que, em última instância, fomos feitos para a comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mesmo agora, neste mundo, vemos esse significado definitivo do corpo humano naqueles que escolheram a virgindade “por amor ao Reino dos Céus” (Mt 19, 12).  

Uma visão de mundo secular. — Portanto, vemos que a história da nossa salvação não diz respeito apenas à salvação das almas, mas também à do corpo — do início ao fim! Mas, embora a fé católica tenha muito a dizer sobre o corpo humano, falar para um mundo secularizado não é tão fácil quanto citar muitos trechos da Sagrada Escritura. A má filosofia permeou nossa cultura, criando uma barricada que impede que até pessoas de boa vontade compreendam o que a Igreja tem a oferecer. Isso está relacionado com o modo de o mundo moderno enxergar o corpo humano. 

De acordo com o Catecismo

a unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a ‘forma’ do corpo; quer dizer, é graças à alma espiritual que o corpo, constituído de matéria, é um corpo humano e vivo. No homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza (§365). 

Em geral, os ocidentais entendem que os seres humanos são livres e têm direitos apenas por serem humanos; não podemos simplesmente fazer o que desejamos com um ser humano. A Igreja Católica ensina que os corpos humanos são também humanos e que, portanto, não podemos fazer o que bem entendermos com eles.

No entanto, a modernidade passou a enxergar o mundo de uma perspectiva mecanicista. Tendemos a imaginar que há tanta “natureza” num corpo humano quanto num automóvel. As pessoas se revoltam com a ideia de que a “mera” biologia possa decidir como deveríamos viver, porque não percebem que o mundo biológico possui em si mesmo um sentido. Por que ter um corpo feminino supõe uma vocação para a maternidade? Por que ter um corpo masculino implica ser responsável por uma família?

Consequentemente, nossa cultura não vê o corpo humano como obra-prima de Deus, mas como uma tela em branco na qual podemos pintar qualquer coisa. “O que farei do meu corpo? Será masculino, feminino ou algo diferente disso? Será fértil ou estéril? O que devo fazer?” Já se passou um bom tempo desde que nossa cultura começou a promover o controle de natalidade como uma forma de separar o corpo de sua vocação. O aborto tem sido promovido como sinônimo do controle que a mulher teria sobre seu corpo. Tudo isso nasce da mesma fonte: as pessoas falam em “expressar-se” por meio de seus corpos porque não acreditam mais que o corpo já as expresse naturalmente. No final das contas, temos o “gênero fluido” e a “expressão de gênero”. 

Como vimos acima, o significado natural do corpo é que a pessoa humana foi feita para a vida em comunidade. Mas quando nossa cultura abandonou a ideia de qualquer “natureza” do corpo, também abandonou a ideia de que a sociedade é “natural” [5]. Os indivíduos são vistos como absolutos e autônomos, ao passo que a sociedade é considerada algo artificial que construímos por conveniência. Até a família, a sociedade mais obviamente natural, vai para o ralo quando se perde o sentido natural do corpo. O resultado é uma noção de direitos humanos radicalmente individualista segundo a qual cada pessoa tem o “direito” de decidir qual será o seu significado espiritual e corpóreo, ainda que essa decisão seja ruim para a sociedade como um todo — e, de fato, ruim para o indivíduo que se rebela contra a personalidade humana.

Falando para um mundo secular. — Se quisermos ser bem-sucedidos em nossa comunicação com o mundo secular, teremos de remover da melhor maneira possível as barreiras filosóficas e emocionais. Não existe um jeito rápido e fácil de consertar uma visão de mundo deturpada, mas três regras práticas se mostrarão úteis. 

Primeiro, seja positivo e trabalhe com o que é fundamental. Antes de chegarmos ao “não…”, temos de repetir de todas as maneiras possíveis que o corpo humano é algo maravilhoso que merece respeito. Temos de insistir na verdade fundamental de que o corpo humano não é apenas algo mecânico: é algo que possui sentido. Tem uma natureza, um princípio de identidade e operação intrínseco, que é anterior a qualquer coisa que pensemos a respeito dele. Essa natureza não é o resultado de uma interação de átomos ou moléculas, mas é realmente anterior às partículas, e as utiliza para se fazer visível. Além disso, faz parte de um todo maior conhecido como pessoa, que é esse corpo (embora também mais do que somente esse corpo) e se comunica em e pelo corpo.  

Segundo, não faça da desaprovação retumbante seu principal modus operandi. Nossa natureza está caída e ferida por causa do pecado. Todos nós experimentamos tendências e desejos que contradizem o verdadeiro significado do corpo, independentemente de nossa “orientação” ou situação na vida. Muitas vezes um jovem herda dos pais ou de outros mentores uma condição fragmentada que gera ainda mais confusão. Às vezes, essa confusão leva a desvios sexuais “heterossexuais”, “gays” ou de outro tipo, mas o fato é que a confusão relacionada ao gênero faz parte de uma fragmentação generalizada da sexualidade, experimentada em maior ou menor grau por todos nós. “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1, 8) — sem dúvida, isso é verdade em relação à concupiscência desordenada, que aflige a todos nós. Nossa própria experiência de tentação ou luta deveria nos tornar humildes, compassivos e capazes de oferecer bons conselhos que nós mesmos testamos antes de oferecer.  

Finalmente, enfatize a coragem. A santidade que Cristo deu ao corpo por meio de seu próprio corpo chagado e ressuscitado é para todos, independentemente das inclinações que possamos experimentar; mas é necessário ter coragem e convicção para viver à altura de nossa elevada vocação. A moralidade sexual não equivale ao cumprimento de um conjunto de regras; é, antes, o árduo caminho de nos tornarmos o que somos e quem somos chamados a ser em Cristo. Fingir que é algo fácil para pessoas “boas” não ajuda ninguém. Se nos concentrarmos na verdadeira natureza da castidade, que não implica ficar numa zona de conforto, mas vencer uma batalha para alcançar a integridade, o autodomínio e a capacidade de amar, creio que veremos uma resposta daquela pequena parcela do legado de nossa civilização que ainda anseia pela grandiosidade. 

Notas

  1. Neste outro artigo, encorajo a celebração da Epifania como ela merece ser celebrada: no décimo segundo dia depois do Natal, como sempre se fez na tradição cristã, tanto no Oriente como no Ocidente — e critico o fato de ela ter sido empurrada para o domingo mais próximo, algo um tanto incoerente com o próprio mistério que ela celebra.  
  2. Este artigo deve sua gênese e essência às sábias reflexões de um amigo próximo, que me encorajou a tomar essas ideias, desenvolvê-las e publicá-las. Fico muito satisfeito em fazê-lo, pois a verdade é a verdade e merece ser compartilhada. Não creio no mito iluminista de busca da originalidade a todo custo.
  3. É verdade que, hoje, a maioria das pessoas diria “corpo com gênero”, mas temos de ser muito claros a respeito disso: sexo é um fenômeno biológico e pessoal, ao passo que gênero é um fenômeno gramatical. Muitos idiomas têm os gêneros “masculino, feminino e neutro” para substantivos e adjetivos, mas os animais só possuem dois sexos: masculino e feminino.  
  4. Para ler mais sobre essa perspectiva, recomendo o meu artigo Incarnate Realism and the Catholic Priesthood.
  5. Aqui podemos ver a profunda conexão entre a revolta (ocorrida no início da modernidade) contra a filosofia natural aristotélica, com sua ênfase na forma e na finalidade, e o subsequente desenvolvimento da filosofia política do “contrato social”, que também rejeita a ideia de que a sociedade possui forma e finalidade inerentes. Ela seria, antes, um conglomerado material de partes sobre as quais alguma ordem é imposta de modo extrínseco, para servir aos objetivos particulares das partes que a compõem ou daquele que ordena.

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Deus, o vinho e as Sagradas Escrituras
Doutrina

Deus, o vinho
e as Sagradas Escrituras

Deus, o vinho e as Sagradas Escrituras

É muito comum que se celebrem ocasiões especiais com uma boa taça de vinho. Mas também a Bíblia está cheia de referências a essa bebida, principalmente no Evangelho, onde Jesus transforma a água em vinho e converte este líquido em seu próprio Sangue.

Mark HaasTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Cresci numa casa em que o vinho era presença constante. Católico de berço, vi adultos tomarem vinho em diversas ocasiões, seja durante uma festa ou uma reunião. Em casa, partilhávamos uma abençoada taça de vinho para celebrar qualquer ocasião especial, como uma primeira comunhão, um aniversário de batismo etc. Alguns de meus amigos não católicos ficavam espantados de ver o espaço de nossa geladeira reservado aos vinhos. 

Qual o problema do vinho? As Sagradas Escrituras são claras: Deus ama o vinho!

No Antigo Testamento, o vinho é usado como símbolo poderoso. Ele representa a sabedoria (cf. Pr 9, 1-5; Eclo 17-21), a Lei e as bodas (cf. Ct 1, 2ss; 4, 10; 5, 1; 7, 2). O profeta Isaías fala de uma reunião de todos os povos para um “festim de vinhos”, no qual Deus irá salvá-los (cf. Is 25, 6-9). O profeta Amós prediz os dias em que Deus restaurará o reino de Davi e “o vinho correrá pelas montanhas e todas as colinas derreterão” (Am 9, 13).

As bodas em Caná.

Jesus usa vinho ao longo de todo o Evangelho. Seu primeiro milagre ocorreu durante as famosas bodas de Caná. Jesus e sua Mãe foram à festa, mas o noivo ficou sem vinho que servir aos convidados. Hoje, ficar sem ter o que servir em uma festa ou reunião pode ser uma frustração ou um inconveniente menor, tanto para o anfitrião quanto para os convidados. Mas, na antiga tradição judaica, ficar sem vinho durante uma festa de bodas teria sido uma gafe catastrófica, capaz de destruir a posição social da família na comunidade. 

Maria percebe a iminente calamidade e diz a Jesus: “Eles não têm vinho” (Jo 2, 3). A afirmação desencadeia o primeiro milagre público de seu Filho. Maria vê as necessidades das pessoas e intercede por elas. Depois de uma breve conversa com Nosso Senhor, Maria diz aos servos: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5). A interação entre Maria e Jesus é muito similar à doutrina católica sobre a oração de intercessão mariana. Assim como os convidados das bodas, nós recorremos a Maria com nossas orações. Maria, por sua vez, as apresenta diretamente a Deus com esperanças de bênçãos abundantes. Nosso Senhor Jesus Cristo, que não se deixa vencer em generosidade (cf. 2Cor 8, 2), abençoa então as nossas vidas com transbordante generosidade. 

Depois de ouvir a intercessão de sua Mãe, Jesus acolhe com benevolência a solicitação. Quando Deus deseja fazer vinho, Ele o faz em abundância. As talhas de pedra usadas no ritual judaico comportariam entre 20 e 30 galões de água (cf. Jo 2, 6). Ao todo, Jesus encheu milagrosamente 120 galões de vinho! Sabemos que aquele era o vinho mais saboroso e fermentado:

Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora” (Jo 2, 9-10).

Jesus produziu o melhor vinho, um vinho celestial, para que durasse até o final da festa.

Isso, obviamente, não equivale a dizer que a Bíblia admita a embriaguez. Pelo contrário, as Escrituras são claras ao apontar que sempre se deve evitar bebida em excesso. Depois de fazer vinho, Noé logo ficou bêbado e caiu (um paralelo com Adão), perpetuando o ciclo de falhas humanas que perdura em todo o Velho Testamento (cf. Gn 9, 21). No Novo Testamento, S. Paulo alerta sobre o uso de bebida em excesso (cf. 1Tm 3, 8; 1Cor 5, 11). É melhor beber vinho com moderação: “Sede sóbrios e vigiai” (1Pd 5, 8).

Em preparação para a morte de Cristo, o vinho mostra-se um símbolo relevante para dirigir nossa atenção à crucifixão. Consideremos a comparação tipológica entre a Páscoa judaica, no Livro do Êxodo, e a Paixão do Senhor, nos Evangelhos. Depois de salvar os israelitas dos grilhões da escravidão, Moisés foi instruído por Deus a celebrar uma ceia perpétua seguindo instruções bastante específicas: Deus diz a Moisés que sacrifique um cordeiro de um ano de idade, puro, sem mácula nem qualquer osso quebrado. Deus lhe diz então que colete o sangue do cordeiro em uma tigela e pinte os batentes das portas dos israelitas com ele, usando para isso um feixe de hissopo (cf. Ex 12, 21ss). Esse momento histórico foi entronizado na tradição judaica com a celebração anual da Páscoa. 

É interessante notar que nessa antiga refeição pascal eram servidos quatro cálices de vinho, que representavam a libertação dos israelitas da escravidão [1]: 

  1. O cálice da santificação: Eu vos farei sair
  2. O cálice da libertação: Eu vos resgatarei
  3. O cálice da redenção: Eu vos redimirei
  4. O cálice do louvor: Eu vos tomarei como meu povo (cf. Ex 6, 6-7).

Um quinto cálice era reservado a Elias, na esperança de que ele os visitasse durante a celebração. Dessa taça não se bebia.

Avancemos rapidamente até Nosso Senhor Jesus Cristo, que João Batista disse ser “o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29). Jesus, o novo Cordeiro sacrificial, celebrou a Páscoa judaica com seus discípulos na Santa Ceia:

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai” (Mt 26, 26-29).

Jesus declara que não beberá o último cálice de vinho até que o Reino de seu Pai esteja completo.

No dia seguinte, durante sua Paixão, Jesus se recusa a tomar qualquer vinho: “Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se recusou a beber” (Mt 27, 34). Jesus então é elevado na Cruz, e lhe oferecem vinho de novo:

Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: “Tenho sede”. Havia ali um vaso cheio de vinagre. Os soldados encheram de vinagre uma esponja e, fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca (Jo 19, 28-29).

Depois de finalmente receber o vinho numa vara de hissopo, Jesus disse: τετέλεσται (tetélestai), “está consumado”. O que estava consumado? Na noite anterior, Jesus omitira o quarto cálice da ceia pascal, transformando-o na ceia pascal da Nova Aliança: a Sagrada Eucaristia. Nosso Senhor e Salvador bebe agora da taça final, que estava reservada a Elias. Numa interpretação bastante convincente, o dr. Scott Hahn, estudioso bíblico católico, sugere que a nova celebração pascal termina quando Jesus recebe o vinho na Cruz. Cristo recebe o cálice final, que consuma a Nova Aliança. O cálice final está agora à disposição de todos os que recorrem a Ele na Santa Eucaristia. 

O plano de salvação de Deus é apresentado por meio do consumo físico de pão e de vinho. Que nós possamos eternamente “comer e beber e encontrar satisfação em todo o nosso trabalho, pois esse é o dom de Deus” (Ecle 3, 13).

Notas

  1. “À primeira vista, o vinho pode não parecer tão essencial ao seder quanto, digamos, o cordeiro ou o pão ázimo. Na verdade, ele não aparece nas rubricas prescritas pela Torá. Os historiadores acreditam que os quatro cálices de vinho foram acrescentados depois a fim de sublinhar o sentido festivo do banquete — ‘vinho para alegrar o coração do homem’ (Sl 104, 15).” (Scott Hahn. The Fourth Cup. New York: Image, 2008, pp. 107-108. A nota e a tradução são nossas.)

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Como ser ou escolher um bom padrinho de batismo?
Espiritualidade

Como ser ou escolher
um bom padrinho de batismo?

Como ser ou escolher um bom padrinho de batismo?

Se você foi convidado a ser padrinho, ou está à procura de um para o seu filho, lembre-se: este é um papel que deve ser levado muito a sério. As ações de um bom padrinho podem fazer, de fato, uma diferença eterna na nossa vida e na de nossos filhos.

Woodeene Koenig-BrickerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Ser padrinho é uma daquelas honras e responsabilidades, não tão bem compreendidas, que alguns de nós somos chamados a assumir em nome de crianças, da família e de amigos. Embora possamos estar dispostos, nem sempre sabemos o que significa ser padrinho.

O papel do padrinho se desenvolveu a partir do catecumenato da Igreja primitiva. Sua função era garantir que uma pessoa estivesse pronta para receber os três sacramentos de iniciação — Batismo, Eucaristia e Confirmação — e, depois, ajudá-la a viver a vida cristã. Foi no início da Idade Média, quando o batismo de crianças se estabeleceu firmemente, que se popularizou o termo patrinus, ou “padrinho”; na Igreja antiga, essas pessoas também eram chamadas de sponsores, offerentes, susceptores e fidejussores — termos latinos que significam, em suma, “patronos” ou “testemunhas” [1].

A Igreja primitiva sabia que um padrinho tinha uma função prática bem definida; hoje, porém, ser padrinho é visto muitas vezes como uma honra cerimonial (por exemplo, quando Bono Vox, da banda de rock U2, foi nomeado “padrinho” dos gêmeos de Brad Pitt e Angelina Jolie, crianças que provavelmente jamais verão o interior de uma igreja, muito menos serão batizadas ou confirmadas). O padrinho é visto ora como uma fada madrinha da vida real, que serve para dar presentes em ocasiões especiais, ora como uma espécie de tutor civil, encarregado de assumir a educação da criança no caso de os pais biológicos morrerem.

Na verdade, nada disso tem a ver com a função real de um padrinho. Essencialmente, um padrinho é quem ajuda e auxilia no desenvolvimento espiritual de uma criança (às vezes de um adulto convertido que é uma “criança” na fé). Como diz o Código de Direito Canônico: “Dê-se, quanto possível, ao batizando um padrinho, cuja missão é assistir na iniciação cristã ao adulto batizado, e, conjuntamente com os pais, apresentar ao batismo a criança a batizar e esforçar-se por que o batizado viva uma vida cristã consentânea com o batismo e cumpra fielmente as obrigações que lhe são inerentes” (Cân. 872).

Certos requisitos e responsabilidades com relação aos padrinhos devem ser cumpridos de acordo com a lei da Igreja [2], mas ainda permanece uma pergunta prática: o que faz um bom padrinho?

“O Batismo”, de Pietro Longhi.

Em primeiro lugar, um padrinho deve ser uma pessoa de fé profunda. Sua responsabilidade é ajudar a desenvolver e estabelecer a fé no afilhado. Por isso, é essencial que ele entenda a doutrina católica e viva a fé diariamente, de maneira pessoal e profunda. Você não pode transmitir aquilo em que não acredita total e completamente. Não basta conhecer a fé; um padrinho deve vivê-la. Isso significa ter o hábito de assistir à Missa aos domingos e observar as leis da Igreja. Mas significa também ser comprometido com o próprio crescimento espiritual, de maneira contínua através do estudo, da oração, dos sacramentos e das obras de misericórdia corporais e espirituais.

Um bom padrinho também está, na medida do possível, envolvido positivamente na contínua experiência de fé do afilhado. Isso não significa apenas estar fisicamente presente no batismo ou na confirmação, mas assumir um papel tão ativo quanto na preparação para a primeira confissão e a primeira comunhão, bem como, mais tarde, para o matrimônio ou as Ordens sagradas. Isso significará, no mais das vezes, um encorajamento, um apoio ou um entusiasmo ao próprio afilhado; nos casos, porém, em que os pais não puderem ou não levarem o filho à catequese, ou não o acompanharem na preparação para os sacramentos, os padrinhos precisam estar dispostos a intervir de maneira mais incisiva.

À medida que as crianças crescem, comemorar o dia do batismo e/ou da confirmação com uma ligação, uma visita, um cartão ou um presente apropriado pode ajudar a manter intactos esses laços espirituais. Em suma, um bom padrinho caminha ao longo de toda a jornada da com o afilhado, não apenas em seus primeiros passos ou nas comemorações.

Um padrinho pode ser particularmente valioso ao oferecer uma referência segura para discutir dúvidas e resolver perguntas, sobretudo quando os afilhados chegam à adolescência. Os pais, naturalmente, ficam nervosos quando os filhos começam a questionar os ensinamentos da Igreja em temas morais. Um padrinho pode ser a pessoa que ouvirá e falará sobre tais questões, emocionalmente pesadas, sem entrar na defensiva ou na ofensiva. Os adolescentes podem achar mais fácil discutir com outra pessoa assuntos como a doutrina da Igreja sobre o sexo fora do casamento, a contracepção, a homossexualidade etc., embora questões sobre a divindade de Jesus, o significado da salvação e a importância de ser católico sejam também pontos importantes de discussão com um padrinho.

Outra área em que um bom padrinho pode fazer a diferença é na exposição aos sacramentais e às práticas devocionais. Embora não seja necessário sobrecarregar os afilhados com quinquilharias religiosas, garantir que eles tenham um Rosário digno, uma medalha do santo padroeiro, uma Bíblia católica e um crucifixo é certamente um dever importante dos padrinhos.

O mesmo se aplica às devoções. Garantir que os afilhados saibam rezar o Rosário, dizer as estações da Via-Sacra e conhecer os santos, as novenas e as práticas sazonais de piedade, como a coroa do Advento, são outras maneiras de os padrinhos serem proativos na vida dos afilhados, sem correr o risco de serem invasivos.

Obviamente, tudo isso supõe que o padrinho more perto o bastante do afilhado, a ponto de poder estar presente com certa regularidade, o que nem sempre é o caso na sociedade móvel de hoje. É por isso que o ato mais importante de um padrinho em favor do afilhado é a oração regular e constante. Como disse o poeta Alfred Tennyson: “Mais coisas são feitas pela oração do que este mundo pode sonhar”. Embora seja verdade que os pais são os principais mestres na fé, os padrinhos podem fazer uma enorme diferença em como essa fé lança raízes, ao encomendarem na oração os seus afilhados.

Se você for convidado a ser padrinho (ou estiver pensando em escolher um), lembre-se de que esse papel deve ser levado a sério, pois as ações de um bom padrinho podem fazer, de fato, uma diferença eterna na vida de uma criança.

Notas

  1. Este parágrafo foi adaptado para explicar com mais clareza a origem da função dos padrinhos. Sua complementação foi retirada de: William Fanning, “Baptism”. The Catholic Encyclopedia, 1907.
  2. A esse respeito, ler o que diz o Código de Direito Canônico, Cân. 874, § 1: “Para alguém poder assumir o múnus de padrinho requer-se que: 1.º seja designado pelo próprio batizando ou pelos pais ou por quem faz as vezes destes ou, na falta deles, pelo pároco ou ministro, e possua aptidão e intenção de desempenhar este múnus; 2.º tenha completado dezesseis anos de idade, a não ser que outra idade tenha sido determinada pelo Bispo diocesano, ou ao pároco ou ao ministro por justa causa pareça dever admitir-se exceção; 3.º seja católico, confirmado e já tenha recebido a santíssima Eucaristia, e leve uma vida consentânea com a fé e o múnus que vai desempenhar; 4.º não esteja abrangido por nenhuma pena canônica legitimamente aplicada ou declarada; 5.º não seja o pai ou a mãe do batizando.”

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Por que Jesus morreu na casa dos trinta?
Doutrina

Por que Jesus
morreu na casa dos trinta?

Por que Jesus morreu na casa dos trinta?

Deus não faz nada de modo arbitrário. Por isso, até mesmo detalhes aparentemente menores nas Escrituras têm algo a nos ensinar. Por que, então, Jesus morreu com trinta e poucos anos, e não antes nem depois?

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Por que Cristo morreu com trinta e poucos anos, e não mais velho? Isso daria a Ele mais tempo para ensinar e estabelecer a Igreja. Santo Tomás de Aquino respondeu a essa questão da seguinte maneira:

Deve-se dizer que Cristo quis sofrer em idade jovem por três razões. Primeiro, para que nisto manifestasse mais sua caridade, pois deu sua vida por nós quando estava no estado mais perfeito. Segundo, porque não convinha que nele aparecesse <nenhuma> deficiência [diminutio] de natureza, como tampouco doença, como acima foi dito. Terceiro, para que, morrendo e ressuscitando em idade jovem, Cristo mostrasse em si mesmo, por antecipação, a qualidade dos que hão de ressuscitar. Daí que se diga em Ef 4, 13: “Até que cheguemos todos juntos à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura de Cristo em sua plenitude” (STh III 46, 9 ad 4).

Especulações como essas parecem puramente arbitrárias. Outros consideram o raciocínio uma justificação post hoc: Cristo morreu aos 33 anos, então vamos inventar algo para tentar explicá-lo.

O raciocínio de S. Tomás, porém, não se baseia em meras especulações. Há premissas para o seu raciocínio.

Primeiro, está a premissa de que Deus não faz nada arbitrariamente, e fazemos bem em admitir que até mesmo detalhes aparentemente menores nas Escrituras (como, por exemplo, a hora do dia) têm algo a nos ensinar.

Outra premissa é baseada na natureza da perfeição. A perfeição pode ser prejudicada por excesso ou insuficiência. Considere o caso da idade: um jovem pode não ter maturidade física e intelectual (nesse caso, a juventude é uma “insuficiência” de idade); mas chega um momento em que a idade se torna problemática em outra direção, à medida que o tempo afeta o corpo, e a mente torna-se menos perspicaz (nesse caso, a velhice é um “excesso” de idade). Assim, há um período de tempo em que a idade está na faixa “perfeita”: não é prejudicada nem por excesso nem por insuficiência.

Na época de S. Tomás, os trinta anos eram considerados a época da perfeição. Pode-se dizer que ainda é assim, embora pareça que levamos muito mais tempo para atingir a maturidade intelectual e emocional nos dias de hoje.

S. Tomás observa que, porque Jesus morreu no auge da vida, o sacrifício foi maior. Sua aparente falta de doenças e imperfeições físicas também aumentou a dimensão de seu sacrifício. Isso nos serve de exemplo. Devemos oferecer a Deus em sacrifício aquilo que temos de melhor, não apenas os nossos trapos ou coisas das quais poderíamos dizer: “Isso serve”. O Senhor uma vez lamentou, por meio do profeta Malaquias:

Se ofereceis em sacrifício um animal cego, não haverá mal algum nisto? E, se trazeis um animal coxo e doente, não vedes mal algum nisto? Vai, pois, oferecê-lo ao teu governador; crês que lhe agradarias, que ele receberia bem? — diz o Senhor dos exércitos (Ml 1, 8).

Portanto, o que para alguns pode parecer um simples detalhe (a idade de Jesus), na verdade proporciona ensinamentos importantes para a alma perspicaz. Cristo deu tudo de si, o melhor e o fez quando estava no auge da vida. Nós também somos chamados a crescer em perfeição.

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Beato Carlos, o Imperador da Paz
Santos & Mártires

Beato Carlos, o Imperador da Paz

Beato Carlos, o Imperador da Paz

Seu desejo de paz, infelizmente, não foi correspondido pelos chefes de Estado de sua época. Mas o Beato Carlos da Áustria não deixou de buscá-la jamais, tanto na vida quanto na morte. Por isso, mesmo os seus inimigos se lembram dele como “o Imperador da Paz”.

Denis KitzingerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).

Carlos I (1887-1922), imperador da Áustria e rei da Hungria, despediu-se da esposa, a imperatriz Zita. “Vou te amar para sempre”, declarou, assim como fizera onze anos antes, quando se casaram. Em seguida, chamou o primeiro filho, Otto, para “testemunhar como um católico e um imperador se comporta quando morre”. O imperador recebeu a Extrema Unção e pronunciou suas últimas palavras: “Faça-se a vossa santa vontade. Jesus, Jesus, vinde! Sim, sim. Meu Jesus, seja feita a vossa vontade. Jesus”.

Carlos morreu no exílio. Em 1919, a nova República da Áustria baniu o imperador de sua terra natal, por decreto das detestáveis Leis de Habsburgo. Após duas tentativas fracassadas de recuperar o trono da Hungria, ele foi exilado em Portugal pelas potências da Entente. A família residia numa casa de montanha na ilha da Madeira. Em março de 1922, o imperador contraiu um forte resfriado que logo evoluiu para pneumonia por causa da casa fria e úmida. Com o pensamento sempre voltado para o bem de seu povo, Carlos ofereceu sua doença e seu sofrimento em sacrifício pela paz e a unidade de suas terras: “Devo sofrer assim para que meu povo esteja unido”. Carlos I, imperador da Áustria e rei da Hungria, morreu no dia 1.º de abril de 1922, com trinta e cinco anos de idade.

Seis anos antes, o reinado de Carlos começara com o funeral de seu tio-avô, o imperador Francisco José (1830-1916). No nascimento de Carlos, poucos pensavam que um dia ele herdaria o trono. Um sobrinho-neto estava simplesmente muito distante na linha de sucessão.

Assim, o jovem príncipe recebeu pouca atenção pública. Ao crescer, tornou-se um rapaz encantador, dedicado a quaisquer que fossem as suas tarefas, caridoso sempre, reverente e piedoso. Ele adorava brincar de soldado, sua futura vocação. “Sua maior alegria”, porém, “foi poder ser coroinha”, relembrou seu tutor. Desde muito jovem, Carlos teve uma devoção especial e perpétua à Santa Eucaristia e ao Sagrado Coração.

Em 1900, Carlos repentinamente se viu em segundo lugar na linha de sucessão ao trono. Ele tinha apenas treze anos. Seu tio, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro direto do trono, decidira casar-se com alguém abaixo de sua posição (sua esposa era uma mera condessa), e seus filhos, consequentemente, foram excluídos da sucessão imperial. Deu-se então prioridade ao casamento de Carlos com a princesa Zita de Bourbon-Parma, que compartilhava o mesmo amor à vida familiar e ao ar livre. Depois do casamento, Carlos disse-lhe: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu”. O casal foi abençoado com oito filhos durante os dez anos de uma vida matrimonial feliz e exemplar.

Cinco anos depois, Carlos liderou a grande procissão fúnebre da Catedral de Santo Estêvão até a Cripta Imperial de Viena (ou Cripta dos Capuchinhos), onde os membros da Casa de Habsburgo eram colocados para o repouso. O arcebispo de Viena, juntamente com outros quatro cardeais, vinte bispos e quarenta e oito padres, celebrou a Missa de exéquias de Francisco José. Milhares se enfileiraram nas ruas de Viena, observando a procissão passar, prestando homenagens e demonstrando afeto pelo velho imperador. O reinado de Francisco José, que tinha sessenta e oito anos, fez dele um símbolo de estabilidade e continuidade. Com a morte dele, um novo período da história da Áustria-Hungria começou, e seu futuro agora estava nas mãos do inexperiente sobrinho-neto de 26 anos.

A época em que Carlos ascendeu ao trono não era feliz. A terrível Grande Guerra assolara a Europa por dois anos. Ele herdou um império internamente multiétnico, dilacerado pelo fanatismo nacionalista e em necessidade desesperada de reformas políticas e sociais, sofrendo com a miséria e a pobreza generalizadas, agravadas ainda com a guerra.

Desde o início, Carlos concebeu seu ofício “como um serviço sagrado ao seu povo”, e sua principal preocupação era “seguir a vocação cristã à santidade”. O arcebispo de Budapeste, que coroou Carlos como rei da Hungria, recordou que “não era a ornamentação nem a pompa que lhe interessava, era apenas o dever que cumpria perante Deus, perante a nação e perante a Igreja. Ele desejava ser digno daquilo para o qual fôra escolhido”. Diante do altar-mor da magnífica igreja de Matias Corvino, em Budapeste, Carlos comprometeu-se a trabalhar incansavelmente pela paz e justiça em seu reino.

Em sua primeira declaração, sublinhou seu compromisso com este dever sagrado, declarando que faria “tudo para banir, no menor tempo possível, os horrores e sacrifícios da guerra e para reconquistar para meu povo a bênção perdida da paz”.

Em seu compromisso com a paz, seguiu os esforços do Papa Bento XV. O Santo Padre pediu uma paz sem vencedores. Mas a proposta da Santa Sé encontrou ouvidos moucos em todos os lugares, exceto em Viena. Entre os estadistas europeus, Carlos ficou sozinho.

A guerra começou com a animada partida das tropas, certas de uma vitória rápida. Em 1916, um número incontável de filhos da Europa havia caído na implacável Guerra de Trincheiras. A tragédia que desencadeou a cadeia de eventos que levaram à eclosão da desastrosa guerra foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, Sofia, em Sarajevo, por um terrorista sérvio. Por ironia, Francisco Ferdinando era particularmente simpático aos eslavos do sul e à busca por uma Iugoslávia unida. Além disso, seus planos inovadores para a reforma imperial prometiam às nações menores dentro do império um grau sem precedentes de independência e autonomia.

Carlos também reconheceu a necessidade de reorganização interna e previu sabiamente o futuro da monarquia de acordo com os princípios federalistas. Após sua ascensão, ele iniciou uma série de reformas sociais criticamente necessárias e preparou o caminho para uma federação de nações, unidas por sua lealdade à Casa de Habsburgo com base no reconhecimento de benefício e interesse mútuos. Essa constituição tradicional serviria tanto às nações menores quanto ao império e, assim, proporcionaria o equilíbrio de poder europeu. A identidade e cultura de cada nação seriam devidamente reconhecidas e respeitadas em uma verdadeira unidade na diversidade.

No entanto, a política genuinamente europeia da Casa de Habsburgo entrou em conflito com visões menos judiciosas e rivais de uma nova ordem europeia. O jovem e ambicioso Império Alemão e seu imperador, Guilherme II, marcharam por um lugar ao Sol à frente de uma Europa Central germânica. Embora as democracias ocidentais favorecessem a ideia de um Estado-nação organizado de acordo com a forma republicana de governo, elas não procuraram quebrar o Império Austro-Húngaro, ao menos de início. Quando os Estados Unidos entraram na guerra ao lado da Entente, seguindo a retórica poderosa de Woodrow Wilson, as potências ocidentais perseguiram rigorosamente a visão de uma Europa do pós-guerra sem monarquias nem impérios. A Guerra para acabar com todas as guerras chegaria ao clímax de uma paz permanente, com a realização de uma Europa de repúblicas democráticas baseada no princípio progressivo da autodeterminação nacional.

Nos primeiros meses de 1917, Carlos deu os primeiros passos concretos para a realização de uma paz sem vencedores. Ele ofereceu concessões de longo alcance. Infelizmente, para a Europa e para o mundo, os poderes da Entente não podiam ser influenciados. No final, a ideia mal concebida de autodeterminação nacional, juntamente com o desprezo por políticas antigas apresentadas na conferência de paz de Versalhes, apenas preparou o solo para a próxima catástrofe.

A política de paz de Carlos teria sido a escolha mais prudente. Na época, porém, seu desejo de paz não foi correspondido. A Alemanha embotou seus esforços. A Entente recusou suas ofertas. A paz, aquele “belo dom de Deus, cujo nome […] é a palavra mais doce aos nossos ouvidos e a melhor e mais desejável posse” (Bento XV, 1920), Carlos não a alcançou.

E no entanto, mesmo os seus inimigos republicanos, compatriotas, se lembram dele como o Friedenskaiser, o Imperador da Paz. Ao meditar sobre a vida do bem-aventurado imperador Carlos, temos um exemplo encorajador de fé. Lembramos que a justa medida está profundamente ancorada na fé. Lembramos que só podemos ordenar bem a nós mesmos e ao mundo à nossa volta quando unimos nossa vontade à do Pai do céu e, assim, abandonamos toda a inimizade entre Deus e nós. Somente quando nos reconciliarmos com Deus e lutarmos para permanecer em paz com Ele poderemos lutar genuinamente pela paz na terra. Como imperador e rei, Carlos sempre procurou imitar Jesus, o verdadeiro Salomão, o verdadeiro portador da paz, e por isso pode ser chamado um filho de Deus.

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