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Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice
Espiritualidade

Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice

Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice

Será terrível vermos, apontadas por nosso mais íntimo companheiro celeste, as omissões e negligências que permitimos ou que diminuíssem a nossa glória no Céu ou que, ai de nós, nos condenassem ao fogo eterno.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Outubro de 2019Tempo de leitura: 10 minutos
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O mês de outubro, além de ser dedicado ao Santo Rosário, pede também uma meditação especial sobre os Santos Anjos, pois no último dia 2 celebrou-se a memória dos Santos Anjos da Guarda, e hoje, dia 24, o calendário litúrgico antigo prevê uma festa em honra de São Rafael Arcanjo (agora transferida, juntamente com a memória de São Gabriel, para 29 de setembro).

Mas a reflexão sobre a existência e o ministério desses espíritos é atemporal; e ela é importante, sobretudo, para desfazer a imagem distorcida a seu respeito que, em tempos de confusão doutrinal como os nossos, tantas pessoas acabam criando. Muitas vezes, na literatura a respeito desses grandes amigos que Deus colocou ao nosso lado, falta consistência, justamente porque falta a fé da Igreja. Os anjos, então, desconectados de uma tradição cristã de dois mil anos, ou se tornam uma fábula, porque se deixa de acreditar neles, ou são tidos como “criaturas de estimação”, “anjinhos” que “domesticamos” com um nome e podemos até transformar numa espécie de “cúmplices” de nossas misérias e desleixos (falaremos melhor disso a seguir).

Contra essas imagens equivocadas, é urgente recorrer à doutrina da Igreja e a uma boa teologia. Para este texto específico, contentemo-nos com estas breves linhas do Pe. Royo Marín, reproduzindo uma lição do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino:

Os anjos são chamados a juízo por causa dos pecados dos homens, não como réus — pois não têm culpa alguma dos pecados de seus protegidos —, mas como testemunhas, para convencer os homens de sua própria culpa e negligência [1].

Comecemos por nos imaginarmos, diante do tribunal de Deus, tendo a nosso santo anjo custódio por “testemunha”. Normalmente, nos tribunais humanos, quando uma pessoa é chamada a ser testemunha, ela o é ou da parte autora ou da parte ré, a fim de convencer o juiz ou da culpa do réu ou de sua inocência. No tribunal divino, porém, não acontece assim. Primeiro, porque a sentença já estará definida. Deus é o Juiz sumamente justo, a própria Justiça, e o seu julgamento é plenamente conforme à verdade. Não há o que mudar, nem matéria de que apelar. Deus não precisa ser “convencido” da inocência ou da culpa de ninguém. Antes, é a nós que será mostrado, em minúcias, o que fizemos ou deixamos de fazer nesta vida que acarretou ou a nossa salvação ou a nossa condenação eterna. Seremos nós os “convencidos” da sentença justíssima a ser aplicada, ou contra nós ou a nosso favor.

Os santos anjos deporão, portanto, pela verdade. Estarão ao nosso lado, sim, se tivermos sido fiéis a ela; mas estarão contra nós, também, se a tivermos traído. 

Assim, se tivermos a graça de nos salvar, eles nos mostrarão todas as vezes que procuraram nos iluminar com suas santas inspirações (e que nós pensávamos ser ideias nossas!) e como isso foi providencial para a nossa salvação. O Pe. Royo Marín, refletindo sobre essa iluminação que os santos anjos exercem continuamente sobre os homens, escreve: “Quantas vezes o homem não se surpreende com rajadas de luz divina sobre as coisas que deve crer e fazer, sem advertir que elas lhe advêm de seu anjo custódio, que permanece sempre ao seu lado!” [2]. 

Se viermos a nos condenar, todavia, eles também nos mostrarão a nossa maxima culpa, a nossa resistência às suas inspirações e a nossa ignavia

Queremos dar uma especial atenção à ideia transmitida por essa palavra, usada por Santo Tomás, e que os tradutores portugueses normalmente vertem para “negligência”, por ser uma expressão mais conhecida (embora a palavra “ignávia” também exista em nossa língua). As duas traduções são boas, mas, para os fins desta meditação, talvez fosse interessante recorrer a um sinônimo mais próximo de nossa linguagem litúrgica: o termo “omissões”, que foi acrescentado recentemente à oração do Confiteor, rezada no ato penitencial da Santa Missa: “Confesso… que pequei muitas vezes, por pensamentos e palavras, atos e omissões”. 

Com esse feliz acréscimo realizado pela reforma litúrgica pós-conciliar, a Igreja colocou-nos diante dos olhos uma realidade à qual não costumamos dar muita atenção. Os exames de consciência para Confissão geralmente não falam das omissões. Não estamos habituados a pensar que podemos nos condenar por causa delas. Na verdade, associamos a omissão normalmente à salvação: se nos salvarmos, será por não termos roubado, por não termos matado, por não termos cometido pecados mortais… Entretanto, se nos atentarmos ao Evangelho, veremos que esse é um modo muito míope de enxergar a nossa vida moral.

Para demonstrar o mal e o perigo terrível que há nas omissões, Nosso Senhor amaldiçoou a figueira estéril (cf. Mt 21, 18–22), ilustrando como, se não dermos frutos de caridade, nossa fé será morta (cf. Tg 2, 26). Ao contar a parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14–30), Ele chamou de “mau e preguiçoso” o servo que enterrou o seu talento, e condenou-o às trevas exteriores justamente por não ter feito nada. Narrando como será o Juízo Final, Ele disse ainda que porá os cabritos à sua esquerda, e os condenará ao Inferno não por algo que tenham feito, mas pelo que deixaram de fazer: “Tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes” (Mt 25, 42–43).

Ou seja, há uma obra a ser realizada para que cheguemos ao Céu. Deus não nos deu a sua graça, os sacramentos, a pertença à Igreja, para que ficássemos ociosos. Não recebemos os “talentos” de suas mãos — que são as graças com que Ele nos cumula ao longo da vida — para os colocarmos debaixo da terra. Não podemos ficar preocupados só com a parte negativa dos Mandamentos; precisam mover-nos também os seus preceitos de ação, os deveres positivos de nosso estado de vida, os conselhos evangélicos, que devemos procurar seguir ao menos em espírito

Tome-se como exemplo o terceiro mandamento: “Guardar domingos e festas de guarda”. Complementando esse preceito, a Igreja nos ordena ir à Missa aos domingos, sob pena de cometermos pecado mortal. Nosso Senhor em lugar algum dos Evangelhos falou disso, é verdade, mas Ele disse aos Apóstolos: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16), e ainda: “Tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu, e o que desligardes na terra, será desligado no céu” (Mt 18, 18). Ou seja, Ele deu à Igreja o poder de fazer suas vezes aqui, fazendo leis e mandando que as cumpramos. Portanto, com o poder das chaves, está definido: deixar de ir à Santa Missa no domingo é coisa grave que, cometida com plena advertência e consentimento, leva ao Inferno. (A menos que haja um motivo razoável para essa ausência [3], para estar de novo em comunhão com Deus e com a Igreja é preciso confessar-se. Do contrário, não podemos aproximar-nos da Sagrada Comunhão.)

A esse respeito, mui concretamente, o que nos será mostrado no juízo por nossos santos anjos? 

Eles nos convencerão, diz o Aquinate, da nossa ignávia, da nossa preguiça, do nosso desleixo. Por um lado, veremos como eles nos colocavam, a nós e a nossas famílias, sob a sombra de suas asas, conduzindo-nos toda semana à casa do Senhor; veremos também como tantos obstáculos para cumprirmos esse dever eram justamente as ocasiões que precisávamos vencer para mantermos de pé a nossa casa… Por outro lado, os anjos também nos mostrarão como tiveram sua missão frustrada por causa de nossa soberba, quando passamos a dar ouvidos aos demônios e fomos pouco a pouco abandonando a Igreja, com argumentos sutis como: “Religião não salva ninguém”, ou: “Deus não vai me condenar porque eu não vou à igreja” (como se quem deixasse um mandamento também não fosse, lenta e gradualmente, descumprindo os outros…).

Mas a ausência na Missa dominical é apenas um exemplo das omissões que condenam. Com que remorsos pais e sacerdotes não verão no Céu as suas negligências, causas que foram da condenação de seus filhos biológicos e espirituais! Com que tristeza não verão como a falta de correção, a falta de atenção e cuidados, a falta de catequese, a falta de oração, levaram suas famílias e paróquias à falta de fé e à ruína do Inferno! Com que horror os preguiçosos não verão como a perda de tempo, a ociosidade e a inércia foram, pouco a pouco, conduzindo-os aos pecados mais graves até afastá-los definitivamente da graça! 

Não pensemos, todavia, só nas negligências graves, mas também nas outras tantas que nos conduzirão a um Purgatório mais ou menos prolongado. Pensemos em todas as brincadeiras torpes que fizemos e deixamos que se fizessem ao nosso redor, não nos atentando à palavra de Nosso Senhor: “No dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12, 34). Pensemos na grande omissão de não termos corrigido com cuidado nossos próprios defeitos e “malandragens”, na negligência terrível de não termos correspondido ao amor heroico que Deus queria de nós...

Pensemos nisso tudo e convençamo-nos: nosso anjo deporá contra nós no último dia. Neste dia final, acabam-se as desculpas, não há “jeitinho brasileiro” nem forma de ocultar a nossa vergonha. Ali tudo será exposto, e não só nossas omissões, mas também nossos pensamentos, palavras e atos. Porque nosso anjo da guarda, fiel e justo, foi colocado ao nosso lado para ser nosso amigo, e não nosso “cúmplice”

“Parceiro no crime” é o demônio. Mas quem o tiver por companheiro aqui, infelizmente, tê-lo-á presente do outro lado. Porque é certo que, no justíssimo juízo de Deus, diferentemente do que acontece nos tribunais humanos, os que foram parceiros no crime, também o serão na pena.

Se isso vier a acontecer, nossos anjos da guarda permanecerão no Céu, contemplando a Deus face a face por toda a eternidade; nós, porém, pereceremos. É o que confirma o jesuíta Pe. Augusto Ferretti, em seu excelente livro sobre Os Santos Anjos da Guarda (pp. 26-27): 

Se nós mesmos não cooperamos com Deus e os seus santos e anjos, de nada nos servirá que estejam a nosso dispor, no Céu, inumeráveis exércitos de espíritos bem-aventurados. [...] O regime e o governo dos anjos, sobre nós, têm portanto que se conformar com a nossa natureza de seres livres. Eles cooperam conosco, dão-nos a mão, facilitando o caminho, quando pelo bom caminho é que queremos andar. Os anjos da guarda são como executores da Divina Providência com respeito aos homens, diz S. Tomás: Custodia Angeli est quaedam executio divinae Providentiae, circa homines facta (STh I, 113, 6 c.). Donde se segue que, assim como a Divina Providência não exclui o exercício do livre-arbítrio, nem nos necessita fisicamente a evitar o pecado, assim também não é tal coisa que havemos de esperar do ministério dos anjos junto de nós. É portanto inescusável desídia a de quem, sabendo que vive constantemente lado a lado com um anjo de Deus, vive e morre em pecado. O mesmo anjo que lhe devia ser auxílio, luz, proteção, torna-se-lhe testemunha e acusador no tribunal de Deus.

“Muito bem, agora só falta falar das coisas boas que os anjos testemunharão em favor dos justos…”. É verdade, mas o leitor terá de me perdoar esta omissão, que faço questão de manter. Pois este texto é um convite, feito a pecadores, para um exame de consciência. E a pecadores como nós o que cabe é a penitência, o arrependimento, as lágrimas e a preocupação. 

Faz muito bem, sim, pensar na alegria de ser recebido no Céu e reinar eternamente com os anjos. Mas também é muitíssimo salutar pensar no Purgatório e no Inferno, e em como será terrível vermos, apontadas por nosso mais íntimo companheiro celeste, as omissões e negligências que, por nossa culpa, permitimos ou que diminuíssem a nossa glória no Céu ou que, ai de nós, nos condenassem ao fogo eterno.

É para agirmos, é para despertarmos do nosso sono letárgico que precisamos escutar todas essas coisas. Nossos anjos custódios nos querem junto de si! Mas, se não tivermos Deus, a quem eles amam mais do que tudo, seremos separados desses nossos amigos para sempre... Pois só podem ter o mesmo destino os que amam as mesmas coisas.

Referências

  1. Pe. Antonio Royo Marín, Dios y su obra, Madri: BAC, 1963, p. 411; cf. STh I 113, 7 ad 4.
  2. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., p. 405.
  3. Cf., a esse respeito, Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, Madri: BAC, 1996, p. 392.

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O mundo teme a morte, mas os católicos devem se lembrar dela
Espiritualidade

O mundo teme a morte, mas
os católicos devem se lembrar dela

O mundo teme a morte, mas os católicos devem se lembrar dela

És tentado a pecar? Pensa na tua morte. Em breve, esse prazer efêmero não significará nada. Logo vais te arrepender de ter buscado um prazer momentâneo e abandonado a vida eterna.

Timothy FlandersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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Talvez não exista hoje verdade mais evitada, reprimida e veementemente ignorada do que a realidade da morte. O homem moderno é consumido satisfazendo como um escravo às próprias paixões, autoproclamando-se livre e banindo absolutamente o pensamento de que um dia morrerá. Para evitar até a menção ao termo “morte”, ele recorre constantemente a palavras como “macabro” e “mórbido”. Apesar disso, ele está disposto a “matar” qualquer um que atrapalhe sua escravidão às paixões. A devassidão na qual ele se encontra mantém sua visão alheia a tudo, exceto à própria escravidão. Ele não consegue enxergar a única coisa no futuro que ele jamais poderá evitar ou negar.

Poder-se-ia argumentar razoavelmente que o declínio histórico da piedade religiosa está correlacionado com o declínio da morte por doenças e com os avanços modernos em tecnologia e conforto que obscurecem a realidade da morte. Quando um homem pode ignorar a morte, ele pode ignorar Deus.

Contudo, pela graça de Deus, nenhum homem consegue ignorar a morte para sempre. Eventualmente um ente querido morre, ou alguém contrai câncer ou outra doença grave, de modo que o ser humano fica face a face com a morte, aquela de quem ele se esquivou, de forma astuta, por toda a vida. Então ele será confrontado com essa dura realidade. Quem sabe, nesse momento, ele enfrente as perguntas difíceis da existência, volte-se para Deus e olhe para a própria vida.

São Francisco de Sales apresenta uma relevante meditação sobre a morte:

Grava bem em teu espírito que então para ti já não haverá mundo, vê-lo-ás perecer ante teus olhos; porque então os prazeres, as vaidades, as honras, as riquezas, as amizades vãs, tudo isso se te afigurará como um fantasma, que se dissipará ante tuas vistas. Ah! Então haverás de dizer: por umas bagatelas, umas quimeras, ofendi a Deus, isto é, perdi o meu tudo por um nada. Ao contrário, grandes e doces parecer-te-ão então as boas obras, a devoção e as penitências, e haverás de exclamar: Oh! Por que não segui eu esta senda feliz? Então, os teus pecados, que agora tens por uns átomos, parecer-te-ão montanhas e tudo o que crês possuir de grande em devoção será reduzido a um quase nada [1].

Já Santo Afonso Maria de Ligório lamenta a situação daqueles que morrem em pecado:

Os pecadores, diz o Senhor, Me viraram as costas por amor às criaturas: “Voltaram-me as costas em lugar de voltarem para mim a face; porém no tempo da sua aflição dizem: Levanta-te [Senhor] e livra-nos. Onde estão os teus deuses [direi eu então] que fabricaste para ti? Levantem-se, se te podem livrar” (Jr 2, 27). Dirá deste modo o Senhor, porque a Ele recorrerão, mas sem o verdadeiro espírito de conversão [2].

Quanto a ti, leitor, não permitas que a morte te surpreenda em situação de pecado. A lembrança da morte é a recordação da realidade última. Prepara-te agora para o destino de toda a carne. Ouve as palavras dos mortos: Fui o que és, sou o que te tornarás [3].

Recordar a própria morte por quê?

O Frei Bergamo destaca que:

A morte é a melhor mestra da verdade, e o orgulho — nada mais que uma ilusão de nosso coração — apega-se à vanglória disfarçada; por isso, a morte é o melhor meio para aprendermos o que é a vanglória e como separar nossos corações dela [4].

Estás com raiva de teu irmão por ele ter te insultado? Considera a tua morte. O que acontecerá com esse insulto quando teu corpo estiver apodrecendo na sepultura e tua alma aparecer diante do Tribunal? Ainda te apegarás à tua raiva? Antes, o Senhor dirá: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai Celeste também vos perdoará” (Mt 6, 14). A morte corta de ponta a ponta tua vaidade, mostrando quão vazia é a glória humana.

Estás aflito com a situação atual da Igreja? Considera a tua morte. O Senhor diz que “aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24, 13). Em breve vais morrer e enfrentar o juízo. O que Nosso Senhor te dirá nesse momento? Pegaste o talento e, por medo, o enterraste (cf. Mt 25, 25)? Ou investiste as graças que te foram concedidas para produzir mérito e salvar as almas? Quando todas essas coisas forem arrancadas de ti, saiba que tua morte está próxima.

A peça do século XV intitulada Everyman mostra, de forma belíssima, que, na hora da morte, o ser humano não pode receber parentes, amigos, bens ou força. Somente as boas obras podem ser apresentadas ao tribunal de Cristo. A morte possibilita a visão clara da realidade. Ela permite que se veja quão efêmero é o bem-estar proporcionado pelas coisas criadas, a ponto de sugerir que toda a esperança humana seja depositada no Incriado. A morte nos mantém a salvo de mentiras, vaidades e, acima de tudo, do próprio pecado.

És tentado a pecar? Considera a tua morte. Em breve, esse prazer efêmero não significará nada. Logo vais te arrepender de ter buscado um prazer momentâneo e abandonado a vida eterna. Tal deleite durará apenas um instante, enquanto a eternidade é para sempre, nem sequer está sujeita ao tempo. Não ouças o diabo, que lhe diz: “Pouco importa. Amanhã tu te confessas”. Em vez disso, ouve Nosso Senhor, que te diz: “Insensato! Nesta noite ainda, exigirão de ti a tua alma” (Lc 12, 20). E, novamente: “Vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora” (Mt 25, 13). A lembrança da morte leva à vitória sobre todo pecado.

Como meditar sobre a morte?

Como a sociedade moderna está inclinada a que todos neguem a própria morte, é extremamente difícil lembrar que tu morrerás. No entanto, essa prática é tão salutar a ponto de causar um rápido crescimento na vida espiritual. Um modo de levá-la a cabo é a lembrança diária, que consiste em te levantares e fazeres tua oferta matutina, considerando que morrerás naquela mesma noite. Diz diante de Deus, no último dia de tua vida:

Lembra-te, ó alma cristã, de que tens este dia para:

A Deus glorificar
A Jesus imitar
Os anjos e santos invocar
Uma alma salvar
Um corpo mortificar
Pecados expiar
Virtudes adquirir
O Inferno evitar
O Céu ganhar
À Eternidade te preparar
O tempo aproveitar
O próximo edificar
O mundo desprezar
Os demônios combater
As paixões subjugar
A morte padecer
E a um juízo te submeter [5].

No final do dia, faz teu exame de consciência, considerando que morrerás naquela noite. Isso te trará verdadeira contrição por teus pecados e mostrar-te-á a vaidade de teres ofendido a Deus por algo insignificante. Reza também o Miserere (Salmo 50).

Quando fores dormir, deita-te de costas e olha para o céu. Imagina teu corpo no leito de morte ou deitado na sepultura. Põe tua esperança, então, na misericórdia de Deus e repete a oração: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, que sou pecador.

Outro método de meditação é a lembrança mensal. Considera que este será teu último mês de vida, e que o último dia deste mês será o teu último neste mundo. Naquela noite, tu vais morrer. Então, olha para tua vida e considera o que tu deves fazer antes da tua morte. Esforça-te em busca da virtude e vence o teu pecado. Pouco antes do último dia do mês, faz um exame de consciência completo. Em seguida, faz tua confissão como se fosse a última antes de morrer. Olha então para a tua cama, considera-a como tua sepultura e invoca a misericórdia de Nosso Senhor:

Ó meu Deus, soberano Senhor da vida e da morte, que, por um decreto imutável para a punição do pecado, determinastes que todos os homens devem morrer, contemplai-me humildemente ajoelhado diante de vossa tremenda Majestade, resignado e submisso a essa lei da vossa Justiça. Com todo o meu coração, detesto meus pecados passados, pelos quais mereci a morte mil vezes; e por esse motivo aceito a morte em reparação pelos meus pecados e em obediência à vossa santa Vontade. Sim, meu Deus, enviai sobre mim a morte onde quiserdes, quando quiserdes e da maneira que quiserdes. Enquanto isso, aproveitarei os dias que me concederdes, para me desapegar deste mundo e romper todos os laços que me mantêm cativo neste exílio, e preparar-me para me apresentar com certa confiança diante do vosso tribunal. Por isso me entrego sem reservas nas mãos da vossa Providência paterna. Que a vossa Divina Vontade seja feita agora e para sempre! Amém.

Essas práticas diárias e mensais vão preparar tua alma para a morte pela qual passarás. Preparar-te dessa maneira, tornará tua morte inevitável uma ocasião não de luto, mas de mérito. Assim, pela graça de Deus, farás o que ensaiaste a vida toda: terás uma boa morte.

Os santos, estes já não se atormentam com aquele profiscere (Parte!) que tanto amedronta aos mundanos. Os santos não se agoniam em ter de deixar os bens desta terra, porque os mantiveram destacados de seus corações. “Deus do meu coração”, repetiram sempre, “Deus meu por toda a eternidade” (Sl 72, 26) [7].

Referências

  1. São Francisco de Sales, Introdução à vida devota. Rio de Janeiro: Vozes, 1958, p. 53.
  2. Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a morte: considerações sobre as verdades eternas (c. VI, 2). Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2018, p. 68.
  3. Este é o ditado latino “Eram quod es, eris quod sum”, que parece ter se originado de autores romanos pré-cristãos, mas foi adotado desde então por vários santos e Ordens católicas.
  4. Fr. Cajetan Mary da Bergamo, Humility of Heart. TAN reprint: 2006, p. 64.
  5. Roman Catholic Daily Missal, Subjects for Daily Meditation. Angelus Reprint: 2004, p. 28.
  6. Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a morte: considerações sobre as verdades eternas (c. VIII, 1). Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2018, p. 81.

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São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria
Santos & Mártires

São Maximiliano: um “cavaleiro
da Imaculada” contra a Maçonaria

São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria

No filme polonês “Duas Coroas”, o diretor Michal Kondrat conta como uma marcha maçônica em plena Praça de São Pedro, em 1917, despertou o ardor missionário em São Maximiliano Kolbe, a ponto de fazê-lo dar a própria vida por amor a Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Em agosto de 1941, um padre franciscano rezava o Rosário e atendia confissões numa das celas de Auschwitz, o terrível campo de concentração nazista, onde milhões de judeus foram vítimas da “solução final”, durante a II Grande Guerra. Ele e outros oito prisioneiros morreriam em poucos dias. Todavia, a morte desse sacerdote católico deixaria, para a história, um valente testemunho de santidade, como cumprimento de uma antiga promessa.

É com esse pano de fundo que o filme polonês “Duas Coroas”, dirigido por Michal Kondrat, narra a história de São Maximiliano Kolbe, o sacerdote católico que pediu a própria morte a um oficial nazista, no lugar de um judeu pai de família. O título da produção refere-se a uma visão do pequeno Maximiliano, quando ainda criança. Conforme a sua biografia, ele teria visto a Virgem Santíssima segurando uma coroa vermelha numa das mãos e uma coroa branca na outra; a vermelha representava o martírio e a branca, a pureza. A Mãe de Deus lhe pedia que escolhesse com qual daquelas joias ele gostaria de ser coroado. E Maximiliano respondeu-lhe: “Eu quero as duas”.

De fato, a vida de Maximiliano Kolbe foi duplamente coroada, com as palmas da pureza e do martírio. Com treze anos de idade, ele ingressou no Seminário dos Frades Menores Conventuais Franciscanos e ali aprenderia as lições fundamentais para o exercício de sua vocação: a castidade, a pobreza e a obediência. Esses três conselhos evangélicos forjariam a sua alma a ponto de formá-lo como um verdadeiro “cavaleiro de Deus”, disposto a empunhar todas as armas necessárias para debelar os erros do pecado e conquistar o prêmio do Céu. Nesse ínterim, a Virgem Maria seria o seu refúgio e inspiração.

“Duas Coroas” mostra o desenvolvimento dessa luta, trazendo informações importantíssimas para a compreensão de nosso personagem, como também uma mensagem clara sobre a sorte da Igreja e dos cristãos nos tempos atuais: quem não estiver ao lado de Maria Santíssima, muito bem enraizado no dogma da fé, na prática das virtudes e na frequência aos sacramentos, não resistirá às investidas da serpente e aos ataques vorazes de seus sequazes.

Só por isso vale a pena conferir o filme. Não se trata de simples entretenimento ou diversão pueril, com doses cavalares de pirotecnias e sensualismo pagão; embora não seja uma grande produção cinematográfica, “Duas Coroas” repete aquelas “palavras de vida eterna” que são a razão de ser de toda pessoa humana. E é isso o que verdadeiramente importa.

Maximiliano Kolbe pensava justamente assim e, conforme os vários depoimentos do filme, via que o uso da mídia deveria ser destinado, sobretudo, à pregação do Evangelho. Aliás, ele se propôs a criar um jornal para a formação dos católicos, logo depois de ter visto, com horror e escândalo, uma marcha maçônica na Praça de São Pedro, por ocasião do bicentenário da seita secreta, em 1917. Nessa manifestação, os maçons empunhavam cartazes com as inscrições: “Satanás deve reinar no Vaticano. O Papa será seu escravo”. E, como revelaria mais tarde o historiador Michael Hesemann, em arquivos secretos do Vaticano, a Maçonaria realmente tramava por aqueles anos a queda das últimas monarquias e o total aniquilamento da religião católica.

Para impedir tais planos diabólicos, São Maximiliano fundou a “Milícia da Imaculada”, abriu uma gráfica e mandou imprimir várias edições de um jornal dedicado a Nossa Senhora, que explicava a fé católica com clareza. O diretor Kondrat teve o cuidado de colocar esses dados no filme, mostrando como o santo precisou enfrentar a desconfiança e a incompreensão dos próprios correligionários, a fim de defender a causa de Cristo. Apesar disso, a Providência divina o acompanhou, levando seu apostolado até o Japão, em 1930, onde pôde exercer um fecundo trabalho apostólico na cidade de Nagasaki — cuja tragédia da bomba atômica ele havia previsto com alguns anos de antecedência.

Em 1939, porém, Maximiliano teve de retornar à Polônia, para cumprir uma nova missão. A esse respeito, o filme “Duas Coroas” propõe uma leitura sobrenatural: explica-se que os esforços apostólicos do “cavaleiro da Imaculada” não se dissiparam após o retorno do Japão, mas teriam o grande desfecho da configuração a Cristo. Depois de ter contemplado o sofrimento de Nosso Senhor em seus irmãos japoneses, ele mesmo viria a experimentar tal dor, para ratificar na própria carne o que ele publicava em seus jornais. Quando acabou preso em Auschwitz, o santo foi capaz de transmitir amor e esperança aos prisioneiros, transformando a sua cela num verdadeiro oratório.

Nesse sentido, vale lembrar as palavras com as quais São João Paulo II descreveu esse sacrifício: “Maximiliano não morreu, mas ‘deu a vida... pelo irmão’”. Em “Duas Coroas”, o espectador pode vislumbrar em que circunstâncias misteriosas e, sem dúvida, abençoadas aconteceu o coroamento do intrépido homem, que foi digno de receber a glória do martírio. Maximiliano venceu corajosamente as hostes infernais e, “de modo admirável, perdura na Igreja e no mundo o fruto desta morte heroica” [1]. O regime nazista findou como uma página negra da história, ao passo que o martírio de São Maximiliano “se tornou um sinal de vitória” [2].

Definitivamente, “Duas Coroas” é um documentário para ser visto por todos os católicos, sobretudo nestes últimos tempos. Embora estejamos a mais de um século de distância das terríveis tribulações que se abateram sobre a Europa e toda a Igreja Católica, no início do século XX, os seus protagonistas ainda estão entre nós, e com a mesma sanha anticristã de outrora. Por isso, o modelo virtuoso de São Maximiliano Kolbe deve nos levar para o fronte de guerra, com os estandartes da Cruz e do Rosário, em defesa da Igreja e de nosso Cristo Rei.

Referências

  1. São João Paulo, Homilia na missa de Canonização de Maximiliano Kolbe (10 de outubro de 1982). 
  2. Ibidem.

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Quem são os misóginos mesmo?
Sociedade

Quem são os misóginos mesmo?

Quem são os misóginos mesmo?

Eis uma verdade inconveniente e “politicamente incorreta”, mas que está inscrita na natureza mesma das coisas, e no Magistério recente dos Papas: as mulheres precisam dar prioridade a seus lares e a suas famílias.

Jerry SalyerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Imagem: Howard R. Hollem/Getty Images.

“Trabalhos há”, escreve Leão XIII na Rerum Novarum, “que não se adaptam tanto à mulher, a qual a natureza destina de preferência aos arranjos domésticos, que, por outro lado, salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família”.

Num primeiro momento, é desconcertante como essas declarações não receberam muita atenção, visto que a encíclica Rerum Novarum, com frequência, tem sido ocasião de debates entre comunitaristas e integralistas católicos, por um lado, e os defensores católicos da economia de livre mercado, por outro. Suspeito que a razão disso seja uma relutância dos católicos em confrontar as sensibilidades modernas, principalmente as que estão arraigadas na consciência popular. Certamente eles raciocinam assim: nós já temos de explicar aos ouvintes antipáticos por que hesitamos em admitir “casamento” gay e banheiros transgêneros, então por que ir ainda mais longe questionando o entendimento moderno da igualdade entre homens e mulheres?

Esse raciocínio é totalmente equivocado. Ou Leão XIII deve ser levado a sério ou não; e se aceitarmos a visão politicamente correta do século XXI, que caracterizaria as observações do Papa sobre as mulheres não apenas como erradas, mas como indiscutivelmente estúpidas e intolerantes, então em maior ou menor medida nós lhe reservamos a segunda alternativa. Em outras palavras, ou Leão XIII não é um pensador robusto, ou a afirmação surpreendente de que “certas ocupações não são adequadas para as mulheres” não é tão monstruosa quanto sugere a sabedoria convencional.

Em todo caso, a distinção entre os sexos masculino e feminino dificilmente é um aspecto irrelevante, e Leão XIII adota, como um de seus princípios, uma antropologia que a maioria das figuras públicas contemporâneas negaria de forma resoluta. É realmente estranho que os católicos discutam sobre o significado de um ensinamento papal, ignorando o fato de que uma contrarrevolução extraordinária contra o feminismo seria necessária muito antes que tal ensinamento pudesse ser colocado em prática.

Leão XIII não está sozinho ao tratar das diferenças entre homem e mulher. Pio XI fez observações semelhantes sobre o assunto na Quadragesimo Anno:

As mães de família devem trabalhar em casa ou nas suas adjacências, dando-se aos cuidados domésticos. É um péssimo abuso, que deve a todo o custo cessar, o de as obrigar, por causa da mesquinhez do salário paterno, a ganharem a vida fora das paredes domésticas, descurando os cuidados e deveres próprios e sobretudo a educação dos filhos.

“Deve pois procurar-se com todas as veras”, conclui o pontífice, “que os pais de família recebam uma paga bastante a cobrir as despesas ordinárias da casa”.

Sejamos francos. Para nós, as instruções de Pio XI não parecem apenas politicamente incorretas, mas também ilegais. Ou seja, qualquer empregador que prestasse atenção à exortação para pagar mais aos “pais de família” imediatamente se encontraria na iminência de um processo judicial. E se os paladinos da justiça social da Ethika Politika ou seus inimigos que lutam pela liberdade no Instituto Acton alguma vez expressaram a devida indignação pelo fato de ser ilegal para um católico seguir o conselho de Pio XI, isso passou-me despercebido [1]. Ainda, cabe questionar se a afirmação de Pio XI sobre o patriarcado econômico é menos relevante nos ensinamentos católicos do que, digamos, o direito putativo dos migrantes de ocupar o país de outras pessoas. Quanto aos defensores do livre mercado, se eles não estão preocupados com a liberdade do empresário católico de administrar seus negócios de acordo com os ensinamentos papais, com que liberdade eles se preocupam?

Não faz sentido fingir admirar alguém quando insistimos em filtrar e omitir os seus ensinamentos a fim de se encaixarem nas nossas ideias preconcebidas. Para dar um exemplo que não esteja vinculado à autoridade papal, pode ser instrutivo considerar o economista Ernst Friedrich Schumacher. Embora atraído pela religião oriental quando compôs sua famosa obra Small is beautiful (traduzido para o português sob o título O negócio é ser pequeno), Schumacher atravessaria o rio Tibre pouco antes da publicação do livro, tornando-se um dos principais defensores católicos da economia em pequena escala e para a comunidade local. No entanto, se até mesmo os admiradores irrestritos de Schumacher costumam encobrir sua conversão religiosa, precisam ignorar muito mais sua afirmação de que “as mulheres, em geral, não precisam de um emprego ‘fora’”, e que “o emprego de mulheres, em larga escala, em escritórios ou fábricas seria considerado um sinal de grave fracasso econômico”, em qualquer sociedade equilibrada.

Essas palavras não são apartes irrelevantes em sua obra, pois Schumacher estava convencido de que apenas um tolo “deixaria mães de crianças pequenas trabalharem em fábricas enquanto as crianças são deixadas ao deus-dará”. Longe de fomentar o discurso sobre a justiça social e o bem-estar da próxima geração, tais observações — evidentes por si mesmas — hoje levariam alguém a ser demitido de imediato. Poucos “conservadores” católicos parecem ter muito problema com isso, e até mesmo alguns “tradicionalistas” encobrem o assunto, preferindo o caminho muito mais cômodo de se opor ao capitalismo. Evidentemente, todos deveríamos nos calar e engolir o “dogma” bizarro e irracional de que os filhos podem ser educados efetivamente tanto pelas funcionárias das creches quanto por uma mãe que fica em casa.

Apenas para que não haja mal-entendidos, se a tradição católica é “sexista” — no sentido de reconhecer que existe o sexo masculino e o feminino —, isso dificilmente pode ser considerado misógino. Afinal, veneramos uma Rainha e, mais do que ninguém, é o católico que celebra as virtudes inequivocamente femininas, mesmo sendo suficientemente flexível para prestar homenagem à habilidade militar de uma Joana d’Arc ou à sabedoria mística de uma Catarina de Siena.

Em outras palavras, as feministas se entregam a um “mundo de faz-de-conta” quando agem como se tivessem “descoberto” que algumas mulheres se destacaram em âmbitos tradicionalmente masculinos. Ao mesmo tempo, deve-se acrescentar que as exceções tendem a justificar a regra, pois as mulheres que alcançaram grandes conquistas raramente estiveram motivadas pelo carreirismo. Em vez disso, elas geralmente são impelidas por alguma devoção apaixonada que pouco ou nada tem a ver com a causa feminista. Joana d’Arc não estava empenhada em abrir um caminho revolucionário para as mulheres, mas apenas em libertar a França; Catarina de Siena não estava interessada no empoderamento feminino, mas em reparar os danos do Grande Cisma do Ocidente.

Quanto às mulheres que vivem no anonimato, precisamos reconhecer que, de fato, estamos em um mundo de cabeça para baixo, no qual as advogadas de corporações e as políticas egoístas são consideradas cidadãs mais valiosas do que aquelas mulheres que “apenas” educam os filhos e cuidam do lar. Assim, os verdadeiros misóginos são aqueles que se recusam a honrar a maternidade como uma vocação elevada de tempo integral, e os quais não aceitam que Deus fez o homem e a mulher como complementares, e não iguais.

Notas

  1. Nota de tradução: Aqui, o autor recorre ao antagonismo existente entre dois grupos de católicos — mais conhecidos no contexto norte-americano — para exemplificar que muitos embates são travados em torno de diversas questões da doutrina social da Igreja, exceto em relação ao trabalho externo das mulheres, tema que é frequentemente ignorado.

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O que ouviremos de Jesus se nos condenarmos?
Espiritualidade

O que ouviremos
de Jesus se nos condenarmos?

O que ouviremos de Jesus se nos condenarmos?

Porque escolheste antes estar para sempre sem mim no inferno, que comigo no céu; tua é, e não minha, a sentença que logo ouvirás com os outros mal-aventurados: “Ide, malditos, para o fogo eterno”.

Pe. António Vieira4 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Quid est quod debui ultra facere vineae meae, et non feci ei? “Que mais poderia eu ter feito pela minha vinha que não lhe tenha feito?” (Is 5, 4) Que coisa há, que eu devesse fazer-te, ó homem, ou devesse fazer por ti, que não tenha feito? De nada te era devedor, e como se o fora, de quanto tenho, de quanto posso, e de quanto sou, tudo empreguei e despendi contigo. Criei-te quando não eras, tirando-te dos abismos do não ser ao ser; dei-te um corpo formado com minhas mãos, o mais perfeito; dei-te uma alma tirada de minhas entranhas, e feita à imagem e semelhança; ornei, e habilitei um e outro, com as mais excelentes potências, e os mais nobres sentidos, para que fossem os instrumentos com que me servisses e amasses; e tu, ingrato, que fizeste? 

Dá conta dos cuidados, pensamentos e máquinas do teu entendimento; das lembranças e esquecimentos da tua memória; dos desejos e afeições da tua vontade. Dá conta de todos os passos de teus pés, de todas as obras de tuas mãos, de todas as vistas dos teus olhos, de todas as atenções dos teus ouvidos, de todas as palavras de tua língua, e de tudo mais que tu sabes, e não cabe em palavras. Depois de criado, que seria de ti, se eu com o mesmo poder e providência te não conservara? De repente perderias o ser e tornarias ao nada donde saíste. Para tua conservação, te dei não só o necessário, senão o superabundante, e tanta imensidade de criaturas no céu e na terra, todas sujeitas a ti, e ocupadas em teu serviço. 

Dei-te um anjo, que de dia e de noite, velando e dormindo, te assistisse e guardasse, como sempre assistiu e guardou. Agora te revelo os perigos secretos e ocultos, de que foste livre por seu meio; e tu lembra-te dos públicos e manifestos, que experimentaste e viste. Quantos pereceram em outros muito menores? Quantos mais moços que tu acabaram de mortes desastradas e repentinas, sem tempo, nem lugar de arrependimento e emenda, que eu sempre te concedi? Dá, pois, conta da vida, dá conta da saúde, dá conta dos anos, dá conta dos dias, dá conta das horas, sendo mui poucas, e contadas as que não empregaste em me ofender. 

Até agora te referi as dívidas exteriores do poder; agora me responderás às interiores e pessoais do amor, e do muito que fiz e padeci por ti. Por ti depois de te fazer à minha imagem e semelhança, me fiz à tua, fazendo-me homem; por ti nasci nos desamparos de um presépio; por ti fui desterrado ao Egito; por ti vivi trinta anos sujeito à obediência de um oficial, ajudando o trabalho de suas mãos com as minhas, e acompanhando o suor do seu rosto com o meu; por ti, e para ti, saí ao mundo a pregar o reino do céu; por ti nas peregrinações de toda a Judéia e Galiléia, sempre a pé, e muitas vezes descalço, padeci fomes, sedes, pobrezas, sem ter lugar de descanso, nem onde reclinar a cabeça, por ti recebi ingratidões por benefícios, ódios por amor, perseguições por boas obras; por ti suei sangue; por ti fui preso; por ti fui afrontado; por ti esbofeteado; por ti cuspido; por ti açoitado; por ti escarnecido; por ti coroado de espinhos; por ti, enfim, crucificado entre ladrões, aberto em quatro fontes de sangue, atormentado e afligido de angústias e agonias mortais, e ainda depois de morto, atravessado o coração com uma lança. 

De tudo isto pedi por ti perdão a Deus, e o pago que tu me deste foi não me perdoar tornando-me a crucificar tantas vezes, quantas gravemente pecaste, como te mandei declarar pelo meu apóstolo: Rursum crucifigentes Filium Dei, “crucificando novamente o Filho de Deus” (Hb 6, 6). Se as gotas de sangue que derramei por ti, tiveram conta, nem de uma só me pudera dar boa conta, ainda que padeceras por mim mil mortes; mas os milhares e os milhões foram das vezes que pisaste o mesmo sangue, sacrificando o infinito valor e merecimento dele, aos ídolos do teu apetite

Ainda em certo modo a maior dívida, a de que agora te pedirei conta é a da vocação. Reservei o saíres à luz deste mundo para o tempo da lei da graça; chamei-te à fé antes de me poderes ouvir, antecipou-se o meu amor ao teu uso da razão, e fiz-te meu amigo pelo batismo. Com o leite e doutrina da Igreja, te dei o verdadeiro conhecimento de mim, benefício que por meus justos juízos em quatro e cinco mil anos não concedi a tantos, e de que ainda nos teus dias careceram muitos. Não tiveste juízo, nem consideração, para ponderar e pasmar, de que tendo a minha justiça razões para condenar um gentio que me não conheceu, as tivesse minha misericórdia para perdoar a um cristão, que conhecendo-me, tanto me ofendia

Perdida a graça da primeira vocação, caíste, e tornei-te a chamar, e dar a mão, para que te levantasses; levantado tornaste a reincidir uma e tantas vezes, e eu, posto que tão repetidamente ofendido, e com tão continuadas experiências da pouca firmeza de teus propósitos, e falsidade de tuas promessas, não cessei de te oferecer de novo meus braços, e te receber sempre com eles abertos; até que infiel, rebelde, e obstinado, cerrando totalmente os ouvidos a minhas vozes, te deixaste jazer no profundo letargo da impenitência final. Dá agora conta de tantas inspirações interiores minhas, de tantos conselhos dos confessores e amigos, de tantas vozes e ameaças dos pregadores, que ou não querias ouvir, ou ouvias por curiosidade e cerimônia; e também ta pudera pedir, de eu mesmo te não chamar eficazmente na hora da morte, porque o desmereceste na vida.

Sete fontes de graça deixei na minha Igreja (que é o benefício da justificação) para que nelas se lavassem as almas de seus pecados, e com elas se regassem e crescessem nas virtudes. Em uma te facilitei em tal forma o remédio para todas as culpas, que só com as confessar te prometi o perdão, que tu não quiseste aceitar, fugindo da benignidade daquele sacramento como rigoroso, e amando mais as mesmas culpas, que estimando o perdão. Em outra te dei a comer minha carne e a beber meu sangue, e juntamente os tesouros infinitos de toda a minha divindade, em penhor da glória e bem-aventurança eterna, que foi o altíssimo fim para que te criei. 

Desprezaste o fim, não quiseste usar dos meios; e porque escolheste antes estar para sempre sem mim no inferno, que comigo no céu; tua é, e não minha, a sentença que logo ouvirás com os outros mal-aventurados: Ite maledicti in ignem aeternum, “Ide, malditos, para o fogo eterno”.

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