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Um protestante pergunta sobre a transubstanciação
Doutrina

Um protestante
pergunta sobre a transubstanciação

Um protestante
pergunta sobre a transubstanciação

A Igreja Católica inventou a transubstanciação? Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia ou Ele usou o sentido figurado quando disse: “Isto é o meu corpo”?

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2019
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Um protestante entrou em contato conosco há alguns dias, demonstrando sinceridade e vontade de aprender algumas coisas acerca da Eucaristia. Por considerarmos que a resposta às suas indagações poderá ser de grande utilidade para todos os nossos leitores, decidimos torná-la pública.

Comecemos pelas questões que ele coloca, por ordem:

  1. ele questiona o termo transubstanciação, com o qual a Igreja procurou descrever o mistério que se dá neste sacramento; depois,
  2. ele argumenta, “baseando-se nas escrituras sagradas”, “que a Igreja primitiva não tinha problema algum de chamar os elementos pão e vinho ao invés de corpo e sangue”, e pergunta: “se de fato fosse corpo e sangue, por que não evidenciar isso no decorrer dos textos?”;
  3. ele cita o trecho de Jo 6, 53-55, no qual Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, e admite: “Esse texto poderia corroborar para a questão de realmente haver o milagre da transubstanciação”, não fosse Jo 6, 63 explicar que “o Espírito é que dá vida, a carne de nada aproveita”, com o que, ele supõe, a doutrina da transubstanciação fica comprometida;
  4. ele diz que o uso da expressão “Isto é o meu corpo”, presente nos Evangelhos e em 1Cor 11, 24, “não é algo tão explícito para comprovar a questão de que é de fato o corpo de Cristo”; e, por fim,
  5. ele argumenta que “milagres não são por si só provas”, certamente se referindo ao fenômeno dos milagres eucarísticos acontecidos na Igreja Católica, dos quais existem inúmeros exemplos ao redor do mundo.

Considerando que as questões, embora sejam cinco, lidam com três aspectos do problema, dividimos nossa resposta em três grupos de observações: primeiro, quanto à linguagem (1 e 2); segundo, quanto à interpretação das passagens relativas à Eucaristia (3 e 4); e, por fim, quanto aos milagres (5).

O problema da linguagem. — É evidente que na Igreja nascente não existia o termo “transubstanciação”. O Manual de Teologia Dogmática de Ludwig Ott fala de sua origem no século XII, ou seja, mais de um milênio após a morte de Cristo [1].

“Pronto”, o protestante mais afoito responderá, dando por encerrada a questão, “a Igreja Católica inventou a transubstanciação”.

Ora, não é porque a palavra transubstanciação passou a constar nos documentos da Igreja só a partir do segundo milênio que a realidade a que ela faz referência não existia já antes. Na verdade, foi justamente para proteger o que os cristãos desde o princípio acreditavam a respeito da Eucaristia que a Igreja passou a adotar esse termo em seus ensinamentos. É que barreiras de proteção normalmente só são necessárias diante de perigos e ameaças. São Pedro Apóstolo, ao dizer a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, estava claramente confessando a divindade de Cristo. Mas, quando alguns começaram a negar essa verdade, a Igreja no Concílio de Niceia se viu obrigada a incrementar a profissão de fé apostólica: Jesus Cristo passou a ser crido como o Filho “gerado, não criado, consubstancial ao Pai, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Luz da Luz”. Não que Ele já não o fosse antes. Mas diante da ameaça dos arianos, que diziam ser Ele uma simples “criatura” do Pai, foi necessário ser mais específico, enfático e explícito.

Ora, o primeiro milênio praticamente não viu surgirem heresias eucarísticas. Daí o “menor cuidado”, por assim dizer, com as formulações a respeito desse sacramento. Mas se esse cuidado ainda não se via tão claramente no campo da linguagem, o zelo dos primeiros cristãos com a liturgia revestia-se de uma piedade verdadeiramente exemplar: havia clara consciência de se estar diante de um mistério tão grandioso, tão excelso, tão superior, que precisava ser velado de algum modo, escondido do olhar dos curiosos, preservado da incredulidade pagã. Era a chamada “disciplina do arcano” (disciplina arcani), que levou os cristãos a celebrarem secretamente a Eucaristia, para preservá-la.

A consciência do mistério traduz-se com muita simplicidade nos escritos dos Santos Padres. Notem todos que, mesmo não havendo ainda o termo “transubstanciação”, os elementos a que faz referência essa expressão já estavam todos presentes [2]: sabia-se que na consagração do pão e do vinho acontecia (i) a conversão de um e de outro no Corpo e Sangue de Cristo, (ii) operada por força das palavras do Senhor, (iii) ao mesmo tempo que se mantinham, por outro lado, certos aspectos do pão e do vinho — isto é, os seus “acidentes”.

O Papa Paulo VI faz uma ótima compilação dessas passagens em sua encíclica Mysterium Fidei (n. 50-53):

Assim instruído e acreditando com a maior certeza que aquilo que parece pão não é pão, apesar do sabor que tem, mas sim o Corpo de Cristo; e que o que parece vinho não é vinho, apesar de assim parecer ao gosto, mas sim o Sangue de Cristo... tu fortalece o teu coração, comendo aquele pão como coisa espiritual, e alegra a face da tua alma (São Cirilo de Jerusalém, Catech. 22, 9: PG 33, 1103).

Quem faz que as coisas oferecidas se tornem o Corpo e o Sangue de Cristo não é o homem, é Cristo que foi crucificado por nós. Como representante, pronuncia o sacerdote as palavras rituais; a eficácia e a graça vêm de Deus. Diz ‘isto é o meu Corpo’: esta palavra transforma as coisas oferecidas (São João Crisóstomo, De prodit. Iudae, Homil. 1, 6: PG 49, 380).

(Cristo) afirmou de maneira categórica ‘isto é o meu Corpo e isto é o meu Sangue’. Não vás tu julgar que as realidades visíveis são figura, mas fiques sabendo que Deus Onipotente transforma, de modo misterioso, algumas das coisas oferecidas, no Corpo e no Sangue de Cristo; quando destes participamos, recebemos a força vivificante e santificadora de Cristo (São Cirilo de Alexandria, In Matth. 26, 27: PG 72, 451).

Persuadamo-nos que já não temos o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou; e que a força da bênção é maior que a força da natureza, porque a bênção muda até a natureza [...]. A palavra de Cristo, que pode fazer do nada aquilo que não existia, não poderá mudar as coisas que existem naquilo que não eram? Criar coisas não é menos que mudá-las (Santo Ambrósio, De myster. 9, 50-52: PL 16, 422-424).

Esses testemunhos servem para nos mostrar como as doutrinas definidas pelo Magistério da Igreja não surgem por “geração espontânea”. Não é que, do dia para a noite, um sínodo ou um Concílio ecumênico tenha decidido “decretar” o dogma da transubstanciação. Não. Com o passar dos anos, vai crescendo na mente dos Doutores e no coração dos fiéis a compreensão das verdades de fé e, assim, quando surge no século XI um Berengário de Tours ousando ensinar que a Eucaristia não passa de um “símbolo”, o que faz a Igreja? Simplesmente o obriga a retratar-se, com uma fórmula já repleta de cuidados:

Eu, Berengário, creio [...] que o pão e o vinho que são postos sobre o altar, em virtude do mistério da santa oração e das palavras de nosso Redentor, são transformados, quanto à substância [substantialiter converti], na verdadeira e própria vivificante carne e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e que, depois da consagração, são o verdadeiro corpo de Cristo [verum Christi corpus], que nasceu da Virgem e para a salvação do mundo foi pendurado na cruz e está sentado à direita do Pai, e o verdadeiro sangue de Cristo [verum sanguinem Christi], que foi derramado do seu flanco (Profissão de Fé de Berengário de Tours, 11 fev. 1079: DH 700).

Por que agiu assim a Igreja? Porque ela tinha um mistério a guardar! A Eucaristia é um mistério do qual o Papa e os bispos em comunhão com ele são apenas depositários e, por isso, eles não tinham (e não têm) o direito de “manipular” essa realidade com qualquer linguagem, se isso significasse pôr em risco o ensinamento de Cristo e o que os cristãos sempre haviam entendido, desde o começo, como sendo o ensinamento de Cristo.

Mas o que os cristãos receberam de Cristo, afinal? Com essa pergunta, entramos em nosso segundo problema: a interpretação do texto bíblico.

O problema da interpretação bíblica. — Discutir exegese bíblica com protestantes é sempre um desafio, porque, não estando eles dispostos a aceitar a autoridade da Igreja Católica — a única estabelecida por Cristo Jesus —, só o que resta é o “livre exame”, ou a criação artificiosa de alguma autoridade humana para resolver as controvérsias que inevitavelmente surgem da leitura das Escrituras.

O trecho citado por nosso amigo protestante é, de fato, o mais forte de toda a Bíblia a respeito da Eucaristia: em Jo 6, 53-55, Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, dizendo ainda que seria necessário τρώγειν (lit., “roer, mastigar, comer”) o seu corpo para ter a vida eterna.

Ora, palavras tão contundentes assim, de cuja literalidade Jesus fez questão de não “arredar o pé” em momento algum… “anuladas” por uma referência ao Espírito que dá vida e à carne que de nada aproveita?

Bom, se o leitor está disposto a se servir de qualquer versículo que seja para negar a transubstanciação… então aí está a oportunidade! Mas Santo Tomás de Aquino, a partir de São João Crisóstomo e de Santo Agostinho, dá ao versículo 63 uma interpretação muito mais em harmonia não só com o restante do discurso do pão da vida, mas com tudo o que a Igreja sempre creu a esse respeito:

Deve-se saber […] que as palavras de Cristo podem entender-se num duplo sentido: (a) em sentido espiritual e (b) em sentido corporal. E por isso diz: “O espírito é que vivifica”, isto é, “se entenderdes as palavras que vos disse segundo o espírito”, ou seja, segundo o seu sentido espiritual, “minhas palavras vos vivificarão”; “a carne de nada serve”, isto é, “se as entenderdes em sentido carnal, elas de nada vos aproveitarão: antes, vos farão mal”. Porque, como se diz em Rm 8, 12, “se viverdes segundo a carne, haveis de morrer”.

Pois bem, as palavras do Senhor a respeito de sua carne dada como comida entendem-se carnalmente quando se interpretam tal como as palavras soam externamente, e referidas à natureza da carne; e era deste modo que eles as entendiam [...]. Mas o Senhor dizia que se lhes havia de dar como alimento espiritual, não porque no sacramento do altar não esteja presente a verdadeira carne de Cristo, mas porque ela é consumida de um certo modo espiritual e divino. Assim, portanto, o sentido adequado destas palavras não é carnal, mas espiritual. Eis porque acrescenta: “As palavras que vos tenho dito”, a saber, acerca de minha carne dada como comida, “são espírito e vida”, ou seja, têm um sentido espiritual e, assim entendidas, dão vida. E não é estranho que tenham um sentido espiritual, porque são palavras vindas do Espírito Santo: “Fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito” (1Cor 14, 2). E é por isso que os mistérios de Cristo vivificam: “Jamais esquecerei vossos preceitos, porque por eles é que me dais a vida” (Sl 118, 93).

Mas, de acordo com Agostinho, essa passagem se explica de outro modo, pois isto que o Senhor disse: “a carne de nada serve”, refere-se à carne de Cristo. É evidente, com efeito, que a carne de Cristo, enquanto unida ao Verbo e ao Espírito, traz muito proveito e de todas as maneiras: do contrário, em vão o Verbo se teria feito carne, em vão o Pai o teria manifestado na carne [...]. E por isso se deve dizer que a carne de Cristo, considerada em si mesma, de nada serve, e não tem efeito mais benéfico que o de outra carne. De fato, se a carne de Cristo é separada, idealmente, da divindade e do Espírito Santo, não tem mais virtude do que outra carne; mas, se está unida ao Espírito e à divindade, é de proveito para muitos, porque faz os que a comem permanecerem em Cristo. Com efeito, é pelo Espírito de caridade que o homem permanece em Deus: “Nisso é que conhecemos que estamos nele e Ele em nós, por Ele nos ter dado o seu Espírito” (1Jo 4, 13). Eis porque diz o Senhor: este efeito (ou seja, o da vida eterna) que eu vos prometo, não deveis atribuí-lo à carne considerada em si mesma, pois a carne assim considerada de nada serve; mas, se o atribuirdes ao Espírito, e à divindade unida à carne, assim é que ela dá a vida eterna: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito” (Gl 5, 25). E é por isso que acrescenta: “As palavras que vos tenho dito são espírito e vida”, isto é, devem ser referidas ao Espírito unido à carne; e, assim entendidas, são vida, a saber: vida da alma. Pois assim como o corpo vive com vida corporal graças ao espírito corporal, assim também a alma vive com vida espiritual graças ao Espírito Santo: “Enviai o vosso Espírito, e tudo será criado” (Sl 103, 5) (Comentário ao Evangelho de São João, VI, l. 8, n. 992-993, destaques nossos).

Riquíssimos de espiritualidade são esses comentários, e mais belo ainda é ver como eles se articulam com outros mistérios de nossa fé, como a união hipostática. Nosso Senhor, sendo o próprio Deus feito homem, dá-nos de sua carne justamente para nos fazer participantes de sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Assim, nós, católicos, quando comungamos (com fé e em estado de graça, é claro), tomamos parte na vida do próprio Deus, recebemos nesse banquete toda a força necessária para lutarmos contra o pecado e nos elevarmos acima de nossa condição decaída… É a Redenção que atua diretamente em nossa vida, transformando-nos nos santos que Deus quer que sejamos.

Quanto a “Isto é o meu corpo” ser expressão insuficiente para se defender a presença real de Cristo na Eucaristia, respondemos com Ludwig Ott que, aqui, vários fatores exigem a interpretação literal dessas palavras:

a) O texto das palavras. Não existe nada no texto que possa servir de fundamento para uma interpretação figurada, pois o pão e o vinho não são, nem por natureza nem por uso geral linguístico, símbolos do corpo e do sangue. A interpretação literal não encerra em si contradição alguma, uma vez que pressupõe, desde já, a fé na divindade de Cristo.

b) As circunstâncias. Cristo tinha de acomodar-se à mentalidade dos Apóstolos, que entenderam suas palavras tal como foram pronunciadas. Se não queria induzir ao erro toda a humanidade, tinha de servir-se de uma linguagem que não se prestasse a falsas interpretações, sobretudo naquela ocasião, quando ia instituir um sacramento e um ato de culto tão sublime, quando ia fundar a Nova Aliança e legar-nos seu testamento.

c) As conclusões práticas que deduz o apóstolo São Paulo das palavras da instituição. Diz o Apóstolo que quem recebe indignamente a Eucaristia peca contra o corpo e o sangue do Senhor; e quem a recebe dignamente faz-se participante do corpo e do sangue de Cristo (cf. 1Cor 10, 16; 11, 27ss) [...].

d) A insuficiência dos argumentos apresentados pelos adversários. Se é verdade que o verbo “é” tem em vários lugares da Escritura (v.g. Mt 13, 38: “o campo é o mundo”; cf. Jo 10, 7a; 15, 1; 1Cor 10, 4) um significado equivalente a “simboliza” ou “representa”, não é menos certo também que em tais casos o sentido figurado dessas passagens deduz-se sem dificuldade da natureza mesma do assunto (v.g., quando se trata de uma parábola ou alegoria) ou pelo uso geral da linguagem. Mas no relato sobre a instituição da Eucaristia não ocorre nenhuma dessas coisas [3].

O problema dos milagres. — É claro que, para quem não está disposto a crer, nem mil provas serão suficientes: pode-se-lhe mostrar a Bíblia, os testemunhos da Tradição, as manifestações do Magistério perene da Igreja e até os milagres eucarísticos ao longo dos séculos, verdadeiros “carimbos” de Deus para confirmar a autenticidade da fé católica na Eucaristia… mas será tudo em vão. Enquanto não estivermos dispostos a aceitar a autoridade do Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar, e que instituiu a Igreja Católica para guardar o depositum fidei…  serão em vão todas e quaisquer argumentações.

O que precisamos, no fundo, para aceitar a transubstanciação, é simplesmente de um ato de fé, como este: “Eu acredito que no Sacramento da Eucaristia está verdadeiramente presente Jesus Cristo, porque Ele mesmo o disse, e assim no-lo ensina a Santa Igreja” (Catecismo de S. Pio X, 596). Nada mais.

Isso pode parecer pouca coisa, caro leitor, mas é o passo decisivo… e, no momento extraordinário em que ele for dado, tenha a certeza de que Nosso Senhor, dos céus, estará lhe dirigindo as mesmas palavras que, um dia, ele pronunciou a São Pedro: “Bem-aventurado és”, meu filho, “porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16, 17).

Referências

  1. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. 7.ª ed., Barcelona: Herder, 1969, p. 562.
  2. Cf. Id., p. 563, onde se fala dos elementos que compõem a noção “transubstanciação”.
  3. Cf. Id., pp. 557-558.

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A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019
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I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

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Igreja, não museu
Igreja Católica

Igreja, não museu

Igreja, não museu

Sem o olhar da fé, que é o incêndio que afetou a Catedral de Notre-Dame de Paris senão a destruição de um simples “museu”?

Pe. Benedict KielyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2019
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Muito já se escreveu, horas após o fogo que devastou a Catedral de Notre-Dame de Paris, a respeito do “caráter emblemático” do edifício, do seu valor como patrimônio da humanidade e do fato, notado pelo Papa Francisco, de que o edifício constitui “um tesouro arquitetônico de memória coletiva”. Foi necessário, no entanto, que o arcebispo de Paris, Michel Aupetit, um ex-médico — discreto, mas profundo —, viesse responder (com uma pergunta retórica) o porquê de o edifício ser um “tesouro”.

Entrevistado pela TV francesa, Dom Aupetit disse simplesmente que a magnífica basílica foi construída por uma razão, e não era ser um “tesouro”, nem mesmo abrigar a Coroa de Espinhos de Nosso Senhor; Notre-Dame existe para un morceau de pain, isto é, para “um pedaço de pão” — o pão que, ele explicou, os católicos acreditam ser o Corpo de Cristo.

Todas as igrejas católicas — desde a magnificência de uma Notre-Dame em Paris ou de uma Basílica de São Pedro em Roma, até uma igrejinha do interior ou uma cabana de barro em terra de missão —, estando nelas presente a Eucaristia, foram construídas para ser domus Dei, a “casa de Deus”. Para um católico, a ausência real que sentimos na Sexta-feira Santa, quando o sacrário fica vazio e a sua luz se apaga, é uma confirmação palpável de que, em certo sentido, uma igreja onde não está presente o morceau de pain não passa de uma “igreja zumbi”, aparentemente viva, mas na verdade morta.

Com razão o mundo, especialmente aquelas partes que se consideram civilizadas, horrorizou-se ao ver o Estado Islâmico destruindo antigos artefatos da civilização mesopotâmica e tentando destruir a cidade de Palmira, na Síria. Notre-Dame de Paris é um patrimônio da humanidade, uma obra de arte cuja beleza é apreciada por pessoas de todos os credos, e até pelas que não possuem credo nenhum. O edifício fala, entretanto, não apenas da massiva contribuição que a cultura cristã ofereceu para criar a civilização ocidental (contribuição ignorada pela Constituição da União Europeia), mas também da fé viva sem a qual a basílica seria apenas um museu.

A basílica de Nossa Senhora em Paris leva esse nome não para “honrar o edifício como se ele fosse uma mãe” (como disse um repórter na internet, ilustrando a crescente ignorância religiosa da mídia), mas porque foi dedicado à Mãe de Deus, o primeiro tabernáculo vivo da Palavra feito carne. Esse “ícone” aponta para algo maior do que o homem; sua verticalidade e visibilidade são sinais do transcendente; o que nele sobressai é a verdade da fé a partir da qual tantos trabalharam por mais de um século para construí-la.

Quando os monstros que tocaram o terror da Revolução Francesa profanaram a basílica, dando-lhe o nome de templo do “Culto da Razão”, destruindo imagens de Nossa Senhora e substituindo-a pela “deusa da liberdade”, em certo sentido a basílica deixou de existir. Mas, assim como, em países que saíram do comunismo, igrejas que haviam sido usadas como salões de esportes ou cinemas voltaram ao seu uso sagrado, também Notre-Dame retornou à sua antiga glória com os sacramentos sendo celebrados novamente em seu interior.

O Estado francês é proprietário de Notre-Dame de Paris, mas, de acordo com a lei de 1905, a Igreja Católica detém os “direitos exclusivos de usá-la para propósitos religiosos perpetuamente”. O presidente Macron teria dito que a basílica será reconstruída “de uma maneira consistente com nossa nação moderna e cheia de diversidade”. O que se espera é que, por “diversidade”, ele queira se referir simplesmente à ampla variedade de artistas e habilidades que se unirão para restaurar o edifício ao longo dos anos.

Falando aos bispos franceses durante sua visita ad limina apostolorum em 1997, o Papa João Paulo II parabenizou o Estado francês pelo seu cuidado com tantas catedrais e igrejas católicas, mas — ele lembrou na ocasião — a liturgia “deve ser sempre a verdadeira raison d’etre (razão de ser) desses monumentos”.

Notre-Dame, esta “casa do pão” — o morceau de pain que é o Corpo de Cristo — será reconstruída, e a basílica será igreja viva. Não deixará de ser um “tesouro arquitetônico de memória coletiva”, mas não será nunca um museu.

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“Nós, os leprosos”: o sacrifício do Padre Damião
Santos & Mártires

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. E dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim ele não deixaria os leprosos.

W. M. Jackson, Inc.15 de Abril de 2019
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Num mesmo seminário da Bélgica se achavam dois irmãos, preparando-se para o sacerdócio. O mais velho devia ser em breve missionário e, nessa qualidade, ir para as ilhas dos mares do sul. Brilhavam-lhe os olhos, esfregava as mãos de contente, sempre que se referia à obra que o esperava além-mar.

Um dia, porém, adoeceu gravemente, e teve de recolher-se ao leito. Era presa de uma febre terrível, e ainda mais empalidecia e se definhava ao pensar na inação a que a doença o obrigava. O irmão mais novo, vindo-lhe à cabeceira, disse um dia com carinho: “Sentir-te-ias melhor se eu ocupasse o teu lugar de missionário?” Os olhos do doente brilharam um momento e ele apertou, sorrindo, as mãos do irmão, o qual escreveu secretamente às autoridades, pedindo permissão para partir em seu lugar.

Um dia, quando estudava, veio ter com ele o diretor do seminário e informou-o de que estava autorizada a sua ida. O rapaz levantou-se, saiu a correr do quarto e percorreu o pátio aos pulos, como um animal selvagem.

“Enlouqueceu?”, perguntavam os colegas.

E por que José Damião mostrava tanta alegria, se afinal ia para um exílio? Por que desejaria abandonar a terra feliz onde se falava sua língua e cujos costumes lhe eram familiares? Por que razão iria trabalhar entre selvagens, para além de mares longínquos, tornando-se invisível aos amigos e deles esquecido?

É que já abandonara o mundo para ser sacerdote e amava, mais que à pompa do mundo, mais que à paz do lar, mais que ao amor de pai e mãe, o Redentor.

Amá-lo e segui-lo, praticando o bem, tornou-se o seu ideal.

José Damião, com um entusiasmo de moço, partiu para as ilhas dos mares do sul e ali missionou. Trabalhou com firmeza e nobremente até a idade de trinta e três anos. Então, um dia, em sua missão entre o povo, ouviu dizer o bom bispo que infelizmente não tinha quem mandar aos pobres leprosos de Molokai, e que esses infelizes estavam entregues não só àquele terrível mal como ainda a pecados terríveis.

José Damião, cuja alma muitas vezes se tinha condoído ao ouvir falar dos leprosos, pediu ao bispo que o mandasse, e o seu oferecimento foi aceito.

Aqui estava outro sacrifício ainda mais respeitável: ir dos selvagens para os leprosos representava abnegação maior do que da Bélgica para os selvagens. Os leprosos viviam isolados, longe de toda a gente, evitados por todos. Estavam fora da humanidade. O mal que lhes roía os corpos tornava-lhes as almas também ruins. Suas cabanas eram verdadeiras pocilgas; viviam como animais; eram horríveis e ver, e mais ainda depois de conhecidos. Não podem vocês imaginar os horrores de Molokai. Deles só uma pequena parte bastaria para impressionar.

Mas o padre Damião levou aos desgraçados a mensagem simples de que Deus os amava; e o seu rosto alegre, a sua voz terna, o seu olhar acarinhador, e, mais que tudo isso, a fé ardente e viva que punha nas suas palavras, converteu-os em filhos do Senhor. Começaram a arrepender-se dos pecados, começaram a sentir que, em verdade, talvez Deus os amasse. Ao menos uma coisa era certa: amava-os o padre Damião.

Dezesseis anos viveu este homem santo e bom entre os leprosos. Ergueu uma igreja, a que se afeiçoaram muito, construiu-lhes casas mais confortáveis, deu-lhes um melhor fornecimento de água, foi seu enfermeiro, tratando das suas chagas horrendas; confortava-os à hora da morte e cavava as suas sepulturas.

Padre Damião, fotografado por William Brigham.

Ouviu-se, então, falar deste padre que trabalhava sozinho entre os leprosos. Escreveram-lhe, mandaram-lhe caixotes de coisas úteis para a sua gente, e houve mesmo quem lá fosse visitá-lo e ajudá-lo. Durante muitos anos trabalhou entre os infelizes, mas por fim foi ele próprio vítima do horrível mal. Um dia entornou água a ferver, e ela lhe caiu num pé. Estranhou não sentir dor nenhuma. Procurou um médico. “Tenho a lepra?”, perguntou. “Sinto informá-lo”, respondeu o médico, “mas está, com efeito, leproso”. Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. Sentia-se perfeitamente feliz. Dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim não deixaria os leprosos. Continuou trabalhando, com a morte a roer-lhe feroz e vorazmente o corpo.

Quando o levaram para o leito, agradeceu a Deus todos os benefícios e confortos recebidos. Dois padres e irmãs de caridade ajoelharam-se-lhe ao pé do leito.

— Quando estiver no céu, padre Damião — perguntou um deles — não esquecerá estes órfãos que aqui deixa?

— Não, não! — disse, sorrindo, o bom padre. Se algum valimento tiver ante Deus, rezarei por todos que estão no Leprosário.

— E — tornou o padre ajoelhado — não me deixará, como Elias, o seu manto?

— Para quê? — replicou o padre Damião. E depois acrescentou lentamente: Está cheio de lepra.

Nenhum rei teve, porém, manto mais belo!

É que toda a sua vida tinha sido um longo ato de heroísmo.

Referências

  • Extraído de “O melhor do tesouro da juventude”, de W. M. Jackson, Inc., v. 1, Editora Concreta, pp. 90-92 (grifos nossos).

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Quando um protestante descobriu que a Missa é o sacrifício da Cruz
Testemunhos

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando Scott Hahn ficou sabendo que os católicos ensinavam ser a Eucaristia a renovação do sacrifício do Calvário, relação que ele só descobriu depois de muita investigação, primeiro ele ficou furioso e despeitado. Mas depois...

José Maria C. S. André15 de Abril de 2019
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Durante a Semana Santa, que começa hoje, a liturgia católica leva-nos a viver uma Páscoa judaica surpreendente. Recordo a perplexidade de Scott Hahn, hoje um grande biblista católico, no tempo em que ele ainda era protestante. Um dia, ao fio dos Evangelhos, o pregador da sua comunidade protestante foi seguindo os passos da Última Ceia, conforme o cânone habitual da Páscoa judaica.

Até dada altura, tudo decorria da forma habitual, ainda que num clima de extraordinária intensidade. A minúcia dos preparativos, da sala e da celebração, anunciava algo especial e Cristo começou por alertar os discípulos para a importância do momento: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer”.

A celebração judaica começa com as abluções rituais. O mais novo da família leva uma jarra e uma bandeja, deitando a água da purificação sobre as pontas dos dedos de cada um. Neste caso, não foi o menos importante — foi o próprio Cristo! — Quem fez a ablução. E não derramou água sobre os dedos: pôs uma toalha à cintura e lavou os pés a cada um dos discípulos. Pedro recusa uma coisa dessas! Depois, é tal a insistência de Cristo, que aceita...

Seguiram-se os salmos do costume e vários cálices rituais, em ação de graças, como símbolo da Aliança do Povo com Deus, etc., até que Cristo altera o sentido de tudo ao estabelecer uma Aliança nova: “Este cálice é a nova Aliança no meu Sangue, derramado por vós”. Neste momento, Cristo coloca-Se a Si próprio como novo centro da ação litúrgica: “todas as vezes que o beberdes, fazei isto em memória de Mim”.

Há outros elementos revolucionários naquela celebração pascal, mas o que mais surpreendeu Scott Hahn e a sua congregação protestante foi que, imediatamente antes do momento culminante, que seria o cálice da Consumação, Cristo interrompe a cerimônia. Não só interrompe, como o declara solenemente, como se fizesse de propósito: “não tornarei a beber o fruto da videira, até àquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus”. Levantaram-se, pois, e saíram para o Monte das Oliveiras. A comunidade de Scott Hahn não sabia o que pensar. Talvez Jesus estivesse perturbado pela iminência da morte, talvez se tivesse esquecido de concluir a cerimônia da Páscoa…

Hahn decidiu reler os Evangelhos de uma ponta à outra, à procura do cálice que faltava, o cálice da Consumação. A conclusão imediata é que não tinha havido esquecimento, quase se diria que Jesus não pensava noutra coisa. Jesus sai do cenáculo da Última Ceia a falar do cálice que faltava: “Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice! Mas não se faça a minha vontade mas a tua”. “Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!...”. Chegam Judas e os soldados, Pedro pega numa espada e corta a orelha de Malco, um criado do Sumo Sacerdote. Jesus cura milagrosamente o ferido e diz a Pedro “Mete a tua espada na bainha. Eu não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?”.

Aquele cálice, vinha inclusivamente de muito antes. Ao pedido da mãe de Tiago e João, responde com um desafio misterioso: “Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber, ou ser batizados no baptismo com que Eu vou ser batizado?” — qual cálice, tão singular? Qual batismo, se Jesus já tinha sido batizado no Jordão?

No final da Paixão, pendurado da Cruz, momentos antes de morrer, ressurge a referência à consumação da Aliança. “Sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse ‘tenho sede’. Havia ali um vaso de vinagre…” e um dos que estavam ali “correu a tomar uma esponja, ensopou-a, pô-la sobre uma cana e deu-Lhe de beber”... “Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Tendo-o provado, não quis beber”. Não, aquele vinho misturado com fel não era o cálice esperado; aquele “tenho sede” não era a pedir aquele vinho. Imediatamente a seguir, Jesus exclama “Tudo está consumado!” e, inclinando a cabeça, expirou.

O Dr. Scott Hahn.

De repente, Scott Hahn percebeu que a Última Ceia só terminava no Calvário, no momento em que se estabelece a nova Aliança “no sangue derramado por Cristo”. A Última Ceia é uma unidade com todo o oferecimento de Cristo na Paixão. Participar na Missa é participar no Sacrifício de Cristo na Cruz. Como diz S. Paulo aos de Corinto, “porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?”. Cristo é, como diz S. Paulo a seguir, “a vítima imolada no altar”. S. Paulo recorda como o próprio Jesus tinha avisado os discípulos, na Última Ceia, de que aquele vinho consagrado apontava para a sua morte no Calvário: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”.

Um dia, na universidade protestante em que dava aulas, Scott Hahn apresentou esta sua investigação e ouviu um comentário de um aluno que tinha tido catequese católica em pequeno: “Isso faz todo o sentido, mas recorda-me o catecismo de Baltimore! [1]”. Scott nunca tinha ouvido falar de um “catecismo de Baltimore”, porque era um livrinho elementar, o primeiro catecismo das crianças católicas da época, e por isso ainda acusou mais o toque [2]. Então, os católicos, esses heréticos, ensinam às crianças que a Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário?! Algo que ele só tinha descoberto ao fim de tanto esforço de investigação?!

Primeiro, Scott ficou furioso, despeitado. Depois, continuou a investigar e fez-se católico.

Referências

  • José Maria C. S. André in Correio dos Açores, 25 mar. 2018, publicado em Senza Pagare.

Notas

  1. O “Catecismo de Baltimore” foi o catecismo oficial para crianças adotado nos Estados Unidos até 1960 (Nota da Equipe CNP).
  2. “Acusar o toque” é expressão lusitana, e significa deixar transparecer dúvida por afirmação de outra pessoa (Nota da Equipe CNP).

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