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Um protestante pergunta sobre a transubstanciação
Doutrina

Um protestante
pergunta sobre a transubstanciação

Um protestante pergunta sobre a transubstanciação

A Igreja Católica inventou a transubstanciação? Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia ou Ele usou o sentido figurado quando disse: “Isto é o meu corpo”?

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2019
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Um protestante entrou em contato conosco há alguns dias, demonstrando sinceridade e vontade de aprender algumas coisas acerca da Eucaristia. Por considerarmos que a resposta às suas indagações poderá ser de grande utilidade para todos os nossos leitores, decidimos torná-la pública.

Comecemos pelas questões que ele coloca, por ordem:

  1. ele questiona o termo transubstanciação, com o qual a Igreja procurou descrever o mistério que se dá neste sacramento; depois,
  2. ele argumenta, “baseando-se nas escrituras sagradas”, “que a Igreja primitiva não tinha problema algum de chamar os elementos pão e vinho ao invés de corpo e sangue”, e pergunta: “se de fato fosse corpo e sangue, por que não evidenciar isso no decorrer dos textos?”;
  3. ele cita o trecho de Jo 6, 53-55, no qual Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, e admite: “Esse texto poderia corroborar para a questão de realmente haver o milagre da transubstanciação”, não fosse Jo 6, 63 explicar que “o Espírito é que dá vida, a carne de nada aproveita”, com o que, ele supõe, a doutrina da transubstanciação fica comprometida;
  4. ele diz que o uso da expressão “Isto é o meu corpo”, presente nos Evangelhos e em 1Cor 11, 24, “não é algo tão explícito para comprovar a questão de que é de fato o corpo de Cristo”; e, por fim,
  5. ele argumenta que “milagres não são por si só provas”, certamente se referindo ao fenômeno dos milagres eucarísticos acontecidos na Igreja Católica, dos quais existem inúmeros exemplos ao redor do mundo.

Considerando que as questões, embora sejam cinco, lidam com três aspectos do problema, dividimos nossa resposta em três grupos de observações: primeiro, quanto à linguagem (1 e 2); segundo, quanto à interpretação das passagens relativas à Eucaristia (3 e 4); e, por fim, quanto aos milagres (5).

O problema da linguagem. — É evidente que na Igreja nascente não existia o termo “transubstanciação”. O Manual de Teologia Dogmática de Ludwig Ott fala de sua origem no século XII, ou seja, mais de um milênio após a morte de Cristo [1].

“Pronto”, o protestante mais afoito responderá, dando por encerrada a questão, “a Igreja Católica inventou a transubstanciação”.

Ora, não é porque a palavra transubstanciação passou a constar nos documentos da Igreja só a partir do segundo milênio que a realidade a que ela faz referência não existia já antes. Na verdade, foi justamente para proteger o que os cristãos desde o princípio acreditavam a respeito da Eucaristia que a Igreja passou a adotar esse termo em seus ensinamentos. É que barreiras de proteção normalmente só são necessárias diante de perigos e ameaças. São Pedro Apóstolo, ao dizer a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, estava claramente confessando a divindade de Cristo. Mas, quando alguns começaram a negar essa verdade, a Igreja no Concílio de Niceia se viu obrigada a incrementar a profissão de fé apostólica: Jesus Cristo passou a ser crido como o Filho “gerado, não criado, consubstancial ao Pai, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Luz da Luz”. Não que Ele já não o fosse antes. Mas diante da ameaça dos arianos, que diziam ser Ele uma simples “criatura” do Pai, foi necessário ser mais específico, enfático e explícito.

Ora, o primeiro milênio praticamente não viu surgirem heresias eucarísticas. Daí o “menor cuidado”, por assim dizer, com as formulações a respeito desse sacramento. Mas se esse cuidado ainda não se via tão claramente no campo da linguagem, o zelo dos primeiros cristãos com a liturgia revestia-se de uma piedade verdadeiramente exemplar: havia clara consciência de se estar diante de um mistério tão grandioso, tão excelso, tão superior, que precisava ser velado de algum modo, escondido do olhar dos curiosos, preservado da incredulidade pagã. Era a chamada “disciplina do arcano” (disciplina arcani), que levou os cristãos a celebrarem secretamente a Eucaristia, para preservá-la.

A consciência do mistério traduz-se com muita simplicidade nos escritos dos Santos Padres. Notem todos que, mesmo não havendo ainda o termo “transubstanciação”, os elementos a que faz referência essa expressão já estavam todos presentes [2]: sabia-se que na consagração do pão e do vinho acontecia (i) a conversão de um e de outro no Corpo e Sangue de Cristo, (ii) operada por força das palavras do Senhor, (iii) ao mesmo tempo que se mantinham, por outro lado, certos aspectos do pão e do vinho — isto é, os seus “acidentes”.

O Papa Paulo VI faz uma ótima compilação dessas passagens em sua encíclica Mysterium Fidei (n. 50-53):

Assim instruído e acreditando com a maior certeza que aquilo que parece pão não é pão, apesar do sabor que tem, mas sim o Corpo de Cristo; e que o que parece vinho não é vinho, apesar de assim parecer ao gosto, mas sim o Sangue de Cristo... tu fortalece o teu coração, comendo aquele pão como coisa espiritual, e alegra a face da tua alma (São Cirilo de Jerusalém, Catech. 22, 9: PG 33, 1103).

Quem faz que as coisas oferecidas se tornem o Corpo e o Sangue de Cristo não é o homem, é Cristo que foi crucificado por nós. Como representante, pronuncia o sacerdote as palavras rituais; a eficácia e a graça vêm de Deus. Diz ‘isto é o meu Corpo’: esta palavra transforma as coisas oferecidas (São João Crisóstomo, De prodit. Iudae, Homil. 1, 6: PG 49, 380).

(Cristo) afirmou de maneira categórica ‘isto é o meu Corpo e isto é o meu Sangue’. Não vás tu julgar que as realidades visíveis são figura, mas fiques sabendo que Deus Onipotente transforma, de modo misterioso, algumas das coisas oferecidas, no Corpo e no Sangue de Cristo; quando destes participamos, recebemos a força vivificante e santificadora de Cristo (São Cirilo de Alexandria, In Matth. 26, 27: PG 72, 451).

Persuadamo-nos que já não temos o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou; e que a força da bênção é maior que a força da natureza, porque a bênção muda até a natureza [...]. A palavra de Cristo, que pode fazer do nada aquilo que não existia, não poderá mudar as coisas que existem naquilo que não eram? Criar coisas não é menos que mudá-las (Santo Ambrósio, De myster. 9, 50-52: PL 16, 422-424).

Esses testemunhos servem para nos mostrar como as doutrinas definidas pelo Magistério da Igreja não surgem por “geração espontânea”. Não é que, do dia para a noite, um sínodo ou um Concílio ecumênico tenha decidido “decretar” o dogma da transubstanciação. Não. Com o passar dos anos, vai crescendo na mente dos Doutores e no coração dos fiéis a compreensão das verdades de fé e, assim, quando surge no século XI um Berengário de Tours ousando ensinar que a Eucaristia não passa de um “símbolo”, o que faz a Igreja? Simplesmente o obriga a retratar-se, com uma fórmula já repleta de cuidados:

Eu, Berengário, creio [...] que o pão e o vinho que são postos sobre o altar, em virtude do mistério da santa oração e das palavras de nosso Redentor, são transformados, quanto à substância [substantialiter converti], na verdadeira e própria vivificante carne e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e que, depois da consagração, são o verdadeiro corpo de Cristo [verum Christi corpus], que nasceu da Virgem e para a salvação do mundo foi pendurado na cruz e está sentado à direita do Pai, e o verdadeiro sangue de Cristo [verum sanguinem Christi], que foi derramado do seu flanco (Profissão de Fé de Berengário de Tours, 11 fev. 1079: DH 700).

Por que agiu assim a Igreja? Porque ela tinha um mistério a guardar! A Eucaristia é um mistério do qual o Papa e os bispos em comunhão com ele são apenas depositários e, por isso, eles não tinham (e não têm) o direito de “manipular” essa realidade com qualquer linguagem, se isso significasse pôr em risco o ensinamento de Cristo e o que os cristãos sempre haviam entendido, desde o começo, como sendo o ensinamento de Cristo.

Mas o que os cristãos receberam de Cristo, afinal? Com essa pergunta, entramos em nosso segundo problema: a interpretação do texto bíblico.

O problema da interpretação bíblica. — Discutir exegese bíblica com protestantes é sempre um desafio, porque, não estando eles dispostos a aceitar a autoridade da Igreja Católica — a única estabelecida por Cristo Jesus —, só o que resta é o “livre exame”, ou a criação artificiosa de alguma autoridade humana para resolver as controvérsias que inevitavelmente surgem da leitura das Escrituras.

O trecho citado por nosso amigo protestante é, de fato, o mais forte de toda a Bíblia a respeito da Eucaristia: em Jo 6, 53-55, Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, dizendo ainda que seria necessário τρώγειν (lit., “roer, mastigar, comer”) o seu corpo para ter a vida eterna.

Ora, palavras tão contundentes assim, de cuja literalidade Jesus fez questão de não “arredar o pé” em momento algum… “anuladas” por uma referência ao Espírito que dá vida e à carne que de nada aproveita?

Bom, se o leitor está disposto a se servir de qualquer versículo que seja para negar a transubstanciação… então aí está a oportunidade! Mas Santo Tomás de Aquino, a partir de São João Crisóstomo e de Santo Agostinho, dá ao versículo 63 uma interpretação muito mais em harmonia não só com o restante do discurso do pão da vida, mas com tudo o que a Igreja sempre creu a esse respeito:

Deve-se saber […] que as palavras de Cristo podem entender-se num duplo sentido: (a) em sentido espiritual e (b) em sentido corporal. E por isso diz: “O espírito é que vivifica”, isto é, “se entenderdes as palavras que vos disse segundo o espírito”, ou seja, segundo o seu sentido espiritual, “minhas palavras vos vivificarão”; “a carne de nada serve”, isto é, “se as entenderdes em sentido carnal, elas de nada vos aproveitarão: antes, vos farão mal”. Porque, como se diz em Rm 8, 12, “se viverdes segundo a carne, haveis de morrer”.

Pois bem, as palavras do Senhor a respeito de sua carne dada como comida entendem-se carnalmente quando se interpretam tal como as palavras soam externamente, e referidas à natureza da carne; e era deste modo que eles as entendiam [...]. Mas o Senhor dizia que se lhes havia de dar como alimento espiritual, não porque no sacramento do altar não esteja presente a verdadeira carne de Cristo, mas porque ela é consumida de um certo modo espiritual e divino. Assim, portanto, o sentido adequado destas palavras não é carnal, mas espiritual. Eis porque acrescenta: “As palavras que vos tenho dito”, a saber, acerca de minha carne dada como comida, “são espírito e vida”, ou seja, têm um sentido espiritual e, assim entendidas, dão vida. E não é estranho que tenham um sentido espiritual, porque são palavras vindas do Espírito Santo: “Fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito” (1Cor 14, 2). E é por isso que os mistérios de Cristo vivificam: “Jamais esquecerei vossos preceitos, porque por eles é que me dais a vida” (Sl 118, 93).

Mas, de acordo com Agostinho, essa passagem se explica de outro modo, pois isto que o Senhor disse: “a carne de nada serve”, refere-se à carne de Cristo. É evidente, com efeito, que a carne de Cristo, enquanto unida ao Verbo e ao Espírito, traz muito proveito e de todas as maneiras: do contrário, em vão o Verbo se teria feito carne, em vão o Pai o teria manifestado na carne [...]. E por isso se deve dizer que a carne de Cristo, considerada em si mesma, de nada serve, e não tem efeito mais benéfico que o de outra carne. De fato, se a carne de Cristo é separada, idealmente, da divindade e do Espírito Santo, não tem mais virtude do que outra carne; mas, se está unida ao Espírito e à divindade, é de proveito para muitos, porque faz os que a comem permanecerem em Cristo. Com efeito, é pelo Espírito de caridade que o homem permanece em Deus: “Nisso é que conhecemos que estamos nele e Ele em nós, por Ele nos ter dado o seu Espírito” (1Jo 4, 13). Eis porque diz o Senhor: este efeito (ou seja, o da vida eterna) que eu vos prometo, não deveis atribuí-lo à carne considerada em si mesma, pois a carne assim considerada de nada serve; mas, se o atribuirdes ao Espírito, e à divindade unida à carne, assim é que ela dá a vida eterna: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito” (Gl 5, 25). E é por isso que acrescenta: “As palavras que vos tenho dito são espírito e vida”, isto é, devem ser referidas ao Espírito unido à carne; e, assim entendidas, são vida, a saber: vida da alma. Pois assim como o corpo vive com vida corporal graças ao espírito corporal, assim também a alma vive com vida espiritual graças ao Espírito Santo: “Enviai o vosso Espírito, e tudo será criado” (Sl 103, 5) (Comentário ao Evangelho de São João, VI, l. 8, n. 992-993, destaques nossos).

Riquíssimos de espiritualidade são esses comentários, e mais belo ainda é ver como eles se articulam com outros mistérios de nossa fé, como a união hipostática. Nosso Senhor, sendo o próprio Deus feito homem, dá-nos de sua carne justamente para nos fazer participantes de sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Assim, nós, católicos, quando comungamos (com fé e em estado de graça, é claro), tomamos parte na vida do próprio Deus, recebemos nesse banquete toda a força necessária para lutarmos contra o pecado e nos elevarmos acima de nossa condição decaída… É a Redenção que atua diretamente em nossa vida, transformando-nos nos santos que Deus quer que sejamos.

Quanto a “Isto é o meu corpo” ser expressão insuficiente para se defender a presença real de Cristo na Eucaristia, respondemos com Ludwig Ott que, aqui, vários fatores exigem a interpretação literal dessas palavras:

a) O texto das palavras. Não existe nada no texto que possa servir de fundamento para uma interpretação figurada, pois o pão e o vinho não são, nem por natureza nem por uso geral linguístico, símbolos do corpo e do sangue. A interpretação literal não encerra em si contradição alguma, uma vez que pressupõe, desde já, a fé na divindade de Cristo.

b) As circunstâncias. Cristo tinha de acomodar-se à mentalidade dos Apóstolos, que entenderam suas palavras tal como foram pronunciadas. Se não queria induzir ao erro toda a humanidade, tinha de servir-se de uma linguagem que não se prestasse a falsas interpretações, sobretudo naquela ocasião, quando ia instituir um sacramento e um ato de culto tão sublime, quando ia fundar a Nova Aliança e legar-nos seu testamento.

c) As conclusões práticas que deduz o apóstolo São Paulo das palavras da instituição. Diz o Apóstolo que quem recebe indignamente a Eucaristia peca contra o corpo e o sangue do Senhor; e quem a recebe dignamente faz-se participante do corpo e do sangue de Cristo (cf. 1Cor 10, 16; 11, 27ss) [...].

d) A insuficiência dos argumentos apresentados pelos adversários. Se é verdade que o verbo “é” tem em vários lugares da Escritura (v.g. Mt 13, 38: “o campo é o mundo”; cf. Jo 10, 7a; 15, 1; 1Cor 10, 4) um significado equivalente a “simboliza” ou “representa”, não é menos certo também que em tais casos o sentido figurado dessas passagens deduz-se sem dificuldade da natureza mesma do assunto (v.g., quando se trata de uma parábola ou alegoria) ou pelo uso geral da linguagem. Mas no relato sobre a instituição da Eucaristia não ocorre nenhuma dessas coisas [3].

O problema dos milagres. — É claro que, para quem não está disposto a crer, nem mil provas serão suficientes: pode-se-lhe mostrar a Bíblia, os testemunhos da Tradição, as manifestações do Magistério perene da Igreja e até os milagres eucarísticos ao longo dos séculos, verdadeiros “carimbos” de Deus para confirmar a autenticidade da fé católica na Eucaristia… mas será tudo em vão. Enquanto não estivermos dispostos a aceitar a autoridade do Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar, e que instituiu a Igreja Católica para guardar o depositum fidei…  serão em vão todas e quaisquer argumentações.

O que precisamos, no fundo, para aceitar a transubstanciação, é simplesmente de um ato de fé, como este: “Eu acredito que no Sacramento da Eucaristia está verdadeiramente presente Jesus Cristo, porque Ele mesmo o disse, e assim no-lo ensina a Santa Igreja” (Catecismo de S. Pio X, 596). Nada mais.

Isso pode parecer pouca coisa, caro leitor, mas é o passo decisivo… e, no momento extraordinário em que ele for dado, tenha a certeza de que Nosso Senhor, dos céus, estará lhe dirigindo as mesmas palavras que, um dia, ele pronunciou a São Pedro: “Bem-aventurado és”, meu filho, “porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16, 17).

Referências

  1. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. 7.ª ed., Barcelona: Herder, 1969, p. 562.
  2. Cf. Id., p. 563, onde se fala dos elementos que compõem a noção “transubstanciação”.
  3. Cf. Id., pp. 557-558.

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É possível o retorno à inocência?
Sociedade

É possível o retorno à inocência?

É possível o retorno à inocência?

Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência pode parecer um tanto irrelevante. Mas seria impossível fazê-lo? Ou, ao contrário, não é esse o único caminho para Deus?

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)20 de Setembro de 2019
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Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência parece um tanto irrelevante. Hoje, apenas alguns pais (geralmente mórmons ou católicos tradicionais) levam a sério a inocência de sua família e fazem o possível para proteger os filhos da corrupção reinante em todas as formas de mídia e ambientes. Eles educam em casa, restringem ou proíbem o tempo de televisão e  procuram limitar as companhias e amizades de seus filhos.

Na maioria dos casos, seus vizinhos mais progressistas os ridicularizam como loucos e fariseus modernos, principalmente quando veem seus filhos alimentando a fé e vivendo prudentemente, enquanto os seus próprios caem em todos os pântanos morais imagináveis.

Diante de tal êxito, pode-se perguntar por que mais pessoas não seguem essas famílias saudáveis em vez de zombar delas. Algumas o fazem, e isso explica por que as comunidades religiosas ortodoxas mais tradicionais estão crescendo rapidamente, enquanto as liberais continuam a decair de forma vertiginosa. Outros não o fazem porque não compreenderam o que realmente significa inocência. Com demasiada frequência, ela é entendida em termo negativos: não ser exposto a más influências, não observar ou conhecer o mal, não ter maus pensamentos ou cometer ações más etc. Se as pessoas veem a inocência como um conjunto de “não-experiências”, os que a ela se opõem podem tratá-la como algo que denota ignorância, ingenuidade e até insensibilidade.

A consequência dessa redefinição é clara, especialmente nas escolas, no entretenimento e na vida familiar. Na escola, as crianças são sistematicamente escandalizadas em relação à sua fé, aos seus relacionamentos e à sua própria identidade. Elas aprendem cedo a equiparar religião com superstição, amor com utilidade e o “eu” com características acidentais. Os alunos que praticam sua fé, evitam o sexo e renunciam ao status de “vítima” são considerados estranhos e atraem o desprezo universal. Por outro lado, os estudantes “de gênero fluido”, com muitos parceiros e sem religião, são cada vez mais celebrados e admirados.

No entretenimento, as crianças veem o bem e o mal relativizados, com o vilão muitas vezes interpretando o herói, e virtudes como a bravura e a honestidade sendo dissolvidas em desprezo, incompetência e superficialidade. Pode até ser que os telespectadores mais jovens aprendam a ser gentis com as pessoas, mas o que eles costumam aprender com mais frequência é a tirar sarro dos outros, esquecer suas boas maneiras e agir como palhaços.

Além de absorver a imoralidade desse entretenimento, o ato de consumir passivamente imagens e sons, na tela, atrai as crianças para o vício. Não há melhor maneira de tirar a inocência de uma geração inteira do que transformá-los em viciados.

É claro que a escola e o entretenimento não teriam tanto efeito sobre a inocência dos jovens se os adultos estivessem em guarda. Mas, infelizmente, a maioria dos adultos abandonou o posto, deixando suas casas um caos e as crianças se virando por si mesmas. Incentivados por uma propaganda onipresente, eles têm cada vez menos escrúpulos em submeter seus filhos à corrupção. Assim, as crianças passam os primeiros anos de formação em lares onde abuso, palavrões e mentiras são algo comum.

Essa extinção da inocência continua, perigosa, até a idade adulta. Colocados em uma ladeira escorregadia e achando que nada mais têm a perder, a maioria dos adultos continua perdendo ainda mais a inocência. Seu lazer, educação e vida doméstica se tornam ainda mais escandalosos e destrutivos, a ponto de males extremos como o aborto, a eutanásia e a perseguição religiosa começarem a ser tratados como opções desejáveis para revolucionar a cultura.

Essa situação deixa duas opções para o indivíduo que ainda acredita na inocência: lutar ou fugir. A curto prazo, aqueles que escolherem a última opção podem ser mais eficazes em lidar com esse movimento espiral de decadência moral, mas isso não acontecerá a longo prazo. A tão criticada “Opção Beneditina” poderia funcionar em uma sociedade feudal descentralizada, que é o que a Europa se tornou após a queda do Império Romano. Mas não pode funcionar em países modernos, onde um governo autoritário tem os meios e o apoio para simplesmente proibir ideias e práticas contrárias à sua ideologia. Por exemplo: as leis do Canadá que anulam a autoridade dos pais para pressionar a doutrinação LGBT, ou as leis draconianas da Alemanha contra o ensino em casa, indicam qual será o destino final das famílias que tentarem se afastar da corrupta cultura secular da nossa época.

Em vez disso, a melhor opção para preservar a inocência é combater a corrupção predominante. O primeiro passo requer recuperar a definição adequada de inocência. Muito mais do que uma mera falta de experiências negativas, a inocência é uma confiança em realidades superiores — como a Verdade, a Bondade e a Beleza. É inocente a pessoa que acredita na verdade da revelação de Deus, na bondade dos amigos e familiares, na beleza da Criação e da imaginação. Essa pessoa tem uma visão transcendente do mundo e é capaz de enxergar para além de si mesma. Ela não reduz toda a experiência a fenômenos materiais aleatórios, mas encontra significado em tudo e em todos. 

Por terem menos experiências que as levariam a duvidar das realidades mais elevadas, as crianças são naturalmente mais inocentes. No Sermão da Montanha, Cristo, a própria encarnação da inocência, claramente quer preservar essa qualidade nos jovens e recuperá-la nos velhos: “Em verdade vos digo: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Jesus não ordena que os adultos abandonem suas responsabilidades ou seus conhecimentos, como ele deixa claro três versículos depois (cf. Mt 18, 6), mas exorta a manterem sua inocência e confiança em Deus.

Felizmente, apenas conhecer ou experimentar algo feio, mau ou falso não leva necessariamente as pessoas a perderem a inocência, embora isso certo aconteça se não tivermos cuidado. Dostoiévski ilustra essa situação com os protagonistas de Crime e Castigo. Na esperança de provar a teoria de que indivíduos verdadeiramente iluminados podem dispensar a moralidade, o protagonista Raskólnikov comete um duplo homicídio, perdendo a inocência no sentido não apenas jurídico, mas também espiritual. A miséria por ele experimentada não provém da culpa por tirar a vida de um inocente, mas da decisão de desistir da Verdade, da Bondade e da Beleza pela falsa sensação de poder resultante do pecado.

Em contraste direto, a personagem Sônia preservou a inocência. Ela brilha como um anjo, apesar de experimentar males muito piores como prostituta, apoiando o pai alcoólatra, com uma mãe histérica e irmãos pequenos e indefesos. Nas conversas entre os dois, Sônia é inocente, afirmando sua confiança em Deus e em seu amor, enquanto Raskólnikov se sente qualificado para lhe dizer o quão errada e ingênua ela é, ainda que ele mesmo nunca se dê conta da própria estupidez, ao cometer um crime pela simples razão de justificar uma hipotética moral adolescente.

Em vez de evitar Raskólnikov para manter sua pureza, Sônia pacientemente o confronta sobre seu crime e o desafia ao arrependimento. Nesse sentido, ela reflete os santos que brandiram sua inocência diante da corrupção. Eles entenderam que isso era mais persuasivo do que qualquer argumento. São Paulo conquistou mais convertidos na Grécia com sua inocência do que os maiores filósofos fizeram com seus diálogos e tratados. O próprio Santo Agostinho se converteu não por sua educação retórico-filosófica, mas por causa dos exemplos morais de sua mãe Santa Mônica e de seu mentor, Santo Ambrósio. São Bernardo de Claraval superou o lógico e célebre Pedro Abelardo (numa época em que havia pessoas assim) mais pelo poder de suas convicções do que por seu brilhantismo. São João Paulo II, um gênio por mérito próprio, dedicou sua vida a Deus depois de testemunhar a fé inabalável do pai, a quem considerou como seu “primeiro seminário”. Nada disso exclui a necessidade da razão; indica, porém, que esta é muito mais convincente quando associada à inocência.

Além de provar o poder da inocência, esses exemplos do passado demonstram que ela constitui o remédio concreto para um presente já fadigado. Obviamente, os que preservaram sua inocência devem torná-la um modelo para os outros. Eles podem esperar retaliações, mas pelo menos as pessoas notarão e talvez até venham a tomar consciência mais profunda dos efeitos encantadores da inocência.

O que é menos óbvio nesses exemplos, mas ainda assim imprescindível, é a necessidade subsequente do afastamento do mundo. A inocência impulsiona os homens para o céu; a corrupção os afasta. A pessoa deixa de confiar na Verdade, na Bondade e na Beleza quando passa tempo ouvindo mentiras, sucumbindo ao vício e se rendendo à autossuficiência. Portanto, o homem deve se afastar dessas influências.

Tal mudança acontece para Raskólnikov quando ele passa anos em uma prisão siberiana, antes de finalmente se arrepender. São Paulo escolheu viver no anonimato por três anos após sua conversão, antes de iniciar seu apostolado em Antioquia. Após sua conversão, Santo Agostinho se afastou permanentemente do mundo e de todos os seus prazeres e, praticamente, formou sua própria Ordem religiosa. São Bernardo ingressou na comunidade monástica mais rígida da França de sua época, e São João Paulo II perdeu o sono para passar mais horas em oração. Para todos esses homens, foi o afastamento do mundo que permitiu à inocência criar raízes e florescer. Eles pareciam haver entendido que, sem essa separação, a inocência continuaria sendo um ideal distante que induziria mais a remorsos do que à mudança de vida.

Na era da informação, esse afastamento se tornou cada vez mais difícil, à medida que novos dispositivos preenchem todos os espaços da vida; e inventores e psicólogos desonestos incorporam “tecnologia persuasiva” para destruir a possibilidade de autocontrole das pessoas. Por esse motivo, é necessário ter um propósito de mudar os próprios hábitos e reordenar as prioridades da vida. O tempo gasto anteriormente na televisão e nas mídias sociais pode ser preenchido com oração, trabalho, estudo e momentos de convivência. Se tal mudança puder ser sustentada sem recaídas, surgirão momentos de inocência em que a pessoa perceberá, e se revoltará, com o profano; e exaltará o belo, cheia de gratidão pelas muitas bênçãos presentes no mundo ao seu redor.

Para muitas pessoas que perderam sua inocência, a percepção de que ela pode ser resgatada é uma ocasião de grande alívio, e até de emancipação. Elas não precisam mais se desesperar por terem se afastado da inocência, nem continuar fingindo que estavam melhor por tê-la perdido. Em vez disso, elas podem ser encorajadas pela possibilidade de se tornarem inocentes novamente, protegendo a inocência de outrem e confrontando as forças que trazem à nossa sociedade essa tão sufocante corrupção. Por fim, um retorno à inocência através do afastamento do mundo é a única maneira de amar verdadeiramente ao próximo e aos inimigos, sem se perder e permitir o pecado. É a única maneira de combater os escândalos sem ser escandalizado. Mais importante ainda, é o único caminho para Deus.

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O melhor temperamento é…
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Como nascemos todos com o pecado original, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as qualidades da própria “compleição”, trabalhar as suas debilidades e, sobretudo, crescer na graça de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2019
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Não é porque somos filhos de Adão e desenvolvemos certos maus hábitos ao longo dos anos que precisamos envelhecer no mal e fazer dele um projeto de vida. O temperamento que recebemos “não é uma resignação”. Deus nos deu uma “compleição” específica, mas é no trabalho e na purificação dela que está a nossa santificação.

Além disso, coléricos ou sanguíneos, fleumáticos ou melancólicos, todos somos herdeiros do pecado original. Por isso, no estado em que nos encontramos, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as próprias qualidades, sanar as próprias debilidades e, sobretudo, procurar crescer na graça de Deus, que nos eleva acima de nossa natureza decaída.

Tudo isso é só para dizer que nós já estamos trabalhando na produção do curso “Os Quatro Temperamentos” e, abaixo, você confere um pouco do que espera por você em outubro, aqui no site do Padre Paulo Ricardo:

Como você pode ver na própria abordagem do vídeo, nosso curso não é um “manual” de cunho psicológico sobre os temperamentos. Para nosso apostolado, o importante mesmo é ver onde esse assunto se encaixa no caminho da santidade

Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Se você quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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A guerra que não podemos perder de vista
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A guerra
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Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada. Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2019
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Se procurarmos na literatura cristã motivos para rezar e fazer jejum, não nos faltarão explicações, e uma melhor do que a outra. Mas a simplicidade com que Santo Tomás de Aquino trata do tema é incomparável.

Comentando o nono mandamento, o Aquinate ensina alguns meios de combater a concupiscência, contra a qual ele adverte ser importante “trabalhar muito”, já que estamos falando de um “inimigo familiar, que está dentro de nós”. E um desses meios é justamente a perseverança na oração. Ele explica:

Há que rezar com insistência, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126, 1); “Consciente de não poder possuir a sabedoria [continência], a não ser por dom de Deus” (Sb 8, 21); “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne.

Estão aqui resumidos todos os tratados de teologia ascética e mística. Há dentro de nós uma batalha sendo travada, e é preciso jejuar (trabalho negativo) e rezar (trabalho positivo) para enfraquecer a carne e fortalecer o espírito, respectivamente.

Agora, atenção, porque o espírito de que fala Santo Tomás não é simplesmente a alma humana, mas, sim, o lugar onde Deus habita em nosso coração. Trata-se mais propriamente da graça, da vida divina e sobrenatural em nós. O que está em jogo nessa “luta constante” de que fala o Doutor Angélico, portanto, é nada menos do que o nosso estado de graça e a nossa salvação eterna, que se encontram o tempo todo ameaçados pelo drama do pecado e do afastamento de Deus. Não estamos falando de uma batalha qualquer, mas de um duelo de vida e morte (mors et vita duello), graça e desgraça, céu e inferno. 

Mas a pergunta que precisa ser feita é: ainda cremos nisso? Ainda temos fé nessas coisas que foram cridas pelos católicos de outros tempos e lugares, a ponto de muitos deles derramarem o próprio sangue só para não as negarem?

A questão é importante porque há uma doutrina errônea sendo propagada, infelizmente já absorvida por muitos católicos, segundo a qual uma bondade meramente teórica e natural basta para nos salvarmos. Essa ideia está “no ar”: é visível no desleixo com que tratamos os sacramentos, em especial a Eucaristia; na indiferença com que falamos da nossa religião, como se fossem todas iguais; e no modo laxo com que tantos, dentro da Igreja, falam de pecado e salvação. 

É como se a batalha de que falam o Doutor Angélico, todos os santos e o próprio Santo dos santos (cf. Mt 26, 41: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca”) fosse apenas uma metáfora, um “pano de fundo” geral para entendermos que é preciso ser bom e honesto, mas em linhas gerais, e não em todas as particularidades do que exigem os Mandamentos. (Para as nossas faltas, poderíamos contar com uma abstrata “misericórdia” superna, que tudo aceita, que tudo tolera, que tudo desculpa. Mesmo se não estivermos arrependidos dos nossos pecados. Mesmo se houvermos feito deles um projeto de vida. O céu não tem “alfândega” nem “controle de imigração” e o inferno… ah! “o inferno está vazio”.)

Nessa matéria, o correto seria dar ouvido àquilo que a Igreja sempre ensinou, porque é isso o que Jesus deixou a ela em última instância, de modo que apartar-se da doutrina católica de sempre nada mais é do que afastar-se da verdade de Cristo, que liberta e salva. O correto, portanto, seria: 

  • voltarmos a falar de inferno, porque o Evangelho fala dele (cf. Mt 18, 9: “É melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena”; Mt 23, 33: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?”; Mt 25, 46: “E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna”); e
  • lembrarmos que há pecados bem comuns que privam da vida eterna (cf. 1Cor 6, 9: “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus”); 
  • que as pessoas precisam se arrepender verdadeiramente dos seus pecados para ganhar de volta a graça perdida; 
  • que precisam se confessar a um sacerdote para receber o perdão de Deus; e 
  • que, se não quiserem fazer isso, não devem se aproximar da mesa da Comunhão (cf. 1Cor 11, 28: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice”).  

Se olharmos para as Escrituras, para a história da Igreja, para a sua prática ao longo dos séculos, para o que ensinaram o Concílio de Trento e, reiterando essa doutrina, também o Papa São João Paulo II, especialmente na encíclica Veritatis Splendor e na exortação Reconciliatio et Poenitentia, seremos capazes de observar um crescimento orgânico da doutrina cristã, um desenvolvimento que ao longo dos séculos foi deixando mais claro o que no Evangelho estava enunciado em algumas poucas sentenças. É a semente humilde que se transformou em árvore frondosa.

Mas hoje… onde se fala de pecado, de Confissão, de estado de graça e de inferno? Em muitos lugares, a bela árvore da verdadeira doutrina católica foi substituída por um espantalho. Daí os relativismos e as concessões, os “panos quentes” e até mesmo a promoção e exaltação do mal. Por essas e outras a “nova igreja” que colocaram no lugar da santa Igreja Católica não fala mais nem de oração nem de jejum. A sua batalha não é mais a batalha espiritual de que falam Santo Tomás e Nosso Senhor; o inimigo da vez não é o diabo, o mundo e a carne, mas a opressão do “sistema”, as queimadas e desmatamentos e o que quer que interesse às causas do momento.

Contra esses ares de mudança que sufocam a Igreja, o que está ao nosso alcance fazer é, em primeiro lugar, crer. E crer não em qualquer coisa, mas somente naquilo que sabemos ser a doutrina sólida e segura deixada por Cristo Nosso Senhor aos Apóstolos e seus sucessores. Entre essas coisas nas quais devemos crer está o praelium continuum, a luta incessante que travam nesta vida a nossa carne corrompida e o Espírito Santo de Deus em nós. Não nos deixemos seduzir por um discurso que declara guerra aos quatro cantos do mundo, mas que deixa intacto nosso egoísmo, e talvez até o afague um pouco, com uma mentirinha religiosa bem elaborada aqui e acolá. 

Não, o que Cristo ensinou há dois mil anos continua valendo para nós hoje. Continua sendo necessário, para a nossa salvação, entrar pela porta estreita, mortificar os nossos sentidos, resistir às tentações e rezar com afinco pela nossa fidelidade. Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada (cf. Mt 10, 34). Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, perdendo a graça de Deus, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

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Carta de um pai a seu filho: como rezar e ser um cristão melhor?
Espiritualidade

Carta de um pai a seu filho:
como rezar e ser um cristão melhor?

Carta de um pai a seu filho: como rezar e ser um cristão melhor?

A verdadeira profundidade não está no fundo do oceano, mas no abismo do coração humano, que se torna sombrio com o pecado e o egoísmo, mas que também é capaz de ser preenchido com a graça de Deus.

OnePeterFive.comTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2019
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A carta a seguir foi escrita há alguns anos por um pai a seu filho adolescente, que havia lhe pedido conselhos sobre como rezar e como ser um cristão melhor.


Caro N.,

Há muito tempo pretendo escrever uma carta para você, assim como já lhe escrevi algumas no passado. 

Primeiro, quero elogiá-lo por ser tão fiel à sua oração da manhã. Deus o abençoará abundantemente por essa fidelidade. Como Nosso Senhor diz: “Aquele que é fiel nas coisas pequenas será também fiel nas coisas grandes. E quem é injusto nas coisas pequenas, sê-lo-á também nas grandes” (Lc 16, 10). O caminho pelo qual crescemos na santidade consiste em sermos fiéis nas coisas bem pequenas. Fazer o trabalho escolar, as tarefas domésticas, as atividades diárias, da melhor forma e sem reclamar, é o caminho para a santidade.

Cuidado com a tentação sutil de fazer outras coisas pela manhã que possam reduzir o seu tempo de oração. Certamente, você pode levar alguns minutos para ficar bem acordado; para muitos, tomar uma xícara de café ou de chá é uma condição sine qua non para exercer uma atividade racional, logo após acordar. Mas, o mais rápido possível, faça a coisa mais importante de cada dia: adore, louve, agradeça e suplique ao Senhor. Deus é bom, e sua misericórdia dura para sempre. Ele é a rocha sobre a qual devemos construir toda a nossa vida.

Durante a oração da manhã, reserve um tempo para a meditação silenciosa — a fim de somente ficar recolhido na presença do Senhor. Para isso, a leitura espiritual é crucial, porque empilha a madeira seca e, quem sabe, talvez atice um pouco de fogo. Mas, quando o fogo se acender, devemos nos sentar quietos ao redor dele para nos aquecer. Precisamos de tempo e um pouco de calma para que a semente da Palavra de Deus se enraíze e cresça. Quando você chegar a um ponto de quietude, permaneça lá — não tenha pressa de chegar ao próximo passo.

Se você se distrair, como todos fazem, retorne gentilmente ao Senhor. Peça perdão por ter se distraído e volte a pensar nEle. Se estiver se sentindo muito distraído, pegue então o rosário e reze-o lentamente, ou faça a seguinte oração a Jesus, até que sua mente e coração sejam trazidos de volta à quietude: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, que sou um pecador”.

Senhor, quebrai a dura crosta que envolve o meu coração e a minha mente. Não escondais vosso rosto de mim. Deixai-vos conhecer por mim. Tomai meu coração e fazei-o vosso. Derramai em minh’alma a vossa paz.

Eis aqui algo muito importante: reze a partir de seus desejos, medos, preocupações, confusões, decepções, problemas, alegrias, prazeres. Quando Deus lhe concede essas coisas ou permite que você as experimente, Ele está fornecendo a matéria-prima para sua oração. Tudo o que você traz dentro de si, suas experiências, pensamentos e sentimentos, constituem o contexto no qual Deus quer vir ao seu encontro; e é sobre isso que Ele deseja ouvi-lo. A oração é sobre a nossa vida aqui e agora. Não é uma fuga para outro lugar; é uma forma de encontrar a graça, no momento presente, para ser seu filho.

A postura faz diferença em nossa oração. Sentar-se na posição vertical, sem muito relaxamento, é uma boa postura para meditar; mas também precisamos nos ajoelhar regularmente, e não ter preguiça de dobrar os joelhos, mantendo as costas eretas. Não é fácil fazê-lo — e isso é bom. Precisamos aprender a negar a nós mesmos, e o ato de nos ajoelharmos faz com que sejamos colocados no nosso devido lugar diante do “grande Deus do céu e da terra”, que é nosso Criador e Juiz.

Reserve com antecedência um período de tempo para rezar pela manhã. A princípio, pode ser 15 minutos, e, posteriormente, 30 minutos. Tendo decidido isso, permaneça comprometido com todo o seu tempo de oração, sem abreviar ou fazer de qualquer jeito. Os últimos minutos tendem a ser os mais difíceis e os mais proveitosos. Quando estiver difícil ou “árido”, é então que você mais treina sua vontade no hábito da perseverança e da fidelidade. Começar a rezar requer um ato de vontade, mas perseverar na oração requer um ato de vontade singular e maior. É como a diferença entre começar a correr e continuar correndo mesmo sem fôlego.

Uma vez você me perguntou o que significa “seguir Jesus”. Em poucas palavras, significa o seguinte:

Crer nos seus ensinamentos.
Esperar nas suas promessas.
Amar a Deus e ao próximo.

Seguir a Cristo é apegar-se com fé a suas palavras e deixar que elas iluminem a nossa mente e o nosso coração; confiar em sua misericórdia o tempo todo e saber que Ele nos levará para casa; amá-lo com todo o nosso ser, para que seu amor possa nos conquistar, reerguer nosso ser e depois se espalhar para o mundo por meio de nós. O segredo para ser feliz é amar e ser amado.

A fé é o remédio para o nosso orgulho e para os limites da nossa razão. A fé é um presente de Deus, mas requer, da nossa parte, assentimento e prática. Deus nos dá mãos e pés, mas somos nós que escolhemos usá-los. Assim, Ele também nos dá as virtudes da fé, da esperança e do amor, e a liberdade de exercitá-las. Sempre que as usamos, elas se fortalecem, e passam a determinar, cada vez mais, o curso de nossa vida.

E qual é o propósito de nossas vidas? Servir a Deus conhecendo e amando-o, aperfeiçoando-nos e servindo ao próximo. Primeiro devemos amar a Deus acima de tudo; em seguida, devemos amar a nós mesmos corretamente; por fim, devemos amar ao próximo como a nós mesmos.

Como posso fazer isso hoje? Todo grande plano é realizado em pequenas etapas. Faça um plano, pelo menos um plano aproximado, para o dia, alternando um “Eu devo...” com um “Eu quero...” (as coisas que deve fazer, mesmo que não queira, com as coisas que gostaria de fazer), e o mais importante, ofereça todo seu dia e todo seu ser ao Senhor.

Trabalhe duro, torne-se proativo e responsável. Pegue o touro pelos chifres. Não seja alguém que nunca sabe o que precisa ser feito. Obviamente, se precisar de ajuda, peça. Mas, faça o que fizer, seja proativo e não indiferente, bem disposto e não preguiçoso; e esteja preocupado em sempre melhorar, ao invés de se contentar com o que já é ou possui. Faça os seus trabalhos com calma, e não de qualquer jeito ou às pressas.

O que significa “servir aos outros”? Pense assim: seu trabalho é fazer as outras pessoas felizes ou, no mínimo, menos infelizes. Tudo o que você puder fazer para aliviar seus fardos ou ajudá-las a carregá-los, para atenuar seus problemas e tristezas, para ser amigo, enfim, tudo isso é uma maneira de servir. Pense que você estará servindo ao Senhor neles, como disse Jesus: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

O contrário de servir aos outros é egoísmo. Egoísmo significa ensimesmar-se, preocupando-se apenas com os próprios projetos e desejos. Está intimamente ligado à ganância — ou seja, ao espírito de querer muitas coisas, de se cercar delas e se sentir com direito a elas. Usadas na medida certa, as coisas não são um problema; mas podemos perder rapidamente o equilíbrio e a orientação. Podemos nos perder nas coisas e esquecer de onde vieram e para que servem. Se o nosso coração não está onde precisa estar, as coisas não nos deixarão mais satisfeitos, e sim mais solitários. Se o nosso coração está onde deveria estar, não nos importamos tanto com os bens — e quando os tivermos, saberemos como usá-los e como viver sem eles. Precisamos evitar o perigo de viver pelas coisas, e não por Deus e pelas pessoas que Ele quer que amemos.

A realidade mais fundamental não são as partículas subatômicas, mas o amor de Deus, que sustenta todas as coisas no ser — que me sustenta no ser, a fim de que eu seja amado por Ele e possa amá-lo de volta. A realidade mais suprema não é o cosmos ou seus milhões de galáxias incontáveis, mas a sabedoria e a bondade de Deus, que ordenam sutilmente todas as coisas e manifestam sua glória a nós, que somos seus filhos amados. A verdadeira profundidade não está no fundo do oceano, mas no abismo do coração humano, que se torna sombrio com o pecado e o egoísmo, mas que também é capaz de ser preenchido com a graça de Deus. O que é mais alto não são as montanhas elevadas, mas a misericórdia de Deus que nos rodeia e nos cura.

Deus todo-poderoso e eterno,
Vós sois o autor de todas as coisas —
sem Vós nada existiria.
Vós me chamastes a existir,
e me sustentais no ser, a todo momento,
inclusive neste exato momento, em que eu vos invoco com fé.
Vós sois a verdade que dá sentido a tudo,
a bondade que torna qualquer coisa amável,
a beleza que ilumina a face da terra.
Dai-me o conhecimento de vossa verdade e o zelo em buscá-la.
Abri meus olhos para a vossa bondade e
fazei-me bom, como Vós sois bom.

Tomai meu coração com sua beleza
e não permitais que eu vos abandone jamais.
Amém.

Com todo o meu amor,

Papai.

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