É possível que estejam espalhadas ao redor do mundo — em catedrais e capelas — três dúzias de cravos de ferro grosseiro que pleiteiam ser os cravos que perfuraram a carne de Cristo. Com tantos pretendentes, podemos sentir a tentação de rejeitar todos, tratando-os como fraudes piedosas, e encerrar logo o assunto, mas será que alguns deles podem reivindicar legitimamente essa autenticidade? Ainda que não possam, isso significa que não sejam relíquias?  

As relíquias da Santa Cruz têm um único ponto de origem na história da Igreja: a peregrinação de Santa Helena à Terra Santa (326–328). Santo Ambrósio nos diz que ela

procurou os cravos com que foi crucificado o Senhor, e encontrou. Com um cravo mandou fazer arreios, a outro engastou-o na coroa; um para adorno, outro para devoção. Visitada foi Maria para libertar Eva, visitada foi Helena para serem remidos os imperadores. [...] Enviou assim a seu filho Constantino uma coroa cravejada de joias para, encastoadas ao ferro da cruz, compor uma joia, ainda mais preciosa, da redenção divina; enviou-lhe também um arreio. De um e de outro usou Constantino e transmitiu a fé aos reis posteriores. O princípio, pois, dos imperadores fiéis é ‘o [objeto] santo que está sobre o arreio’ (Zc 14, 20): daí a fé, de modo que cessasse a perseguição e a sucedesse a devoção (“Oração Fúnebre à Morte de Teodósio”, 47, CSEL 73 [1955] 396 ll. 1–10 = ML 16,1401C–1402A) [i].

Esta menção a dois objetos criados com os cravos deu origem a uma crença inicial segundo a qual apenas dois cravos perfuraram o Senhor, um em cada mão. Porém, o texto não sustenta essa opinião. Santo Ambrósio apenas leva em consideração o uso dos cravos na criação de dois objetos, mas isso não significa que só havia dois deles. Naturalmente, questiona-se também se Helena realmente recuperou os verdadeiros cravos na Terra Santa ou se habitantes locais prestativos simplesmente deram a ela ferragens como se fossem os verdadeiros objetos. 

Exposição do Cravo do Arreio, em Milão.

À medida que rastreamos o progresso dessas relíquias, é importante ter em mente os diversos níveis de “verdadeiro”. Neste momento, não temos condições de confirmar quais foram os verdadeiros cravos utilizados na crucifixão, e de fato isso já estava além da capacidade de Helena em 326. No entanto, os cravos recuperados por Helena são em si mesmo um importante fragmento de história. Graças ao seu papel na história e à interseção com incontáveis santos ao longo dos séculos, são verdadeiras relíquias da fé ainda que não seja possível confirmar que são relíquias da crucifixão. Além disso, até réplicas dos cravos podem ser relíquias de primeira classe se tiverem pedaços de um cravo genuíno, ou relíquias de terceira classe se tiverem apenas tocado um cravo genuíno. 

Evidências arqueológicas podem fornecer algumas pistas para determinar quais cravos têm alegações plausíveis. Em 1968, túmulos descobertos numa região chamada Givat Hamivtar revelaram os restos mortais de um jovem chamado Yehohanan, que provavelmente morreu por volta do ano 7 d.C. Os restos mortais mostravam sinais de crucifixão, com um único cravo perfurando os dois calcanhares. Isso nos fornece um cravo daquela época para servir de comparação e ajuda a eliminar certos candidatos. Por exemplo, um cravo que está guardado em Notre Dame é muito curto, ao passo que outro que se encontra em Tréveris é também muito curto e não velho o bastante. Outros mantidos em Toul, Colônia e Essen possuem reivindicações de autenticidade muito frágeis.

Alguns cravos, por outro lado, são semelhantes ao cravo de Yehohanan, dentre eles os que estão em Roma, Siena e Milão. Por essa razão, são razoáveis as alegações de que são os três cravos recuperados por Helena. Sem dúvida não podemos afirmar que são de fato os cravos da crucifixão, mas é intrigante encontrar cravos com possível proveniência do século IV que se assemelham tanto com um cravo do início do século I, encontrado num túmulo no século XX.  

O Cravo da Santa Cruz (Roma)

O primeiro local para o qual devemos nos voltar é a Basílica da Santa Cruz em Jerusalém (Basilica di Santa Croce in Gerusalemme), em Roma, consagrada em 325 e cujo piso continha uma amostra do solo da Terra Santa. Por isso, o nome “em Jerusalém” não se refere à Cruz ou à localização, mas à própria basílica, que está “em Jerusalém” porque está sobre o solo vindo de Jerusalém. De acordo com a tradição, a basílica foi construída em torno da capela pessoal do palácio de Santa Helena, que fora construída por sua vez no antigo local de um templo dedicado ao Sol Invictus. Uma capela abriga várias relíquias da crucifixão, e em determinado momento um cravo foi posto lá junto com pedaços do titulus (a placa colocada sobre a Cruz) e fragmentos das cruzes de Cristo e do Bom Ladrão.

O cravo da Santa Cruz tem formato semelhante ao de Yehohanan, mas é consideravelmente mais curto (tem 11,5cm). Aparentemente, a causa é o fato de a cabeça e a ponta originais terem quebrado. Outros pedaços provavelmente foram removidos ao longo dos anos para ser usados como relíquias. Alguns dos cravos que reivindicam autenticidade são muito semelhantes ao cravo da Santa Cruz; portanto, é perfeitamente possível que limalhas ou pedaços inteiros dos originais tenham sido integrados em réplicas feitas para se assemelhar ao cravo da Basílica da Santa Cruz.

Dada a história contínua da basílica e sua relação com Helena, o cravo da Santa Cruz é o que tem a reivindicação mais sólida de ser aquele que foi recuperado por Helena. A localização está correta, e ele parece ser do mesmo material e ter o mesmo formato e tamanho. Na verdade, os cravos de Yehohanan e da Basílica da Santa Cruz têm quase a mesma largura: 0,9cm.  

O Cravo de Siena

Os dois cravos remanescentes foram enviados por Helena ao seu filho em Constantinopla, onde um deles ficou guardado por muitos séculos no cofre imperial bizantino. Em 1354, foi comprado por um mercador veneziano, que procurou saber qual era a opinião do núncio apostólico em Constantinopla. A imperatriz Irene Asanina confirmou que se tratava do cravo, pois o tinha vendido após a abdicação de seu marido, o Imperador João VI. Como era proibido vender relíquias, a posse do cravo foi transferida como “presente” ao hospital Santa Maria della Scala em Siena. Em 1359, chegou a Siena em procissão e a Capela do Manto acabou sendo construída para abrigá-lo.  

Ele é genuíno? Mais uma vez, a cadeia de conservação é sólida. O próprio cravo é semelhante — em relação ao tamanho e à forma — ao cravo da Santa Cruz e ao cravo de Yehohanan, e isto é o máximo que podemos realmente afirmar. 

O Cravo do Arreio (Milão)

“A Exaltação do Santo Cravo com São Carlos Borromeu”, por Carlo Saraceni.

Conta-se que o outro cravo de Constantino foi usado na forja de um arreio e de uma coroa para o imperador. Escrevendo no século V, Teodoreto de Cirro alegou que se tratava de um único cravo dividido ao meio, sendo que uma parte foi incrustada na coroa e a outra foi derretida para forjar um arreio.  

Atualmente, Milão e Carpentras [na França] reivindicam a posse do arreio. A reivindicação de Milão é mais sólida, porque foi onde o Imperador Teodósio I morreu em 395, deixando sua insígnia imperial a Santo Ambrósio.

O pedaço de metal retorcido certamente poderia ser um pedaço de arreio de cavalo. Permaneceu continuamente na Igreja de São Tecla até 1389, quando foi transferido em procissão para a Catedral de Milão, onde se encontra hoje. Quando uma epidemia atingiu a cidade em 1567, São Carlos Borromeu caminhou descalço pelas ruas com uma cruz e o relicário do cravo. O fim da epidemia foi atribuído a esse ato. 

Para celebrar a libertação, fizeram um ascensor especial com um dossel, pintado para parecer uma nuvem e enfeitado com anjos. Cordas e polias fazem com que o cesto seja erguido até a abóbada da catedral, a uma altura de 45 metros, onde o relicário do cravo é mantido durante a maior parte do ano. Há 400 anos, ele é trazido para baixo no Rito da Nivola, que ocorre anualmente. O ritual litúrgico era realizado no dia 3 de maio (festa da Invenção da Santa Cruz), até o dia santo ser removido do calendário. Atualmente ocorre no dia 14 de setembro. Os habitantes locais afirmam que Leonardo da Vinci projetou o dossel, mas essa informação não procede. 

Quanto à coroa de Constantino, o que temos a respeito dela é o silêncio da história.

Notas

  1. Jerônimo rejeita tal interpretação da passagem de Zacarias: “Ouvi de alguém uma coisa, dita em sentido até piedoso, mas ridícula: que os cravos da cruz do Senhor com os quais Constantino Augusto fez arreios para um seu cavalo são chamados ‘o santo do Senhor’” (in Zach. 14, 20 [ML 25, 1540A]). Embora tanto na Vulgata como na Septuaginta se leia ‘arreio’ (lt. frenum, gr. χαλινός, literalmente ‘freio’), em hebraico está ‘מְצִלּ֣וֹת’, i.e., ‘sinetas’, ‘chocalhos’ ou ‘campainhas’. O texto fala, portanto, de um tipo de cincerro (N.T.).