Visitantes misteriosos em momentos dramáticos aparecem e desaparecem frequentemente nos hospitais. Ao longo dos anos, Patti Armstrong entrevistou várias pessoas que tiveram tais experiências.

Leia abaixo a comovente história de Katie Alveby, que relata um episódio desse tipo [i].

Era quarta-feira, uma manhã melancólica, e eu olhava fixamente para fora. A chuva caía constante, como se até o céu chorasse meu pai. Será que ele está vivo? Suspirei, perguntando-me se ele conseguira vencer mais uma noite. Concluí que estava vivo; do contrário, alguém do hospital certamente teria telefonado.

De um mero braço quebrado às portas da morte. Parece um grande salto, mas para meu velho pai foi só um passo, pequeno e rápido. Ele vivia sozinho na fazenda desde dezembro de 2000, depois que minha mãe, sofrendo de Alzheimer, fora para um asilo. Sete semanas mais tarde, no dia de São Valentim, ela morreria em decorrência de um coágulo de sangue nos pulmões.

Meu pai sentia-se só sem a mulher, com quem esteve casado por quase 52 anos, mas permanecia relativamente ativo. Então, em junho de 2003, caiu e quebrou o braço direito, que nunca mais lhe foi útil. A partir de então, sua condição foi se agravando.

No final de maio do ano seguinte, papai sofreu outra queda, quebrando agora o braço esquerdo — o braço bom —, e foi levado para o VA Medical Center, em Minneapolis.

— Oi, pai — cumprimentei-o no quarto de hospital. — Como o senhor está?

— Estou tão confuso — queixou-se. — Não sei por que estou aqui.

— Pai, o senhor caiu e quebrou o braço bom — expliquei.

— Ah!… — lamentou. Pude ver-lhe a dor nos olhos.

Ele sabia que não tinha como voltar sozinho para casa. Um ministro da Comunhão passou por lá e ofereceu-lhe a Sagrada Eucaristia. Papai sempre teve a Deus presente em sua vida. Por isso, foi mais fácil para mim deixá-lo naquele dia. Pelo menos eu sabia que ele não estava sozinho. Ele tinha Jesus.

— Amanhã eu volto — prometi-lhe. Meus dois irmãos e minha irmã também fariam uma visita. A irmã, Chris, vivia em Des Moines, Iowa. 

Na terça-feira, papai sofreu uma parada respiratória e teve de ser posto num ventilador. No sábado, ficou claro que, em breve, seria necessário alimentá-lo por um tubo, provavelmente. Ele fez um sinal negativo com a cabeça quando trouxemos o tubo de alimentação, deixando claro que não o queria. E o ventilador? Mais uma vez, fez não com a cabeça.

Ele continuou a resistir, e os filhos nos revezávamos para ficar com ele. No domingo, estávamos todos presentes para a retirada do ventilador, uma decisão permitida pela Igreja. Ele estava consciente, e perguntamos novamente se tinha certeza de que queria sair do ventilador. Ele tinha.

Nos dois dias seguintes, meus irmãos e eu nos revezamos no hospital. Na quarta-feira de manhã, ao entrar no quarto, vi papai respirar com dificuldade, mas de forma regular. Segurei-lhe a mão e chorei. Papai, antes forte, agora sofria muito e se esforçava sempre que respirava. “O que o senhor está esperando?” Chorei contida. Por mais que fosse sentir sua falta, queria que sua dor acabasse.

Minha irmã, Chris, entrou na sala e juntas nos dirigimos com doçura a nosso pai. Nós nos perguntávamos o que ele tanto esperava. “Ele pode estar à espera de alguém, ou talvez haja alguém que ainda tenhamos de conhecer”, supôs Chris. Fomos almoçar, depois voltamos ao quarto, acreditando que não restava muito tempo. 

Jesus e os discípulos a caminho de Emaús.

Às 2h45min, uma batida na porta do hospital nos assustou. “Entre”, respondemos em uníssono. Entrou na sala um homem alto de cabelos escuros, que aparentava ter uns trinta anos. Usava óculos, tinha barba e bigode e um grande crucifixo pendurado no pescoço. De prancheta na mão, perguntou: 

— Esse é George Robinson?

Olhamos uma para a outra e, cautelosas, respondemos que sim.

— Bom, eu gostaria de dar a ele a Sagrada Comunhão —, informou-nos o homem alto. Mais uma vez, Chris e eu nos olhamos.

— Mas ele está em coma — explicou Chris.

O homem sorriu gentilmente: 

— Darei apenas uma partícula muito pequena.

— Não sei… — Chris hesitou.

— É só uma partícula — assegurou-nos.

Por fim, concordamos que seria bom que papai comungasse uma última vez. O homem partiu-lhe um pedaço bem pequeno. Recebi o restante do anfitrião. Em seguida, minha irmã recebeu também.

— Esta é provavelmente a última refeição que ele terá antes de morrer — disse ao homem.

— Não é bom vocês partilharem com ele sua última refeição? — disse o homem. Em seguida, prometeu que rezaria por papai e foi embora.

Acalmadas, Chris e eu seguramos as mãos dele. A respiração era mais leve e mais suave. Depois, de repente, ele nos deixou. Eram 3h23min. Chris e eu olhamos uma para a outra admiradas. A luta acabara, e tinha sido tão pacífica! Comuniquei-o à enfermeira, que mandou chamar o capelão do hospital. Ele chegou acompanhado de outro capelão, ainda em formação. 

— Há algo que eu possa fazer por vocês? — perguntou.

— Ele acabou de receber a Sagrada Comunhão. Morreu tranquilamente — explicou Chris. — Acho que não precisamos de mais nada agora.

O capelão parecia assustado:

— Quem foi? Quem lhe deu a Comunhão?

Descrevi-lhe o homem, mas o capelão ficou ainda mais perplexo. 

— Não havia ninguém agendado para dar a Comunhão hoje… — disse ele, que voltou a expressar compaixão, antes de se retirar da sala como quem estava muito confuso.

“A Ceia em Emaús”, de Caravaggio.

Ficamos mais algum tempo e finalmente nos despedimos de nosso pai. Antes de sair do hospital, paramos na enfermaria. Ficáramos próximas da enfermeira de plantão, que nos havia pedido que fôssemos até o quarto para nos despedirmos dele antes de partir. Também ela ficou perplexa ao saber que papai recebera a Comunhão. 

— Mas eu não vi ninguém a distribuir a Comunhão hoje neste andar!… — disse ela. 

Chris e eu jantamos juntas naquela noite para processar a morte de nosso pai. “Quem era aquele homem?”, ambas nos perguntávamos. Mais tarde, lembramos a possibilidade, como Chris tinha suposto, de ele estar à espera de alguém antes de partir.

Ao chegar ao hospital nesse dia, senti-me tão triste como os discípulos na estrada de Emaús; mas, assim como eles o reconheceram, reconheci Jesus na fração do pão, e minha tristeza desapareceu. “Quem era aquele homem?”, perguntamo-nos de novo. Um anjo? O próprio Jesus? 

A leitura escolhida para o funeral de papai tinha de ser a história dos discípulos de Emaús. Jesus esteve conosco na última caminhada, juntamente com nosso pai. Podemos ter nos separado dele na terra, mas estamos unidos a ele para sempre em Cristo.

Referências

  1. A história acima, traduzida por nossa equipe, encontra-se em: Patti Armstrong, Jeff Cavins; Matthew Pinto, Amazing Grace for Fathers. Ascension Press, 2006. Infelizmente, o livro não tem tradução portuguesa.