O jejum de nosso Salvador foi apenas o prelúdio da sua tentação. Ele foi para o deserto a fim de ser tentado pelo diabo, mas antes de ser tentado, jejuou. Vale a pena notar que isso não foi apenas uma preparação para o conflito, mas foi, em grande medida, a causa dele. Em vez de simplesmente prepará-lo para a tentação, é evidente que, em primeiro lugar, sua ida para o deserto e seu jejum o expuseram a ela. O jejum foi a principal ocasião da tentação. “[Jesus] jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome” (Mt 4, 2); e então veio o tentador, dizendo-lhe que transformasse as pedras em pão. Satanás usou o jejum do Senhor contra Ele mesmo.

E é exatamente isso que acontece com os cristãos de hoje, que buscam imitá-lo; e é bom que eles saibam disso, pois, do contrário, ficarão desanimados quando praticarem o jejum. Costuma-se dizer que o jejum tem como objetivo fazer de nós cristãos melhores, mais sóbrios, e levar-nos a nos submeter mais inteiramente a Cristo, com fé e humildade. Isso é verdade, se considerarmos as coisas como um todo. De modo geral, e por fim, esse efeito será produzido, mas não é de todo certo que aconteça de imediato. Ao contrário, tais mortificações têm, por vezes, efeitos muito diversos em pessoas diferentes, e devem ser observadas, não por seus benefícios visíveis, mas por fé na Palavra de Deus. Alguns homens, de fato, são disciplinados pelo jejum e logo se aproximam de Deus; para outros, por mais leve que seja, mostra-se pouco mais que uma ocasião de tentação

Por exemplo, às vezes, chega-se a usar, como objeção ao jejum (como motivo para não praticá-lo) o fato de ele deixar o homem irritadiço e mal-humorado. Reconheço que isso pode acontecer com frequência. Não obstante, o que ele provoca, no mais das vezes, é uma fraqueza que priva o homem do controle sobre suas ações, sentimentos e expressões corporais [...]. Ou ainda, a fraqueza do corpo muitas vezes o impede de concentrar-se em suas orações, em vez de fazê-lo orar com mais fervor; além disso, a fraqueza do corpo é geralmente acompanhada de languidez e apatia, e tenta fortemente o homem à preguiça.

No entanto, ainda não mencionei o efeito mais angustiante que pode advir até mesmo do exercício moderado desse grande dever cristão. Ele é, sem dúvida alguma, uma ocasião de tentação, e digo isso para que as pessoas não se surpreendam nem desanimem quando se derem conta disso. O Senhor misericordioso o sabe por experiência própria. E que Ele tenha passado por isso e, portanto, conheça essa realidade, conforme os relatos da Sagrada Escritura, é para nós motivo de grande consolo. Não quero dizer, Deus não o permita, que alguma fraqueza pecaminosa tenha manchado sua alma imaculada, mas o relato sagrado deixa claro que, no caso dele, como no nosso, o jejum abriu caminho para a tentação. E talvez seja essa a perspectiva mais verdadeira em relação a tais exercícios: de algum modo maravilhoso e desconhecido, eles nos abrem o caminho para o bem e o mal no mundo vindouro, e nos introduzem em um conflito extraordinário com as forças do mal [...].

“Cristo no deserto”, por Ivan Kramskoy.

Essa é, talvez, uma visão mais exata das consequências do jejum do que normalmente se tem. É claro que, pela graça de Deus, ele sempre traz benefícios espirituais ao nosso coração, aperfeiçoando-o por meio daquele que opera tudo em todos; e, muitas vezes, é um benefício prontamente perceptível para nós já no momento. No entanto, em regra acontece o oposto: o jejum apenas aumenta a excitabilidade e a suscetibilidade dos nossos corações. Em todos os casos, portanto, ele deve ser entendido sobretudo como uma forma de nos aproximarmos de Deus — de nos aproximarmos dos poderes do Céu —, sim, mas também dos poderes do Inferno. E, sob essa perspectiva, há algo de muito terrível nele. Pois, pelo que sabemos, a tentação de Cristo não é senão a plenitude daquilo que, em seu grau, e de acordo com as nossas fraquezas e corrupções, ocorre a todos os seus servos que o buscam. E, se é assim, a Igreja sem dúvida teve um forte motivo para associar esse período de mortificação ao período que Cristo passou no deserto, para que não ficássemos abandonados aos nossos próprios pensamentos e, por assim dizer, “entre os animais selvagens” (cf. Mc 1, 13), e assim desanimássemos ao mortificar-nos; mas pudéssemos reconhecer que somos o que realmente somos: não servos de Satanás e filhos da ira, gemendo sem esperança sob nosso fardo, confessando-o e clamando: “Infeliz de mim!” (Rm 7, 24), mas pecadores de fato, pecadores que se mortificam e fazem penitência por seus pecados; e, ao mesmo tempo, filhos de Deus, nos quais o arrependimento dá frutos, e que, enquanto se humilham, são exaltados e, no instante mesmo em que se prostram aos pés da Cruz, continuam a ser soldados de Cristo, com a espada na mão, travando uma grande guerra, sabendo que têm dentro de si e sobre si aquilo que faz os demônios tremerem e fugirem [...].

Portanto, não há nada a temer enquanto permanecermos à sombra do trono do Todo-poderoso. “Ainda que caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita, a calamidade não se aproximará de ti” (Sl 90, 7). Enquanto estivermos unidos a Cristo, seremos participantes de sua proteção. Ele destruiu o poder de Satanás; Ele pisou “no leão e na víbora, no filhote de leão e no dragão” (cf. Sl 90, 13) e, a partir de então, os espíritos malignos, em vez de terem poder sobre nós, tremem e se apavoram diante de todo cristão verdadeiro. Sabem que ele traz dentro de si aquilo que o torna senhor deles; que ele pode, se quiser, rir deles com desdém e fazê-los fugir. Sabem muito bem disso e o levam em consideração em todos os seus ataques contra ele. Somente o pecado lhes dá poder sobre ele, e seu grande objetivo é fazê-lo pecar e, assim, surpreendê-lo no pecado, pois sabem que não têm outra maneira de vencê-lo. Tentam assustá-lo com a aparência de perigo e, assim, surpreendê-lo; ou se aproximam de modo furtivo e dissimulado para seduzi-lo e, assim, surpreendê-lo. Contudo, a menos que o peguem de surpresa, eles nada podem fazer. 

Portanto, meus irmãos, “não ignoremos as maquinações de Satanás” (2Cor 2, 11); e, conhecendo-as, vigiemos, jejuemos e oremos, permaneçamos sob as asas do Todo-poderoso, para que Ele seja o nosso escudo e proteção. Oremos para que Ele nos revele sua vontade, nos mostre nossas falhas, arranque de nós tudo o que possa ofendê-lo e nos conduza no caminho da eternidade.

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Referências

  • [São] John Henry Newman, Fasting a Source of Trial. In: Parochial and Plain Sermons, vol. 6. New York: Longmans, Green and Co., 1907, p. 5ss.

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