Todos os anos, no tempo do Natal, somos obrigados a lembrar que o Menino Jesus nasceu para morrer. Por mais contentes que fiquemos em celebrar os mistérios da Encarnação e Natividade do Filho de Deus, os fatos que se lhes seguem nos forçam a “moderar” a alegria. Logo no dia 28 de dezembro, em plena Oitava de Natal, a Igreja põe diante de nossos olhos uma multidão de bebês mártires, mortos a mando de Herodes no lugar de Jesus. São os Santos Inocentes.

Poucos dias depois, na Epifania, um dos presentes trazidos pelos magos do Oriente nos revela o futuro aparentemente “sombrio” da criança que São José e a Virgem Maria trazem ao colo: a mirra, que serve de bálsamo para os corpos dos mortos, nada mais é que prefiguração da Paixão e Morte que teria de enfrentar o nosso Redentor. Estamos no Natal, mas é como se a Páscoa já estivesse às portas. A Madonna della Rosa pintada por Simão de Pésaro retrata justamente isto: o Menino Jesus segura o crucifixo de um Rosário e o apresenta a Maria, já indicando o momento em que uma espada de dor lhe trespassaria a alma.

Pintura de Simone Cantarini (Simão de Pésaro).

Agora temos no Brasil, todos os anos desde 2013, os blasfemos [1] “Especiais de Natal” do grupo “Porta dos Fundos”, lembrando que, se Cristo veio para morrer, não o quis fazer de qualquer jeito: era necessário que seus padecimentos físicos fossem acompanhados da zombaria, do esculacho, da comédia. Foi assim que aconteceu dois mil anos atrás quando Nosso Senhor, para redimir os homens, foi vestido com um manto de burla, coroado de espinhos, ridicularizado e pregado no madeiro (até então infame) da Cruz.

Nós, católicos, estamos bastante habituados a esses fatos. Eles nos são colocados todos os anos diante dos olhos, por ocasião do tempo litúrgico da Paixão — as duas últimas semanas da Quaresma, tradicionalmente chamadas de “Semana das Dores” e “Semana Santa”. O exercício da Via Sacra pode nos colocar em contato com esses acontecimentos em qualquer época do ano, e a abstinência de carne nas sextas-feiras lembra que nesse dia morreu o nosso Salvador.

Também não faltam obras de arte a retratar os últimos episódios da vida de Cristo, especialmente o escárnio que fizeram dele. Em muitas delas é possível ver uma faixa a tapar os olhos de Jesus, a coroa de espinhos para zombar de seu reinado e uma vara rústica a servir-lhe de “cetro”; ao seu redor, risos, palhaçadas e expressões irônicas: seus algozes têm as línguas de fora, como quem faz troça, e se divertem enquanto cravam com ainda mais força os espinhos na sua cabeça. 

Nenhum retrato, porém, é tão meticuloso e por isso mesmo chocante quanto o “pintado” pela vidente e bem-aventurada Ana Catarina Emmerich († 1824) em sua Vida e Paixão do Cordeiro de Deus. O que ela narra é fruto de uma revelação particular e, por isso, os católicos são livres para dar crédito ou não a seus relatos. É inegável, porém, que eles são um prato cheio para a nossa imaginação, podendo alimentar muito a nossa vida de piedade. A seguir, destacamos a descrição, feita por ela, de Jesus “coroado de espinhos e escarnecido pelos soldados” [2].


Jesus foi coroado de espinhos e escarnecido no pátio interior do corpo da guarda, construído sobre os cárceres, ao lado do fórum. Esse pátio era cercado de colunas e todas as entradas tinham sido abertas. Havia ali cerca de cinquenta miseráveis patifes, sequazes dos soldados, servos dos carcereiros, oficiais e auxiliares dos verdugos, escravos e os carrascos que flagelaram Nosso Senhor; esses todos tomaram parte ativa nas crueldades praticadas em Jesus. No começo o povo tentou entrar, mas pouco depois cercaram mil soldados romanos o edifício. Permaneciam nas fileiras, mas com os deboches e risos provocavam ainda a cruel ostentação dos verdugos, para redobrarem as torturas de Jesus, animando-os com as risadas, como o aplauso anima os atores no palco

Rolaram para o meio do pátio o pedestal de uma velha coluna, no qual havia um buraco, que talvez tivesse servido para nele ajustar a coluna. Nesse pedestal colocaram um escabelo redondo e baixo, que por detrás tinha uma espécie de cabo, para o manejar; por maldade cobriram o escabelo de pedregulho agudo e cacos de louça

Arrancaram de novo toda a roupa do corpo ferido de Jesus e impuseram-lhe um manto de soldado, curto, vermelho, velho e já roto, que nem lhe chegava até os joelhos. Pendiam dele ainda alguns restos de borlas amarelas; jazia em um canto do quarto dos verdugos, que costumavam impô-lo aos que tinham açoitado, seja para enxugar-lhes o sangue, seja para escarnecê-lo. Arrastaram a Jesus para a coluna e empurraram-no brutalmente, com o corpo despido e ferido, sobre o escabelo coberto de pedras e cacos. Depois lhe puseram a coroa de espinhos na cabeça. Essa tinha dois palmos de altura, era muito espessa e trançada com arte; em cima tinha uma borda um pouco saliente. Puseram-lhe em redor da fronte, como uma faixa, e ataram-na atrás com muita força, de modo que formavam uma coroa ou um chapéu. Era artisticamente trançada de três varas de espinheiro da grossura de um dedo, que tinham crescido alto, através dos espessos arbustos; os espinhos, pela maior parte, foram propositalmente virados para dentro. Pertenciam a três diferentes espécies de espinheiro branco. Em cima tinham acrescentado uma borda, trançada de um espinheiro semelhante à nossa sarça silvestre e pela qual pegavam e puxavam brutalmente a coroa. Vi o lugar onde os meninos foram buscar esses espinhos.

“O Escárnio de Cristo”, por Godfried Schalcken.

Puseram-lhe também na mão um grosso caniço, com um tufo na ponta. Fizeram tudo isso com solenidade cômica, como se o coroassem de fato rei. Tiravam-lhe o caniço da mão e batiam com tanta força a coroa, que os olhos de Nosso Senhor se enchiam de sangue. Curvaram os joelhos diante dele, mostravam-lhe a língua, batiam e cuspiam-lhe no rosto, gritando: “Salve, rei dos judeus!”. Depois, entre gargalhadas, o fizeram cair no chão, junto com o escabelo, e tornaram a colocá-lo sobre ele aos empurrões. 

Não posso relatar todas as torturas e ultrajes que os verdugos inventaram, para escarnecer o pobre Salvador. Ai! Jesus sofreu horrível sede; pois em consequência das feridas, causadas pela desumana flagelação, estava com febre e tremia; a pele e os músculos dos lados estavam dilacerados e deixavam entrever as costelas em vários lugares; a língua contraíra-se-lhe espasmodicamente; somente o sangue sagrado que lhe corria da fronte, compadecia-se da boca ardente, que se abria ofegante; mas aqueles homens horríveis tomaram-lhe a boca divina por alvo de nojentos escarros. Jesus foi assim maltratado por cerca de meia hora e a corte cujas fileiras cercavam o pretório, aplaudia com gritos e gargalhadas.


Eis as indignas crueldades com que trataram Nosso Senhor dois mil anos atrás!

Por tudo isso que é narrado pela Beata Emmerich — fonte de inspiração para a Paixão segundo Mel Gibson —, não devemos nos escandalizar ao ver a nossa fé achincalhada ainda hoje. (Mesmo que, agora, passado tanto tempo desde os fatídicos acontecimentos de Jerusalém, a zombaria com o Filho de Deus seja muito pior. Pois a humanidade já viveu tempo suficiente para comprovar a veracidade da pregação de Jesus, e a sobrevivência da Igreja Católica às eras e aos impérios dá testemunho de sua origem divina.)

Até o fim do mundo — nós rezamos e esperamos por isto —, muitos Saulos ainda terão as escamas milagrosamente arrancadas dos olhos e se converterão a Cristo. Enquanto isso não acontece, porém, só nos resta lamentar pelos zombadores de Deus, pois a fé nos ensina o destino que lhes está reservado. É dito popular que “quem ri por último, ri melhor”, mas, se não devemos dar crédito ao que diz o povo, não esqueçamos que, da risada de Deus no fim dos tempos, é a própria Escritura que dá testemunho: Qui habitat in caelis irridebit eos — “O que mora nos céus se rirá deles” (Sl 2, 4).

Notas

  1. O pecado de blasfêmia, gravíssimo por seu próprio gênero, consiste em qualquer locução interior ou manifesta, quer por palavra ou outros sinais, que importe alguma contumélia a Deus, ou por lhe negar algum de seus atributos, ou por lhe atribuir o que não lhe convém (cf. STh II-II 13, 1c.). Para que haja pecado de blasfêmia, não é necessária a intenção expressa de desonrar a Deus; basta, pelo contrário, a simples prolação formal da expressão injuriosa, i.e. a intenção de significar o que as palavras propriamente significam. Por isso peca não só contra a benevolência fraterna mas também por blasfêmia quem desonra a Deus, ainda quando não creia nele, com o fim único ou principal de injuriar os que creem. Ora, como a blasfêmia implica de si uma violação da justiça, por negar a Deus o respeito que lhe é devido, justificá-la em nome da “liberdade de expressão” ou da “crítica social” é o mesmo que dar direito de cidadania à mais grave das injúrias — ação, aliás, tipificada no Código Penal brasileiro, no qual se prevê pena de reclusão de até três anos para quem a pratica valendo-se de elementos referentes a religião (cf. CP, art. 140, §3). Mas como o fim das democracias não é outro que a “liberdade”, sem nenhuma referência a padrões objetivos de moralidade, não admira que a ordem jurídica venha a aprovar o que ela mesma condena… 
  2. Anna Catarina Emmerich, “Jesus é coroado de espinhos e escarnecido pelos soldados”, in: Vida e Paixão do Cordeiro de Deus, Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 280ss.