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A Bíblia, a Reforma Protestante e G. K. Chesterton
Igreja Católica

A Bíblia, a Reforma
Protestante e G. K. Chesterton

A Bíblia, a Reforma Protestante e G. K. Chesterton

O que realmente aconteceu quando os “reformadores” protestantes separaram a Bíblia da Igreja? É o que responde o escritor inglês G. K. Chesterton.

Dale Ahlquist,  Catholic World ReportTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Outubro de 2017
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“Acredito que levará séculos para desfazer o nó de confusão e estupidez que se atou quando os reformadores, de modo um tanto irracional, separaram a Bíblia da Igreja”.

Embora G. K. Chesterton seja admirado tanto por protestantes quanto por católicos, e até mesmo por não-cristãos, as linhas transcritas acima não são exatamente um modelo de ecumenismo. Mas, uma vez que assistimos este ano ao quinto centenário da Reforma, é conveniente que tentemos entender de que maneira Chesterton identifica o problema que há meio milênio vem atormentando o mundo cristão. O problema tem a ver com o melhor de todos os livros: a Bíblia Sagrada.

Cinco séculos atrás, Martinho Lutero, seguido por João Calvino e outro líderes do que se conhece como Reforma Protestante, operou uma enorme cisão na cristandade européia ao separar-se da autoridade da Igreja apelando à autoridade da Escritura. Os reformadores não apenas separaram a Bíblia da Igreja, a ponto de excluir a própria Igreja; eles separaram a fé da razão, a ponto de excluir a própria razão.

O que veio em seguida foi confusão. Protestantes começaram a acreditar que, de algum modo, a doutrina católica não tinha base “escriturística” e, consequentemente, se privaram dos sacramentos:

  • O Batismo e a Eucaristia tornaram-se meros símbolos, desprovidos de qualquer força sobrenatural.
  • Já não havia mais necessidade nenhuma da Confissão, uma vez que a salvação provém de um único ato de misericórdia na cruz, e Cristo foi então removido da cruz, para que as pessoas não ficassem presas a essa coisa desagradável ou, pior do que isso, viessem a adorar uma imagem esculpida em um crucifixo.
  • O casamento entre um homem uma mulher perdeu seu elemento divino e, por conseguinte, o sexo começou a ser algo alheio ao matrimônio, e assim teve início a dissolução da família.
  • De guias espirituais encarregados de conduzir as almas para o céu, os padres começaram a ser vistos como agentes do inferno e das trevas.

A separação protestante entre Bíblia e Igreja foi impulsionada pela invenção da imprensa — uma invenção católica em uma sociedade católica, destaca Chesterton, mas que “foi largamente utilizada para encher as livrarias de mentiras contra essa mesma sociedade”.

Os protestantes continuaram a protestar, não só contra a Igreja Católica, mas ainda entre si, na medida em que novos grupos iam-se desmembrando em seitas cada vez mais estreitas com interpretações ainda mais estreitas da Bíblia e daquilo que devia ser o cristianismo. Pureza e justiça foram substituídas por puritanismo e farisaísmo, de modo que, em vez de condenar o mau uso das coisas boas, as boas coisas foram condenadas em si mesmas.

Martinho Lutero no Círculo dos Reformadores, pintura do século XVII.

A ênfase calvinista na absoluta soberania de Deus deu origem, sem querer, a uma longa série de filósofos fatalistas, em cujo pensamento não havia lugar para o livre-arbítrio. O que no início era um conceito puramente teológico de predestinação abriu caminho para todo tipo de determinismo, econômico, político, social e psicológico, onde ninguém é mais responsável pelas próprias ações, podendo pôr a culpa em qualquer instância externa que esteja fora de seu controle.

O caos do mundo moderno, diz Chesterton, “não nasceu da cristandade, mas da sua ruptura”.

Ao separarem a Bíblia da Igreja, os protestantes fizeram a Bíblia voltar-se contra a Igreja. Perdeu-se a memória de que foi a Igreja que nos deu a Bíblia. Esqueceu-se do fato de que a Bíblia foi, e ainda é, um documento católico. Ignorou-se, além do mais, que a Bíblia protestante não é mais do que uma redução da Bíblia católica. Os reformadores jogaram fora inúmeros livros, desprezando-os como “apócrifos”, ou seja, de caráter duvidoso. Dúvida: o oposto da fé.

No entanto, foram os estudiosos seculares que disseminaram as dúvidas por todo o restante da Bíblia. Começaram a desmontá-la peça por peça sob o pretexto da crítica textual, e assim os protestantes se deram conta de que a única autoridade por eles reconhecida havia ruído. Nada lhes restou. E muitos deles saíram em debandada.

O irônico de tudo isso é que as mesmas pessoas que alertaram contra a idolatria de escritos sagrados terminaram por criar uma cultura que sofre de uma idolatria de tudo o que vem por escrito. Como diz Chesterton,

Há quase tanta superstição em beijar a Bíblia quanto em consultar o dicionário. O homem moderno, sobretudo o homem da cidade, pensa que tudo o que está impresso passou de alguma maneira por um exame e recebeu um diploma, que é de algum modo verdadeiro em si mesmo… O homem moderno acredita antes na enciclopédia do que na testemunha ocular; dá mais crédito ao que noticia o jornal do que aos olhos de quem presenciou o fato. Ele compra o jornal na manhã seguinte para descobrir o que realmente se passou no evento de que ele mesmo participou na noite anterior.

Tudo isso pôs a Bíblia numa situação mais do que curiosa. Chesterton resumiu bem o problema há quase cem anos, mas a sua análise permanece ainda muito precisa. Ele está certo, de modo particular, ao dizer que “a ignorância sobre essas coisas está crescendo”.

O filósofo e escritor inglês G. K. Chesterton.

Em primeiro lugar, há os fundamentalistas, que recorrem à Bíblia sem a menor consideração pela autoridade que, na verdade, fixou o cânon bíblico. Trata-se, segundo Chesterton, “de uma mitologia, segundo a qual o elefante se apoia sobre o casco da tartaruga, e a tartaruga, por sua vez, não se apóia em coisa nenhuma”.

Há, em segundo lugar, os setores mais laxistas, que são no fundo bastante estritos, para quem só algumas passagens da Bíblia podem ser ensinadas em público, ao passo que todo o restante é inapropriado.

Em terceiro lugar, há os modernistas, que acusam a Igreja Católica de ter feito na “idade das trevas” aquilo que os laxistas têm feito agora: selecionar arbitrariamente certos trechos da Bíblia e esconder o resto do povo. (Esta é a acusação à Igreja que se faz, por exemplo, no conhecido “O Código da Vinci”.) A Igreja, diz Chesterton, “tem sido acusada de esconder a Bíblia; mas, ainda que isso fosse verdade, seria algo muito menos surpreendente do que a fez a Reforma, que teve grande êxito em esconder tudo o mais”. O protestantismo foi muito bem sucedido em esconder da civilização ocidental a sua própria história.

E há, por outro lado, a única Igreja que manteve íntegra a Bíblia, enriquecendo com seus textos a liturgia, cantando dia após dia as suas orações, aplicando sua sabedoria atemporal a estes tempos. É a mesma Igreja que teve o cuidado de preservar outros documentos antigos que não só atestam a veracidade das Escrituras, mas ainda demonstram qual a diferença entre um texto inspirado e outro não. A Igreja Católica, que ainda ensina tudo o que está contido nas Escrituras, pode indicar em que parte da Bíblia se encontra o fundamento de cada um de seus ensinamentos:

  • o Batismo é um nascer de novo (cf. Jo 3, 5);
  • o vínculo matrimonial é indissolúvel (cf. Mc 10, 11) e reflexo da união entre Cristo e sua esposa, a Igreja (cf. Ap 19, 7);
  • é necessário confessarmos nossos pecados (cf. Tg 5, 16) a um sacerdote (cf. Mt 8, 4);
  • Jesus fundou uma Igreja, constituiu o seu primeiro chefe (cf. Mt 16, 18), conferiu a seus Apóstolos a autoridade de perdoar os pecados (cf. Jo 20, 23) e disse que, ao menos que lhe comamos o corpo e o sangue, não teremos em nós vida alguma (cf. Jo 6, 53).

Isto nos traz de volta ao ecumenismo no despertar da Reforma. Ainda temos o grande dever de apelar ao amor a Deus e ao seu Filho que temos em comum com nossos amigos protestantes; mas temos também a responsabilidade de fazê-los olhar com honestidade para a Bíblia e para o conjunto da história, para o que realmente aconteceu quando os reformadores separaram a Bíblia da Igreja.

Não se trata de uma missão impossível. Eu mesmo já a vi ser cumprida com sucesso. Foi um católico fiel, amoroso e sem medo de dizer a verdade que, com paciência, me levou da igreja batista para a Igreja una, santa, católica e apostólica. Ele primeiro apelou àquilo que tínhamos em comum; em seguida, fez-me cair na conta daquilo que me estava faltando. Ele conseguiu fazê-lo porque já havia percorrido o mesmo caminho. O seu nome era G. K. Chesterton.

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O que Deus pede de nós em tempos de crise?
EspiritualidadeHistória da Igreja

O que Deus pede
de nós em tempos de crise?

O que Deus pede de nós em tempos de crise?

Nosso Senhor não irá nos julgar por aquilo que um padre, um bispo ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. A pergunta que Ele nos fará é: você fez o que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

Robert B. Greving,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2017
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Ronald Knox disse certa vez que “quem viaja a bordo da barca de São Pedro seria melhor que não olhasse muito de perto para o interior da sala de máquinas”. A menos que você tenha vivido dentro de uma caverna pelos últimos cinco, dez ou cinquenta anos, saiba que a barca tem atravessado alguns mares turbulentos. Alguns diriam que estamos com Colombo navegando rumo a um novo mundo; outros, que o nome escrito na lateral da barca é Titanic. De qualquer modo, vale a pena ressaltar que, seja lá qual for a maneira de ler o sinais dos tempos, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, nada disso importa.

Não digo que não devamos rezar pela Igreja ou pelo Papa e os bispos, nem que não devamos ficar preocupados quando padres ou prelados, e até mesmo aqueles do mais alto escalão, dizem coisas que nos fazem ficar com a pulga atrás da orelha, para dizer o mínimo. Não digo que não devamos confrontar o erro, chamar as coisas pelo nome, ou que devamos fechar os olhos para o escândalo. O que quero dizer é que, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, não nos devemos preocupar com nada disso, porque a única coisa com a qual devemos realmente nos preocupar não é, de forma nenhuma, afetada por tais problemas. E essa única coisa é a nossa própria alma.

Ao longo do último mês de novembro, a Igreja nos levou a refletir sobre os Novíssimos — literalmente, as “últimas coisas” —, indicando que nossa preocupação última deve ser a nossa santidade pessoal. É fácil, e talvez desculpável, ficar perturbado com o que algum padre, bispo, político “católico” ou escola “católica” disse, fez ou deixou de fazer. Eu sou o primeiro a admitir que posso, sim, ficar mordido com essas coisas. E, como disse, há alguma justiça nisso. Nós amamos a Igreja e, devemos reconhecer, é mesmo preocupante vê-la em um estado de “diluição”. A Igreja deveria ser nossa “rocha”, mas a sensação atual, para muitos de nós, é a de que ela se assemelha mais à areia movediça. Mas, é aí que está o ponto, o que devemos fazer diante de tudo isso?

Quando morrermos — e esta é a única coisa com a qual devemos nos preocupar —, Nosso Senhor não irá nos julgar a partir do que um padre, um bispo, um Papa ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. Ao contrário, Ele nos julgará por um critério bem simples: você fez aquilo que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

No romance Emma, de Jane Austen, a personagem que dá nome ao livro e seu amigo, sr. Knightley, conversam sobre outra personagem, Frank Churchill, que aparentemente fracassou em seus deveres como filho. Enquanto Emma busca todas as razões possíveis para desculpar o jovem, ao sr. Knightley não acode nenhuma. Ele finalmente diz: “Há uma coisa, Emma, que um homem pode sempre fazer se ele quiser, e essa coisa é o dever, não por interesse e vaidade, mas por força e resolução”. Essa também deveria ser a nossa atitude.

Vejamos por outro ângulo. Houve alguma vez na história uma época em que a Igreja, do Papa ao pároco, e deste ao paroquiano no banco da igreja, tenha sido perfeita? Não. São Paulo pareceu ter gasto a maior parte do seu tempo resolvendo disputas e corrigindo heresias. Os primeiros cinco séculos da história da Igreja (pelo menos) foram gastos formando-se um credo e, mesmo então, ao menos uma vez, a maioria (formada por arianos) não o professou corretamente. A Idade Média viu o Papa mudar-se para Avignon e lá ficar por quase 70 anos, e ainda depois, por mais 25 anos, tivemos três homens reivindicando o papado. E nem se fale da Renascença. O século XVII teve os jansenistas; o XVIII, os iluministas e a Revolução Francesa. No século XIX, o Concílio Vaticano I foi suspenso porque tropas italianas invadiram a Cidade Eterna.

Santa Joana d’Arc, por John Everett Millais.

Muitos ainda falam da “época de ouro” da Igreja antes do Vaticano II. Embora possa existir certa verdade nisso, a questão que deve ser levantada é: onde e quando as sementes do dilúvio do “espírito do Vaticano II” foram lançadas senão naquela “época de ouro”? A Igreja — em seus membros — nunca foi perfeita.

No entanto, também sempre houve santos. Sempre existiram aqueles poucos indivíduos que, como temos dito, não se transtornavam por causa do que alguém fazia ou deixava de fazer; em vez disso, fizeram eles mesmos o que deviam fazer, por mais humilde ou simples que fosse o trabalho. Eles perseguiam sua própria santidade. E faziam-no com os mesmos meios que você e eu temos à nossa disposição — oração, sacramentos, a graça de Deus e a própria vontade. Nenhum deles dependeu da santidade pessoal de outras pessoas na Igreja. Em todos estes tempos difíceis, houve grandes santos.

Eu disse acima que não deveríamos falar da Renascença, mas vamos fazer isso agora. O papado sangrava por conta de escândalos pessoais e da heresia de Martinho Lutero. Na Inglaterra, todos os bispos, exceto um, submeteram-se a Henrique VIII. Mesmo assim, Thomas More tornou-se um santo, indo calmamente para a guilhotina e fazendo piadas, não porque seu pároco fizesse ótimos sermões ou porque houvesse um ótimo projeto pastoral em sua diocese, não por causa da pureza ou clareza doutrinária do clero, mas porque ele mesmo levou uma vida de santidade. (E o fez ao mesmo tempo em que sustentava uma família, trabalhava como advogado e estava envolvido em todos os tipos de assuntos políticos.) Ele não murmurou, não reclamou nem apresentou desculpas, mas olhou para sua própria alma.

“Estas crises mundiais são crises de santos”, dizia São Josemaria Escrivá, que derramou lágrimas quando a Igreja parecia ruir durante as décadas de 1960 e 1970. Isso quer dizer que essas crises não são, em primeiro lugar, crises de Papas, bispos, padres, ou de universitários, teólogos e políticos, mas, sim, de você e eu, que deveríamos ser santos no lugar em que Deus nos colocou. Hoje nós temos um fardo ainda maior nessa matéria, porque com a quantidade de pregações e conselhos espirituais disponíveis em livros e outras mídias, nós realmente não temos nenhuma desculpa para não conhecer nosso dever e o modo de cumpri-lo. Quanto esforço temos empregado nisso?

Ninguém pode impedir que sejamos santos exceto nós mesmos! Por isso, por todos os meios possíveis, corrijamos e exortemos os outros, ajudemos financeiramente aqueles que são dignos e boicotemos aqueles que não o são, mas, em primeiro lugar e acima de tudo, rezemos, frequentemos os sacramentos, imploremos pela graça de Deus e façamos, enfim, a única coisa que podemos fazer: ser santos. É tudo que Deus nos pede.

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O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa
Santos & Mártires

O Papa que veio do
Purgatório pedir orações a uma santa

O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa

Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, esta santa descobriu que estava diante de ninguém menos que o Papa. Conheça a história desta impressionante aparição.

Pe. François Xavier SchouppeTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Permitam-me contar-lhes uma famosa aparição de um Papa a uma santa.

O Papa Inocêncio III morreu no dia 16 de julho de 1216. No mesmo dia, ele apareceu a Santa Lutgarda, no monastério de Aywières, região central da Bélgica. Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, ela perguntou de quem se tratava e o que queria.

“Sou o Papa Inocêncio”, ele respondeu.

“Mas seria possível que o senhor, nosso pai comum, se encontrasse em um estado assim?”, ela perguntou.

“Sim, eu de fato me encontro neste lugar”, ele respondeu. “Estou expiando três faltas que teriam causado minha perdição eterna. Graças à bem-aventurada Virgem Maria, obtive o perdão delas, mas tenho de fazer reparação. Ai de mim! Aqui é terrível e isto durará por séculos, se tu não vieres em meu auxílio. Em nome de Maria, que obteve para mim o favor de recorrer a ti, ajuda-me.”

Depois de dizer estas palavras, ele desapareceu.

Lutgarda anunciou a morte do Papa a suas irmãs, e juntas elas se dedicaram à oração e a obras penitenciais em favor do augusto e venerável Pontífice, cujo falecimento lhes foi comunicado algumas semanas depois, vindo de outra fonte.

Efígie do Papa Inocêncio III, representado como um dos maiores legisladores da história, esculpida por Joseph Kiselewski em 1950 e presente no Capitólio dos EUA.

Devo admitir que a leitura deste incidente me impactou muito e eu com prazer o deixaria passar em silêncio, pois relutava em pensar que um Papa, e ainda mais este Papa, tivesse se condenado a um Purgatório tão longo e terrível.

Sabemos que Inocêncio III, que presidiu em 1215 o célebre Concílio de Latrão, foi um dos maiores Pontífices a se sentar no trono de S. Pedro. Seu zelo e sua piedade levaram-no a realizar grandes feitos pela Igreja de Deus e pela santa disciplina. Como admitir, então, que um homem dessa estirpe fosse julgado com tamanha severidade pelo Tribunal Supremo? Como reconciliar essa revelação de Santa Lutgarda com a misericórdia divina?

Por conta dessas questões, passei a tratar essa aparição como algo ilusório, procurando por razões que dessem suporte a essa ideia.

O que descobri, no entanto, ao contrário disso, foi que a veracidade dessa aparição é admitida pelos mais sérios autores, não sendo rejeitada por nenhum sequer. Ademais, o biógrafo dessa santa, Tomás de Cantimpré, é muito transparente ao escrever e, ao mesmo tempo, bastante reservado. “Devo explicar, leitor”, ele escreve ao fim de sua narrativa, “que foi da própria boca da piedosa Lutgarda que eu ouvi as faltas reveladas pelo defunto, as quais eu omito aqui por respeito a um tão grande Pontífice.”

À parte isso, considerando o evento em si mesmo, poderíamos encontrar uma boa razão para questioná-lo? Não sabemos nós, afinal de contas, que Deus não faz acepção de pessoas — e que os Papas aparecem diante do seu tribunal, portanto, assim como o mais humilde dos fiéis —, que todos, grandes e pequenos, são iguais diante dEle, e que cada um recebe de acordo com suas obras? Não sabemos igualmente que aqueles que governam os outros têm uma grande responsabilidade, e terão de fazer uma severa prestação de contas?

Judicium durissimum his, qui praesunt, fiet: “Será duríssimo o juízo dos que governam” (Sb 6, 6). É o Espírito Santo quem o declara. Pois bem, Inocêncio III reinou por dezoito anos e durante tempos muito turbulentos; além disso, acrescentam os Bolandistas, não está escrito que os julgamentos de Deus são inescrutáveis, e com frequência muito diferentes dos julgamentos dos homens? Judicia tua abyssus multa: “Teus juízos são como o grande abismo” (Sl 35, 7).

A realidade dessa aparição não pode, portanto, ser razoavelmente posta em dúvida e eu não vejo nenhuma razão para omiti-la, dado que Deus não revela mistérios dessa natureza senão com o fim de que sejam conhecidos para a edificação de sua Igreja.

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O presépio dos egoístas
Sociedade

O presépio dos egoístas

O presépio dos egoístas

Para muitas pessoas, a Sagrada Família não cabe mais no presépio de Natal. São aqueles que abandonaram o projeto cristão para “ter a vida só para si mesmos”.
Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Vocês vão ter de nos perdoar a insistência sobre o tal presépio com dois “Josés”, mas é uma oportunidade única para falarmos sobre a guerra cultural que se trava hoje, diante de nossos olhos. Se em nosso último texto evitamos falar sobre o aspecto sexual dessa batalha, agora se nos torna inevitável analisá-lo, dado o caráter claramente sexual da própria blasfêmia em análise.

Nós sabemos, não é incomum aparecerem pessoas dizendo que os cristãos conservadores falam de moral sexual com uma obsessão quase fanatizante. — Existem tantos outros pecados a serem abordados nas pregações! Por que a insistência nisto? — Concordamos com a afirmação de que pecados há outros muito piores. A soberba e a inveja, que são os pecados dos anjos decaídos, são muito mais graves do que os pecados ditos carnais. A verdade porém é que, conforme o juízo de Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja, “noventa e nove por cento dos réprobos é pelo pecado da impureza que se condenaram” [1]. E Nossa Senhora de Fátima disse aos três pastorinhos que “vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”. Talvez devêssemos acusar este santo doutor e esta santa Senhora de obsessão também? Certamente não.

Além do mais, os que acusam os religiosos, com o dedo em riste, de falarem demais sobre sexualidade, normalmente o fazem não por oposição sólida e fundamentada, mas por uma questão de incômodo mesmo. Naturalmente, as pessoas não gostam de ver os próprios pecados denunciados em público. Ainda que seus nomes não sejam pronunciados, ainda que os olhares de quem prega sequer estejam dirigidos a elas, as verdades de fora despertam aquilo que está dentro delas: suas consciências.

E, nos nossos tempos, quantas não são as pessoas a tentarem abafar essa voz! Quantos não são os cristãos que, não se esforçando por viverem de acordo com a sua fé, terminam por acreditar no modo como vivem! Quantos outros, ainda, não vão ainda mais longe, militando pelo novo “estilo de vida” que decidem seguir — e contrariando abertamente o Evangelho e a doutrina de Cristo!

É isso o que fica patente no presépio dos dois Josés. Ali não há nenhuma proposta concreta de Natal, mas tão somente uma desconstrução do que é o verdadeiro Natal, do que é verdadeiramente a religião cristã, do que significa realmente a Sagrada Família.

Mais do que criticar, no entanto, essa “problematização”, é preciso deixar bem claro contra o que, bem concretamente, nossa modernidade está lutando.

Detalhe de “Adoração dos Pastores”, do Fr. Juan Bautista Maíno.

Para tanto, vamos nos servir de um ensinamento lapidar de Santo Tomás de Aquino, que, perguntando se Cristo devia nascer de uma virgem dada em casamento, apresenta-nos uma razão especial: “A Mãe do Senhor foi casada e virgem, porque na sua pessoa é honrada tanto a virgindade como o matrimônio, contra os heréticos que detratam aquela e este.”

Ora, o que se pode dizer aqui a respeito de Maria Santíssima é igualmente aplicável à figura de São José: os dois foram virgens e realmente casados um com o outro, e com isso Deus procurava ensinar a todos os homens o valor que têm tanto o celibato e a virgindade consagrados a Deus, quanto o matrimônio.

Não, a Igreja Católica não acredita que todas as pessoas foram feitas para se casarem. O próprio Jesus Cristo não achava isso: “Porque há eunucos”, Ele dizia, “que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12). Evidentemente, não se trata aqui de mutilar os próprios genitais, como fez Orígenes no início da Igreja. Jesus Cristo está falando de um sacrifício espiritual — cujo sentido “nem todos são capazes de compreender” (v. 11) —, mas que realmente faz parte da vivência dos discípulos do Senhor, desde o começo da Igreja.

Duas são, portanto, as decisões de vida simbolizadas no presépio, nas imagens da Sagrada Família: a decisão, “por toda a vida”, do Matrimônio; e o voto, também perpétuo, de quem se abstém da sexualidade por amor a Deus. Parecem dois extremos contraditórios, mas não o são. São compromissos profundamente ligados um ao outro, de modo que as grandes crises humanas, quando afetam uma dessas vocações, terminam inevitavelmente atingindo a outra.

O grande problema do celibato sacerdotal, por exemplo, que os homens de nossa época parecem não querer mais assumir, anda de mãos dadas com o grande fracasso moderno do matrimônio, como notou certa vez, com grande perspicácia, o Papa emérito Bento XVI:

Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um “não” ao vínculo, um “não” à definitividade, um ter a vida só para si mesmos.

Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um “sim” definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu “eu”, e portanto é um ato de fidelidade e de confiança, um ato que supõe também a fidelidade do matrimônio; é precisamente o contrário deste “não”, desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo; é precisamente o “sim” definitivo que supõe, confirma o “sim” definitivo do matrimônio. [...] E se isto desaparecer, será destruída a raiz da nossa cultura. Por isso, o celibato confirma o “sim” do matrimônio com o seu “sim” ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que baseia toda a existência em Deus. [2]

Aqui chegamos, então, ao ponto central da crítica moderna tanto ao casamento quanto à virgindade. As pessoas que morrem de ódio por verem um padre ou uma freira que não se casaram são, por incrível que pareça, as mesmas que ficam aturdidas ao se depararem com uma família de filhos numerosos. Esquizofrenia? Incoerência? Não! A ojeriza da modernidade não é tanto à mortalha eclesiástica ou à aliança matrimonial, mas a qualquer coisa que represente compromisso, doação e fidelidade. O sintoma de que falamos aqui é outro, mas a doença é a mesma. Seu nome é egolatria.

O mais triste é que, não obstante o relativismo com que muitas vezes as pessoas tratam esses assuntos, todos sem exceção são capazes de reconhecer os frutos maduros do verdadeiro amor. No Natal, por exemplo, todos gostariam de ver as próprias casas abarrotadas de gente, com filhos, netos e sobrinhos correndo de um lado para o outro, um cônjuge do lado e muitos amigos com quem se reunir. Fatalmente, porém, muitas das escolhas que nós, os jovens, fazemos no presente só nos levarão para a solidão, para a tristeza e para o desespero. Esses frutos amargos, também, todos somos capazes de enxergar: são os frutos que inevitavelmente colhem todos os que deram “um ‘não’ ao vínculo, um ‘não’ à definitividade”, preferindo “ter a vida só para si mesmos”.

Cabe a nós decidir, em grande parte, o destino que vamos ter, tudo dependendo do exemplo que nos dispusermos a seguir. Se nossas casas estarão enfeitadas, neste Natal, com um belo presépio, que nossas famílias imitem, então, a verdadeira família de Nazaré — e não a família “fake” de quem preferiu dar corda às próprias paixões ao invés de se gastar por Deus e pelos outros.

Afinal de contas, como é triste a vida de quem se deixa levar pelo egoísmo!

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A verdadeira história do Papai Noel
Santos & Mártires

A verdadeira história do Papai Noel

A verdadeira história do Papai Noel

Conheça a verdadeira biografia de Nicolau de Mira, o santo católico que deu origem à figura lendária do “Papai Noel”.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2017
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São Nicolau, cuja memória a Igreja celebra neste dia 6 de dezembro, tornou-se conhecido por seu costume, segundo uma antiga tradição, de entregar presentes secretos aos pobres e necessitados, o que lhe valeu ser a figura hoje tão conhecida do “Papai Noel”, bastante comum nos festejos de Natal. 

Em nossos dias, porém, o mítico sobreviveu ao místico: a lenda explorada com fins comerciais acabou ofuscando a verdadeira biografia deste grande homem. Qual é, então, a sua verdadeira história?

Nicolau nasceu na antiga cidade de Pátara, território da atual Turquia, por volta do ano 270, sendo educado por uma família de pais nobres e muito virtuosos. Seu desejo de dedicar-se a Deus brotou na mais tenra idade, fazendo-o viver inteiramente devotado à Palavra de Deus, de tal maneira que, tendo herdado, com a morte dos pais, grande fortuna, fez-se apenas um administrador daqueles bens que se tornaram dos pobres.

Ao mudar-se para a cidade de Mira, onde quis viver mais secretamente, Nicolau, já muito virtuoso e de uma piedade divina, foi aclamado bispo, e logo ficou famoso tanto pelos inúmeros milagres que por ele Deus realizava quanto por sua grande caridade, da qual procediam as esmolas e os presentes “secretos” aos necessitados.

Ninguém confunda sua caridade, porém, com leniência ou complacência.

“São Nicolau de Bari esbofeteia o heresiarca Ário”, óleo sobre tela, de Giovanni Gasparro.

Nesse sentido, um episódio marcante de sua vida ficou registrado nas atas do Concílio de Niceia, a primeira grande reunião de bispos da Igreja Católica, ocorrida em 325. Na ocasião, os cristãos deparavam com uma grande e perigosa heresia: o arianismo, que negava a divindade de Jesus. O historiador católico Daniel-Rops relata que, quando os bispos ali reunidos ouviram “alguns fragmentos” dos escritos de Ário, “os erros mostraram-se tão patentes que uma onda de indignação sacudiu todos aqueles homens fervorosos” [1].

Um deles foi justamente o “bom velhinho”, São Nicolau: já cansado da insolência de Ário, conta-se que o corajoso bispo confrontou fisicamente o heresiarca, esbofeteando-lhe a boca.

Os prelados ao redor se assustaram e, mesmo discordando de Ário, viram-se obrigados a punir o “zelo excessivo” de Nicolau, trancafiando o bispo na prisão e confiscando o seu pálio e a cópia que ele possuía dos Evangelhos. A resposta do Céu à ira de São Nicolau, no entanto, parece ter sido bem outra. Alguns dias depois do ocorrido, os próprios Jesus e Maria visitaram o bispo em sua cela. “Por que estás aqui?”, teria perguntado Nosso Senhor a Nicolau, ao que ele respondeu: “Porque vos amo, meu Deus e Senhor” [2]. Imediatamente, foram-lhe devolvidos os símbolos de sua dignidade episcopal.

“São Nicolau de Bari”, óleo sobre tela, de Giovanni Gasparro.

É por isso que, em muitos ícones do santo, é possível vê-lo ladeado de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, respectivamente com um livro e um pálio nas mãos. Destituído do ofício episcopal por seus irmãos, o bispo de Mira terminou o grande Concílio de Niceia readmitido diretamente pelo próprio Deus.

Hoje, São Nicolau é muito venerado tanto no Oriente, onde nasceu e exerceu seu ministério episcopal, quanto no Ocidente. Foi da cidade italiana de Bari, afinal, onde se encontram suas relíquias, que a devoção ao “bom velhinho” se espalhou por todo o continente europeu.

Santo Tomás de Aquino, por exemplo, foi um grande devoto de São Nicolau. Foi em um 6 de dezembro, a propósito, que o Doutor Angélico, celebrando Missa numa capela dedicada a São Nicolau, recebeu de Deus uma visão que o fez dizer, poucos meses antes de entregar sua alma a Deus: “Tudo que escrevi até hoje parece-me unicamente palha, em comparação com aquilo que vi e me foi revelado”. Sem sombra de dúvida, um presente extraordinário recebido pelas mãos de São Nicolau.

Neste tempo de Advento, preparando a vinda do Senhor, peçamos a São Nicolau que obtenha também a nós este dom de Deus: o desapego deste mundo de palha e a posse inamissível do Cristo.

São Nicolau de Mira e de Bari,
rogai por nós!

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