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A prostituta barrada na porta da igreja
Santos & Mártires

A prostituta barrada na porta da igreja

A prostituta barrada na porta da igreja

“Mas quando eu pisei no limiar da porta, por onde todos entraram, fui impedida por uma força que não me deixou entrar... Era como se um destacamento de soldados estivesse lá de pé, se opondo à minha entrada.”

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Abril de 2019Tempo de leitura: 13 minutos
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É uma constante na arte sacra a figura de Santa Maria Egipcíaca, que viveu de 344 a 421. Sempre impressionaram os artistas sua vida de penitência no deserto e o episódio milagroso de sua última comunhão, recebida das mãos de um monge chamado Zózimo.

Foi a ele que esta santa contou toda a sua história, a qual chega até nós graças a um relato intitulado Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae, Meretricis, atribuído a São Sofrônio de Jerusalém [1].

Quem tiver tempo, deve fazer a si mesmo o favor de ler inteiro este edificante relato. Não devem nos assustar os fatos miraculosos que rondam a vida dessa santa — e que a crítica moderna insiste em desacreditar —, pois prodígio algum que aconteceu em sua vida se compara à transformação que lhe aconteceu na alma. Lembremo-nos sempre que, como dizem Santo Agostinho e Santo Tomás [2], a justificação do ímpio é obra maior do que a criação do céu e da terra, pois estes passarão, mas a glória dos bem-aventurados no Céu não passará jamais.

Maria do Egito (seu lugar de nascimento) começa sua história contando como deixou a casa paterna, aos 12 anos, e foi para Alexandria, onde perdeu a virgindade e entregou-se à luxúria por cerca de 17 anos. “Eu era como um fogo de depravação pública”, ela confessa, “e não era por amor ao ganho. Frequentemente, quando eles desejavam pagar-me, eu recusava o dinheiro. Agia dessa maneira para fazer com que tantos homens quantos fosse possível desejassem possuir-me, fazendo de graça o que me dava prazer.” Ela se prostituía, portanto, não tanto por dinheiro, mas por um “desejo insaciável e uma paixão irreprimível por deitar-me na lama”.

Um dia, ela embarcou com inúmeros líbios e egípcios rumo a Jerusalém. Eram peregrinos que iam à Terra Santa para a festa da Exaltação da Santa Cruz. Ela ia movida não por desejo religioso, mas sim pela vontade de “ter mais amantes que pudessem satisfazer” suas paixões. Sem dinheiro e sem alimento, como se manteria Maria? “Eu tenho um corpo e, ao invés de pagar pela viagem, o porei à disposição”, ela dizia.

De fato, assim ela fez. Para dar a Zózimo uma ideia do abismo em que se achava, é com estas palavras que ela descreve sua viagem a Jerusalém:

Como poderei relatar o que aconteceu depois disso, ó homem de Deus? Que língua pode narrar, ou que ouvidos podem ouvir tudo o que aconteceu naquela embarcação durante a viagem? Como eu então forçava aqueles pobres moços, até mesmo contra a sua vontade! É inominável a turpíssima depravação que eu então lhes ensinei. Estou surpresa, Pai, de como o mar suportou as luxúrias da minha iniquidade, de como a terra não abriu suas mandíbulas e me arrojou viva no inferno, eu, que tantas almas havia prendido nas teias da morte.

Chegando à Terra Santa, Maria continuou “vivendo o mesmo tipo de vida, talvez até pior”: além dos rapazes que seduziu em alto mar, continuou a se entregar ainda “a muitos outros, tanto da cidade quanto estrangeiros que lá estavam”.

Já aqui essa história nos convida à meditação. Comecemos por constatar que, infelizmente, exemplos da vida pregressa como a de Santa Maria Egipcíaca não são muito difíceis de encontrar hoje em dia. Na verdade, eles estão a apenas um clique de distância. O que são, de fato, os sites de pornografia senão uma reunião, seleta e artificiosamente elaborada, dessas pessoas perdidas, entregues aos prazeres da carne e que “ensinam” a seus usuários todo tipo de depravação? E nossos homens, o que se tornaram senão frequentadores assíduos desses “prostíbulos virtuais”, sem os quais não conseguem mais passar e levar uma vida saudável?

Homens e mulheres afundados na lama da impureza, e não se sabe quem está mais sujo: eis a situação em que nos encontramos. Mas quantas dessas pessoas não morrem nesse estado? Esta, sim, é a maior tragédia de todas. Maria Egipcíaca recebeu de Deus a graça — como veremos — de se arrepender dos pecados que cometeu, levar uma vida de penitência e morrer em estado de amizade com Deus. Mas e nós, quanto tempo mais esperaremos para nos convertermos e mudarmos de vida? Até quando continuaremos a ignorar o Deus que nos procura e quer a nossa salvação?

A quem se encontra em estado de graça, não é menos forte a meditação a fazer: o que seríamos de nós, se tivéssemos partido deste mundo em pecado mortal? O que seria de nossa alma se naquela noite em que dormimos afastados de Deus, naquele dia em que lhe voltamos as costas (até prometendo para nós mesmos buscar a Confissão no dia seguinte), o que aconteceria se naquela hora fôssemos chamados para a prestação de contas que dá início à eternidade?

Pensemos nessas coisas e tenhamos sempre um coração agradecido a Deus por sua misericórdia nos ter atingido como atingiu esta sua filha, Santa Maria Egipcíaca. Mas deixemos que agora fale ela, sem interrupções, de como se deu o bonito milagre de sua conversão:

O dia sagrado da Exaltação da Cruz despontou, enquanto eu ainda estava à caça de jovens. Ao amanhecer, vi que todos corriam para a igreja. Então, corri com o resto deles. Quando a hora da sagrada elevação se aproximou eu estava tentando abrir caminho entre a multidão, que lutava para chegar às escadarias. Finalmente, com grande dificuldade, consegui ir me espremendo quase até às portas da igreja, de onde a vivificante árvore da Cruz estava sendo mostrada ao povo. Mas quando eu pisei no limiar da porta, por onde todos entraram, fui impedida por uma força que não me deixou entrar. Entretanto, completamente ignorada pela multidão, me encontrei sozinha no pórtico da igreja. Pensando que isto tivesse acontecido devido à minha fraqueza de mulher, comecei novamente a abrir caminho com os cotovelos no meio da multidão. Mas era em vão meu esforço. Novamente meus pés pisaram no limiar onde outros iam entrando na igreja, sem encontrar nenhum obstáculo. Eu somente parecia não ser aceita na igreja. Era como se um destacamento de soldados estivesse lá de pé, se opondo à minha entrada. Mais uma vez fui excluída pela mesma força poderosa e novamente fiquei no limiar.

Havendo tentado por três ou quatro vezes, finalmente me senti esgotada e não tendo mais forças para empurrar e ser empurrada, fui para o lado e permaneci num canto do pórtico. E então, com grande dificuldade, começou a despontar algo em mim e comecei a perceber a razão pela qual eu estava sendo impedida de ver a Cruz vivificante. A palavra da salvação gentilmente tocou os olhos do meu coração e revelou-me que era minha vida impura que fechava a entrada para mim. Comecei a chorar e lamentar e bater no meu peito e a suspirar das profundezas do meu coração. E assim permaneci chorando, quando vi acima, um ícone da Santíssima Mãe de Deus. E voltando para ela meus olhos do corpo e da alma eu disse: “Ó Senhora, Mãe de Deus, que deste à luz na carne a Deus, a Palavra; eu sei, ó quão bem eu sei, que não há nenhuma honra ou louvor para ti, quando alguém tão impura e depravada como eu olha para teu ícone, ó sempre Virgem, que mantiveste vosso corpo e alma na pureza. Certamente inspiro desprezo e desgosto ante tua pureza virginal. Mas já ouvi que Deus, que nasceu de ti, se tornou homem para chamar pecadores à conversão. Então, ajuda-me, pois não tenho outro auxílio. Ordena que os portais da igreja se abram para mim. Permite-me ver a venerável árvore na qual Ele que nasceu de ti, sofreu na carne e na qual Ele derramou seu preciosíssimo Sangue pela redenção dos pecadores e para mim, indigna como sou. Seja minha testemunha fiel diante de teu Filho que eu nunca mais corromperei meu corpo na impureza da fornicação, mas tão logo eu veja a árvore da Cruz, renunciarei ao mundo e às suas tentações e irei aonde quer que me conduzas.”

Assim falei e como se recobrasse nova esperança, com fé firme e sentindo alguma confiança na misericórdia da Mãe de Deus, deixei o lugar onde tinha ficado rezando. E fui novamente, misturada à multidão que fazia seu caminho dentro do templo. E ninguém parecia impedir-me, ninguém estorvou minha entrada na igreja. Fiquei possuída de tremor e estava quase à beira do delírio. Tendo chegado tão próximo das portas, o que eu não conseguira antes, como se a mesma força que me impedira agora abrisse caminho para mim, eu agora entrava sem dificuldade e me encontrei no lugar santo. E então vi a Cruz vivificante. Vi também os Mistérios de Deus e como o Senhor aceita o arrependimento. Jogando-me ao chão, adorei aquela terra santa e tremendo, beijei-a. Então saí da igreja e fui àquela que prometeu ser minha segurança, ao lugar onde eu selei meu voto. E dobrando meus joelhos diante da Virgem Mãe de Deus dirigi a ela estas palavras: “Ó amável Senhora, tu me mostraste teu grande amor por todos os homens. Glória a Deus, que aceita o arrependimento de pecadores através de ti. O que mais posso lembrar ou dizer, eu que sou tão pecadora? É hora para mim, ó Senhora, de cumprir meu voto, de acordo com o teu testemunho. Agora, conduz-me pela mão pelo caminho do arrependimento!”

E ao dizer estas palavras ouvi uma voz do alto: “Se tu atravessares o Jordão irás encontrar glorioso repouso”. Ouvindo esta voz e crendo que eram para mim, gritei para a Mãe de Deus: “Ó Senhora, Senhora, não me abandones!”

A história é bela e comovedora. Maria estava ainda afundada em seu pecado, à procura de mais pessoas a quem ensinar suas imoralidades, e Deus lhe mostrou — fortiter et suaviter, como só Ele é capaz — que sua vida desregrada precisava mudar.

“Santa Maria do Egito”, por José de Ribera.

Ela então caiu em si e recorreu a quem? A Maria, Mãe de Deus! Mas se foi Deus quem a fez despertar de seu sono de pecado, por que recorrer a outrem? Se é Ele que salva, por que dirigir-se a ela? Ora, muito simples — e Santa Isabel o intuiu no Evangelho (cf. Lc 1, 43), e os primeiros cristãos o entenderam ao compor a oração Sub tuum praesidium, e Maria do Egito demonstrou ter entendido o mesmo com sua súplica: assim como Deus quis desposar a humanidade na Encarnação servindo-se de Maria, Ele quer se unir a nossas almas também através dela.

Santo Tomás diz algo parecido ao comentar a passagem das bodas de Caná: observando que o evangelista diz primeiro: “achava-se ali a mãe de Jesus”, para só depois mencionar a presença de Cristo e de seus Apóstolos (cf. Jo 2, 2) na festa, o Aquinate afirma que “a bem-aventurada Virgem, mãe de Jesus, está presente nos matrimônios espirituais como aquela que une os esposos [nuptiarum consiliatrix], pois é por sua intercessão que as almas se unem a Cristo pela graça” [3].

Maria do Egito dá testemunho, no entanto, de que a intercessão de Nossa Senhora não só a uniu a Cristo, como a manteve firme nessa união. Depois de deixar aquela igreja em Jerusalém, atravessar o rio Jordão e chegar ao deserto (onde ela passou, como se sabe, o resto de seus dias), as batalhas que ela travou com o demônio foram intensas, e em todas elas foi a Mãe de Deus que a valeu:

Creia-me, Pai, por dezessete anos vivi nesse deserto lutando contra feras selvagens — desejos loucos e paixões. Quando ia me alimentar eu costumava lamentar a carne e o peixe que eu tinha em abundância no Egito. Lamentava também não ter vinho que eu apreciava tanto, pois eu bebia muito vinho quando vivia no mundo, enquanto aqui eu nada tinha, nem mesmo água. Queimava-me até sucumbir de sede. Um desejo atroz de canções libertinas também me perturbavam e me confundiam grandemente, levando-me quase a cantar canções satânicas, que eu tinha aprendido antes. Mas quando esses desejos me vinham, eu batia no peito e me recordava do voto que tinha feito antes de vir para o deserto. Em meus pensamentos voltava-me para o ícone da Mãe de Deus que me tinha recebido e a quem clamava na oração. Implorava-lhe para dar caça a esses pensamentos, diante dos quais minha alma estava sucumbindo. E depois de chorar por longo tempo e batendo no peito, eu costumava ver uma luz que parecia brilhar sobre mim de algum lugar. E depois da violenta tempestade finalmente vinha a paz.

E como posso dizer-lhe sobre os pensamentos que me instavam à fornicação, como posso expressá-los a ti, Pai? Um fogo inflamava meu miserável coração que parecia queimar-me completamente e me despertava uma sede de abraços. Tão logo esse desejo me surgia, eu jogava-me ao solo e molhava-o de lágrimas, como se visse diante de mim minha testemunha, que tinha me aparecido em minha desobediência e que parecia ameaçar punição para o castigo. E eu não me erguia do chão (algumas vezes ficava lá prostrada por um dia e uma noite), até que a calma e a doce luz descesse e me iluminasse e pusesse em fuga os pensamentos que me possuíram. Mas sempre eu voltava os olhos de minha mente para minha protetora, pedindo-lhe para estender seu auxílio a uma que estava afundando rápido nas dunas do deserto. E sempre a tive como meu socorro e aquela que aceitava meu arrependimento. E assim vivi por dezessete anos, entre constantes perigos. E desde então a Mãe de Deus me auxilia em tudo e me conduz como se pela mão fosse.

Santa Maria do Egito recebeu ainda, antes de morrer, uma visita especial de Jesus sacramentado: aquela que, por sua impureza, se vira impedida de entrar na casa de Deus, por sua penitência terminou “atraindo” o próprio Deus para o seu deserto.

Assim acaba sua história neste mundo, assim Santa Maria do Egito nasce para o Céu. Há uma porção de detalhes de sua biografia dos quais poderíamos extrair ainda um sem número de lições, mas deixemos isso para outra ocasião. Por ora, sirvamo-nos desse belo relato de conversão para meditarmos em nossa própria vida, no modo como Deus nos visitou para fazer-nos entrar em sua Igreja, e em como Ele nos chamou para fazer penitência no deserto desta vida.

Em primeiro lugar, alegremo-nos por tantas “portas fechadas” em nossa cara ao longo desta vida; bendigamos ao Senhor por todas as “desgraças” que nos sucederam, mas que se revelaram, ao fim e ao cabo, grandes instrumentos da Providência para a nossa salvação! A frase pode estar banalizada, mas, de fato, Deus nos fecha portas agora porque tem outras para nos abrir. Dizendo de outro modo, é melhor que nos sejam negadas certas coisas aqui, que soframos certas penas aqui, que nos sejam fechadas certas portas aqui, do que sermos barrados na entrada do Reino dos céus.

Mas se as palavras “penitência”, “deserto” e “sofrimento” nos parecem duras e nos fazem querer desanimar, não nos esqueçamos da grande paz e doçura que acompanham a entrega dos que amam a Deus — paz e doçura que os mundanos não encontram em seus pecados!

Com efeito, quem olhasse para Maria Egipcíaca prostituída, antes de seu encontro com Cristo crucificado, com que pena não veria, no fundo de seu olhar, o vazio angustiante de quem estava gastando todas as suas energias numa procura vã de felicidade! Aquela mulher sensual nunca imaginaria a reviravolta que aconteceria em sua vida… E, no entanto, se colocássemos lado a lado, no leito de morte, a Maria pecadora e a Maria penitente, e perguntássemos a uma e a outra se se arrependia da vida que tinha levado… a primeira certamente diria que sim — e daria tudo para voltar atrás e refazer-se —, mas a segunda com certeza responderia que não

Por quê? Porque Santa Maria do Egito, a Penitente, havia encontrado, no deserto com Deus, a paz que o mundo não pode dar (cf. Jo 14, 27). Dali ela seguiria rumo à Jerusalém celeste, sim; rumo à Terra Prometida do Céu, onde não há luto, nem lágrimas, nem dor, nem escuridão. Mas já aqui, através da fé, ela pôde experimentar um prelúdio de tudo isso — e de ter entregado sua vida ao Amor ela não poderia arrepender-se jamais [4].

Referências

  1. O texto latino completo pode ser consultado facilmente na Patrologia Latina, v. 73, col. 672-690, mas há uma tradução em português do relato no site ortodoxo Ecclesia.
  2. Cf. S. Th. I-II, q. 113, a. 9.
  3. Comentário ao Evangelho de São João, II, 1, n. 343.
  4. A frase: “Não! Não me arrependo de me ter entregue ao Amor!” faz parte do testamento de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face (cf. Últimos Colóquios, Caderno Amarelo, 30 set.).

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Por favor, não me canonizem em meu funeral!
Espiritualidade

Por favor,
não me canonizem em meu funeral!

Por favor, não me canonizem em meu funeral!

Quando eu morrer, pensamentos bem-intencionados, mas precipitados, sobre minha presença no Céu não ajudarão em nada a minha alma. Em vez disso, peço agora que todos os que se lembrarem de mim presumam que estarei no Purgatório.

Ken FoyeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Não planejo morrer em breve. Tenho quase 53 anos, e as estatísticas para a expectativa de vida me dizem que me restam pelo menos mais 20 ou 25 anos de vida aqui na terra. Além disso, pesquisas mostram que pessoas de fé tendem a ser mais saudáveis e a viver mais do que as que não têm fé — na verdade, cerca de sete anos mais, de acordo com um estudo. Esta não é a razão pela qual tenho fé, mas é um elemento a meu favor.

Mas se as coisas não saírem como esperado, gostaria de colocar em ordem agora um assunto temporal. Está ligado aos ritos do meu sepultamento.

Em poucas palavras, não quero ser canonizado em meu velório ou Missa de exéquias.

Registro isso por escrito: não quero lugares-comuns do tipo “ele está no Céu agora” ou “ele está num lugar melhor”. Estamos falando da alma de uma pessoa — a saber, a minha — e essa não é a ocasião para sentimentalismos amenos. O “destino espiritual eterno” é um assunto muito sério para que tenhamos esse tipo de atitude.

Nada semelhante a “ele está no Céu agora” deverá ser dito em meu velório; nem durante a homilia, nem em qualquer outra parte do funeral; em qualquer reunião social antes do meu funeral ou depois dele; ou em qualquer momento nos dias, semanas, meses, anos ou mesmo décadas depois da minha morte. A menos que ocorram milagres de forma clara e inegável por causa da minha intercessão, ou a menos que, sem dúvida alguma, eu morra como mártir da fé, ninguém poderá saber que estarei no Céu.

Pensamentos bem-intencionados, mas precipitados, sobre minha presença no Céu não ajudarão em nada a minha alma. Em vez disso, peço agora — e repetirei esse pedido quantas vezes forem necessárias, até o dia da minha morte — que todos os que se lembrarem de mim presumam que estarei no Purgatório.

E isso significa que precisarei de muitas orações — não de sentenças de canonização, muito menos para que minha esposa se sinta melhor, supondo que eu “vá embora” antes dela.

É um erro grave supor que alguém, uma vez morto, está automaticamente no Céu. Dizer isso pode soar indelicado ou insensível, mas a verdade é que é uma falta de caridade pressupor que uma pessoa já está “garantida” para toda a eternidade e não precisa mais das nossas orações. É isso o que significa “canonizar” alguém ao dizer “ele está no Céu” ou “ele está num lugar melhor”. É o mesmo que concluir que não precisamos mais rezar por ele.

O que é o Purgatório? O Catecismo (n. 1030) explica da seguinte forma: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu.” Em seguida, diz que a finalidade do Purgatório é a “purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados” (n. 1031). 

No fim das contas, toda alma que se encontra no Purgatório irá para o Céu — com a ajuda de nós, católicos, aqui na terra. Por isso, a Igreja sempre enfatizou a “prática da oração pelos defuntos, de que já fala a Sagrada Escritura” e recomenda “a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos” (n. 1032).

No catolicismo moderno, rezar pelos mortos ainda é uma prioridade? Como comunidade, nós, católicos, ainda acreditamos com firmeza no Purgatório? A resposta às duas perguntas parece ser “não exatamente”, dado o hábito tão estendido de se “canonizar” o falecido na Missa de exéquias por meio de declarações como “ele está no Céu agora” e de referências constantes a um “lugar melhor”.

Será que muitos de nós pensamos ser demasiado incômodo imaginar que nossos parentes, amigos e entes queridos estão sofrendo no Purgatório? Não deveríamos pensar dessa maneira. Em vez disso, deveríamos olhar para o lado positivo disso. O Purgatório não é um lugar agradável, mas ele com certeza é melhor do que o Inferno — que não apenas é muito mais desagradável, mas, diferentemente do Purgatório, é eterno. E o sofrimento do Purgatório tem um elemento purificador, do qual Deus extrai bondade e beleza, para não falar da nossa salvação.

Em certa homilia de uma Missa de exéquias, um sacerdote comparou o Purgatório à mineração de metais preciosos. Só uma fornalha pode separar ouro e diamantes dos minérios inúteis nos quais são encontrados. Sem a fornalha, os metais não poderiam tornar-se preciosos; da mesma forma, sem o Purgatório, é razoável pensar que poucas almas seriam admitidas no Céu, onde a Escritura diz que nada impuro pode entrar (cf. Ap 21, 27). 

Pense nisso. Se morrermos sem pecado mortal, ou se fizermos a melhor confissão possível minutos antes da morte, quantos de nós estaremos tão livres das sequelas e vínculos do pecado, a ponto de nossa alma preencher os requisitos mencionados no Apocalipse? É razoável crer que poucos de nós conseguiríamos. Até Samuel Johnson, erudito escritor não católico do século XVIII, “provavelmente o mais distinto homem de letras da história inglesa”, percebeu isso: quando lhe perguntaram sobre a crença católica no Purgatório, ele disse: “Trata-se de uma doutrina muito inofensiva. Eles [católicos] pensam que, de modo geral, a humanidade não é tão obstinadamente perversa para merecer a punição eterna, nem tão boa a ponto de merecer a admissão na sociedade das almas bem-aventuradas; portanto, pensam que Deus fica graciosamente satisfeito em permitir que haja um estágio intermediário, onde elas podem ser purificadas por certos graus de sofrimento”.

É isso — temos de pensar primeiro no Purgatório, não no Céu, quando alguém que conhecemos falece, mesmo um familiar ou amigo próximo, porque é muito provável que a alma dessa pessoa tenha de passar por uma purificação. Assim como não podemos implodir um edifício antigo antes de termos plena certeza de que não há ninguém dentro, devemos ser cautelosos para não afirmar com plena certeza que algum falecido está no Céu. As almas que estão no Céu não precisam das nossas orações, mas as que estão no Purgatório sim, e devemos presumir que a alma deste falecido está lá — a menos, repita-se, que se trate de um caso inquestionável de martírio pela fé ou de milagres decorrentes da intercessão de tal pessoa.

Portanto, quando eu morrer, por favor rezem por mimnão me canonizem. Espero ir direto para o Céu quando se esgotar meu tempo na terra? Claro que sim, mas, a menos que tenham certeza disso, espero que as pessoas não apostem nisso. Eis por que ofereço cada uma das orações individuais do Rosário por uma alma do Purgatório. Peço que outras pessoas façam o mesmo depois que eu morrer, assumindo a probabilidade bastante real de que eu esteja no Purgatório e rezando para que a minha alma alcance o descanso eterno na glória de Deus.

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Saiba o que os “médicos da morte” estão fazendo na Bélgica
Sociedade

Saiba o que os
“médicos da morte”
estão fazendo na Bélgica

Saiba o que os “médicos da morte” estão fazendo na Bélgica

Quando a eutanásia é legalizada, a mentalidade coletiva de uma cultura a respeito do significado e da importância da vida humana se distorce. Acabar logo com o sofrimento torna-se mais importante do que proteger a vida dos vulneráveis.

Wesley J. SmithTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Maravilha das maravilhas: a Bélgica está processando três médicos pela prática ilegal da eutanásia. Depois que Tine Nys, 38, recebeu uma injeção letal, os familiares denunciaram os médicos — um deles, psiquiatra — às autoridades. Eles alegam que a injeção letal aplicada em Nys violou as diretrizes que os médicos deveriam seguir de acordo com as leis de eutanásia na Bélgica. 

As alegações dos familiares são perturbadoras. Nys fora diagnosticada com autismo alguns meses antes de sua morte. Quando jovem, sofria de um transtorno depressivo e tentou suicídio. Mas os membros da família relatam que ela ficou muitos anos sem precisar de tratamento e que, na verdade, queria morrer por causa de um relacionamento desfeito. Segundo a lei, Nys não estava sofrendo de uma desordem “séria e incurável” — requisito necessário para que uma pessoa recorra legalmente à eutanásia.

De acordo com a mídia, esse caso demonstra que a Bélgica trata com seriedade a observância de limites rigorosos para a eutanásia. Mas “rigorosos” e “limites” são conceitos contraditórios quando estamos falando de médicos belgas que matam seus pacientes. Deveríamos ficar angustiados com o fato de essa ser uma das poucas tentativas de responsabilizar médicos, levando-se em conta que as autoridades têm feito vista grossa para outros casos igualmente graves, evitando tomar quaisquer medidas criminais ou administrativas.

A eutanásia foi legalizada na Bélgica em 2002, em meio às usuais garantias displicentes de que firmes limitações impediriam seu abuso. Mas as promessas eram falsas. Desde que a lei entrou em vigor, médicos têm aplicado a eutanásia não apenas em pacientes doentes, mas em pessoas com deficiência, idosos em situação de desespero e pessoas com doenças mentais. Até crianças de nove anos já sofreram eutanásia! Os corpos de pessoas com doenças mentais e com deficiências físicas progressivas são usados para captação de órgãos. Não fosse pela eutanásia, muitos dos que foram mortos teriam vivido por anos. De fato, diversos casos abusivos já foram relatados de forma fidedigna na mídia e por autoridades belgas especialistas em eutanásia — mas nenhum deles resultou em processo. Os casos seguintes são apenas um exemplo.

Há relatos de vários casos de casais de idosos que foram mortos juntos. O primeiro foi em 2011 — nenhum dos membros do casal estava seriamente debilitado, e a eutanásia foi lhes aplicada com o pleno conhecimento e a aprovação inequívoca de sua comunidade. Eles inclusive fizeram os ajustes finais no necrotério local antes de receberem a injeção letal.

Um caso se destaca por sua crueldade. Um casal saudável “temia o futuro”. Os dois receberam a eutanásia juntos, apoiados pelos filhos. O médico da morte foi inclusive contratado pelo filho deles, que disse ao Daily Mail que a morte dos pais era “a melhor solução”, já que seria “impossível” cuidar deles adequadamente. Sociedades decentes julgam que é trágico o suicídio conjunto de casais de idosos. Mas na Bélgica, aparentemente, ele é considerado uma solução legítima para problemas associados ao cuidado de idosos. 

Outra história perturbadora é a de “Ann. G.”, que sofria de anorexia suicida. Ela fez uma acusação pública contra seu antigo psiquiatra por tê-la persuadido a manter relações sexuais com ele. Como o psiquiatra — que admitiu a acusação — não foi punido com severidade, Ann ficou tão desesperada que procurou outro especialista para pedir a eutanásia. Ela morreu com quarenta e quatro anos. Com amarga ironia, o primeiro psiquiatra só foi disciplinado pelo abuso depois da morte de Ann.

Agora imagine que você está no trabalho cumprindo suas tarefas. O telefone toca. Você atende, e a voz do outro lado lhe informa que ele trabalha para o necrotério do hospital onde está o corpo de sua mãe. “Como assim? O corpo da minha mãe está aí!?”, você exclama. “Ela recebeu a eutanásia hoje”, responde a voz. “O que deveríamos fazer com o corpo?” 

Sim, isso aconteceu em 2012 com o químico belga Tom Mortier. Numa conferência antieutanásia, da qual participei em 2014, ele descreveu o trauma emocional pelo qual passou. Sua mãe, Godelieva de Troyer, lutou contra a depressão durante boa parte da vida — algo que na Bélgica pode servir de fundamento jurídico para a eutanásia. Mas aqui está o truque: ela não foi morta por seu psiquiatra, que poderia ter determinado — de acordo com a lei — que ela era incurável. Em vez disso, ela foi morta pelo Dr. William Distelmans, um oncologista conhecido por sua predisposição para aplicar a eutanásia em pessoas que não foram seus pacientes anteriormente.

Infelizmente, o mesmo Distelmans também aplicou a eutanásia num homem transgênero que ficou perturbado por causa de uma cirurgia malfeita de mudança de sexo. Diz a história publicada no Daily Mail

Um transexual belga decidiu morrer por meio da eutanásia depois que uma cirurgia malfeita de mudança de sexo, que deveria completar sua transformação em homem, o deixou parecido com um “monstro”. Nathan Verhelst, 44, morreu na tarde de ontem depois de ter recebido autorização para tirar a própria vida por causa de “sofrimento psicológico insuportável”. Horas antes de morrer, ele disse ao Het Laatste Nieuws: “Estava pronto para celebrar meu novo nascimento, mas quando me olhei no espelho fiquei indignado comigo”.

Agora temos de nos perguntar: Verhelst teve sua situação de desespero tratada por um profissional de saúde mental adequado? Recebeu ajuda em seu momento de angústia? Não. Ele foi morto por um especialista em câncer.

Os casos que destaquei aqui — há muitos outros — ilustram a frágil natureza das “diretrizes rigorosas” na Bélgica. Os casos dessas pessoas — que não estavam de modo algum próximas da morte — foram relatados; portanto, não se pode dizer que as autoridades não sabiam deles. Mesmo assim, nenhum dos seus assassinos foi responsabilizado criminalmente, como aconteceu no caso de Nys. 

Uma condenação no caso de Nys poderia conter o impulso da contínua expansão da eutanásia na Bélgica. Parece não haver dúvidas sobre o caso. Porém, isso não significa muita coisa na cultura da morte. Para ser sincero, ficarei agradavelmente surpreso se houver uma condenação.

O recente processo contra uma médica que pratica a eutanásia na Holanda, onde a morte administrada por médicos também é legalizada, demonstra por que sou tão cético. Uma paciente que sofria de demência, ainda na posse de suas faculdades, pediu à médica que lhe aplicasse a eutanásia quando estivesse incapacitada. Mas ela também informou que gostaria de poder dizer quando isso ocorreria. Finalmente, a família dela e a médica decidiram, sem o consentimento dela, que a hora havia chegado. A médica pôs um entorpecente no café da paciente e, tão logo ela adormeceu, iniciou o procedimento para aplicar a injeção letal. Porém, a mulher acordou inesperadamente e lutou para impedir que fosse morta. Em vez de parar, a médica instruiu a família a segurá-la enquanto ela se debatia, para assim finalizar o homicídio.

Esse poderia parecer um caso inequívoco de eutanásia involuntária, que é tipificado como assassinato segundo a lei holandesa. Porém, um tribunal não apenas absolveu a médica, mas também a elogiou por ter agido no “interesse” da paciente. Em outras palavras, o juiz decidiu que a paciente que lutava para sobreviver não tinha mais capacidade mental para desejar viver. 

Quando a eutanásia é legalizada, a mentalidade coletiva de uma cultura a respeito do significado e da importância da vida humana se distorce. Acabar logo com o sofrimento torna-se mais importante do que proteger a vida dos vulneráveis, dificultando cada vez mais a restrição da eutanásia e do suicídio assistido a casos extremos — aqueles aos quais essas práticas deveriam estar reservadas, segundo a falsa promessa de seus defensores. Os raros casos de processo decorrentes de abusos inequívocos, muitos dos quais malsucedidos, aceleram esse processo. Não há nada tão eufemístico quanto dizer que as pessoas com tendência suicida têm permissão moral para acabar com suas vidas, ao mesmo tempo que se garante que os médicos da morte acreditem ter a aprovação da lei para satisfazer os desejos mais obscuros dos membros mais desesperados da sociedade.

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A “revolução” sexual: o que perdemos?
Sociedade

A “revolução” sexual: o que perdemos?

A “revolução” sexual: o que perdemos?

Ninguém mais sabe para que serve o sexo. O homem se acostumou de tal modo a praticar o ato por puro prazer que, talvez, as crianças tenham mesmo de começar a vir carregadas por cegonhas.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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O termo “revolução sexual”, usado para denominar as mudanças sociais e culturais acontecidas na década de 1960, que acompanharam principalmente a invenção da pílula anticoncepcional, é uma expressão enganosa, para dizer o mínimo. 

Primeiro porque, para os nossos contemporâneos, a palavra revolução é quase sempre algo positivo. Evoca a descoberta de alguma coisa a respeito do que “está sendo revolucionado” e à qual ainda não se havia dado a merecida atenção. Supõe ainda que se está extraindo, a partir dele mesmo, o melhor de um dado objeto. É como se os hippies dos anos 60 tivessem aportado numa praia de nudismo e descoberto um mundo a que o homem, até então, não tivera acesso. O novo mundo era a América, agora é o sexo.

Nós, fundamentalistas?

Exagero? Os livros que contam a história recente da humanidade falam do advento da pílula, do divórcio e das chamadas “liberdades sexuais” como grandes avanços. E ponto. Contrapostos aos “horrores” da rigorosa moral medieval e da queima de seus infratores nas fogueiras da Inquisição, esses fatos constituem para muitos uma verdadeira “libertação”. É o que escreve uma jornalista, por exemplo:

O sexo evoluiu da condição de pecado para a de manifestação inevitável e saudável de vida. A tolerância em torno dele, seja profissional [sic], seja amador, tornou-se universal. A última barreira é o preconceito contra homossexuais, mas ele perde espaço em toda parte. Apenas nas sociedades pré-modernas, em que o fundamentalismo religioso e os comportamentos tradicionais ainda vigoram, persistem a proibição sexual e as patrulhas do comportamento.

Comecemos por dizer que não, o sexo não evoluiu da condição de pecado porque, em si mesmo, ele nunca foi pecado. Abusus non tollit usum. O abuso de algo não tolhe o seu uso. A existência de pecados sexuais pressupõe, na verdade, que há um modo correto de relacionar-se sexualmente. E é contra isso que a chamada “revolução sexual” se insurgiu. 

Também as nossas sociedades continuam cheias de proibições sexuais, e creio que até a nossa jornalista, tão elogiosa do sexo, “seja profissional, seja amador”, haveria de convir que não seria nada interessante pôr abaixo todas elas. Se ela abrir um velho manual de teologia moral católica, deparará não só com os palavrões fornicação, adultério e masturbação, mas também com incesto, estupro e bestialismo. Será que a “superação” dessas formas de relacionar-se sexualmente também seria uma “evolução”? Há grupos hoje que defendem a “livre manifestação afetivo-sexual das crianças” — expressão bonita que arrumaram para pedofilia. Digam-nos os arautos da revolução sexual: “avançar” a ponto de normalizar esse tipo de comportamento seria aceitável? O Código Penal brasileiro reserva um título especial para “crimes contra a dignidade sexual”, entre os quais constam o estupro e o assédio. Também seria o caso de acabar com eles?

Supondo que nossos interlocutores ainda não tenham perdido de todo o bom senso e respondam não a todas estas perguntas, o que mais podemos dizer deles? Que não passam de um bando de “fundamentalistas” e “preconceituosos”? Ora, só alguém fora do juízo para defender o sexo totalmente livre. Não só não “é proibido proibir”; é muitíssimo sadio fazê-lo, é a única forma de nos protegermos da selvageria.

A pergunta central é: quais são os verdadeiros critérios de proibição? Se deixássemos ao arbítrio dos indivíduos o decidir se esta ou aquela é a melhor forma de relacionar-se sexualmente, isso facilmente abriria as portas para comportamentos bastante destrutivos. Se, por outro lado, encarregássemos disso o Estado, só teríamos proibidos justamente os comportamentos mais destrutivos. Não queremos isso, mas também não queremos o caos social. A quem recorrer, então?

Ninguém mais sabe para que serve o sexo

A posição dos cristãos católicos é a seguinte: se Deus criou o sexo, é a Ele, o Autor da natureza, que devem ser feitas as perguntas a esse respeito, e não ao governo, nem aos pedagogos, tampouco aos sexólogos. Até mesmo os sacerdotes e pais de família só devem ser escutados, nessa matéria, na medida em que procuram conformar suas opiniões e conselhos ao que Deus revelou por meio de Nosso Senhor e de sua santa Igreja. Caso contrário, estamos à mercê das opiniões; destas, porém (e não só de boas intenções), o inferno está cheio. Só a verdade liberta; é atrás dela que devemos ir.

E a verdade nessa matéria (comecemos por diagnosticar o problema de nossa época) é que ninguém sabe mais para que serve o sexo. O homem se acostumou de tal modo ao sexo por puro prazer que, talvez, as crianças tenham mesmo de começar a vir carregadas por cegonhas... Em alguns lugares isto já é real: é mais fácil as crianças caírem do céu do que serem concebidas e nascerem normalmente. Se se leva isso em conta, a última coisa que a revolução sexual fez foi transformar o sexo em uma “manifestação inevitável e saudável de vida”, como quer a nossa jornalista. Depois da pílula, nunca se evitaram tanto os filhos; depois do aborto, nunca se mataram tantos depois de concebidos. O nome disso não é vida; é esterilidade e morte.

Mas por que chegamos a essa situação? Porque a revolução sexual, longe de “revolucionar” o sexo (trazendo algum aspecto dele que não conhecíamos ou ainda não haviamos apreciado suficientemente), o que realmente fez foi desnaturá-lo. Depois da pílula e da legalização generalizada do aborto, os seres humanos se habituaram aos que Santo Tomás de Aquino considerava, já no século XIII, os mais graves dos pecados sexuais: aqueles que são cometidos contra a natureza mesma do sexo (contra naturam).

É interessante notar que, embora as pessoas, quase de imediato, associem esta expressão ao ato homossexual, a doutrina moral da Igreja sempre incluiu, no rol dos pecados “contra a natureza”, não só a sodomia, mas qualquer relação que vá contra a capacidade de gerar vida. Assim, vão contra a natureza não só os homossexuais, mas também os jovens que se tocam, os casais que praticam a contracepção e os mais depravados que vão atrás dos animais. Todos estão à procura do prazer que o sexo proporciona, mas sem o seu efeito primário e conatural, que é dar origem a novos seres humanos.

O fato de não acharmos que isso seja um problema constitui, por si só, o maior dos nossos problemas. Na verdade, nossa época não só não vê mal algum no sexo contra a natureza, como há classes profissionais inteiras sendo formadas só para derrubar o “mito católico” de que o sexo foi feito para a procriação. As consequências práticas disso, só não as vê quem (ainda) se deixa ludibriar pela “propaganda”: dissociado da graves responsabilidades que traz consigo, o sexo transformou-se num parque de diversões, em que se aventura quem quiser, na hora que quiser, com que parceiro e com que “brinquedo” quiser.

Daí a tragédia moderna de jovens viciados no consumo de pornografia e na prática da masturbação, confusos a respeito da própria sexualidade e incapazes de levar adiante relacionamentos maduros e saudáveis com outras pessoas. Daí a tragédia dos casais modernos que só olham para o próprio umbigo e para o próprio bolso e, por isso, naufragam diante da primeira dificuldade, deixando os (poucos) filhos que eles mesmos geraram (por acidente) à mercê da TV, do smartphone e do nosso sistema educacional falido e depravado — que só o que faz é dar início a este mesmo ciclo. Daí o completo esvaziamento do próprio conceito de família, que diante de tantos casamento falidos, passou a abarcar qualquer agrupamento humano… E os animais que se cuidem, porque o poço parece não ter fundo.

O curioso é que, em linhas gerais, todas essas tristes consequências da separação entre o prazer sexual e a sua dimensão procriativa foram devidamente profetizadas pelo Papa Paulo VI, cinquenta anos atrás, em sua encíclica Humanae Vitae. Falando dos métodos contraceptivos artificiais, ele escreveu:

Considerem, antes de mais, o caminho amplo e fácil que tais métodos abririam à infidelidade conjugal e à degradação da moralidade. Não é preciso ter muita experiência para conhecer a fraqueza humana e para compreender que os homens — os jovens especialmente, tão vulneráveis neste ponto — precisam de estímulo para serem fiéis à lei moral e não se lhes deve proporcionar qualquer meio fácil para eles eludirem a sua observância. É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada (n. 17). 

Sobre esse último ponto, as atrizes da indústria pornográfica certamente têm muito a testemunhar. Mas elas são apenas mais um dos muitos grupos vitimados pela “revolução sexual”. Não foram as únicas, e estão longe de ser as últimas. Todos fomos afetados de alguma forma pelos acontecimentos culturais do último século, e o drama continuará enquanto teimarmos em ignorar a verdade do sexo, tal como ele foi desenhado por Deus.

Onde está a solução?

Esse texto não é, pois, um manifesto de intolerância para com o que se convencionou chamar “minorias sexuais”. Até porque, os adeptos do “politicamente correto” que nos perdoem, mas, tecnicamente, minoria mesmo, nessa área, são as religiosas e os sacerdotes celibatários, assim como os casais católicos que querem viver o sexo aberto à vida. Num mundo que se gaba de ser sexualmente revolucionário, a verdadeira minoria somos nós, que remamos contra a corrente e ousamos querer viver o dom da sexualidade tal como ele nos foi dado pelo Autor da natureza.

Além do mais, quando falamos mais acima de “proibir” comportamentos sexuais destrutivos, falávamos principalmente de coerção moral, e não de repressão estatal. Nem tudo o que é pecado deve ser tido como crime. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.

O que aqui vai escrito não passa, portanto, de um apelo às consciências modernas, para que se dêem conta de que há algo muito errado em como temos nos relacionado sexualmente. Não se trata de transformar o sexo num demônio, como sugeriu apressadamente a nossa jornalista; trata-se, na verdade, de desmistificá-lo, tirando-o do altar em que o adoram como deus e devolvendo-lhe o status de criatura de Deus. 

Alguém nos acusará, com o dedo em riste, de querer “regredir à idade das trevas”. Mas, como Chesterton dizia, diante de um precipício, o único modo de avançar é dando um passo atrás. É o que a nossa geração precisa fazer. Nossos avós e nossos pais foram longe demais nesse terreno, e só uma comunidade de famílias fortes, dispostas a viver o plano de Deus para a sexualidade humana, pode restaurar o que a imprudente soberba de nossos antepassados fez perder.

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O que é a Septuagésima?
Liturgia

O que é a Septuagésima?

O que é a Septuagésima?

No calendário romano tradicional, três domingos antes da Quarta-feira da Cinzas, a Igreja já começa a se preparar para a Quaresma: os sacerdotes trocam o verde pelo roxo e não se canta mais nem o Aleluia nem o Glória. É o Domingo da Septuagésima.

Fr. John ZuhlsdorfTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Nós planejamos com certa antecedência todos os eventos importantes, como férias e festas de aniversário. Em geral, quanto mais significativo for o evento, mais tempo e esforço investimos para prepará-lo. Não chamaríamos de “sábio” o idoso que nunca pensou na própria aposentadoria ou o aluno que só estuda poucas horas antes da prova. As principais festas litúrgicas da Igreja são grandes eventos e, por isso, também exigem uma considerável preparação. À Páscoa, por exemplo, que é a maior festa de todas, precede um tempo de preparação longo e importante: a Quaresma. E como a Quaresma, por sua vez, também é importante, preparamo-nos para ela com certa antecedência.

Por muitos séculos, no calendário romano tradicional, houve um período pré-quaresmal vivido alguns domingos antes da Quarta-feira de Cinzas, nos quais já se antecipava na Igreja parte da austeridade penitencial da Quaresma. O terceiro domingo antes da Quarta-feira de Cinzas se chamava Septuagésima [1], em referência ao “septuagésimo” dia antes da Páscoa, e assim sucessivamente a Sexagésima (“sexagésimo” dia) e a Quinquagésima (“quinquagésimo” dia). Desse modo, todo o tempo da Quaresma recebia o nome de Quadragésima.

Obviamente, o leitor atento deve estar coçando a cabeça e pensando: “Os nomes a cada domingo de dez em dez. Mas existem apenas sete dias na semana. Como então vamos do Domingo da Septuagésima ao da Sexagésima em apenas sete dias?”

Pensemos um pouco melhor. Decerto os nossos antepassados tinham bons motivos para usar essa nomenclatura:

  • O Domingo da Septuagésima é o 63.º (sexagésimo terceiro) dia antes da Páscoa e, portanto, enquadra-se no 7.º (septimus) período de dez dias, situando-se entre o 61.º (sexagésimo primeiro) e o 70.º (septuagésimo) dia antes da Páscoa;
  • O Domingo da Sexagésima é o 56.º dia antes da Páscoa e encontra-se no 6.º (sextus) período de dez dias, entre o 51.º (quinquagésimo primeiro) e o 60.º (sexagésimo) dia antes da Páscoa;
  • O Domingo da Quinquagésima é o 49.º (quadragésimo nono) dia antes da Páscoa e situa-se no 5.º (quintus) ciclo de dez dias, entre o 41.º (quadragésimo primeiro) e o 50.º (quinquagésimo) dia antes da Páscoa.

Entretanto, todo o tempo da Quaresma é chamado tecnicamente de Quadragésima, embora haja mais de 40 dias entre a Quarta-feira de Cinzas e a Páscoa. Para se aproximar desse número, é preciso contar os dias da Quaresma excluindo os domingos e o Tríduo Pascal, que constitui um tempo litúrgico à parte.

A elevação do cálice na liturgia tradicional.

Na liturgia tradicional, durante a pré-Quaresma, a Missa dominical já é celebrada com paramentos roxos, embora as Missas semanais não o sejam. Na Santa Missa e no Ofício, cessa o cântico de Aleluia até a Páscoa [2]. Os domingos têm estações romanas [3], assim como todos os dias da própria Quaresma. Nesses domingos, nos tempos antigos, os catecúmenos eram levados à estação prescrita, a fim de participar da Missa e ouvir leituras robustas e orações cada vez mais profundas, passando assim por uma catequese que os ajudava a compreender o que ouviam. As orações e leituras para as Missas dos domingos pré-quaresmais foram compiladas por São Gregório Magno, Papa numa época de grande turbulência e sofrimento, marcada pela migração em massa e pela guerra, o que nos recorda os tempos atuais.

Quanto ao Aleluia, há um costume encantador — que, felizmente, vem sendo restaurado — de omiti-lo desde as Primeiras Vésperas da Septuagésima até a Vigília do Sábado Santo. Há uma tradição de “enterrar” o Aleluia, com uma cerimônia de deposição, como se fosse um pequeno funeral. Nesta cerimônia, canta-se um hino de despedida e, após uma procissão com cruz e velas, um caixão enfaixado com a inscrição de um “Aleluia” é aspergido, incensado e enterrado [4].

No calendário pós-conciliar, correspondente ao Novus Ordo do Papa Paulo VI, não existe mais a pré-Quaresma. Foi uma grande perda, tal como a retirada da Oitava de Pentecostes. Não se tratou, conforme exigia a Constituição Apostólica Sacrosanctum Concilium, de uma mudança orgânica, desenvolvida a partir de práticas anteriores ou em benefício dos fiéis.

No entanto, com o documento Summorum Pontificum, de 2007, um presente do Papa Bento XVI, os domingos pré-quaresmais estão recuperando parte de sua antiga posição. Os que optam por seguir o calendário tradicional mais antigo gozam do benefício da pré-Quaresma [5].

Em termos práticos, a pré-Quaresma nos proporciona um período de transição que facilita nossa disciplina quaresmal. Este importante tempo nos leva a pensar no que faremos durante a Quaresma, antes mesmo de começar, e não no dia seguinte à Quarta-Feira de Cinzas. Podemos considerar a pré-Quaresma um tempo para organizar nossa jornada quaresmal. Assim, quando chegar a Quarta-feira de Cinzas, estaremos prontos, com um plano em mãos. Comecemos, pois, desde agora a nos preparar.

Notas

  1. “A Septuagésima é o nono domingo antes da Páscoa e o terceiro antes da Quaresma, conhecido entre os ortodoxos como ‘Domingo do Filho Pródigo’, do Evangelho de São Lucas, que eles leem neste dia; chamado também  pelos latinos de Dominica Circumdederunt, em referência à primeira palavra do intróito da Missa. Na literatura litúrgica, o nome ‘Septuagésima’ aparece pela primeira vez no sacramentário gelasiano [...]. Amulário de Lião, em De eccl. off., afirma que a Septuagésima representa misticamente o cativeiro babilônico de setenta anos, começando neste domingo com a antífona Circumdederunt me undique (‘Cercaram-me de todos os lados’) e terminando no sábado depois da Páscoa, quando a Igreja canta Eduxit Dominus populum suum (‘O Senhor conduziu o seu povo’)” (Septuagésima, in The Catholic Encyclopedia).
  2. “Atualmente, o tempo da Septuagésima é inaugurado no Martirológio Romano com as palavras: ‘Domingo da Septuagésima, em que o cântico do Senhor, o Aleluia, deixa de ser dito’. No sábado anterior, o Breviário Romano observa que, após o Benedicamus das Vésperas, dois aleluias serão acrescentados, para serem daí em diante  omitidos até a Páscoa, e cujo lugar se dirá Laus tibi, Domine (‘Glória a vós, Senhor’) no início do Ofício” (Septuagésima, in The Catholic Encyclopedia).
  3. Antigamente, os chamados “dias de estação” eram dias de jejum e penitência, nos quais se fazia uma procissão a certas igrejas prescritas em Roma, onde se celebravam a Missa e as Vésperas como forma de marcar dias mais importantes do ano litúrgico (Nota da Equipe CNP).
  4. “Antes, a despedida do Aleluia era bastante solene. Em um antifonário da igreja de São Cornélio, em Compiègne, na França, encontramos duas antífonas específicas para isso. A Espanha possuía um Ofício Breve, composto por hino, capítulo, antífona e sequência. Os missais na Alemanha até o século XV tiveram uma bela sequência para marcar este acontecimento. Nas igrejas francesas, cantava-se o hino Aleluia, dulce carmen (Guéranger, IV, 14), que era bem conhecido entre os anglo-saxões (Rock, IV, 69). O Te Deum não é recitado nas Matinas, exceto nas festas. As lições dos primeiros Ofícios noturnos são tiradas do Gênesis, relatando a queda e a subsequente miséria do homem e, assim, preparando-nos adequadamente para o tempo quaresmal. Na Missa dominical e na ferial, o Glória se omite por completo. Em todas as Missas, um Tracto se acresce ao Gradual” (Septuagésima, in The Catholic Encyclopedia).
  5. Além disso, o Papa Bento XVI nos presenteou no documento Anglicanorum coetibus com o acolhimento de anglicanos na Igreja e a ereção de seus três Ordinariatos, agora na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Austrália. Seu calendário, embora se baseie no calendário de Paulo VI, restaurou a Septuagésima e a pré-Quaresma, juntamente com os Dias das Têmporas, de Rogação e a Oitava de Pentecostes. Desta forma, o Summorum Pontificum e o Anglicanorum coetibus injetam combustível para o “enriquecimento mútuo” e o aprofundamento na vivência e na identidade da nossa sagrada Liturgia.

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