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A prostituta barrada na porta da igreja
Santos & Mártires

A prostituta barrada na porta da igreja

A prostituta barrada na porta da igreja

“Mas quando eu pisei no limiar da porta, por onde todos entraram, fui impedida por uma força que não me deixou entrar... Era como se um destacamento de soldados estivesse lá de pé, se opondo à minha entrada.”

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Abril de 2019
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É uma constante na arte sacra a figura de Santa Maria Egipcíaca, que viveu de 344 a 421. Sempre impressionaram os artistas sua vida de penitência no deserto e o episódio milagroso de sua última comunhão, recebida das mãos de um monge chamado Zózimo.

Foi a ele que esta santa contou toda a sua história, a qual chega até nós graças a um relato intitulado Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae, Meretricis, atribuído a São Sofrônio de Jerusalém [1].

Quem tiver tempo, deve fazer a si mesmo o favor de ler inteiro este edificante relato. Não devem nos assustar os fatos miraculosos que rondam a vida dessa santa — e que a crítica moderna insiste em desacreditar —, pois prodígio algum que aconteceu em sua vida se compara à transformação que lhe aconteceu na alma. Lembremo-nos sempre que, como dizem Santo Agostinho e Santo Tomás [2], a justificação do ímpio é obra maior do que a criação do céu e da terra, pois estes passarão, mas a glória dos bem-aventurados no Céu não passará jamais.

Maria do Egito (seu lugar de nascimento) começa sua história contando como deixou a casa paterna, aos 12 anos, e foi para Alexandria, onde perdeu a virgindade e entregou-se à luxúria por cerca de 17 anos. “Eu era como um fogo de depravação pública”, ela confessa, “e não era por amor ao ganho. Frequentemente, quando eles desejavam pagar-me, eu recusava o dinheiro. Agia dessa maneira para fazer com que tantos homens quantos fosse possível desejassem possuir-me, fazendo de graça o que me dava prazer.” Ela se prostituía, portanto, não tanto por dinheiro, mas por um “desejo insaciável e uma paixão irreprimível por deitar-me na lama”.

Um dia, ela embarcou com inúmeros líbios e egípcios rumo a Jerusalém. Eram peregrinos que iam à Terra Santa para a festa da Exaltação da Santa Cruz. Ela ia movida não por desejo religioso, mas sim pela vontade de “ter mais amantes que pudessem satisfazer” suas paixões. Sem dinheiro e sem alimento, como se manteria Maria? “Eu tenho um corpo e, ao invés de pagar pela viagem, o porei à disposição”, ela dizia.

De fato, assim ela fez. Para dar a Zózimo uma ideia do abismo em que se achava, é com estas palavras que ela descreve sua viagem a Jerusalém:

Como poderei relatar o que aconteceu depois disso, ó homem de Deus? Que língua pode narrar, ou que ouvidos podem ouvir tudo o que aconteceu naquela embarcação durante a viagem? Como eu então forçava aqueles pobres moços, até mesmo contra a sua vontade! É inominável a turpíssima depravação que eu então lhes ensinei. Estou surpresa, Pai, de como o mar suportou as luxúrias da minha iniquidade, de como a terra não abriu suas mandíbulas e me arrojou viva no inferno, eu, que tantas almas havia prendido nas teias da morte.

Chegando à Terra Santa, Maria continuou “vivendo o mesmo tipo de vida, talvez até pior”: além dos rapazes que seduziu em alto mar, continuou a se entregar ainda “a muitos outros, tanto da cidade quanto estrangeiros que lá estavam”.

Já aqui essa história nos convida à meditação. Comecemos por constatar que, infelizmente, exemplos da vida pregressa como a de Santa Maria Egipcíaca não são muito difíceis de encontrar hoje em dia. Na verdade, eles estão a apenas um clique de distância. O que são, de fato, os sites de pornografia senão uma reunião, seleta e artificiosamente elaborada, dessas pessoas perdidas, entregues aos prazeres da carne e que “ensinam” a seus usuários todo tipo de depravação? E nossos homens, o que se tornaram senão frequentadores assíduos desses “prostíbulos virtuais”, sem os quais não conseguem mais passar e levar uma vida saudável?

Homens e mulheres afundados na lama da impureza, e não se sabe quem está mais sujo: eis a situação em que nos encontramos. Mas quantas dessas pessoas não morrem nesse estado? Esta, sim, é a maior tragédia de todas. Maria Egipcíaca recebeu de Deus a graça — como veremos — de se arrepender dos pecados que cometeu, levar uma vida de penitência e morrer em estado de amizade com Deus. Mas e nós, quanto tempo mais esperaremos para nos convertermos e mudarmos de vida? Até quando continuaremos a ignorar o Deus que nos procura e quer a nossa salvação?

A quem se encontra em estado de graça, não é menos forte a meditação a fazer: o que seríamos de nós, se tivéssemos partido deste mundo em pecado mortal? O que seria de nossa alma se naquela noite em que dormimos afastados de Deus, naquele dia em que lhe voltamos as costas (até prometendo para nós mesmos buscar a Confissão no dia seguinte), o que aconteceria se naquela hora fôssemos chamados para a prestação de contas que dá início à eternidade?

Pensemos nessas coisas e tenhamos sempre um coração agradecido a Deus por sua misericórdia nos ter atingido como atingiu esta sua filha, Santa Maria Egipcíaca. Mas deixemos que agora fale ela, sem interrupções, de como se deu o bonito milagre de sua conversão:

O dia sagrado da Exaltação da Cruz despontou, enquanto eu ainda estava à caça de jovens. Ao amanhecer, vi que todos corriam para a igreja. Então, corri com o resto deles. Quando a hora da sagrada elevação se aproximou eu estava tentando abrir caminho entre a multidão, que lutava para chegar às escadarias. Finalmente, com grande dificuldade, consegui ir me espremendo quase até às portas da igreja, de onde a vivificante árvore da Cruz estava sendo mostrada ao povo. Mas quando eu pisei no limiar da porta, por onde todos entraram, fui impedida por uma força que não me deixou entrar. Entretanto, completamente ignorada pela multidão, me encontrei sozinha no pórtico da igreja. Pensando que isto tivesse acontecido devido à minha fraqueza de mulher, comecei novamente a abrir caminho com os cotovelos no meio da multidão. Mas era em vão meu esforço. Novamente meus pés pisaram no limiar onde outros iam entrando na igreja, sem encontrar nenhum obstáculo. Eu somente parecia não ser aceita na igreja. Era como se um destacamento de soldados estivesse lá de pé, se opondo à minha entrada. Mais uma vez fui excluída pela mesma força poderosa e novamente fiquei no limiar.

Havendo tentado por três ou quatro vezes, finalmente me senti esgotada e não tendo mais forças para empurrar e ser empurrada, fui para o lado e permaneci num canto do pórtico. E então, com grande dificuldade, começou a despontar algo em mim e comecei a perceber a razão pela qual eu estava sendo impedida de ver a Cruz vivificante. A palavra da salvação gentilmente tocou os olhos do meu coração e revelou-me que era minha vida impura que fechava a entrada para mim. Comecei a chorar e lamentar e bater no meu peito e a suspirar das profundezas do meu coração. E assim permaneci chorando, quando vi acima, um ícone da Santíssima Mãe de Deus. E voltando para ela meus olhos do corpo e da alma eu disse: “Ó Senhora, Mãe de Deus, que deste à luz na carne a Deus, a Palavra; eu sei, ó quão bem eu sei, que não há nenhuma honra ou louvor para ti, quando alguém tão impura e depravada como eu olha para teu ícone, ó sempre Virgem, que mantiveste vosso corpo e alma na pureza. Certamente inspiro desprezo e desgosto ante tua pureza virginal. Mas já ouvi que Deus, que nasceu de ti, se tornou homem para chamar pecadores à conversão. Então, ajuda-me, pois não tenho outro auxílio. Ordena que os portais da igreja se abram para mim. Permite-me ver a venerável árvore na qual Ele que nasceu de ti, sofreu na carne e na qual Ele derramou seu preciosíssimo Sangue pela redenção dos pecadores e para mim, indigna como sou. Seja minha testemunha fiel diante de teu Filho que eu nunca mais corromperei meu corpo na impureza da fornicação, mas tão logo eu veja a árvore da Cruz, renunciarei ao mundo e às suas tentações e irei aonde quer que me conduzas.”

Assim falei e como se recobrasse nova esperança, com fé firme e sentindo alguma confiança na misericórdia da Mãe de Deus, deixei o lugar onde tinha ficado rezando. E fui novamente, misturada à multidão que fazia seu caminho dentro do templo. E ninguém parecia impedir-me, ninguém estorvou minha entrada na igreja. Fiquei possuída de tremor e estava quase à beira do delírio. Tendo chegado tão próximo das portas, o que eu não conseguira antes, como se a mesma força que me impedira agora abrisse caminho para mim, eu agora entrava sem dificuldade e me encontrei no lugar santo. E então vi a Cruz vivificante. Vi também os Mistérios de Deus e como o Senhor aceita o arrependimento. Jogando-me ao chão, adorei aquela terra santa e tremendo, beijei-a. Então saí da igreja e fui àquela que prometeu ser minha segurança, ao lugar onde eu selei meu voto. E dobrando meus joelhos diante da Virgem Mãe de Deus dirigi a ela estas palavras: “Ó amável Senhora, tu me mostraste teu grande amor por todos os homens. Glória a Deus, que aceita o arrependimento de pecadores através de ti. O que mais posso lembrar ou dizer, eu que sou tão pecadora? É hora para mim, ó Senhora, de cumprir meu voto, de acordo com o teu testemunho. Agora, conduz-me pela mão pelo caminho do arrependimento!”

E ao dizer estas palavras ouvi uma voz do alto: “Se tu atravessares o Jordão irás encontrar glorioso repouso”. Ouvindo esta voz e crendo que eram para mim, gritei para a Mãe de Deus: “Ó Senhora, Senhora, não me abandones!”

A história é bela e comovedora. Maria estava ainda afundada em seu pecado, à procura de mais pessoas a quem ensinar suas imoralidades, e Deus lhe mostrou — fortiter et suaviter, como só Ele é capaz — que sua vida desregrada precisava mudar.

“Santa Maria do Egito”, por José de Ribera.

Ela então caiu em si e recorreu a quem? A Maria, Mãe de Deus! Mas se foi Deus quem a fez despertar de seu sono de pecado, por que recorrer a outrem? Se é Ele que salva, por que dirigir-se a ela? Ora, muito simples — e Santa Isabel o intuiu no Evangelho (cf. Lc 1, 43), e os primeiros cristãos o entenderam ao compor a oração Sub tuum praesidium, e Maria do Egito demonstrou ter entendido o mesmo com sua súplica: assim como Deus quis desposar a humanidade na Encarnação servindo-se de Maria, Ele quer se unir a nossas almas também através dela.

Santo Tomás diz algo parecido ao comentar a passagem das bodas de Caná: observando que o evangelista diz primeiro: “achava-se ali a mãe de Jesus”, para só depois mencionar a presença de Cristo e de seus Apóstolos (cf. Jo 2, 2) na festa, o Aquinate afirma que “a bem-aventurada Virgem, mãe de Jesus, está presente nos matrimônios espirituais como aquela que une os esposos [nuptiarum consiliatrix], pois é por sua intercessão que as almas se unem a Cristo pela graça” [3].

Maria do Egito dá testemunho, no entanto, de que a intercessão de Nossa Senhora não só a uniu a Cristo, como a manteve firme nessa união. Depois de deixar aquela igreja em Jerusalém, atravessar o rio Jordão e chegar ao deserto (onde ela passou, como se sabe, o resto de seus dias), as batalhas que ela travou com o demônio foram intensas, e em todas elas foi a Mãe de Deus que a valeu:

Creia-me, Pai, por dezessete anos vivi nesse deserto lutando contra feras selvagens — desejos loucos e paixões. Quando ia me alimentar eu costumava lamentar a carne e o peixe que eu tinha em abundância no Egito. Lamentava também não ter vinho que eu apreciava tanto, pois eu bebia muito vinho quando vivia no mundo, enquanto aqui eu nada tinha, nem mesmo água. Queimava-me até sucumbir de sede. Um desejo atroz de canções libertinas também me perturbavam e me confundiam grandemente, levando-me quase a cantar canções satânicas, que eu tinha aprendido antes. Mas quando esses desejos me vinham, eu batia no peito e me recordava do voto que tinha feito antes de vir para o deserto. Em meus pensamentos voltava-me para o ícone da Mãe de Deus que me tinha recebido e a quem clamava na oração. Implorava-lhe para dar caça a esses pensamentos, diante dos quais minha alma estava sucumbindo. E depois de chorar por longo tempo e batendo no peito, eu costumava ver uma luz que parecia brilhar sobre mim de algum lugar. E depois da violenta tempestade finalmente vinha a paz.

E como posso dizer-lhe sobre os pensamentos que me instavam à fornicação, como posso expressá-los a ti, Pai? Um fogo inflamava meu miserável coração que parecia queimar-me completamente e me despertava uma sede de abraços. Tão logo esse desejo me surgia, eu jogava-me ao solo e molhava-o de lágrimas, como se visse diante de mim minha testemunha, que tinha me aparecido em minha desobediência e que parecia ameaçar punição para o castigo. E eu não me erguia do chão (algumas vezes ficava lá prostrada por um dia e uma noite), até que a calma e a doce luz descesse e me iluminasse e pusesse em fuga os pensamentos que me possuíram. Mas sempre eu voltava os olhos de minha mente para minha protetora, pedindo-lhe para estender seu auxílio a uma que estava afundando rápido nas dunas do deserto. E sempre a tive como meu socorro e aquela que aceitava meu arrependimento. E assim vivi por dezessete anos, entre constantes perigos. E desde então a Mãe de Deus me auxilia em tudo e me conduz como se pela mão fosse.

Santa Maria do Egito recebeu ainda, antes de morrer, uma visita especial de Jesus sacramentado: aquela que, por sua impureza, se vira impedida de entrar na casa de Deus, por sua penitência terminou “atraindo” o próprio Deus para o seu deserto.

Assim acaba sua história neste mundo, assim Santa Maria do Egito nasce para o Céu. Há uma porção de detalhes de sua biografia dos quais poderíamos extrair ainda um sem número de lições, mas deixemos isso para outra ocasião. Por ora, sirvamo-nos desse belo relato de conversão para meditarmos em nossa própria vida, no modo como Deus nos visitou para fazer-nos entrar em sua Igreja, e em como Ele nos chamou para fazer penitência no deserto desta vida.

Em primeiro lugar, alegremo-nos por tantas “portas fechadas” em nossa cara ao longo desta vida; bendigamos ao Senhor por todas as “desgraças” que nos sucederam, mas que se revelaram, ao fim e ao cabo, grandes instrumentos da Providência para a nossa salvação! A frase pode estar banalizada, mas, de fato, Deus nos fecha portas agora porque tem outras para nos abrir. Dizendo de outro modo, é melhor que nos sejam negadas certas coisas aqui, que soframos certas penas aqui, que nos sejam fechadas certas portas aqui, do que sermos barrados na entrada do Reino dos céus.

Mas se as palavras “penitência”, “deserto” e “sofrimento” nos parecem duras e nos fazem querer desanimar, não nos esqueçamos da grande paz e doçura que acompanham a entrega dos que amam a Deus — paz e doçura que os mundanos não encontram em seus pecados!

Com efeito, quem olhasse para Maria Egipcíaca prostituída, antes de seu encontro com Cristo crucificado, com que pena não veria, no fundo de seu olhar, o vazio angustiante de quem estava gastando todas as suas energias numa procura vã de felicidade! Aquela mulher sensual nunca imaginaria a reviravolta que aconteceria em sua vida… E, no entanto, se colocássemos lado a lado, no leito de morte, a Maria pecadora e a Maria penitente, e perguntássemos a uma e a outra se se arrependia da vida que tinha levado… a primeira certamente diria que sim — e daria tudo para voltar atrás e refazer-se —, mas a segunda com certeza responderia que não

Por quê? Porque Santa Maria do Egito, a Penitente, havia encontrado, no deserto com Deus, a paz que o mundo não pode dar (cf. Jo 14, 27). Dali ela seguiria rumo à Jerusalém celeste, sim; rumo à Terra Prometida do Céu, onde não há luto, nem lágrimas, nem dor, nem escuridão. Mas já aqui, através da fé, ela pôde experimentar um prelúdio de tudo isso — e de ter entregado sua vida ao Amor ela não poderia arrepender-se jamais [4].

Referências

  1. O texto latino completo pode ser consultado facilmente na Patrologia Latina, v. 73, col. 672-690, mas há uma tradução em português do relato no site ortodoxo Ecclesia.
  2. Cf. S. Th. I-II, q. 113, a. 9.
  3. Comentário ao Evangelho de São João, II, 1, n. 343.
  4. A frase: “Não! Não me arrependo de me ter entregue ao Amor!” faz parte do testamento de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face (cf. Últimos Colóquios, Caderno Amarelo, 30 set.).

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Tchau, moral! Adeus, virtude!
Sociedade

Tchau, moral! Adeus, virtude!

Tchau, moral! Adeus, virtude!

O ser humano não consegue viver sem um critério de como agir. Como o homem moderno rejeitou o cristianismo herdado de seus antepassados, restou-lhe apenas uma opção: eliminar a moral e a virtude da vida pública e substituí-las por simulacros.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2019
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Faz muito tempo que nossa nação renunciou ao ensino da moralidade [1]. Hoje, a palavra “moral” é pouco pronunciada, pois foi substituída por “valores”, um termo mais subjetivo e agradável aos ouvidos do que seu predecessor, que evoca padrões objetivos e um comportamento ordenado. A sorrateira mudança para “valores” ocorreu quase sem esforço depois que forças seculares expulsaram Deus de nossos sistemas escolares e da esfera pública.

Compreende-se melhor a moral quando uma ordem estabelecida confere a ela uma finalidade, e essa necessidade durante muito tempo foi suprida pela crença no Deus criador de um universo ordenado. Ora, não é de admirar que o comportamento humano tenha sofrido desvios preocupantes, uma vez que secularistas proeminentes passaram a negar a existência de qualquer finalidade no mundo ou na vida humana.

Agora a sociedade secular está presa numa armadilha criada por ela mesma. Por um lado, defende com ferocidade o direito de um indivíduo a “definir seu próprio conceito de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana”, segundo as infames palavras do juiz Anthony Kennedy [2]. Se uma pessoa quiser matar um bebê in utero, redefinir o matrimônio ou remodelar sua sexualidade, nenhuma lei ou instituição poderá impedi-la

Por outro lado, deve haver um código para regular o comportamento até certo ponto, a fim de evitar a anarquia. Portanto, no lugar da moral, que (aliada ao seu outro complemento esquecido: a virtude) outrora moldou o comportamento humano adequado desde dentro, os secularistas impõem leis externas para regular nosso comportamento a partir de fora.

Essas leis são de dois tipos: leis de consentimento e de controle. 

Atualmente, as leis de consentimento governam as relações sexuais, e agora que o matrimônio não é mais o território adequado para a sexualidade, elas têm se tornado cada vez mais necessárias. Sendo o consentimento o único padrão, os atos sexuais já não podem mais ser considerados certos ou errados. A única coisa que importa é saber se as partes envolvidas estão de acordo com o ato. A sexualidade humana é hoje governada por decisões subjetivas de indivíduos, e não por padrões objetivos preservados por uma ordem criada. Isso explica por que atualmente todo tipo de atividade sexual é permitido. Em nosso mundo secular, só pode haver crime quando uma pessoa não está de acordo com tal atividade. 

Leis de controle não limitam uma pessoa, mas uma situação, tal como a competência para possuir uma arma ou aumentar o preço do aluguel. Naturalmente, sempre houve leis desse tipo, e elas não são más em si mesmas. Porém, a versão atual delas se tornou imperativa para secularistas que, por causa de seus princípios, não podem dizer a uma pessoa como viver de acordo com a moral.

Consequentemente, a única alternativa deles é controlar situações potenciais, limitando a oportunidade que uma pessoa tem para prejudicar outra. Pela lógica secularista, não podemos ensinar a um homem o mandamento: “Não matarás”. Em vez disso, temos de dizer: “Não possuirás uma arma”. Negligencia-se discretamente o fato de as leis de controle serem uma imposição da vontade de uma pessoa sobre outra.

Em nosso mundo secular, há apenas uma forma de proteger os seres humanos de ações escandalosas: uma lei externa que obriga a pessoa a obedecer ou a sofrer as consequências. Se as pessoas aderissem aos padrões de consentimento e controle, viveríamos em harmonia. Ao menos é o que se espera. 

Na tradição católica, em contrapartida, a lei e as consequências penais são o último recurso para reprimir uma conduta imoral. Segundo essa tradição, há muitas ações imorais em si mesmas, para além da violação de consentimento. Sem dúvida alguma, o código moral cristão, tal como a lei civil, contém diversas formas negativas: “Não farás [isto ou aquilo]”. Não obstante, essas normas fazem parte de uma visão mais ampla a respeito do sentido da vida humana e, consequentemente, do modo como os seres humanos devem e não devem se comportar. 

Em vez de simplesmente coagir a vontade, tal como o faz a lei civil, o código moral cristão recorre ao intelecto, persuadindo-nos a aceitar como verdadeira uma visão a respeito da maneira como deveríamos viver. A obediência a esse código também tem uma recompensa positiva: a vida eterna com Deus no Céu. A lei civil subsiste para reprimir aqueles que rejeitam esse código.

A moralidade cristã se fortalece ainda mais quando as pessoas religiosas se esforçam para adquirir virtudes, ou o hábito de realizar boas ações. Tornamo-nos virtuosos ao realizar atos de virtude repetidas vezes, enraizando-os em nosso próprio ser. Pessoas realmente virtuosas não dependem mais de proibições negativas porque estão sempre motivadas a fazer a coisa certa em todas as situações. Pessoas virtuosas atingem um nível ainda mais elevado quando amam Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, escreve São Paulo: “Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei… Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 18.22-23).

Além da moral, nosso mundo secular descartou também a virtude, já que esta também implica um modo correto de viver. Em seu lugar, temos hoje campanhas de autoestima e exortações insípidas em prol da amabilidade. Essa defesa é bem-intencionada, mas é ineficaz porque carece de um fundamento razoável que explique por que as pessoas deveriam agir desta ou daquela maneira. O apelo não é direcionado ao intelecto, nem mesmo à vontade, mas às emoções, o que equivale a edificar a própria casa sobre a areia.

O ensino da moralidade e da virtude não é — nem jamais foi — uma garantia de que todas as pessoas se tornarão santas e jamais agirão de forma equivocada. Porém, o ensino delas aumenta a probabilidade de os indivíduos escolherem viver de forma íntegra, porque eles recebem de três fontes (as virtudes, a moral e a lei), e não apenas de uma, a motivação para agirem assim. Quando reduzimos nossas defesas, nos tornamos mais vulneráveis ao ataque.

Não podemos esperar que a lei civil faça o trabalho realizado outrora por uma ordem moral razoável e por uma formação virtuosa do caráter. O experimento norte-americano [3] deu certo porque essas coisas estavam presentes durante a formação do país e em sua expansão, mesmo antes da chegada do primado do direito a algumas localidades anteriormente instáveis. A rejeição da moralidade e da virtude pela América secular pode bem ser o passo que arruinará nosso grande experimento.

Notas

  1. O autor fala desde os Estados Unidos. Mas, de modo geral, as considerações feitas por ele se encaixam como uma luva também em nossa situação (Nota da Equipe CNP).
  2. Anthony Kennedy foi, até 2018, juiz associado da Suprema Corte dos Estados Unidos, função equivalente à dos ministros de nosso Supremo Tribunal Federal (Nota da Equipe CNP).
  3. Como já dito, o autor fala a partir do lugar onde vive. A expressão “experimento norte-americano” (em inglês, the American experiment) faz referência a um conjunto de ideias que orientou a independência dos Estados Unidos em 1776, e que pode ser encontrado principalmente nos escritos dos chamados “pais fundadores” dos EUA (os Founding Fathers). À parte, porém, essa particularidade, o que aqui vai escrito se aplica perfeitamente bem a qualquer sociedade. Nenhuma nação pode prosperar, no verdadeiro sentido do termo, se não estiver edificada sobre “uma ordem moral razoável” e “uma formação virtuosa do caráter” (Nota da Equipe CNP).

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Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso
Espiritualidade

Nem uma sequer
de nossas amizades é por acaso

Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso

“Nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram”. Se temos bons companheiros na jornada desta vida, então temos o próprio Deus, visível e encarnado, caminhando conosco.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2019
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É consequência quase que natural, de um processo sério, maduro e verdadeiro de conversão, afastar-se das más amizades que se tinha antes e aproximar-se de outras pessoas que tenham em comum a vida de oração e a busca das virtudes. 

A razão disso é muito simples e consta na própria Sagrada Escritura: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). Não é possível começar a seguir a Cristo e continuar levando a vida do mesmo modo, de mãos dadas com o mundo e com os mundanos. Os que se fazem amigos de Deus devem fazer-se, isto sim, inimigos do mundo — porque o contrário também é verdadeiro: quem se entrega ao mundo, a última coisa que quer ouvir falar é de Deus, de sua Igreja e dos Mandamentos (cf. Tg 4, 4).

Numa sociedade pagã como a nossa, então, é cada vez mais contrastante o modo como o mundo se comporta com o que nos manda o simples Decálogo. Está tudo estampado, às claras, na maneira como as pessoas se vestem, na linguagem com que falam, nas músicas que escutam, nas coisas que admiram…

Só para dar um exemplo muito concreto: as músicas mais ouvidas nos serviços de streaming de música (e também nas rádios), o que se tornaram senão pornografia auditiva pura e simples? As referências abertas ao que deveria ser o mais íntimo dos atos humanos, a incitação ao adultério, à degradação da mulher e ao próprio abuso de menores... nunca foram tão virulentas. E as pessoas não estão escutando isso (como se fosse pouco…); elas estão “curtindo” também, e divulgando, e colocando essas músicas para serem tocadas nas festas de família, de formatura e de casamento, de modo que também seus filhos são colocados, na maior tranquilidade, para cantar e dançar as baixarias que lhes vão aos ouvidos. 

Ora, quando o pecado se torna assim público, como não exigir dos cristãos um rompimento igualmente público com determinados ambientes e grupos de pessoas, de “amigos” ou até mesmo de parentes próximos? Não se trata justamente daquela “fuga das ocasiões perigosas”, básica para vivermos não só, mas principalmente a delicada virtude da castidade cristã? Não vale aqui o ditado segundo o qual é “impossível não queimar-se no meio de uma fogueira” [1]?

À parte a roupagem nova de que o problema se reveste hoje, também Santa Teresa d’Ávila podia se interrogar, em seu tempo, a respeito das más amizades (Caminho de Perfeição, c. 6): “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo? É amor que há de acabar com a vida, pois, se um não guarda a lei divina, e, por conseguinte, não ama a Deus, diferentes hão de ser os seus destinos” [2].

Palavras difíceis de escutar estas, especialmente para uma época que deixou de acreditar na eternidade e no Inferno: “Diferentes hão de ser os seus destinos”. Mas a boa-nova de Cristo comporta essa divisão: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mt 10, 34-36). 

Radical essa divisão, alguém poderá objetar. E, no entanto, como já dito, essa inimizade não é invenção de nenhum ser humano, tampouco da Igreja; trata-se de um decreto divino mesmo, inscrito na própria natureza das coisas, tal como se apresentaram após a Queda. Na célebre frase de Santo Agostinho: “Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus — a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si — a celeste” [3].

Comentando a passagem de Gn 3, 15: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”, São Luís Maria Grignion de Montfort ainda diz o seguinte em seu Tratado sobre a verdadeira devoção à Santíssima Virgem (n. 52):

Deus estabeleceu apenas uma inimizade — porém irreconciliável —, que haverá de durar e chegará mesmo a aumentar na razão mesma em que o mundo se for aproximando do fim. Esta inimizade é entre Maria, Sua Mãe imaculada, e o diabo; entre os filhos e os servos da Santíssima Virgem e os filhos e seguidores de Lúcifer [4].

Desenganemo-nos, portanto, tentando conciliar o inconciliável. “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo?” É inevitável, entre os amigos de Deus e os que não querem saber dele, o distanciamento, a separação e, tantas vezes, até o ódio. (Não de nossa parte, porquanto Nosso Senhor nos pede que amemos inclusive nossos inimigos. Além disso, por mais afundada no pecado que esteja uma pessoa, sua alma imortal também foi comprada pelo Sangue de Cristo, e é nosso dever trabalhar por seu resgate, com oração, sacrifícios e, se houver esperança de emenda, também com apelos e “chamadas de atenção” [5].)

Mas também é verdade uma coisa: as pessoas que não estão na graça de Deus geralmente são as primeiras a não quererem para si a companhia dos justos. E por quê? Porque o comportamento destes é uma reprovação visível do modo como elas procedem. A roupa modesta da moça católica é a condenação explícita da roupa indecente da moça mundana, ainda que não lhe saia uma palavra da boca sequer. O católico que sai de um grupo de WhatsApp porque não concorda com a pornografia que seus contatos lhe mandam, excita o ódio destes mesmo sem fazer alarde algum. A família numerosa gerada por um casal católico aberto à vida é o “escândalo” da paróquia, e por aí vai. 

É lamentável, de fato, que tantos de nosso convívio, e até de nossa casa, estejam tão próximos de nós fisicamente, mas ao mesmo tempo tão distantes espiritualmente… Como já dito, porém, é isso o que acontece naturalmente quando se amam e se querem coisas opostas. Não adianta “forçar a barra” e querer estabelecer uma amizade a todo custo, pois nem os laços de sangue nem a proximidade física podem sanar o problema da discórdia, isto é, quando duas pessoas não têm o coração no mesmo lugar.

Por outro lado, que alegria não experimentamos quando fazemos um amigo, um único que seja, com o qual temos a graça de compartilhar os mesmos amores e as mesmas aversões (idem velle, idem nolle, como diz o adágio latino, “querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas”). C. S. Lewis escreve que “a expressão típica de começo de amizade seria esta: ‘O quê? Você também? Eu pensava que era o único!’” [6]. Se o que os amigos têm em comum, então, é a busca por Deus, essa alegria é potenciada pela graça, e desde já o que se experimenta é um verdadeiro prelúdio da glória celeste, pois é este o destino comum para o qual eles caminham juntos

Para falar a verdade, o único modo de os amores humanos não descambarem para a idolatria é estando constantemente permeados pelo sobrenatural; a única forma de ordenarmos nossos afetos da forma devida é colocando-os sempre diante da Cruz de Cristo; a única maneira de amarmos retamente as pessoas neste mundo é procurando amar a Deus de todo o coração, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento (cf. Dt 6, 5; Lc 10, 27).  

Do contrário, assim como com qualquer coisa deste mundo, ficaremos sempre insatisfeitos e “saturados” de algum modo, porque nossa alma foi criada para um outro tipo de amizade, a amizade com Deus, fora da qual todas as nossas amizades não passam de “parcerias”, “coleguismos”, destinadas ao mesmo fim das coisas materiais: o túmulo. É por isso que Santa Catarina de Sena aconselhava: “Se quiserdes que uma amizade dure, se quiserdes beber por muito tempo neste copo, deixai que ele se encha sempre na fonte de água viva; de outro modo, não podereis mais saciar vossa sede” [7]. 

Aqui mora o cuidado, também, de não deixarmos as boas amizades que temos se perderem por falta de referência a Cristo, nosso Amigo primeiro e fundamental, com “a” maiúsculo. Assim como na vida de perfeição, não basta que deixemos de lado as más companhias, que nos levam para o pecado; é preciso que transformemos o convívio com nossos amigos de fé em um desejo comum cada vez mais intenso pelas coisas celestes, em uma doação mútua cada vez mais generosa de bens espirituais… E isso exige esforço, luta constante e sabe-se lá quantas “doses” (tantas vezes dolorosas) de correção fraterna!

O importante é não nos esquecermos da miséria de nossa condição e da meta para a qual caminhamos. Estamos numa peregrinação difícil, é verdade, a montanha íngreme que queremos subir tantas vezes se agiganta à nossa frente e parece impossível subir… Mas, se temos bons companheiros para nos ajudar nessa jornada, que nos encorajam a seguir adiante, que não nos deixam desanimar quando tudo já parece estar perdido, que não nos deixam voltar atrás quando teimamos em confiar menos na graça que em nossas próprias debilidades, então temos o próprio Deus, visível, encarnado, caminhando conosco

Pois também Ele não desiste de nós; o que Ele mais quer é a nossa salvação eterna; e é Ele quem, em sua providência, nos presenteia com boas amizades:

Do ponto de vista de Deus, [...] nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram, quer se encontrem ambas em estado de graça, quer só uma tenha a vida divina e possa por sua orações, sua atitude e seu exemplo levar a outra a retomar o caminho reto da eternidade. Não foi por acaso que José foi vendido por seus irmãos aos mercadores ismaelitas; Deus tinha decidido desde toda a eternidade que eles passariam ali a tal hora, nem mais cedo, nem mais tarde. Não foi por acaso que Jesus encontrou Madalena, ou Zaqueu, ou que o centurião romano se encontrava no Calvário [8].

Assim também, (não duvide!) não é por acaso nem um sequer de seus amigos!

Referências

  1. Pe. Antonio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. 1. Madri: BAC, 1996, p. 446.
  2. Santa Teresa d’Ávila. Caminho de Perfeição (c. 6). Trad. das Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 53.
  3. Santo Agostinho, De Civitate Dei, XIV, 28.
  4. São Luís M. Grignion de Montfort. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Trad. de Raul Martins. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 36.
  5. Falamos de “esperança de emenda” porque, se previrmos que nossa correção fraterna será inútil ou, ainda, virá a causar mais prejuízo do que benefício a outra pessoa, Santo Tomás de Aquino ensina que é melhor abster-se (cf. STh II-II, 33).
  6. C. S. Lewis. Os quatro amores. Trad. de Estevan Kirschner. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017, p. 92.
  7. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange. O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 26.
  8. Ibid., p. 33.

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Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!
Família

Marido e mulher,
vocês pertencem um ao outro!

Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!

Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Novembro de 2019
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Nas rubricas da celebração do matrimônio presente no Book of Common Prayer [1], o homem, ao colocar a aliança no dedo da mulher, é orientado a dizer: “Com esta aliança, eu te desposo; com meu corpo, eu te venero; e com todos os meus bens terrenos, eu te provejo: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Os cônjuges doam-se a si mesmos porque pertencem um ao outro. O respeito mútuo entre eles e sua união ao longo da vida são uma ratificação da aliança escrita, naquele dia, em seus corações pelo dedo ardente do Espírito Santo; escrita com a palavra de todo seu ser e o peso absoluto do passado, do presente e do futuro, testemunhando a imortalidade da alma humana e a origem divina do seu amor. Se votos como esse não são possíveis, os seres humanos não podem ser considerados animais racionais, muito menos filhos de Deus.

O voto nupcial é uma imitação da fé da Virgem Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Essa declaração perpétua — dita por Eva a Adão, por Sara a Abraão, por Rebeca a Isaac, por Raquel a Jacó, por Maria a José, por Cristo a seu Pai, e pela Igreja a Cristo — é o atestado solene de amor eterno, o triunfo do amor sobre a morte. “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6, 3).

É por isso que, para o cristão, o divórcio não é apenas cruel e errado, mas impossível e inconcebível. Tornar-se a vida e o destino de alguém, por meio de um “sim”, e depois dizer “não”, é apagar a liberdade genuína da vontade e aniquilar a própria identidade enquanto portadora de promessas. A liberdade só pode sobreviver em uma atmosfera de amor, e o amor em um contexto de compromisso incondicional; do contrário, em uma tempestade de acaso ou em um deserto de incerteza, eles não sobrevivem. 

Nos votos matrimoniais seriamente intencionados, o homem torna-se da mulher e a mulher torna-se do homem — nas palavras de São Paulo, “já não vos pertenceis” (1Cor 6, 19). Como pai e filho, esposo e esposa são interdependentes. Se o pai nunca tivesse existido, a possibilidade do filho também desapareceria. O divórcio do que é intrinsecamente unido é tão impossível quanto separar a racionalidade da humanidade. Nesse sentido, a rejeição do amor prometido (divórcio) é como a negação da fé religiosa (apostasia), que, por sua vez, é uma imagem da rejeição da razão (niilismo).

Pensemos na dedicação da Virgem Maria ao seu Filho. Ele pediu tudo a ela, e ela em nada lhe faltou. Quando um homem e uma mulher se comprometem diante de Deus, eles o fazem em vista de uma bem-aventurança futura da qual não desfrutamos no presente. A grandeza da fé consiste nessa entrega livre e incondicional a um amor que não vemos, mas em cuja palavra solene confiamos.

Imaginemos a esposa de um jovem que partiu para a guerra. Ela sabe que pode não tornar a vê-lo nunca mais; ela sabe que nada pode lhe dar certeza de sua fidelidade no exterior. Mas, se ela o ama, manterá o compromisso assumido na expectativa do reencontro

A Escritura diz que Jacó “serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram alguns dias, tão grande era o amor que lhe tinha” (Gn 29, 20). Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

No caso de nosso Divino Amado, Ele deseja se tornar conhecido por nós: Ele não nos deixou órfãos. Para compreender essa realidade, basta nos perguntarmos: por que a Encarnação? Por que as parábolas e a Paixão de Jesus Cristo? Por que milagres? Por que santos e estudiosos? Não são esses os buquês, as cartas de amor, as manifestações apaixonadas de Deus ao homem? Além disso, se Deus cria o universo em um transbordar fecundo de sua perfeita bondade, acaso tornará impossível para nós encontrá-lo? E quando for encontrado, acaso tornará impossível para nós permanecer com Ele?

Ao contrário dos sonhos efêmeros e das trágicas quedas do amor humano — que, por sua própria natureza, permanece sujeito à mudança —, o amor de Deus é imutável e eterno: Ele é fiel, Ele não trairá seus filhos. Estes lhe pertencem, e Deus quer que retornem a Ele, como o pai quer o filho pródigo de volta em seus braços, sob seu teto. Começamos nossa vida mortal em um estado de alienação em relação a Deus, de modo que toda a nossa vida é uma peregrinação para encontrar o caminho de volta para Ele. O Pai espera por nós com um banquete e, por nossa causa, Ele permitiu o sacrifício, não de um bezerro gordo, mas de seu próprio Filho, a fim de que possamos retornar a Ele com confiança e descansar a cabeça fatigada em seu peito, como o pobre mendigo Lázaro repousando no seio de Abraão.

Neste mundo, só o que nos resta é procurar a estrela e segui-la: precisamos seguir qualquer que seja a luz visível para nós com a fé inabalável dos Magos. Thomas Valpy French, avô do monsenhor Ronald Knox, escreveu estas palavras sobre suas batalhas espirituais: “Confesso que tenho estado bastante perplexo... só posso concluir que, quando a luz total não é dada, é preciso aceitar a melhor luz que se tem, e seguir em frente lentamente, com alguma hesitação, mas com confiança ainda maior”. É também nisso que consiste a atitude de permanecer na esperança e ser fiel às promessas de alguém, exspectantes beatam spem et adventum Salvatoris nostri Iesu Christi, “esperando com alegria a vinda de Nosso Salvador Jesus Cristo”.

Notas

  1. Nota de tradução: o Book of Common Prayer é o livro de orações e celebrações utilizado pela Igreja Anglicana. Embora não seja um rito católico, o texto citado expressa de modo bem explícito a realidade da entrega mútua que se realiza no matrimônio.

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Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!
Padre Paulo Ricardo

Obrigado, padre, porque
o senhor escolheu morrer!

Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!

Neste dia em que nos alegramos pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade, o que nós queremos mesmo celebrar, Padre Paulo Ricardo, é a sua morte.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Novembro de 2019
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Reverendíssimo Padre Paulo Ricardo,

Às vésperas que estamos deste dia 7 de novembro de 2019, no qual teremos a alegria de celebrar o seu 52.º aniversário natalício, queremos mais uma vez agradecer a Deus pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade...

Mas, parando para pensar um pouco, o que nós queremos mesmo celebrar, padre, é a sua morte.

Obviamente, não estamos falando de sua morte física, tampouco sugerindo que sua vida não seja importante (o leitor entenda bem)... Acontece que, assim como uma vela não pode iluminar um cômodo sem se consumir, assim como uma árvore não pode crescer e dar fruto sem que antes a semente caia no chão e morra (cf. Jo 12, 24), a nossa alegria pelo dom da sua vida é ainda maior porque o senhor, um dia, escolheu morrer

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde muito cedo abandonou as próprias opiniões para crer “em tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica” e, assim, manter a fé que o senhor depois cuidaria de transmitir fielmente a nós, seus filhos. 

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde pequeno pensou no sacerdócio e quis fazer-se padre, renunciando a todos os projetos que o mundo tinha para si e preferindo a eles o altar do Sacrifício.

O senhor escolheu morrer, padre, quando se prostrou diante do altar do Senhor, no dia da sua ordenação e abraçou o santo celibato como caminho de santificação.

O senhor escolheu morrer, padre, quando tomou a decisão de usar sempre sua batina preta, como mortalha e sinal do “sacrifício de um homem” que deve ser todo sacerdote.

O senhor escolheu morrer, padre, quando, ao invés de se obstinar em seus erros passados, sempre fez questão de reconhecer as próprias culpas e fraquezas, preferindo voltar atrás a trair o “mistério da fé” que lhe foi confiado. 

O senhor escolheu morrer, padre, sempre que preferiu a palavra da Igreja à sua, a sabedoria dos santos à sua, cumprindo com isso o lema de nosso site: Christo nihil praeponere, “nada antepor a Cristo”.

O senhor escolheu morrer, padre, quando trocou uma “carreira” pela árdua missão de anunciar a verdade aos bárbaros da sombria era digital, que somos nós.

E por que o senhor escolheu isso?

O senhor escolheu morrer, padre, para que tantos de nós pudéssemos viver, tornando-se com isso imagem do próprio Cristo, que veio non ministrari, sed ministrare, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em favor de muitos. 

Por tudo isso, muito obrigado, padre! Obrigado pelo dom da sua vida e por gastá-la conosco! Obrigado por ter escolhido morrer e por continuar a fazê-lo, dia após dia, no seu ministério! 

E obrigado por nos ensinar que é assim, morrendo, que a nossa vida ganha verdadeiro sentido… Graças a esse ensinamento, também nós, seus filhos, queremos morrer.

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