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Anticristianismo: por trás dos ataques, uma ditadura
Sociedade

Anticristianismo:
por trás dos ataques, uma ditadura

Anticristianismo: por trás dos ataques, uma ditadura

As recentes polêmicas envolvendo exposições artísticas e campanhas publicitárias não pedem apenas protestos. A raiz de todo esse “bombardeio” ideológico é intelectual. Seu nome é “ditadura do relativismo”.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Novembro de 2017
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Tudo começou com um vídeo que não deu certo. Protagonizada por atores da Rede Globo para defender a legalização do aborto, a campanha “Meu corpo, minhas regras” foi tão escrachada pela opinião pública que acabou expondo não apenas a firme posição pró-vida do povo brasileiro, mas também a completa falta de sintonia entre o que pensam os artistas de elite — cada vez mais apegados a ideologias anticristãs — e as pessoas comuns — que, graças ao fenômeno da internet, não têm mais de aceitar passivamente o que a grande mídia impõe como valor.

As polêmicas recentes envolvendo exposições artísticas e campanhas publicitárias só reforçaram essa ojeriza à imposição da mídia, que parece quase desesperada, porque não consegue mais ludibriar o povo tão facilmente como antes.

O que os cristãos precisam entender, no entanto, é que essa onda de ataques aos valores ocidentais não é ocasional. Trata-se, antes, de manobras premeditadas para chocar e dessensibilizar as pessoas sobre assuntos importantes como pedofilia, gênero e aborto.

Exemplo de anticristianismo na recente exposição Queermuseu, promovida pelo Santander Cultural, em Porto Alegre.

De fato, nas palavras do historiador Roberto de Mattei, “o grande debate de nosso tempo não é de natureza política nem econômica, mas de caráter cultural, moral e, em última análise, religioso” [1]. A reação a esses ataques, portanto, precisa ser sábia e ir à causa primeira do problema, àquilo que está na base de todo projeto revolucionário e sustenta o seu discurso, uma vez que o “protesto de internet” acaba resumindo a questão a causas secundárias. Do contrário, acabamos caindo na armadilha de apagar pequenos focos de incêndio, enquanto a chama principal continua a arder. E é justamente isso o que os revolucionários desejam.

O Cardeal Joseph Ratzinger acertou o alvo em abril de 2005 quando, no meio de sua homilia da Missa “pro eligendo pontifice romano”, desferiu críticas severas contra essa cultura do mundo moderno. O então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé expôs com clareza a “ditadura do relativismo” e a pretensão de obrigar as consciências a nada reconhecer como definitivo para deixar “como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades” [2].

A “ditadura do relativismo” é, na verdade, uma vigarice intelectual para converter em direito qualquer atitude subversiva e instaurar no governo um bando de tiranos, porque, sem normas comuns e naturais, “o único critério que permanece para determinar o que é bom ou mau é o uso da força, quer a dos votos, quer a da propaganda ou das armas e da coerção” [3].

Incapaz de entender o óbvio, mesmo quando dito por uma simples senhorinha de 70 anos, a geração atual se agarra desesperadamente aos chavões ideológicos, às propagandas midiáticas, à opinião mais agradável e aparentemente “científica”, para esconder sua insegurança e falta de referência. A sociedade termina se convertendo, assim, em um campo de guerra, todos lutando contra moinhos de vento, sem se darem conta da manipulação que sofrem em mãos de burocratas diplomados de terno e gravata.

O relativismo consiste justamente em uma anestesia da razão, em um reducionismo da inteligência, “porque, de fato, chega a afirmar que o ser humano nada pode conhecer com certeza, para além do campo científico positivo” [4]. Esse reducionismo teve origem no século XIV, com a propagação do pensamento nominalista, que, entre outros absurdos, nega a capacidade da razão humana de conhecer verdadeiramente as coisas. Antes dessa onda de ceticismo que tomou conta da cultura ocidental, os homens sempre confiaram na razão e no seu poder, embora limitado, de abstrair a essência do ser e, a partir dela, formar conceitos universalmente válidos. Havia, sobretudo, uma confiança no senso comum, “um acervo das primeiras elaborações dos primeiros princípios” que, como explica Gustavo Corção, “poderá ser enriquecido ou deformado pelo envoltório cultural” [5].

Acontece que o nominalismo, pondo abaixo a epistemologia tomista, acabou por instaurar um clima de perturbação e ceticismo, tendo como primeiro efeito imediato a desmoralização do senso comum e, por conseguinte, a abolição da metafísica. Como observou G. K. Chesterton, “o homem foi concebido para duvidar de si mesmo, mas não da verdade, e isso foi exatamente invertido” [8].

O senso comum, considerado como um conhecimento vulgar, foi substituído pelo cientificismo e pela opinião dos especialistas. Os homens abandonaram a própria vida intelectual para servir à opinião das enciclopédias. Ou pior: à dos youtubers. E “onde houver descrédito da inteligência, crise cultural, difusão de má doutrina, desprezo da boa”, conclui Gustavo Corção, “processar-se-á quase infalivelmente uma onda de mimetismo e de desumanismo coletivista” [9]. Ou seja, as pessoas deixam de acreditar na verdade para imitar a moda e se comportar sem o mínimo de humanidade.

Notem, por exemplo, o prazer quase obsessivo com que as pessoas se rendem à conversa de qualquer um, apenas porque tem um diploma sabe-se lá onde ou porque tem um canal divertido no YouTube. O homem moderno, perturbado pela “diversidade relativista”, não consegue mais perceber a realidade, não quer estudar, e para tudo agora precisa da opinião desses indivíduos, até para entender que “comer carne estragada pode fazer mal”. E assim, contrariando toda e qualquer evidência, os “formadores de opinião” dizem que “vaso sanitário é obra de arte”, que “carros sobem calçadas e atropelam pedestres” e até mesmo que “homem engravida”. E aquele que ousar discordar disso é intolerante, misógino e homofóbico.

As grandes fundações internacionais têm se aproveitado desse clima de indigência intelectual gerado pelo relativismo para fazer prevalecer a sua agenda e minar os valores do Ocidente. Com seus “especialistas” — antropólogos, sociólogos, filósofos, jornalistas, artistas e, agora, youtubers —, pervertem a cultura e o senso comum para dessensibilizar as sociedades e assumir o controle dos governos e de outras instituições influentes.

Em resposta a essa “ditadura do relativismo”, o Cardeal Ratzinger conclamou os cristãos a uma nova cruzada pela verdade, à busca de uma fé adulta, que não “segue as ondas da moda e a última novidade”, mas que está “profundamente radicada na amizade com Cristo”, uma “amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade” [10]. Mas isso só será possível se os cristãos, imitando as pegadas dos grandes doutores da Igreja, se debruçarem sobre os livros e estudarem de verdade. Recuperar a cultura e a saúde espiritual do homem não é somente uma questão intelectual, mas um preceito evangélico ao qual todos os cristãos estamos obrigados.

Referências

  1. Roberto de Mattei, A Ditadura do Relativismo (trad. de Maria José Figueiredo). Porto: Civilização, 2008, p. 12.
  2. Cardeal Joseph Ratzinger, Homilia “pro eligendo romano pontifice”, 18 de abril de 2005.
  3. Cardeal Tarcísio Bertone, Conferência à Universidade de Havana, 25 de fevereiro de 2008.
  4. Bento XVI, Audiência Geral, 5 de agosto de 2009.
  5. Gustavo Corção, O século do nada. Rio de Janeiro: Record, 1973, p. 119.
  6. Gustavo Corção, op. cit., p. 119.
  7. Gilbert Keith Chesterton, Ortodoxia, (Trad. de Almiro Pisetta). São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 54.
  8. Gustavo Corção, Dois amores e Duas cidades. Rio de Janeiro: Agir, 1967, pp. 169-170.
  9. Cardeal Joseph Ratzinger, op. cit.

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Você é torre forte ou cata-vento?
Espiritualidade

Você é torre forte ou cata-vento?

Você é torre forte ou cata-vento?

O que você prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Dom Tihamer Toth12 de Julho de 2018
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Nas pequenas cidades da Idade Média, encontram-se, não raro, vestígios de fortalezas e castelos; e, mesmo onde as construções estão reduzidas a algumas pedras, não é difícil achar quase intacta a alta torre do velho castelo.

Ora, essas torres que viram desaparecer tantos séculos e que a seus pés contemplam, com olhar impassível, o turbilhão da vida moderna, como dão bem uma ideia do caráter firme! Ao lado delas, tudo muda, tudo se transforma, tudo evolui: vende-se e compra-se; delas, porém, nada nem ninguém pode alterar o granito.

Antigas torres são o símbolo do caráter inabalável do homem que cumpre o seu dever virilmente. Outrora, a torre era o melhor refúgio dos habitantes do castelo; hoje, o homem de caráter firme é o melhor sustentáculo da sociedade. “Nunca abandone o lugar em que a vocação o colocou, e cumpra-lhe todos os deveres”, parecem nos dizer aquelas pedras mudas. “Considere o número de anos exigidos para a minha construção, quantas pedras foram necessárias, quanto trabalho, quanta boa vontade e quanto suor! Mas tudo isso não foi em vão. Sobrevivo a centenas e centenas de anos!”.

Por acaso, meu jovem, não se deixa desalentar facilmente na sua boa vontade? Quantas vezes não se arrojou pelo bom caminho, cheio de ardor juvenil? Quantas vezes não prometeu trabalhar seriamente no desenvolvimento do seu caráter? Mas, depois de algumas horas, de alguns dias, quando muito, a chama do entusiasmo apagava, o ardor desaparecia, e você tornava a ser o mesmo, não é verdade? Foram precisos anos, dezenas de anos talvez, para levantar a torre; e você, quereria se tornar homem de caráter num só dia!

Bem sabe, todavia, que se o caminho do pecado é agradável e semeado de flores deliciosas no começo, logo desilusão terrível nele aguarda o pecador; e que, se é difícil ser virtuoso no início, esse caminho em breve se torna cada vez menos duro, e sempre, no seu final, se acha a paz de uma consciência tranquila.

Mas, que é que eu vejo lá, no cume daquela velha torre? Aquela coisa que nunca fica no lugar, que vira para a direita e para a esquerda? Um cata-vento! Não tem direção fixa nem base estável. Vejo-me quase tentado a dizer que ela não tem princípios nem caráter, porque, se os tivesse, por mais que o vento soprasse, ela não lhe obedeceria.

Abandonar seus princípios, agir contra as próprias convicções, por ser mais cômodo, porque isso assegura uma carreira melhor, porque, em volta de si, o vento sopra de outro lado, é próprio de cata-vento. Mas me diga, amigo, merece o nome de homem aquele que nas suas ações, princípios e convicções se deixa guiar pelas circunstâncias exteriores e pelos conselhos de “companheiros”?

E, no entanto, quantos desses jovens não há! Você conhece dúzias deles, e eu também. São todos os que não sabem andar com os próprios pés, que espiritualmente são menores ainda, que olham sempre à direita e à esquerda para ver o que o vizinho faz.

Eis aqui um a quem a consciência avisa: “Não leia esse livro, ouvi dizer que ele é cheio de imundície moral. Por que deixaria a veste branca da sua alma se arrastar na água podre desse pantanal infecto?”. “Está bem, não o lerei”. Chega, porém, um colega: “Oh! Santinho do pau oco, criança!”, escarnece. “Eu, criança?”, e pega o livro, e o lê até a última linha e emporcalha a alma na lama que ele traz.

Agora outro, a quem a consciência diz ainda: “Não vá à exibição de tal peça, de tal filme! Deixe tal companhia perigosa!”. “Como fazer? Os outros vão lá; eles assim se divertem bastante. Serei o único contrário?”.

Ora, meu filho, é exatamente esse o modo de pensar e de agir dos cata-ventos.

Pois bem, escolha. O que prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Escravo da própria consciência! Este título se lê como se fosse um romance de detetives”, você pensa. Mas se engana. Quando se pode dizer de um jovem que ele é senhor da sua vontade e escravo da própria consciência é a maior honra que se lhe pode fazer. Se é capaz de ser contínua e invencivelmente fiel a tudo o que a consciência manda, você é um jovem de nobre caráter.

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Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?
Educação

Os pais são culpados
dos pecados de seus filhos?

Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?

Os maus pais, diz São João Crisóstomo, são “piores que os assassinos de seus próprios filhos”, pois, enquanto estes “separam a alma do corpo, aqueles lançam-lhes corpo e alma no fogo do Inferno”.

São João Crisóstomo12 de Julho de 2018
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Saibamos que Deus não suportará de boa mente a negligência com que são tratados aqueles por quem tanto se preocupa. Pois Ele mesmo não pode ter feito tanto para salvá-los e, ao mesmo tempo, pouco se importar que os negligenciem. Não, Deus não dará de ombros, mas se ofenderá e irritará veementemente.

Por isso, o bem-aventurado Paulo continuamente nos exorta, dizendo: “Pais, criai vossos filhos na disciplina e correção do Senhor” (Ef 6, 4). Porque, se estamos obrigados a zelar pelas almas deles como quem há de prestar contas por elas (cf. Hb 13, 17), com maior razão o está o pai que os gerou, que os criou, que convive com eles sob o mesmo teto.

Ora, assim como o pai não tem escapatória nem desculpa dos próprios delitos, tampouco o tem em relação aos dos filhos. E isto, é mais uma vez o bem-aventurado Paulo quem no-lo esclarece. Com efeito, ao determinar como devem ser os que hão de mandar nos outros, entre todas as qualidades que diz lhes serem necessárias, exige também o do cuidado dos filhos (cf. 1Tm 3, 4), insinuando que um pai já não pode ter esperança alguma de perdão se seus filhos se perderem.

E justamente. De fato, se os homens fossem viciosos por natureza, poderiam com razão desculpar-se de seus atos; mas como nos tornamos bons ou maus por livre escolha, que justificativa, afinal, poderá alegar o pai que permite que se extravie e corrompa aquele a quem ama mais do que tudo?

Dirá acaso que não quis fazê-lo bom? Mas quem, sendo pai, diria semelhante coisa, já que a própria natureza o desperta e move para cumprir esse dever?

Dirá talvez que não o pôde? Tampouco, porque, tendo-o no colo desde pequeno, posto sob seus cuidados e sua primeira e única autoridade, vivendo ainda na mesma casa, poderia facilmente e sem dificuldade tê-lo educado.

De sorte que não se pode achar outra origem para o extravio dos filhos que o louco afã dos pais pelos bens mundanos. O não olhar senão para eles, o não julgar nada preferível a eles, obriga-os a descuidarem tanto da própria alma como da dos filhos.

A estes pais — e ninguém pense que é a ira que me leva a dizê-lo —, eu não recearia qualificá-los como piores que os assassinos de seus próprios filhos. Estes, com efeito, separam a alma do corpo; aqueles, porém, lançam-lhes corpo e alma no fogo da Geena. Àquela morte todos, por lei natural, se devem submeter; mas esta última seria possível evitar, se não a acarretasse a negligência dos pais.

Acrescente-se a isso que a morte do corpo será rapidamente destruída com a chegada da ressurreição; mas a morte da alma, ao contrário, não terá consolo, porque não só não a espera mais salvação alguma, senão que terá ainda de sofrer forçosamente tormentos eternos. Daí que tenhamos dito, não sem razão, que tais pais são piores que os assassinos de seus filhos.

Não, não é crime tão horrível amolar a espada, pô-la em riste e umedecê-la na garganta do próprio filho quanto perder e corromper uma alma, pois nada, de fato, se compara a tamanho atentado.

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Para que serve a infalibilidade da Igreja?
Doutrina

Para que serve
a infalibilidade da Igreja?

Para que serve a infalibilidade da Igreja?

O bem-aventurado Cardeal Newman explica em que consiste a infalibilidade da Igreja e faz uma profissão de fé por todos os católicos do mundo.

Beato John Henry Newman12 de Julho de 2018
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Na sua plenitude, o poder da infalibilidade da Igreja é tão formidável quanto o mal gigantesco que o fez nascer. Pretende, quando exercido de modo legítimo (porque de outro modo deveria, naturalmente, ficar inerte) conhecer com certeza e nos menores detalhes o sentido exato de todas as partes da mensagem divina que Nosso Senhor confiou aos Apóstolos.

Pretende conhecer seus próprios limites e decidir o que pode ou não pode decidir, de modo absoluto. Pretende, além disso, defender questões que não são diretamente religiosas, pelo menos para determinar se elas implicam alguma relação indireta com a religião e, em certos casos particulares, para julgar de modo absoluto se vão de acordo com a verdade revelada.

Reivindica a autoridade de decidir como mestre, de modo infalível ou não, se tais ou quais afirmações, no seu espírito ou nas suas consequências, são de natureza a prejudicar o depósito da fé e, segundo o caso, de as autorizar, interdizer ou condenar.

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

Defende para si o direito de impor silêncio em todas as matérias e controvérsias doutrinais, que, em virtude do seu próprio ipse dixit, declara perigosas, inúteis ou inoportunas. Qualquer que seja o modo de ver dos católicos sobre tais atos, proclama que eles os devem aceitar com os sinais de respeito, de submissão e fidelidade que os ingleses, por exemplo, tributam ao rei; sem os criticar, sob pretexto de serem inoportunos no fundo, violentos ou severos na forma.

Reclama, por fim, o direito de infligir castigos espirituais, de cortar os habituais socorros de vida divina e, simplesmente, de excomungar os que recusam submeter-se às suas declarações formais.

Tal é, vista no seu aspecto exterior, revestida e cercada pelos atributos da alta soberania, a infalibilidade que reside na Igreja Católica. Repetindo o que acima afirmei, trata-se de um poder supereminente e prodigioso, enviado à terra para combater e dominar um mal gigantesco.

Agora, após descrevê-lo, professo minha absoluta submissão às suas exigências. Creio no conjunto do dogma revelado como foi ensinado pelos Apóstolos, confiado por eles à Igreja e por ela imposto à minha inteligência. Aceito-o baseado na interpretação infalível da autoridade a quem foi confiado por Deus e (implicitamente) tal qual for interpretado pela mesma autoridade até o fim dos tempos. Submeto-me também às tradições da Igreja universalmente aceitas, que contêm a matéria das novas definições dogmáticas feitas no decurso dos séculos e que em todas as épocas constituem, por assim dizer, o revestimento e a ilustração do dogma católico já definido.

Submeto-me, igualmente, às outras decisões da Santa Sé, quer teológicas, quer não, transmitidas pelos órgãos competentes que, mesmo sem levar em conta a questão da infalibilidade, por títulos mais modestos, exigem o meu assentimento.

Considero ainda que, pouco a pouco, no curso do tempo, as investigações da verdade católica tomaram verdadeira ciência com método e vocabulário próprios, sob a direção intelectual dos grandes espíritos de Santo Atanásio, Santo Agostinho e Santo Tomás. De nenhum modo sinto a tentação de reduzir a frangalhos esta grande herança de pensamento, que nos foi assim transmitida para os dias atuais.

Tal é a profissão de fé que faço ex animo por mim e por todos os católicos do mundo.

A primeira reflexão que virá ao espírito é que a inteligência irriquieta da humanidade comum, todo esforço pessoal e toda ação independente serão reprimidos; se for este o meio de pô-la em ordem, não se manterá na ordem senão para ser destruída. Mas este está longe de ser o resultado real, longe do que é, a meu ver, a intenção da sublime providência que nada mais pretendia do que um grande remédio para um grande mal.

Não é isto, com efeito, o que ressalta historicamente do conflito, no passado, entre a infalibilidade e a razão, nem a perspectiva do que será no futuro. A energia da inteligência humana “cresce na razão direta da oposição”; desenvolve-se com alegria, com um vigor rude e flexível sob os terríveis golpes da arma forjada pela mão divina e nunca se acha tanto na posse de si mesma como quando acaba de ser derrotada.

Costumam pensar os escritores protestantes que há dois grandes princípios que exercem influência na história da religião, a autoridade e o livre exame, sendo-lhes atribuído este último enquanto nós herdamos o primeiro para sermos por ele esmagados. Não é assim; é o mesmo grande corpo católico, somente ele, que pode fornecer o campo aos dois combatentes para esse duelo terrível e sem fim.

Monumento retratando o Papa Pio VII, na Basílica de S. Pedro.

Para a vida mesma da religião, encarnada nas suas grandes obras e na sua história, é necessário que esta guerra continue sem interrupção. Todo exercício da infalibilidade é provocado por uma atividade intensa e multiforme da razão, ora sua aliada, ora sua irredutível adversária. Mesmo terminada a sua tarefa, provoca reações da razão. Como no governo civil o Estado vive e sustenta-se pelo entrechoque dos partidos e das rivalidades, pela alternativa de triunfos e de derrotas, a cristandade oferece-nos aos olhos, não um simples quadro de absolutismo religioso, mas, à semelhança da maré, o espetáculo do fluxo e refluxo da autoridade e do livre exame.

É uma vasta reunião de seres humanos dotados de inteligência rebelde e movidos por paixões selvagens que se fundem em um todo, graças à beleza e a majestade de um poder sobre-humano; reunidos no que se poderia chamar uma grande escola de correção e de aperfeiçoamento; não como em algum hospital revolvendo-se no leito de enfermo, ou sepultados vivos em alguma prisão mas, se me é permitido mudar de metáfora, como em uma oficina moral destinada a fundir, a purificar e a moldar, por um processo contínuo e ruidoso, a matéria bruta da natureza humana, perigosa mas excelente e capaz de realizar os desígnios de Deus.

Diz São Paulo que o poder apostólico não lhe foi dado para a destruição, mas para edificação. É o que melhor define o papel da infalibilidade da Igreja. É um suplemento às necessidades e não vai além. Seu objetivo e sua eficácia não são de enfraquecer a liberdade ou o vigor do pensamento humano nas especulações religiosas, mas de conter e controlar as extravagâncias. Quais as suas grandes realizações no domínio da teologia? Jazem aniquilados o arianismo, o eutiquianismo, o pelagianismo e o maniqueísmo, o luteranismo e o jansenismo. Tal a amplidão do resultado conseguido no passado.

Venhamos agora às garantias que nos oferece para o futuro.

Em primeiro lugar, a infalibilidade não pode sair de um domínio de ideias bem determinado, e, em todas as decisões ou definições (como são chamadas), deve deixar bem claro que não foge a estes limites. As grandes verdades da lei moral, da religião natural e da fé apostólica são ao mesmo tempo seus limites e seus fundamentos. Não os pode ultrapassar e a eles deve sempre referir-se.

Seu objeto e os artigos deste objeto lhe são fixados. Deve declarar-se sempre guiada pela Escritura e pela Tradição. Deve submeter-se às verdades que põe em relevo ou, segundo o termo mais corrente, que ela define. No futuro nada me pode ser proposto como fazendo parte da fé senão o que eu já admito; se o não admitia antes, é porque ainda não fizera meu esse aspecto da fé. Nada de natureza diversa e muito menos contrária me pode ser imposto.

A nova verdade promulgada, se é que se pode chamar nova, deve ser, pelo menos, homogênea, análoga e estar de modo implícito na antiga verdade. Deve ser tal, que eu mesmo a possa supor ou desejá-la compreendida na revelação apostólica; enfim, deve ser tal que meus pensamentos concordem com ela ou a ela se incorporem, apenas acabe de ouvi-la.

É possível que, como eu, outros tenham sempre admitido esta verdade novamente promulgada e a única coisa que se decidiu a meu favor foi que, daqui por diante, posso ter a satisfação de saber que sempre considerei verdadeiro somente o que os Apóstolos creram antes de mim.

Referências

  • John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, pp. 323-327.

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Maria Goretti, “um anjo em carne humana”
Santos & Mártires

Maria Goretti, “um
anjo em carne humana”

Maria Goretti, “um anjo em carne humana”

“Sustentada pela graça celeste, à qual correspondeu com vontade forte e generosa, Santa Maria Goretti entregou a vida sem perder a glória da virgindade.”

Papa Pio XIITradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2018
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Deus sapientíssimo, querendo remediar a inconstância de muitos jovens dos nossos tempos, dignou-se enviar à Igreja logo no início do século passado um exemplo preclaro de amor à pureza e fortaleza constante na fidelidade a Cristo.

Trata-se de Santa Maria Goretti, cuja memória litúrgica celebramos amanhã, dia 6 de julho, e que, apesar de sua origem humilde e desconhecida, mereceu ser chamada durante seu processo de canonização um “grande e estupendo milagre” e “espetáculo digno do céu”.

A fim de render as homenagens que merece esta santa menina, cujo corpo frágil, resistindo até a morte, pôde manter com heróica fortaleza a integridade da alma, transcrevemos abaixo a homilia pronunciada em 1950 pelo Venerável Papa Pio XII [1] um dia após declará-la solenemente santa.


Veneráveis irmãos e filhos diletos:

A virgindade é um gênero de vida angélico” [2], que a religião cristã elevou a tão excelso grau de beleza que se nos afigura algo maior do que a terra e digno do céu; e se lhe acrescentamos a palma do martírio, torna-se algo que à suavidade e pureza da graça vem juntar uma inabalável fortaleza; e, contemplando-a, somos levados à prática daquelas virtudes, daqueles atos heróicos a que nos obrigam os mandamentos cristãos. Tudo isso, pois, vemo-lo na virginal menina Maria Goretti, a quem Nos foi dado coroar ontem com a glória dos santos do céu.

Maria Goretti nasceu em uma família pobre, que, para alimentar com trabalho honesto a crescente prole, teve de abandonar a pequena cidade natal e migrar para a região do Lácio, onde, pelo cultivo do campo, proveria aos filhos um pouco de sustento.

Criança reza em frente às relíquias de Santa Maria Goretti.

Como fosse dotada de pureza de alma, unida a certa prontidão para o trabalho, desde pequena Maria Goretti se portou de tal modo que não só se distinguia pelos bons costumes, mas também se destacava pela diligente e incansável dedicação com que, solícita e serena, assistia a mãe nos cuidados domésticos.

Analfabeta, foi dela que Maria Goretti aprendeu os rudimentos da doutrina cristã, que ela cuidadosamente buscava gravar no coração; e nada lhe era mais grato, nada mais doce do que ir sempre que possível à igreja, longe de casa, para ali ser instruída na religião católica e, aos pés do do altar de Deus e da bem-aventurada Virgem Maria, fazer suas abrasadíssimas orações.

Quando enfim se lhe permitiu aproximar-se da mesa eucarística e nutrir-se com a pastagem celeste, ela o fez com tão zelosa piedade, com tão flagrante caridade, que, mais do que uma menina, parecia um anjo em carne humana. Dali mesmo hauriu a força divina pela qual, poucos meses mais tarde, antes de completar doze anos, pôde lutar vitoriosamente até a morte, a fim de preservar intacto e incontaminado o alvo lírio de sua inocência e apresentá-lo, purpurado com o sangue do martírio, ao divino Autor de sua vida virginal.

Foi acérrima a batalha, como todos sabem, que esta inofensiva virgem teve de enfrentar; uma agitada e cega procela despenhou-se repentinamente sobre ela, procurando-lhe manchar e violar a angélica pureza. Mas, apesar do gravíssimo perigo em que se encontrava, ela pôde repetir ao Redentor essas palavras do célebre livro A imitação de Cristo: “Ainda que eu seja tentado e vexado com muitas tribulações, nada temerei, enquanto estiver comigo a vossa graça. Ela é a minha fortaleza; ela me dá conselho e amparo. Ela é mais poderosa do que todos os inimigos” (l. III, c. 55). Assim, sustentada pela graça celeste, à qual correspondeu com generosa e forte vontade, Maria Goretti entregou a vida sem perder a glória da virgindade.

Na vida desta humilde menina, que esboçamos em linhas gerais, é-nos permitido entrever um espetáculo, veneráveis irmãos e filhos queridos, não só — como dissemos — digno do céu, mas digno ainda de ser contemplado com admiração e veneração por este nosso século. Aprendam os pais e mães de família o quanto é importante educar reta, santa e corajosamente os filhos que Deus lhes confiou e conformá-los às leis da religião católica, de tal maneira que, quando lhes for provada a virtude, eles possam, com o auxílio da graça divina, sair ilesos, íntegros e imaculados.

Aprenda a jovial infância, aprenda a animada juventude, não a precipitar-se em alegrias vãs e passageiras, nos prazeres enganadores do vício — que destroem a pura inocência, que geram uma terrível tristeza, que debilitam antes do tempo as forças da alma e do corpo —, mas antes a lutar vivamente, enfrentando embora desafios árduos e difíceis, por aquela perfeição moral cristã que todos nós, com vontade firme, ajudada com os dons celestes, esforço, trabalho e oração, podemos alcançar um dia.

Aprenda enfim este débil mundo, excessivamente propenso às coisas mais baixas, a venerar e imitar a invencível fortaleza desta virginal menina. Olhai todos para este lírio do campo, rescendendo suavíssimo odor, para estas fulgentes palmas do martírio, e compreendei o quanto os valores cristãos são capazes de moderar e educar devidamente os homens e o quanto as alegrias celestes — conquistadas ao preço da inocência de vida, preservada incólume, e da virtude laboriosamente adquirida — superam e excedem as vãs concupiscências, visto que apenas Deus pode domar e tranquilizar a alma humana e satisfazer suas infinitas aspirações.

Nem todos, é verdade, estão chamados a encarar o martírio; todos, porém, somos chamados a adquirir a virtude cristã. A virtude, no entanto, requer força, a qual, se bem não atinja o cume da fortaleza desta angélica menina, nos exige contudo esforço diuturno, diligentíssimo e incessante até o fim da vida. Esforço que, por isso mesmo, pode chamar-se um lento e contínuo martírio, para cuja realização nos adverte essa divina sentença de Jesus Cristo: “O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam” (Mt 11, 12).

A este fim, pois, dirijamos os nossos esforços, apoiando-nos na graça divina; a isto nos excite o exemplo da santa virgem e mártir Maria Goretti; e que ela, do trono celeste donde goza a eterna bem-aventurança, por suas preces nos alcance do divino Redentor que todos nós, cada um em sua própria e peculiar condição de vida, sigamos alegres, prontos e operantes os seus memoráveis passos.

Referências

  1. Cf. Pio XII, Homilia de 24 jun. 1950, por ocasião da solene canonização de S. Maria Goretti (AAS 42 [1950] 580-582).
  2. S. João Damasceno, De fide orthod., 1.4.24 (PL 94, 1210).

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