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As pessoas continuarão casadas no céu?
Doutrina

As pessoas continuarão casadas no céu?

As pessoas continuarão casadas no céu?

No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2019
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É comum, depois da morte do marido ou da mulher, que os viúvos me façam perguntas parecidas com esta:

Eu perdi recentemente o meu marido, de 46 anos, e desejo muito reencontrá-lo um dia. Mas algumas pessoas têm-me dito que, com a morte dele, o nosso casamento acabou e que Jesus disse que não seremos mais esposos nem considerados marido e mulher no céu. Para mim, isso é muito difícil de entender. No céu, nós iremos nos conhecer? Haverá entre nós alguma relação especial?

É fácil sentir a dor com que a pergunta é formulada. Trata-se, talvez, de uma dor desnecessária, nascida de uma leitura excessivamente estrita das palavras de Jesus no Evangelho segundo São Marcos. Ali, Jesus está respondendo a uma questão hipotética levantada pelos saduceus sobre uma mulher que fora casada sucessivamente com sete irmãos, nenhum dos quais lhe deu filhos. Os saduceus formulam o problema não tanto para atacar o matrimônio como para mostrar o aparente “absurdo” da ressurreição dos mortos. Jesus contesta da seguinte maneira: 

Vieram ter com ele os saduceus, que afirmam não haver ressurreição, e perguntaram-lhe: “Mestre, Moisés prescreveu-nos: Se morrer o irmão de alguém, e deixar mulher sem filhos, seu irmão despose a viúva e suscite posteridade a seu irmão. Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência. Então, o segundo desposou a viúva, e morreu sem deixar posteridade. Do mesmo modo o terceiro. E assim tomaram-na os sete, e não deixaram filhos. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, a quem desses pertencerá a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher”.

Jesus respondeu-lhes: “Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos nos céus. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’ (Ex 3, 6)? Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados” (Mc 12, 18-27).

A primeira coisa que devemos notar é que Jesus se refere ao matrimônio apenas de passagem. Sua resposta à estranha pergunta dos saduceus pretende ser um solene ensinamento sobre a realidade da ressurreição dos mortos. Nela, portanto, Jesus não desenvolve com profundidade uma doutrina sobre a experiência que terão os esposos no céu.

Por isso, não devemos ser apressados e afirmar que um casamento duradouro nesta vida não terá valor algum na futura. No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos. Decerto, os que foram casados neste mundo terão no céu uma união muito mais perfeita: eles se entenderão e amarão plenamente e terão uma intimidade espiritual muito maior do que poderiam ter um dia sequer imaginado. E eles estarão assim tão unidos porque, antes de tudo, estiveram unidos a Deus: com, em e por meio de Deus, eles estarão unidos numa união perfeitíssima. Isso também se aplica aos nossos outros relacionamentos familiares e de amizade, cada um segundo o que lhe é próprio e perfeito. Os casados, é claro, o terão em grau supremo, já que os vínculos matrimoniais são abençoados na terra com graças especiais.

Eis o que diz Tertuliano, escritor dos primeiros séculos da Igreja:

Além do que, havemos de estar unidos às nossas falecidas esposas, porque estamos destinados a um melhor estado […], a uma união espiritual […]. Por conseguinte, os que estamos unidos a Deus hemos de permanecer juntos […]. Na vida eterna, portanto, Deus não irá separar os que Ele uniu nesta vida, na qual Ele mesmo proíbe que se separem” (Sobre a monogamia, 10). 

Na verdade, alguns aspectos do matrimônio terminam mesmo com a morte de um dos esposos. Por exemplo, os votos matrimoniais que unem o casal em um relacionamento exclusivo só permanecem válidos até a morte de um deles. Logo, a morte do cônjuge permite, sim, ao esposo supérstite casar outra vez. Em alguns casos, aliás, sobretudo nos nossos tempos, as segundas núpcias podem até ser necessárias aos viúvos por motivos financeiros ou familiares. 

Ora, que o casamento termine quando um dos esposos morre é algo que diz respeito mais às realidades terrenas do que às celestes. Mas daí não se segue que um casamento contraído na terra não tenha mais valor no céu. Mesmo que uma pessoa se case novamente após a morte do primeiro esposo, não há dúvida de que ambos os relacionamentos se tornarão perfeitos no céu, sem exceção. Como a união espiritual entre eles será perfeita, não haverá ciúmes nem ressentimentos entre o primeiro e o segundo cônjuge.

No entanto, ao responder aos saduceus, Jesus afirma claramente que não haverá no céu novos matrimônios. Não haverá nem sinos nem cerimônias, porque o céu já é, por definição, a grande boda entre Cristo e sua Esposa, a Igreja.

Além disso, nesta vida, os homens e as mulheres se dão em casamento, fundamentalmente, para a propagação da espécie humana mediante a geração de novas vidas. E esta necessidade não mais existirá no céu, onde a morte não tem lugar. Os Padres da Igreja enfatizam este ponto em seus escritos:

  • “Com efeito, quando ressuscitarem dentre os mortos, eles já não se casarão nem se darão em casamento, mas serão como os anjos do céu, como disse o Senhor. Haverá certa restauração celeste e angelical à vida, de modo que não mais sofreremos nem mudaremos; e é por esta razão que irá cessar o matrimônio. De fato, este existe agora em função do nosso estado decaído e porque é necessário que as gerações se sucedam. Um dia, porém, seremos como os anjos do céu, nos quais não há sucessão de gerações e cuja raça dura para sempre” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Na ressurreição, os homens serão como os anjos de Deus, isto é, nenhum homem lá poderá morrer, nenhum irá nascer: não haverá crianças nem velhos” (Pseudo-Jerônimo, citado em Catena Aurea).
  • “Ora, o matrimônio existe para a geração de filhos, estes existem para a sucessão de gerações, e esta é necessária por causa da morte do indivíduo. Ora, onde não há morte, não há casamentos; e, por isso, os filhos da ressurreição serão como os anjos de Deus” (Agostinho, citado em Catena Aurea).

Quanto ao fato de que viveremos como anjos, o Senhor se refere à imortalidade, mas também a que não haverá mais necessidade de relações sexuais. Isso pode parecer frustrante para algumas pessoas, sobretudo nesta nossa época superssexualizada. No entanto, a intimidade entre os esposos no céu será muito maior do que qualquer união meramente física. Haverá entre eles uma alegria tão grande que tornará opacos os demais prazeres. Aqui também os Padres da Igreja são unânimes:

  • “Nosso Senhor nos indica que na ressurreição não haverá relações carnais” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Dado que será destruída toda luxúria carnal […], os homens se tornarão semelhantes aos santos anjos” (Cirilo de Alexandria, Hom. 136 super Luc.).

Os casais devem olhar com esperança para um relacionamento que será pleno e perfeito no céu, e não uma vaga lembrança. Embora, é verdade, os aspectos jurídicos do matrimônio cheguem ao fim com a morte, a união de vida e corações não passará. Em Cristo, permanece uma conexão espiritual, uma aliança de amor que se estende dos céus à terra, e no céu o Senhor irá com certeza levar à plenitude o que Ele uniu na terra, dando aos esposos uma alegria e união inimagináveis:

Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o Sheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina. As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios o poderiam submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo (Ct 6, 7-8).

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Por que um curso sobre “Os Quatro Temperamentos”?
Cursos

Por que um curso sobre
“Os Quatro Temperamentos”?

Por que um curso sobre “Os Quatro Temperamentos”?

Deus quer que a semente da sua graça germine no terreno do nosso coração. Mas e nós? Que pedras e espinhos precisamos arrancar para que a árvore da santidade crie raízes, cresça e dê os seus frutos?

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019
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Com tantas aulas, episódios e textos à disposição, e com temas os mais variados, poderia talvez ficar em alguns a interrogação sobre o quê, afinal, é o site do Padre Paulo Ricardo, e a que fim se presta esse apostolado.

Se ainda resta dúvida, tratemos de eliminá-la de uma vez por todas: nossa preocupação é eminentemente espiritual, é levar os que nos visitam a buscar o unum necessarium de suas vidas, que é Deus. Para isto nossos cursos exclusivos, para isto tantas transmissões ao vivo, para isto homilias todos os dias, para isto as matérias em nosso blog: fazer as pessoas se encontrarem com Nosso Senhor Jesus Cristo e crescerem na intimidade com Ele. Nada menos.

É exatamente nesse quadro que se insere, pois, o mais novo curso que Padre Paulo Ricardo está preparando para os nossos alunos, sobre “Os Quatro Temperamentos”. 

É possível que você já tenha recebido algo a esse respeito nas redes sociais, mas expliquemos melhor aqui, e com uma frase de Santo Tomás de Aquino, a razão de ser desse conteúdo inédito: “Gratia non tollit naturam, sed perficitA graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa”.

Ou seja, o padre não virou psicólogo, nem coach, nem nada do gênero… O que acontece é que o processo da nossa santificação, embora seja sobrenatural e de iniciativa realmente divina, não se dá contra ou apesar de nós. A obra que Deus realiza nas almas acontece justamente a partir do barro de que somos feitos! Nas palavras de Santo Agostinho, “o Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. 

Dizendo ainda de outro modo, a semente da graça divina precisa germinar no terreno do nosso coração, mas, quanto a nós, quais são as pedras e os espinhos que precisamos arrancar, a fim de que a árvore da santidade crie raízes, cresça e dê os seus frutos? 

É justamente a essa pergunta que o conhecimento do seu temperamento pode proporcionar uma resposta. Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Quer saber melhor, então, como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã? Inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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“Eu posso falar com papai?”
Sociedade

“Eu posso falar com papai?”

“Eu posso falar com papai?”

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”.

Doug MainwaringTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019
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Quando eu comecei a dar meus primeiros passos “fora do armário” [1] em meados dos anos 1990, um cara chamado Tex ofereceu-me um pequeno apanhado sobre sua vida entre um e outro drinque, num bar da cidade. A conversa teve um giro inesperado: ele explicou que o seu atual “parceiro” tinha-se mudado do outro lado do país, deixando para trás esposa e filhos. Tex atendia de vez em quando ao telefone de casa (isto foi antes dos celulares) e ouvia do outro lado uma pequenina voz a perguntar-lhe timidamente: “Eu posso falar com papai?” Era a filha de oito anos do seu “parceiro”, ligando de algum lugar do outro lado dos Estados Unidos. Tex disse ter ficado profundamente chocado ao se dar conta de que a filha de seu “parceiro” tinha de pedir permissão a um estranho para poder falar com o próprio pai.

Quando esta pequena menina me vem à cabeça, meus pensamentos acabam se dirigindo às várias pessoas nascidas de doadores de esperma, muitas das quais se fazem dia após dia a mesma pergunta em seus corações: “Eu posso falar com papai?”

Quando comecei a falar publicamente sobre os perigos do “casamento” homossexual para as crianças, achei difícil encontrar defensores do casamento “neutro” intelectualmente honestos o bastante para um debate ponderado. Foi então que me caiu a ficha: ao menos metade das pessoas que queriam rotular-me disto ou daquilo eram fruto de matrimônios fracassados.

Lá pelos idos de 2013, durante minha participação num painel de debates, um rapaz acusou-me de ser injusto com gays, lésbicas e seus filhos. Aproveitei a oportunidade e perguntei-lhe na lata:

— Os seus pais se divorciaram quando você ainda era criança?

Ele ficou um pouco surpreso com uma pergunta tão pessoal:

— Sim — respondeu, já sem ares de arrogante.

— E você vive com sua mãe? — perguntei.

— Sim — disse ele.

— Você vê o seu pai com frequência?

— Não — disse —, eu quase nunca o vejo.

— Você sente falta dele? Gostaria de estar mais vezes com ele? 

— Claro, com certeza — respondeu, um pouco melancólico.

— O divórcio dos seus pais aumentou a sua felicidade ou a sua infelicidade? — perguntei.

— Minha infelicidade.

— Então, os seus pais acabaram com o seu lar e criaram novas estruturas que punham em primeiro lugar as necessidades deles, não as suas. Além disso, eram estruturas que promoviam a sua contínua infelicidade. Você aprendeu a conviver com isto porque, como uma simples criança, não tinha controle algum sobre as ações de seus pais; no entanto, essas novas estruturas não foram construídas tendo em vista as suas necessidades.

— Não, na verdade. Eu não tinha direito de voto nem nada; eu era apenas uma criança.

— Justamente — concluí. — Logo, que diferença há para os filhos de “casais” homossexuais, aos quais se negam um pai ou uma mãe? Você pensa realmente que ter “duas mães” ou “dois pais” é o mesmo que ter por perto uma mãe e um pai que o amam e cuidam de você? Sério mesmo? Ter uma mãe a mais em casa o deixaria verdadeiramente satisfeito, ou você ainda teria, lá dentro do coração, aquela pergunta por seu pai à procura de resposta? 

— Entendo. 

Então, por que você quer condenar outras crianças a não terem pai? Ou a não terem mãe?

Ele entendeu o meu ponto: não gostou nada, é verdade; mas o entendeu — e voltou para o seu lugar. Não faço ideia se ele mudou opinião; mas ele ao menos teve a chance de ouvir um ponto de vista diferente, e um que fosse razoável. 

Enquanto ia embora, pensava comigo mesmo: “Para ser intelectualmente honesto, não posso falar em público contra os perigos do casamento ‘neutro’ sem falar, ao mesmo tempo, contra o mal objetivo para as crianças que é o divórcio”. O divórcio é um perigo muitíssimo maior e muito mais generalizado para as crianças do que a possibilidade de ser criado sem mãe ou sem pai por um “casal” de gays ou lésbicas. Eu então suspirei: havia ainda muito o que consertar e pôr em ordem.

O pai pródigo

Alguns anos após o nosso divórcio, tornou-se comum que a minha ex-mulher me chamasse à sua casa devido a alguma birra do nosso filho. Ao chegar lá, encontrava um verdadeiro tumulto. Geralmente, ele se irritava por alguma coisa, e aquilo despertava um acesso de raiva totalmente desproporcional ao problema. Ele gritava e chorava e esperneava, então se trancava no quarto, sem deixar ninguém mais entrar. Era horrível assistir à cena. Felizmente, ele acabava se acalmando depois de um tempo e voltava ao normal.

A raiva do meu filho, por sua vez, gerava novas discussões com a minha ex-mulher. O que devíamos fazer a respeito do comportamento dele? Seria preciso medicá-lo? Ou o melhor seria dar-lhe uma surra? Ou quem sabe procurar um psicólogo?

Depois de o episódio se repetir algumas vezes, pareceu-me claro como água de que o meu filho estava precisando. Ele não tinha apenas um problema comportamental; ele precisava, isso sim, de uma única coisa: de que os seus pais estivessem juntos de novo e se amassem um ao outro. O “fatiamento” da nossa família havia gerado uma carga insuportável de estresse para aquela frágil alma de apenas quatro anos. E os seus pais eram os grandes responsáveis por isso, ainda que, para nós, o problema parecesse ser todo dele.

O nosso menino não tinha culpa alguma; era eu, com certeza, que a tinha.

Foram precisos alguns anos mais para que a minha ex-mulher e eu tomássemos jeito. Nesse meio tempo, os nossos filhos vieram morar comigo. Não era bem uma solução; era somente um paliativo para resolver aos poucos uma situação desconfortável. Embora isso tenha resolvido alguns problemas, também é verdade que gerou outros e permaneceu, no fim das contas, uma resposta insatisfatória.

Para justificar o divórcio e a existência de “duas famílias”, os adultos estávamos impondo uma charada, exigindo que todos à nossa volta (sobretudo os nossos filhos) fingissem que os nossos objetivos egoístas e a nossa incapacidade de “ajeitar as coisas” não eram nada de mais. No fundo, não tínhamos feito senão descarregar nossos problemas e disfunções sobre os nossos filhos. Estávamos aliviando o nosso próprio estresse pondo-o sobre os ombros das nossas crianças.

Felizmente, uma dúzia de anos mais tarde, nós finalmente deixamos de pretextos e voltamos a ser marido e mulher, casados e pais de seus filhos. Muitas feridas se têm cicatrizado desde então, algumas das quais foram uma surpresa até mesmo para nós. E jamais saberemos de que outros problemas em potencial os nossos filhos foram preservados.

Uma lição de Hollywood

Nunca antes na história as crianças tinham sido geradas com a intenção explícita de serem privadas ou de uma mãe ou de um pai. E no entanto as crianças que vêm a este mundo para satisfazer os desejos de “casais” de gays ou lésbicas nascem exatamente com essa finalidade. Elas vivem conscientes de que um de seus pais biológicos será para sempre um enigma, um fantasma.

Até pouco tempo atrás, viam-se as crianças como um puro dom de Deus; agora, porém, as novas leis que “redefinem” o matrimônio estão produzindo o triste resultado de crianças igualmente “indefinidas”, reduzidas a objetos do capricho de adultos. Por outro lado, as famílias destas crianças consistem, não já em seus antepassados, mas em um pequeno grupo de barrigas de aluguel, doadores e advogados que fazem as vezes do sexo ausente em “casamentos sem gênero”.

Dennis Quaid e Linsay Lohan em “Operação Cupido”.

Talvez soe estranho, mas um filme da Disney de 1998, Operação Cupido (refilmagem do clássico de 1961 estrelado por Hayley Mills), pode nos ensinar muito sobre o que acontece com crianças criadas por “dois pais” gays ou “duas mães” lésbicas.

No filme, duas meninas praticamente idênticas, Hallie Parke e Annie James, se cruzam por acaso num acampamento de verão. Elas logo descobrem ser irmãs gêmeas separadas na maternidade, e elaboram um plano para trocar de papéis e assumir uma o lugar da outra. Elas têm tanta vontade de conhecer seus pais que estão dispostas a mudar de aparência, o corte de cabelo, seu maneirismo, tom de voz e sotaque, e até mesmo a ir para outro país, simplesmente para passar alguns dias “clandestinos” com a mãe ou o pai que nunca conheceram.

Hallie vive com o pai na Califórnia, em uma linda mansão de encosta, com piscina e cavalariça. Ela tem um belo pai, que é também um excelente vitivinicultor. Hallie, em resumo, tem tudo; mas ela ainda anseia pela mãe que lhe foi negada. Enquanto isso, Annie vive em uma mansão num chique subúrbio londrino. A sua bela mãe é uma conhecida designer de moda. Elas têm vários mordomos e um chofer exclusivo para o seu carro de luxo; mas, ainda assim, Annie anseia pelo pai que lhe foi negado.

Ambas as meninas vivem um invejável conto de fadas. Mas, para quem assiste ao filme (e a maioria dos espectadores desfruta de muito menos bem-estar e segurança do que elas), o sentimento pelas duas é de tristeza, porque a cada uma falta ou o pai ou a mãe. Esta ironia é o argumento do filme.

É interessante também que a tia de Hallie vive na casa da sobrinha, servindo-lhe como uma espécie de “mãe substituta”, ao passo que o avô materno de Annie vive com a filha e a neta, fazendo as vezes da figura paterna para a menina. Muito embora esses maravilhosos e otimistas pais solteiros tenham por perto algum parente carinhoso do outro sexo, existe uma profunda lacuna nos corações de Annie e Hallie

No filme, os adultos são responsáveis por dividir as crianças. No caso dos filhos de casais “sem gênero”, os adultos são responsáveis por torná-las carentes, com uma carência que estará para sempre dentro dos seus corações. Crianças “fabricadas sob medida” para casais gays têm de enfrentar uma vida empobrecida desde o momento em que nascem, na medida em que dois homens as arrancam da sua “barriga de aluguel”, negando-lhes a única oportunidade que terão na vida de sentir o que é um abraço de mãe. Essa oportunidade perdida é a experiência mais próxima que terão estas crianças de tocar alguém que, de certa maneira, poderiam chamar de mãe.

À medida que forem crescendo, o desejo delas pela mamãe será ignorado, silenciado, desprezado. Porque, no fim das contas, o papai pensa não ter necessidade alguma de uma mulher em casa. E, se isso é assim, por que a teriam o seu filho ou a sua filha? O clamor de um filho pela mamãe, dessa forma, acaba se tornando um insulto para um pai que não quer se casar ou para um “casal” gay. Para a criança, o melhor parecerá sofrer em silêncio, a fim de não chatear o pai ou “os pais” com esses assunto “tabu”.

Todos nós temos de refletir com muito cuidado sobre as consequências, nem sempre intencionais ou deliberadas, que implica (ou que são propositalmente escondidas) a aceitação dos “matrimônios” homossexuais e o desinteresse persistente da nossa sociedade pelo divórcio e as famílias monoparentais. Nós, adultos, damos um grande bocejo quando estes temas entram em pauta. Mas as crianças, essas, sim, têm uma reação diferente: elas choram de noite até pegarem no sono.

Quando o que está em jogo é a paternidade, precisamos ser homens

Os homens divorciados, ou os homens que se “uniram” a outros homens para criar os próprios filhos, ou os que são doadores anônimos de esperma, todos estes seguem as pegadas de Esaú, com a diferença de que não é nosso o direito de primogenitura que estamos vendendo por um prato de lentilhas: é às nossas crianças que ele pertence. E nós, insensíveis, vendemos a preço de nada este que é o maior tesouro delas, o poder ser criado por seus pais biológicos, em uma família natural intacta.

Este mundo não precisa que os homens tomem mesquinhamente o que querem, sobretudo se o preço disso é o bem-estar dos nossos filhos. Espera-se que os homens façam justamente o contrário: os homens têm o dever de proteger os filhos da infelicidade, da solidão e de outros perigos. Homens de verdade não fazem de seus filhos as vítimas de seus próprios interesses. Homens de verdade protegem, cuidam, suportando o estresse e as dificuldades, em vez de as transferirem para os próprios filhos. Homens de verdade enfrentam os problemas cara a cara.

Quando o que está em jogo é a paternidade, a nossa cultura precisa que os homens sejam homens. Para alguns, isso pode exigir o abandono de alguns sonhos e dos nossos próprios desejos. No entanto, a nossa cultura está cada vez mais dominada por homens autocentrados e covardes. C. S. Lewis diria que a nossa é uma cultura de homens despeitados.

O Papa S. João Paulo II disse certa feita: “O pecado original, assim, intenta abolir a paternidade, destruindo-lhe os raios que permeiam o mundo criado, pondo em dúvida a verdade sobre Deus, que é amor”. Nestes tempos, o casamento, a família e inclusive o sexo biológico são subvertidos de todos os modos possíveis, e a paternidade, de modo particular, é objeto de ataques incansáveis e violentos. Cabe aos homens lutarmos corajosamente contra eles.

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”— não pronunciado do outro lado do telefone, mas sussurrado ao nosso ouvido por quem estreitamos carinhosamente ao peito.

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A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II
Doutrina

A urgente atualidade de
uma carta do futuro Papa João Paulo II

A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II

“É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”: eis o que escrevia ao Papa Paulo VI, em 1969, o Cardeal Karol Wojtyła.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2019
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No cinquentenário da encíclica Humanae Vitae, ano passado, veio à luz pela primeira vez uma carta particular do então Cardeal Karol Wojtyła ao Papa Paulo VI, na qual o arcebispo polonês agradece ao pontífice pela encíclica. Na carta, Wojtyła faz sugestões concretas para uma instrução pastoral “absolutamente necessária” do Vaticano com o fim de superar as “dúvidas existentes” quanto à proibição do controle de natalidade, à natureza da vida conjugal e à autoridade dos ensinamentos papais.

Além de sua fascinante e franca explicação das principais controvérsias em torno da encíclica, esta carta — na verdade, um ensaio em tamanho e estilo — nos permite vislumbrar o que, mais tarde, seriam os ensinamentos do magistério do Papa São João Paulo II.

Ao escrever em 1969, poucos meses após a publicação da Humanae Vitae, o Cardeal Wojtyła viu claramente que as críticas ao conteúdo e ao estilo da encíclica feriam profundamente a missão da Igreja: “Desafiar a doutrina moral da Igreja em um campo tão importante como o tratado na encíclica pode ser o pontapé inicial de um processo, muito mais amplo, de pôr em xeque outros elementos da fé e da vida cristã”. 

Hoje, décadas mais tarde, podemos constatar a verdade inegável de tal afirmação.

Primeiro, com relação à fé e à vida cristã em geral, Wojtyła ressaltou o poder da Igreja de ensinar com autoridade sobre questões de moral. Isso porque, logo após a publicação de Humanae Vitae, teólogos dissidentes foram a programas de rádio e às páginas dos jornais a fim de minar a autoridade da Igreja para ensinar de forma vinculante em questões morais.

Vinte e cinco anos depois, já eleito Papa, João Paulo II aprovou a publicação da instrução Donum Veritatis, sobre a vocação eclesial do teólogo, que buscava reorientar a teologia como vocação a serviço da Igreja, e não de ideologias mundanas.

De forma mais específica, Wojtyła mostrou-se resoluto, em sua carta de 1969, ao apresentar a Humanae Vitae como expressão da autoridade da Igreja em sua missão de ensinar: “A encíclica Humanae Vitae não é um documento solene que expressa uma doutrina ex cathedra; portanto, não contém nenhuma definição dogmática. No entanto, por ser um documento do ensino comum do Papa, tem caráter infalível e irrevogável. É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”.

Essa ênfase na infalibilidade do Magistério ordinário — os ensinamentos constantes e universais do Papa e dos bispos unidos a ele — tornar-se-ia a abordagem preferida do Papa João Paulo II para tratar as questões doutrinárias mais sensíveis do seu pontificado.

Em vez de emitir definições solenes, João Paulo II apelou ao Magistério ordinário da Igreja para ensinar de forma infalível, por exemplo, sobre a imoralidade do aborto, na Evangelium Vitae (1995), e acerca da restrição do sacerdócio somente aos homens, na Ordinatio Sacerdotalis (1994). Usando este meio para ensinar com autoridade, João Paulo II mostrou que esses não eram apenas ensinamentos seus, mas da Igreja universal — mantidos sempre, em todos os lugares e por todos os fiéis.

Uma segunda grande preocupação enfatizada na carta de Wojtyła é “a consciência e sua relação com a lei moral”, uma vez que, após a publicação da Humanae Vitae, teólogos e pastores passaram a ensinar a muitos casais que era lícito usar o controle artificial da natalidade se suas consciências o considerassem aceitável.

Wojtyła condenou fortemente esse abuso da consciência, que não é “uma norma superior à lei moral”. E acrescentou: “Atribuir à consciência uma autonomia que lhe daria não apenas um papel normativo, mas também legislativo, seria contrário aos fundamentos tanto da lei natural quanto da lei divina. Essa autonomia seria equivalente a aceitar o subjetivismo e o relativismo nas questões morais”.

Cardeal Karol Wojtyla.

Essa compreensão distorcida da consciência tornou-se, desde então, moeda corrente e comum. Como Papa, o próprio João Paulo II assumiu a responsabilidade de levar a cabo o que havia sugerido a Paulo VI, e publicou, em 1993, sua encíclica sobre teologia moral, a Veritatis Splendor, que, sem dúvida, é um dos escritos mais importantes do seu pontificado. 

Nela João Paulo II mantém sua crítica aos que atribuem à consciência “a prerrogativa de determinar, de forma independente, os critérios do bem e do mal, para agir em função deles”. No cerne da encíclica, expôs a reta compreensão da consciência, que deve estar fundamentada na liberdade, na verdade e na lei natural (assuntos que ele já mencionara, mesmo que brevemente, na carta de 1969).

Em terceiro lugar, pode-se dizer que a carta de Wojtyła exortou Paulo VI a “expor a doutrina do matrimônio [...] com o fim de apresentar uma perspectiva correta e clara do tema do amor conjugal”. De modo particular, ele aludia à necessidade de “insistir no fato de que o casamento é uma vocação”.

Nesse contexto, o então cardeal descreveu o papel da fecundidade, da continência e do sofrimento no casamento. Ele bem sabia que assuntos tão essenciais não poderiam ser omitidos ou vistos como inadequados: “Portanto, cabe à mestra da moral e do ensino, que é a Igreja, compreender e destacar os limites que, na esfera dos valores sexuais, fazem a pessoa passar do ato dignamente vivido, para a atitude de usar e abusar do outro”.

Como Papa, João Paulo II não perdeu tempo em assumir essa postura: um ano após ser eleito, ele deu início a uma série de catequeses, hoje conhecidas como “Teologia do Corpo”, nas quais articulava o significado da sexualidade humana à luz da nossa dignidade como pessoas humanas, criadas à imagem de Deus. Além disso, em 1981, apresentou, na Familiaris Consortio, sua visão de como deve ser vivida a vocação ao matrimônio.

A carta de Wojtyła, por si só, é excelente e permanece muito relevante para nós, mesmo já passados cinquenta anos. Nela, enfatiza-se a necessidade urgente de agirmos em relação a essas questões — necessidade que, nos dias de hoje, permanece urgente. Como Papa, Wojtyła não chegou a abordar de uma só vez todas essas questões; mas, no decorrer do seu pontificado, contemplou-as, com profundidade e clareza, em vários ensinamentos.

A carta, enfim, deixa claro um fato crucial: os principais ensinamentos do pontificado de São João Paulo II foram forjados em resposta à crise da verdade, que encontrou sua expressão mais aguda na Revolução Sexual.

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A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos
Liturgia

A liturgia não é
um grupo de estudos bíblicos

A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos

“A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.”

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Setembro de 2019
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Em algumas paróquias que celebram a Missa no rito de Paulo VI (às vezes chamado de rito ordinário ou Novus Ordo), a parte chamada de “Liturgia da Palavra”, composta de duas leituras, um salmo, um canto de aleluia, um evangelho, uma homilia que expõe as leituras, o Credo e a Oração dos Fiéis, se estende por um período consideravelmente mais longo do que a parte chamada “Liturgia Eucarística”, principalmente quando se escolhe a menor oração eucarística, a segunda.

Em geral, podemos dizer que esse estado de coisas é muito lamentável. Do ponto de vista prático, pode parecer que se esteja dizendo — de forma subliminar ou, talvez, até explicitamente — que a Missa é, fundamentalmente, para ouvir as Escrituras e sua explicação, e que a Santa Eucaristia consiste em um atrativo a mais, como um enfeite ou um “ponto de exclamação” para realçar a ação principal.

Quando isso acontece, presenciamos nada menos do que uma inversão total da ordem e proporção próprias das duas partes básicas da Missa. Não seria exagero chamar essa inversão de “protestantização”. Para os protestantes, a “Palavra de Deus” é um texto escrito em um livro sobre o qual eles se debruçam em suas “devoções”, trazem para a igreja, ouvem a leitura, ouvem pregações e levam para casa novamente, como se esse livro fosse o lugar exclusivo da Aliança de Deus. Mas isso não é o que Jesus realmente nos disse: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22, 20). Portanto, a Nova Aliança é algo que existe na forma de um banquete de sacrifício. É quando participamos do seu Corpo e Sangue que nos encontramos mais perfeitamente com o próprio Cristo, da maneira que Ele se nos deixou.

A Palavra de Deus não é, primária e principalmente, um livro — nem mesmo os Evangelhos. Ela é o próprio Jesus Cristo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus [...]. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 1.14). A Liturgia da Palavra (escrita) existe em função da Liturgia Eucarística, na qual a Palavra Encarnada, “para nós homens e para nossa salvação”, entrega-se a nós, fazendo-nos participantes da sua divindade. A proclamação das Escrituras na Missa tem o propósito de preparar os adoradores para a comunhão com a Palavra encarnada, que é a fonte da palavra escrita, aquele de quem as Escrituras dão testemunho.

A liturgia — na Santa Missa, no Ofício Divino ou em qualquer outro rito sacramental — não consiste em um grupo de estudos bíblicos, não é uma oportunidade para folhear o Livro Sagrado e dar-lhe alguma atenção mais digna. A Escritura é proclamada para pregar “Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2, 2). É por isso que, em todos os santuários católicos adequadamente construídos, os olhos são atraídos para um crucifixo proeminente; e se a liturgia estiver bem ordenada, todos estaremos na mesma direção, voltados para o altar, o crucifixo, a abside e o Oriente, pois todos esses elementos simbolizam Cristo, que é o altar, a vítima, o Rei celestial, o norte de nossas vidas, aquele que foi, é e há de vir.

O objetivo de ler e pregar as Escrituras é acolher a Palavra, não a palavra escrita no papel, nem mesmo a palavra interior escrita no coração, mas, sim, Nosso Senhor Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, que é “o poder e a sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 24). Essa realidade, expressou-a muito bem Louis Evely, ao afirmar:

A palavra de Deus não só revela, mas também age, ilumina e transforma. Ela é sacramentalmente eficaz. Toda semana nos reunimos solenemente para participar da eficácia de uma palavra singular de Deus. A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.

“Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”: quando o sacrifício, único e superabundante, do Calvário se faz presente em nosso meio pela consagração do pão e do vinho sobre o altar, nesse momento a Palavra de Deus — concebida pela Virgem Maria, pelo poder do Espírito Santo — é “proclamada” em sua realidade mais completa: o Verbo feito carne, o pão dos anjos, crucificado pelos nossos pecados, e ressuscitado para a nossa salvação.

Na Missa, se a “Liturgia da Palavra” não estiver em plena continuidade com a “Liturgia Eucarística”; se as leituras e a homilia não estiverem implícita ou explicitamente ordenadas ao mistério transcendente da fé, renovado sobre o altar e compartilhado pelos fiéis em sua comunhão mística com o Senhor, é certo que, em algum nível, a natureza da liturgia e suas partes não foi compreendida ou, pior ainda, foi propositalmente distorcida por causa de uma teologia errônea.

Da perspectiva correta, a Liturgia da Palavra — ou como era chamada, e ainda deveria ser, a “Missa dos Catecúmenos”, daqueles que devem ser instruídos no caminho da vida cristã — é uma antessala, uma promessa, uma preparação, um cultivo do terreno, um chamado para estar desperto e atento à voz de Jesus Cristo, a fim de nos prepararmos para recebê-lo em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. “Eis o Cordeiro de Deus”: eis aquele que a Escritura proclama nos profetas e nos salmos, nas epístolas e nos evangelhos. É por isso que a segunda parte da Liturgia era tradicionalmente chamada de “Missa dos Fiéis”, ou seja, daqueles que já creem nas palavras da Verdade, que são batizados em Cristo e estão prontos, agora, para receber o mysterium fidei, o mistério da fé: o próprio Cristo, em Pessoa, em seu Corpo glorioso.

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