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O grande erro de Stephen Hawking
Sociedade

O grande erro de Stephen Hawking

O grande erro de Stephen Hawking

Stephen Hawking achava que acreditar no céu é um produto da vontade, uma consolação inventada. Mas ele se esqueceu que aqueles que acreditam no céu muito frequentemente também acreditam no inferno.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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O proeminente cosmólogo Stephen Hawking sugeriu certa vez que “o céu é um conto de fadas para pessoas com medo do escuro”. 

Como eu, ao mesmo tempo, amo contos de fadas e acredito no céu, não estou muito certo se vejo isso como um insulto ou como um elogio. Embora eu não creia que o céu seja um conto de fadas, é o meu amor por essas histórias que me faz ter fé no céu. Como G. K. Chesterton, eu acredito que os contos de fadas são (ao seu modo) mais verdadeiros do que as inutilidades dos jornais; e é por causa das sólidas verdades contidas nos contos de fadas que eu creio na sólida verdade do céu

Uso a palavra “sólida” porque suspeito que o que Stephen Hawking realmente queria dizer é que o céu seria, de alguma forma, irreal e sem substância. Ele gostaria de nos convencer de que se trata de algo da nossa imaginação — um produto da vontade daqueles que temem a escuridão da morte e a aniquilação final.

Mas o que torna os contos de fadas tão reais e concretos é o fato de eles estarem enraizados em um mundo justo. O lobo que devora a vovozinha, em Chapeuzinho Vermelho, é retalhado e a velhinha, libertada. Cinderela se une a seu príncipe. Em João e Maria, a bruxa má é empurrada para dentro do forno, e nos Três Porquinhos o grande lobo mau se queima todo depois de deslizar pela chaminé. Contos de fadas podem até ser histórias inventadas, mas as verdades que elas revelam não o são. Elas nos fazem acreditar em justiça e, com isso, propõe-nos a fé não somente em um céu, mas também em um inferno.

Os contos de fadas nos ensinam que, um dia, o bem, a verdade e a beleza hão de ser recompensados, e o mal, a mentira e a brutalidade, punidos. Nesta vida, raramente se cumpre a justiça, e nós somos testemunhas disso. Entretanto, porque ela existe, nossas mentes e corações exigem um lugar onde ela seja plenamente satisfeita. Isso não é um produto ilusório da nossa vontade, mas algo claro, sólido, racional e perfeitamente realista. Esperar que a justiça se cumpra no final de tudo faz parte de nossa natureza — o bem, afinal, conduz à vida, e o mal à destruição. Trata-se de algo tão lógico e sensato quanto esperar que a água desça correnteza abaixo. 

Stephen Hawking achava que acreditar no céu é um produto da vontade, uma consolação inventada. Mas ele se esqueceu que aqueles que acreditam no céu muito frequentemente também acreditam no inferno; acreditam que cada alma prestará contas diante de Deus, o derradeiro e mais temível dos juízes. Definitivamente, não é o tipo de consolação que eu gostaria de inventar. Para ser honesto, eu preferiria não ter de dar conta de mim mesmo a ninguém que declarasse ter contados todos os fios de cabelo da minha cabeça, ou que não deixasse nenhum pardal cair no chão sem o seu consentimento (cf. Mt 10, 29-30). Olhando deste modo, a perspectiva da vida após a morte não parece assim tão agradável, e é quem diz a si mesmo que não existe nada após esta vida, nem juízo final, que acaba se apoiando em uma consolação inventada.

Se não há inferno onde pagar, então podemos viver como quisermos. Podemos viver como demônios sem nunca precisarmos nos defrontar com o diabo. Ao contrário, após uma vida de crimes, podemos escapar para um pacífico oblívio final sem nunca termos de pagar o preço de nossas ações. Isso sim me parece produto da vontade e consolação inventada por aqueles que realmente têm medo da escuridão. A pessoas assim, sejam elas eminentes cosmólogos ou criminosos errantes, é preciso lembrar a sabedoria sem papas na língua de São Padre Pio, o qual, perguntado certa vez sobre o que pensava das pessoas modernas que não acreditavam no inferno, respondeu: “Elas acreditarão no inferno quando chegarem lá”.

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Como o ataque dos protestantes a Maria desmantelou toda a sociedade
Virgem Maria

Como o ataque
dos protestantes a Maria
desmantelou toda a sociedade

Como o ataque dos protestantes a Maria desmantelou toda a sociedade

O culto a Nossa Senhora fez com que, ao longo de séculos, ficasse enraizado nas sociedades outrora cristãs um senso de humildade e de hierarquia. Até que veio o movimento protestante, com uma noção revolucionária e destruidora de igualitarismo...

Timothy FlandersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Desde a Queda, homens e mulheres ficaram aprisionados numa disputa por poder. Em lugar da norma da humildade e da caridade, criada por Deus, Adão e Eva escolheram a soberba e a rebelião contra o Criador e a revolta de um contra o outro. A soberba gera disputa de poder, porque só pode ser satisfeita com a ampliação deste através da realização da própria vontade. É o non serviam de Satanás. Assim, antes da vinda de Cristo, o Profeta clamou: “Senhor, estabelece sobre elas um legislador, para que os povos conheçam que são homens [miseráveis]” (Sl 9, 21).

Nosso Senhor estabeleceu uma nova criação quando veio ao mundo. Ele se tornou o novo Adão, e Maria a nova Eva. Nossa Senhora e Nosso Senhor não foram maculados pela ânsia de poder, pois não tinham o pecado original. Em vez de ser desobediente como Eva por orgulho, Maria se anulou por humildade: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Não se deixando vencer em humildade, Cristo “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 7). Na nova criação, a disputa de poder se transformou na luta para alcançar a humildade. Essa foi a “competição” da qual participaram os santos e cujo prêmio eles ganharam.

Maria e a autoridade viva de Cristo. — Cristo tornou definitiva no mundo a luta pela humildade precisamente por ter nascido de uma mulher, a fim de estabelecer um exemplo tangível de humildade, associando-o a uma autoridade viva. Deus se deu a conhecer não apenas como uma ideia abstrata ou uma realidade transcendental — algo que no cotidiano poderia ser destituído de toda autoridade verdadeira e viva pela disputa do poder e do orgulho. Em vez disso, Deus nos foi apresentado por meio de Maria a fim de que nos humilhássemos perante uma autoridade viva. São John Henry Newman fala dessa realidade (o contexto era o dos protestantes liberais de sua época):

O mundo aceita o fato de que Deus seja homem; esse reconhecimento lhe custa pouco, pois Deus está em todo lugar e é tudo (como o mundo pode dizer). Porém, reluta em confessar que Deus é o Filho de Maria. Essa relutância ocorre porque o mundo é imediatamente confrontado com um fato grave, que viola e abala sua própria descrença; a doutrina revelada assume sua verdadeira forma imediatamente e adquire uma realidade histórica; o Todo-poderoso é introduzido em seu próprio mundo numa determinada época e de um modo definido. Sonhos são interrompidos e sombras desaparecem; a verdade divina já não é uma expressão poética, um exagero devocional, uma economia mística ou uma representação mítica. “Não quiseste sacrifício nem oblação”, as sombras da Lei, “mas me formaste um corpo” [1].

Os hereges odeiam Maria porque é através dela que Cristo confronta pessoalmente suas opiniões arrogantes. A Encarnação fez com que Cristo se tornasse presente nos clérigos e na hierarquia da Igreja, responsável pela transmissão da Sagrada Tradição e à qual o herege jamais se submeterá. Por isso, as heresias do primeiro milênio procuraram atacar a Encarnação em Maria a fim de remover a autoridade viva e fundamental de Cristo em sua Igreja. A disputa de poder conduzida pelos hereges foi sempre combatida e derrotada por meio da luta pela humildade, enraizada na devoção à Tradição e à autoridade viva da Igreja, que se manifestou primeiro em Cristo e Maria.

Infelizmente, a igreja assíria, as igrejas orientais e as ortodoxas se separaram uma a uma da Igreja Católica por causa de muitos fatores, particularmente a disputa de poder. No entanto, como ainda preservam alguma reverência por Maria, permaneceu intacta a estrutura fundamental da autoridade viva na figura do bispo. A postura de humildade perante uma autoridade humana na pessoa de Maria ajudou a preservar essa mesma postura em relação ao bispo. Isso também salvaguardou a glória da feminilidade para as mulheres pertencentes às referidas igrejas, pois ainda lhes era possível ascender ao “trono verdadeiramente régio” bem como tornar-se virgens consagradas. “Mas”, continua Newman: 

[...] quando [os espíritos maus] vieram novamente dos reinos das trevas e tramaram a completa ruína da fé cristã no século XVI, não conseguiram encontrar meio mais certeiro para atingir seu odioso propósito do que o insulto e a blasfêmia contra as prerrogativas de Maria, pois sabiam muito bem que, se conseguissem fazer o mundo desonrar a Mãe, se seguiria a desonra do Filho. Tanto a Igreja como Satanás sabiam que Filho e Mãe não podiam ser separados, e a experiência de três séculos confirmou seu testemunho, pois os católicos que honraram a Mãe ainda cultuam o Filho, ao passo que os protestantes, que deixaram de confessar o Filho, começaram zombando da Mãe [2].

Aqui, Newman entende corretamente a relação entre a depreciação de Maria e os movimentos progressistas modernos de sua época, que também incluíam o feminismo e o marxismo, como veremos. Ao eliminar da vida cristã o culto a Maria, os protestantes conseguiram reintroduzir a disputa de poder no coração de cada família e de cada alma cristã. Ao eliminar Maria como canal da Encarnação, puderam remover a autoridade viva da Igreja e de Cristo, algo que levaria diretamente à completa eliminação da autoridade de Cristo Rei em toda a sociedade. 

A degradação das mulheres pelos protestantes. — O protestantismo foi, por meio de suas doutrinas fundamentais, uma tentativa de santificar a disputa de poder. Na vida cristã, tudo foi submetido a essa disputa. Assim, o culto à Virgem foi considerado uma disputa com Deus; o poder do sacerdote, uma competição com o sacerdócio do povo; e a autoridade da Igreja, uma disputa com os fiéis. 

Como a soberba vê no poder “a” fonte da dignidade, qualquer poder que não seja igualitário — portanto, qualquer tipo de hierarquia — é considerado um rival injusto.

A resposta protestante a essa suposta injustiça foi uma revolução constante cujo objetivo era tirar poder do “opressor injusto”. Em lugar do esforço para alcançar a humildade no seio da hierarquia conjugal, eclesial e estatal, os protestantes consideraram a rebelião (o orgulho) uma virtude. Porém, a depreciação da Mãe de Deus provocou diretamente a depreciação das mulheres. Assim como a exaltação de Maria deu origem à glória feminina em seu “trono verdadeiramente régio”, a remoção de Maria provocou a supressão do dever de honrar as mulheres.

O prestígio da mulher sofreu um revés incalculável com a abolição da veneração à Mãe de Deus e do culto prestado a ela, ambos levados a cabo pelo protestantismo. Com o desaparecimento da vida conventual, as mulheres deixaram de ter um status reconhecido na vida social fora do matrimônio, algo que lhes fora dado anteriormente pela vida religiosa [...]. Tão-logo foi suprimida a autoridade da Igreja, a postura do marido em relação à mulher tendeu a retornar ao ideal pagão do mestre e do dono em lugar de um afetuoso amigo, companheiro e protetor. Evidências claras da triste deterioração do prestígio da mulher podem ser vistas na literatura inglesa dos séculos XVII e XVIII, quando os efeitos destrutivos do protestantismo na vida social já podiam ser percebidos plenamente. A estima e o respeito cortês pelas mulheres [...], reflexo da inigualável glória da Rainha do Céu, desapareceu da literatura inglesa [...]. A mulher voltou a ser valorizada apenas por seu sexo; e aquela que não exercia atração sexual (ou deixara de fazê-lo) muitas vezes era alvo de piadas grosseiras demasiado repulsivas à mentalidade verdadeiramente cristã [3]. 

Foi desencadeada pelos homens protestantes — de forma imediata e previsível — uma licenciosidade indiscriminada. O matrimônio indissolúvel, a monogamia, os direitos e os deveres mútuos e específicos do casamento — que refreavam, pelo bem da mulher, a masculinidade decaída e dominadora — tinham como sólido fundamento a veneração a Maria e a Sagrada Tradição da Igreja. Com a eliminação de Maria e da Tradição, os homens protestantes puderam então satisfazer impunes sua luxúria. 

Isso se manifestou em todo o movimento protestante: das segundas “núpcias” adúlteras de Henrique VIII — públicas e recorrentes —, passando pelo casamento do monge Lutero com uma freira, até o defensor luterano Filipe I de Hesse, que teve duas mulheres, e os haréns libertinos de João de Leiden e Bernardo Rothmann. O próprio Lutero facilitou a destruição da virgindade e da castidade ao mesmo tempo que, como seus imitadores, desonrava a Virgem Maria: 

O contrabando de freiras se tornara uma das principais operações eclesiásticas do grupo dos reformados na Alemanha, e na década de 1520, Wittenberg (cidade natal de Lutero) tornou-se um de seus pontos de encontro prediletos [...]. A libido (e a consequente quebra de votos) foi o motor que puxou o trem da Reforma. Foi um modo excepcionalmente eficaz de organizar ex-sacerdotes para que se opusessem à Igreja [4].

Uma testemunha da época afirmou que “os conselhos de Lutero foram seguidos de tal forma que sem dúvida alguma havia mais castidade e honra ao matrimônio na Turquia do que entre os evangélicos [protestantes] na Alemanha” [5]. O próprio Lutero, por não ter conseguido encontrar um fundamento para a proibição geral da poligamia, eliminou a dignidade sacramental do matrimônio [6].

A Santa Madre Igreja responde. — Contra essa devassidão que desonrava Nossa Senhora e as mulheres em geral, o Concílio de Trento bradou em defesa do matrimônio indissolúvel, da virgindade e da castidade, reflexos da veneração essencial devida à Virgem Mãe:  

Se alguém disser que o matrimônio não é verdadeira e propriamente um dos sete sacramentos da lei evangélica instituída por Nosso Senhor […], seja anátema.

Se alguém disser que é lícito ao cristão ter muitas esposas ao mesmo tempo e que isso não é proibido por qualquer lei divina […], seja anátema.

Se alguém disser que a Igreja se engana por ter ensinado e por ensinar que, segundo a doutrina evangélica e apostólica, o vínculo matrimonial não pode ser dissolvido pelo adultério […], seja anátema.

Se alguém disser que os clérigos constituídos em ordens sacras e os regulares que professam solenemente a castidade podem contrair validamente matrimônio [...], seja anátema.

Se alguém disser que o estado conjugal se deve antepor ao estado da virgindade ou celibato, e que não é melhor nem mais beato permanecer no estado de virgindade e celibato do que contrair matrimônio, seja anátema [7].

Os excessos da devassidão dos revolucionários foram duramente reprimidos pelos decretos definitivos de Trento. O culto à Virgem Maria foi defendido com firmeza e, com ele, a ordem hierárquica da família, da Igreja e da sociedade. Sob o catolicismo, as mulheres ficaram protegidas, assim como à Virgem foi concedida a glória sagrada que lhe era devida. Trento se tornou o bastião da Igreja para resistir aos ataques de carnificina e do caos provocados pelos protestantes, que destruíram o tecido social e degradaram as mulheres, retirando-lhes a devida honra.

Como os cismáticos do Oriente, os protestantes conseguiram preservar alguma reverência por Cristo e pelas Sagradas Escrituras, que impediram que seu orgulho cego mais uma vez subjugasse completamente as mulheres à escravidão pagã. Caberia aos marxistas e às feministas cumprir esse objetivo.

Referências

  1. São John Henry Newman, Discourse 17, “The Glories of Mary for the Sake of Her Son”.
  2. Ibid.
  3. Rev. E. Cahill, S.J., The Framework of a Christian State, Roman Catholic Books, reimpressão de 1932, p. 432.
  4. E. Michael Jones, Degenerate Moderns: Modernity as Rationalized Sexual Misbehavior, Ignatius, 1993, p. 244.
  5. Heinirch Denifle, Luther and Lutherdom, Somerset, Ohio: Torch Press, 1917, p. 298, apud Michael Jones, op. cit., p. 245.
  6. “Confesso que não posso proibir uma pessoa de ter muitas esposas, pois isso não contradiz a Escritura. Se um homem deseja se casar com mais de uma mulher, deveria ser questionado se sua consciência está tranquila, para que possa fazê-lo de acordo com a palavra de Deus”. Martinho Lutero, De Wette II, 459, em: Hartmann Grisar, Luther, 1916, vol. 5, pp. 329-330. Embora tenha permitido a prática em princípio, Lutero não a incentivou. Para a perspectiva católica a respeito da poligamia permitida antes de Cristo, ver Santo Tomás e Santo Agostinho
  7. Sessão 24, Cânones 1, 2, 7, 9 e 10.

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Precisamos mesmo confessar ao padre pecado por pecado?
Doutrina

Precisamos mesmo
confessar ao padre pecado por pecado?

Precisamos mesmo confessar ao padre pecado por pecado?

É a lógica da Encarnação que exige a confissão detalhada dos pecados. Nosso Senhor expressou o seu amor por meio de palavras e atos concretos e específicos, confrontando o pecado não “em geral” ou “em teoria”, mas em pessoas particulares, na carne e na Cruz.

Pe. Paul ScaliaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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O Salmo 50 dá o tom. É o salmo penitencial por excelência, que concentra o nosso olhar no elemento mais importante do ato penitencial, a contrição: “Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido” (Sl 50, 19). 

Santo Tomás observa que a contrição “inclui virtualmente toda a penitência” (STh III 90, 3). Ela contém em germe as outras dimensões do sacramento da Penitência: confissão, reconciliação e satisfação. Essa verdade salienta a necessidade de aprofundarmos a nossa contrição, sobretudo quando nos preparamos para a Confissão.

Analisemos primeiro o caráter pessoal da autêntica contrição. Para nós, é tentador esconder-nos na multidão, participando das orações, liturgias e devoções penitenciais da Igreja sem realmente nos empenharmos. Mas isso não é o bastante. Não importa o quanto a Santa Madre Igreja possa nos exortar, conduzir na oração e interceder por nós. Em última análise, cada um de nós deve se arrepender pessoalmente. Há também outra razão por que a contrição cristã é pessoal. Ao contrário do arrependimento natural ou do remorso mundano, ela tem origem na consciência da ofensa à pessoa de Jesus Cristo, não a uma simples lei ou padrão ético.

A contrição fecunda surge do exame de consciência. Este, por sua vez, deveria ser um “intenso e corajoso inventário moral de nós mesmos”, para tomar emprestado um trecho dos Doze Passos dos Alcoólicos Anônimos: intenso, porque exige refletir e recordar quando e como erramos; corajoso, porque exige superar o orgulho, a vergonha e a autojustificação. Devemos dar nomes aos bois, reconhecendo de maneira clara e sincera o que fizemos de errado.  

Há muitas ferramentas que nos ajudam no exame de consciência: os Dez Mandamentos, o duplo mandamento do amor (cf. Mc 12, 28-34), os sete pecados capitais etc. Independentemente do instrumento utilizado, o objetivo é discernir com precisão quais são os nossos pecados e quantas vezes os cometemos, isto é, em que medida falhamos em corresponder à bondade do Senhor.

A Igreja define a contrição de modo simples. É “uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar no futuro” (Catecismo da Igreja Católica, § 1451). Ora, isso difere do emocionalismo que as pessoas podem associar à contrição. Sim, os Evangelhos nos falam das lágrimas de Maria Madalena e do choro amargo de Pedro. Mas, ainda que tenham sua utilidade, tais emoções não são necessárias para a contrição. Necessários são o simples reconhecimento do pecado e a decisão de não mais cometê-lo.

A sobriedade da definição da Igreja revela a solicitude do Senhor com a nossa fraqueza. Ele sabe que os nossos sentimentos rebeldes e inconstantes podem nem sempre cooperar com a nossa contrição. Nem sempre nos sentimos arrependidos. Ele não exige, portanto, mais sentimentos do que aqueles que podemos oferecer. Isso também significa que não podemos esperar que tais emoções apareçam antes de identificarmos e decidirmos odiar os nossos pecados.

Por si mesma, a contrição tende naturalmente à confissão dos pecados. É uma necessidade que procede mais do coração humano do que da lei da Igreja. “Enquanto eu silenciei meu pecado, dentro de mim definhavam meus ossos e eu gemia por dias inteiros” (Sl 31, 3). Como mostram essas palavras do salmista, a tristeza humana sempre procura se manifestar. Do contrário, estamos fazendo violência contra nós mesmos.

Ora, a Igreja exige que confessemos os pecados mortais por sua espécie e número, algo que pode ter a aparência de legalismo e de ser contrário a esse desejo do coração humano: Qual a necessidade de coisas particulares? Por que especificar? Deus realmente se importa com tais detalhes? Ele é tão legalista assim? Não estaria mais interessado no relacionamento do que em coisas específicas?  

Tais perguntas revelam a tendência nociva do homem a evitar o específico e o concreto no arrependimento. Preferimos permanecer na superfície e nas generalidades (“Não fui bom… ofendi a Deus…”), quando podemos evitar exatamente o horror do que fizemos. No entanto, relacionamentos não são construídos com base em abstrações.

O amor procura ser definido e específico em sua manifestação. Nós amamos nos particulares ou não amamos de forma alguma. Infelizmente, também pecamos nos particulares. A nossa relação com Deus e com o próximo não é prejudicada por nós de forma abstrata ou teórica, mas por meio de pensamentos, palavras e atos específicos. Por isso, o coração, se está mesmo contrito, procura ser específico na confissão.

É a lógica da Encarnação, acima de tudo, que exige isso. O Verbo se fez carne. Nosso Senhor expressou o seu amor por meio de palavras e atos concretos e específicos. Ele não confrontou o pecado “em geral” ou “em teoria”, mas em pessoas particulares, na carne e na Cruz. A disciplina da Igreja, longe de impor um fardo externo, simplesmente faz eco às exigências do coração humano e do Sagrado Coração. A confissão não requer particulares apesar do relacionamento, mas por causa dele. 

A confissão sacramental também é um ato pessoal de fé, porque implica confiar na presença contínua de Cristo em sua Igreja e ministros. Não confessamos ao sacerdote por causa de seu mérito ou santidade, mas porque temos fé em que Cristo lhe confiou um poder sagrado.

Nós realmente cremos que o próprio Cristo age por meio do sacerdote, que lhe serve de instrumento. Assim, nesse sacramento fazemos uma dupla confissão: de culpa e de fé (culpa pelos nossos pecados e na ação de Cristo).

A contrição autêntica busca a reconciliação. Produz em nós o desejo de nos libertarmos dos nossos pecados e, principalmente, de nos reconciliarmos com Cristo. Assim, a contrição nos impele logicamente ao sacramento da reconciliação, que restaura nossa união com Ele. Qual será a medida real de nossa contrição, se não desejamos reconciliar-nos com Ele pelo meio que Ele mesmo estabeleceu?

Finalmente, a contrição nos leva não só à confissão e à reconciliação, mas também à satisfação e à expiação dos nossos pecados — em suma, a fazer penitência —, algo que pode parecer impossível. Afinal, ninguém pode reparar ou satisfazer por seus próprios pecados. Só o sacrifício perfeito de Jesus Cristo expia o pecado.

Não obstante, o penitente de fato oferece satisfação — não por seu próprio poder, mas por sua união com o Cristo sofredor; ou, antes, ele se torna partícipe do próprio ato de reparação de Cristo. É um fruto da reconciliação sacramental. O sacramento produz uma reconciliação tão real, uma tal ligação com Cristo, que o penitente se torna participante do único sacrifício perfeito de Cristo pelos nossos pecados. Fazer penitência em união com Cristo é, de fato, o auge da contrição do penitente. Essa participação na expiação e na tristeza de Cristo é o que a contrição procura expressar e oferecer desde o início.

“Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido” (Sl 50, 19). Continuemos essa oração para alcançar uma contrição mais profunda e perfeita, a fim de que a nossa recepção do sacramento da Penitência nos beneficie de forma mais frutuosa até a vida eterna.

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As iscas da indústria pornô para pescar o seu filho na internet
Sociedade

As iscas da indústria pornô
para pescar o seu filho na internet

As iscas da indústria pornô para pescar o seu filho na internet

À medida que mais e mais crianças começam a usar a internet, a indústria pornográfica utiliza o tempo delas online para atraí-las até sites pornográficos. Depois do primeiro clique, a sua inocência pode ser destruída. De uma vez para sempre.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Várias e várias vezes, ouvi pais me dizerem que seus filhos jamais buscariam pornografia na internet. Adolescentes? Talvez. Crianças? Nunca. Elas são muito inocentes. Ainda não pensam em sexo nem foram expostas ao que poderia estimular seu interesse pelo assunto. Portanto, as crianças podem continuar sendo crianças, e não há necessidade alguma de lhes manchar a inocência abordando tópicos como este.

Eu até acredito nesses pais. Muitos deles se esforçam para proporcionar aos filhos uma infância inocente, para que desfrutem das coisas simples da vida sem que suas pequenas mentes sejam manchadas por este conteúdo digital onipresente, mais maligno do que “adulto”.

No entanto, é essencial que os pais se dêem conta de uma coisa: seus filhos podem não estar procurando pornografia, mas a indústria pornográfica com certeza está à procura deles.

Muitos pais creem, equivocados, que tudo ficará bem desde que os filhos não busquem pornografia e a internet de casa esteja protegida. Eles talvez se surpreendam ao descobrir que a maioria das crianças tem seu primeiro contato com pornografia por acidente. Já ouvi essa história centenas de vezes em minhas palestras para jovens sobre pornografia, e um estudo recente confirmou não apenas que muitas crianças veem pornografia pela primeira vez por acidente, mas que a maior parte delas gostaria que isso nunca tivesse acontecido. Não se trata de saber se os seus filhos desejam ver pornografia, mas de saber se eles, querendo ou não, acabarão se deparando com ela.

De fato, como observei antes, empresas predatórias como PornHub já usaram títulos de desenhos animados (por exemplo, Dora, a aventureira e Patrulha canina) para dar nome a vídeos de pornografia explícita, a fim de que as crianças que buscam na internet temas inocentes acabem acessando páginas repletas de cenas degradantes. Quanto mais precoce for o vício, mais pornografia elas verão — e quanto mais elas virem, melhor será para empresas como PornHub. Suas contas bancárias crescem às custas da inocência roubada.  

Eles até fazem piada sobre isso. Na conta de PornHub no Instagram, por exemplo, foi compartilhada uma imagem do Bebê Yoda com o logotipo da empresa refletido em suas pupilas junto com a frase: “Dez segundos depois de meus pais saírem de casa”. Além de não verificar a idade ou o consentimento e de não fazer nada para manter as crianças longe do seu material vil, PornHub ri abertamente de ter as crianças como um público alvo

O portal Exodus Cry, que tem feito uma brilhante campanha para denunciar a cumplicidade de PornHub com o estupro e a exploração sexual, explicou como a empresa caça as crianças:

PornHub não possui sequer um botão de alerta para perguntar ao visitante se tem menos de dezoito anos. Por quê? Para eles, a idade é apenas um número.

A organização vai à caça em redes sociais populares como Tik Tok, Twitch, Snapchat, Periscope e muitas outras, usando modelos e vídeos como isca para seduzir crianças inocentes e tê-las em suas garras sádicas. Alguns desses sites e aplicativos possuem proteções inadequadas para crianças ou sequer têm restrições a práticas predatórias.

Há também as categorias. Em 2019, “adolescente” (teen) foi um dos principais termos procurados no site, junto com “cartoon”, “vinganças” e muitos outros. Não se enganem: PornHub está definindo e tirando proveito dos apetites sexuais de jovens e menores de idade.

Mas espere, a situação fica ainda pior. Os portais Collective Shout e Exodus Cry revelaram que, além de hospedar vídeos de estupro, abuso infantil e tráfico sexual (e não esqueçamos nunca que as pessoas acessam a plataforma em busca de satisfação sexual), PornHub tem uma coleção de “desenhos pornográficos virtuais ou animados, feitos com os personagens mais populares da Disney em cenas de sexo explícito”. Personagens como a Rapunzel, da animação Enrolados, aparecem amarrados e amordaçados, sem falar de muitos outros personagens favoritos que aparecem em cenas de abuso e violência. Repita-se: são personagens de desenhos infantis.

Sites de conteúdo pornográfico também inserem anúncios pop up em páginas de jogos eletrônicos frequentadas por crianças e adolescentes. Em minhas palestras, já perguntei diversas vezes a crianças quantas delas jogam na internet — e quantas foram expostas a alguma janela pop up com conteúdo explícito durante o jogo. Quase todas as mãos se levantam em resposta às duas perguntas. À medida que mais e mais crianças começam a usar a internet, a indústria da pornografia utiliza o tempo delas online para atraí-las até sites pornográficos. Depois do primeiro clique, a sua inocência pode ser destruída e elas podem ficar viciadas. Eis a história de quase toda uma geração. 

Escrevo tudo isso como um apelo aos pais. Por favor, monitorem seus filhos sempre que estiverem online. Por favor, falem com eles sobre pornografia de forma adequada à idade deles. Milhões de crianças foram expostas à pornografia sem o desejo ou o consentimento dos pais, muitos dos quais simplesmente ignoram que seus filhos já foram expostos a esse tipo de material.

É um aspecto repugnante e terrível da nossa cultura que discussões que há poucas décadas eram desnecessárias sejam, hoje, absolutamente imprescindíveis. Sim, elas são.

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O que a Ressurreição nos ensina
Doutrina

O que a Ressurreição nos ensina

O que a Ressurreição nos ensina

A importância de nossa vida corpórea e seus sofrimentos não deveria ser exagerada nem subestimada. Temos um corpo por natureza, não por acidente. Sem o corpo, a alma não está completa. Os sofrimentos desta vida não serão esquecidos, mas redimidos.

Edward FeserTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Maio de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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A Ressurreição nos ensina que a importância de nossa vida corpórea e seus sofrimentos não deveria ser exagerada nem subestimada. Isso significa enxergar o meio-termo entre materialismo e platonismo. Em nossa época decadente e sensualista, a mensagem antimaterialista talvez seja a mais óbvia. O secularista não concebe destino pior do que ambições mundanas insatisfeitas, casamentos infelizes, contas não pagas, saúde precária e o próprio leito de morte. E não há para ele bem maior do que fugir dessas coisas. Woody Allen expressa bem essa mentalidade: “A vida é feita de penúria, solidão e sofrimento — e tudo acaba muito rápido”. 

Isso é patético. Quer seu herói seja Sócrates, São Policarpo ou aquela gloriosa síntese dos dois, São Justino Mártir, você sabe que ninguém é tão cego quanto aquele que não consegue enxergar a eternidade que está além de algumas décadas de vida. A morte só interrompe o tempo que passamos na sala de espera. Algumas são terrivelmente aborrecidas e desconfortáveis. Outras têm tantas formas de divertimento, que nos deixam desapontados quando chega a hora de ir. Em ambos os casos, são apenas salas de espera, e assim é esta vida.

Mas isso ocorre não porque tenhamos uma alma imortal, nem porque as coisas terrenas sejam irrelevantes. Nós de fato temos uma alma imortal, e as coisas terrenas realmente não têm valor em si. Mas uma alma imortal não é uma pessoa. Ponto final. É o resquício de uma pessoa, e a perda de seu corpo é um terrível sofrimento, não uma libertação. A perpétua condição póstuma da alma é determinada pelo que fizemos e sofremos nesta vida.

Aqui entra a mensagem antiplatônica. Temos um corpo por natureza, não por acidente. Sem o corpo, a alma não está completa. Ela também não está destinada a ser purificada de todos os traços do indivíduo que viveu, respirou, sofreu e morreu, como o atma impessoal do hinduísmo. A Ressurreição não ensina que a morte não é o fim de sua alma, mas que a morte não é o seu fim como indivíduo dotado de corpo. Ela nos diz não que os sofrimentos desta vida serão esquecidos, mas que serão redimidos. Um bem eterno será tirado de um mal finito, como o vinho que foi tirado da água. 

Santo Tomás nos diz que o Cristo ressuscitado carrega suas chagas perpetuamente como se fossem troféus. São como a cicatriz que um atleta não ousaria corrigir por meio de uma plástica, para não perder uma lembrança do que conquistou. Do mesmo modo, a Ressurreição nos ensina que o seu coração partido, a destruição de suas esperanças terrenas, a dor pela morte de um ente querido ou por seu corpo débil — a lembrança de todas essas coisas será como uma das chagas de Cristo após a morte. Ela assumirá uma característica totalmente diferente, e de fato será vista como aquilo que sempre foi: parte da purificação e do aperfeiçoamento de um atleta espiritual.

Para aqueles que amam a Deus, afinal. Pois existe um terrível lado negativo da Ressurreição, na medida em que os corpos dos perversos — assim como os dos justos — também lhes serão restituídos, e sua condição também será definida eternamente pelo que alimentaram em seus corações nesta vida. A memória de seus prazeres ilícitos, de sua fixação por Mamon, de seu desejo irrefreado por fama e poder, doerá como uma ressaca perpétua, uma lembrança sem fim de sua estupidez e miopia. “Com certeza terão sua recompensa”. 

Essa recompensa deve ser mais temida do que a morte. Mas esta é, de fato, assustadora. Como todo filósofo deveria fazer, eu amo e venero Sócrates. Mas sua morte, por nobre que tenha sido, não foi a morte de um homem que sabia realmente o que era a morte. Não há dúvida de que sua verdade parcial está muito mais próxima da verdade integral que a verdade parcial do materialista. É muito melhor ser um pagão de tipo platonista do que aquela coisa triste e desprezível que Nietzsche chamou o Último Homem, o individualista da modernidade secular liberal que só pensa em buscar o próprio conforto.

Mesmo assim, a julgar pelo Fédon [um dos principais diálogos de Platão], você poderia pensar que em sua essência a morte significa adormecer durante uma conversa filosófica com amigos. Mas a realidade dela é refletida de modo mais adequado em outras imagens — a de Santo Inácio de Antioquia nos dentes de leões, ou a de São Policarpo no meio das chamas. 

Contudo, surpreendentemente, eles enfrentaram esses fins sinistros com o mesmo otimismo de Sócrates. O Último Homem nos diz: “A morte é horrível, então tenha medo dela!” Sócrates nos diz: “A morte não é horrível, então não tenha medo dela!” O cristianismo nos diz: “A morte é horrível, mas não tenha medo dela!

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