CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Bernadette, a santinha “que não servia para nada”
Santos & MártiresVirgem Maria

Bernadette, a santinha
“que não servia para nada”

Bernadette, a santinha “que não servia para nada”

As aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette de Lourdes cumprem as palavras do Evangelho, de que Deus esconde as suas coisas aos sábios e entendidos para as revelar aos pequeninos.

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Maio de 2016Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

"Vitoriosa contra todas as heresias". Era essa a expressão que Pio IX tinha em mente quando, a 8 de dezembro de 1854, numa Basílica de São Pedro ornamentada como há tempos não se via, proclamou solenemente o dogma da Imaculada Conceição. Com esse gesto, o Papa não queria somente exaltar o sublime privilégio da Mãe de Deus, pelo qual ela "foi preservada imune de toda mancha de pecado original" [1], mas fazer com que os corações dos católicos se voltassem àquela cuja intercessão se mostrava urgentemente necessária. A época era de grande confusão. E a Igreja se via assaltada por todos os lados. No plano político, os revolucionários atacavam os direitos da Santa Sé sem qualquer pudor ou decência, buscando ora excluí-la da vida pública, ora domesticá-la. No plano religioso, por sua vez, as coisas não eram melhores. Heresias e ameaças de cismas brotavam como erva daninha sobre os extensos jardins da Igreja, perturbando a fé de inúmeros católicos. A solução, pensava o Pontífice, não podia ser outra senão recorrer à Auxiliadora dos cristãos.

Pio IX era um profundo devoto da Santíssima Virgem. Conta-se que no dia da proclamação do Dogma, feita na presença de 200 bispos, 54 cardeais e uma multidão de fiéis, o Santo Padre teve de interromper a leitura da bula Ineffabilis Deus por três vezes, devido à sua enorme comoção. Um raio de luz teria iluminado sua fronte, fazendo-o contemplar a beleza celestial da Virgem. Quase morreu de emoção. "O canhão do Castelo de Sant'Angelo troou, e todos os sinos de Roma repicaram no momento em que o papa foi depor uma coroa de ouro na cabeça de uma imagem de Nossa Senhora na Piazza di Spagna", narra o sempre excelente Daniel-Rops [2]. Tratou-se de um dia de grande glória para a Igreja, uma manifestação contundente de fé e esperança em Deus que não tardaria em receber a resposta do Céu, resposta que viria quatro anos mais tarde, numa pobre gruta da cidade de Lourdes, na França, conhecida como Massabielle.

Naquela época, Lourdes era apenas um vilarejo francês, situado na região dos Médios Pirineus. Lá vivia com sua família a pequena Bernadette Soubirous, a primogênita de três filhos. Seus pais, Francisco Soubirous e Luísa Castèrot, sofriam gravemente para alimentá-los. Depois de uma série de empreendimentos fracassados, os Soubirous encontravam-se arruinados financeiramente. Para não morarem na rua, o casal teve de levar os filhos para uma antiga prisão abandonada, a única coisa que lhes restara como opção. Mas Bernadette não era somente pobre de bens materiais. A saúde também lhe faltava. Quando nasceu, foi acometida por uma cólera terrível que quase a matou. Mais tarde, já com dez anos de idade, contraiu asma devido às péssimas condições de vida às quais estava submetida. E que dizer dos estudos então? Mal sabia falar o francês e as lições do catecismo pareciam-lhe muito complicadas. Por pouco não recebeu a primeira comunhão.

A providência divina haveria de mudar o destino dessa pobre menina no dia 11 de fevereiro de 1858. Ao sair com sua irmã e uma amiga para buscar lenha, nas proximidades do rio Gave, onde também ficava a gruta abandonada de Massabielle, um velho e asqueroso lixão, Bernadette é obrigada a esperar no local sozinha, pois havia sido proibida pela mãe de atravessar as águas geladas do rio. A senhora Luísa temia que a filha pegasse um resfriado. De repente, um vento sopra levemente o rosto de Bernadette. A pequena olha para os lados surpreendida, mas nada vê. O vento sopra uma segunda vez, levando-a a olhar para um nicho onde lhe aparece uma belíssima senhorita vestida de branco, com uma faixa azul em torno da cintura e rosas amarelas sob seus pés. A senhorita fica em silêncio, sorri e mostra-lhe o Santo Terço, o qual Bernadette logo começa a fiar piedosamente, como se estivesse num êxtase espiritual. Terminada a oração, a senhorita lhe faz um pedido: "Querereis ter a bondade de vir aqui…" Esta seria apenas a primeira de uma série de aparições da Virgem, que mudariam a história de Bernadette e de toda a França.

É preciso lembrar que, antes de Lourdes, Nossa Senhora já havia visitado a França, no dia 27 de novembro de 1830. Foi a Santa Catarina Labouré, cujo corpo permanece ainda hoje incorrupto, que a Mãe de Deus entregou a famosa Medalha Milagrosa, que já proclamava, bem antes de Pio IX, a sua conceição imaculada. Em Lourdes, por sua vez, Maria resolveu renovar o chamado de Deus à conversão, escolhendo para ser sua porta-voz nada mais que uma menina triplamente miserável. Num tempo em que os pobres não tinham história, "Bernadette — como Maria — veio à luz para fazê-los ingressar na História, para que manifestem seu valor oculto, para restaurar a verdade ignorada do Evangelho" [3].

"Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo", diz Maria a Bernadette nas aparições seguintes, em que lhe pediria também oração e penitência pela conversão dos pecadores e reparação às ofensas cometidas contra Nosso Senhor Jesus Cristo — missão esta que a pobre menina cumpriu com grande zelo e heroísmo. Os testemunhos recolhidos posteriormente revelariam "em que condições estupendas, apesar de zombarias, de dúvidas e de oposições, a voz daquela menina, mensageira da Imaculada, se impôs ao mundo" [4].

No dia 25 de fevereiro de 1858, Nossa Senhora pede a Bernadette que beba da água da fonte, coma as ervas do chão e depois o beije. A princípio, a filha dos Soubirous pensa que a Dama se referia às águas do rio Gave. Errado. Maria queria que Bernadette cavasse a terra para desenterrar a fonte dos milagres. Aos incrédulos que lhe fazem objeções pelo estranho pedido de Maria — não concebiam que a Mãe de Deus a tivesse "obrigado" a comer capim como um animal — Bernadette responde: "Você se comporta como um animal quando come salada?" Mas a revelação grandiosa viria no dia 25 de março. Depois de muita insistência do pároco de Lourdes, Bernadette pede à senhorita que diga seu nome: " Que soy era Immaculada CouncepciouEu sou a Imaculada Conceição", responde a Virgem Santíssima para escândalo de todos. De fato, não era possível que Bernadette tivesse inventado aquilo, pois, uma menina que mal sabia o significado da Trindade, dificilmente também entenderia a dimensão das palavras "imaculada conceição". Como diria Pio XII anos mais tarde, "a própria bem-aventurada Virgem Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o vigário de seu divino Filho na terra acabava de proclamar com os aplausos da Igreja inteira" [5].

Após tão excelsos eventos, confirmados pela autoridade da Igreja, Lourdes se tornaria um dos maiores santuários marianos do mundo, recebendo visitas das mais distintas terras, todos em busca de paz, curas, amor e fé: "Os melhores são empolgados pelo atrativo de uma vida mais totalmente dada ao serviço de Deus e de seus irmãos; os menos fervorosos tomam consciência da sua tibieza e reencontram o caminho da oração" [6]. Os milagres da fonte de Lourdes ainda hoje intrigam cientistas do mundo todo.

A pequena Bernadette, porém, seguiu sua vida no escondimento, como se nada tivesse acontecido. Voltou a ser uma simples jovem. Sentindo a necessidade de afastar-se do mundo e das especulações de curiosos, decide-se pelos votos religiosos e entra para o convento das Irmãs da Caridade, em Nevers, França. Com uma saúde ainda mais frágil, é obrigada a passar pelas mais duras humilhações, a ponto de ter de ouvir dos lábios da superiora, e na frente do bispo, "que não servia para nada". Oferece tudo ao Coração de Jesus como consolo e reparação às ofensas dos homens.

Bernadette viveu seus últimos anos em oração e grande agonia. "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo". As palavras que a Virgem lhe dirigira nas primeiras aparições cumpriram-se fatalmente. A santa entregou-se como holocausto pela conversão e salvação dos pecadores. Morreu no dia 16 de abril de 1879, aos 35 anos, devido a sérias complicações causadas pela tuberculose. Suas últimas palavras: "Ó minha senhora, eu vos amo. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por mim". Com o corpo incorrupto, a "que não servia para nada" foi elevada às glórias dos altares em 1933 pelo Papa Pio XI. A felicidade eterna a havia alcançado.


Fique sabendo:

  • Bento XVI nasceu no dia 16 de abril de 1927, festa litúrgica de Santa Bernadette, e anunciou sua renúncia no dia 11 de fevereiro de 2013, festa litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.
  • 4 filmes já foram gravados acerca das aparições de Lourdes. A canção de Bernadette, de 1943, venceu 4 Oscars. O longa mais fiel às verdades históricas, porém, é o Bernadette, de 1987, cuja atriz protagonista possui um semelhança espantosa com a nossa vidente.

Referências

  1. Papa Pio IX, Bula Ineffabilis Deus (8 de dezembro de 1854), n. 41.
  2. Henri Daniel-Rops. A Igreja das revoluções: diante de novos destinos (Trad. de Henrique Ruas). São Paulo: Quadrante, 2003, p. 401.
  3. René Laurentin. Bernadete (Trad. de Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva). 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 6.
  4. Papa Pio XII, Carta Encíclica Le Pèlerinage de Lourdes (2 de julho de 1957), n. 5.
  5. Idem, n. 10.
  6. Idem, n. 14.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja
Santos & Mártires

Religiosa morta em
sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Morta por ódio à fé, a religiosa italiana Maria Laura Mainetti teve seu martírio reconhecido pela Igreja. Ela foi vítima de “três meninas influenciadas por uma seita satânica”. As três haviam recebido aulas de catequese da irmã, quando mais novas.

Carol GlatzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

Uma religiosa brutalmente esfaqueada em um sacrifício satânico foi beatificada como mártir no dia 6 de junho, na cidade do norte da Itália na qual ela servia.

O Papa Francisco exaltou a beatificação da irmã Maria Laura Mainetti, 60 anos, membro da Congregação das Filhas da Cruz, depois de rezar o Angelus no mesmo dia com peregrinos reunidos na Praça de São Pedro:  

[Ela foi] assassinada há vinte e um anos por três meninas influenciadas por uma seita satânica. Que crueldade! Precisamente ela, que amava os jovens mais do que qualquer outra coisa, e que amou e perdoou aquelas mesmas meninas, prisioneiras do mal. A irmã Maria Laura deixa-nos o seu programa de vida: “Fazer cada pequena coisa com fé, amor e entusiasmo”.

A cerimônia de beatificação aconteceu em Chiavenna, na diocese de Como, onde a irmã serviu como professora, catequista e líder de sua comunidade religiosa.

A irmã Maria Laura Mainetti, agora beata.

O Cardeal Marcello Semeraro, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a cerimônia de beatificação e a Missa. No altar havia um relicário contendo uma pedra manchada com o sangue da beata; o material foi encontrado no lugar de seu assassinato. 

O Cardeal disse que a religiosa pediu a Deus a graça da “verdadeira caridade”, que significa amar a Deus mais que a si mesmo e ao próximo como a si mesmo.

Nascida em 20 de agosto de 1939, perto de Milão, ela sentiu o chamado à vocação religiosa depois que um padre lhe disse: “Tu deves fazer algo de belo pelos outros”.

Ela começou a dar aulas em 1960, em escolas elementares cuidadas por sua congregação, em diferentes cidades da Itália. Dedicou sua vida a prestar auxílio a pessoas marginalizadas, como dependentes químicos, delinquentes juvenis, miseráveis e prostitutas.

As assassinas da irmã Maria Laura foram três garotas que tiveram aulas de catequese com ela quando mais novas. De acordo com o depoimento que deram ao tribunal, as adolescentes — uma com 16 e duas com 17 anos — queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás e escolheram a irmã, ao invés do pároco, por ela ser franzina e mais fácil de atacar.

As três haviam planejado esfaquear a religiosa seis vezes para indicar o número bíblico da Besta, em 6 de junho de 2000, o sexto dia do sexto mês do ano.

Quando a atacaram e capturaram, a religiosa rezou pelas garotas, pedindo a Deus que as perdoasse

As jovens mulheres foram condenadas por homicídio, mas receberam sentenças reduzidas pois o tribunal determinou a sua insanidade parcial à época do crime. Liberadas da prisão, elas receberam novas identidades, passando a viver em cidades diferentes da Itália.

Em junho de 2020, o Papa reconheceu o martírio da irmã Maria Laura Mainetti, por ela sua morte in odium fidei, isto é, “por ódio à fé”. Agora, a canonização da religiosa depende do reconhecimento de um milagre atribuído a sua intercessão.


[Comentário de nossa equipe: Por que “as adolescentes queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás”? Porque queriam ajuntar ao crime de homicídio um pecado de sacrilégio. Pode ser que, aos olhos da Justiça secular, essa distinção tenha pouca importância. Mas, para as pessoas envolvidas com o mundo das trevas, ela faz toda a diferença: é um fato que realmente aumenta a gravidade da falta cometida. 

É por essa mesma razão que o furto das espécies eucarísticas consagradas não é um roubo qualquer; que a ofensa feita a um sacerdote é mais grave que a feita a um simples leigo etc. O que é santo, ou o que foi separado para o culto a Deus, tem maior valor. E o que o demônio puder fazer para “manchar” a obra de Deus, profanando as coisas (ou, no caso, as pessoas) consagradas a Ele, ele fará, como se pode ver.

O que deixa os anjos maus sem dúvida ainda mais revoltados, é que até mesmo os atos pecaminosos que eles incitam, no entanto, terminam redundando na glória de Deus e dos seus santos. Foi justamente o caso desta religiosa, agora beatificada pela Igreja. A brutalidade de que ela foi vítima, o perdão que concedeu a seus algozes na hora da morte, o sacrifício que ela, em seu coração, ofereceu a Deus — enquanto suas assassinas pensavam estar favorecendo o reino de Satanás… Tudo não passou de instrumentos nas mãos da divina Providência.

Para saber mais a respeito da ação dos anjos bons e maus, não se esqueça do curso que Pe. Paulo Ricardo está preparando justamente sobre esse assunto: “Anjos e Demônios”.]

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Corpus Christi não acabou!
Liturgia

Corpus Christi não acabou!

Corpus Christi não acabou!

A Eucaristia é um mistério tão grandioso que, antigamente, a Igreja dedicava uma semana inteira só para meditar a seu respeito. Era a oitava de Corpus Christi, que se encerrava com a festa do Coração de Jesus. Saiba como viver ainda hoje essa tradição.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
imprimir

Há não muito tempo, a festa de Corpus Christi, assim como a Páscoa, o Natal e Pentecostes, tinha uma oitava [1], como explica neste texto o professor Peter Kwasniewski:

Corpus Christi foi originalmente instituído como uma oitava. Quem quer que acredite que Nosso Senhor está real, verdadeira e substancialmente presente no Santíssimo Sacramento, não seria capaz de celebrar esse “incompreensível mistério de amor” por apenas um dia e então ir embora, como quem risca uma tarefa numa lista de afazeres para cumprir a próxima. Não, é preciso que haja o louvor completo, pleno e pródigo de oito dias: o tempo pára, e nós nos deleitamos na glória do Deus encarnado em nosso meio até que se findem os tempos e cessem os sinais.

É tão óbvio esse instinto eclesial que, quando Nosso Senhor mesmo apareceu a Santa Margarida Maria Alacoque para pedir a instituição de uma festa em honra ao seu Sagrado Coração, Ele especificou que a queria “na sexta-feira depois da oitava de Corpus Christi. É por isso que ela ocorre na sexta-feira da semana seguinte a essa festa. Ela [a festa do Sagrado Coração] manteve seu lugar nos calendários de 1962 e 1969, uma posição que poderia parecer aleatória na ausência da oitava [...].

Ou seja, a festa do Corpo do Senhor [2], na quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade, tem uma relação muito próxima com a festa do Sagrado Coração de Jesus, celebrada na sexta-feira da semana seguinte. (Foi em 1955, ainda sob Pio XII, que caiu a oitava de Corpus Christi.)

Neste texto, porém, gostaríamos de apresentar outra razão para que, não obstante a supressão dessa oitava, os fiéis com suas famílias continuem a honrar o Santíssimo Sacramento por mais uma semana — e os sacerdotes, se possível, celebrem nas igrejas Missas votivas em honra desse mistério. O motivo é bem simples e pode ser apresentado nestas cinco expressões: Lauda Sion, Pange lingua, Adoro te devote, Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens. Esses são os títulos dos poemas que Santo Tomás de Aquino compôs sobre a Eucaristia, textos de uma riqueza grandiosa, que não podem ser esgotados em um único dia.

Essas pérolas foram escritas em latim, evidentemente, mas possuem versões portuguesas que podem ser encontradas com facilidade na internet. Mas, por belas que sejam as traduções, é sempre melhor acessar e procurar entender os originais latinos, especialmente por terem vindo da pena do “mais santo dos sábios e mais sábio dos santos”.

A sequência de Corpus Christi

Temos, em primeiro lugar, a mais extensa das sequências para Missa que foram preservadas no rito romano: o Lauda Sion, composta de 24 estrofes. É tão longo esse texto que uma alternativa menor é oferecida na liturgia, a começar por sua 21.ª estrofe: Ecce panis angelorum (na tradução litúrgica brasileira: “Eis o pão que os anjos comem”). 

Este canto é um verdadeiro tratado sobre a Eucaristia e um cumprimento quase literal de três de seus versos: Quantum potes tantum aude, quia maior omni laude, nec laudare sufficis (lit., “Quanto podes, tanto ousa, porque é maior que toda loa, nem de louvá-lo és capaz”; na tradução litúrgica brasileira: “Tanto possas, tanto ouses, em louvá-lo não repouses: sempre excede o teu louvor!”). Ou seja, Santo Tomás compôs toda esta sequência em honra ao Santíssimo Corpo do Senhor — e, como vimos, não só esta sequência, mas muitos outros cantos —, e ainda assim não foi o suficiente… Afinal, do próprio Deus presente no Santíssimo Sacramento nunca falaremos o suficiente.

Quod non capis, quod non vides, animosa firmat fides, praeter rerum ordinem (lit., “O que não entendes, o que não vês, garante-o a fé ardente, além da ordem das coisas”; na tradução litúrgica brasileira: “Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela fé”). Essa ideia é uma constante nas composições de Santo Tomás, ressaltando a fé como uma espécie de “sexto sentido”, que supre o defeito dos outros cinco — como diz o Pange lingua: Praestet fides supplementum sensuum defectui (lit., “Seja a fé suplemento ao defeito dos sentidos”; na tradução litúrgica brasileira: “Venha a fé por suplemento os sentidos completar”). 

De fato, quando olhamos para o altar, após a consagração, o que vemos é pão; quando comungamos, tanto a hóstia quanto o vinho consagrados têm gosto de pão e vinho… A fé, porém, nos diz que, pelo milagre da transubstanciação, todo o pão e todo o vinho foram realmente transformados no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor. Não há mais pão nem vinho, embora nossos sentidos experimentem o contrário. Por isso diz, também, o Adoro te devote: visus, tactus, gustus in te fállitur, sed audítu solo tuto créditur (lit., “Adoro-te com devoção: a vista, o tato, o gosto sobre ti se enganam, mas crê-se sem medo com a só audição”).

Caro cibus, sanguis potus: manet tamen Christus totus, sub utráque specie (lit., “A carne, comida; o sangue, bebida: está porém o Cristo todo sob ambas as espécies”; na tradução litúrgica brasileira: “Alimento verdadeiro, permanece o Cristo inteiro quer no vinho, quer no pão”). Outra lição importante é passada aqui: como Jesus, depois da Ressurreição, não pode mais morrer; como seu Corpo e Sangue estão para sempre unidos, sem possibilidade de separação, quando o sacerdote consagra o pão e o vinho, fica presente, tanto em um quanto em outro, Nosso Senhor inteiro. É por isso que nós, católicos, não precisamos comungar sob as duas espécies; “no que diz respeito ao fruto, os que recebem uma só espécie não são privados de nenhuma graça necessária à salvação” [3].

Nessa mesma linha, continua o canto, o Deus que se dá a um fiel é o mesmo que se dá ao outro, sem divisão: A suménte non concísus, non confráctus, non divísus: intéger accípitur. Sumit unus, sumunt mille: quantum isti, tantum ille: nec sumptus consúmitur (lit., “Por quem toma não partido, nem quebrado ou dividido, mas é íntegro recebido. Toma um, tomam mil, tantos estes quanto aquele, mas nem tomado é consumido”; na tradução litúrgica brasileira: “É por todos recebido, não em parte ou dividido, pois inteiro é que se dá! Um ou mil comungam dele, tanto este quanto aquele: multiplica-se o Senhor”).

O problema das comunhões sacrílegas

Outra lição valiosíssima dessa sequência, infelizmente esquecida em nossos dias, é o das comunhões indignas. Diz Santo Tomás: Sumunt boni, sumunt mali: sorte tamen inaequáli, vitae vel intéritus. Mors est malis, vita bonis: vide paris sumptionis quam sit dispar éxitus (lit., “Tomam bons, tomam maus, com sorte porém desigual, de vida ou de ruína. A morte é para os maus, a vida para os bons: vê como da mesma mesa haja tão diversa saída”; na tradução litúrgica brasileira, “Dá-se ao bom como ao perverso, mas o efeito é bem diverso: vida e morte traz em si. Pensa bem: igual comida, se ao que é bom enche de vida, traz a morte para o mau”). 

Sim, essas palavras são apenas um eco de São Paulo: “Todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado quanto ao corpo e sangue do Senhor” (1Cor 11, 27). Mas esse versículo, curiosamente, não consta em nenhum lugar no atual lecionário — e considerando que, devido a sua extensão, a primeira parte do Lauda Sion dificilmente é cantada em nossas paróquias, o resultado prático é que as pessoas simplesmente jamais ouvem falar da possibilidade (muitíssimo real, muitíssimo frequente) das comunhões sacrílegas. A esse respeito, observa ainda o prof. Peter Kwasniewski:

O alerta de São Paulo para que evitemos receber o Corpo e o Sangue do Senhor indignamente, isto é, para a nossa própria condenação, foi omitido de todas as Missas no Novus Ordo por quase meio século. E, no entanto, na Missa latina tradicional, esses versículos são escutados ao menos três vezes todos os anos: uma na Quinta-feira Santa [...] e duas em Corpus Christi [...]. Os católicos que frequentam o usus antiquior sempre terão essas palavras desafiadoras colocadas diante de suas consciências. Sejamos francos: o conceito de uma Comunhão indigna simplesmente desapareceu da consciência católica em geral.

Como consequência do silêncio (e apostasia) do clero — e da má catequese de nossos dias —, então, o pão dos filhos é tragicamente “lançado aos cães” (conforme expressão da própria sequência: Ecce panis angelorum, factus cibus viatorum, vere panis filiorum, non mittendus canibus; lit., “Eis o pão dos anjos, feito pão dos viandantes, verdadeiro pão dos filhos, que não se deve dar aos cães”). 

A discussão, por exemplo, que está acontecendo nos Estados Unidos a respeito da Comunhão para pessoas em pecado público (especialmente políticos favoráveis ao aborto) nem sequer é tocada no Brasil, quando deveria ser óbvio para qualquer católico que uma pessoa que defende o assassinato de crianças no ventre materno não deveria jamais se aproximar da Sagrada Eucaristia; e, se ela promove publicamente essa causa, deve sim ter a Comunhão negada pelos ministros da Igreja. 

Santo Tomás (cf. STh III 80 6c.) e dois mil anos de Tradição e Magistério o afirmam claramente; nosso Código de Direito Canônico o ordena expressamente (cf. Cân. 915: “Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”); mas, pelo visto, nossa época é mais sábia que os santos e Doutores que nos precederam...

“Quanto podes, tanto ousa”

Dos hinos compostos por Santo Tomás, o Pange lingua é sem dúvida o mais conhecido, principalmente por suas duas últimas estrofes, iniciadas em Tantum ergo sacramentum (“Tão sublime sacramento”). É prescrito pela liturgia que ele seja cantado nas Vésperas do ofício de Corpus Christi, bem como durante as bênçãos com o Santíssimo.

Também muito belo e conhecido é o Adoro te devote, onde Santo Tomás recorda que, do Sangue de Nosso Senhor, uma única gota seria suficiente para remir o mundo inteiro (Cuius una stilla salvum fácere totum mundum quit ab omni scélere; lit., “Do qual uma só gota o mundo inteiro salvar pode de todo crime”).

Menos conhecidos, mas nem por isso menos bem elaborados, são os hinos Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens, prescritos respectivamente para as Matinas (atual Ofício das Leituras) e Laudes de Corpus Christi. Deles são extraídos os cantos menores Panis angelicus (“Pão angélico”) e O salutaris hostia (“Ó Hóstia salutar”).

No primeiro, apresenta-se uma verdade, também questionada hoje por teólogos modernos: a de que a celebração da Eucaristia está reservada somente aos sacerdotes, e a mais ninguém: Sic sacrificium istud instituit, cuius officium committi voluit solis presbyteris, quibus sic congruit, ut sumant, et dent ceteris (lit., “Assim este sacrifício instituiu, cujo ofício só aos presbíteros quis reservar, aos quais compete tomá-lo e dá-lo aos demais; na tradução litúrgica brasileira, o solis desaparece: “Instituído estava o sacrifício, que aos seus ministros Cristo confiou. Devem tomá-lo e dá-lo aos seus irmãos, seguindo assim as ordens do Senhor”).

No segundo canto, brilha um dos mais belos versos de todas as composições do Aquinate: O res mirabilis: manducat Dominum pauper, servus et humilis (lit., “Ó coisa admirável: come ao Senhor o pobre, o servo e o humilde”; na tradução litúrgica brasileira, “Oh maravilha: a carne do Senhor é dada a pobres, frágeis criaturas”.

Todos os cantos se encerram com súplicas escatológicas: no Adoro te devote, por exemplo, o fiel que canta ao Santíssimo Sacramento pede a Deus a graça de contemplá-lo um dia face a face, no Céu: Jesu, quem velátum nunc aspício, oro fiat illud quod tam sítio; ut te reveláta cernens fácie, visu sim beátus tuae glóriae (lit., “Ó Jesus, a quem velado agora vejo, peço venha logo aquilo que tanto desejo: que, vendo-te de face desvelada, seja eu feliz com a visão da tua glória”).

É uma pena que o latim encontre tão poucos amantes; que nossas liturgias não usem mais o canto gregoriano; que a teologia de Santo Tomás seja tão desprezada em nossos dias. Resgatar tudo isso, porém, pode ser um ótimo começo para redescobrirmos a grandeza da Santíssima Eucaristia. Não percamos tempo, portanto, e empreguemos não só estes dias, mas toda a nossa vida, na meditação desse precioso mistério.

Notas

  1. Também sobre esse assunto, pontifica Gregory DiPippo: “As oitavas são para a contemplação de mistérios que são grandes demais para um dia só, e é certamente verdadeiro que repetita juvant (‘as coisas repetidas agradam’), um provérbio que o rito romano, com seu conservadorismo habitual, historicamente levou muito ao coração.”
  2. Também vale a pena notar que, no rito antigo, a festa de Corpus Christi se limitava a celebrar o Corpo do Senhor; no dia 1.º de julho, havia uma festa de I classe (o equivalente às solenidades de hoje) reservada só ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. Infelizmente, a reforma de Paulo VI aboliu essa celebração, que está restrita agora ao âmbito das Missas votivas.
  3. Concílio de Trento, Doutrina e cânones sobre a comunhão sob as duas espécies e a comunhão das crianças, 16 jul. 1562, s. XXI, c. 3 (DH 1729).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?
Doutrina

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Junho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
imprimir

Uma adolescente enviou-nos há dias a seguinte mensagem, que reproduzimos com pequenas modificações. (A divisão em 8 pontos é nossa, para facilitar a leitura da resposta. Omitimos também algumas considerações finais, por não virem ao caso.)

Estava estudando sobre “sexo antes do casamento”, quando me deparei com o seu blog.

1. O que mais me intriga em relação a essa questão é que no Antigo Testamento essa questão de virgindade pré-matrimonial era uma regra apenas para as mulheres, e não estava relacionada com a pureza sexual e uma maior virtude, mas sim com relação à gravidez, para que, quando uma mulher engravidasse, se tivesse a certeza [de] que o filho era realmente israelita.

2. Essa questão de pureza sexual surgiu no Novo Testamento com o apóstolo Paulo, mas lembremos que Paulo não era perfeito e, atualmente, não seguimos tudo [o] que ele ensinou (como a questão da obrigatoriedade do véu, por exemplo).

3. E outro fato muito importante é que, nas épocas bíblicas, as pessoas geralmente se casavam um pouco depois da puberdade, ou seja, tinham relações sexuais desde o início do desenvolvimento da sua sexualidade. Hoje é um absurdo ter relações sexuais desde tão cedo, e é até crime no nosso país. 

4. Outro ponto importante é que hoje existem preservativos que impedem doenças sexualmente transmissíveis e impedem também alguma gravidez indesejada. 

5. Jesus nunca falou que o sexo fora do casamento era pecado. O senhor cita no blog Mt 5, 28, mas fica claro que no verso ele se refere a quando um homem comprometido deseja algo com outra mulher. 

6. O senhor disse também: “O sexo fora do casamento é uma forma de usar o outro e não de amar”. Mas poderíamos nós julgar o outro? Falar o que ele sente? Duas pessoas podem se amar e não querer casar por questões financeiras, por exemplo. 

7. Os jovens, a partir de quando atingissem a idade adulta, não poderiam ter o direito de desenvolver sua sexualidade? Não deveriam ser eles orientados para terem relações sexuais com responsabilidade, ao invés de serem reprimidos? 

8. Dizer que isso é pecado só porque Paulo disse não é algo um pouco vasto [sic]? 

1) A primeira colocação, de “O que mais me intriga” até “para que se tivesse certeza [de] que o filho era israelita”, além de gratuita, é falsa. O sexo pré-matrimonial é outro nome para o pecado de fornicação simples, isto é, a cópula consensual entre um homem e uma mulher não ligados entre si nem a outrem por vínculo conjugal. O Antigo Testamento o proíbe em algumas passagens, referindo-se não só às mulheres, mas sobretudo aos varões (cf. Dt 23, 18; Os 4, 11; Eclo 19, 3s; 41, 21; Tb 4, 13). Obviamente, um dos motivos pelos quais a fornicação é pecado, ou seja, contrária ao direito natural, é por dificultar a identificação do pai legítimo e, por conseguinte, o reconhecimento da prole como pertencente a uma determinada estirpe ou comunidade. Mas não é a única razão, nem expressa preocupações meramente pragmáticas. 

2) A segunda colocação, de “Essa questão de pureza legal” até “como a questão da obrigatoriedade do véu”, tem algo de verdade e um pouco de confusão. 

a) É verdade que, comparado com o Antigo, o Novo Testamento representa uma evolução em termos morais, especialmente em matéria sexual. Exemplo disso é a proibição dos pecados internos ou de mero desejo (cf. Mt 5, 28), aos quais a antiga Lei não dera tanta importância, ao menos em comparação com o Evangelho. É falso, no entanto, que somente no Novo Testamento tenha “surgido” o pecado de fornicação, como se S. Paulo ou outro apóstolo tivesse proibido o que até então era permitido. Vimos no item anterior que a prática já era condenada no Antigo [1].

b) Além disso, confundem-se aqui questões de ordem distinta. O véu que S. Paulo manda as fiéis de Corinto usarem (cf. 1Cor 11, 15) é, naturalmente, uma disciplina ritual suscetível de mudança, em função de necessidades ou costumes locais; a sexualidade não, por ser uma inclinação natural básica e em si mesma ordenada à reprodução, a qual, portanto, deve ser regulada e exercida segundo as exigências da razão humana, a mesma para todos, em todos os tempos e lugares [2]. 

3) A terceira colocação, de “E outro fato muito importante” até “no nosso país”, parece deslocada e irrelevante para o ponto em debate, que é a moralidade ou imoralidade do sexo pré-matrimonial. A puberdade é um fato biológico, em virtude do qual o indivíduo se encontra, ao menos fisicamente, preparado para a vida sexual. É mera aptidão para procriar. Em que momento, atingida a idade púbere, se considera aceitável ou oportuno o exercício da sexualidade, é coisa que também pode variar em função de certos fatores (culturais, demográficos, sanitários etc.). Em Israel, como em muitas outras civilizações antigas do Oriente Próximo, nas quais a expectativa de vida era, de regra, bastante baixa, seria mesmo de se esperar que os casamentos fossem celebrados cedo, tão-logo os jovens entrassem em idade féritil, por volta dos 12–14 anos [3]. 

Aliás, essa é provavelmente uma das razões por que no Antigo Testamento se fala pouco da fornicação simples. Como os jovens se casavam cedo, em uma sociedade eminentemente tribal, não havia “tempo” para os desregramentos tão frequentes hoje em dia. A maturidade sexual era quase simultânea à contração de núpcias, de maneira que, se se pecava contra a castidade, se pecava também, quase sempre, contra a fidelidade conjugal. 

4) A quarta colocação, de “Outro ponto importante” até “gravidez indesejada”, não serve de justificativa para o sexo pré-matrimonial, porque revela justamente um dos muitos efeitos negativos de sua “normalização”, qual seja: o divórcio entre cópula e reprodução, sexo e família. O sexo antes do casamento começa a tornar-se comum a partir do momento em que, individual e socialmente, já não se vê (ou não se quer ver) a vinculação intrínseca entre o ato sexual e sua finalidade própria, que é a geração de uma nova vida, cuja criação adequada, tanto física quanto intelectual e moral, só é possível dentro da família, com a cooperação perpétua de um pai e de uma mãe [4]. Se os casais fossem fiéis e castos nem houvesse fornicação e adultério no mundo, dificilmente existiriam DSTs nem, portanto, a “necessidade” de usar preservativo para evitar “gestações indesejadas”. 

Assim como o fornicador busca o prazer sexual sem querer as consequências que lhe são inerentes, mantendo-se assim num estado de imaturidade e egoísmo, o bulímico busca por um momento a sensação de saciedade sem querer o risco de engordar, privando-se assim dos nutrientes necessários. A analogia porém é fraca, porque aquele peca por malícia, este age às vezes por compulsão; a desnutrição deste é física, enquanto a daquele é pior, por afetar antes a alma que o corpo. 

5) A quinta colocação, de “Jesus nunca falou” até “com outra mulher”, está correta, mas desconsidera algumas coisas. De fato, em Mt 5, 28 Nosso Senhor fala do pecado de adultério, nem consta nos Evangelhos qualquer palavra dele contra a fornicação simples. Mas daí não se segue que ela seja permitida ou mesmo compatível com o restante da doutrina cristã.

a) Em primeiro lugar, o objetivo dos Evangelhos é testemunhar a natureza messiânica e divina de Cristo, provada em sua vida e palavras, em suas profecias e milagres, em sua morte e ressurreição, e não o de apresentar uma “súmula” dos ensinamentos de Jesus (cf. Jo 16, 12; 21, 25), como se abarcassem todo o dito por Ele, sem necessidade de atender à pregação oral dos Apóstolos, ao Magistério e à Tradição da Igreja ou mesmo à simples capacidade de dedução. Cristo, por exemplo, não falou de muitos outros pecados sexuais: não falou do estupro, não falou do rapto, não falou do incesto nem do sacrilégio e dos atos contra a natureza. Daí se há de concluir que não são pecados?

b) Em segundo lugar, o fato mesmo de Cristo e as Escrituras como um todo insistirem na malícia do adultério, e não tanto na de outras práticas imorais, é em si mesmo significativo. É sinal de que, para judeus e cristãos, o matrimônio é o único contexto em que o uso da sexualidade é lícito, porque se funda numa relação de fidelidade e entrega mútua que não pode ser rompida sem grave responsabilidade de uma das partes [5]. 

6) A sexta colocação, de “O senhor disse também” até “por questões financeiras, por exemplo”, perde de vista uma verdade importante. Nós podemos, sim, julgar os outros, menos porém por suas intenções que pelas ações que praticam. Os atos humanos têm sempre uma dimensão objetiva, que é precisamente o que os especifica como atos de tal ou qual tipo, tanto na linha da virtude quanto na do vício. Um ato não se define como furto, por exemplo, apenas pela intenção subjetiva do agente, mas antes de tudo pelo objeto mesmo da ação, isto é, por aquilo a que a vontade tende própria e primariamente ao escolher realizá-la [6]: subtrair coisa alheia ao justo possessor, independentemente do “para que” se subtrai. 

O mesmo se aplica ao sexo pré-matrimonial. Os que o praticam podem justificar-se dizendo que “se amam”, quando, na verdade, fazem uso da sexualidade privando-o da “ordem exigida pelo bem da espécie humana não só a ser gerada do modo devido, mas também a ser educada em uma sociedade permanente entre homem e mulher tanto de fato como de direito” [7]. 

Além disso, vale notar: quem, estando solteiro, não pode arcar com os encargos mínimos (econômicos, afetivos etc.) do casamento não deve buscar os direitos ou privilégios de um casado. O contrário seria tratar o sexo como “passatempo” e o outro como simples fonte de prazer, sem o comprometimento que uma vida a dois — na qual são comuns as alegrias, mas também as contas — por si mesma reclama. 

7) A sétima colocação, de “Os jovens” até “serem reprimidos”, é algo contraditória. Com efeito, se atingiram a idade adulta, não são mais jovens, mas adultos e, como tais, devem viver uma sexualidade igualmente adulta, o que significa autodomínio, respeito à dignidade do corpo alheio, senso de compromisso e sacrifício. Sexo não é diversão nem “experimento” para curiosos. Não é uma “técnica” que precise ser “desenvolvida” ou “aprendida” como se aprende, por exemplo, a conduzir um veículo. É uma função orgânica com uma finalidade tão natural como é o ver para os olhos, o ouvir para os ouvidos e o comer para a boca. A diferença está em que o sexo é uma operação que se realiza a dois, e se o seu fim primário é a geração da prole, os dois envolvidos devem ter as condições necessárias à adequada criação dela, ou seja, estar pelo menos unidos por união formal e indissolúvel. 

8) Cremos que essas considerações são suficientes para desmentir a oitava e última colocação, a de que dizemos isso “só porque Paulo disse”. Sim, para os católicos a autoridade de Paulo tem grande peso. Afinal, cremos que suas cartas são divinamente inspiradas e gozam, portanto, de inerrância. É por isso, diga-se de passagem, que consideramos suas palavras contra a fornicação (cf. Ef 5, 5s; 1Cor 6, 9s.15-20; Gl 5, 19-21) como expressão não só da lei natural, que a proíbe pelo dano que causa à prole, mas de um direito divino positivo, que a proíbe, entre outras coisas, porque nos impede de alcançar nosso fim sobrenatural. No entanto, mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado [8]. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Notas

  1. S. Paulo proíbe especial e insistentemente a fornicação em suas cartas porque escreve a fiéis vindos do paganismo, e os gentios, como observa S. Tomás de Aquino, não consideravam a fornicação um pecado (cf. STh I-II 103, 4 ad 3). O Apóstolo não “inova” a moral judaica, que ele, fariseu zeloso (cf. Fp 3, 4ss), sempre observara, mas faz questão de inculcar nos fiéis princípios que, se já eram claros para os hebreus, são indiscutíveis para os cristãos: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus” (Mt 5, 8).
  2. Cf. Martin Rhonheimer, La perspectiva de la moral. Fundamentos de la ética filosófica. Trad. esp. de José C. Mardomingo. 2.ª ed., Madri, Rialp, 2007: “As inclinações naturais são um ‘bem para o homem’ na medida em que forem captadas e reguladas pela razão” (p. 285); “[…] uma tendência humana, dado que é natural, é reconhecida pela razão de modo também natural como um bem humano. Mas revela sua identidade como ‘bem humano’ somente na medida em que é reconhecida pela razão como ‘boa’, e não já por ser ‘natural’” (p. 286); “Sem inclinação natural não haveria princípios práticos nem ações. Mas os princípios mesmos não são essas inclinações como juízos naturais, mas como juízos práticos universais do tipo ‘p é bom’ referidos a essas inclinações” (p. 289); “[…] estas inclinações naturais constituem bens humanos e princípios práticos na medida em que se tende a eles na ordem da razão, isto é, na medida em que a vontade tende a eles em conformidade com a ordem da razão, como ‘bem da razão’. A autoconservação e a sexualidade — como bens humanos, e não só como inclinações naturais — são sempre também vontade de autoconservação e querer (ou amar) outra pessoa. A captação destas inclinações pela razão ordena essas inclinações em conformidade com as exigências da razão, e só assim são objeto da vontade e princípio de ações humanas” (p. 290).
  3. No Brasil, a lei permite o casamento a partir dos 16 e até antes, excepcionalmente, em caso de gravidez, sempre que haja autorização dos pais ou responsáveis legais (cf. CDC, arts. 1517, caput, e 1520).
  4. Cf. Joseph Gredt, Elementa. 13.ª ed., Barcelona, Herder, vol. 2, 1961: “A sociedade conjugal, ou matrimônio, se se toma formalmente, é a união legítima, perpétua e exclusiva do homem e da mulher, nascida do mútuo consentimento deles e ordenada à procriação e à educação da prole. A causa, pois, formal ou o fim, ao menos principal, do matrimônio é a geração e a educação da prole, ou a propagação do gênero humano” (p. 462, n. 1012); “O homem não tem desde o início toda a sua perfeição, senão que, logo ao nascer, tanto corporal como espiritualmente, ou quanto ao intelecto e à vontade, está em estado de imperfeição, a partir do qual paulatinamente se desenvolve. Não pode, porém, desenvolver-se por si só, mas necessita de múltiplos auxílios. Ora, nesta assistência ao seu desenvolvimento, tanto corporal quanto espiritual, consiste a educação. A qual, por isso, é dupla: corporal, que se realiza dando alimento e tudo aquilo de que o corpo naturalmente necessita, e espiritual (à qual pertence a instrução religiosa e social), que se realiza pelo ensino [doctrina] não só especulativo, mas também prático, ou por admonição, correção, punição, de maneira que não somente o intelecto seja conduzido a conhecer a verdade, o que é necessário à consecução do fim último, mas também a vontade se incline a fazer o bem” (p. 367, n. 1017).
  5. É evidente, ademais, que o adultério, objetivamente considerado, é mais grave do que a fornicação simples, por ferir a um tempo duas virtudes — a castidade e a justiça —, ao passo que a fornicação fere, em geral, apenas a primeira delas (cf. M. Zalba, Theologiæ Moralis Compendium. Madri, BAC, 1958, vol. 2, p. 767, n. 1405).
  6. Cf. Martin Rhonheimer, op. cit.: “As ações intencionais básicas [isto é, enquanto especificadas por seu fim intrínseco e constitutivo, chamado finis operis por contraposição ao finis operantis, que é extrínseco à ação e corresponde grosso modo ao que este autor denomina ‘intenção’] possuem já em si mesmas uma identidade intencional que é objeto ou conteúdo de atos de eleição. As ações possuidoras dessa identidade têm sentido e são inteligíveis em si mesmas. A este conteúdo inteligível básico dotado de sentido, ‘primeiro’ enquanto fundamental, damos o nome de objeto de uma ação (por exemplo, ‘descansar’), o qual é objeto da razão prática enquanto bem a perseguir ou mal a evitar e cumpre uma descrição (intencional) sob a qual se escolhe esta ação. A estruturação objetivo-intencional das ações é obra da razão. Esta última constitui determinados tipos de ação, como ‘descansar’, ‘trabalhar’, ‘cometer adultério’, ‘assassinar alguém’, ‘alimentar-se’ etc. Todos esses atos não são sucessos naturais, estados físicos nem movimentos corporais, mas ações. Cada uma delas forma um tipo de ação ou uma espécie do gênero ação (um modo de ação)” (p. 151).
  7. M. Zalba, op. cit., p. 762, n. 1389.
  8. Cf. S. Tomás de Aquino, In IV Sent., d. 33, q. 1, a. 3, qc. 2c.: “Não há dúvida de que a fornicação simples é, de si, pecado mortal, ainda que não houvesse lei escrita”; STh II-II 154, 2c: “[…] sem dúvida alguma, há de sustentar-se que a fornicação simples é pecado mortal. Para evidenciá-lo, deve-se considerar que é pecado mortal todo pecado cometido diretamente contra a vida do homem. Ora, a fornicação simples importa uma desordem que recai em prejuízo da vida daquele que nasce de tal união [concubitu]. […] Ora, é evidente que para a educação do homem não só se requer o cuidado da mãe, pela qual é nutrido, mas muito mais o cuidado do pai, por quem deve ser instruído e defendido, e provido de bens tanto interiores quanto exteriores. E por isso é contra a natureza do homem que se unam não casados [quod utatur vago concubitu], senão que é necessário que se una um homem com uma mulher determinada, com a qual permaneça, não por um breve tempo, mas diuturnamente, ou mesmo por toda a vida. E daí provém que, naturalmente, seja importante para os machos da espécie humana a certeza da prole, já que lhes incumbe a educação dela. Esta certeza, porém, desapareceria se a união fosse indeterminada [concubitus vagus]. Ora, esta determinação de uma mulher certa chama-se matrimônio. E por isso se diz que é de direito natural. Mas porque a união sexual [concubitus] se ordena ao bem comum de todo o gênero humano, e os bens comuns caem sob a determinação da lei <humana> […], segue-se que esta conjunção entre um homem e uma mulher, que se chama matrimônio, há de ser determinada por alguma lei […]. Por isso, sendo a fornicação uma união indeterminada [concubitus vagus], por ser feita fora do matrimônio, é contra o bem da prole a ser educada. E por isso é pecado mortal. Não importa que alguém, fornicando com outra, providencie suficientemente educação à prole. Porque o que cai sob a determinação da lei julga-se segundo o que acontece comumente, e não segundo o que em algum caso pode acontecer”.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Vejo vocês na Eucaristia
Espiritualidade

Vejo vocês na Eucaristia

Vejo vocês na Eucaristia

A Eucaristia nos une numa só Igreja, santa, católica e apostólica. Pode ser que jamais nos conheçamos pessoalmente, mas a recepção da Sagrada Comunhão nos une no Corpo místico de Cristo. Não devemos esquecer essa verdade jamais.

Christina Marie SorrentinoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir
“Jovens, exorto-vos com toda a força de minha alma a que vos aproximeis da mesa da Comunhão sempre que puderdes. Alimentai-vos desse pão dos anjos, do qual haveis de obter toda a energia necessária para travar as batalhas interiores. Porque a verdadeira felicidade, caros amigos, não consiste nos prazeres do mundo nem nas coisas terrenas, mas na paz de consciência, que só obteremos se nosso coração e nossa mente forem puros.” — Beato Pier Giorgio Frassati

Quando entendi pela primeira vez que Jesus está realmente presente na Eucaristia? 

Pensei nessa pergunta recentemente durante uma hora de adoração eucarística. Não podia deixar de pensar nisso enquanto estava na igreja, olhando fixamente para a hóstia pequena e branca, o Cristo escondido perante meus olhos.

Lembro-me do momento em que meu coração foi completamente cativado por Cristo. Na época, eu tinha seis anos, e o episódio ocorreu após a celebração de uma Missa dominical. Minha mãe perguntara ao sacerdote se ele poderia explicar-me o que era a Missa. Lembro-me do sorriso radiante no rosto dele enquanto me levava gentilmente pela mão até o altar. Curiosa, olhei para a bela estrutura de mármore enquanto ele pegava o cálice e apontava para a pedra ao lado dele (era a pedra da aliança de casamento de sua avó). O padre me disse que era um cálice especial usado para armazenar o precioso sangue de Cristo. Não pronunciei nenhuma palavra, pois certamente estava tentando compreender aquilo da melhor maneira possível. Tinha apenas seis anos.

Então, o padre virou-se e apontou para a caixa dourada atrás do altar. Ajoelhou-se ao meu lado e me perguntou: “Sabe quem está ali?” O silêncio tomou conta de mim, enquanto permanecia de pé e refletia profundamente, até sussurrar que ali estavam as hóstias. Em seguida ele disse: “Sim, mas quem está ali?” Olhei vagamente para o tabernáculo. Meus olhos estavam fixos na estrutura dourada. Finalmente o padre apontou de novo e disse: “Jesus está ali. Jesus está no sacrário.”

Fiquei completamente admirada com suas palavras, e minha vida nunca mais foi a mesma. A partir daquele momento, depois de cada Missa eu me ajoelhava sobre os genuflexórios revestidos de veludo azul, localizados na capela de Nossa Senhora, de onde era possível ver o santuário. Lá eu permanecia, olhando fixamente para o tabernáculo durante o período que podia permanecer na igreja. Sempre que minha mãe e eu passávamos de carro diante de uma igreja, eu sempre ficava com vontade de entrar nela para ver Jesus.

Depois que aprendemos que Jesus Cristo, Deus feito homem, está real e verdadeiramente na Eucaristia, como poderíamos negar a verdade? Cristo se entrega a nós na Eucaristia — Corpo, Sangue, Alma e Divindade — e quer que recebamos as graças preciosas que Ele nos comunica por meio da Sagrada Comunhão, para que nos unamos à Trindade numa relação ainda mais profunda. Cristo quer que o desejemos e espera por nós em todos os sacrários espalhados pelo mundo. Ele está realmente presente para nós na Eucaristia.   

O dom de si que Jesus nos faz na Eucaristia é um amor que está além das palavras. Naquela pequena hóstia está o mais profundo amor que se pode imaginar, dado a nós pelo dom do sacerdócio em cada Missa que se celebra. O Filho de Deus vem até mim, apesar da minha fraqueza e dos meus pecados.

Nós, católicos, estamos unidos em torno da mesa do Senhor por meio da recepção do verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. A Eucaristia supera a divisão e nos une numa só Igreja, santa, católica e apostólica. Pode ser que jamais nos conheçamos pessoalmente, mas a recepção da Sagrada Comunhão nos une no Corpo místico de Cristo

Não devemos esquecer essa verdade jamais. “Vejo vocês” na Eucaristia.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.