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Cinco razões para acreditar nos santos incorruptos da Igreja Católica
Santos & Mártires

Cinco razões para acreditar nos
santos incorruptos da Igreja Católica

Cinco razões para acreditar nos
santos incorruptos da Igreja Católica

Esses santos morreram e suas almas foram ao encontro de Deus, mas os seus corpos estão intactos e desafiam a ciência até os dias de hoje.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2016
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Hoje em dia, a humanidade conhece muitas técnicas de preservação de corpos, mas a mais famosa de todas começou a ser empregada ainda no Egito Antigo, mais de 5 mil anos atrás. No método chamado de mumificação, os órgãos internos dos faraós eram cuidadosamente removidos, as cavidades do corpo preenchidas com ervas e outros materiais naturais e, depois, os corpos eram banhados em óleos e envoltos em faixas. Tutancâmon, a mais famosa múmia do Egito, por exemplo, foi encontrada por arqueologistas em 1922 e já contava com mais de 3 mil anos de história.

Trata-se, sem dúvida, de um fato impressionante, mas muito distante de um milagre, pelo menos no sentido sobrenatural do termo. Santo Tomás de Aquino, ao explicar o que são milagres ( miracula), lembra a sua semelhança com a palavra mirabilis, de onde vem o nosso adjetivo "admirável" [1]. Assim, qualquer coisa que cause espanto e admiração entre as pessoas pode ser considerada, genericamente, um milagre.

As múmias egípcias, no entanto, eram preservadas intencionalmente. O processo de embalsamamento era complexo e levava em torno de dois meses. Os sacerdotes politeístas e reencarnacionistas procediam assim para manter a identidade dos cadáveres em sua "jornada para o outro mundo". Nesses casos, há uma explicação natural bem clara para o fenômeno. Não se pode falar de intervenção divina nos sarcófagos antigos.

Muito menos se pode chamar de sobrenaturais os episódios de preservação acidental que a literatura moderna reporta acontecer aos montes, em diferentes lugares do mundo. Também esses casos têm uma explicação natural muito simples: ou foram (parcial ou integralmente) isolados de seus agentes decompositores, ou receberam substâncias químicas que os preservaram da decomposição. Em 1865, por exemplo, os habitantes da cidade de Guanajuato, no México, ficaram assustados quando exumaram os corpos de seus conterrâneos e descobriram que eles ainda não tinham sido totalmente consumidos pela terra! A explicação, porém, não se encontrava em nenhum poder mágico, mas simplesmente no solo salgado e seco do cemitério em que os defuntos tinham sido enterrados.

Coisa bem diferente, todavia, é o que acontece com os chamados "santos incorruptos" da Igreja Católica: são santos, porque amaram a Deus de modo extraordinário durante suas vidas; incorruptos, porque seus corpos foram achados espantosamente preservados, sem a intervenção de quaisquer agentes naturais; e diz-se que são especificamente da Igreja Católica, porque em nenhuma outra religião do mundo são achados de modo tão numeroso e constante quanto na Igreja fundada por Cristo. Por isso, esse fenômeno pode muito bem ser considerado como que um "selo" divino da autenticidade da fé católica — ainda que nenhum fiel batizado deva fazer depender desses milagres a sua fé na Revelação cristã.

De qualquer modo, se são autênticos e vieram realmente de Deus, não há por que desprezar essas manifestações sobrenaturais. O problema é que, muitas vezes, as pessoas simplesmente não sabem o que significa esse fenômeno, nem entendem por que eles são um milagre. Por isso, resumimos aqui para você pelo menos cinco motivos para acreditar nos corpos incorruptos dos santos da Igreja:

1. Eles tinham tudo para se decomporem

Cadáveres preservados de modo natural são rapidamente isolados do contato com a umidade, com o calor ou com outros agentes externos.

Com os santos incorruptos, porém, não foi assim.

Só para começar a conversa, muitos deles levaram vários dias para serem enterrados, devido à resistência dos fiéis em se separarem do objeto de sua veneração. Tome-se como exemplo São Bernardino de Siena, que ficou exposto para o culto dos fiéis por 26 dias, ou Santa Ângela Merici, cujo corpo ficou exposto para veneração pelo período de um mês.

Outros tantos foram preservados mesmo em condições extremamente adversas de umidade. Santa Catarina de Gênova permaneceu no túmulo por 18 meses, mas foi achada intacta apesar de sua mortalha estar úmida e deteriorada. Santa Maria Madalena de Pazzi foi desenterrada um ano depois de sua morte e, embora seu hábito estivesse encharcado, seu corpo permaneceu exatamente o mesmo. Nove meses após a sua morte, Santa Teresa de Ávila foi encontrada coberta de terra devido ao rompimento da tampa de seu caixão e, mesmo vestida com pedaços de tecido sujos e decompostos, o seu corpo não se encontrava apenas fresco, mas perfeitamente intacto e ainda exalando uma curiosa fragrância. A mesma resistência à umidade pôde ser verificada nos corpos de São Carlos Borromeu, Santa Catarina de Bolonha, Santa Catarina Labouré e São Charbel Makhlouf.

Outros corpos ainda, como os de São Colmano e São Josafá, resistiram ao ar e à água: o primeiro ficou suspenso por tanto tempo na árvore em que foi enforcado, que todos os habitantes da região se maravilharam com a sua preservação; o segundo, por sua vez, foi lançado em um rio, onde permaneceu por cerca de uma semana, sem sofrer nenhum dano.

São Francisco Xavier, São João da Cruz e São Pascoal Bailão resistiram de modo ainda mais impressionante a substâncias corrosivas que foram lançadas sobre eles. Também eles tinham tudo para se decomporem, mas resistiram milagrosamente.

2. Eles exalam perfumes extraordinários

Esse fenômeno é tão antigo entre os santos da Igreja que a literatura eclesiástica já consagrou a expressão "morrer em odor de santidade". Embora seja usada normalmente em sentido figurado, indicando as boas virtudes com que morreram os homens e mulheres de Deus, essa frase está fundada em um fato: o de que muitos santos realmente exalaram perfumes extraordinários depois de mortos.

Os casos históricos mais notáveis desse fenômeno são os de Santa Liduína, Santa Catarina de Ricci, São Felipe Néri, São Geraldo Majella, São João da Cruz, São Francisco de Paula, Santa Rosa de Viterbo, Santa Gema Galgani e São José de Cupertino.

As testemunhas desse fato extraordinário sempre evitaram quaisquer analogias e semelhanças para descrever a suavidade e a fragrância do odor que perceberam com o olfato. Um especialista foi enviado, certa vez, ao convento da beata e mártir Maria dos Anjos (Espanha, † 1936) para tentar identificar a natureza do perfume que exalava o corpo dessa serva de Deus. Ele teve que confessar que não se parecia com nenhum dos perfumes desta terra. As religiosas, suas companheiras, costumavam chamá-lo "odor de paraíso ou de santidade".

Dos muitos eventos ligados à incorrupção dos corpos, este é sem dúvida um dos mais impressionantes e inexplicáveis. É conhecido o parecer do Papa Bento XIV, na famosa obra que ele escreveu sobre a beatificação dos servos de Deus:

"Que o corpo humano possa naturalmente não cheirar mal, é muito possível; mas que cheire bem está acima de suas forças naturais, como ensina a experiência. Por conseguinte, se o corpo humano, corrompido ou incorrupto, em putrefação ou sem ela [...], exala um odor suave, persistente, que não incomoda a ninguém, mas que parece agradável a todos, deve-se atribui-lo a uma causa superior e deve pensar-se em um milagre." [2]

3. Eles permanecem macios e flexíveis por longos anos

Corpo incorrupto de Santa Bernadette Soubirous, em Nevers, na França.

Múmias preservadas naturalmente trazem consigo um aspecto duro e rígido, comumente chamado de rigor mortis. A maioria dos santos incorruptos, ao contrário, nunca experimentou rigidez cadavérica — muitos permaneceram flexíveis anos após a sua morte, alguns atravessando séculos. Santa Catarina de Bolonha, por exemplo, tinha o corpo tão maleável 12 anos após a sua morte que foi colocado na posição em que se encontra até o dia presente: sentado.

Quem olha para as urnas de alguns santos, principalmente os mais antigos, pode ser tentado a duvidar da sua incorrupção. Na Índia, por exemplo, depois de quase 500 anos, restam praticamente apenas os ossos de São Francisco Xavier. No caso de Santa Bernadette Soubirous, embora o seu corpo esteja intacto desde 1879, já foi aplicada uma camada de cera ao seu rosto. Outros tantos exemplos poderiam evocar dúvidas a respeito da confiabilidade desses milagres. Afinal, a Igreja estaria tentando "maquiar" os seus santos?

Na verdade, o fenômeno da incorrupção não significa incorruptibilidade. A demora de algumas santas relíquias em se corromperem não significa que elas nunca se decomporão — e a Igreja nunca ensinou isso. Um corpo incorrupto não é um corpo indestrutível! Incorruptíveis e gloriosos, só os corpos ressuscitados de Jesus e Maria, que estão no Céu. Os outros — dos santos e servos de Deus — só o serão na ressurreição dos mortos, no fim dos tempos.

Essas observações também são importantes para lembrar o fim com que Deus realiza esses prodígios: conduzir as pessoas à fé em Jesus Ressuscitado. Os santos cujos corpos experimentaram o fenômeno da incorrupção não são "deuses". Eles são membros do Corpo Místico de Cristo e recordam que, assim como Ele não se corrompeu e vive para sempre, aqueles que levam uma existência pura e livre dos vícios nesta terra estão destinados para uma herança eterna e incorruptível no Céu.

4. Eles transpiram sangue e óleos preciosos

Além dos perfumes misteriosos sobre os quais já falamos, outro fenômeno muito comum entre os santos incorruptos é a transpiração de líquidos especiais.

Consta que esse milagre tenha acontecido — para mencionar apenas alguns nomes — com Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Júlia Billiart, Santo Hugo de Avalon, Santa Inês de Montepulciano, Santa Teresa d'Ávila, São Camilo de Lelis e São Pascoal Bailão. O óleo que fluiu várias vezes do corpo da beata clarissa Mattia Nazzarei, que morreu em 1320, continua jorrando sem parar de suas mãos e de seus pés, até os dias de hoje.

Outro caso impressionante é o do religioso libanês Charbel Makhlouf, cujo corpo foi depositado em um túmulo sem caixão, como previa a regra maronita. Exumado quatro meses depois de sua morte, tempo suficiente para a destruição parcial do corpo, São Charbel estava coberto de lama, mas seu aspecto permaneceu natural e flexível por longos anos, emitindo constantemente sangue e água, à semelhança do lado aberto do Redentor. Mais admirável que o fluxo, porém, é a quantidade de líquido que o seu corpo já exsudou, número que supera (e muito) a quantidade normal de qualquer ser humano vivo.

5. Eles foram visitados por luzes sobrenaturais

Ainda que não contribuam em nada para preservar essas relíquias, a aparição de luzes sobre os corpos e as tumbas de alguns desses santos atestam, de certo modo, a sua vocação divina.

A santidade de São Guthlac, por exemplo, foi confirmada por muitas testemunhas, que viram a casa onde ele morreu ser coberta por uma luz brilhante, que saía de lá em direção ao Céu. O perfume que provinha da boca de São Luís Beltrão em seu leito de morte era acompanhado de uma luz intensa que clareou a sua humilde cela por muitos minutos. Vários outros santos foram favorecidos com essa iluminação, incluindo São João da Cruz, Santo Antônio de Stroncone e Santa Joana de Lestonnac.

Mas talvez a mais impressionante manifestação tenha ocorrido, novamente, na tumba de São Charbel Makhlouf. A luz que brilhou intensamente por 45 noites em seu túmulo foi testemunhada por vários habitantes do vilarejo e eventualmente resultou na exumação do seu corpo, revelando os fenômenos que se observam até hoje.

Evidentemente, a Igreja não dá crédito a todo e qualquer caso de incorrupção que é alegado pelas pessoas. As autoridades eclesiásticas preferem trilhar o caminho da prudência, emitindo um parecer definitivo só depois que os fatos apresentados ao seu juízo se mostrem inexplicáveis à ciência humana.

A mesma posição de cautela deve ser recomendada a todos os fiéis. Sem se deixarem contaminar pelo ceticismo doentio do mundo, lembrem-se sempre do fim com que Deus opera essas grandes maravilhas: levar as pessoas à fé em Seu divino Filho e em Sua Santa Igreja. É para Ele, Jesus Cristo, que apontam todos os santos e santas da Igreja, principalmente os que, por um dom de Deus, receberam em seus corpos mortais a dádiva da incorrupção.

Referências

  1. Suma contra os gentios, III, 101.
  2. De servorum Dei beatificatione, XXXI, 24.

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A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019
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I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

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Igreja, não museu
Igreja Católica

Igreja, não museu

Igreja, não museu

Sem o olhar da fé, que é o incêndio que afetou a Catedral de Notre-Dame de Paris senão a destruição de um simples “museu”?

Pe. Benedict KielyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2019
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Muito já se escreveu, horas após o fogo que devastou a Catedral de Notre-Dame de Paris, a respeito do “caráter emblemático” do edifício, do seu valor como patrimônio da humanidade e do fato, notado pelo Papa Francisco, de que o edifício constitui “um tesouro arquitetônico de memória coletiva”. Foi necessário, no entanto, que o arcebispo de Paris, Michel Aupetit, um ex-médico — discreto, mas profundo —, viesse responder (com uma pergunta retórica) o porquê de o edifício ser um “tesouro”.

Entrevistado pela TV francesa, Dom Aupetit disse simplesmente que a magnífica basílica foi construída por uma razão, e não era ser um “tesouro”, nem mesmo abrigar a Coroa de Espinhos de Nosso Senhor; Notre-Dame existe para un morceau de pain, isto é, para “um pedaço de pão” — o pão que, ele explicou, os católicos acreditam ser o Corpo de Cristo.

Todas as igrejas católicas — desde a magnificência de uma Notre-Dame em Paris ou de uma Basílica de São Pedro em Roma, até uma igrejinha do interior ou uma cabana de barro em terra de missão —, estando nelas presente a Eucaristia, foram construídas para ser domus Dei, a “casa de Deus”. Para um católico, a ausência real que sentimos na Sexta-feira Santa, quando o sacrário fica vazio e a sua luz se apaga, é uma confirmação palpável de que, em certo sentido, uma igreja onde não está presente o morceau de pain não passa de uma “igreja zumbi”, aparentemente viva, mas na verdade morta.

Com razão o mundo, especialmente aquelas partes que se consideram civilizadas, horrorizou-se ao ver o Estado Islâmico destruindo antigos artefatos da civilização mesopotâmica e tentando destruir a cidade de Palmira, na Síria. Notre-Dame de Paris é um patrimônio da humanidade, uma obra de arte cuja beleza é apreciada por pessoas de todos os credos, e até pelas que não possuem credo nenhum. O edifício fala, entretanto, não apenas da massiva contribuição que a cultura cristã ofereceu para criar a civilização ocidental (contribuição ignorada pela Constituição da União Europeia), mas também da fé viva sem a qual a basílica seria apenas um museu.

A basílica de Nossa Senhora em Paris leva esse nome não para “honrar o edifício como se ele fosse uma mãe” (como disse um repórter na internet, ilustrando a crescente ignorância religiosa da mídia), mas porque foi dedicado à Mãe de Deus, o primeiro tabernáculo vivo da Palavra feito carne. Esse “ícone” aponta para algo maior do que o homem; sua verticalidade e visibilidade são sinais do transcendente; o que nele sobressai é a verdade da fé a partir da qual tantos trabalharam por mais de um século para construí-la.

Quando os monstros que tocaram o terror da Revolução Francesa profanaram a basílica, dando-lhe o nome de templo do “Culto da Razão”, destruindo imagens de Nossa Senhora e substituindo-a pela “deusa da liberdade”, em certo sentido a basílica deixou de existir. Mas, assim como, em países que saíram do comunismo, igrejas que haviam sido usadas como salões de esportes ou cinemas voltaram ao seu uso sagrado, também Notre-Dame retornou à sua antiga glória com os sacramentos sendo celebrados novamente em seu interior.

O Estado francês é proprietário de Notre-Dame de Paris, mas, de acordo com a lei de 1905, a Igreja Católica detém os “direitos exclusivos de usá-la para propósitos religiosos perpetuamente”. O presidente Macron teria dito que a basílica será reconstruída “de uma maneira consistente com nossa nação moderna e cheia de diversidade”. O que se espera é que, por “diversidade”, ele queira se referir simplesmente à ampla variedade de artistas e habilidades que se unirão para restaurar o edifício ao longo dos anos.

Falando aos bispos franceses durante sua visita ad limina apostolorum em 1997, o Papa João Paulo II parabenizou o Estado francês pelo seu cuidado com tantas catedrais e igrejas católicas, mas — ele lembrou na ocasião — a liturgia “deve ser sempre a verdadeira raison d’etre (razão de ser) desses monumentos”.

Notre-Dame, esta “casa do pão” — o morceau de pain que é o Corpo de Cristo — será reconstruída, e a basílica será igreja viva. Não deixará de ser um “tesouro arquitetônico de memória coletiva”, mas não será nunca um museu.

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“Nós, os leprosos”: o sacrifício do Padre Damião
Santos & Mártires

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. E dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim ele não deixaria os leprosos.

W. M. Jackson, Inc.15 de Abril de 2019
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Num mesmo seminário da Bélgica se achavam dois irmãos, preparando-se para o sacerdócio. O mais velho devia ser em breve missionário e, nessa qualidade, ir para as ilhas dos mares do sul. Brilhavam-lhe os olhos, esfregava as mãos de contente, sempre que se referia à obra que o esperava além-mar.

Um dia, porém, adoeceu gravemente, e teve de recolher-se ao leito. Era presa de uma febre terrível, e ainda mais empalidecia e se definhava ao pensar na inação a que a doença o obrigava. O irmão mais novo, vindo-lhe à cabeceira, disse um dia com carinho: “Sentir-te-ias melhor se eu ocupasse o teu lugar de missionário?” Os olhos do doente brilharam um momento e ele apertou, sorrindo, as mãos do irmão, o qual escreveu secretamente às autoridades, pedindo permissão para partir em seu lugar.

Um dia, quando estudava, veio ter com ele o diretor do seminário e informou-o de que estava autorizada a sua ida. O rapaz levantou-se, saiu a correr do quarto e percorreu o pátio aos pulos, como um animal selvagem.

“Enlouqueceu?”, perguntavam os colegas.

E por que José Damião mostrava tanta alegria, se afinal ia para um exílio? Por que desejaria abandonar a terra feliz onde se falava sua língua e cujos costumes lhe eram familiares? Por que razão iria trabalhar entre selvagens, para além de mares longínquos, tornando-se invisível aos amigos e deles esquecido?

É que já abandonara o mundo para ser sacerdote e amava, mais que à pompa do mundo, mais que à paz do lar, mais que ao amor de pai e mãe, o Redentor.

Amá-lo e segui-lo, praticando o bem, tornou-se o seu ideal.

José Damião, com um entusiasmo de moço, partiu para as ilhas dos mares do sul e ali missionou. Trabalhou com firmeza e nobremente até a idade de trinta e três anos. Então, um dia, em sua missão entre o povo, ouviu dizer o bom bispo que infelizmente não tinha quem mandar aos pobres leprosos de Molokai, e que esses infelizes estavam entregues não só àquele terrível mal como ainda a pecados terríveis.

José Damião, cuja alma muitas vezes se tinha condoído ao ouvir falar dos leprosos, pediu ao bispo que o mandasse, e o seu oferecimento foi aceito.

Aqui estava outro sacrifício ainda mais respeitável: ir dos selvagens para os leprosos representava abnegação maior do que da Bélgica para os selvagens. Os leprosos viviam isolados, longe de toda a gente, evitados por todos. Estavam fora da humanidade. O mal que lhes roía os corpos tornava-lhes as almas também ruins. Suas cabanas eram verdadeiras pocilgas; viviam como animais; eram horríveis e ver, e mais ainda depois de conhecidos. Não podem vocês imaginar os horrores de Molokai. Deles só uma pequena parte bastaria para impressionar.

Mas o padre Damião levou aos desgraçados a mensagem simples de que Deus os amava; e o seu rosto alegre, a sua voz terna, o seu olhar acarinhador, e, mais que tudo isso, a fé ardente e viva que punha nas suas palavras, converteu-os em filhos do Senhor. Começaram a arrepender-se dos pecados, começaram a sentir que, em verdade, talvez Deus os amasse. Ao menos uma coisa era certa: amava-os o padre Damião.

Dezesseis anos viveu este homem santo e bom entre os leprosos. Ergueu uma igreja, a que se afeiçoaram muito, construiu-lhes casas mais confortáveis, deu-lhes um melhor fornecimento de água, foi seu enfermeiro, tratando das suas chagas horrendas; confortava-os à hora da morte e cavava as suas sepulturas.

Padre Damião, fotografado por William Brigham.

Ouviu-se, então, falar deste padre que trabalhava sozinho entre os leprosos. Escreveram-lhe, mandaram-lhe caixotes de coisas úteis para a sua gente, e houve mesmo quem lá fosse visitá-lo e ajudá-lo. Durante muitos anos trabalhou entre os infelizes, mas por fim foi ele próprio vítima do horrível mal. Um dia entornou água a ferver, e ela lhe caiu num pé. Estranhou não sentir dor nenhuma. Procurou um médico. “Tenho a lepra?”, perguntou. “Sinto informá-lo”, respondeu o médico, “mas está, com efeito, leproso”. Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. Sentia-se perfeitamente feliz. Dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim não deixaria os leprosos. Continuou trabalhando, com a morte a roer-lhe feroz e vorazmente o corpo.

Quando o levaram para o leito, agradeceu a Deus todos os benefícios e confortos recebidos. Dois padres e irmãs de caridade ajoelharam-se-lhe ao pé do leito.

— Quando estiver no céu, padre Damião — perguntou um deles — não esquecerá estes órfãos que aqui deixa?

— Não, não! — disse, sorrindo, o bom padre. Se algum valimento tiver ante Deus, rezarei por todos que estão no Leprosário.

— E — tornou o padre ajoelhado — não me deixará, como Elias, o seu manto?

— Para quê? — replicou o padre Damião. E depois acrescentou lentamente: Está cheio de lepra.

Nenhum rei teve, porém, manto mais belo!

É que toda a sua vida tinha sido um longo ato de heroísmo.

Referências

  • Extraído de “O melhor do tesouro da juventude”, de W. M. Jackson, Inc., v. 1, Editora Concreta, pp. 90-92 (grifos nossos).

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Quando um protestante descobriu que a Missa é o sacrifício da Cruz
Testemunhos

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando Scott Hahn ficou sabendo que os católicos ensinavam ser a Eucaristia a renovação do sacrifício do Calvário, relação que ele só descobriu depois de muita investigação, primeiro ele ficou furioso e despeitado. Mas depois...

José Maria C. S. André15 de Abril de 2019
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Durante a Semana Santa, que começa hoje, a liturgia católica leva-nos a viver uma Páscoa judaica surpreendente. Recordo a perplexidade de Scott Hahn, hoje um grande biblista católico, no tempo em que ele ainda era protestante. Um dia, ao fio dos Evangelhos, o pregador da sua comunidade protestante foi seguindo os passos da Última Ceia, conforme o cânone habitual da Páscoa judaica.

Até dada altura, tudo decorria da forma habitual, ainda que num clima de extraordinária intensidade. A minúcia dos preparativos, da sala e da celebração, anunciava algo especial e Cristo começou por alertar os discípulos para a importância do momento: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer”.

A celebração judaica começa com as abluções rituais. O mais novo da família leva uma jarra e uma bandeja, deitando a água da purificação sobre as pontas dos dedos de cada um. Neste caso, não foi o menos importante — foi o próprio Cristo! — Quem fez a ablução. E não derramou água sobre os dedos: pôs uma toalha à cintura e lavou os pés a cada um dos discípulos. Pedro recusa uma coisa dessas! Depois, é tal a insistência de Cristo, que aceita...

Seguiram-se os salmos do costume e vários cálices rituais, em ação de graças, como símbolo da Aliança do Povo com Deus, etc., até que Cristo altera o sentido de tudo ao estabelecer uma Aliança nova: “Este cálice é a nova Aliança no meu Sangue, derramado por vós”. Neste momento, Cristo coloca-Se a Si próprio como novo centro da ação litúrgica: “todas as vezes que o beberdes, fazei isto em memória de Mim”.

Há outros elementos revolucionários naquela celebração pascal, mas o que mais surpreendeu Scott Hahn e a sua congregação protestante foi que, imediatamente antes do momento culminante, que seria o cálice da Consumação, Cristo interrompe a cerimônia. Não só interrompe, como o declara solenemente, como se fizesse de propósito: “não tornarei a beber o fruto da videira, até àquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus”. Levantaram-se, pois, e saíram para o Monte das Oliveiras. A comunidade de Scott Hahn não sabia o que pensar. Talvez Jesus estivesse perturbado pela iminência da morte, talvez se tivesse esquecido de concluir a cerimônia da Páscoa…

Hahn decidiu reler os Evangelhos de uma ponta à outra, à procura do cálice que faltava, o cálice da Consumação. A conclusão imediata é que não tinha havido esquecimento, quase se diria que Jesus não pensava noutra coisa. Jesus sai do cenáculo da Última Ceia a falar do cálice que faltava: “Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice! Mas não se faça a minha vontade mas a tua”. “Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!...”. Chegam Judas e os soldados, Pedro pega numa espada e corta a orelha de Malco, um criado do Sumo Sacerdote. Jesus cura milagrosamente o ferido e diz a Pedro “Mete a tua espada na bainha. Eu não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?”.

Aquele cálice, vinha inclusivamente de muito antes. Ao pedido da mãe de Tiago e João, responde com um desafio misterioso: “Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber, ou ser batizados no baptismo com que Eu vou ser batizado?” — qual cálice, tão singular? Qual batismo, se Jesus já tinha sido batizado no Jordão?

No final da Paixão, pendurado da Cruz, momentos antes de morrer, ressurge a referência à consumação da Aliança. “Sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse ‘tenho sede’. Havia ali um vaso de vinagre…” e um dos que estavam ali “correu a tomar uma esponja, ensopou-a, pô-la sobre uma cana e deu-Lhe de beber”... “Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Tendo-o provado, não quis beber”. Não, aquele vinho misturado com fel não era o cálice esperado; aquele “tenho sede” não era a pedir aquele vinho. Imediatamente a seguir, Jesus exclama “Tudo está consumado!” e, inclinando a cabeça, expirou.

O Dr. Scott Hahn.

De repente, Scott Hahn percebeu que a Última Ceia só terminava no Calvário, no momento em que se estabelece a nova Aliança “no sangue derramado por Cristo”. A Última Ceia é uma unidade com todo o oferecimento de Cristo na Paixão. Participar na Missa é participar no Sacrifício de Cristo na Cruz. Como diz S. Paulo aos de Corinto, “porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?”. Cristo é, como diz S. Paulo a seguir, “a vítima imolada no altar”. S. Paulo recorda como o próprio Jesus tinha avisado os discípulos, na Última Ceia, de que aquele vinho consagrado apontava para a sua morte no Calvário: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”.

Um dia, na universidade protestante em que dava aulas, Scott Hahn apresentou esta sua investigação e ouviu um comentário de um aluno que tinha tido catequese católica em pequeno: “Isso faz todo o sentido, mas recorda-me o catecismo de Baltimore! [1]”. Scott nunca tinha ouvido falar de um “catecismo de Baltimore”, porque era um livrinho elementar, o primeiro catecismo das crianças católicas da época, e por isso ainda acusou mais o toque [2]. Então, os católicos, esses heréticos, ensinam às crianças que a Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário?! Algo que ele só tinha descoberto ao fim de tanto esforço de investigação?!

Primeiro, Scott ficou furioso, despeitado. Depois, continuou a investigar e fez-se católico.

Referências

  • José Maria C. S. André in Correio dos Açores, 25 mar. 2018, publicado em Senza Pagare.

Notas

  1. O “Catecismo de Baltimore” foi o catecismo oficial para crianças adotado nos Estados Unidos até 1960 (Nota da Equipe CNP).
  2. “Acusar o toque” é expressão lusitana, e significa deixar transparecer dúvida por afirmação de outra pessoa (Nota da Equipe CNP).

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