Cinco razões para acreditar nos santos incorruptos da Igreja Católica
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Cinco razões para acreditar nos santos incorruptos da Igreja Católica
Santos & Mártires

Cinco razões para acreditar nos
santos incorruptos da Igreja Católica

Cinco razões para acreditar nos santos incorruptos da Igreja Católica

Esses santos morreram e suas almas foram ao encontro de Deus, mas os seus corpos estão intactos e desafiam a ciência até os dias de hoje.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2016Tempo de leitura: 9 minutos
imprimir

Hoje em dia, a humanidade conhece muitas técnicas de preservação de corpos, mas a mais famosa de todas começou a ser empregada ainda no Egito Antigo, mais de 5 mil anos atrás. No método chamado de mumificação, os órgãos internos dos faraós eram cuidadosamente removidos, as cavidades do corpo preenchidas com ervas e outros materiais naturais e, depois, os corpos eram banhados em óleos e envoltos em faixas. Tutancâmon, a mais famosa múmia do Egito, por exemplo, foi encontrada por arqueologistas em 1922 e já contava com mais de 3 mil anos de história.

Trata-se, sem dúvida, de um fato impressionante, mas muito distante de um milagre, pelo menos no sentido sobrenatural do termo. Santo Tomás de Aquino, ao explicar o que são milagres ( miracula), lembra a sua semelhança com a palavra mirabilis, de onde vem o nosso adjetivo "admirável" [1]. Assim, qualquer coisa que cause espanto e admiração entre as pessoas pode ser considerada, genericamente, um milagre.

As múmias egípcias, no entanto, eram preservadas intencionalmente. O processo de embalsamamento era complexo e levava em torno de dois meses. Os sacerdotes politeístas e reencarnacionistas procediam assim para manter a identidade dos cadáveres em sua "jornada para o outro mundo". Nesses casos, há uma explicação natural bem clara para o fenômeno. Não se pode falar de intervenção divina nos sarcófagos antigos.

Muito menos se pode chamar de sobrenaturais os episódios de preservação acidental que a literatura moderna reporta acontecer aos montes, em diferentes lugares do mundo. Também esses casos têm uma explicação natural muito simples: ou foram (parcial ou integralmente) isolados de seus agentes decompositores, ou receberam substâncias químicas que os preservaram da decomposição. Em 1865, por exemplo, os habitantes da cidade de Guanajuato, no México, ficaram assustados quando exumaram os corpos de seus conterrâneos e descobriram que eles ainda não tinham sido totalmente consumidos pela terra! A explicação, porém, não se encontrava em nenhum poder mágico, mas simplesmente no solo salgado e seco do cemitério em que os defuntos tinham sido enterrados.

Coisa bem diferente, todavia, é o que acontece com os chamados "santos incorruptos" da Igreja Católica: são santos, porque amaram a Deus de modo extraordinário durante suas vidas; incorruptos, porque seus corpos foram achados espantosamente preservados, sem a intervenção de quaisquer agentes naturais; e diz-se que são especificamente da Igreja Católica, porque em nenhuma outra religião do mundo são achados de modo tão numeroso e constante quanto na Igreja fundada por Cristo. Por isso, esse fenômeno pode muito bem ser considerado como que um "selo" divino da autenticidade da fé católica — ainda que nenhum fiel batizado deva fazer depender desses milagres a sua fé na Revelação cristã.

De qualquer modo, se são autênticos e vieram realmente de Deus, não há por que desprezar essas manifestações sobrenaturais. O problema é que, muitas vezes, as pessoas simplesmente não sabem o que significa esse fenômeno, nem entendem por que eles são um milagre. Por isso, resumimos aqui para você pelo menos cinco motivos para acreditar nos corpos incorruptos dos santos da Igreja:

1. Eles tinham tudo para se decomporem

Cadáveres preservados de modo natural são rapidamente isolados do contato com a umidade, com o calor ou com outros agentes externos.

Com os santos incorruptos, porém, não foi assim.

Só para começar a conversa, muitos deles levaram vários dias para serem enterrados, devido à resistência dos fiéis em se separarem do objeto de sua veneração. Tome-se como exemplo São Bernardino de Siena, que ficou exposto para o culto dos fiéis por 26 dias, ou Santa Ângela Merici, cujo corpo ficou exposto para veneração pelo período de um mês.

Outros tantos foram preservados mesmo em condições extremamente adversas de umidade. Santa Catarina de Gênova permaneceu no túmulo por 18 meses, mas foi achada intacta apesar de sua mortalha estar úmida e deteriorada. Santa Maria Madalena de Pazzi foi desenterrada um ano depois de sua morte e, embora seu hábito estivesse encharcado, seu corpo permaneceu exatamente o mesmo. Nove meses após a sua morte, Santa Teresa de Ávila foi encontrada coberta de terra devido ao rompimento da tampa de seu caixão e, mesmo vestida com pedaços de tecido sujos e decompostos, o seu corpo não se encontrava apenas fresco, mas perfeitamente intacto e ainda exalando uma curiosa fragrância. A mesma resistência à umidade pôde ser verificada nos corpos de São Carlos Borromeu, Santa Catarina de Bolonha, Santa Catarina Labouré e São Charbel Makhlouf.

Outros corpos ainda, como os de São Colmano e São Josafá, resistiram ao ar e à água: o primeiro ficou suspenso por tanto tempo na árvore em que foi enforcado, que todos os habitantes da região se maravilharam com a sua preservação; o segundo, por sua vez, foi lançado em um rio, onde permaneceu por cerca de uma semana, sem sofrer nenhum dano.

São Francisco Xavier, São João da Cruz e São Pascoal Bailão resistiram de modo ainda mais impressionante a substâncias corrosivas que foram lançadas sobre eles. Também eles tinham tudo para se decomporem, mas resistiram milagrosamente.

2. Eles exalam perfumes extraordinários

Esse fenômeno é tão antigo entre os santos da Igreja que a literatura eclesiástica já consagrou a expressão "morrer em odor de santidade". Embora seja usada normalmente em sentido figurado, indicando as boas virtudes com que morreram os homens e mulheres de Deus, essa frase está fundada em um fato: o de que muitos santos realmente exalaram perfumes extraordinários depois de mortos.

Os casos históricos mais notáveis desse fenômeno são os de Santa Liduína, Santa Catarina de Ricci, São Felipe Néri, São Geraldo Majella, São João da Cruz, São Francisco de Paula, Santa Rosa de Viterbo, Santa Gema Galgani e São José de Cupertino.

As testemunhas desse fato extraordinário sempre evitaram quaisquer analogias e semelhanças para descrever a suavidade e a fragrância do odor que perceberam com o olfato. Um especialista foi enviado, certa vez, ao convento da beata e mártir Maria dos Anjos (Espanha, † 1936) para tentar identificar a natureza do perfume que exalava o corpo dessa serva de Deus. Ele teve que confessar que não se parecia com nenhum dos perfumes desta terra. As religiosas, suas companheiras, costumavam chamá-lo "odor de paraíso ou de santidade".

Dos muitos eventos ligados à incorrupção dos corpos, este é sem dúvida um dos mais impressionantes e inexplicáveis. É conhecido o parecer do Papa Bento XIV, na famosa obra que ele escreveu sobre a beatificação dos servos de Deus:

"Que o corpo humano possa naturalmente não cheirar mal, é muito possível; mas que cheire bem está acima de suas forças naturais, como ensina a experiência. Por conseguinte, se o corpo humano, corrompido ou incorrupto, em putrefação ou sem ela [...], exala um odor suave, persistente, que não incomoda a ninguém, mas que parece agradável a todos, deve-se atribui-lo a uma causa superior e deve pensar-se em um milagre." [2]

3. Eles permanecem macios e flexíveis por longos anos

Corpo incorrupto de Santa Bernadette Soubirous, em Nevers, na França.

Múmias preservadas naturalmente trazem consigo um aspecto duro e rígido, comumente chamado de rigor mortis. A maioria dos santos incorruptos, ao contrário, nunca experimentou rigidez cadavérica — muitos permaneceram flexíveis anos após a sua morte, alguns atravessando séculos. Santa Catarina de Bolonha, por exemplo, tinha o corpo tão maleável 12 anos após a sua morte que foi colocado na posição em que se encontra até o dia presente: sentado.

Quem olha para as urnas de alguns santos, principalmente os mais antigos, pode ser tentado a duvidar da sua incorrupção. Na Índia, por exemplo, depois de quase 500 anos, restam praticamente apenas os ossos de São Francisco Xavier. No caso de Santa Bernadette Soubirous, embora o seu corpo esteja intacto desde 1879, já foi aplicada uma camada de cera ao seu rosto. Outros tantos exemplos poderiam evocar dúvidas a respeito da confiabilidade desses milagres. Afinal, a Igreja estaria tentando "maquiar" os seus santos?

Na verdade, o fenômeno da incorrupção não significa incorruptibilidade. A demora de algumas santas relíquias em se corromperem não significa que elas nunca se decomporão — e a Igreja nunca ensinou isso. Um corpo incorrupto não é um corpo indestrutível! Incorruptíveis e gloriosos, só os corpos ressuscitados de Jesus e Maria, que estão no Céu. Os outros — dos santos e servos de Deus — só o serão na ressurreição dos mortos, no fim dos tempos.

Essas observações também são importantes para lembrar o fim com que Deus realiza esses prodígios: conduzir as pessoas à fé em Jesus Ressuscitado. Os santos cujos corpos experimentaram o fenômeno da incorrupção não são "deuses". Eles são membros do Corpo Místico de Cristo e recordam que, assim como Ele não se corrompeu e vive para sempre, aqueles que levam uma existência pura e livre dos vícios nesta terra estão destinados para uma herança eterna e incorruptível no Céu.

4. Eles transpiram sangue e óleos preciosos

Além dos perfumes misteriosos sobre os quais já falamos, outro fenômeno muito comum entre os santos incorruptos é a transpiração de líquidos especiais.

Consta que esse milagre tenha acontecido — para mencionar apenas alguns nomes — com Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Júlia Billiart, Santo Hugo de Avalon, Santa Inês de Montepulciano, Santa Teresa d'Ávila, São Camilo de Lelis e São Pascoal Bailão. O óleo que fluiu várias vezes do corpo da beata clarissa Mattia Nazzarei, que morreu em 1320, continua jorrando sem parar de suas mãos e de seus pés, até os dias de hoje.

Outro caso impressionante é o do religioso libanês Charbel Makhlouf, cujo corpo foi depositado em um túmulo sem caixão, como previa a regra maronita. Exumado quatro meses depois de sua morte, tempo suficiente para a destruição parcial do corpo, São Charbel estava coberto de lama, mas seu aspecto permaneceu natural e flexível por longos anos, emitindo constantemente sangue e água, à semelhança do lado aberto do Redentor. Mais admirável que o fluxo, porém, é a quantidade de líquido que o seu corpo já exsudou, número que supera (e muito) a quantidade normal de qualquer ser humano vivo.

5. Eles foram visitados por luzes sobrenaturais

Ainda que não contribuam em nada para preservar essas relíquias, a aparição de luzes sobre os corpos e as tumbas de alguns desses santos atestam, de certo modo, a sua vocação divina.

A santidade de São Guthlac, por exemplo, foi confirmada por muitas testemunhas, que viram a casa onde ele morreu ser coberta por uma luz brilhante, que saía de lá em direção ao Céu. O perfume que provinha da boca de São Luís Beltrão em seu leito de morte era acompanhado de uma luz intensa que clareou a sua humilde cela por muitos minutos. Vários outros santos foram favorecidos com essa iluminação, incluindo São João da Cruz, Santo Antônio de Stroncone e Santa Joana de Lestonnac.

Mas talvez a mais impressionante manifestação tenha ocorrido, novamente, na tumba de São Charbel Makhlouf. A luz que brilhou intensamente por 45 noites em seu túmulo foi testemunhada por vários habitantes do vilarejo e eventualmente resultou na exumação do seu corpo, revelando os fenômenos que se observam até hoje.

Evidentemente, a Igreja não dá crédito a todo e qualquer caso de incorrupção que é alegado pelas pessoas. As autoridades eclesiásticas preferem trilhar o caminho da prudência, emitindo um parecer definitivo só depois que os fatos apresentados ao seu juízo se mostrem inexplicáveis à ciência humana.

A mesma posição de cautela deve ser recomendada a todos os fiéis. Sem se deixarem contaminar pelo ceticismo doentio do mundo, lembrem-se sempre do fim com que Deus opera essas grandes maravilhas: levar as pessoas à fé em Seu divino Filho e em Sua Santa Igreja. É para Ele, Jesus Cristo, que apontam todos os santos e santas da Igreja, principalmente os que, por um dom de Deus, receberam em seus corpos mortais a dádiva da incorrupção.

Referências

  1. Suma contra os gentios, III, 101.
  2. De servorum Dei beatificatione, XXXI, 24.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Novena ao Beato Carlos da Áustria
Oração

Novena ao
Beato Carlos da Áustria

Novena ao Beato Carlos da Áustria

Diferente das novenas comuns, esta é um conjunto de meditações sobre diferentes aspectos da vida e espiritualidade do Beato Carlos da Áustria. Sua festa litúrgica se celebra em 21 de outubro, data de seu casamento com a Serva de Deus Zita.

Mons. Reinhard KnittelTradução: Irmã Joana da Cruz, O.C.D.12 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 27 minutos
imprimir

Mais do que uma novena comum, o texto a seguir — escrito pelo Mons. Reinhard Knittel [1] e vertido para a língua portuguesa pela Irmã Joana da Cruz, O.C.D. — é um conjunto de nove meditações sobre diferentes aspectos do perfil espiritual do Beato Imperador Carlos da Áustria. 

Tratando de temas como a devoção do monarca ao Sagrado Coração de Jesus e à Santíssima Virgem Maria, suas virtudes como governante e pai de família e sua conformidade à vontade de Deus, tais reflexões não só falam profundamente ao homem moderno, como nos dão a conhecer melhor a figura deste grande confessor, convidando-nos à imitação de suas virtudes.

Às meditações seguem-se algumas orações para cada um dos dias, que podem ser acompanhadas, ainda, por uma ladainha devocional em honra ao Beato Carlos da Áustria [2]. Embora ele tenha falecido em 1.º de abril de 1922, sua festa litúrgica se celebra no dia 21 de outubro — data em que ele e a Serva de Deus Zita se casaram.


I. Veneração para com o Santíssimo Sacramento

O Beato Carlos viveu sob a glória do Santíssimo Sacramento. Os raios de graça que procediam deste resplendor atraíram-no, e agradava-lhe visitar o tabernáculo. Quer cansado devido às solicitações do governo, quer como o modo usual de iniciar seu dia, ele buscava orientação e consolo diante de Jesus Cristo no tabernáculo. Em todos os lugares em que viveu, procurou ter uma capela privada onde o Santíssimo Sacramento pudesse ser conservado. Sua devoção para com a Eucaristia manifestou-se mesmo em pequenos detalhes, como na sua preocupação para que a lamparina do santuário nunca estivesse apagada. Várias vezes durante o dia, ele costumava dizer: “Preciso ir ver se a lamparina do altar ainda está queimando”. Quando dizia isso, todos sabiam que ficaria afastado por algum tempo, rezando de joelhos diante do Santíssimo Sacramento.

Sua oração e meditação eram tão profundas que, não raro, ele não percebia o que estava acontecendo ao seu redor. Por exemplo, com frequência, ficava tão absorto em oração que não se dava conta de que a cesta da coleta estava sendo passada. Com o intuito de não perturbá-lo, a Imperatriz Zita persuadiu-o a segurar sua oferta na mão desde o início da Missa, de modo que ela poderia, assim, cutucar seu braço para que ele lançasse o dinheiro na cesta no momento oportuno.

O Padre Maurus Carnot, O.S.B., testemunhou a respeito do Imperador Carlos: 

Em Disentis [Suíça], não importava se estava nevando ou se havia acúmulos de neve no caminho, era sempre pontual para a Santa Missa na Igreja de Santa Maria, onde recebia a Santa Comunhão durante as Missas em que o Príncipe Herdeiro Otto, com seus cabelos cacheados de criança, servia como coroinha…

Durante a doença que levou o Imperador à morte, ele teve os mais fortes desejos de receber, com frequência, a Santa Comunhão. A Santa Missa era regularmente celebrada na sala contígua ao seu quarto de enfermo. No início, a porta era deixada entreaberta, de maneira que ele pudesse assistir à Missa sem perder a privacidade ou pôr outras pessoas em risco de contágio, mas logo pediu para que a porta fosse deixada bem aberta, dizendo: “Desejo muito ver o altar!” Tinha tanto respeito para com a Eucaristia que, certa vez, ia privar-se de recebê-la por temer que seus constantes acessos de tosse viessem a profanar a hóstia. É de se notar que, durante os ritos sagrados, sua tosse cessou completamente e ele pôde comungar. 

Em outra ocasião, durante a Missa, ele sentiu-se impelido pelo Senhor a receber a Comunhão. Quando disse à Imperatriz Zita que comunicasse ao sacerdote que ele desejava comungar, ela lhe respondeu que isso seria impossível, pois a Condessa Mensdorff iria receber a única hóstia consagrada. Não houve meios de dissuadir o Imperador Carlos e, então, a Imperatriz Zita dirigiu-se ao sacerdote e viu que também ele deveria ter ouvido uma voz interior, pois tinha consagrado mais uma hóstia para o Imperador.

Assim como o Imperador Carlos viveu, assim também morreu. Durante a vida, ele estava unido a Nosso Senhor Eucarístico, e o Santíssimo Sacramento foi o centro de sua vida quando de sua morte. Meia hora antes de falecer, desejou receber a Santa Comunhão. Embora suas feições estivessem pálidas e macilentas devido à longa e extenuante luta contra a doença, seu rosto resplandeceu de alegria quando recebeu a Eucaristia. Este brilho permaneceu em sua fisionomia depois da morte. Nos derradeiros momentos do Imperador, o Padre Zsámboki segurou o Santíssimo Sacramento diante de seus olhos e, na presença da Eucaristia, ele pronunciou suas últimas palavras: “Seja feita a vossa vontade. Jesus, Jesus, vinde!” Com seu último suspiro, disse baixinho: “Jesus!”

Agora, ele já entrou naquela luz eterna simbolizada pela lamparina do santuário, da qual ele tão esmeradamente cuidou em sua capela.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, conforme o maravilhoso exemplo do vosso servo, o Imperador Carlos, irei visitar-vos frequentemente no tabernáculo e receber-vos com alegria e desejo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

II. Um Imperador devoto do Sagrado Coração de Jesus

“Jesus, manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso”. No dia 2 de outubro de 1918, o Beato Carlos consagrou sua pessoa e sua família ao Sagrado Coração de Jesus.

Mediante seu sofrimento por ser mal compreendido, difamado e perseguido, mediante sua disposição para sacrificar a própria vida em favor de seus povos, mediante seu exílio e, ainda, mediante a penosa doença que o conduziu à morte, o Imperador Carlos permitiu que seu coração fosse forjado em união com o Sagrado Coração de Jesus.

Mesmo no exílio e doente, ele levou muito a peito e com grande seriedade seus deveres de monarca e pai de seus povos. Em virtude de sua enfermidade, a Imperatriz Zita lia-lhe os jornais, mas percebia que os artigos excitavam-no e faziam-no preocupar-se muito. Insistiu com ele para que não lhe pedisse para fazer-lhe as leituras, pois aquilo não era bom para sua saúde. Mas o Imperador Carlos replicou: “Estar informado é meu dever, não meu prazer. Por favor, leia!

Sua devoção para com o Sagrado Coração de Jesus fortaleceu-o durante sua dolorosa e última doença. Em seu leito de enfermo, disse à Condessa Mensdorff: “É tão bom ter fé no Sagrado Coração de Jesus! Se não fosse isso, seria impossível suportar esses sofrimentos”.

O Beato Carlos, por toda a sua vida e também durante sua doença, trouxe, debaixo do seu travesseiro, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Certa vez, quando a Imperatriz Zita quis que ele conseguisse ter um pouco do tão necessário sono, ela tirou o quadro de debaixo do travesseiro e segurou-o diante dos olhos do Imperador, dizendo-lhe que era absolutamente necessário que ele dormisse e que, portanto, deveria pedir isso ao Senhor. O Imperador fixou seus olhos na imagem e, premente, mas devotamente, disse: “Meu amado Salvador, por favor, concedei-me dormir”. Então, ele pôde adormecer e repousar por três bem necessárias horas.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, conforme o maravilhoso exemplo do vosso servo, o Imperador Carlos, também eu desejo consagrar-me ao vosso Sagrado Coração. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

III. Uma vida de sacrifício

“Não há maior prova de amor que dar a vida pelo amigo”. Na época em que o Beato Imperador Carlos partiu exilado para a Ilha da Madeira, sua vida já era uma vida feita de sacrifícios pelos outros.

Ele perdera sua pátria, seu Império e seu trono. Seu próprio povo confiscou-lhe a fortuna privada e suas propriedades. Sem dinheiro, sem amigos e sem condições de ganhar a vida, tinha de sustentar a esposa, sete filhos e mais um outro ainda por nascer. Foi forçado a viver, sob a vigilância estrangeira, numa ilha distante, numa casa desagradavelmente úmida que não tinha condições de ser habitada. Contudo, apesar de todas essas provações, ele estava heroicamente pronto a sacrificar-se pelos outros.

O único sacrifício que ainda lhe restava fazer era o de oferecer sua vida. Por meio de suas orações, convenceu-se de que Deus desejava que ele fizesse esse sacrifício final pela salvação de seus povos.

Ao longo de toda sua existência, e durante suas tribulações, o Imperador comungava todos os dias, sempre que possível. Mesmo no final de sua vida, levou avante este costume e, em união com a hóstia sobre a patena, que se torna o Santo Sacrifício do Divino Cordeiro de Deus, ia oferecer-se completamente à vontade do Pai pela salvação de seus povos.

A igreja favorita do Imperador na Ilha da Madeira era a de Nossa Senhora do Monte, a qual podia ser avistada a milhas de distância. Certa vez, ele estava conversando com sua esposa enquanto tinham a igreja diante deles. Declarou, então, que Deus lhe pedia que desse sua vida pelo bem de seus povos. A Imperatriz, aturdida, ficou sem palavras, mas com um olhar resoluto, o Imperador fitou a igreja e disse: “Eu o farei!”

Logo depois disso, Deus aceitou o voto do Imperador. Repentinamente, ele caiu doente e sofreu uma morte precoce. As proféticas palavras pronunciadas pelo Papa São Pio X, no encontro com Carlos quando este era ainda um jovem Arquiduque, tiveram seu cumprimento: 

Abençôo o Arquiduque Carlos, que será o futuro Imperador da Áustria e que ajudará a conduzir suas terras e seus povos a uma grande glória, trazendo-lhes muitas bênçãos. Mas isso não será conhecido a não ser depois de sua morte.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, agradeço-vos pelo sacrifício que o Imperador Carlos fez de sua vida. Ajudai-me a seguir seu abnegado exemplo e não vos recusar nenhum dos sacrifícios que vierdes a me pedir. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

IV. Partilhar da Paixão de Cristo — Grandeza no sofrimento

Embora o Imperador Carlos tenha sido forçado a viver no exílio e tenha tido de se mudar com sua família para uma casa pequena e apertada no alto de uma montanha em Funchal, ele manteve uma atitude positiva e uma alegre disposição. Àqueles que lhe perguntavam, haveria de responder: “Estamos, imerecidamente, muito bem”. Seguindo o exemplo de Cristo, ele, de boa vontade, tomou sua própria cruz pela salvação de seus povos. Ofereceu seus sofrimentos a Cristo crucificado: seu exílio; sua preocupação pelo bem-estar de sua pátria e de seus povos; sua preocupação com sua família, que estava habitando numa casa úmida, sem aquecimento e má mobiliada, e à qual faltavam, além disso, comida e recursos médicos.

O Beato Carlos e sua esposa, Zita, em uma fotografia de 1921.

Como Cristo suportou os escárnios dos soldados trazendo a coroa de espinhos, o manto de púrpura e a cana, assim também o Beato Carlos sofreu a zombaria de seus inimigos. Ele, trazendo os emblemas, participou misticamente da Paixão de Cristo através do sofrimento causado pela condenação proveniente de seus próprios Ministros e pelo seu exílio. Até mesmo a traição por parte daqueles que lhe eram mais próximos não lhe foi poupada.

E, no entanto, em meio a tudo isso, o Imperador Carlos podia ainda dizer: “Agradeço ao nosso amável Deus tudo o que Ele me envia”.

Como Jesus suou sangue no Horto das Oliveiras, também o Imperador Carlos sofreu terrivelmente de suores no decorrer de sua última doença. Numa crise particularmente forte, disse à Arquiduquesa Maria Teresa: “Vovó, eu lhe peço: ajude-me a não suar tanto!” Ao que ela retrucou: “Os médicos dizem que é bom para você”. O Imperador Carlos respondeu: “Mas, temo que não vou conseguir suportar isso por muito mais tempo”. Então, a Arquiduquesa apontou para o crucifixo que ele segurava em suas mãos e afirmou: “...por nós, Ele suou sangue”. Seus olhos seguiram aquele gesto. Ele fixou demoradamente o crucifixo e, em seguida, aquiesceu balançando a cabeça várias vezes. A partir daquele momento, o Beato Carlos nunca mais voltou a falar a respeito dessa sua aflição, embora continuasse a padecer com esses suores até sua morte.

Sua doença agravou-se e seus sofrimentos incluíram respiração ofegante, infecções nos braços em virtude das muitas injeções que lhe foram aplicadas, queimaduras provenientes dos emplastos de mostarda, além de outras quatro grandes queimaduras no pescoço e nos ombros onde lhe foram aplicados vesicatórios. Sua cabeça precisou ficar apoiada, pois estava muito fraco para mantê-la erguida por si só. E, apesar desses sofrimentos pessoais, ele ainda mantinha-se atento e preocupado com os outros — em especial com seus filhos — e com a possibilidade de que sua doença pudesse ser contagiosa.

Os médicos que o atendiam afirmaram que nunca tinham visto tamanha força de vontade como observaram no Imperador. Ele exerceu um notável autodomínio durante toda a sua doença, e suas capacidades mentais não se alteraram apesar das febres e da intensa dor. Notaram que, por uma única vez, o Imperador deslizou e cumprimentou-os em alemão, ao invés de usar a língua que lhes era comum: o francês.

O Beato Carlos rezou constantemente até o derradeiro instante. Os médicos, que acabaram se sentindo muito orgulhosos de seu paciente Imperial, choraram como crianças ao constatar que não poderiam evitar a sua morte ou aliviar-lhe a dor e o sofrimento. Antes de morrer, ele afirmou: “Declaro que o Manifesto de Novembro é nulo e inválido porque foi forçado. Ninguém pode negar ou anular o fato de que eu sou o Rei Coroado da Hungria”.

Às 10h da manhã, o Imperador disse: “Preciso sofrer tanto assim para que meus povos possam se unir novamente”. Então, logo depois do meio-dia, às 12h23min, os sofrimentos do Imperador cessaram para sempre.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, o Imperador Carlos percorreu humildemente o caminho da cruz convosco. Ajudai-me a seguir seu exemplo e a carregar, por vosso amor, as cruzes do meu dia a dia. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

V. “Amai os vossos inimigos”

O Imperador viveu heroicamente o mandamento do amor aos inimigos. Durante toda a sua vida, ele, continuamente e de maneira exemplar, perdoou aos outros. De fato, o Imperador Carlos sofreu muito por causa de mentiras, difamações e muitas injustiças ao longo de toda a sua existência. E ainda, o último exemplo de seu perdão aos outros foram as palavras pronunciadas no seu leito de morte: “Perdôo a todos os meus inimigos, a todos os que me difamaram e a todos que trabalharam contra mim”.

Aos 5 de abril de 1925, Rodolfo Brougier, antigo ajudante de campo, escreveu suas memórias a respeito do Imperador Carlos antes de sua ascensão ao trono, em 1916: 

[Ele tinha] uma autêntica fé em Deus, era de coração bom e generoso, encantadoramente agradável, incansavelmente fiel ao dever e possuía uma excepcional aptidão para a liderança militar. Sua disposição naturalmente humilde e sincera foi fortalecida por sua adequada educação. Ele não tinha ares, nem a necessidade de estar representando para o povo. Com a mais desafetada satisfação, aceitou seu pesado fardo, embora esse peso já o estivesse sobrecarregando. A coragem do Arquiduque e a falta de medo com relação à própria segurança pessoal já eram bem conhecidas e admitidas; o desdém pelo perigo que sua pessoa poderia correr permaneceu uma de suas características como Imperador, mesmo durante os tempos difíceis.

Por outro lado, o Beato Carlos sentia-se completamente responsável pelo bem-estar de seus súditos: 

Seu comportamento de pura caridade, ao lado de sua profunda fé, constituiu a principal força motriz de sua persistente luta pela paz. Em 1916, na qualidade de Herdeiro Presuntivo, ele já considerava sua meta fundamental a obtenção de um rápido e digno fim da guerra. Desde o primeiro dia de sua ascensão ao trono, ele empenhou todos os seus esforços em favor desta meta: proteger os povos do Império de ulteriores sacrifícios e governar como um Imperador da paz sobre uma Áustria rejuvenescida.

É difícil acreditar que um homem com tais virtudes e nobre caráter pôde ser objeto de tão amargas oposições e calúnias, de modo que a honra de seu bom nome pudesse ser destruída. O Imperador não só sofreu o confisco de suas propriedades privadas, mas também seu bom nome foi destruído por mentiras e falsidades.

A Sagrada Escritura ensina que o grau de santidade pode ser medido pela capacidade de amar o próprio inimigo. À luz deste critério, podemos assegurar que o Beato Carlos atingiu um alto grau de virtude.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, vós nos ensinais no Pai-nosso a perdoarmos as ofensas dos outros de modo que também as nossas ofensas sejam perdoadas. Ajudai-me a imitar o exemplo do Imperador Carlos para que eu venha a perdoar todas as injustiças cometidas contra mim. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

VI. Pai dedicado

Um dos maiores sofrimentos do Imperador Carlos foi a separação de seus filhos, quando ele e a Imperatriz Zita foram exilados. As crianças permaneceram na Suíça até que a Imperatriz Zita, com muitas restrições, pôde viajar e trazê-las consigo para a Ilha da Madeira.

O texto a seguir é um relato do reencontro da família: 

No dia 2 de fevereiro, [o Imperador Carlos] encontrou a Imperatriz Zita e seus filhos — exceto o Arquiduque Roberto [porque estava se recuperando de uma cirurgia de apêndice] — para acompanhá-los, bem como à Arquiduquesa Maria Teresa, até Funchal. O Imperador Carlos estava de pé no píer. A alegria das crianças era indescritível, ao cumprimentá-lo, com exuberantes abraços, quando ele subiu a bordo do navio. Lágrimas rolaram sobre a face do Imperador, enquanto carregava em seus braços o pequeno Arquiduque Rodolfo pela escada do costado. Os criados que vieram com as crianças ficaram chocados ao ver quão cansado e envelhecido tinha se tornado o seu soberano. Mas era impossível ver algum sinal de amargura em seu rosto ou ouvi-lo dizer qualquer palavra ríspida.

Durante a doença que o conduziu à morte, o Imperador sentia grande prazer quando podia escutar, de seu leito de enfermo, as vozes de seus filhos através da janela, e se, quando os chamava em alta voz, eles conseguiam ouvi-lo.

No transcorrer de sua fatal doença, mostrou-se atencioso e preocupado pelo bem-estar dos outros e de seus filhos, devido ao perigo de contágio e ao trauma por vê-lo assim tão enfermo. De todos eles, apenas o Arquiduque Otto, na qualidade de seu Herdeiro, foi chamado ao seu leito de morte, pois ele desejava dar ao jovem Arquiduque o exemplo de como um monarca e um católico se depara com a morte. Como Otto chorasse soluçando ao ver seu pai lutando com a morte, ele foi confortado por sua mãe. O Imperador quis poupar às demais crianças o contágio e os traumas.

Uma das últimas orações que o Imperador pronunciou pouco antes de morrer foi por todos os seus filhos, os quais mencionou por nome, colocando-os sob a especial proteção do Senhor. A Arquiduquesa Maria Teresa ouviu, por acaso, o Imperador rezando por eles e dá o seguinte relato: 

“Meu amado Salvador, protegei os nossos filhos: Otto, Mädi, Roberto, Felix, Carlos Luís... Quem, mesmo, vem depois?’ A Imperatriz o ajudou: ‘Rodolfo’. ‘Rodolfo, Lotti e, especialmente, o mais novo pequenino [a Imperatriz estava esperando a Arquiduquesa Elisabete, que nasceu depois da morte do Imperador]. Preservai-os no corpo e na alma, e deixai-os antes morrer que cometer um pecado mortal. Amém. Seja feita a vossa vontade. Amém”.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço por o Beato Carlos ter amado sua família e a ter confiado à vossa vontade e ao vosso plano divino, pelo qual ele tanto prezava. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

VII. O Soberano

Testemunhas louvam o profundo senso de dever do Beato Carlos. Ele concebia o cargo de Imperador que lhe fora confiado como uma missão sagrada e via-se a si mesmo como um pai para seus povos. Durante uma conversa com o Conde Polzer-Hoditz, aos 28 de abril de 1917, o Imperador disse: “Tudo se resume simplesmente em ajudar tanto quanto se pode ajudar. Como Imperador, devo dar o bom exemplo. Se todos apenas praticassem seus deveres de cristão, não haveria tanto ódio e miséria no mundo”. 

Seu amor pelo próximo foi exemplar. Para aliviar o sofrimento de seu povo esgotado pela guerra, o Imperador Carlos ordenou que os cavalos e carroças do palácio fossem colocados a serviço da entrega de carvão à população vienense; doou grande parte de sua fortuna particular; e até mesmo deu roupas de seu próprio uso para os necessitados.

Em 1914, no início da guerra, o futuro Imperador declarou para uma multidão que se reunira, à frente do Palácio de Hetzendorff, apoiando a guerra: 

Todos aqueles que me conhecem, sabem como eu amo a Áustria e a Hungria. Não posso recuar no momento de sua necessidade. Todos aqueles que me conhecem sabem também o quanto eu sou um soldado e como fui treinado para situações de guerra. Contudo, eu simplesmente não posso entender como as pessoas podem acolher esta guerra — ainda que justa — com tanto júbilo. A guerra, afinal, é algo pavoroso. 

Em 1938, o Dr. Friedrich Funder escreveu a respeito do Imperador Carlos: 

Ele foi o único Chefe de Estado que buscou incessantemente os meios para terminar a guerra... e fez isso usando todo o seu ser, com amigos e inimigos. Se as circunstâncias tivessem corrido segundo o desejo e os esforços do Imperador Carlos, milhões de vidas perdidas nas batalhas — e não só austríacas — teriam sido poupadas, a terrível degradação do povo alemão teria sido evitada e a Europa teria gozado de uma paz duradoura até os nossos dias.

O Imperador Carlos tinha a mais íntima convicção de que Deus lhe havia confiado a coroa e, por causa desta certeza, a coroação real na Hungria teve um grande significado para ele. Passados cinquenta anos deste acontecimento, a Imperatriz Zita referiu-se assim à coroação: 

Aquilo que mais nos impressionou em toda a cerimônia foi o tocante lado litúrgico que a perpassava — em especial, os juramentos que o Rei pronunciou, diante do altar, antes de sua unção, de preservar a justiça para todos e de lutar pela paz. Este sagrado compromisso imputado na catedral era exatamente o programa político que ele gostaria de levar avante a partir do trono. Ambos sentimos isso de modo tão forte que quase nenhuma palavra foi necessária entre nós [3].

O rito da coroação é descrito pela Dr.ª Maria Holbacher: 

Mediante o rito sagrado, o qual é liturgicamente conferido “pela graça de Deus” como um sacramental, ele se torna soberano e fica impregnado da graça divina para assumir o específico posto de sua alta vocação, de modo que venha a governar os povos a ele confiados na paz e prosperidade, para a salvação deles. A cerimônia da coroação se dá antes do ofertório da Santa Missa e é semelhante à Profissão Solene, à Ordenação Sacerdotal, à Benção dos Abades e à Consagração dos Bispos, nas quais o candidato prostra-se no chão diante do altar, enquanto se reza a Ladainha de todos os santos. O Primaz da Hungria, Arcebispo de Esztergom, preside o rito da coroação e celebra a Missa. Depois de uma longa oração, durante a qual o candidato à coroação permanece em pé, ele é ungido com o sagrado crisma e investido com os emblemas e insígnias reais, enquanto cada uma de suas sagradas obrigações é citada individualmente. O procedimento é esse para que o candidato compreenda claramente que as normas e expectativas das obrigações éticas e das ações morais são tão altas que a capacidade humana sozinha é incapaz de realizá-las sem o auxílio divino.

A fidelidade do Beato Carlos como monarca ungido é distintiva. Ele preferiu ser mal julgado, difamado, exilado e reduzido à completa pobreza a ser desleal ao juramento de sua coroação. Estava pessoalmente convicto de que nunca haveria de abdicar, pois tinha recebido, de modo irrevogável, a coroa das mãos de Deus, através dos representantes da Igreja.

O Padre Maurus Carnot, O.S.B., que assistia pastoralmente o Imperador Carlos quando de seu exílio na Suíça, ouviu-o declarar com determinação: “Eu jamais renunciarei o juramento de minha coroação. A Coroa de Santo Estêvão é sagrada para mim. Podem tirar-me a vida, mas nunca, nunca, nunca poderão tirar meu juramento e a santa Coroa”.

A Imperatriz Zita seguiu o exemplo de seu marido por toda a sua vida e permaneceu firme em sua recusa a abdicar.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço pela fidelidade do Imperador Carlos à sua vocação. Ajudai-me para que também eu possa cumprir fielmente minhas responsabilidades. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

VIII. Fiel cumprimento da vontade de Deus

O Imperador Carlos procurou a vontade de Deus em tudo quanto fez. Para ele, esta era a regra mais importante de sua vida e de suas ações. Testemunhas falam também de seu amor pela castidade e de sua absoluta recusa em tolerar uma linguagem indecente na sua presença.

Em seu leito de morte, disse à Imperatriz Zita: 

“Zangar-se? Lamentar-se? Quando se conhece a vontade de Deus, tudo está bem”. E, pouco depois: “Agora, quero dizer-lhe com absoluta franqueza como se dá comigo: Todo o meu empenho sempre foi reconhecer claramente, em tudo, a vontade de Deus e segui-la da maneira mais perfeita”. E depois de algum tempo, repetiu: “Apenas não nos lamentemos”.

A frase “Seja feita a vossa vontade!” foi um princípio orientador na vida do Beato Carlos e ele a repetiu pouco antes de depor sua alma nas mãos do Criador. Com Cristo, o Imperador Carlos podia dizer: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou”. Tinha recebido a incumbência de dirigir seus povos como regente de Deus, e como tal, este nobre monarca subordinou-se e deu-se a si mesmo em humilde serviço. Estava preparado para o Céu, e esta foi a razão pela qual o Senhor o pôde chamar para junto de si.

Para ele, os outros sempre estavam na frente; ele sempre vinha por último. Sob este aspecto, o Imperador Carlos é um bom exemplo de um homem devoto da Virgem Maria, que deu o seu fiat e disse: “Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. Sua alma pura espelhava o fiat da Mãe de Deus.

Mesmo na sua última doença e num delírio febril, ele só pensava em cumprir suas obrigações: 

Ora [estava preocupado] com as crianças vienenses para as quais tentava conseguir leite, ora com um soldado checo internado num hospital militar e que ardia em sede. E estava sempre atormentado com a negligenciada evacuação da Transilvânia antes da invasão romena, assunto que fora causa de violentas batalhas verbais entre ele e o Conde Tisza. 

O Imperador Carlos seguiu o exemplo de seu Senhor e Salvador, que sofreu sozinho no Horto das Oliveiras, e em meio às suas maiores provações, bebeu com Cristo o cálice do sofrimento. Aceitou a vontade de seu Pai em suas grandíssimas aflições — as quais, todas, excederam os padrões da normalidade — e, ainda, apesar de tudo isso, o Beato Carlos podia dizer: “Agradeço ao nosso amável Deus por tudo o que ele me envia”.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço pelo fiat do Imperador Carlos em todas as situações de sua vida. Ajudai-me a reconhecer a vossa vontade em minha vida e a segui-la. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

IX. A Bem-aventurada Virgem Maria

No dia de seu falecimento, o Imperador perguntou à sua esposa que dia era aquele. “O dia da Mãe do Senhor”, respondeu a Imperatriz. “Então, sábado”, ele confirmou contente. Depois de sua morte, o corpo do Imperador Carlos foi colocado na igreja mariana de Nossa Senhora do Monte, na Ilha da Madeira, onde jaz ainda hoje.

Por toda a vida, o manto protetor de Maria envolveu o Imperador Carlos, como se pode perceber nos acontecimentos mais relevantes de sua existência. 

O dia 19 de novembro [dia de sua chegada na Ilha da Madeira] era um sábado. Muitas das datas mais importantes da vida do Imperador se deram em sábados. Ele foi crismado num sábado; atingiu sua maioridade e casou-se em dias de sábado; foi coroado Rei da Hungria num sábado. Foi também num sábado que o Rei retornou à pátria húngara em sua primeira tentativa de restaurar a monarquia, e foi num sábado, depois que a segunda tentativa de restauração húngara tinha fracassado, que ele se negou, com terríveis conseqüências, a renunciar a todos os direitos do trono. Foi num fatídico sábado que a família mudou-se para a brumosa atmosfera do Monte; e o último dia da vida do Imperador, 1.º de abril de 1922 — quando Deus chamou seu fiel servo de volta à casa —, era um sábado.

Com o Terço nas mãos, o Imperador Carlos combateu espiritualmente as batalhas de sua vida. É exemplar o fato de que ele rezava o Terço, fielmente, todos os dias. Sim, as contas do Terço, que ele recebeu do Papa São Pio X, haveriam de deslizar por entre seus dedos quando ele rezava suas orações quotidianas. Negócios de governo poderiam estar urgentemente exigindo sua atenção; contudo, o Imperador ainda arranjava tempo, de modo que tivesse para si ao menos meia hora para rezar o Terço.

Como fiel filho de Maria, ele honrou sua Mãe do céu imitando-a. Modéstia, humildade e uma natureza aberta, amiga e cativante foram algumas das virtudes que ele cultivou dentro de si. Estima da vontade de Deus, devoção a uma profunda vida de oração e devoções marianas eram normas fundamentais em sua vida. Como um amável monarca e pai, ele permitiu que seu coração fosse transpassado por uma espada de dor, tal como o coração da Bem-aventurada Mãe foi transpassado quando ela estava de pé junto à cruz de seu Filho.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço pelos maternais cuidados de Maria na vida do Imperador Carlos. Ajudai-me para que eu possa seguir fiel e devotamente o seu exemplo de rezar o Terço todos os dias. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.


Ladainha em honra ao Beato Carlos da Áustria

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos

Pai celeste que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho Redentor do mundo que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade que sois um só Deus, tende piedade de nós

Santa Maria, concebida sem pecado, rogai por nós.
Beato Carlos, esposo amoroso, rogai por nós.
Beato Carlos, pai dedicado,
Beato Carlos, modelo de cavaleiro,
Beato Carlos, cavalheiro exemplar,
Beato Carlos, sucessor de Santo Estêvão,
Beato Carlos, adorável Imperador,
Beato Carlos, santo Rei,
Beato Carlos, Soberano Apostólico,
Beato Carlos, Majestade leal em tudo,
Beato Carlos, sempre fiel ao juramento de sua coroação,
Beato Carlos, glória da casa dos Habsburgos,
Beato Carlos, defensor da fé católica,
Beato Carlos, adorador de Cristo no Santíssimo Sacramento,
Beato Carlos, devoto do Sagrado Coração de Jesus,
Beato Carlos, devoto da Bem-aventurada Virgem Maria,
Beato Carlos, que vos unistes à Paixão de Cristo,
Beato Carlos, que sofrestes em silêncio,
Beato Carlos, que sempre vos conduzistes com graça e ponderação,
Beato Carlos, que sacrificastes tudo por vossos súditos,
Beato Carlos, que promovestes a paz entre as nações,
Beato Carlos, injustamente difamado e traído,
Beato Carlos, injustamente forçado ao exílio,
Beato Carlos, apartado de vossos filhos,
Beato Carlos, que perdoastes a todos os vossos inimigos,
Beato Carlos, que enfrentastes a morte com nobreza e como um verdadeiro cristão,
Beato Carlos, que abraçastes a morte com plena confiança em Jesus,
Beato Carlos, cuja intercessão curou os enfermos,

℣. Rogai por nós, Beato Carlos,
℟. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo

Oremos: Rogai por nós, Beato Imperador Carlos, para que não desanimemos ante as dificuldades de nossas vidas. Que através de vossa presença e intercessão sempre edifiquemos os outros pela nossa boa conduta e, mesmo nas situações mais difíceis, sempre demos graças e glória a Deus. Corroborai as nossas orações com a eficácia da vossa intercessão e deponde no Sagrado Coração de Jesus, no qual tínheis tanta confiança, a nós e a nossas intenções. 

Ouvi, Senhor Jesus Cristo, as orações que vos apresentamos através de vosso fiel servo, o Beato Carlos da Áustria, e que, por sua presença e intercessão, não só sejamos perdoados de todos os nossos pecados, mas também, se não forem contrárias à vossa divina vontade, sejam aceitas as nossas intenções. Pedimos ainda a graça para que o Beato Carlos da Áustria possa, muito em breve, ser elevado às honras da canonização, para a glória do vosso santo nome. Amém.

Referências

  1. O texto da novena é de autoria do Mons. Reinhard Knittel, mas foi publicado originalmente em: Hans Karl Zeβner-Spitzenberg. Ein Kaiser stirbt. Edizioni Lins-Verlag, Altenstadt.
  2. Esta oração, composta por Angelo A. Sedacca, é de uso privado.
  3. Excerto de: Gordon Brook-Shepherd. The Last Habsburg. Weybright and Talley: New York, 1968.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

O Cristo Redentor e seu significado para o Brasil
Espiritualidade

O Cristo Redentor
e seu significado para o Brasil

O Cristo Redentor e seu significado para o Brasil

Em 12 de outubro de 1931, no Rio de Janeiro, era inaugurada pelo Cardeal Sebastião Leme, no alto do Corcovado, a imagem do Cristo Redentor. Mas com que propósito foi erigido esse monumento e qual o seu significado, hoje, para esta Terra de Santa Cruz?

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

No período da República Velha, as autoridades civis empreenderam uma série de reformas cujo escopo era a geração de um país que nada mais tivesse a ver com a fé católica. Cortada a raiz da religião, com a separação entre Igreja e Estado, os republicanos secularizaram escolas e cemitérios, inventaram o casamento civil e promulgaram uma Constituição sem sequer citar o nome de Deus. Para eles, era tempo de erigir um Estado liberal, maçônico e positivista, a tão sonhada sociedade da ordem, do progresso e do amor, onde reinaria a “liberdade de consciência” contra o “obscurantismo medieval” que a Igreja encarnava.

Não demorou muito para que esse projeto desmoronasse. Da pena de Ruy Barbosa vieram os mais severos vitupérios contra o que havia se tornado a República na mão das oligarquias. Segundo o então senador, o contrapeso aos desmandos do Executivo estaria no Supremo Tribunal Federal, “essa instituição criada sobretudo para servir de dique, de barreira e de freio às maiorias parlamentares, para conter as expansões do espírito do partido”.

O episcopado brasileiro, por sua vez, tendeu a uma solução mais auspiciosa: a restauração católica. Liderados pela figura imponente do Cardeal Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro, o clero e o laicato saíram a campo para impregnar de novo a sociedade brasileira com o espírito religioso sob o qual ela havia nascido. Com isso, a Igreja punha em prática a lição do Papa Pio XI na encíclica Quas Primas, mostrando que o “acúmulo de males” que invadira o país não tinha outra causa senão o afastamento do Estado e da maioria dos homens em relação à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. “Certa esperança de verdadeira paz entre os povos”, com efeito, “nunca brilhará enquanto os indivíduos e as nações negarem e rejeitarem o império de nosso Salvador” (cf. Quas Primas, 1).

Em 1931, o Cardeal Sebastião Leme inaugurou a imagem do Cristo Redentor no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, como símbolo máximo dessa restauração católica de que o Brasil tinha necessidade. Das palavras notáveis proferidas pelo eminente prelado naquele 11 de outubro, ao término do Congresso para o Cristo Redentor, vale a pena recolhermos aqui algumas e meditarmos sobre elas.

Primeiro,

quando um país há no mundo em que chegam a arregimentar um verdadeiro exército para uma guerra de extermínio ao nome de Deus, deve à pessoa do Papa chegar consoladora a notícia de que, nas outras bandas do mar, existe um povo que faz questão de ser fiel a Cristo Rei, fiel à Santa Igreja, fiel ao Soberano Pontífice.

Dom Sebastião Leme fazia referência à União Soviética, cujos tentáculos comunistas já desgraçavam o leste do mundo tanto por suas ideias subversivas como pelos gulags. Também neste nosso lado do globo, o México padecia sob governos de cunho marxista e anticristão. Por essa razão, devia ser mesmo motivo de grande júbilo para a Igreja universal saber que um país das proporções do Brasil — em meio à ameaça socialista, e depois de toda a campanha secularista da República — preferia colocar-se do lado de Cristo Rei, para que Ele reinasse sobre suas instituições e todo o seu povo. De fato, em 1955, o senador Nereu Ramos faria a grande consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus, em nome de todo o Parlamento, e diante do Cristo Redentor.

Segundo, o Cardeal Leme advertiu em todo caso que, “se os homens persistirem na contumácia das competições políticas regionais e pessoais, tudo isto irá estraçalhando a unidade da pátria”. Providencialmente, o Brasil foi visitado nesta mesma década por Nossa Senhora, que trouxe a seguinte mensagem às duas videntes de Cimbres, Pernambuco: “Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil! Dizei a todo o povo que se aproximam três grandes castigos, se não fizer muita penitência e oração”. Dentre esses castigos estaria uma guerra civil, aos moldes da espanhola, que levaria o Brasil a um mar de sangue. Na Espanha, o país ficara dividido entre os sectários do general Franco e os revolucionários de Moscou. De modo semelhante, as guerras políticas colocariam os brasileiros nos braços do comunismo, a não ser que eles se devotassem ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria.

Terceiro, jurando fidelidade ao Brasil e à integridade da Pátria, o Cardeal Leme exortou o povo lá reunido ao gesto piedoso e confiante:

Ó Pátria, ajoelha-te junto à cruz do Redentor, junto à cruz de onde nasceste grande e cresceste imensa. Brasil! Ó pátria, conserva-te de joelhos diante de Cristo Redentor porque assim poderás apresentar-te de pé diante das outras nações, adorando um só Cristo Redentor.

Inspirado no obelisco da Praça de São Pedro, no Vaticano, o cardeal mandou cravar aos pés do Cristo Redentor a seguinte frase: “Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat, et Brasiliam suam ab omni malo defendat!Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera, e contra todos os males defenda o seu Brasil!”. Com esta confiança, ele entendia que a nação brasileira jamais seria vencida “pelo estrangeiro invasor, nem retalhada pela guerra civil”.

Finalmente, Dom Leme encerrou o seu discurso com este augúrio: “Seremos o doce império em que não há lugar para tiranias. Nem a tirania de capitalismos vorazes. Nem a tirania da demagogia sangrenta. Nem a tirania dos potentados. Nem a tirania do povo”. Porque, afinal de contas, 

Cristo impera, e o seu império é o império da paz, do amor, da misericórdia e do perdão. Aqui na terra enluarada pela visão branca do Cristo não há vencedores nem vencidos. Somos todos irmãos, filhos da mesma pátria, membros da mesma família.

O Cristo Redentor foi inaugurado com uma Missa e bênção solenes no dia 12 de outubro de 1931. Aos 90 anos, a imagem encontra-se agora sob a ameaça de um projeto de lei, que pede a desapropriação do seu terreno com o intuito de que o Estado resguarde “a área para que os atos litúrgicos de todas as religiões sejam mantidos”. Tal notícia apenas compõe o mosaico de desvios e rixas no qual o Brasil é retratado, especialmente pela infidelidade ao Reinado Social de Jesus Cristo. Mitigado o dogma da fé, não há verdadeira sorte para o destino de uma nação que aposta as suas fichas mais em instituições irresponsáveis que na promessa de salvação de Nosso Senhor.

Na encíclica Quas Primas, Pio XI afirma sobre a harmonia e a paz dos povos que “é evidente que quanto maior o reino [de Cristo] e mais amplamente ele abraça o gênero humano, mais o vínculo de fraternidade que os une se enraíza na consciência dos homens”. O Cristo Redentor de braços abertos faz alusão a essa fraternidade, que só pode ser radicada nele e em nenhum outro princípio. Em 26 de outubro de 1922, quando ainda se iniciava a construção desse monumento, o sempre memorável Dom Aquino Corrêa fazia o seguinte voto: “que o século nascente, irradiando novas glórias por sobre a Pátria querida, possa ver, acima de todas elas, o Cristo Redentor a viver e reinar, mais do que nas alturas do Corcovado, na elevação moral da consciência católica de cada brasileiro” (Discursos, v. 2, t. 1. Brasília: Imprensa Nacional, 1985, p. 114). 

Preservar esse sinal tanto no alto do Corcovado como, principalmente, no coração dos brasileiros é a batalha mais urgente por ora... et haec omnia adicientur vobis, “e tudo o mais vos será dado em acréscimo”.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

São Francisco de Assis e a resposta ao chamado de Deus
Santos & Mártires

São Francisco de Assis
e a resposta ao chamado de Deus

São Francisco de Assis e a resposta ao chamado de Deus

Há uma lição a ser aprendida em cada detalhe da vida do Poverello de Assis, e com sua conversão não é diferente. Francisco luta com o chamado de Deus, resiste por um tempo, mas depois aceita. Naquela noite, ao fim de sua última festa, chega o momento da graça.

Sarah MettsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

No dia 4 de outubro, a Igreja celebra a festa de São Francisco de Assis, o “pequeno pobre homem” cuja vida inspira pessoas de todas as religiões há mais de 800 anos. G. K. Chesterton disse de São Francisco: “Foi um poeta cuja vida inteira foi um poema”. Certamente, a maioria de nós está familiarizada com os principais acontecimentos do poema: São Francisco abraça o leproso; Cristo pede-lhe que reconstrua sua Igreja; São Francisco despe-se e renuncia a todos os seus bens; arrisca a vida para pregar ao Sultão; e torna-se a primeira pessoa a receber os estigmas.

A desvantagem de estar familiarizado com a vida de um santo, porém, é que ela começa a parecer mais um conto de fadas e menos um relato verdadeiro da fé e do heroísmo de uma pessoa real, que pode ser uma inspiração para vivermos hoje de maneira diferente. Seria uma tragédia fazer isso com São Francisco, porque sua vida transborda de inspiração para quem deseja viver o Evangelho e aproximar-se de Deus. Embora as histórias de Francisco a pregar aos pássaros, a domesticar o lobo de Gubbio e a jejuar por quarenta dias com meio pão de forma sejam belas e profundamente comoventes, pode ser difícil para algumas pessoas ver como esses eventos podem ser aplicados aos problemas que enfrentamos hoje. Para aqueles que sentem ter pouco em comum com São Francisco, que fez tantos milagres, pode ser útil olhar para ele antes de sua conversão. Isso pode nos ajudar a lembrar que ele era um homem real, com ambições, desejos e fraquezas reais assim como nós, mas que foi capaz, com a graça de Deus, de escolher as coisas do céu em vez das coisas do mundo.

São Francisco de Assis, retratado por José de Ribera.

São Francisco de Assis nasceu no final de 1181 ou no início de 1182, filho de Pedro e Pica Bernardone. Seus biógrafos concordam que Francisco foi criado no luxo e na vaidade da época. Francisco aprendeu latim, o catecismo e a ler e escrever na escola; mas, quando jovem, foi mais influenciado pelas histórias de cavaleiros e contos de cavalaria que aprendeu com os trovadores que se espalharam da França para a Itália. Esses poetas cantavam sobre as lendas de Carlos Magno, do Rei Artur e de bravos cavaleiros, e essas histórias tiveram um grande impacto no jovem Francisco. Ele era generoso com seus amigos e com os pobres e, a certa altura, resolveu nunca recusar esmola a quem lha pedisse. Tomás de Celano, um dos seus primeiros biógrafos, diz: “Evitando ferir alguém e sendo muito cortês com todos, ele se fez amado universalmente”. Esses traços, seu amor pelos contos de cavalaria, sua generosidade para com os pobres e sua cortesia para com todos que encontrava, permaneceram sempre com Francisco e foram as sementes da grande santidade que mais tarde marcaria sua vida.

Francisco cresceu em uma época de guerras constantes, quando as cidades lutavam continuamente entre si e a fama era conquistada na batalha. Quando Francisco tinha cerca de 25 anos, surgiu uma disputa entre os príncipes alemães e o Papa Inocêncio III, e a guerra eclodiu. Como muitos outros soldados da Itália, Francisco decidiu juntar-se aos exércitos papais. Ele gastou uma pequena fortuna preparando as roupas, armaduras e equipamentos de que precisaria para a batalha, e então partiu às pressas para a Apúlia, no sul da Itália. No caminho, encontrou um cavaleiro vestido de trapos e, com pena, Francisco tirou as vestes bordadas que levava e deu-lhas. Naquela noite, dormiu e teve um sonho. Nele, a casa do pai estava cheia de armas e soldados, e uma linda princesa seria sua noiva. Quando acordou, ficou por um momento cheio de alegria; mas, depois de refletir um pouco, Francisco ficou perturbado, porque concluiu que o sonho não simbolizava a honra e a glória terrena que tanto desejava. Ele continuou sua jornada e, na noite seguinte, parou em Espoleto. Enquanto dormia, ouviu uma voz dizendo-lhe que voltasse ao próprio país, onde lhe seria revelado o que devia fazer a seguir. No dia seguinte, ele voltou a Assis, onde ficou claro para as pessoas que o conheciam que Francisco era um homem mudado. 

Como de costume, os amigos o convidaram para uma festa e ele aceitou. Entretanto, não podia mais desfrutar da farra e da bebida e, então, no fim daquela noite, quando todos saíram do salão de festas, ele começou a rezar. Seu biógrafo, Tomás de Celano, escreve:

Foi então que a graça divina desceu sobre ele, iluminando-o quanto ao nada das vaidades terrenas e revelando-lhe as realidades invisíveis. De repente, foi inundado por uma tal torrente de amor, submerso em tal doçura, que ficou ali imóvel, sem ver nem ouvir nada. Com o tempo, perdeu todo o gosto pelos negócios e gradualmente se foi afastando do mundo.

Depois dessa revelação, nada mais no mundo o satisfazia, e ele só encontrava contentamento nas coisas de Deus. Mesmo que ainda não soubesse exatamente o que Deus o estava chamando a fazer, ele começou a investir o tempo em orações e meditações, confiando em que Deus lhe mostraria o caminho. Conhecemos o resto da história e sabemos do incrível impacto que a vida de São Francisco teve nas pessoas que ele conheceu em vida e em todos aqueles que leram ou ouviram falar dele nos últimos oito séculos. Há uma lição a ser aprendida em cada detalhe e acontecimento da vida de São Francisco, e com esta história não é diferente. Nela, vemos o desejo de Francisco de fazer grandes coisas, coisas heróicas; sua generosidade para com todos; e sua cortesia para com todas as pessoas que conheceu. Esses elementos foram o terreno fértil para o seu crescimento na graça de Deus. Vemos Francisco lutar com o chamado de Deus, resistir por um tempo, mas depois aceitar. Naquela noite, ao final da última festa em que estaria com os amigos, chegou o momento da graça: ele experimentou o consolo de Deus e viu claramente o vazio do mundo. Depois, passou algum tempo em oração, sem saber o que fazer a seguir, mas confiando em que Deus o ajudaria.

Cada um de nós pode aplicar esse exemplo na própria vida. Talvez os resultados não sejam tão notáveis como os da vida de São Francisco. Mas se persistirmos na caridade e nas boas obras; se ouvirmos a voz de Deus quando Ele nos chama; e se permanecermos abertos quando Ele nos mostrar que poder, popularidade, dinheiro e posses — tudo o que o mundo nos oferece — nunca nos irá satisfazer, nós seremos mudados. Viveremos com mais simplicidade, para poder dar mais aos necessitados; seremos cheios da alegria que só Deus pode nos dar; sem dúvida, estaremos mais próximos de Deus e poderemos compartilhar nossa fé com mais autenticidade. Ainda nesta vida, experimentaremos um pouco do que escreveu São Paulo e do que Francisco viveu tão lindamente: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2, 9).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Sem mosteiros e oração contemplativa, a Igreja morrerá
Espiritualidade

Sem mosteiros e oração
contemplativa, a Igreja morrerá

Sem mosteiros e oração contemplativa, a Igreja morrerá

A vitalidade missionária e externa da Igreja é diretamente proporcional à vitalidade da vida contemplativa nela escondida, assim como o aspecto de uma pessoa depende da saúde do seu coração.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Na primeira semana de outubro, o calendário litúrgico da Igreja Católica nos apresenta um trio de religiosos, sendo uma carmelita, um franciscano e um cartuxo — ou melhor, a mais famosa carmelita moderna, o fundador dos franciscanos e o fundador dos cartuxos: Santa Teresa de Lisieux, São Francisco de Assis e São Bruno de Colônia. Cada um deles nos recorda de um modo diferente o seguimento radical de Cristo na pobreza, na castidade e na obediência; no silêncio, na solidão e na penitência; na contemplação, na liturgia e na caridade fraterna. “Não antepor nada à obra de Deus”, isto é, à liturgia sagrada, disse São Bento de Núrsia, que também disse: “Não preferir nada ao amor de Cristo”. Onde ainda se dá esse testemunho radical da primazia e da centralidade de Cristo?

Ao longo de minha vida, o Senhor me abençoou com visitas a muitos mosteiros e conventos, tanto na Europa como nos Estados Unidos, onde homens e mulheres vivem a vida religiosa de forma plena: liturgia solene cantada, um cronograma exigente, jejum e abstinência, muito estudo e lectio divina, trabalho manual... O pacote completo. 

Em muitos casos, esses monges e religiosas vivem uma vida, em essência, pouco diferente da vida dos pais e mães do deserto dos tempos antigos, como se a modernidade, com suas complexidades cada vez maiores e uma confusão cada vez mais profunda, não tivesse nada de importante a lhes dizer. E eles estão certos: ela só poderia falar-lhes de forma lúgubre do mundo, da carne e do demônio, enquanto eles estão buscando o céu, a graça e Deus, para si e para outros. Não precisam estar atualizados, na correria com todas as outras pessoas, num desejo frenético de ser notado, de ser relevante, de estar na vanguarda. Na verdade, é o mundo que precisa desesperadamente desses monges e religiosas, de sua oração, de sua paz. Por serem irrelevantes e imperceptíveis em sua jornada diária de oração e penitência, eles possuem um remédio que cura as vítimas da mudança implacável, da atividade frenética e da autocomiseração.

Essas visitas não me deixaram apenas impressionado. Mudaram minha forma de pensar sobre o que é realmente importante na vida e na Igreja. 

Enquanto participava dos bastidores da vida de cristãos para quem a Eucaristia, pão dos anjos descido do céu, é verdadeiramente a fonte e o ápice de todo o seu ser e fonte de sua alegria, comecei a me dar conta da magnitude da morte que a vida religiosa tradicional sofreu no período posterior ao Concílio Vaticano II. Nos mosteiros e casas religiosas, regras com séculos de existência foram subitamente descartadas; hábitos foram modificados ou abandonados; a rotina diária de oração foi duramente reduzida ou mesmo substituída por novidades insignificantes; a Santa Missa perdeu o espírito contemplativo, rebaixada a experimentos arbitrários e subjetivos. Locais que foram epicentros de devoção em cidades, províncias e países não podiam mais oferecer a leigos sedentos a concentração da oração e a pureza de visão que ardentemente desejavam. Os que conhecem as estatísticas sabem o que aconteceu: em poucos anos, a vida monástica colapsou em quase todos os lugares, já que muitos abandonaram suas vocações. Congregações e ordens inteiras desapareceram da face da terra. 

Embora um número muito maior de fiéis tenha sido prejudicado pelas inovações e pela dissidência nas paróquias e dioceses, a perda da plenitude da vida cristã vivida nos conventos e mosteiros, em total conformidade com Cristo, Sumo Sacerdote e Vítima, foi um golpe devastador no coração do Corpo Místico de Cristo na terra. Se a oração é o oxigênio da alma, como o Padre Pio disse certa vez, o colapso da vida monástica representou uma desoxigenação da força vital da Igreja. Tem-se afirmado com frequência que a vitalidade missionária e externa da Igreja é diretamente proporcional à vitalidade da vida contemplativa nela escondida, assim como o aspecto de uma pessoa depende da saúde do seu coração.

Foi somente porque a Igreja se convenceu da verdade dessa relação indissolúvel entre atividade e contemplação, trabalho e oração, exterior e interior, que ela declarou uma carmelita enclausurada, Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, copadroeira das missões junto com São Francisco Xavier, o qual batizou centenas de milhares de pagãos. É como se nos dissessem: não haverá Xavieres se não houver Pequenas Flores

Temos a sorte de estar vivos exatamente agora, em meio à fase inicial de recuperação, à medida que o número de comunidade religiosas autênticas de homens e mulheres cresce rapidamente, pela misericórdia de Deus, apesar da masmorra, do fogo e da espada (ou de seus equivalentes eclesiásticos). Que o Senhor, que ama a fecundidade da vida escondida, a joia da contemplação celeste e o sol ardente da justiça interior, possa ter misericórdia de nós e nos salvar, pois Ele é benigno e ama a humanidade, e a Ele glorificamos, Pai, Filho e Espírito Santo, hoje e sempre para todo o sempre. Amém.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.