[Este texto não é de autoria do Pe. Paulo Ricardo. Seu autor é o escritor espanhol Juan Manuel de Prada, e a tradução portuguesa a seguir é de nossa equipe.]

Já estão cozinhando uma gororoba jurídica para consagrar os “direitos dos animais”. Na verdade, expressa muito bem o “eclipse da consciência” da nossa época o fato de os animais serem transformados em sujeitos de proteção jurídica à medida que os seres humanos mais frágeis vão ficando desprotegidos.  

Pode se tornar titular de direitos um animal que não poderá ser sujeito de obrigações em nenhum estágio de sua vida? Todo direito exige uma obrigação correlativa. Obviamente, isso não quer dizer que os animais devam ser excluídos do âmbito da proteção jurídica. O ser humano é titular do direito a um “domínio justo” sobre os animais, o qual implica a obrigação de cuidar deles e de protegê-los. Mas quando falamos em “direitos dos animais” alteramos o sentido dessa relação jurídica. Como nos ensina Chesterton, por trás da ideia de tratar os animais como se fossem seres humanos, esconde-se o desejo secreto de tratar os seres humanos como se fossem animais. O pretexto de elevar o inferior sempre encobre o impulso de rebaixar o superior. Por fim, descobrimos em todas as tentativas de tornar os animais titulares de direitos o propósito de suprimir a realidade espiritual específica do homem.  

Escultura de Anúbis, o deus egípcio dos mortos, retratado sempre com uma cabeça de chacal.

Os estudiosos das perversões sexuais definem o fetichismo como uma espécie de circunlóquio erótico ao qual recorrem aqueles que são incapazes de amar uma pessoa. A consagração dos “direitos dos animais” é o fetichismo moral de uma época doente que relega a defesa da vida humana a um lugar periférico e subalterno. Os paladinos dos “direitos dos animais” são os mesmos que exaltam o aborto, as experiências com células embrionárias, a eutanásia, os delírios do movimento transgênero. A mesma época que põe num altar os bichos de estimação presume que a vida humana deixou de ser inviolável, que nem todos os seres humanos são dignos de proteção, nem em todas as etapas de sua vida. As duas aberrações têm a mesma origem: no final das contas, comparar um homem a um animal de estimação é uma forma ambígua de “aboli-lo”, de negar sua singularidade, de considerá-lo apenas o resultado aleatório de uma evolução natural, de apagar as características distintivas que fazem dele uma criatura única e misteriosamente singular entre todas as criaturas da Criação.  

Alberto Savinio assinala em sua Nova Enciclopédia que o avanço civilizatório que ocorre entre Egito e Grécia pode ser percebido, sobretudo, na natureza de seus deuses: Egito se entrega às forças obscuras da natureza, imaginando um panteão que na realidade é um zoológico amedrontador, povoado por cães e gatos; a Grécia, ao contrário, se rebela contra essas forças obscuras, imaginando um Olimpo de deuses antropomórficos. O animalismo, sob o disfarce de refinamento civilizatório, esconde uma involução civilizatória. É a volta ao panteão egípcio, povoado de deuses obscuros para os quais não podemos rezar e que só podemos apaziguar com sacrifícios humanos.