Precisamos parar de tratar as devoções católicas como superstições.

Refiro-me especialmente às devoções que nos causam estranheza. Precisa encontrar as chaves que perdeu? Reze para Santo Antônio. Um lugar para estacionar? Peça ajuda ao seu santo anjo da guarda. Trouxe um objeto novo para casa? Jogue água benta nele. Comprou um carro? Pendure um terço no espelho retrovisor. Está sofrendo com pesadelos? Segure o terço quando for dormir.

Tem uma intenção de oração? Escreva-a e coloque o papel debaixo da escultura de um santo. Vai cumprimentar um padre? Beije-lhe as mãos. Uma imagem sagrada caiu no chão? Tome cuidado para não pisar nela. Vai passar por uma igreja ou cemitério? Faça o sinal da cruz. Vai passar por você um padre paramentado? Toque na orla de seus paramentos. Ao fazer o sinal da cruz com água benta, borrife dos dedos as gotas que sobrarem para aliviar as línguas das almas do Purgatório.

Superstição é pecado. Santo Tomás de Aquino nos diz: “A superstição é um vício oposto à religião por excesso, não porque apresente mais ao culto divino que a verdadeira religião, mas porque presta culto divino a quem não deve, ou do modo que não deve” (STh II-II 92 1c.). Ou seja, existem dois tipos de superstição: a idolatria, que é o culto a falsos deuses; e o culto impróprio, que se presta ao Deus verdadeiro, mas de forma deficiente.

As devoções católicas que citamos acima não são nem idolatria nem culto impróprio. Se fossem idolatria, haveria provas de sacrifícios oferecidos aos santos ou a Maria e uma rejeição a Cristo como fonte de tudo. Se fossem culto impróprio, seriam contrárias às leis cerimoniais de Cristo e da sua Igreja. Nenhum dos casos se aplica. Pelo contrário, estas devoções são um bálsamo que nos afasta dos excessos da idolatria e do culto impróprio.

“A primeira Missa”, quadro de Enrique Simonet.
“A primeira Missa”, quadro de Enrique Simonet.

É claro que existem exemplos reais de idolatria dirigida aos santos e a Nossa Senhora, e estas práticas foram expressamente condenadas, pela Igreja Católica em geral e pela Igreja local em particular. Quer ocorram em Cuba sob o nome de santería; no México como santa muerte; no Brasil como candomblé; ou no Haiti e em Nova Orleans como voodoo, estas práticas utilizam imagens católicas como substitutos de divindades pagãs, às quais são atribuídos poderes por direito próprio — não um poder derivado de Cristo, mas um poder que lhes seria inerente. Em troca de favores, o devoto oferece sacrifícios a estas divindades: seja uma galinha, alguma fruta ou a sua própria alma. Ao contrário da fé ortodoxa, segundo a qual todo o poder reside em Cristo e é concedido livremente aos seus santos, estas práticas consistem em adoração de ídolos com poder independente. 

Este é o vício da superstição, de acordo com o primeiro critério do Aquinate: prestar “culto divino a quem não deve” — vício que se condena.

Existem também exemplos concretos de adoração deficiente, e a Igreja se pronunciou claramente a seu respeito. Um católico deve assistir à Santa Missa nos domingos e dias santos de guarda: fazê-lo apenas no Natal e na Páscoa constitui uma deficiência no culto. O sacerdote, uma vez iniciada a Missa, deve concluir a celebração: se a deixa incompleta, por qualquer motivo, comete uma deficiência no culto e, ademais, um sacrilégio. A Eucaristia deve ser conservada de forma a que se reconheça devidamente a presença real de Cristo, de modo a protegê-la de abusos; um leigo não pode apossar-se dela para guardá-la em casa: trata-se de uma deficiência radical no culto. Um cristão não está vinculado às leis cerimoniais do Antigo Testamento; em sua análise sobre a superstição, Tomás de Aquino afirma que prestar culto a Deus de forma imprópria é uma forma de falsa religião: para alguém que vive na era da graça cristã, insistir em adorar a Deus de acordo com os ritos da Antiga Lei seria cultuá-lo de forma errada.

A Igreja não deixa estas questões à prudência dos leigos; antes, regula o culto a Cristo para o bem de nossas almas, deixando claro o que é correto e o que é deficiente. Não precisamos determinar estas coisas por nós mesmos.

Uma senhora agradece a Deus a sua refeição. Quadro de Nicolas Maes.
Uma senhora agradece a Deus a sua refeição. Quadro de Nicolas Maes.

Quando alargamos o conceito de superstição de modo a incluir ações que firam a nossa sensibilidade moderna, estamos colocando restrições onde a Igreja não as colocou, condenando o que a Igreja não condenou.

Ao nos afastarmos destas devoções populares, privamo-nos também de um meio de fortalecer a nossa fé. Os nossos antepassados a praticavam desta forma, com devoções peculiares que, em última análise, se centravam em Cristo. Estas devoções os ajudaram a superar perseguições e mudanças radicais, e lhes permitiram viver a fé de forma concreta ao longo de suas vidas. Deveríamos pensar duas vezes antes de menosprezar a fé de um camponês da Irlanda ou de uma abuela mexicana. Seria tolice tratá-los como supersticiosos, quando, ao contrário, nos faria bem seguir os seus exemplos.

A fé católica é perfeitamente racional, mas eu não sou capaz de compreendê-la na totalidade. Ela é um mistério, não porque não possa ser compreendida, mas porque nunca a compreenderemos plenamente. Devoções como as que mencionei revelam e sustentam o mistério da fé. Reconhecem que nunca compreenderemos totalmente como funciona o mundo espiritual, mas que a nossa limitação não nos impede de tomar parte nele. Estas devoções ajudam a encarnar a realidade do Céu nas nossas vidas quotidianas. São estranhas, mas os mistérios são assim mesmo.


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