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Fomos criados para o amor
Espiritualidade

Fomos criados para o amor

Fomos criados para o amor

Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma e que lhe faz dizer do fundo do coração: “Estou ferida de amor”?

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Janeiro de 2017
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Neste texto recolhido do Ofício das Leituras de hoje, terça-feira da 1.ª semana do Tempo Comum, São Basílio Magno lembra-nos que a vocação cristã é ao amor. Fomos criados por Deus para amá-lO, é o que está escrito desde o princípio na natureza do nosso ser e, não obstante todos os artifícios do homem moderno para apagar dos corações e das consciências o nome santíssimo de Jesus, só O amando seremos verdadeiramente realizados.

Sendo assim, a missão dos pastores da Igreja não é outra senão "suscitar a centelha do amor divino" escondida no coração de cada ser humano. O que deve fazer cada sacerdote, cada bispo — e até cada pai de família, que "apascenta" o pequeno rebanho de seus filhos — é ignem mittere in terram, "lançar fogo sobre a terra", como queria o próprio Filho de Deus humanado (Lc 12, 49).

Peçamos a este santo bispo da Igreja antiga, São Basílio, aclamado no mundo inteiro como "magno", que nos ajude a viver o chamado de Cristo em toda a sua grandeza. Certos de que "o amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições", simplesmente procuremos amá-lO, não nos limitando ao cumprimento de regras. Nossa fé não é um "manual de boas maneiras", mas um relacionamento de amor com Deus.

Da Regra mais longa, de São Basílio Magno, bispo
(Resp. 2,1: PG 31, 908-910)

Possuímos inata capacidade de amar

O amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições. Não aprendemos de outrem a alegrar-nos com a luz, ou a desejar a vida, ou a amar os pais ou educadores. Assim — ou melhor, com muito mais razão —, não se encontra o amor de Deus na disciplina exterior. Mas, quando é criado, o ser vivo, isto é, o homem, a força da razão foi, como semente, inserida nele, uma força que contém em si a capacidade e a inclinação de amar. Logo que entra na escola dos divinos preceitos, o homem toma conhecimento desta força, apressando-se em cultivá-la com ardor, nutri-la com sabedoria e levá-la à perfeição, com o auxílio de Deus.

Sendo assim, queremos provar vosso empenho em atingir este objetivo. Pela graça de Deus e contando com as vossas preces, nós nos esforçaremos, segundo a capacidade dada pelo Espírito Santo, por suscitar a centelha do amor divino escondida em vós.

Antes de mais nada, nós dele recebemos antecipadamente a força e a capacidade de pôr em prática todos os mandamentos que Deus nos deu. Por isso não nos aflijamos como se nos fosse exigido algo de incomum, nem nos tornemos vaidosos pensando que damos mais do que havíamos recebido. Se usarmos bem destas forças, levaremos uma vida virtuosa; no entanto, mal empregadas, caíremos no pecado.

Ora, o pecado se define como o mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito do Senhor.

O mesmo diremos da caridade. Ao recebermos o mandamento de amar a Deus, já possuímos capacidade de amar, plantada em nós desde a primeira criação. Não há necessidade de provas externas: cada qual por si e em si mesmo pode descobri-la. De fato, nós desejamos, naturalmente, as coisas boas e belas, embora, à primeira vista, algumas pareçam boas e belas a uns e não a outros. Amamos também, sem ser necessário que nos ensinem nossos parentes e amigos e temos espontaneamente grande amizade por nossos benfeitores.

O que haverá, pergunto então, de mais admirável do que a beleza divina? Que coisa pode haver mais suave e deliciosa do que a meditação da magnificência de Deus? Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma liberta de toda impureza e que lhe faz dizer do fundo do coração: Estou ferida de amor? É na verdade totalmente indescritível o fulgor da beleza de Deus.

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A Virgem de Fátima, os muçulmanos e a profecia de Fulton Sheen
Igreja Católica

A Virgem de Fátima, os muçulmanos
e a profecia de Fulton Sheen

A Virgem de Fátima, os muçulmanos e a profecia de Fulton Sheen

Conheça a grande esperança de um bispo norte-americano a caminho dos altares: ver os muçulmanos convertidos a Cristo, no futuro, pelas mãos de Nossa Senhora de Fátima.

Fulton J. Sheen,  Ignatius InsightTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Outubro de 2017
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O islamismo é a única grande religião pós-cristã do mundo. Pelo fato de se originar no século VII sob Maomé, foi possível que nela se unissem elementos cristãos e judaicos, mesclados a certos costumes típicos da Arábia. O islamismo parte da doutrina da unidade de Deus, sua majestade e poder criador, e dela se serve, em parte, como base para repudiar a Cristo, o Filho de Deus. Sem compreender a noção de Trindade, Maomé fez de Cristo um profeta que O anunciava, assim como, para os cristãos, Isaías e João Batista são profetas que anunciam a Cristo.

A Europa ocidental cristã quase não escapou à destruição produzida pelas mãos dos muçulmanos. Em um determinado momento, eles foram neutralizados perto de Tours e, em outro ponto mais tarde, fora dos portões de Viena. A Igreja ao longo de todo o norte da África foi praticamente destruída pelo poder islâmico e, na hora presente, os muçulmanos estão começando a se levantar novamente.

Se o islamismo é uma heresia, como Hilaire Belloc acredita ser, trata-se da única heresia que jamais entrou em declínio. Outras tiveram seu momento de vigor, entrando em decadência doutrinal com a morte de seus líderes e evaporando, por fim, em um vago movimento social. O islamismo, ao contrário, teve apenas a sua primeira fase. Nunca houve um momento em que ele tenha enfraquecido, seja em números, seja na devoção de seus seguidores.

O esforço missionário da Igreja em relação a esse grupo tem sido, pelo menos superficialmente, um fracasso, pois os muçulmanos em geral, até o momento, têm se mostrado praticamente inconvertíveis. A razão disso é que um seguidor de Maomé se converter ao cristianismo é quase como um cristão se tornar um judeu. Os muçulmanos acreditam possuir a revelação final e definitiva de Deus para o mundo, sendo Cristo apenas um profeta que anunciou Maomé, o último dos verdadeiros profetas de Deus.

No momento presente, o ódio dos países muçulmanos contra o Ocidente está se tornando um ódio contra o próprio cristianismo. Embora os estadistas não tenham ainda se dado conta disso, subsiste o grave perigo de que o poder temporal do islã volte à tona, e com isso, existe a ameaça de que ele venha a abalar um Ocidente que deixou de ser cristão e firmar-se como uma grande potência mundial anticristã. Escritores muçulmanos dizem que, “quando os enxames de gafanhotos obscurecerem uma vastidão de países, eles trarão em suas asas as seguintes palavras em árabe: ‘Nós somos os hospedeiros de Deus, cada um de nós tem noventa e nove ovos e, se tivéssemos cem, devastaríamos o mundo com tudo o que nele existe’”.

O problema é: como podemos prevenir o surgimento do centésimo ovo?

É uma firme convicção nossa que os temores que alguns nutrem em relação aos muçulmanos não devem ser levados em conta, mas que o islamismo, ao invés disso, acabará em algum momento por se converter ao cristianismo — e de uma maneira que muitos de nossos missionários até jamais suspeitariam. É uma convicção nossa, também, que isso acontecerá não por meio do ensinamento direto do cristianismo, mas através de uma convocação dos muçulmanos a uma veneração da Mãe de Deus.

Eis a minha linha de argumentação.

O Alcorão, que é a Bíblia dos muçulmanos, tem muitas passagens relacionadas à bem-aventurada Virgem Maria. Em primeiro lugar, o Alcorão acredita em sua Imaculada Conceição e, igualmente, na concepção virginal de Cristo. O terceiro capítulo do Alcorão situa a história da família de Maria em uma genealogia que remonta a Abraão, Noé e Adão. Quem compara a descrição que o Alcorão faz do nascimento de Maria com o evangelho apócrifo sobre o mesmo tema, é tentado a acreditar que Maomé, em grande parte, se apoiou basicamente neste escrito para compor o seu. Ambos os livros descrevem a idade avançada e a esterilidade certa da mãe de Maria. Quando Sant’Ana concebe Maria, no entanto, estão contidas estas suas palavras no Corão: “Ó Senhor, eu entrego e consagro a Vós o que já se encontra dentro de mim. Aceitai-O de minha plena vontade.”

Quando Maria nasce, sua mãe diz: “E eu a consagro, com toda a sua posteridade, sob a vossa proteção, ó Senhor, contra Satanás!”

O Alcorão suprime a figura de José da vida de Maria, mas a tradição muçulmana sabe o seu nome e tem alguma familiaridade com ele. Nessa tradição, José é retratado falando com Maria, que é uma virgem. Ele indaga-lhe como foi possível ela conceber Jesus sem um pai, ao que Maria responde: “Acaso não sabeis que Deus, quando criou o trigo, não necessitou de sementes, e que Ele com seu poder fez as árvores crescerem sem a ajuda da chuva? Tudo o que Deus precisava fazer era falar. ‘Faça-se isto, e assim foi feito’.”

O Alcorão também contém versículos sobre a Anunciação, a Visitação e a Natividade. Anjos são retratados acompanhando nossa Mãe Santíssima e dizendo: “Ó Maria, Deus vos escolheu, purificou e preferiu sobre todas as mulheres da Terra.” No capítulo XIX do Alcorão há 41 versículos sobre Jesus e Maria. Há aqui uma defesa tão forte da virgindade de Maria que o Alcorão, em seu quarto livro, chega a atribuir a condenação dos judeus a uma calúnia monstruosa que estes teriam feito contra a Virgem Maria.

Maria é, então, para os muçulmanos, a verdadeira Sayyida, ou Senhora. A única que poderia possivelmente rivalizar com ela no credo islâmico seria Fátima, a filha do próprio Maomé. Após a morte de Fátima, no entanto, Maomé escreveu: “Vós sois a mais bendita entre todas as mulheres no Paraíso, depois de Maria.” Numa variante do texto, Fátima diz, a respeito de si mesma: “Eu supero todas as mulheres, com exceção de Maria.”

Isso nos traz ao nosso segundo ponto, que é o seguinte: por que a Virgem Santíssima, neste século XX, se revelou na insignificante vila de Fátima, a fim de que todas as gerações futuras a conhecessem pelo título de “Nossa Senhora de Fátima”?

Como nada que vem do céu jamais acontece sem uma delicadeza de detalhes, acreditamos que a Virgem Santíssima escolheu ficar conhecida como “Nossa Senhora de Fátima” para ser um penhor e um sinal de esperança ao povo muçulmano, bem como uma garantia de que eles, que demonstram para com ela tanto respeito, acabarão por aceitar, um dia, também o seu Divino Filho.

Nossa Senhora de Fátima.

A evidência para confirmar essas visões se encontra no fato histórico de que os muçulmanos ocuparam Portugal por séculos. No momento em que eles finalmente foram expulsos, o último chefe muçulmano teve uma linda filha e seu nome era Fátima. Um jovem católico se apaixonou por ela e, por causa dele, essa moça não somente ficou no país quando os muçulmanos saíram, como também acabou abraçando a fé. O jovem marido a amava tanto que mudou o nome do vilarejo em que morava para Fátima. Por conseguinte, o mesmo lugar em que Nossa Senhora apareceu em 1917 carrega consigo uma conexão histórica com Fátima, a filha de Maomé.

A última evidência do relacionamento de Fátima com os muçulmanos é a recepção entusiástica que os muçulmanos deram, na África, na Índia e em outros lugares, à imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima. Eles participaram de celebrações nas igrejas em honra de Nossa Senhora de Fátima; permitiram procissões e até orações diante de suas mesquitas; e, em Moçambique, os menos convertidos se tornaram católicos tão logo a imagem de Nossa Senhora de Fátima foi ali erigida.

No futuro, os missionários católicos verão que seu apostolado entre os muçulmanos terá cada vez mais sucesso na medida em que eles pregarem sobre Nossa Senhora de Fátima. Maria é o advento de Cristo; é aquela que O traz às pessoas antes que nasça o próprio Cristo. Em qualquer esforço apologético, é sempre melhor começar com algo que as pessoas já aceitaram. Pelo fato de os muçulmanos já terem uma devoção a Maria, nossos missionários deveriam ficar satisfeitos simplesmente por expandir e desenvolver essa devoção, com a plena consciência de que Nossa Senhora conduzirá os muçulmanos, no decorrer do caminho, rumo a seu Divino Filho. Ela sempre será uma “traidora”, por assim dizer, no sentido de jamais aceitar qualquer devoção a ela que não conduza a Seu Divino Filho. Assim como perdem a fé na divindade de Cristo aqueles que perdem a devoção por ela, os que intensificam esta devoção gradualmente adquirem aquela fé.

Muitos de nossos grandes missionários na África já neutralizaram a antipatia, o ódio e o preconceito que os muçulmanos tinham contra os cristãos através de seus atos de caridade, de suas escolas e de seus hospitais. Falta-nos agora usar uma outra abordagem. Precisamos mostrar aos muçulmanos que o capítulo XLII do Alcorão e mostrar-lhes que foi retirado do Evangelho de São Lucas e que Maria não poderia ser, mesmo diante de seus próprios olhos, a mais bendita entre todas mulheres do Paraíso, se ela não tivesse dado à luz, Aquele que nasceu para salvar o mundo. Se Judite e Ester do Antigo Testamento foram figuras precursoras de Maria, então Fátima, uma filha de Maomé, também foi precursora de Maria! Os muçulmanos precisam tomar consciência de que, se Fátima deve dar lugar à Santíssima Mãe de Deus, é porque ela é diferente de todas as outras mães do mundo e que sem Cristo, ela não seria ninguém.

Muitos de nossos grandes missionários na África já neutralizaram a antipatia, o ódio e o preconceito que os muçulmanos tinham contra os cristãos através de seus atos de caridade, de suas escolas e de seus hospitais. Falta-nos agora usar uma outra abordagem. Precisamos tomar o capítulo XLII (52) do Alcorão e mostrar aos muçulmanos que esse trecho foi tirado do Evangelho de Lucas; mostrar a eles que Maria não poderia ser, mesmo a seus próprios olhos, a mais bem-aventurada de todas as mulheres do céu, se ela não tivesse dado à luz o Salvador do mundo. Se Judite e Ester, do Antigo Testamento, foram prefiguração de Maria, então Fátima pode muito ser tida como uma “figura posterior” de Maria!

Os muçulmanos devem aprender a reconhecer que, se Fátima deve dar lugar em honra à bem-aventurada Virgem Maria, isso acontece por ela ser diferente de todas as outras mulheres do mundo e, sem Cristo, ela nada seria.

Recomendações

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“Em meio às panelas, também anda o Senhor”
Espiritualidade

“Em meio às panelas,
também anda o Senhor”

“Em meio às panelas, também anda o Senhor”

A tradição carmelitana conta que, certa vez, Santa Teresa estava preparando alguns ovos para a refeição das monjas e… entrou em êxtase, segurando a frigideira na mão.

Uma Monja Carmelita16 de Outubro de 2017
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A tradição carmelitana conta que, certa vez, Santa Teresa estava preparando alguns ovos para a refeição das monjas e… entrou em êxtase, segurando a frigideira na mão. Que situação estranha para ser arrebatada por Deus! Afinal, não era um momento de oração… nem se estava no sossego da capela… mas na agitação da cozinha!

Contudo, ao voltar a si, a santa, como que justificando-se, disse às suas filhas: Entre los pucheros, también anda el Señor – Em meio às panelas, também anda o Senhor”.

Nesta resposta encontramos a explicação para o fato tão insólito. Santa Teresa pôde encontrar o Senhor em meio às panelas, porque vivia a admoestação de São Paulo: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Cor 10, 31). Em outras palavras: ela vivia na presença de Deus.

Então, agora, nos perguntamos: num mundo em que as comunicações são sempre mais fáceis e exigem respostas imediatas, em que as solicitações são sempre mais prementes e crescem em número, onde fica o empenho de estar na presença de Deus? O ritmo acelerado nos absorve e a dispersão toma conta de nós. E, na verdade, não são poucas as pessoas que, sedentas de intimidade com o Senhor, buscam seu momento diário de oração, mas, ao ajoelharem-se, não conseguem fazer “a poeira assentar”. Passaram o dia dando atenção a coisas exteriores, estão impregnadas de impressões e preocupações. Resultado: a lembrança de Deus esvaiu-se no correr das horas.

Aparição de Cristo a Santa Teresa d'Ávila, de Bartolomeo Guidobono.

Esquecido no “fundo da gaveta” de nossas vidas, o exercício da presença de Deus é extremamente importante para a vida de oração. E, sobretudo, nos tempos atuais. Ele pode ser definido como uma prática que tem por fim manter o contato com Deus durante as diferentes ocupações do dia. É verdade que Santa Teresa não falou diretamente sobre isso, mas seus exemplos de vida e os conselhos espalhados aqui e ali em seus escritos constituem um tesouro para nós.

Referindo-se à meditação, a santa diz que “o essencial não é pensar muito – é amar muito” [1]. No caso do exercício da presença de Deus, esta indicação adquire um peso ainda maior do que em seu contexto original. Ele é vivido no desenrolar de outras atividades e, como não temos a capacidade de pensar em duas coisas ao mesmo tempo, o pensamento — que serve apenas para orientar a vontade para Deus de modo a estabelecer um contato e unir-se com Ele — já deve ter sido feito. Durante o dia, é a simples lembrança deste pensamento que será evocada, suscitando amor e levando a alma ao contato com Deus.

O exemplo do êxtase na cozinha ilustra perfeitamente isso. Ocupada nos afazeres culinários, a santa tinha o coração preso a um sentimento que lhe falava de Deus e a levava a amá-lo e a entregar-se a ele.

Prática aprendida nos primeiros anos passados no mosteiro, o exercício da presença de Deus foi uma constante em toda a sua vida, pois buscava encanar o preceito da Regra Carmelitana de viver “meditando dia e noite na lei do Senhor e velando em oração” [2]. Logo após sua tomada de hábito, ela atesta:

Na verdade, algumas vezes, estando a varrer em horas que antes costumava ocupar com meus divertimentos e vaidades, sentia uma estranha felicidade sem saber de onde vinha, ao lembrar que estava liberta de tudo aquilo. [3]

Por detrás dessas linhas, podemos ver que Santa Teresa meditava e apreciava a graça da vocação e as maravilhas operadas por Deus em sua vida. Ficava presa neste sentimento de gratidão e felicidade e, com isso, unia-se a Deus sem interromper suas obrigações, ora dizendo-Lhe uma breve palavrinha, ora absorta na doce impressão que lhe envolvia a alma.

Contudo, nem sempre é fácil chamar à tona a síntese de um pensamento que já nos levou a Deus e, desta forma, provocar um impulso de amor que nos una a Ele. Sem dúvida, uma coisa é varrer ou fritar ovos; outra é, por exemplo, estar empenhado num trabalho intelectual sério que nos suga tanto, a ponto de ficarmos incapazes de pensar em outra coisa ou de interromper sua execução. Nossa atenção está toda e exclusivamente dedicada ao tal trabalho. Nosso ser está na presença do trabalho e não na presença de Deus! O que fazer? Afinal, trata-se de uma obediência aos nossos deveres de estado…

Mas Santa Teresa nos adverte: “É mister, entretanto, que mesmo nas obras de obediência e de caridade, andeis atentas e não vos descuides de acudir muitas vezes a vosso Deus que está no íntimo de vós” [4]. E, em outro lugar, constata: “Se vivêssemos com cuidado, lembrando-nos frequentemente de que temos em nós tal Hóspede, acho impossível darmo-nos tanto às coisas do mundo” [5].

Eis, então, um conselho simples, prático e eficaz:

Sabeis o que vos pode ajudar para vos manter na presença de Deus? Procurai trazer convosco uma imagem ou retrato deste Senhor, que seja de vosso gosto. Não para a colocardes no seio sem a olhar, mas para lhe falardes muitas vezes. [6]

Uma pequena estampa ou imagem na mesa de trabalho, um crucifixo na parede… Isto bastará para que, ao esbarrar os olhos nestes objetos, nossa memória avive o pensamento e este, por sua vez, inflame o amor. O recolher-se dentro de si será, então, imediato. Se possível, uma breve pausa que não comprometa o andamento do trabalho, será ocasião para um rápido colóquio com Deus. Mas se isto for inviável, uma simples jaculatória impregnada de afeto ou um mero suspiro cheio de significado para nós será suficiente para reacender a impressão de nosso último momento de oração e nos manter “pendurados” em Deus. Às vezes — é verdade — o ambiente de trabalho não é propício para se ter uma estampa sobre a mesa, mas, enfim, nada impede que tragamos conosco uma medalha ou outro objeto piedoso de uso pessoal o qual possamos pegar ou apertar.

Santa Teresa pede que nos acostumemos a estas pausas, sob o risco de acabarmos passando o dia distantes de Deus e, a longo prazo, diminuir a amizade com Ele.

É preciso acostumar-vos a isto, adquirir o hábito. A falta de trato com uma pessoa causa estranheza e embaraço, nem se sabe falar com ela. Mesmo sendo aparentada conosco, parece que não a conhecemos. Com a falta de comunicação pouco a pouco se perdem o parentesco e a amizade. [7]

Fica claro: no início, a vontade está disposta a fazer oração, mas a agitação interior impede o recolhimento. Se esta agitação interior não perder sua força, a vontade, sempre derrotada, encolhe e… o relacionamento com Deus fica mais distante até que a amizade venha a morrer. Trata-se, como a santa diz, de criar um hábito e, portanto, pressupõe-se um esforço inicial para isto.

Algumas práticas monásticas podem ser adaptadas ao mundo secular com proveito. Por exemplo: às noviças se ensina estarem atentas às badaladas de um determinado toque de sino que se repete muitas vezes ao dia, ou ao timbre de um relógio de carrilhão nas horas cheias. A cada vez que esse som ecoa, fazem uma pausa e se colocam na presença de Deus. Por que não programar o smartphone para despertar em intervalos regulares de tempo? Por que não procurar um som cíclico que se repete no tempo do trabalho, como o sinal do término de uma aula no caso de uma escola? Por que, a cada vez que se vai reiniciar um processo de montagem, não se eleva o coração a Deus? Coisas pequenas, mas que realmente surtem efeito!

E para os que, por circunstâncias da vida, estão mais imersos na comunicação contínua com pessoas ou na preocupação do deslinde de diferentes atividades, a santa diz:

Se tiver que falar com alguém, procure lembrar-se de que possui dentro de si mesma com quem se entreter. Se tiver que ouvir outras pessoas, preste atenção a uma voz que de mais perto lhe fala. Em suma, esteja persuadida de que, se quiser, poderá estar sempre na ótima convivência de seu Deus. [8]

Uma vez criado o hábito, Deus se torna o Amigo mais próximo, com quem não temos cerimônia, mesmo nos “imprevistos previstos” no nosso dia-a-dia que, na falta deste Amigo de todas as horas, nos levariam a perder a calma. Tornou-se assunto das recreações das monjas a reação de Santa Teresa rumo a uma de suas tantas fundações. Chovera muito; a carroça deveria atravessar uma ponte que mal se distinguia em virtude do nível alto a que subira a água do rio. De repente, a carroça se desequilibra e tomba na água. Saltando com a água pelos joelhos, a santa, ao invés de impacientar-se, olha para o alto e diz: “Senhor, com tantos males e ainda por cima isto?... Se tratas assim teus amigos, é por isso que os tens tão poucos!”.

Se almejamos uma amizade assim com Deus, tão próxima e que, embora cheia de respeito pode manifestar tanta liberdade no trato, tenhamos em mente as palavras da santa:

Quem quiser adquirir este hábito, não desanime. Trabalhe por acostumar-se ao que ficou dito. Procure adquirir pouco a pouco o domínio de si mesma, sem se dissipar à toa. É ganhar a si para si e utilizar os próprios sentidos para a vida interior.

[...]

Nada se aprende sem um pouco de trabalho; por amor de Deus, Irmãs, dai por bem empregada a diligência que nisto fizerdes. Esforçando-vos, tenho certeza de que dentro de um ano, ou talvez meio ano, o conseguireis, com o favor de Deus. Considerai como é pouco esse tempo para tão grande proveito [...]. Praza a Sua Majestade jamais consentir que nos apartemos de sua divina presença. Amém. [9]

Referências

  1. Quartas Moradas, 1, 7.
  2. Regra, 8.
  3. Livro da Vida, 4, 2.
  4. Fundações, 5, 17.
  5. Caminho de Perfeição, 28, 10.
  6. Ibid., 26, 9.
  7. Idem.
  8. Caminho de Perfeição, 29, 8.
  9. Ibid., 7-8.

Recomendações

Quer se aprofundar na vida de oração? Então não deixe de assistir a nosso curso sobre a obra Caminho de Perfeição, de Santa Teresa d'Ávila!

A seguir, o trailer de apresentação deste curso:

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Um momento para render graças a Deus
Padre Paulo Ricardo

Um momento para render graças a Deus

Um momento para render graças a Deus

É com grande alegria que nós apresentamos a você o novo site do Padre Paulo Ricardo! Seja bem-vindo!

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2017
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Com muita alegria, nós apresentamos a você a nova versão do site do Padre Paulo Ricardo. Em nosso coração, vai uma grande gratidão a Deus, a Nossa Senhora — Virgem do Bom Sucesso, da Conceição Aparecida e do Rosário de Fátima — e a todos os nossos santos de devoção, pois é do Céu, em primeiríssimo lugar, que nos vem este presente.

Nossa gratidão vai, também, a todos aqueles que sofreram para que este site chegasse até você: pessoas que rezaram e que jejuaram por nosso apostolado; pessoas que trabalharam duro na construção desta plataforma; pessoas como você, que contribuíram fiel e generosamente, assinando o nosso conteúdo — pessoas que amaram, enfim, porque, neste mundo, é assim que o amor se nos torna visível aos olhos: com o sinal da cruz.

Você tem agora, à sua disposição, um site reformulado, pronto para se adaptar aos mais diversos tipos de dispositivo — telefone móvel, tablet ou computador —, e com aulas e matérias inéditas para alimentar a sua vida de estudos e de intimidade com Deus. Esperamos que sua experiência com o nosso conteúdo seja a melhor possível e, desde já, colocamo-nos à sua disposição para responder a dúvidas e solucionar problemas que eventualmente venham a surgir ao longo de sua visita e de seus estudos conosco.

Que este instrumento humilde, que é o site do Padre Paulo Ricardo, faça as pessoas conhecerem e amarem cada vez mais a verdade da Palavra de Deus, pois é isso o que verdadeiramente importa!

Seja bem-vindo à nossa nova casa, enfim, e sigamos juntos esta caminhada rumo ao Céu!

Nossa Senhora da Conceição Aparecida e do Rosário de Fátima,
rogai por nós!

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Quem são os verdadeiros filhos de Aparecida?
Virgem MariaEspiritualidade

Quem são os verdadeiros
filhos de Aparecida?

Quem são os verdadeiros filhos de Aparecida?

Ao visitar Aparecida em 1980, o Papa São João Paulo II deixou aos brasileiros uma valiosa mensagem espiritual e, com ela, um critério para discernir os verdadeiros filhos de Maria.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2017
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Quando o Papa São João Paulo II peregrinou à cidade da Padroeira do Brasil, em 1980, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida fazia dois anos que tinha sofrido um atentado, partindo-se em mil pedacinhos e tendo de passar por um árduo e doloroso processo de restauração.

Dirigindo-se aos brasileiros na ocasião, Sua Santidade fez uma menção daquele triste acontecimento, extraindo daí um cativante ensinamento espiritual:

Sei que, há pouco tempo, em lamentável incidente, despedaçou-se a pequenina imagem de Nossa Senhora Aparecida. Contaram-me que entre os mil fragmentos foram encontradas intactas as duas mãos da Virgem unidas em oração. O fato vale como um símbolo: as mãos postas de Maria no meio das ruínas são um convite a seus filhos a darem espaço em suas vidas à oração, ao absoluto de Deus, sem o qual tudo o mais perde sentido, valor e eficácia. O verdadeiro filho de Maria é um cristão que reza. [1]

Quem conhece um pouco da história de Aparecida não pode deixar de ver, nesta leitura do Papa Wojtyla, uma referência (proposital ou não) às próprias origens dessa devoção. Pois foi justamente através da oração, este instrumento tão simples quanto poderoso, que o afeto à imagem milagrosa cresceu nos arredores do rio Paraíba do Sul, logo depois de 1717, até atingir, com o passar do tempo, todo o território brasileiro.

O jornalista Rodrigo Alvarez recorda por exemplo que, dos pescadores que encontraram a imagem milagrosa, “o único que seguramente seguia a religião católica era Felipe Pedroso”: sem ele “não haveria Aparecida” e a imagem jamais se transformaria “no maior símbolo da fé católica brasileira” [2], como é hoje.

Mas o que fez este humilde pescador, afinal, de tão extraordinário, para ser considerado o pioneiro da devoção a Nossa Senhora Aparecida?

A resposta é muito objetiva: ele simplesmente rezou.

De fato, depois de ter achado a imagem no rio, Felipe “a levou para casa, colou a cabeça no corpo” — pois, como sabemos (evento insólito!) as duas partes foram pescadas separadamente — “e passou aproximadamente quinze anos cultuando a escultura ‘aparecida’ num pequeno altar doméstico, sem que muita gente a visse” [3].

Depois disso, Felipe passou a imagem ao filho, Atanásio, a partir de quem a devoção começou efetivamente a crescer: “Aos sábados, não se sabe exatamente em que horário, os vizinhos de Atanásio iam até a casa dele para rezar o terço e cantar em homenagem à Nossa Senhora” [4].

Este constitui, portanto, o grande “segredo” de Aparecida, por assim dizer: a devoção à Padroeira do Brasil nasceu no escondimento de uma alma que tinha fé e amava, com simplicidade, a Mãe de Deus. Foi passada de pai para filho, na intimidade de um lar católico — no seio da “Igreja doméstica” que é a família [5] — e então foi crescendo, timidamente… Não por estratégias de marketing, não por imposição de ninguém, mas “por atração — palavras de um outro Pontífice, também em Aparecida —, como Cristo ‘atrai todos a si’ com a força do seu amor” [6].

Nesta época, evidentemente, não havia grandes romarias à região, nem novenas solenes transmitidas pela televisão. Havia somente a católica de algumas pessoas, e nada mais. Se com aparentemente tão pouco Deus fez de Aparecida a maior devoção mariana do Brasil — e de seu santuário, hoje, o segundo maior do mundo —, o que não poderá fazer com nossas vidas, com nossos lares e com nossos grupos de amigos, se nos deixarmos realmente transformar pela força da oração e pela realidade transformadora da fé?

A identidade e a história de Aparecida são, por isso, também um apelo. A imagem encontrada há 300 anos nas águas ainda tem muito a dizer a nós, homens e mulheres do século XXI. E não são necessárias grandes elucubrações para descobrir o núcleo dessa mensagem. O próprio Papa São João Paulo II fez questão de decifrá-la de maneira bem prática: “Quem dera renascesse o belo costume — outrora tão difundido, hoje ainda presente em algumas famílias brasileiras — da reza do terço em família.” [7]

Com essas palavras, ditas imediatamente antes da interpretação bonita de que falamos no início desta matéria, é como se o Papa dissesse: Quem dera os devotos de Aparecida continuassem a ser do modo como começaram…! Quem dera os filhos dessa Mãe bendita se esforçassem por ser filhos de verdade desta Mãe: filhos que peregrinam e fazem romaria, sim; filhos que beijam com amor a imagem da Virgem, também; filhos que defendem com unhas e dentes sua Mãe contra os ataques de seus inimigos, tanto melhor; mas, principalmente, em primeiríssimo lugar, filhos que se dedicam à vida de oração — e procuram ensinar o mesmo a seus filhos, a seus familiares, a seus amigos.

Porque “o verdadeiro filho de Maria — ouçamos bem o que nos diz São João Paulo II — é um cristão que reza”. Sem isto, sem um relacionamento de amizade íntima com o Senhor e com sua Mãe santíssima, toda e qualquer devoção se converte em um afeto puramente estético, superficial, exterior… E nada pode ser mais avesso à religião de Cristo do que um corpo sem alma.

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Um ex-homossexual escreve à Igreja Católica
Testemunhos

Um ex-homossexual
escreve à Igreja Católica

Um ex-homossexual escreve à Igreja Católica

“Querida Igreja, vós não me deveis nenhum pedido de desculpas, vós não me deveis nada. Sou eu quem vos devo tudo.”

Christopher Sale,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2017
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Querida Igreja Católica,

Como um ex-homossexual que voltou para vós à procura de Deus, eu gostaria que soubésseis que não, vós não me deveis nenhum pedido de desculpas. Nunca, por nenhum momento, em meus 43 anos levando um estilo de vida homossexual, eu me senti marginalizado pela Igreja. A Igreja nunca me abandonou. Jamais eu senti como tivesse sido desamparado. Fui eu quem me desamparei a mim mesmo. Nem por uma vez sequer eu me senti rejeitado pela Igreja, como se não tivesse lugar nela. Vossas portas sempre estiveram abertas para mim. Fui eu quem as atravessei e fui embora.

Vós tendes de saber que não houve um só dia, em meus 43 anos, em que eu não reconhecesse o quão ofensivo a Deus era o meu comportamento. Olhando para trás, posso dizer honestamente que o obstáculo entre Deus e eu, posto por mim mesmo, constituiu um de meus maiores sofrimentos. O que me manteve afastado da Igreja foi a minha estupidez e o meu sentimento de culpa. Vós me destes a verdade e eu a rejeitei.

Como isso pôde ter acontecido? Muito simples. Eu usava desculpas. Insistia em que não detinha nenhum autocontrole sobre meu pecado. Entrei numa mentalidade de que talvez, por acaso, um Deus amoroso estivesse bem com tudo o que eu estava fazendo. Qualquer que fosse a verdadeira razão para isto, achei muito mais fácil ocultar toda a minha culpa no recanto mais escondido da minha consciência. E, então, por 43 anos, todo aquele pecado e toda aquela culpa permaneceram empoeirados e sem arrependimento algum.

Vós não me deveis nenhum pedido de desculpas. Fui eu quem ofendi a Deus, a sua Igreja e os seus ensinamentos. Fizestes a vossa parte. Proclamastes a verdade na caridade, mas eu a ignorei. Eu tenho e assumo a total responsabilidade por meus caminhos pecaminosos. Fui eu quem rejeitei as muitas cruzes que o Senhor me deu. Fui eu quem enfrentei meus demônios. Fui eu quem rejeitei a salvação que vós me oferecestes.

Ao longo de meus 43 anos afastado da Igreja, Deus concedeu-me uma cruz após a outra e eu as rejeitei todas. Foi só em 2008, quando contraí o vírus da SIDA, que se abriram as comportas de minha consciência. Foi naquele dia que eu percebi o quanto precisava de vós. Era chegada a hora de eu arrastar os meus pecados empoeirados e atravessar aquela porta que sempre esteve aberta para mim por tantos anos.

Obrigado por me terdes acolhido de volta. Obrigado por me dar a coragem de proclamar o que me tendes ensinado há tanto tempo. Vós não me deveis nada. Sou eu quem vos devo tudo.

Não, a Igreja não deve aos homossexuais um pedido de desculpas. As portas estão abertas. Aceite a verdade na caridade e saiba que Deus sempre o ajudará a carregar a sua cruz. Tome a sua cruz como eu tomei. Deus está esperando. Não tenha medo. A Igreja não é sua inimiga.

Eu estou velho agora e bastante afetado por problemas de saúde. Mal sou capaz de carregar a minha cruz. Mas eu estou onde eu quero estar. Perto de Deus, próximo de sua Igreja e adorando a verdade que eu rejeitei por tantos anos.

A Igreja deve pedir desculpas, no entanto, por seus padres e bispos favoráveis à homossexualidade, os quais estão colocando as almas dos homossexuais em grande perigo, por não dar a eles a verdade do Evangelho.

Em Cristo,

Ir. Christopher Sale
Fundador dos Irmãos do Padre Pio

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Por que Hollywood se voltou contra os padres católicos?
Sociedade

Por que Hollywood se
voltou contra os padres católicos?

Por que Hollywood se voltou contra os padres católicos?

O sacerdote católico tem sido um dos personagens mais comuns e constantes na história do cinema. O retrato que se faz deles, no entanto, mudou bastante ao longo dos anos.

Karl Schmude,  Catholic HeraldTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Outubro de 2017
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O sacerdote católico tem sido um dos personagens mais comuns e constantes na história do cinema, sendo interpretados, na grande maioria das vezes, por atores católicos.

Na década de 1930, católicos eram proeminentes em Hollywood, fossem atores como Spencer Tracy e James Cagney ou diretores como John Ford e Leo McCarey. Produtores buscavam atores católicos para interpretarem o que se considerava ser o difícil e delicado papel de um padre. Foi desse modo que Bing Crosby atuou em O bom pastor (1944) e em Os sinos de Santa Maria (1945), e Gregory Peck em As chaves do Reino. Os personagens individuais podiam variar, mas o retrato do padre permanecia constante: uma imagem de convicção e firmeza, compaixão e coragem, maturidade e justiça.

Em décadas mais recentes, porém, surgiram imagens diferentes. Na década de 1970, padres começarem a ser retratados em uma perspectiva desfavorável — por exemplo, Os embalos de sábado à noite (1977) e O Exorcista (1973). Esses filmes apresentaram padres como homens insípidos, imaturos e, por vezes, amargurados. Em Os embalos de sábado à noite, o jovem padre abandona sua vocação. Na última cena, seu irmão (interpretado por John Travolta) veste o colarinho clerical, apenas para firmar o laço ao redor de seu pescoço.

Essa subversão da imagem do sacerdócio é resultado de uma convergência de fatores, que incluem: o preconceito anticatólico — intensificado pela insistência da Igreja em assuntos ligados à vida, como o aborto; os escândalos clericais de abuso sexual — o que manchou a credibilidade da Igreja na sociedade em geral e, perversamente, nas várias áreas da moral sexual que já se encontravam sob ataque cultural; e, finalmente, o declínio geral dos personagens heróicos e admiráveis — entre os quais estavam os padres, afetando especialmente a figura masculina na família e na sociedade.

Mais recentemente, houve uma recuperação da imagem dos padres em filmes como Gran Torino (2008), no qual um amável clérigo auxilia um problemático veterano de guerra (Clint Eastwood), e Cristiada (2012), que apresenta Peter O’Toole como um padre mártir de modos gentis e afáveis.

Peter O’Toole interpretando o Pe. Christopher, em "Cristiada".

Interpretações assim, mesmo quando idealizadas, servem como uma exaltação cultural, bem como religiosa, do padre como o líder vital de uma comunidade. Isso foi especialmente verdadeiro para os retratos nos anos antes da Segunda Guerra Mundial, e provavelmente nenhum ator personificou o padre mais vivamente do que Spencer Tracy. Spencer veio de uma forte formação católica irlandesa e, desde muito cedo, foi inspirado pela liturgia da Igreja e por sua sacralidade, com os gestos do padre, o silêncio dos movimentos e as vestes coloridas, tudo contribuindo para a intensidade dramática da cerimônia.

Em São Francisco (1936), Spencer interpreta o padre gentil e amigo de infância do proprietário de uma casa noturna (Clark Gable). Em Com os braços abertos (1938) e na sequência Cidade dos meninos (1941), ele representa o padre Edward Flanagan, fundador de uma famosa escola e comunidade para garotos de rua na vida real. Em A hora do Diabo (1961), faz o papel de um padre velho e alcoólatra que sacrifica sua vida para salvar os habitantes de uma ilha atingida por um terremoto no Pacífico.

Provavelmente nenhum ator personificou a figura sacerdotal mais vivamente do que Spencer Tracy.

Após São Francisco, Spencer recebeu cartas de ateus descrevendo o despertar espiritual que experimentaram depois de o terem visto como padre. Em Com os braços abertos, o ator buscou inspiração para sua performance na pessoa de padre Flanagan. Quando recebeu seu segundo Oscar de melhor ator, em 1938, ele declarou que o prêmio pertencia, na verdade, ao padre Flanagan. Por isso, Spencer lhe deu o Oscar.

Quando garoto, Spencer nutria a ambição de se tornar padre, pois sentia profundamente que devia entrar para o sacerdócio, e não se tornar um ator. Mas ele acabou desprezando sua verdadeira vocação. Com isso, Spencer refletiu uma experiência nada incomum para o mundo do entretenimento, pela qual várias pessoas já passaram, uma ou outra vez. Exemplos atuais de pessoas que também queriam entrar para o sacerdócio incluem Jim Caviezel, que estrelou A Paixão de Cristo (2004), e Martin Scorsese, o diretor ítalo-americano de Silêncio (2016).

Isso evidencia que Tracy era mesmo um homem profundamente religioso. Após sua morte, em 1967, o ator hollywoodiano e roteirista Garson Kanin fez uma reflexão sobre a solidez da vida e da fé de seu amigo:

Eu achava significativo que ele, um católico devoto, e eu, um ateu declarado, pudéssemos ter formado e perseverado em uma amizade de 30 anos. Longas caminhadas — Spencer pacientemente e cuidadosamente explicando-me sua fé. Longas conversas — durante as quais ele ouvia (como só ele podia ouvir) o outro lado, sem nunca demonstrar aborrecimento ou irritação...

Agora as caminhadas e as conversas se acabaram. Se eu estiver certo, nós podemos ficar contentes com a herança da memória de um homem querido e de um ator incomparável. Se ele estiver certo, nós devemos invejar os anjos.

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Por que deveríamos comemorar os aniversários?
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Por que deveríamos
comemorar os aniversários?

Por que deveríamos comemorar os aniversários?

Se o meu aniversário é especial e digno de ser celebrado — ou seja, se a minha vida é especial e digna de ser celebrada —, isso só é assim porque Deus me criou. O resto é puro egoísmo.

Clifford Staples,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Outubro de 2017
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Meu 64.º aniversário foi no último 11 de setembro. Sim, você ouviu bem: 11 de setembro, mas isso é assunto para outra conversa. O que eu gostaria de explicar aqui é o porquê de eu sempre ter achado, ao menos durante boa parte da vida, que aniversários e outras datas comemorativas eram coisa sem sentido e importância, e por que, afinal de contas, eu acabei mudando de ideia.

Depois de abandonar a Igreja na adolescência, era bastante frequente que eu me sentisse confuso, e até mesmo incomodado, em festas de aniversário, casamentos e celebrações parecidas. Eu procurava evitá-las a todo custo e, quando não conseguia, fazia o possível para suportá-las. Eram momentos de alegria e confraternização, mas eu raramente me sentia alegre. Pelo contrário, eram momentos que me pareciam vazios e sem sentido. O máximo que eu podia fazer, ao menos quando conseguia, era fingir estar à vontade. Acabei-me tornando, enfim, aquele tipo de pessoa sem a menor disposição para mostrar-se agradecida a quem quer que seja. O leitor talvez imagine que se trata de sintomas de depressão ou de algum desvio de personalidade, e talvez isso seja mesmo verdade, mas não é toda a verdade. Uma pessoa é mais do que sua personalidade, e o problema não era a minha personalidade; o problema era minha alma.

Após voltar para a Igreja e mergulhar de cabeça em seus ensinamentos, fui descobrindo pouco a pouco as raízes espirituais da minha infelicidade. Em muitos de seus livros, particularmente em Felicidade e Contemplação e Em sintonia com a Verdade, Josef Pieper ensina que um homem incapaz de amar, ou sequer de reconhecer a bondade do mundo, não pode ser feliz de verdade, por mais desesperadamente que ele o deseje ser. Mas como, enfim, eu me apartei do amor a Deus e à sua criação?

Quando tinha mais ou menos 30 anos, eu era um esquerdista que dava aulas de sociologia. Na época, o relativismo sociológico era minha grande arma para rejeitar os ensinamentos da Igreja Católica. Cheguei até mesmo a adotar o ateísmo humanista como minha filosofia pessoal. Desse modo, em vez de amar o mundo com Deus, eu me tornei um daqueles aficionados em mudar o mundo com Marx.

Ora, nenhum esquerdista utópico que se respeite pode dar-se o luxo de ser feliz enquanto houver injustiça no mundo. Para esse tipo de gente, há pouca coisa na vida que valha a pena celebrar. Deus (a evolução, a história ou alguns homens maus — como, porém, eles se tornaram maus é um mistério insondável) fez um grande estrago, e é nosso dever consertá-lo. É só depois de colocarmos as coisas em ordem que poderemos ser felizes. É só depois de termos trazido o céu aqui para a terra que teremos o merecido descanso.

Aderir a uma filosofia tão irrealista como essa equivale a condenar-se a uma infelicidade metafísica — a uma infelicidade da alma. Essa falta de alegria é insuportável, e foi justamente por isso que passei a procurar um pouco alívio onde quer que ele se encontrasse, geralmente satisfazendo os desejos do corpo e da mente. Assim, nesta busca pela igualdade, tornei-me um hedonista e um egoísta — duas características típicas de todo esquerdista utópico. Acontece, porém, que o prazer não é felicidade, e a vitória sobre um inimigo ou desafeto só satisfaz o “ego”. Minha vida, numa palavra, se resumiu a uma busca triste e infeliz por prazer e poder.

A verdadeira felicidade — aquela alegria que a verdade produz em nossa alma, segundo S. Agostinho e S. Tomás de Aquino — vem de Deus, que é a Verdade, e não de nós. Inclusive os pagãos (antigos e modernos) dão testemunho da glória que Deus manifesta por meio da criação ao se admirarem diante da majestade da natureza — embora, é claro, isso signifique muitas vezes ignorar os princípios da natureza ou até mesmo divinizá-la, como ocorre com o panteísmo. Mas um ateu não se pode permitir nem mesmo isso, já que o ateísmo é fundamentalmente antiteísmo, é uma recusa a reconhecer Deus e suas obras, é negar ao Criador a honra, a glória e a ação de graças a que ele tem todo direito. Essa radical relutância em ser grato a Deus nos leva diretamente à incapacidade de ser gratos às outras pessoas — mesmo aos nossos parentes mais próximos.

Pela graça de Deus, tive uma filha a quem eu mesmo não podia senão amar, e pela qual não podia senão dar graças, ainda que de má vontade. Não é à toa, aliás, que o nascimento da minha filha em 1992 tenha sido o dia em que, mesmo sem sabê-lo, eu comecei a reencontrar Deus, a Igreja e a felicidade.

Mas voltemos aos aniversários. Se você acredita não ser mais do que um acidente da evolução, por que o dia do seu acidental nascimento seria digno de comemoração? O que, no fundo, estamos celebrando? O que torna especial o “seu dia”? E por que, afinal, chamá-lo de “seu” dia? Esquecer-se do Deus que nos fez, que tornou possível o nosso aniversário, centrar-se em si mesmo — como se fôssemos os responsáveis por nosso próprio nascimento — não é mais do que ser um egoísta orgulhoso. E ainda que eu possa ser tão soberbo quanto qualquer um, eu sabia de algum modo que celebrar a mim mesmo não podia ser o verdadeiro sentido do meu aniversário. No entanto, sem um Deus que me tivesse criado, a coisa toda me parecia sem sentido. Se não nos ajoelhamos para agradecer a Deus pelo dom da vida, a vida ao longo da qual podemos encontrá-lo e reencontrá-lo por meio de Jesus Cristo, a nossa “celebração” é desordenada, falsa, incapaz de transmitir-nos algo que se pareça, mesmo que de longe, com uma alegria verdadeira. Quanto a mim, nunca me transmitiu, e por bons motivos. Se o meu aniversário é especial e digno de ser celebrado — ou seja, se a minha vida é especial e digna de ser celebrada —, isso só é assim porque Deus me criou. O resto é puro egoísmo.

Foi assim que deixei de encarar as festas de aniversário como um problema. Comecei a sentir aquela alegria que eu devia sentir por ser grato ao Deus a quem eu devo ser agradecido. E a minha alegria é ainda maior porque tenho muitos outros motivos pelo quais agradecer, embora eu só queira mencionar aqui alguns deles.

Acredito não ser o primeiro católico a se perguntar se nós não deveríamos comemorar, na verdade, o dia da nossa concepção, em vez do dia do nosso nascimento. Porque se trata do instante, que só Deus conhece (e talvez nossas mães e nossos pais!), que realmente importa. Ao pensar em minha concepção, encho-me de gratidão tanto a Deus quanto a meus pais, pois sem eles eu não existiria nem seria católico. Também sou agradecido à minha mãe por não me ter abortado — como acontece com muitos filhos de Deus nesta sociedade descrente e egoísta em que vivemos. Agradeço por ter nascido antes de que este crime terrível se tornasse legal e socialmente aceitável — dois sinais claros da nossa corrupção.

Também dou graças a Deus por meu irmão mais jovem, nascido dos mesmos pais e criado pelo mesmo Deus, um presente para a nossa família. E eu rezo com esperança para que nós dois possamos nos juntar um dia à nossa mãe e amigos queridos no Céu, onde a nossa alegria não terá fim nem limite. Eu sou, além disso, grato a meu pai, um homem bom e veterano de guerra, que celebrará mês que vem os seus 90 anos de idade.

Agradeço também a Deus por me presentear com a minha esposa, pelo seu batismo e pelo nosso casamento na Igreja. Com a ajuda de Deus, podemos nos ajudar mutuamente, agora e para sempre.

Minha filha foi o maior dom que Deus já me deu, e se não fosse o meu aniversário ela não teria o dela, e por isso dou graças a Deus por ter tido a chance de ser o pai dela, ainda que nem sempre eu cumpra bem o meu papel. Há alguns anos ela foi batizada e se casou na Igreja. Não preciso de dizer que esta é outra razão para eu ser grato.

Agradeço e louvo a Deus, enfim, por me ter permitido viver uma vida relativamente longa. Sou grato ao Senhor por me ter concedido o conforto e a paz de nada temer na vida e, assim espero, na morte. Pois aprendi que não é da morte que devemos ter medo, mas da possibilidade de escolhermos nos separar da graça de Deus pelo pecado.

Estou à espera de muitos outros aniversários, de dias em que eu possa rezar: Senhor, hoje é o meu aniversário, o dia em que vós me criastes! Alegremo-nos nesse dia e sejamos felizes!

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Uma das encíclicas mais corajosas já escritas por um Papa
Igreja Católica

Uma das encíclicas mais
corajosas já escritas por um Papa

Uma das encíclicas mais corajosas já escritas por um Papa

Embora tenha sido escrita em um período e para um lugar particulares, “Mit brennender Sorge” contém uma bela e poderosa defesa da verdade.

John Clark,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Outubro de 2017
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Ao escrever as encíclicas papais, muitos pontífices assumiram posições corajosas contra o espírito ou os poderes de sua época. Títulos como Rerum Novarum, Pascendi e Humanae Vitae logo vêm à mente.

Há uma encíclica papal, no entanto, que se destaca tanto por sua oposição ousada ao mal quanto pelos meios dramáticos escolhidos para apresentá-la ao público pretendido. Publicada por Pio XI em 1937 como uma resposta ao demoníaco regime nazista de Hitler, ela foi chamada de Mit brennender Sorge.

Nos tempos modernos, muitos se mostram dispostos a acreditar em tudo e qualquer coisa negativa que guarde relação com a Igreja Católica, independentemente do quão bizarra a lenda ou a teoria da conspiração possa ser. Uma dessas teorias é a suposta cumplicidade do Vaticano e de outros católicos influentes com o regime nazista de Hitler — posição que se torna absolutamente insustentável diante do peso das sólidas investigações históricas, realizadas em livros tais como The Myth of Hitler's Pope: Pope Pius XII and His Secret War Against Nazi Germany (“O mito do Papa de Hitler: o Papa Pio XII e seu segredo de guerra contra a Alemanha nazista”), do rabino David G. Dalin; Hitler, the War, and the Pope (“Hitler, a Guerra e o Papa”), de Ronald Rychlak; e Bearing False Witness: Debunking Centuries of Anti-Catholic History (“Levantando falso testemunho: desbancando séculos de história anticatólica”), de Rodney Stark (todos sem tradução para o português).

Na palavra e na ação, ambos os papas, Pio XI e Pio XII, se opuseram fortemente ao nazismo, e a publicação de Mit brennender Sorge escrita em grande parte pelo futuro Pio XII e publicada durante o reinado de Pio XI — foi a marca filosófica dessa oposição. Em 1937, Pio XI queria tratar a situação diretamente com os católicos alemães. Uma vez que isso seria completamente impossível, ele fez a segunda melhor coisa que podia fazer: publicou essa encíclica, cujo título traduzido para o português seria “Com ardente preocupação”.

Havia vários aspectos singulares na encíclica. Primeiro, sua autoria única e original em alemão foi um sinal de solidariedade aos fiéis católicos da Alemanha e um lembrete de o que exatamente a encíclica estava condenando. Segundo, Mit brennender Sorge exibiu algo raramente visto em um documento papal: raiva. Considere-se, por exemplo, a seguinte passagem:

A experiência dos últimos anos põe a claro as responsabilidades: revela intrigas que, desde o princípio, armavam guerra de extermínio. Nos sulcos onde nos esforçamos por lançar a semente da verdadeira paz, outros semearam — como o inimicus homo da Sagrada Escritura (cf. Mt 13, 25) — o joio da desconfiança, do desprazer, da discórdia, do ódio, da difamação, da hostilidade profunda, ora velada, ora clara, contra Cristo e contra a sua Igreja, desencadeando uma luta que se alimentou em fontes diversas sem conta e se serviu de todos os meios. Esses e só esses, com os seus cúmplices, são hoje os responsáveis se, em vez do arco-íris da paz, a tormenta de lutas religiosas escurece o céu da Alemanha.

Nas linhas seguintes, o Papa Pio continua a ilustrar a inerente contradição entre nazismo e cristianismo:

Na vossa terra, veneráveis irmãos, ouvem-se vozes, em coro cada vez mais forte, que incitam a sair da Igreja. Entre os mentores, há alguns que, por sua posição oficial, tentam divulgar a impressão que tal afastamento da Igreja, e por conseguinte a infidelidade a Cristo Rei, constitui prova particularmente convincente e meritória de fidelidade ao Estado atual.

Se raiva era algo raro em encíclicas, desprezo e escárnio eram muito mais. Pio XI continua:

Só espíritos superficiais podem cair no erro de falar em Deus nacional ou em religião nacional, e empreender a louca tarefa de incluir nos limites dum só povo, ou na estreiteza étnica duma só raça, a Deus, Criador do mundo, rei e legislador de todos os povos, diante do qual “as nações são como uma gota que cai dum balde” (Is 40, 15).

Ronald Rychlak escreve que a encíclica de Pio XI “foi uma das mais fortes condenações a um regime nacional já feitas pela Santa Sé”.

Sua Santidade, o Papa Pio XI.

Mas houve outra coisa que fez de Mit brennender Sorge um documento único: o método de divulgação. Do latim, a palavra “encíclica” significa “circular”, isto é, trata-se de algo que deve ser abertamente distribuído. Mas, embora todas as encíclicas devam ser distribuídas em toda parte, nenhuma na história foi tão bem divulgada quanto Mit brennender Sorge. Pio XI e seus conselheiros perceberam que não podiam simplesmente imprimir esta carta encíclica e enviá-la casualmente para as inúmeras igrejas católicas da Alemanha sem que as autoridades tomassem conhecimento disso. Se encontrasse o documento, a Gestapo não permitiria jamais que ele fosse entregue a seus destinatários.

Então, o documento foi preparado em Roma, clandestinamente enviado à Alemanha e distribuído para tipógrafos católicos. Aproximadamente 300 mil cópias foram impressas e, na calada da noite de 11 de março, Mit brennender Sorge foi enviada às igrejas católicas nação afora.

Na manhã seguinte, Domingo de Ramos, 1937, padres em toda a Alemanha leram a encíclica a suas congregações. Os números são surpreendentes. Como escreveu David Dalin, a encíclica “foi lida na íntegra dos púlpitos de todas as igrejas católicas da Alemanha…” Estima-se que mais de 20 milhões de católicos alemães tinham ouvido a encíclica naquela manhã. Isso deve ter sido uma experiência surreal para todos os envolvidos. Ler a encíclica do púlpito foi um ato chocante de aberta oposição a Hitler e seu regime. Qualquer envolvido — padres, tipógrafos, mensageiros — corriam risco de morte ou detenção. De fato, alguns foram presos por aquele “crime”.

Talvez mais surpreendente ainda seja o fato de os nazistas não terem previsto nada disso. Rychlak escreve: “A única razão para Mit brennender Sorge ter sido lida para todos foi que os nazistas foram pegos de surpresa. Assim que a Missa do Domingo de Ramos acabou, os oficiais da Gestapo já se encontravam à porta das igrejas para confiscar as cópias.” Sim, elas foram confiscadas, mas não antes de milhões de católicos alemães terem ouvido aquela mensagem. O envio de Mit brennender Sorge foi um dos grandes e heróicos esforços clandestinos contra Hitler, tanto antes quanto depois da Segunda Guerra.

Embora tenha sido escrita em um período e para um lugar particulares, Mit brennender Sorge contém uma bela e poderosa defesa da verdade. Muitos heróis anônimos sacrificaram suas carreiras e comprometeram suas vidas para torná-la conhecida. Essa história deveria não somente nos inspirar a ler tal documento hoje, mas também a ler mais as encíclicas que os papas publicaram ao longo dos anos. Nas muitas encíclicas da Igreja, uma riqueza de conhecimento e de sabedoria espera por nós.

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