Um dos aspectos mais importantes da liderança cristã — tema do próximo curso do Padre Paulo Ricardo — é a missão educacional a ela atrelada. O líder, sendo aquele que guia ou conduz (a palavra vem do inglês leader, do verbo to lead), precisa estar à frente para mostrar o caminho; precisa indicar: “É por aqui”, “Por aí não”. (“Educação” também tem a sua etimologia no mesmo verbo: ex-ducere, “conduzir para fora”.)

Impossível não pensar naquele jovem rapaz que, tendo ido passar a virada de ano numa trilha no Pico Paraná — o ponto mais alto do Sul do Brasil —, em dado momento foi deixado por sua companheira, mais experiente, e acabou se perdendo. A aventura quase lhe custou a vida. E por quê? Porque quem devia liderá-lo, ou seja, ajudá-lo apontando o caminho, não cumpriu a sua missão.

Fica claro, a partir desse exemplo, como liderança é sinônimo de assistência, serviço, orientação.

Mas, se trilhas na mata e escaladas em montanhas não são para todos, a missão de liderar pessoas está em praticamente todos os lugares: no lar, pai e mãe são chamados a conduzir os seus filhos; no trabalho, chefe e gerentes orientam os demais funcionários; na escola, o professor instrui seus alunos; na igreja, o pároco apascenta os fiéis etc. E todas essas figuras são como o guia do episódio que acompanhamos: em meio à floresta escura desta vida, com seus labirintos e despenhadeiros, ele precisa ser a referência, o farol que ilumina, a mão que ampara e indica a trilha a seguir — em uma palavra, o líder que serve. (Sem isso, o viajante despreparado se estrepa,; a desorientação pode ser fatal.)

O modo como prestamos esse serviço, no entanto, faz toda a diferença. Servir resmungando, servir se arrastando, servir de cara virada… é o prelúdio da deserção. Também no caso do Pico Paraná vimos algo semelhante. Antes de abandonar o rapaz que se perdeu na trilha, sua companheira não parava de postar vídeos reclamando dele, inclusive ameaçando largá-lo. Até que, enfim, aconteceu. 

Queremos mostrar, no entanto, um exemplo oposto: um exemplo de alguém que, mais do que servir, ansiava por fazê-lo. A história a seguir é contada pela senhora Maria von Trapp, a famosa matriarca que inspirou “A Noviça Rebelde” (The Sound of Music), premiado filme de 1965. Atentem-se ao exemplo do Padre Joseph, que era próximo da família. Sua postura ilustra muito bem o amor ao serviço, a liderança amorosa de que falamos:

Nós tínhamos sorte. O padre que nos acompanhava à época, rezando Missa em nossa capela, e que tornou-se amigo próximo da família, era particularmente “fã do domingo” [Sunday fan] — assim o chamávamos, brincando.

“Eu não sei qual o problema do Padre Joseph”, meu marido me dizia às vezes. “Ele sempre sugere que não damos o devido apreço ao dia do Senhor. Ora, nós paramos de trabalhar aos sábados [...]; como todo o mundo, preparamo-nos para o domingo arrumando nossas roupas domingueiras, confessando-nos e lendo a Epístola e o Evangelho. No domingo, vamos à Missa junto com as outras crianças, tomamos um bom café da manhã dominical, e depois, durante o dia, fazemos visitas [às pessoas]. Se entre os nossos amigos há alguém enfermo, procuramos vê-lo. Passamos o dia junto como família, como deve ser. Ora saímos para passear com as crianças, ora brincamos, ora fazemos alguma dança folclórica, ora fazemos música… Eu realmente não entendo o que ele quer dizer.”

Hoje eu sei [o que ele queria dizer]. É verdade que passávamos o dia do Senhor como família, rezando, descansando e alegrando-nos juntos. Tenho certeza de que o Padre Joseph não se opunha a isso. O que ele percebia, no entanto, é que nós fazíamos aquilo inconscientemente, por rotina, porque todos na Áustria da época faziam a mesma coisa. Tornara-se uma tradição. Padre Joseph deve ter notado o grande perigo que é para uma nação observar costumes religiosos simplesmente porque “todo o mundo faz” ou porque “há centenas de anos temos feito desta forma”. Ele sabia que cada geração, por si mesma, tinha de redescobrir a herança que seus ancestrais lhe haviam transmitido. Do contrário, todos aqueles belos e velhos hábitos, religiosos ou não, perderiam sua vitalidade e se tornariam peça de museu. Padre Joseph notara que, perguntadas por que observavam certos rituais, cada vez mais as pessoas respondiam: “Porque sempre fizemos assim” — e ele se alarmava. O que mais o preocupava, no entanto, era a celebração do domingo.

Em uma noite crucial, tomamos a decisão de nos reunirmos com o Padre Joseph no dia seguinte, pedindo-lhe que nos contasse tudo o que não sabíamos a respeito do domingo. Nós o convidamos, então, a tomar uma xícara de café conosco. Se ele tinha uma fraqueza, era por café. Sempre era possível pescá-lo com essa isca. Já sorrindo de satisfação, ele pegou sua xícara, quando meu marido lhe perguntou, em tom bem casual: “Padre, o senhor se importaria em nos contar tudo sobre o domingo, e por que se entristeceu tanto quando uma vez quisemos ir ao cinema numa noite de sábado, ou quando Rupert e Werner desmontaram suas bicicletas numa tarde de domingo?”

Algo inesperado aconteceu então. Padre Joseph baixou a xícara, foi até meu esposo, apertou-lhe a mão entre as suas, sacudiu-a com entusiasmo e disse-lhe, com uma voz visivelmente comovida: “Obrigado, Georg, obrigado por essa pergunta. Estive há muito tempo rezando por esse momento!” E então ele acrescentou: “Não serei capaz de lhe contar tudo sobre o domingo, mas podemos ao menos começar…”

Lembro-me muito bem daquilo tudo, pois revivi aquele momento muitas vezes desde então. Só que agora sou eu que assumo o lugar do Padre Joseph enquanto ouço um bom cristão mais ou menos impaciente perguntar-me: “Posso saber qual o seu problema com o domingo e qual a razão de vocês fazerem tanto alvoroço a esse respeito?”

Padre Joseph estava certo. Ele não foi capaz de contar-nos tudo no primeiro encontro. Quando meu marido e eu nos vimos no limiar de uma grande descoberta, sugerimos deixar as crianças mais velhas participar. Desde então nós passamos muitas e muitas noites de sábado ouvindo o Padre Joseph explicar-nos “tudo sobre o domingo” [i].

A família von Trapp realmente tinha sorte: era assistida por um verdadeiro líder; um padre que, ante as dúvidas de seus fiéis, se emociona, se entusiasma e, então, arregaça as mangas para servir, para instruir, para edificar. “Estive há muito tempo rezando por esse momento!”, ele diz. Um sacerdote ansioso por ensinar! Não lembra um pouco o Coração de Cristo, intercedendo por nós antes mesmo que o procuremos; suspirando por nossa busca; indo atrás da ovelha que nem se sabe extraviada ainda?!

Cena de “A Noviça Rebelde” retratando a família von Trapp.

Fosse um homem cansado da própria vocação, Padre Joseph talvez reagisse à dúvida do barão von Trapp com um suspiro descontente, como quem diz: “Não amola”; e com isso um rico aprendizado se perderia, uma família teria ficado na ignorância — e também seus filhos.

Quantos de nós não experimentamos esse mesmo cansaço da própria vocação? Chamados por Deus a liderar (“vocação” vem do latim voco, vocare, que significa “chamar”), preferimos enterrar os nossos talentos e fazer ouvidos moucos a Deus que volta a chamar-nos através do próximo. Sim, porque um dia Deus nos encarregou de sermos pais, por exemplo. Mas, dia após dia, Ele volta a encarregar-nos com os mil e um atos de serviço da casa: uma leitura para um filho pequeno, a explicação de um tema espinhoso a um filho mais velho, e a doação do nosso precioso tempo, enfim, a todos os membros da família. E como lhe temos respondido? Com o entusiasmo do Padre Joseph, ansioso por servir? Que não se limitou a sentar-se uma noite com os von Trapp, mas os visitava toda semana, só para catequizá-los sobre o domingo? Ou com o cansaço de quem quer apenas acomodar-se em uma poltrona e livrar-se de um fardo? Com os murmúrios de quem vai fazer, sim, mas no próprio tempo, de má vontade, com a cara fechada? 

Sem dúvida, essa disposição do Padre Joseph é obra da graça. Entregues a nossos próprios sentimentos desordenados, à nossa vontade débil, à preguiça, sem dúvida nós desertaremos, deixaremos nossos irmãos (almas!) na trilha. Se pedirmos a Deus, no entanto, a força para servir, para sermos úteis ao nosso próximo, para o conduzirmos em segurança ao porto da salvação, Ele, o Bom Pastor de nossas almas, irá nos dar também corações de pastores, de líderes. E, então, veremos brotar em nós esse mesmo desejo, esse mesmo ardor que inflamou aquele sacerdote a instruir as suas ovelhas. Desse modo, não só iremos servir quando chegar o momento; iremos rezar para que ele chegue, o tão esperado momento de liderarmos os nossos e conduzi-los, com paternos conselhos, ao Reino dos Céus.

Referências

  1. Maria Augusta von Trapp, “The Land Without a Sunday”. In: Around the Year with the Trapp Family. New York: Pantheon, 1955, pp. 186ss. (Tradução nossa.)

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