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O fracasso da “prostituição legal” na Holanda
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O fracasso da “prostituição
legal” na Holanda

O fracasso da “prostituição legal” na Holanda

Em 2000, o governo da Holanda decidiu legalizar a prostituição. A lógica parecia simples: dar segurança às mulheres e regularizar o que faziam como “profissão”. As coisas, no entanto, não saíram como o esperado.

Julie Bindel,  The SpectatorTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Março de 2016
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Há um conhecido quadro de comédia britânico que retrata dois policiais em Amsterdã, recostados em uma cadeira, se gabando de que não precisariam mais lidar com o crime de homicídio, porque o governo holandês já o tinha legalizado. A cena seria cômica, se não fosse trágica. Em 2000, o governo da Holanda decidiu facilitar a vida de cafetões, traficantes e apostadores, legalizando o já maciço e ostensivamente visível comércio de prostituição. A lógica era tão simples quanto enganadora: tornar as coisas mais seguras para todo mundo. Fazer disso um trabalho como qualquer outro. Uma vez que as mulheres estivessem livres do submundo, então, os bandidos, contrabandistas e traficantes de pessoas iriam cair fora.

Agora, doze anos depois, podemos ver os resultados desse experimento. Ao invés de proporcionar melhor proteção às mulheres, só fez aumentar o tráfico. Ao invés de confinar os bordéis a uma discreta (e evitável) parte da cidade, a indústria do sexo se espalhou por toda a Amsterdã — incluindo o meio da rua. Ao invés de receberem direitos no "ambiente de trabalho", as prostitutas descobriram que os cafetões são tão brutais como sempre foram. A união criada pelo governo para protegê-las tem sido recusada pela vasta maioria das prostitutas, que permanecem assustadas demais para reclamar.

Depois da legalização, os cafetões foram reclassificados como empresários e homens de negócios. Os abusos sofridos pelas mulheres são chamados agora de "acidentes de trabalho", como uma pedra caída no dedo de um construtor. O turismo sexual cresceu mais rápido em Amsterdã do que qualquer outro tipo de turismo: como a cidade se tornou o bordel da Europa, mulheres têm sido importadas da África, do Leste da Europa e da Ásia para satisfazer a demanda. Em outras palavras, os cafetões não só não foram embora, como ganharam legitimidade — a violência não só prevalece, como se tornou parte do trabalho, e o tráfico aumentou. O apoio para que as mulheres deixassem a prostituição ficou praticamente inexistente. A obscuridade inerente a esse trabalho não foi amenizada pela bênção da lei.

O governo holandês esperava exercer o papel de "cafetão honrado", tomando parte do rendimento de prostituição através de impostos. Mas só 5% das mulheres se registraram para a taxa, porque ninguém quer ser conhecida como prostituta — não importa o quão legal isso seja. A ilegalidade simplesmente tomou uma nova forma, com um aumento no tráfico, nos bordéis clandestinos e no lenocínio; com a fiscalização completamente fora de cena, ficou ainda mais fácil quebrar as leis que restaram. Prostituir mulheres de países que não pertencem à União Europeia, desesperadas por uma vida nova, continua ilegal, mas nunca foi tão fácil.

A legalização impôs casas de prostituição em áreas de toda a Holanda, queiram elas ou não. Mesmo se um município ou cidade se opõe ao estabelecimento de um bordel, ele deve permitir pelo menos um — não fazê-lo é ir contra o direito federal básico ao trabalho. Para muitos holandeses, a legalidade e a decência foram irreconciliavelmente divorciadas. Tudo foi um fracasso social, jurídico e econômico — e a loucura, finalmente, está chegando ao fim.

O boom dos bordéis acabou. Um terço dos prostíbulos de Amsterdã foi fechado por envolvimento com o crime organizado e com o tráfico de drogas e devido ao aumento no tráfico de mulheres. A polícia agora reconhece que o famoso Distrito da Luz Vermelha — a zona de Amsterdã em que se concentram as casas de prostituição — se transformou em um centro global de tráfico humano e lavagem de dinheiro. As ruas estão infiltradas de gangues famintas à procura de jovens vulneráveis e vendendo-as como virgens que farão o que quer que sejam mandadas a fazer. Muitos dos envolvidos no comércio regular de turismo de Amsterdã — com os seus museus e canais — temem que os seus visitantes desapareçam juntamente com a reputação da cidade.

Eu estive lá recentemente com Roger Matthews, professor de Criminologia na Universidade de Kent e especialista renomado em tráfico sexual. Os políticos com quem ele conversou confessam que a legislação conseguiu piorar uma situação que já estava desagradável. Começa, então, um trabalho inútil de reparação, com mulheres que alugam vitrines em breve sendo obrigadas a registrar-se como prostitutas — uma medida tão inefetiva quanto a obrigação que elas têm de pagar impostos. Quando a falsa união governamental supostamente representando as mulheres fez um recrutamento maciço de associados após a legalização, apenas cem se filiaram, das quais a maioria eram strippers e dançarinas.

Ao invés de acabar com a corrupção do Distrito da Luz Vermelha, isso tornou a área mais decadente do que nunca — repleta de turistas sexuais bêbados agindo como olhadores de vitrine, apontando e rindo das mulheres que eles vêem. As mulheres da região atravessam as ruas com as cabeças baixas, tentando não ver as outras mulheres exibidas como pedaços de carne em um açougue. É possível ver homens entrando nos bordéis, tentando abaixar o preço do serviço, e outros saindo, enquanto fecham o zíper de seus jeans. Muitas das mulheres parecem muito jovens, todas entediadas, a maioria seminuas, sentadas em banquinhos com os celulares na mão.

Em nenhum outro lugar do mundo a prostituição de rua é legalizada, porque as pessoas não querem isso à vista. Onde há comércio sexual de rua, mulheres são abordadas no caminho de casa por apostadores e, frequentemente, camisinhas, parafernália de drogas e cafetões são visíveis. Mas a Holanda decidiu em 1996 que a prostituição de rua era uma forma decente de ganhar dinheiro e criou várias "zonas de tolerância" para homens alugarem com segurança a entrada do corpo feminino que desejarem por alguns poucos minutos.

Um dia depois de abrirem a zona de Amsterdã, mais de uma centena de residentes das redondezas tomaram as ruas em protesto. Levou seis anos para o prefeito admitir em público que o experimento tinha sido um desastre, um ímã para mulheres traficadas, traficantes de drogas e meninas menores de idade. Zonas em Roterdã, Haia e Heerlen foram fechadas em circunstâncias similares. A direção das mudanças é clara: a legalização será revogada. Ela não significou emancipação. Ao contrário, resultou no tratamento abusivo, desumano e degradante das mulheres, porque declara a compra e venda de carne humana aceitáveis aos olhos da lei. Enquanto o governo holandês é reformado e passa de cafetão a protetor, terá tempo para refletir no dano causado às mulheres envolvidas nesse calamitoso experimento social.

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Você é torre forte ou cata-vento?
Espiritualidade

Você é torre forte ou cata-vento?

Você é torre forte ou cata-vento?

O que você prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Dom Tihamer Toth12 de Julho de 2018
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Nas pequenas cidades da Idade Média, encontram-se, não raro, vestígios de fortalezas e castelos; e, mesmo onde as construções estão reduzidas a algumas pedras, não é difícil achar quase intacta a alta torre do velho castelo.

Ora, essas torres que viram desaparecer tantos séculos e que a seus pés contemplam, com olhar impassível, o turbilhão da vida moderna, como dão bem uma ideia do caráter firme! Ao lado delas, tudo muda, tudo se transforma, tudo evolui: vende-se e compra-se; delas, porém, nada nem ninguém pode alterar o granito.

Antigas torres são o símbolo do caráter inabalável do homem que cumpre o seu dever virilmente. Outrora, a torre era o melhor refúgio dos habitantes do castelo; hoje, o homem de caráter firme é o melhor sustentáculo da sociedade. “Nunca abandone o lugar em que a vocação o colocou, e cumpra-lhe todos os deveres”, parecem nos dizer aquelas pedras mudas. “Considere o número de anos exigidos para a minha construção, quantas pedras foram necessárias, quanto trabalho, quanta boa vontade e quanto suor! Mas tudo isso não foi em vão. Sobrevivo a centenas e centenas de anos!”.

Por acaso, meu jovem, não se deixa desalentar facilmente na sua boa vontade? Quantas vezes não se arrojou pelo bom caminho, cheio de ardor juvenil? Quantas vezes não prometeu trabalhar seriamente no desenvolvimento do seu caráter? Mas, depois de algumas horas, de alguns dias, quando muito, a chama do entusiasmo apagava, o ardor desaparecia, e você tornava a ser o mesmo, não é verdade? Foram precisos anos, dezenas de anos talvez, para levantar a torre; e você, quereria se tornar homem de caráter num só dia!

Bem sabe, todavia, que se o caminho do pecado é agradável e semeado de flores deliciosas no começo, logo desilusão terrível nele aguarda o pecador; e que, se é difícil ser virtuoso no início, esse caminho em breve se torna cada vez menos duro, e sempre, no seu final, se acha a paz de uma consciência tranquila.

Mas, que é que eu vejo lá, no cume daquela velha torre? Aquela coisa que nunca fica no lugar, que vira para a direita e para a esquerda? Um cata-vento! Não tem direção fixa nem base estável. Vejo-me quase tentado a dizer que ela não tem princípios nem caráter, porque, se os tivesse, por mais que o vento soprasse, ela não lhe obedeceria.

Abandonar seus princípios, agir contra as próprias convicções, por ser mais cômodo, porque isso assegura uma carreira melhor, porque, em volta de si, o vento sopra de outro lado, é próprio de cata-vento. Mas me diga, amigo, merece o nome de homem aquele que nas suas ações, princípios e convicções se deixa guiar pelas circunstâncias exteriores e pelos conselhos de “companheiros”?

E, no entanto, quantos desses jovens não há! Você conhece dúzias deles, e eu também. São todos os que não sabem andar com os próprios pés, que espiritualmente são menores ainda, que olham sempre à direita e à esquerda para ver o que o vizinho faz.

Eis aqui um a quem a consciência avisa: “Não leia esse livro, ouvi dizer que ele é cheio de imundície moral. Por que deixaria a veste branca da sua alma se arrastar na água podre desse pantanal infecto?”. “Está bem, não o lerei”. Chega, porém, um colega: “Oh! Santinho do pau oco, criança!”, escarnece. “Eu, criança?”, e pega o livro, e o lê até a última linha e emporcalha a alma na lama que ele traz.

Agora outro, a quem a consciência diz ainda: “Não vá à exibição de tal peça, de tal filme! Deixe tal companhia perigosa!”. “Como fazer? Os outros vão lá; eles assim se divertem bastante. Serei o único contrário?”.

Ora, meu filho, é exatamente esse o modo de pensar e de agir dos cata-ventos.

Pois bem, escolha. O que prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Escravo da própria consciência! Este título se lê como se fosse um romance de detetives”, você pensa. Mas se engana. Quando se pode dizer de um jovem que ele é senhor da sua vontade e escravo da própria consciência é a maior honra que se lhe pode fazer. Se é capaz de ser contínua e invencivelmente fiel a tudo o que a consciência manda, você é um jovem de nobre caráter.

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Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?
Educação

Os pais são culpados
dos pecados de seus filhos?

Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?

Os maus pais, diz São João Crisóstomo, são “piores que os assassinos de seus próprios filhos”, pois, enquanto estes “separam a alma do corpo, aqueles lançam-lhes corpo e alma no fogo do Inferno”.

São João Crisóstomo12 de Julho de 2018
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Saibamos que Deus não suportará de boa mente a negligência com que são tratados aqueles por quem tanto se preocupa. Pois Ele mesmo não pode ter feito tanto para salvá-los e, ao mesmo tempo, pouco se importar que os negligenciem. Não, Deus não dará de ombros, mas se ofenderá e irritará veementemente.

Por isso, o bem-aventurado Paulo continuamente nos exorta, dizendo: “Pais, criai vossos filhos na disciplina e correção do Senhor” (Ef 6, 4). Porque, se estamos obrigados a zelar pelas almas deles como quem há de prestar contas por elas (cf. Hb 13, 17), com maior razão o está o pai que os gerou, que os criou, que convive com eles sob o mesmo teto.

Ora, assim como o pai não tem escapatória nem desculpa dos próprios delitos, tampouco o tem em relação aos dos filhos. E isto, é mais uma vez o bem-aventurado Paulo quem no-lo esclarece. Com efeito, ao determinar como devem ser os que hão de mandar nos outros, entre todas as qualidades que diz lhes serem necessárias, exige também o do cuidado dos filhos (cf. 1Tm 3, 4), insinuando que um pai já não pode ter esperança alguma de perdão se seus filhos se perderem.

E justamente. De fato, se os homens fossem viciosos por natureza, poderiam com razão desculpar-se de seus atos; mas como nos tornamos bons ou maus por livre escolha, que justificativa, afinal, poderá alegar o pai que permite que se extravie e corrompa aquele a quem ama mais do que tudo?

Dirá acaso que não quis fazê-lo bom? Mas quem, sendo pai, diria semelhante coisa, já que a própria natureza o desperta e move para cumprir esse dever?

Dirá talvez que não o pôde? Tampouco, porque, tendo-o no colo desde pequeno, posto sob seus cuidados e sua primeira e única autoridade, vivendo ainda na mesma casa, poderia facilmente e sem dificuldade tê-lo educado.

De sorte que não se pode achar outra origem para o extravio dos filhos que o louco afã dos pais pelos bens mundanos. O não olhar senão para eles, o não julgar nada preferível a eles, obriga-os a descuidarem tanto da própria alma como da dos filhos.

A estes pais — e ninguém pense que é a ira que me leva a dizê-lo —, eu não recearia qualificá-los como piores que os assassinos de seus próprios filhos. Estes, com efeito, separam a alma do corpo; aqueles, porém, lançam-lhes corpo e alma no fogo da Geena. Àquela morte todos, por lei natural, se devem submeter; mas esta última seria possível evitar, se não a acarretasse a negligência dos pais.

Acrescente-se a isso que a morte do corpo será rapidamente destruída com a chegada da ressurreição; mas a morte da alma, ao contrário, não terá consolo, porque não só não a espera mais salvação alguma, senão que terá ainda de sofrer forçosamente tormentos eternos. Daí que tenhamos dito, não sem razão, que tais pais são piores que os assassinos de seus filhos.

Não, não é crime tão horrível amolar a espada, pô-la em riste e umedecê-la na garganta do próprio filho quanto perder e corromper uma alma, pois nada, de fato, se compara a tamanho atentado.

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Para que serve a infalibilidade da Igreja?
Doutrina

Para que serve
a infalibilidade da Igreja?

Para que serve a infalibilidade da Igreja?

O bem-aventurado Cardeal Newman explica em que consiste a infalibilidade da Igreja e faz uma profissão de fé por todos os católicos do mundo.

Beato John Henry Newman12 de Julho de 2018
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Na sua plenitude, o poder da infalibilidade da Igreja é tão formidável quanto o mal gigantesco que o fez nascer. Pretende, quando exercido de modo legítimo (porque de outro modo deveria, naturalmente, ficar inerte) conhecer com certeza e nos menores detalhes o sentido exato de todas as partes da mensagem divina que Nosso Senhor confiou aos Apóstolos.

Pretende conhecer seus próprios limites e decidir o que pode ou não pode decidir, de modo absoluto. Pretende, além disso, defender questões que não são diretamente religiosas, pelo menos para determinar se elas implicam alguma relação indireta com a religião e, em certos casos particulares, para julgar de modo absoluto se vão de acordo com a verdade revelada.

Reivindica a autoridade de decidir como mestre, de modo infalível ou não, se tais ou quais afirmações, no seu espírito ou nas suas consequências, são de natureza a prejudicar o depósito da fé e, segundo o caso, de as autorizar, interdizer ou condenar.

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

Defende para si o direito de impor silêncio em todas as matérias e controvérsias doutrinais, que, em virtude do seu próprio ipse dixit, declara perigosas, inúteis ou inoportunas. Qualquer que seja o modo de ver dos católicos sobre tais atos, proclama que eles os devem aceitar com os sinais de respeito, de submissão e fidelidade que os ingleses, por exemplo, tributam ao rei; sem os criticar, sob pretexto de serem inoportunos no fundo, violentos ou severos na forma.

Reclama, por fim, o direito de infligir castigos espirituais, de cortar os habituais socorros de vida divina e, simplesmente, de excomungar os que recusam submeter-se às suas declarações formais.

Tal é, vista no seu aspecto exterior, revestida e cercada pelos atributos da alta soberania, a infalibilidade que reside na Igreja Católica. Repetindo o que acima afirmei, trata-se de um poder supereminente e prodigioso, enviado à terra para combater e dominar um mal gigantesco.

Agora, após descrevê-lo, professo minha absoluta submissão às suas exigências. Creio no conjunto do dogma revelado como foi ensinado pelos Apóstolos, confiado por eles à Igreja e por ela imposto à minha inteligência. Aceito-o baseado na interpretação infalível da autoridade a quem foi confiado por Deus e (implicitamente) tal qual for interpretado pela mesma autoridade até o fim dos tempos. Submeto-me também às tradições da Igreja universalmente aceitas, que contêm a matéria das novas definições dogmáticas feitas no decurso dos séculos e que em todas as épocas constituem, por assim dizer, o revestimento e a ilustração do dogma católico já definido.

Submeto-me, igualmente, às outras decisões da Santa Sé, quer teológicas, quer não, transmitidas pelos órgãos competentes que, mesmo sem levar em conta a questão da infalibilidade, por títulos mais modestos, exigem o meu assentimento.

Considero ainda que, pouco a pouco, no curso do tempo, as investigações da verdade católica tomaram verdadeira ciência com método e vocabulário próprios, sob a direção intelectual dos grandes espíritos de Santo Atanásio, Santo Agostinho e Santo Tomás. De nenhum modo sinto a tentação de reduzir a frangalhos esta grande herança de pensamento, que nos foi assim transmitida para os dias atuais.

Tal é a profissão de fé que faço ex animo por mim e por todos os católicos do mundo.

A primeira reflexão que virá ao espírito é que a inteligência irriquieta da humanidade comum, todo esforço pessoal e toda ação independente serão reprimidos; se for este o meio de pô-la em ordem, não se manterá na ordem senão para ser destruída. Mas este está longe de ser o resultado real, longe do que é, a meu ver, a intenção da sublime providência que nada mais pretendia do que um grande remédio para um grande mal.

Não é isto, com efeito, o que ressalta historicamente do conflito, no passado, entre a infalibilidade e a razão, nem a perspectiva do que será no futuro. A energia da inteligência humana “cresce na razão direta da oposição”; desenvolve-se com alegria, com um vigor rude e flexível sob os terríveis golpes da arma forjada pela mão divina e nunca se acha tanto na posse de si mesma como quando acaba de ser derrotada.

Costumam pensar os escritores protestantes que há dois grandes princípios que exercem influência na história da religião, a autoridade e o livre exame, sendo-lhes atribuído este último enquanto nós herdamos o primeiro para sermos por ele esmagados. Não é assim; é o mesmo grande corpo católico, somente ele, que pode fornecer o campo aos dois combatentes para esse duelo terrível e sem fim.

Monumento retratando o Papa Pio VII, na Basílica de S. Pedro.

Para a vida mesma da religião, encarnada nas suas grandes obras e na sua história, é necessário que esta guerra continue sem interrupção. Todo exercício da infalibilidade é provocado por uma atividade intensa e multiforme da razão, ora sua aliada, ora sua irredutível adversária. Mesmo terminada a sua tarefa, provoca reações da razão. Como no governo civil o Estado vive e sustenta-se pelo entrechoque dos partidos e das rivalidades, pela alternativa de triunfos e de derrotas, a cristandade oferece-nos aos olhos, não um simples quadro de absolutismo religioso, mas, à semelhança da maré, o espetáculo do fluxo e refluxo da autoridade e do livre exame.

É uma vasta reunião de seres humanos dotados de inteligência rebelde e movidos por paixões selvagens que se fundem em um todo, graças à beleza e a majestade de um poder sobre-humano; reunidos no que se poderia chamar uma grande escola de correção e de aperfeiçoamento; não como em algum hospital revolvendo-se no leito de enfermo, ou sepultados vivos em alguma prisão mas, se me é permitido mudar de metáfora, como em uma oficina moral destinada a fundir, a purificar e a moldar, por um processo contínuo e ruidoso, a matéria bruta da natureza humana, perigosa mas excelente e capaz de realizar os desígnios de Deus.

Diz São Paulo que o poder apostólico não lhe foi dado para a destruição, mas para edificação. É o que melhor define o papel da infalibilidade da Igreja. É um suplemento às necessidades e não vai além. Seu objetivo e sua eficácia não são de enfraquecer a liberdade ou o vigor do pensamento humano nas especulações religiosas, mas de conter e controlar as extravagâncias. Quais as suas grandes realizações no domínio da teologia? Jazem aniquilados o arianismo, o eutiquianismo, o pelagianismo e o maniqueísmo, o luteranismo e o jansenismo. Tal a amplidão do resultado conseguido no passado.

Venhamos agora às garantias que nos oferece para o futuro.

Em primeiro lugar, a infalibilidade não pode sair de um domínio de ideias bem determinado, e, em todas as decisões ou definições (como são chamadas), deve deixar bem claro que não foge a estes limites. As grandes verdades da lei moral, da religião natural e da fé apostólica são ao mesmo tempo seus limites e seus fundamentos. Não os pode ultrapassar e a eles deve sempre referir-se.

Seu objeto e os artigos deste objeto lhe são fixados. Deve declarar-se sempre guiada pela Escritura e pela Tradição. Deve submeter-se às verdades que põe em relevo ou, segundo o termo mais corrente, que ela define. No futuro nada me pode ser proposto como fazendo parte da fé senão o que eu já admito; se o não admitia antes, é porque ainda não fizera meu esse aspecto da fé. Nada de natureza diversa e muito menos contrária me pode ser imposto.

A nova verdade promulgada, se é que se pode chamar nova, deve ser, pelo menos, homogênea, análoga e estar de modo implícito na antiga verdade. Deve ser tal, que eu mesmo a possa supor ou desejá-la compreendida na revelação apostólica; enfim, deve ser tal que meus pensamentos concordem com ela ou a ela se incorporem, apenas acabe de ouvi-la.

É possível que, como eu, outros tenham sempre admitido esta verdade novamente promulgada e a única coisa que se decidiu a meu favor foi que, daqui por diante, posso ter a satisfação de saber que sempre considerei verdadeiro somente o que os Apóstolos creram antes de mim.

Referências

  • John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, pp. 323-327.

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Maria Goretti, “um anjo em carne humana”
Santos & Mártires

Maria Goretti, “um
anjo em carne humana”

Maria Goretti, “um anjo em carne humana”

“Sustentada pela graça celeste, à qual correspondeu com vontade forte e generosa, Santa Maria Goretti entregou a vida sem perder a glória da virgindade.”

Papa Pio XIITradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2018
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Deus sapientíssimo, querendo remediar a inconstância de muitos jovens dos nossos tempos, dignou-se enviar à Igreja logo no início do século passado um exemplo preclaro de amor à pureza e fortaleza constante na fidelidade a Cristo.

Trata-se de Santa Maria Goretti, cuja memória litúrgica celebramos amanhã, dia 6 de julho, e que, apesar de sua origem humilde e desconhecida, mereceu ser chamada durante seu processo de canonização um “grande e estupendo milagre” e “espetáculo digno do céu”.

A fim de render as homenagens que merece esta santa menina, cujo corpo frágil, resistindo até a morte, pôde manter com heróica fortaleza a integridade da alma, transcrevemos abaixo a homilia pronunciada em 1950 pelo Venerável Papa Pio XII [1] um dia após declará-la solenemente santa.


Veneráveis irmãos e filhos diletos:

A virgindade é um gênero de vida angélico” [2], que a religião cristã elevou a tão excelso grau de beleza que se nos afigura algo maior do que a terra e digno do céu; e se lhe acrescentamos a palma do martírio, torna-se algo que à suavidade e pureza da graça vem juntar uma inabalável fortaleza; e, contemplando-a, somos levados à prática daquelas virtudes, daqueles atos heróicos a que nos obrigam os mandamentos cristãos. Tudo isso, pois, vemo-lo na virginal menina Maria Goretti, a quem Nos foi dado coroar ontem com a glória dos santos do céu.

Maria Goretti nasceu em uma família pobre, que, para alimentar com trabalho honesto a crescente prole, teve de abandonar a pequena cidade natal e migrar para a região do Lácio, onde, pelo cultivo do campo, proveria aos filhos um pouco de sustento.

Criança reza em frente às relíquias de Santa Maria Goretti.

Como fosse dotada de pureza de alma, unida a certa prontidão para o trabalho, desde pequena Maria Goretti se portou de tal modo que não só se distinguia pelos bons costumes, mas também se destacava pela diligente e incansável dedicação com que, solícita e serena, assistia a mãe nos cuidados domésticos.

Analfabeta, foi dela que Maria Goretti aprendeu os rudimentos da doutrina cristã, que ela cuidadosamente buscava gravar no coração; e nada lhe era mais grato, nada mais doce do que ir sempre que possível à igreja, longe de casa, para ali ser instruída na religião católica e, aos pés do do altar de Deus e da bem-aventurada Virgem Maria, fazer suas abrasadíssimas orações.

Quando enfim se lhe permitiu aproximar-se da mesa eucarística e nutrir-se com a pastagem celeste, ela o fez com tão zelosa piedade, com tão flagrante caridade, que, mais do que uma menina, parecia um anjo em carne humana. Dali mesmo hauriu a força divina pela qual, poucos meses mais tarde, antes de completar doze anos, pôde lutar vitoriosamente até a morte, a fim de preservar intacto e incontaminado o alvo lírio de sua inocência e apresentá-lo, purpurado com o sangue do martírio, ao divino Autor de sua vida virginal.

Foi acérrima a batalha, como todos sabem, que esta inofensiva virgem teve de enfrentar; uma agitada e cega procela despenhou-se repentinamente sobre ela, procurando-lhe manchar e violar a angélica pureza. Mas, apesar do gravíssimo perigo em que se encontrava, ela pôde repetir ao Redentor essas palavras do célebre livro A imitação de Cristo: “Ainda que eu seja tentado e vexado com muitas tribulações, nada temerei, enquanto estiver comigo a vossa graça. Ela é a minha fortaleza; ela me dá conselho e amparo. Ela é mais poderosa do que todos os inimigos” (l. III, c. 55). Assim, sustentada pela graça celeste, à qual correspondeu com generosa e forte vontade, Maria Goretti entregou a vida sem perder a glória da virgindade.

Na vida desta humilde menina, que esboçamos em linhas gerais, é-nos permitido entrever um espetáculo, veneráveis irmãos e filhos queridos, não só — como dissemos — digno do céu, mas digno ainda de ser contemplado com admiração e veneração por este nosso século. Aprendam os pais e mães de família o quanto é importante educar reta, santa e corajosamente os filhos que Deus lhes confiou e conformá-los às leis da religião católica, de tal maneira que, quando lhes for provada a virtude, eles possam, com o auxílio da graça divina, sair ilesos, íntegros e imaculados.

Aprenda a jovial infância, aprenda a animada juventude, não a precipitar-se em alegrias vãs e passageiras, nos prazeres enganadores do vício — que destroem a pura inocência, que geram uma terrível tristeza, que debilitam antes do tempo as forças da alma e do corpo —, mas antes a lutar vivamente, enfrentando embora desafios árduos e difíceis, por aquela perfeição moral cristã que todos nós, com vontade firme, ajudada com os dons celestes, esforço, trabalho e oração, podemos alcançar um dia.

Aprenda enfim este débil mundo, excessivamente propenso às coisas mais baixas, a venerar e imitar a invencível fortaleza desta virginal menina. Olhai todos para este lírio do campo, rescendendo suavíssimo odor, para estas fulgentes palmas do martírio, e compreendei o quanto os valores cristãos são capazes de moderar e educar devidamente os homens e o quanto as alegrias celestes — conquistadas ao preço da inocência de vida, preservada incólume, e da virtude laboriosamente adquirida — superam e excedem as vãs concupiscências, visto que apenas Deus pode domar e tranquilizar a alma humana e satisfazer suas infinitas aspirações.

Nem todos, é verdade, estão chamados a encarar o martírio; todos, porém, somos chamados a adquirir a virtude cristã. A virtude, no entanto, requer força, a qual, se bem não atinja o cume da fortaleza desta angélica menina, nos exige contudo esforço diuturno, diligentíssimo e incessante até o fim da vida. Esforço que, por isso mesmo, pode chamar-se um lento e contínuo martírio, para cuja realização nos adverte essa divina sentença de Jesus Cristo: “O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam” (Mt 11, 12).

A este fim, pois, dirijamos os nossos esforços, apoiando-nos na graça divina; a isto nos excite o exemplo da santa virgem e mártir Maria Goretti; e que ela, do trono celeste donde goza a eterna bem-aventurança, por suas preces nos alcance do divino Redentor que todos nós, cada um em sua própria e peculiar condição de vida, sigamos alegres, prontos e operantes os seus memoráveis passos.

Referências

  1. Cf. Pio XII, Homilia de 24 jun. 1950, por ocasião da solene canonização de S. Maria Goretti (AAS 42 [1950] 580-582).
  2. S. João Damasceno, De fide orthod., 1.4.24 (PL 94, 1210).

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