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Um Cardeal contra a ditadura do relativismo
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Um Cardeal contra
a ditadura do relativismo

Um Cardeal contra a ditadura do relativismo

Muito antes de o Cardeal Ratzinger denunciar a “ditadura do relativismo”, um prelado inglês dedicara sua vida a lutar contra a mesma coisa. Mas na sua época o nome do inimigo era outro.

Hermann GeisslerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2018Tempo de leitura: 14 minutos
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No Consistório de 15 de maio de 1879, John Henry Newman foi criado Cardeal da Santa Igreja Romana. Leão XIII, que há pouco fora eleito Papa, quis conferir pessoalmente a dignidade de Cardeal ao famoso convertido, a quem ele carinhosamente chamava na audiência “meu Cardeal”.

Ao receber o biglietto com a notícia de sua elevação ao cardinalato, três dias antes do Consistório acima mencionado, Newman falou às pessoas presentes na residência do Cardeal Howard, em Roma. Seu discurso se tornaria célebre.

Depois de agradecer ao Santo Padre por tão grande honra, ele disse humildemente que cometera “muitos erros” em sua vida e que não possuía nada “da elevada perfeição que caracteriza os escritos dos santos”. Acrescentou, no entanto, ter agido sempre com “uma intenção honesta, sem interesses pessoais, uma têmpera de obediência, uma disposição a ser corrigido, um horror ao erro, um desejo de servir a Santa Igreja e, por misericórdia de Deus, uma justa medida de sucesso”.

O recém-eleito Cardeal resumiu, então, o núcleo essencial de sua missão como pastor e teólogo:

Alegro-me em dizer que a um grande mal desde o princípio eu me opus. Resisti por 30, 40, 50 anos, com o melhor que estava ao meu alcance fazer, ao espírito de liberalismo em religião [1]. Nunca a Santa Igreja precisou tão intensamente como agora de defensores contra esse erro, quando infelizmente ele se espalhou como uma armadilha por todo o mundo; e, nessa grande ocasião, quando é natural para alguém em minha posição olhar para o mundo, para a Santa Igreja e para o seu futuro, eu espero que não seja fora de propósito renovar o protesto que eu tão frequentemente tenho feito contra ele.

Para celebrar a memória desse grande Cardeal, seria apropriado mencionar certos estágios de sua vida, com o propósito de ilustrar seu exemplar compromisso no serviço da Verdade.

Conversão: Deus e dogma

Newman, em foto mais jovem.

O Cardeal Newman nasceu em Londres, a 21 de fevereiro de 1801. Foi criado na tradição anglicana e, na juventude, tinha uma forte inclinação religiosa, que se expressava na leitura da Bíblia. Desde a mais tenra idade, a Sagrada Escritura forneceu-lhe altos padrões morais, mas seu potencial intelectual exigia algo mais preciso e mais claramente definido.

Bem cedo, quando contava apenas 14 anos, ele foi tentado pela descrença e pela autossuficiência. Queria ser um homem honrado, mas sem acreditar em Deus. “Lembro-me que queria ser virtuoso sem ser religioso”, escreve. “Eu não havia entendido o que significava amar a Deus.” Enquanto o jovem estudante lutava com essa tentação, Deus bateu-lhe à porta do coração.

Durante as férias de 1816, ele leu Force of Truth, de Thomas Scott, e o conteúdo do livro deixou-lhe uma profunda impressão. Experimentou em seguida sua “primeira conversão”, que ele mesmo considerava uma das graças mais significativas de sua vida. A experiência envolvia uma consciência aguçada da existência e da presença de Deus, bem como do mundo invisível.

Em sua Apologia pro vita sua, Newman confessou que essa experiência teve uma grande influência em sua personalidade,

isolando-me dos objetos que me rodeavam, confirmando-me na desconfiança da realidade dos fenômenos materiais e fazendo com que concentrasse todos os meus pensamentos em dois seres, dois únicos seres, de evidência luminosa e absoluta, eu e meu Criador. [2]

Ele também escolheu da obra de Scott duas frases que marcariam toda a sua vida: “É preferível a santidade à paz” e “O progresso é a única evidência da vida” [3].

Depois dessa primeira conversão, Newman procurou amar a Deus sobre todas as coisas e seguir a Verdade sem concessões:

Aos quinze anos (no outono de 1816), operou-se uma grande mudança nos meus pensamentos. Sofri o influxo de um credo bem definido, meu espírito ressentiu a impressão do que era um dogma, impressão que, graças a Deus, nunca mais me deixou, nem se ofuscou. [4]

Ele começou a perceber, então, a importância dos grandes dogmas cristãos: a Encarnação do Filho de Deus, a obra da Redenção de Cristo, o dom do Espírito que habita na alma da pessoa batizada, a fé que não pode permanecer como uma simples teoria, devendo exprimir-se em um programa de vida.

O Movimento de Oxford

Depois de seus estudos no Trinity College, em Oxford, Newman foi eleito fellow do Oriel College. Tornou-se ministro anglicano e, depois, vigário de Santa Maria, igreja da Universidade de Oxford. No Oriel College ele conheceu alguns representantes da Alta Igreja Anglicana e começou a se interessar pelos Padres da Igreja. Neles descobriu o frescor e a honestidade da Igreja primitiva, que tinha de lançar raízes em um mundo pagão.

O Cardeal Newman em Roma.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais insatisfeito com a situação espiritual de sua confissão religiosa e preocupado com a crescente influência do liberalismo em Oxford e por toda a Inglaterra. Para combater essas tendências, Newman, juntamente com alguns amigos, fundou o Movimento de Oxford em 1833. Seus defensores denunciavam o distanciamento da nação da prática da fé e lutavam por um retorno ao Cristianismo primitivo por meio de uma sadia reforma dogmática, espiritual e litúrgica.

Newman resume o princípio fundamental do Movimento de Oxford com as seguintes palavras:

Minha luta era contra o liberalismo. Por liberalismo entendia o princípio antidogmático e seus desenvolvimentos. […] Desde os quinze anos, o dogma tem sido o princípio fundamental da minha religião; não conheço outra; não posso conceber a ideia de nenhuma outra religião. Religião de puro sentimento é um sonho e um escárnio. Piedade que prescinde da existência de um Ser Supremo é o mesmo que amor filial sem pais. [5]

Fica claro, a partir disso, que a doutrina do liberalismo que Newman rejeitava é idêntica à concepção relativista da religião e da moral.

Publicando tracts (“panfletos”) fáceis de disseminar, o Movimento de Oxford se esforçava por penetrar as consciências dos eclesiásticos, bem como dos simples fiéis, que se encontravam entre os extremos do sentimentalismo e do racionalismo.

Newman percebeu que a polêmica contra o liberalismo religioso exigia uma doutrina fundamental sólida. Ele estava convencido de ter encontrado a base para tanto nos escritos dos Padres, que ele admirava como os verdadeiros arautos e mestres da fé cristã, representantes daquela religião antiga “que praticamente desaparecera desta terra e que devia ser ressuscitada”.

Enquanto o Movimento de Oxford se expandia, Newman desenvolveu a teoria da Via Media. Com isso ele pretendia demonstrar que a Comunhão Anglicana era a legítima herdeira do Cristianismo primitivo e a verdadeira Igreja de Cristo, já que não possuía nenhum sinal nem dos erros doutrinais dos protestantes nem da corrupção e dos abusos que ele acreditava existir na Igreja de Roma.

Em direção à Igreja Católica

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

A Via Media de Newman estava calcada no dogma, no sistema sacramental e no antirromanismo. Entretanto, estudando a história da Igreja no século IV, Newman fez uma grande descoberta: percebeu o Cristianismo do seu próprio século refletido em três grupos religiosos daquele período: nos arianos, os protestantes; nos ortodoxos, a Igreja de Roma; nos semiarianos, os anglicanos [6]. Essa constatação suscitou-lhe as primeiras dúvidas a respeito da Comunhão Anglicana.

Pouco tempo depois, ele leu um artigo no qual a posição dos donatistas africanos à época de Agostinho era comparada à dos anglicanos. Newman não conseguia esquecer a frase: Securus judicat orbis terrarum, citada por Santo Agostinho [7]: “A Igreja universal, em seus juízos, está segura da Verdade”, na tradução do próprio Newman.

Ele percebeu que os conflitos doutrinários na Igreja antiga eram resolvidos não só com base no princípio da antiguidade, mas também no da catolicidade: a opinião da Igreja como um todo é um decreto infalível. Consequentemente, “a teoria da Via Media ficava absolutamente pulverizada”.

Fiel ao princípio de respeitar a Verdade, Newman decidiu retirar-se em Littlemore, um pequeno vilarejo próximo de Oxford, para alguns anos de oração e estudo. Ele começou a juntar as peças de uma reflexão que há anos o ocupava: se a Igreja Católica Romana faz parte da sucessão apostólica, como justificar aquelas doutrinas suas que não pareciam fazer parte do patrimônio de fé legado pelo Cristianismo primitivo?

O princípio do desenvolvimento autêntico que ele formulou habilitava-o a justificar vários novos ensinamentos na vida da Igreja: os dogmas tardios eram desenvolvimentos autênticos da Revelação original. Ele ilustrou esse argumento, crucial para o seu futuro, em um ensaio intitulado An Essay on the Development of Christian Doctrine.

Nesta obra-prima teológica, há uma passagem em que, rejeitando a ideia de que verdade e erro em matéria religiosa seriam supostamente uma questão de opinião e de que a salvação não dependeria de uma profissão correta da fé, Newman reafirma o que costumava chamar de princípio dogmático:

De que há, portanto, uma verdade; de que há uma só verdade; de que o erro religioso é, em si mesmo, de natureza imoral; de que seus defensores, a menos que o façam involuntariamente, são culpados em defendê-lo; de que ele é de se temer; de que a busca pela Verdade não é a gratificação da curiosidade; de que sua obtenção não tem nada do entusiasmo de uma descoberta; de que a mente está sujeita à verdade e, portanto, não lhe é superior, estando aquela obrigada não a dissertar sobre esta, mas a venerá-la; de que a verdade e a falsidade são colocadas diante de nós para provar os nossos corações; de que nossa escolha é um terrível desenho do destino no qual está inscrita ou a nossa salvação ou a nossa condenação; de que “quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica”; de que “quem quiser salvar-se deve pensar assim a respeito da Trindade” (cf. Símbolo Atanasiano), e não de outro modo; de que, “se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência, buscando-a como se procura a prata, se a pesquisares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus” (Pr 2, 3-5). Esse é o princípio dogmático, que tem força.

Enquanto Newman assim procedia com seus estudos sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, ele percebeu que a Igreja de Roma era a Igreja dos Padres, a verdadeira Igreja de Cristo.

Em sua Apologia ele escreveu:

Tudo isso levou-me a examinar mais atentamente o que não duvido fosse de muito objeto das minhas considerações, isto é, o encadeamento de argumentos por meio do qual o espírito progride das suas primeiras ideias religiosas até às últimas; cheguei à conclusão de que em verdadeira filosofia não há meio termo entre ateísmo e catolicismo, e de que um espírito consequente consigo mesmo, nas circunstâncias em que se acha neste mundo, deve abraçar um ou outro. [8]

Em 9 de outubro de 1845, Newman abraçou a fé católica e foi recebido na Igreja — “no único redil de Cristo” [9], como ele escreveu — pelo beato Dominic Barberi, um passionista italiano.

“Testes” pela Verdade

O Cardeal Newman, já em idade avançada.

Depois de ordenar-se padre católico, Newman fundou o Oratório de São Filipe Néri em Birmingham. Em suas muitas atividades pastorais e teológicas, trabalhou sobretudo para formar intelectual e espiritualmente os fiéis católicos, seus confrades e novos convertidos. De fato, ele estava convencido de que os grandes desenvolvimentos culturais e sociais da época exigiam uma fé que fosse capaz de demonstrar as razões para se ter esperança.

Em meio a numerosas dificuldades e desentendimentos de vários lados, ele trabalhou incansavelmente para incutir cultura nos leigos, “pessoas do mundo para o mundo”, mas que fossem iluminados por uma fé radiante, que eles mesmos seriam capazes de defender.

Veio à luz em 1870 uma obra sua intitulada An Essay in Aid of a Grammar of Assent. Neste outro clássico, Newman analisa filosoficamente o ato de assentimento da mente humana às verdades reveladas, procurando defender o direito das pessoas comuns à segurança nessa matéria, ainda que elas não sejam capazes de justificar e formular a fé por si mesmas. Nesse ensaio, o autor mostra de modo convincente e oportuno como a mente pode alcançar segurança, tanto em geral quanto na área da fé.

Na seção que conclui o livro, Newman nos dá como legado uma bonita passagem na qual resume o difícil teste pela Verdade, comparando-a com a religião natural, as promessas feitas aos ao povo de Israel e as várias religiões que havia espalhadas pelo Império Romano. Esta passagem, particularmente importante no mundo de hoje, onde o Cristianismo é chamado a se afirmar e espalhar em uma sociedade pluralista e multirreligiosa, diz o seguinte:

A religião natural é baseada no sentido de pecado; ela reconhece a doença, mas não é capaz de encontrar, só o que ela faz é procurar, o remédio. Esse remédio, tanto para a culpa quanto para a impotência moral, encontra-se na doutrina central da Revelação, a Mediação de Cristo.

É assim que o Cristianismo é o cumprimento da promessa feita a Abraão e das revelações mosaicas. Foi deste modo que, desde o começo, ele foi capaz de ocupar o mundo e dominar cada classe social que seus pregadores alcançavam; foi por isso que o poder romano, bem como as inúmeras religiões por ele abraçadas, não lhe puderam resistir; foi esse o segredo de sua energia perene e de seus martírios intermináveis; é por isso que, no presente, ele é tão misteriosamente poderoso, apesar dos novos e temíveis adversários que lhe obstruem o caminho.

O Cristianismo traz consigo aquele dom de estancar e curar a chaga profunda da natureza humana, fato que conta mais para o seu sucesso do que uma enciclopédia repleta de conhecimento científico e uma livraria inteira de controvérsias, e por essa razão ele deve durar enquanto durar a natureza humana. Trata-se de uma verdade vital que não envelhecerá jamais.

Algumas pessoas falam do Cristianismo como se fosse uma coisa da história, com influências apenas indiretas sobre os tempos modernos, mas eu não posso consentir em que ele seja uma religião meramente histórica. Suas fundações certamente se encontram em gloriosas memórias passadas, mas seu poder está no presente. Não se trata de “saudosismo”; nós não o contemplamos em conclusões retiradas de documentos mudos e eventos mortos, mas através da fé exercida sobre objetos eternos, da posse e do uso de dons sempre recorrentes.

Nossa comunhão com o Cristianismo está no invisível, não no obsoleto. Até os dias de hoje seus ritos e cerimônias estão continuamente revelando a intervenção ativa daquela Onipotência em que há muito tempo começou a religião. Primeiramente e acima de tudo está a Santa Missa, na qual Ele, que morreu uma vez por nós sobre a Cruz, traz de volta e perpetua, através de sua presença literal nela, aquele único e mesmo sacrifício que não se pode repetir.

Depois, há a verdadeira entrada dEle, em corpo, alma e divindade, no corpo e na alma de cada adorador que dEle se aproxima para receber esse dom — um privilégio mais íntimo do que se convivêssemos com Ele durante sua estadia temporária e de longa data sobre a terra.

Há então, além disso, a sua permanência pessoal em nossas igrejas, elevando toda liturgia terrena a um antegozo do céu.

Tal é o modo como se professa o Cristianismo e, eu repito, o próprio fato de ele “adivinhar” as nossas necessidades constitui, em si mesmo, uma prova de que ele é realmente o suprimento delas.

Contra o liberalismo religioso

Concluímos retornando ao discurso de Newman, feito quando de sua elevação ao Colégio de Cardeais. Naquela ocasião, ele renovou seu protesto contra o liberalismo religioso, dando uma descrição precisa daquilo em que ele consiste — uma descrição cujo caráter profético é óbvio em nossa época:

Liberalismo em religião é a doutrina de que não existe nenhuma verdade positiva em religião, mas de que um credo é tão bom quanto qualquer outro, e é esse o ensinamento que está ganhando força e substância dia após dia. É inconsistente com qualquer reconhecimento de uma religião como verdadeira. Ensina que todas devem ser toleradas, pois todas são uma questão de opinião.

A religião revelada não é uma verdade, mas um sentimento e um “gosto”; não se trata de um fato objetivo, milagroso; e é direito de cada indivíduo fazê-la dizer apenas o que lhe manda a fantasia.

A devoção não necessariamente se funda sobre a fé. Os homens podem ir a igrejas protestantes e a católicas, podem se alimentar das duas e pertencer a nenhuma delas. Podem confraternizar juntos em pensamentos e sentimentos espirituais, sem ter quaisquer visões de doutrina em comum, nem ver a necessidade disso.

Visto que, então, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e privada, nós devemos necessariamente ignorá-la nas relações humanas. Se uma pessoa “veste” uma nova religião a cada manhã, ninguém tem nada a ver com isso. Pensar sobre a religião de uma pessoa é tão impertinente quanto pensar em suas fontes de renda ou na gestão de sua família. A religião em nenhum sentido é o vínculo da sociedade.

Hoje nós somos testemunhas de uma mentalidade, difundida em muitos ambientes, que sustenta precisamente essas ideias, denunciadas por Newman, com consequências muito graves para a causa da Verdade, para o diálogo ecumênico e interreligioso, para a liturgia e a espiritualidade, bem como para a dimensão social e cultural da fé.

O Beato Cardeal Newman pode lembrar a todos, pastores e fiéis leigos, que a Verdade é um tesouro muito precioso a ser aceito com fé, proclamado com honestidade e defendido com força. “Normalmente a Igreja nada tem a fazer”, assim conclui o Cardeal Newman o seu discurso, “a não ser cumprir com seus próprios deveres, com confiança e em paz, esperando ver a salvação de Deus”.

Referências

  1. “Desde o fim do século XVIII a palavra [Liberalismo] tem sido aplicada mais e mais a certas tendências na vida intelectual, religiosa, política e econômica, que implicam uma emancipação parcial ou total do homem em relação à ordem divina, sobrenatural e moral. […] [O Liberalismo Católico], em geral, advoga largueza na interpretação do dogma, descuido ou desconsideração com os decretos disciplinares e doutrinais das congregações romanas, simpatia pelo Estado mesmo em suas ações contra a liberdade da Igreja, e uma disposição em considerar como clericalismo os esforços da Igreja em proteger os direitos da família e dos indivíduos ao livre exercício da religião.” (Gruber, H. [1910]. Liberalismo. Em: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company)
  2. John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 32.
  3. Ibid., p. 33.
  4. Ibid., p. 31.
  5. Ibid., p. 91.
  6. Cf. Ibid., pp. 167s; 197s.
  7. Cf. Ibid., p. 170.
  8. Ibid., p. 266.
  9. Ibid., p. 307.

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São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria
Santos & Mártires

São Maximiliano: um “cavaleiro
da Imaculada” contra a Maçonaria

São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria

No filme polonês “Duas Coroas”, o diretor Michal Kondrat conta como uma marcha maçônica em plena Praça de São Pedro, em 1917, despertou o ardor missionário em São Maximiliano Kolbe, a ponto de fazê-lo dar a própria vida por amor a Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Em agosto de 1941, um padre franciscano rezava o Rosário e atendia confissões numa das celas de Auschwitz, o terrível campo de concentração nazista, onde milhões de judeus foram vítimas da “solução final”, durante a II Grande Guerra. Ele e outros oito prisioneiros morreriam em poucos dias. Todavia, a morte desse sacerdote católico deixaria, para a história, um valente testemunho de santidade, como cumprimento de uma antiga promessa.

É com esse pano de fundo que o filme polonês “Duas Coroas”, dirigido por Michal Kondrat, narra a história de São Maximiliano Kolbe, o sacerdote católico que pediu a própria morte a um oficial nazista, no lugar de um judeu pai de família. O título da produção refere-se a uma visão do pequeno Maximiliano, quando ainda criança. Conforme a sua biografia, ele teria visto a Virgem Santíssima segurando uma coroa vermelha numa das mãos e uma coroa branca na outra; a vermelha representava o martírio e a branca, a pureza. A Mãe de Deus lhe pedia que escolhesse com qual daquelas joias ele gostaria de ser coroado. E Maximiliano respondeu-lhe: “Eu quero as duas”.

De fato, a vida de Maximiliano Kolbe foi duplamente coroada, com as palmas da pureza e do martírio. Com treze anos de idade, ele ingressou no Seminário dos Frades Menores Conventuais Franciscanos e ali aprenderia as lições fundamentais para o exercício de sua vocação: a castidade, a pobreza e a obediência. Esses três conselhos evangélicos forjariam a sua alma a ponto de formá-lo como um verdadeiro “cavaleiro de Deus”, disposto a empunhar todas as armas necessárias para debelar os erros do pecado e conquistar o prêmio do Céu. Nesse ínterim, a Virgem Maria seria o seu refúgio e inspiração.

“Duas Coroas” mostra o desenvolvimento dessa luta, trazendo informações importantíssimas para a compreensão de nosso personagem, como também uma mensagem clara sobre a sorte da Igreja e dos cristãos nos tempos atuais: quem não estiver ao lado de Maria Santíssima, muito bem enraizado no dogma da fé, na prática das virtudes e na frequência aos sacramentos, não resistirá às investidas da serpente e aos ataques vorazes de seus sequazes.

Só por isso vale a pena conferir o filme. Não se trata de simples entretenimento ou diversão pueril, com doses cavalares de pirotecnias e sensualismo pagão; embora não seja uma grande produção cinematográfica, “Duas Coroas” repete aquelas “palavras de vida eterna” que são a razão de ser de toda pessoa humana. E é isso o que verdadeiramente importa.

Maximiliano Kolbe pensava justamente assim e, conforme os vários depoimentos do filme, via que o uso da mídia deveria ser destinado, sobretudo, à pregação do Evangelho. Aliás, ele se propôs a criar um jornal para a formação dos católicos, logo depois de ter visto, com horror e escândalo, uma marcha maçônica na Praça de São Pedro, por ocasião do bicentenário da seita secreta, em 1917. Nessa manifestação, os maçons empunhavam cartazes com as inscrições: “Satanás deve reinar no Vaticano. O Papa será seu escravo”. E, como revelaria mais tarde o historiador Michael Hesemann, em arquivos secretos do Vaticano, a Maçonaria realmente tramava por aqueles anos a queda das últimas monarquias e o total aniquilamento da religião católica.

Para impedir tais planos diabólicos, São Maximiliano fundou a “Milícia da Imaculada”, abriu uma gráfica e mandou imprimir várias edições de um jornal dedicado a Nossa Senhora, que explicava a fé católica com clareza. O diretor Kondrat teve o cuidado de colocar esses dados no filme, mostrando como o santo precisou enfrentar a desconfiança e a incompreensão dos próprios correligionários, a fim de defender a causa de Cristo. Apesar disso, a Providência divina o acompanhou, levando seu apostolado até o Japão, em 1930, onde pôde exercer um fecundo trabalho apostólico na cidade de Nagasaki — cuja tragédia da bomba atômica ele havia previsto com alguns anos de antecedência.

Em 1939, porém, Maximiliano teve de retornar à Polônia, para cumprir uma nova missão. A esse respeito, o filme “Duas Coroas” propõe uma leitura sobrenatural: explica-se que os esforços apostólicos do “cavaleiro da Imaculada” não se dissiparam após o retorno do Japão, mas teriam o grande desfecho da configuração a Cristo. Depois de ter contemplado o sofrimento de Nosso Senhor em seus irmãos japoneses, ele mesmo viria a experimentar tal dor, para ratificar na própria carne o que ele publicava em seus jornais. Quando acabou preso em Auschwitz, o santo foi capaz de transmitir amor e esperança aos prisioneiros, transformando a sua cela num verdadeiro oratório.

Nesse sentido, vale lembrar as palavras com as quais São João Paulo II descreveu esse sacrifício: “Maximiliano não morreu, mas ‘deu a vida... pelo irmão’”. Em “Duas Coroas”, o espectador pode vislumbrar em que circunstâncias misteriosas e, sem dúvida, abençoadas aconteceu o coroamento do intrépido homem, que foi digno de receber a glória do martírio. Maximiliano venceu corajosamente as hostes infernais e, “de modo admirável, perdura na Igreja e no mundo o fruto desta morte heroica” [1]. O regime nazista findou como uma página negra da história, ao passo que o martírio de São Maximiliano “se tornou um sinal de vitória” [2].

Definitivamente, “Duas Coroas” é um documentário para ser visto por todos os católicos, sobretudo nestes últimos tempos. Embora estejamos a mais de um século de distância das terríveis tribulações que se abateram sobre a Europa e toda a Igreja Católica, no início do século XX, os seus protagonistas ainda estão entre nós, e com a mesma sanha anticristã de outrora. Por isso, o modelo virtuoso de São Maximiliano Kolbe deve nos levar para o fronte de guerra, com os estandartes da Cruz e do Rosário, em defesa da Igreja e de nosso Cristo Rei.

Referências

  1. São João Paulo, Homilia na missa de Canonização de Maximiliano Kolbe (10 de outubro de 1982). 
  2. Ibidem.

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Quem são os misóginos mesmo?
Sociedade

Quem são os misóginos mesmo?

Quem são os misóginos mesmo?

Eis uma verdade inconveniente e “politicamente incorreta”, mas que está inscrita na natureza mesma das coisas, e no Magistério recente dos Papas: as mulheres precisam dar prioridade a seus lares e a suas famílias.

Jerry SalyerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Imagem: Howard R. Hollem/Getty Images.

“Trabalhos há”, escreve Leão XIII na Rerum Novarum, “que não se adaptam tanto à mulher, a qual a natureza destina de preferência aos arranjos domésticos, que, por outro lado, salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família”.

Num primeiro momento, é desconcertante como essas declarações não receberam muita atenção, visto que a encíclica Rerum Novarum, com frequência, tem sido ocasião de debates entre comunitaristas e integralistas católicos, por um lado, e os defensores católicos da economia de livre mercado, por outro. Suspeito que a razão disso seja uma relutância dos católicos em confrontar as sensibilidades modernas, principalmente as que estão arraigadas na consciência popular. Certamente eles raciocinam assim: nós já temos de explicar aos ouvintes antipáticos por que hesitamos em admitir “casamento” gay e banheiros transgêneros, então por que ir ainda mais longe questionando o entendimento moderno da igualdade entre homens e mulheres?

Esse raciocínio é totalmente equivocado. Ou Leão XIII deve ser levado a sério ou não; e se aceitarmos a visão politicamente correta do século XXI, que caracterizaria as observações do Papa sobre as mulheres não apenas como erradas, mas como indiscutivelmente estúpidas e intolerantes, então em maior ou menor medida nós lhe reservamos a segunda alternativa. Em outras palavras, ou Leão XIII não é um pensador robusto, ou a afirmação surpreendente de que “certas ocupações não são adequadas para as mulheres” não é tão monstruosa quanto sugere a sabedoria convencional.

Em todo caso, a distinção entre os sexos masculino e feminino dificilmente é um aspecto irrelevante, e Leão XIII adota, como um de seus princípios, uma antropologia que a maioria das figuras públicas contemporâneas negaria de forma resoluta. É realmente estranho que os católicos discutam sobre o significado de um ensinamento papal, ignorando o fato de que uma contrarrevolução extraordinária contra o feminismo seria necessária muito antes que tal ensinamento pudesse ser colocado em prática.

Leão XIII não está sozinho ao tratar das diferenças entre homem e mulher. Pio XI fez observações semelhantes sobre o assunto na Quadragesimo Anno:

As mães de família devem trabalhar em casa ou nas suas adjacências, dando-se aos cuidados domésticos. É um péssimo abuso, que deve a todo o custo cessar, o de as obrigar, por causa da mesquinhez do salário paterno, a ganharem a vida fora das paredes domésticas, descurando os cuidados e deveres próprios e sobretudo a educação dos filhos.

“Deve pois procurar-se com todas as veras”, conclui o pontífice, “que os pais de família recebam uma paga bastante a cobrir as despesas ordinárias da casa”.

Sejamos francos. Para nós, as instruções de Pio XI não parecem apenas politicamente incorretas, mas também ilegais. Ou seja, qualquer empregador que prestasse atenção à exortação para pagar mais aos “pais de família” imediatamente se encontraria na iminência de um processo judicial. E se os paladinos da justiça social da Ethika Politika ou seus inimigos que lutam pela liberdade no Instituto Acton alguma vez expressaram a devida indignação pelo fato de ser ilegal para um católico seguir o conselho de Pio XI, isso passou-me despercebido [1]. Ainda, cabe questionar se a afirmação de Pio XI sobre o patriarcado econômico é menos relevante nos ensinamentos católicos do que, digamos, o direito putativo dos migrantes de ocupar o país de outras pessoas. Quanto aos defensores do livre mercado, se eles não estão preocupados com a liberdade do empresário católico de administrar seus negócios de acordo com os ensinamentos papais, com que liberdade eles se preocupam?

Não faz sentido fingir admirar alguém quando insistimos em filtrar e omitir os seus ensinamentos a fim de se encaixarem nas nossas ideias preconcebidas. Para dar um exemplo que não esteja vinculado à autoridade papal, pode ser instrutivo considerar o economista Ernst Friedrich Schumacher. Embora atraído pela religião oriental quando compôs sua famosa obra Small is beautiful (traduzido para o português sob o título O negócio é ser pequeno), Schumacher atravessaria o rio Tibre pouco antes da publicação do livro, tornando-se um dos principais defensores católicos da economia em pequena escala e para a comunidade local. No entanto, se até mesmo os admiradores irrestritos de Schumacher costumam encobrir sua conversão religiosa, precisam ignorar muito mais sua afirmação de que “as mulheres, em geral, não precisam de um emprego ‘fora’”, e que “o emprego de mulheres, em larga escala, em escritórios ou fábricas seria considerado um sinal de grave fracasso econômico”, em qualquer sociedade equilibrada.

Essas palavras não são apartes irrelevantes em sua obra, pois Schumacher estava convencido de que apenas um tolo “deixaria mães de crianças pequenas trabalharem em fábricas enquanto as crianças são deixadas ao deus-dará”. Longe de fomentar o discurso sobre a justiça social e o bem-estar da próxima geração, tais observações — evidentes por si mesmas — hoje levariam alguém a ser demitido de imediato. Poucos “conservadores” católicos parecem ter muito problema com isso, e até mesmo alguns “tradicionalistas” encobrem o assunto, preferindo o caminho muito mais cômodo de se opor ao capitalismo. Evidentemente, todos deveríamos nos calar e engolir o “dogma” bizarro e irracional de que os filhos podem ser educados efetivamente tanto pelas funcionárias das creches quanto por uma mãe que fica em casa.

Apenas para que não haja mal-entendidos, se a tradição católica é “sexista” — no sentido de reconhecer que existe o sexo masculino e o feminino —, isso dificilmente pode ser considerado misógino. Afinal, veneramos uma Rainha e, mais do que ninguém, é o católico que celebra as virtudes inequivocamente femininas, mesmo sendo suficientemente flexível para prestar homenagem à habilidade militar de uma Joana d’Arc ou à sabedoria mística de uma Catarina de Siena.

Em outras palavras, as feministas se entregam a um “mundo de faz-de-conta” quando agem como se tivessem “descoberto” que algumas mulheres se destacaram em âmbitos tradicionalmente masculinos. Ao mesmo tempo, deve-se acrescentar que as exceções tendem a justificar a regra, pois as mulheres que alcançaram grandes conquistas raramente estiveram motivadas pelo carreirismo. Em vez disso, elas geralmente são impelidas por alguma devoção apaixonada que pouco ou nada tem a ver com a causa feminista. Joana d’Arc não estava empenhada em abrir um caminho revolucionário para as mulheres, mas apenas em libertar a França; Catarina de Siena não estava interessada no empoderamento feminino, mas em reparar os danos do Grande Cisma do Ocidente.

Quanto às mulheres que vivem no anonimato, precisamos reconhecer que, de fato, estamos em um mundo de cabeça para baixo, no qual as advogadas de corporações e as políticas egoístas são consideradas cidadãs mais valiosas do que aquelas mulheres que “apenas” educam os filhos e cuidam do lar. Assim, os verdadeiros misóginos são aqueles que se recusam a honrar a maternidade como uma vocação elevada de tempo integral, e os quais não aceitam que Deus fez o homem e a mulher como complementares, e não iguais.

Notas

  1. Nota de tradução: Aqui, o autor recorre ao antagonismo existente entre dois grupos de católicos — mais conhecidos no contexto norte-americano — para exemplificar que muitos embates são travados em torno de diversas questões da doutrina social da Igreja, exceto em relação ao trabalho externo das mulheres, tema que é frequentemente ignorado.

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O que ouviremos de Jesus se nos condenarmos?
Espiritualidade

O que ouviremos
de Jesus se nos condenarmos?

O que ouviremos de Jesus se nos condenarmos?

Porque escolheste antes estar para sempre sem mim no inferno, que comigo no céu; tua é, e não minha, a sentença que logo ouvirás com os outros mal-aventurados: “Ide, malditos, para o fogo eterno”.

Pe. António Vieira4 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Quid est quod debui ultra facere vineae meae, et non feci ei? “Que mais poderia eu ter feito pela minha vinha que não lhe tenha feito?” (Is 5, 4) Que coisa há, que eu devesse fazer-te, ó homem, ou devesse fazer por ti, que não tenha feito? De nada te era devedor, e como se o fora, de quanto tenho, de quanto posso, e de quanto sou, tudo empreguei e despendi contigo. Criei-te quando não eras, tirando-te dos abismos do não ser ao ser; dei-te um corpo formado com minhas mãos, o mais perfeito; dei-te uma alma tirada de minhas entranhas, e feita à imagem e semelhança; ornei, e habilitei um e outro, com as mais excelentes potências, e os mais nobres sentidos, para que fossem os instrumentos com que me servisses e amasses; e tu, ingrato, que fizeste? 

Dá conta dos cuidados, pensamentos e máquinas do teu entendimento; das lembranças e esquecimentos da tua memória; dos desejos e afeições da tua vontade. Dá conta de todos os passos de teus pés, de todas as obras de tuas mãos, de todas as vistas dos teus olhos, de todas as atenções dos teus ouvidos, de todas as palavras de tua língua, e de tudo mais que tu sabes, e não cabe em palavras. Depois de criado, que seria de ti, se eu com o mesmo poder e providência te não conservara? De repente perderias o ser e tornarias ao nada donde saíste. Para tua conservação, te dei não só o necessário, senão o superabundante, e tanta imensidade de criaturas no céu e na terra, todas sujeitas a ti, e ocupadas em teu serviço. 

Dei-te um anjo, que de dia e de noite, velando e dormindo, te assistisse e guardasse, como sempre assistiu e guardou. Agora te revelo os perigos secretos e ocultos, de que foste livre por seu meio; e tu lembra-te dos públicos e manifestos, que experimentaste e viste. Quantos pereceram em outros muito menores? Quantos mais moços que tu acabaram de mortes desastradas e repentinas, sem tempo, nem lugar de arrependimento e emenda, que eu sempre te concedi? Dá, pois, conta da vida, dá conta da saúde, dá conta dos anos, dá conta dos dias, dá conta das horas, sendo mui poucas, e contadas as que não empregaste em me ofender. 

Até agora te referi as dívidas exteriores do poder; agora me responderás às interiores e pessoais do amor, e do muito que fiz e padeci por ti. Por ti depois de te fazer à minha imagem e semelhança, me fiz à tua, fazendo-me homem; por ti nasci nos desamparos de um presépio; por ti fui desterrado ao Egito; por ti vivi trinta anos sujeito à obediência de um oficial, ajudando o trabalho de suas mãos com as minhas, e acompanhando o suor do seu rosto com o meu; por ti, e para ti, saí ao mundo a pregar o reino do céu; por ti nas peregrinações de toda a Judéia e Galiléia, sempre a pé, e muitas vezes descalço, padeci fomes, sedes, pobrezas, sem ter lugar de descanso, nem onde reclinar a cabeça, por ti recebi ingratidões por benefícios, ódios por amor, perseguições por boas obras; por ti suei sangue; por ti fui preso; por ti fui afrontado; por ti esbofeteado; por ti cuspido; por ti açoitado; por ti escarnecido; por ti coroado de espinhos; por ti, enfim, crucificado entre ladrões, aberto em quatro fontes de sangue, atormentado e afligido de angústias e agonias mortais, e ainda depois de morto, atravessado o coração com uma lança. 

De tudo isto pedi por ti perdão a Deus, e o pago que tu me deste foi não me perdoar tornando-me a crucificar tantas vezes, quantas gravemente pecaste, como te mandei declarar pelo meu apóstolo: Rursum crucifigentes Filium Dei, “crucificando novamente o Filho de Deus” (Hb 6, 6). Se as gotas de sangue que derramei por ti, tiveram conta, nem de uma só me pudera dar boa conta, ainda que padeceras por mim mil mortes; mas os milhares e os milhões foram das vezes que pisaste o mesmo sangue, sacrificando o infinito valor e merecimento dele, aos ídolos do teu apetite

Ainda em certo modo a maior dívida, a de que agora te pedirei conta é a da vocação. Reservei o saíres à luz deste mundo para o tempo da lei da graça; chamei-te à fé antes de me poderes ouvir, antecipou-se o meu amor ao teu uso da razão, e fiz-te meu amigo pelo batismo. Com o leite e doutrina da Igreja, te dei o verdadeiro conhecimento de mim, benefício que por meus justos juízos em quatro e cinco mil anos não concedi a tantos, e de que ainda nos teus dias careceram muitos. Não tiveste juízo, nem consideração, para ponderar e pasmar, de que tendo a minha justiça razões para condenar um gentio que me não conheceu, as tivesse minha misericórdia para perdoar a um cristão, que conhecendo-me, tanto me ofendia

Perdida a graça da primeira vocação, caíste, e tornei-te a chamar, e dar a mão, para que te levantasses; levantado tornaste a reincidir uma e tantas vezes, e eu, posto que tão repetidamente ofendido, e com tão continuadas experiências da pouca firmeza de teus propósitos, e falsidade de tuas promessas, não cessei de te oferecer de novo meus braços, e te receber sempre com eles abertos; até que infiel, rebelde, e obstinado, cerrando totalmente os ouvidos a minhas vozes, te deixaste jazer no profundo letargo da impenitência final. Dá agora conta de tantas inspirações interiores minhas, de tantos conselhos dos confessores e amigos, de tantas vozes e ameaças dos pregadores, que ou não querias ouvir, ou ouvias por curiosidade e cerimônia; e também ta pudera pedir, de eu mesmo te não chamar eficazmente na hora da morte, porque o desmereceste na vida.

Sete fontes de graça deixei na minha Igreja (que é o benefício da justificação) para que nelas se lavassem as almas de seus pecados, e com elas se regassem e crescessem nas virtudes. Em uma te facilitei em tal forma o remédio para todas as culpas, que só com as confessar te prometi o perdão, que tu não quiseste aceitar, fugindo da benignidade daquele sacramento como rigoroso, e amando mais as mesmas culpas, que estimando o perdão. Em outra te dei a comer minha carne e a beber meu sangue, e juntamente os tesouros infinitos de toda a minha divindade, em penhor da glória e bem-aventurança eterna, que foi o altíssimo fim para que te criei. 

Desprezaste o fim, não quiseste usar dos meios; e porque escolheste antes estar para sempre sem mim no inferno, que comigo no céu; tua é, e não minha, a sentença que logo ouvirás com os outros mal-aventurados: Ite maledicti in ignem aeternum, “Ide, malditos, para o fogo eterno”.

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Onde puseram o Menino Jesus?
Espiritualidade

Onde puseram o Menino Jesus?

Onde puseram o Menino Jesus?

Antes que comece o Natal, e as trocas de presentes em família, antes que todos comecem a fazer festa, permitam-nos apregoar em voz alta, permitam-nos colar cartazes com “procura-se”, permitam-nos denunciar: roubaram o Menino Jesus!

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Antes que comece o Natal, e as trocas de presentes em família, antes que todos comecem a fazer festa, permitam-nos apregoar em voz alta, permitam-nos colar cartazes com “procura-se”, permitam-nos denunciar que roubaram o Menino Jesus!

Gostaríamos muito que se tratasse apenas de uma anedota, como no tal Natal de Ângela, em que uma mocinha “rouba” de uma igreja a imagem do Divino Infante só porque achava, em sua inocência, que o menino estava com frio e precisava agasalhar-se. Mas não... Estamos diante de um roubo criminoso, sem arrependimento e intenção alguma de restituição. Roubaram o Menino Jesus e, poderíamos dizer com o Evangelho, “não sabemos onde o puseram” (Jo 20, 2).

Roubaram o Menino Jesus do ambiente público, no qual Ele sempre teve lugar de destaque, especialmente nesta época do ano. Os enfeites natalinos nas praças, comércios e repartições públicas incluem Papais Noéis, renas voadoras, árvores decoradas, mas o presépio cristão está cada vez mais difícil de encontrar. Em muitos lugares, especialmente na Europa, hoje tomada por muçulmanos, os termos natalinos cristãos são banidos em nome da tolerância e do respeito às outras religiões. O “Feliz Natal” de sempre há muito que se converteu em um vago e laico “Boas Festas” (ou Férias). O acontecimento histórico que deu origem à celebração foi reduzido a um artigo de fé meramente privada, de forma que, se uma pessoa quiser passar essa época do ano sem ouvir uma única vez o nome de Jesus (dependendo, é claro, dos ambientes que ela frequenta ou deixa de frequentar), o certo é que não terá muitas dificuldades em fazê-lo.

Roubaram o Menino Jesus do seio de nossas famílias trocando orações, novenas e idas à Missa por começões, bebedeiras e visitas ao shopping. O Natal se converteu quase que literalmente em uma “magia”: é preciso rir ainda que não se saiba por quê, é preciso festejar ainda que não se saiba o quê, é preciso seguir em frente ainda que não se saiba para onde. Pois foi roubado o Único que poderia dar real sentido à celebração, e verdadeira felicidade aos que celebram.

Roubaram o Menino Jesus de nossas casas, onde Ele deveria ocupar uma posição toda especial, ensinando às crianças que Deus, dois mil anos atrás, escolheu descer à baixeza e inocência delas. 

Mas que crianças, se também elas foram roubadas dos lares, antes mesmo de serem concebidas, trocadas pelas mais novas tecnologias do momento, pelo último lançamento de um carro e pelas viagens anuais à praia? Que crianças, se as famílias modernas decidiram não as ter e, se as tiveram, já cuidaram de sacrificá-las impiedosamente ao mundo, deixando que consumissem tudo o que ele lhes oferece, e que lhes fosse roubada desde cedo justamente a inocência que fazia delas crianças? Se todas as vezes que alguém recebesse uma criança, receberia o próprio Senhor, como Ele mesmo declarou (cf. Mt 18, 5), não é verdade que nossa aversão aos filhos é também uma aversão ao próprio Jesus? Que a recusa dos casais em serem fecundos impede que o próprio Menino Jesus nasça em suas casas?

Roubaram o Menino Jesus também de nossas igrejas, e isso nunca se poderá deplorar o suficiente. Primeiro, tiraram-no dos cibórios para o atirarem ao chão, porque não trataram com zelo o Santíssimo Sacramento. Depois, substituíram a celebração do Deus que se fez criança para nossa salvação por uma celebração grotesca do próprio “eu”. Nossas liturgias estão cada vez mais voltadas para o homem e menos centradas nEle. As pessoas sequer sabem direito o que estão fazendo na Missa, perdidas em meio aos teatros, às dancinhas e às músicas cada vez mais barulhentas dos “ministérios”, às criatividades cada vez mais absurdas dos celebrantes e às palmas cada vez mais efusivas do “auditório”. O padre fala com o povo, o povo fala com o padre, mas com Deus mesmo ninguém fala.

Roubaram o Menino Jesus, isso é triste; roubaram-no, mas ninguém se deu conta, e isso é pior ainda.

Repetimos acima a frase de Santa Maria Madalena, que não sabia onde haviam colocado o Senhor, mas agora não é o caso: nós sabemos onde o Menino Jesus está. A doutrina católica diz que, numa alma que crê e está em estado de graça, habita a Santíssima Trindade como um amigo. Pela fé, portanto, sabemos onde se esconde o Deus menino: Ele se encontra em toda alma que procura amá-lo e cumprir com os seus mandamentos. 

Talvez seja ao redor dessas almas que devamos celebrar o nosso Natal, ao redor de amigos que buscam a Deus. Mas se, infelizmente, as circunstâncias fazem com que nossas famílias, com quem passaremos esses dias, ainda estejam distantes de Cristo, que nossas conversas e nosso modo de viver possam despertar em seus corações a ânsia de procurar pelo Menino que há tanto tempo foi roubado de seus corações… sem que eles sequer lhe tenham notado a ausência.

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