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Um Cardeal contra a ditadura do relativismo
Testemunhos

Um Cardeal contra
a ditadura do relativismo

Um Cardeal contra a ditadura do relativismo

Muito antes de o Cardeal Ratzinger denunciar a “ditadura do relativismo”, um prelado inglês dedicara sua vida a lutar contra a mesma coisa. Mas na sua época o nome do inimigo era outro.

Hermann Geissler,  EWTNTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2018
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No Consistório de 15 de maio de 1879, John Henry Newman foi criado Cardeal da Santa Igreja Romana. Leão XIII, que há pouco fora eleito Papa, quis conferir pessoalmente a dignidade de Cardeal ao famoso convertido, a quem ele carinhosamente chamava na audiência “meu Cardeal”.

Ao receber o biglietto com a notícia de sua elevação ao cardinalato, três dias antes do Consistório acima mencionado, Newman falou às pessoas presentes na residência do Cardeal Howard, em Roma. Seu discurso se tornaria célebre.

Depois de agradecer ao Santo Padre por tão grande honra, ele disse humildemente que cometera “muitos erros” em sua vida e que não possuía nada “da elevada perfeição que caracteriza os escritos dos santos”. Acrescentou, no entanto, ter agido sempre com “uma intenção honesta, sem interesses pessoais, uma têmpera de obediência, uma disposição a ser corrigido, um horror ao erro, um desejo de servir a Santa Igreja e, por misericórdia de Deus, uma justa medida de sucesso”.

O recém-eleito Cardeal resumiu, então, o núcleo essencial de sua missão como pastor e teólogo:

Alegro-me em dizer que a um grande mal desde o princípio eu me opus. Resisti por 30, 40, 50 anos, com o melhor que estava ao meu alcance fazer, ao espírito de liberalismo em religião [1]. Nunca a Santa Igreja precisou tão intensamente como agora de defensores contra esse erro, quando infelizmente ele se espalhou como uma armadilha por todo o mundo; e, nessa grande ocasião, quando é natural para alguém em minha posição olhar para o mundo, para a Santa Igreja e para o seu futuro, eu espero que não seja fora de propósito renovar o protesto que eu tão frequentemente tenho feito contra ele.

Para celebrar a memória desse grande Cardeal, seria apropriado mencionar certos estágios de sua vida, com o propósito de ilustrar seu exemplar compromisso no serviço da Verdade.

Conversão: Deus e dogma

Newman, em foto mais jovem.

O Cardeal Newman nasceu em Londres, a 21 de fevereiro de 1801. Foi criado na tradição anglicana e, na juventude, tinha uma forte inclinação religiosa, que se expressava na leitura da Bíblia. Desde a mais tenra idade, a Sagrada Escritura forneceu-lhe altos padrões morais, mas seu potencial intelectual exigia algo mais preciso e mais claramente definido.

Bem cedo, quando contava apenas 14 anos, ele foi tentado pela descrença e pela autossuficiência. Queria ser um homem honrado, mas sem acreditar em Deus. “Lembro-me que queria ser virtuoso sem ser religioso”, escreve. “Eu não havia entendido o que significava amar a Deus.” Enquanto o jovem estudante lutava com essa tentação, Deus bateu-lhe à porta do coração.

Durante as férias de 1816, ele leu Force of Truth, de Thomas Scott, e o conteúdo do livro deixou-lhe uma profunda impressão. Experimentou em seguida sua “primeira conversão”, que ele mesmo considerava uma das graças mais significativas de sua vida. A experiência envolvia uma consciência aguçada da existência e da presença de Deus, bem como do mundo invisível.

Em sua Apologia pro vita sua, Newman confessou que essa experiência teve uma grande influência em sua personalidade,

isolando-me dos objetos que me rodeavam, confirmando-me na desconfiança da realidade dos fenômenos materiais e fazendo com que concentrasse todos os meus pensamentos em dois seres, dois únicos seres, de evidência luminosa e absoluta, eu e meu Criador. [2]

Ele também escolheu da obra de Scott duas frases que marcariam toda a sua vida: “É preferível a santidade à paz” e “O progresso é a única evidência da vida” [3].

Depois dessa primeira conversão, Newman procurou amar a Deus sobre todas as coisas e seguir a Verdade sem concessões:

Aos quinze anos (no outono de 1816), operou-se uma grande mudança nos meus pensamentos. Sofri o influxo de um credo bem definido, meu espírito ressentiu a impressão do que era um dogma, impressão que, graças a Deus, nunca mais me deixou, nem se ofuscou. [4]

Ele começou a perceber, então, a importância dos grandes dogmas cristãos: a Encarnação do Filho de Deus, a obra da Redenção de Cristo, o dom do Espírito que habita na alma da pessoa batizada, a fé que não pode permanecer como uma simples teoria, devendo exprimir-se em um programa de vida.

O Movimento de Oxford

Depois de seus estudos no Trinity College, em Oxford, Newman foi eleito fellow do Oriel College. Tornou-se ministro anglicano e, depois, vigário de Santa Maria, igreja da Universidade de Oxford. No Oriel College ele conheceu alguns representantes da Alta Igreja Anglicana e começou a se interessar pelos Padres da Igreja. Neles descobriu o frescor e a honestidade da Igreja primitiva, que tinha de lançar raízes em um mundo pagão.

O Cardeal Newman em Roma.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais insatisfeito com a situação espiritual de sua confissão religiosa e preocupado com a crescente influência do liberalismo em Oxford e por toda a Inglaterra. Para combater essas tendências, Newman, juntamente com alguns amigos, fundou o Movimento de Oxford em 1833. Seus defensores denunciavam o distanciamento da nação da prática da fé e lutavam por um retorno ao Cristianismo primitivo por meio de uma sadia reforma dogmática, espiritual e litúrgica.

Newman resume o princípio fundamental do Movimento de Oxford com as seguintes palavras:

Minha luta era contra o liberalismo. Por liberalismo entendia o princípio antidogmático e seus desenvolvimentos. […] Desde os quinze anos, o dogma tem sido o princípio fundamental da minha religião; não conheço outra; não posso conceber a ideia de nenhuma outra religião. Religião de puro sentimento é um sonho e um escárnio. Piedade que prescinde da existência de um Ser Supremo é o mesmo que amor filial sem pais. [5]

Fica claro, a partir disso, que a doutrina do liberalismo que Newman rejeitava é idêntica à concepção relativista da religião e da moral.

Publicando tracts (“panfletos”) fáceis de disseminar, o Movimento de Oxford se esforçava por penetrar as consciências dos eclesiásticos, bem como dos simples fiéis, que se encontravam entre os extremos do sentimentalismo e do racionalismo.

Newman percebeu que a polêmica contra o liberalismo religioso exigia uma doutrina fundamental sólida. Ele estava convencido de ter encontrado a base para tanto nos escritos dos Padres, que ele admirava como os verdadeiros arautos e mestres da fé cristã, representantes daquela religião antiga “que praticamente desaparecera desta terra e que devia ser ressuscitada”.

Enquanto o Movimento de Oxford se expandia, Newman desenvolveu a teoria da Via Media. Com isso ele pretendia demonstrar que a Comunhão Anglicana era a legítima herdeira do Cristianismo primitivo e a verdadeira Igreja de Cristo, já que não possuía nenhum sinal nem dos erros doutrinais dos protestantes nem da corrupção e dos abusos que ele acreditava existir na Igreja de Roma.

Em direção à Igreja Católica

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

A Via Media de Newman estava calcada no dogma, no sistema sacramental e no antirromanismo. Entretanto, estudando a história da Igreja no século IV, Newman fez uma grande descoberta: percebeu o Cristianismo do seu próprio século refletido em três grupos religiosos daquele período: nos arianos, os protestantes; nos ortodoxos, a Igreja de Roma; nos semiarianos, os anglicanos [6]. Essa constatação suscitou-lhe as primeiras dúvidas a respeito da Comunhão Anglicana.

Pouco tempo depois, ele leu um artigo no qual a posição dos donatistas africanos à época de Agostinho era comparada à dos anglicanos. Newman não conseguia esquecer a frase: Securus judicat orbis terrarum, citada por Santo Agostinho [7]: “A Igreja universal, em seus juízos, está segura da Verdade”, na tradução do próprio Newman.

Ele percebeu que os conflitos doutrinários na Igreja antiga eram resolvidos não só com base no princípio da antiguidade, mas também no da catolicidade: a opinião da Igreja como um todo é um decreto infalível. Consequentemente, “a teoria da Via Media ficava absolutamente pulverizada”.

Fiel ao princípio de respeitar a Verdade, Newman decidiu retirar-se em Littlemore, um pequeno vilarejo próximo de Oxford, para alguns anos de oração e estudo. Ele começou a juntar as peças de uma reflexão que há anos o ocupava: se a Igreja Católica Romana faz parte da sucessão apostólica, como justificar aquelas doutrinas suas que não pareciam fazer parte do patrimônio de fé legado pelo Cristianismo primitivo?

O princípio do desenvolvimento autêntico que ele formulou habilitava-o a justificar vários novos ensinamentos na vida da Igreja: os dogmas tardios eram desenvolvimentos autênticos da Revelação original. Ele ilustrou esse argumento, crucial para o seu futuro, em um ensaio intitulado An Essay on the Development of Christian Doctrine.

Nesta obra-prima teológica, há uma passagem em que, rejeitando a ideia de que verdade e erro em matéria religiosa seriam supostamente uma questão de opinião e de que a salvação não dependeria de uma profissão correta da fé, Newman reafirma o que costumava chamar de princípio dogmático:

De que há, portanto, uma verdade; de que há uma só verdade; de que o erro religioso é, em si mesmo, de natureza imoral; de que seus defensores, a menos que o façam involuntariamente, são culpados em defendê-lo; de que ele é de se temer; de que a busca pela Verdade não é a gratificação da curiosidade; de que sua obtenção não tem nada do entusiasmo de uma descoberta; de que a mente está sujeita à verdade e, portanto, não lhe é superior, estando aquela obrigada não a dissertar sobre esta, mas a venerá-la; de que a verdade e a falsidade são colocadas diante de nós para provar os nossos corações; de que nossa escolha é um terrível desenho do destino no qual está inscrita ou a nossa salvação ou a nossa condenação; de que “quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica”; de que “quem quiser salvar-se deve pensar assim a respeito da Trindade” (cf. Símbolo Atanasiano), e não de outro modo; de que, “se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência, buscando-a como se procura a prata, se a pesquisares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus” (Pr 2, 3-5). Esse é o princípio dogmático, que tem força.

Enquanto Newman assim procedia com seus estudos sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, ele percebeu que a Igreja de Roma era a Igreja dos Padres, a verdadeira Igreja de Cristo.

Em sua Apologia ele escreveu:

Tudo isso levou-me a examinar mais atentamente o que não duvido fosse de muito objeto das minhas considerações, isto é, o encadeamento de argumentos por meio do qual o espírito progride das suas primeiras ideias religiosas até às últimas; cheguei à conclusão de que em verdadeira filosofia não há meio termo entre ateísmo e catolicismo, e de que um espírito consequente consigo mesmo, nas circunstâncias em que se acha neste mundo, deve abraçar um ou outro. [8]

Em 9 de outubro de 1845, Newman abraçou a fé católica e foi recebido na Igreja — “no único redil de Cristo” [9], como ele escreveu — pelo beato Dominic Barberi, um passionista italiano.

“Testes” pela Verdade

O Cardeal Newman, já em idade avançada.

Depois de ordenar-se padre católico, Newman fundou o Oratório de São Filipe Néri em Birmingham. Em suas muitas atividades pastorais e teológicas, trabalhou sobretudo para formar intelectual e espiritualmente os fiéis católicos, seus confrades e novos convertidos. De fato, ele estava convencido de que os grandes desenvolvimentos culturais e sociais da época exigiam uma fé que fosse capaz de demonstrar as razões para se ter esperança.

Em meio a numerosas dificuldades e desentendimentos de vários lados, ele trabalhou incansavelmente para incutir cultura nos leigos, “pessoas do mundo para o mundo”, mas que fossem iluminados por uma fé radiante, que eles mesmos seriam capazes de defender.

Veio à luz em 1870 uma obra sua intitulada An Essay in Aid of a Grammar of Assent. Neste outro clássico, Newman analisa filosoficamente o ato de assentimento da mente humana às verdades reveladas, procurando defender o direito das pessoas comuns à segurança nessa matéria, ainda que elas não sejam capazes de justificar e formular a fé por si mesmas. Nesse ensaio, o autor mostra de modo convincente e oportuno como a mente pode alcançar segurança, tanto em geral quanto na área da fé.

Na seção que conclui o livro, Newman nos dá como legado uma bonita passagem na qual resume o difícil teste pela Verdade, comparando-a com a religião natural, as promessas feitas aos ao povo de Israel e as várias religiões que havia espalhadas pelo Império Romano. Esta passagem, particularmente importante no mundo de hoje, onde o Cristianismo é chamado a se afirmar e espalhar em uma sociedade pluralista e multirreligiosa, diz o seguinte:

A religião natural é baseada no sentido de pecado; ela reconhece a doença, mas não é capaz de encontrar, só o que ela faz é procurar, o remédio. Esse remédio, tanto para a culpa quanto para a impotência moral, encontra-se na doutrina central da Revelação, a Mediação de Cristo.

É assim que o Cristianismo é o cumprimento da promessa feita a Abraão e das revelações mosaicas. Foi deste modo que, desde o começo, ele foi capaz de ocupar o mundo e dominar cada classe social que seus pregadores alcançavam; foi por isso que o poder romano, bem como as inúmeras religiões por ele abraçadas, não lhe puderam resistir; foi esse o segredo de sua energia perene e de seus martírios intermináveis; é por isso que, no presente, ele é tão misteriosamente poderoso, apesar dos novos e temíveis adversários que lhe obstruem o caminho.

O Cristianismo traz consigo aquele dom de estancar e curar a chaga profunda da natureza humana, fato que conta mais para o seu sucesso do que uma enciclopédia repleta de conhecimento científico e uma livraria inteira de controvérsias, e por essa razão ele deve durar enquanto durar a natureza humana. Trata-se de uma verdade vital que não envelhecerá jamais.

Algumas pessoas falam do Cristianismo como se fosse uma coisa da história, com influências apenas indiretas sobre os tempos modernos, mas eu não posso consentir em que ele seja uma religião meramente histórica. Suas fundações certamente se encontram em gloriosas memórias passadas, mas seu poder está no presente. Não se trata de “saudosismo”; nós não o contemplamos em conclusões retiradas de documentos mudos e eventos mortos, mas através da fé exercida sobre objetos eternos, da posse e do uso de dons sempre recorrentes.

Nossa comunhão com o Cristianismo está no invisível, não no obsoleto. Até os dias de hoje seus ritos e cerimônias estão continuamente revelando a intervenção ativa daquela Onipotência em que há muito tempo começou a religião. Primeiramente e acima de tudo está a Santa Missa, na qual Ele, que morreu uma vez por nós sobre a Cruz, traz de volta e perpetua, através de sua presença literal nela, aquele único e mesmo sacrifício que não se pode repetir.

Depois, há a verdadeira entrada dEle, em corpo, alma e divindade, no corpo e na alma de cada adorador que dEle se aproxima para receber esse dom — um privilégio mais íntimo do que se convivêssemos com Ele durante sua estadia temporária e de longa data sobre a terra.

Há então, além disso, a sua permanência pessoal em nossas igrejas, elevando toda liturgia terrena a um antegozo do céu.

Tal é o modo como se professa o Cristianismo e, eu repito, o próprio fato de ele “adivinhar” as nossas necessidades constitui, em si mesmo, uma prova de que ele é realmente o suprimento delas.

Contra o liberalismo religioso

Concluímos retornando ao discurso de Newman, feito quando de sua elevação ao Colégio de Cardeais. Naquela ocasião, ele renovou seu protesto contra o liberalismo religioso, dando uma descrição precisa daquilo em que ele consiste — uma descrição cujo caráter profético é óbvio em nossa época:

Liberalismo em religião é a doutrina de que não existe nenhuma verdade positiva em religião, mas de que um credo é tão bom quanto qualquer outro, e é esse o ensinamento que está ganhando força e substância dia após dia. É inconsistente com qualquer reconhecimento de uma religião como verdadeira. Ensina que todas devem ser toleradas, pois todas são uma questão de opinião.

A religião revelada não é uma verdade, mas um sentimento e um “gosto”; não se trata de um fato objetivo, milagroso; e é direito de cada indivíduo fazê-la dizer apenas o que lhe manda a fantasia.

A devoção não necessariamente se funda sobre a fé. Os homens podem ir a igrejas protestantes e a católicas, podem se alimentar das duas e pertencer a nenhuma delas. Podem confraternizar juntos em pensamentos e sentimentos espirituais, sem ter quaisquer visões de doutrina em comum, nem ver a necessidade disso.

Visto que, então, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e privada, nós devemos necessariamente ignorá-la nas relações humanas. Se uma pessoa “veste” uma nova religião a cada manhã, ninguém tem nada a ver com isso. Pensar sobre a religião de uma pessoa é tão impertinente quanto pensar em suas fontes de renda ou na gestão de sua família. A religião em nenhum sentido é o vínculo da sociedade.

Hoje nós somos testemunhas de uma mentalidade, difundida em muitos ambientes, que sustenta precisamente essas ideias, denunciadas por Newman, com consequências muito graves para a causa da Verdade, para o diálogo ecumênico e interreligioso, para a liturgia e a espiritualidade, bem como para a dimensão social e cultural da fé.

O Beato Cardeal Newman pode lembrar a todos, pastores e fiéis leigos, que a Verdade é um tesouro muito precioso a ser aceito com fé, proclamado com honestidade e defendido com força. “Normalmente a Igreja nada tem a fazer”, assim conclui o Cardeal Newman o seu discurso, “a não ser cumprir com seus próprios deveres, com confiança e em paz, esperando ver a salvação de Deus”.

Referências

  1. “Desde o fim do século XVIII a palavra [Liberalismo] tem sido aplicada mais e mais a certas tendências na vida intelectual, religiosa, política e econômica, que implicam uma emancipação parcial ou total do homem em relação à ordem divina, sobrenatural e moral. […] [O Liberalismo Católico], em geral, advoga largueza na interpretação do dogma, descuido ou desconsideração com os decretos disciplinares e doutrinais das congregações romanas, simpatia pelo Estado mesmo em suas ações contra a liberdade da Igreja, e uma disposição em considerar como clericalismo os esforços da Igreja em proteger os direitos da família e dos indivíduos ao livre exercício da religião.” (Gruber, H. [1910]. Liberalismo. Em: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company)
  2. John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 32.
  3. Ibid., p. 33.
  4. Ibid., p. 31.
  5. Ibid., p. 91.
  6. Cf. Ibid., pp. 167s; 197s.
  7. Cf. Ibid., p. 170.
  8. Ibid., p. 266.
  9. Ibid., p. 307.

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É verdade que a nossa fé é cega?
Fé e Razão

É verdade que a nossa fé é cega?

É verdade que a nossa fé é cega?

A nossa fé católica é cega? Ela nos é “imposta” pela Igreja? Somos por acaso proibidos de investigar os fundamentos de nossa fé?

Frei Boaventura Kloppenburg20 de Julho de 2018
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“O católico brasileiro já não raciocina com a cabeça alheia, já não aceita o regime da fé cega, imposta pela Igreja, que nega até o direito de procurar-lhe os fundamentos”.

Não é certamente a declaração de um verdadeiro e sincero católico brasileiro, mas desses católicos que o são apenas de nome, e que na realidade são espíritas, isto é, anticatólicos. Temos aí três acusações a serem tomadas em consideração: a) que a nossa fé católica é cega; b) que ela nos é imposta pela Igreja; e c) que somos proibidos de  investigar os fundamentos de nossa fé. Vejamos tudo isso.

Primeira acusação: É cega a fé dos católicos? Pode esta cegueira ou obscuridade referir-se a duas coisas: ou ao objeto de fé, ou aos seus motivos. Se os espíritas querem dizer que é cega a nossa fé porque cremos sem motivos suficientes, então estão erradíssimos e mostram grande ignorância. Falaremos logo mais sobre isso. Mas se eles pensam que a nossa fé é cega porque é obscuro seu objeto, aí eles têm razão. Isso, todavia, de modo nenhum pode ser censurado. É essencial à fé.

É por isso que o crer se contrapõe ao ver. Quantas coisas nós cremos sem ver e só por testemunho humano! Irrazoável, blasfemo e pecaminoso seria não crer na palavra de Deus, apesar de saber que Deus falou e que é infinitamente sábio e veraz.

Segunda acusação: A fé nos é imposta pela Igreja? Absolutamente não! A Igreja apenas continua a missão de Cristo e dos Apóstolos: “Ide, ensinai a todas as gentes a observar tudo o que vos tenho mandado” (Mt 28, 20); “quem crer e for batizado, será salvo; quem não crer, será condenado” (Mc 16, 16).

Cumprindo esta sua missão, a Igreja propõe a doutrina e os mandamentos de Cristo. O ato de fé deve ser sempre livre e espontâneo da parte de quem o aceita. Queres salvar-te? — pergunta a Igreja ao homem. — Então crê o que Cristo ensinou. Não queres crer? Não te obrigo contra tua vontade; mas não te salvarás…  “Quem não crer será condenado”. É palavra de Cristo, do Salvador e não da Igreja. Ela apenas repete.

Terceira acusação: Somos proibidos de procurar os fundamentos de nossa fé?  Isso é repetido mil vezes pelos espíritas, ou porque são ignorantes, ou porque querem caluniar.

Dizem que nós não pensamos nem estudamos; que nós cremos sem nada examinar, sem verificar o conteúdo da nossa fé; que qualquer indagação um pouco mais aprofundada dos nossos dogmas teria como resultado uma mão cheia de verdades quebradas, desconexas, contraditórias, irracionais etc.; que, portanto, nós aceitamos as ideias mais abstrusas, não nos preocupando nem com a lógica, nem com o bom senso, nem tendo a menor ideia das recentes descobertas feitas pelas ciências exatas; que nós nos entrincheiramos pertinazmente atrás dos dogmas, tendo um pavor imenso de qualquer pessoa que sabe pensar e cerrando obstinadamente os olhos para não ver os resultados dos estudos modernos.

Assim podemos ler em Leão Denis que a Igreja Romana, durante quinze séculos, sufocou o pensamento; que ela sempre se esforçou por impedir o homem de usar do direito de pensar; que ela se nos apresenta despoticamente com as palavras “crê e não raciocines; ignora e submete-te; fecha os olhos e aceita o jugo” (Cristianismo e Espiritismo, 50.ª ed., p. 126s).

Mas a verdade é que a Igreja, desde o princípio, tem favorecido de todos os modos o estudo sério e aprofundado das verdades da fé.

Homens houve, inteligentes, sérios e santos, em todos os tempos, que, amparados e fomentados pela Igreja, dedicaram a vida inteira ao estudo das verdades da fé. A ciência que se dedica a este estudo chama-se teologia. E só o ignorante em história pode repetir as acusações ineptas de Denis.

Nunca a Igreja proibiu ou impediu a investigação séria da fé. Os livros para estudar as bases da fé católica estão à disposição de todos. E a Igreja insiste mesmo nestes estudos. Pois ela bem conhece a admoestação do Príncipe dos Apóstolos: “Guardai santamente em vossos corações a Cristo Senhor, sempre prontos a satisfazer a quem quer que vos peça razões da esperança que vos anima” (1Pd 3, 15).

E quanto mais penetramos nas verdades que Deus se dignou nos revelar, tanto mais nos sentimos seguros de abraçar a verdade; quanto mais estudamos sobre os dados da fé, tanto mais exultamos na santa alegria de filhos de Deus; quanto mais enfrentamos as objeções que a impiedade e o orgulho dos homens sem fé nos lança em rosto, tanto mais nos vemos confirmados naquilo que Deus realmente nos falou.

Não! Não temos motivos para envergonhar-nos da nossa fé, nem precisamos temer os ataques da incredulidade. Não é a verdadeira ciência que conduz os homens à apostasia: é a falta de estudos sérios, é a vida desregrada, é o coração desprendido de Deus e demasiadamente apegado aos bens passageiros que leva à perda da fé e à incredulidade.

A inteligência esclarecida, o coração reto e a vida imaculada só podem levar a Deus e à fé em Deus. Não, a nossa fé não é irracional nem nos proíbe o raciocínio. Não, a Igreja não impede o estudo, nem cremos que algum dos nossos leitores jamais terá recebido semelhante proibição.

Se há católicos que não mostram interesse por sua fé; se existem até intelectuais que se dizem católicos e que desconhecem as noções mais elementares de sua fé, a culpa não será da Igreja que lhes proibiu esse estudo ou lhes sonegou os necessários livros, mas a culpa será deles mesmos: o seu desinteresse pelas coisas santas e a sua negligência em se instruir é que são os únicos responsáveis.

Um última acusação: Mas a Igreja proíbe até a leitura da Bíblia! Falsíssimo. Semelhante afirmação, além de implicar uma injuriosa calúnia, é outro atestado de grande ignorância. A Igreja até recomenda vivamente a leitura diária da Sagrada Escritura.

Eis algumas recomendações de alguns Papas: “Os mais preciosos serviços”, diz Bento XV, “são prestados à causa católica por aqueles que, em diferentes países, puseram e põem ainda o melhor de seu zelo em editar, sob formato cômodo e atraente, e em difundir os livros do Novo Testamento e uma seleção dos livros do Antigo” [1]. E um pouco antes dissera: “Nunca cessaremos de exortar todos os cristãos a fazerem sua leitura cotidiana principalmente dos santíssimos Evangelhos de Nosso Senhor” [2].

E Pio XII admoesta aos Bispos que “favoreçam e auxiliem as associações que têm por fim difundir entre os fiéis exemplares da Sagrada Escritura, particularmente dos Evangelhos, e procurar que nas famílias cristãs se leiam regularmente todos os dias com piedade e devoção” [3].

Referências

  1. Bento XV, Encíclica “Spiritus Paraclitus”, de 15 set. 1920: “Eodem in genere optime de re catholica merentur illi e variis regionibus viri, qui omnes Novi Testamenti et selectos e Vetere libros commoda ac nitida forma edendos et evulgandos perdiligenter curarunt et in praesenti curant” (AAS 12 [1920] 406).
  2. Id., ibid: “[...] Christifideles omnes [...] cohortari numquam desinemus, ut sacrosancta praesertim Domini Nostri Evangelia [...] cotidiana lectione pervolutare [...] studeant” (AAS 12 [1920] 405-406).
  3. Pio XII, Encíclica “Divino Afflante Spiritu”, de 30 set. 1943, n. 26: “Faveant igitur atque auxilium praestent piis illis consociationibus, quibus propositum sit Sacrarum Litterarum, Evangeliorum potissimum, edita exemplaria inter fideles diffundere, eorumque cotidiana lectio studiosissime curare ut in christianis familiis rite sancteque fiat” (AAS 35 [1943] 321).

Notas

  • Extraído e levemente adaptado de Fr. Boaventura Kloppenburg, Resposta aos Espíritas. Rio de Janeiro: Vozes, 1954, pp. 9-12.

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O alerta de um professor: “Estão doutrinando seu filho!”
Educação

O alerta de um professor:
“Estão doutrinando seu filho!”

O alerta de um professor: “Estão doutrinando seu filho!”

“Se você for um pagador de impostos ou estiver pagando pelo diploma universitário de seu filho, você está sustentando uma gangue de niilistas.”

LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Julho de 2018
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O professor canadense Jordan Peterson, autor de “12 Regras para a Vida” (recém lançado no Brasil), veio a público recentemente para fazer um alerta aos pais, cujos filhos estão sofrendo “lavagem cerebral” para aceitar “noções assassinas” em universidades ideologicamente controladas.

Ainda que não se dê conta, você está financiando algumas pessoas perigosas”, ele diz em um vídeo criado pelo canal PragerU [1]. “Elas estão doutrinando jovens mentes em todo o Ocidente com sua ideologia carregada de ressentimento.”

Para o professor de psicologia, que é PhD e leciona desde 1998 na Universidade de Toronto, está em curso uma maquinação de professores universitários determinados a minar a civilização ocidental tal como a conhecemos.

Eles consideram nossa civilização “corrupta, opressiva e patriarcal”. “Se você for um pagador de impostos ou estiver pagando pelo diploma universitário de seu filho, você está sustentando essa gangue de niilistas”, ele alerta. “Você está apoiando ideólogos que declaram que toda verdade é subjetiva, que todas as diferenças sexuais são socialmente construídas, e que o imperialismo ocidental é a única fonte de todos os problemas do Terceiro Mundo.”

Jordan Peterson atribui ainda a ideologias do meio acadêmico a culpa por gangues que violentamente silenciam palestrantes em campi universitários — fato recorrente também no Brasil —, polícias de linguagem que defendem novos pronomes transgêneros e reitores que se esforçam por erradicar a discriminação “onde ela é pouca ou sequer existe”.

O problema começou nos anos 1960 e 1970 quando jovens radicais se tornaram os professores que hoje lecionam. Agora os estudantes se esforçam não para educarem a si próprios, mas para se tornarem acólitos de seus mentores. Como Peterson observa, agora seria possível obter um diploma em literatura inglesa sem ler o trabalho de William Shakespeare, simplesmente por ele estar “morto” e ser um “homem branco”.

“Para entender e confrontar os pós-modernistas, as ideias pelas quais eles se orientam devem ser claramente identificadas”, diz Peterson.

Primeiro, elas incluem uma tríade de jargões: “diversidade”, “igualdade” e “inclusão”. Diversidade não se aplica a opiniões, mas a “etnia, raça e identidade sexual”. Igualdade não é mais sobre conceder igual oportunidade às pessoas, mas sim “igualdade de resultados”. Inclusão, por sua vez, é sinônimo de cotas públicas. “Todos os direitos clássicos do Ocidente deveriam ser tidos por secundários em comparação com esses novos valores”, ele explica. A liberdade de expressão é particularmente desprezada.

Em segundo lugar, as ideologias também se opõem ao livre mercado [2]. “Elas não admitirão que o capitalismo elevou centenas de milhões de pessoas, fazendo com que tivessem pela primeira vez na história a oportunidade de prover comida, moradia, vestimentas, transportes e até entretenimento e viagens”, disse Peterson. Graças a esse sistema, hoje até muitas pessoas que consideramos pobres são capazes de satisfazer suas necessidades básicas, mas o mesmo não é possível dizer de países socialistas como a Venezuela.

Em terceiro lugar, eles são a favor de políticas de identidade. Desconsiderando que cada indivíduo é uma pessoa única, eles vêem um homem ou uma mulher simplesmente como um “modelo” de sua raça, de seu sexo, de sua preferência sexual ou, de modo ainda mais limitado, como uma vítima ou um opressor. “Ideias de vitimização só o que fazem é justificar o uso de poder e produzir conflitos entre grupos”, diz Peterson.

Os valores pós-modernistas tiveram início em Karl Marx, cujas teorias político-econômicas fizeram várias economias fracassar e dezenas de milhões de pessoas perecer. “Nós lutamos por décadas na Guerra Fria para frear o avanço dessas noções assassinas”, ele diz, “mas elas estão de volta disfarçadas de políticas de identidade”.

Ao invés de serem depositadas na lata de lixo da história, as ideias de Marx são mantidas bem vivas por instituições que deveriam estar transmitindo as riquezas do Ocidente a todas as gerações, ele conclui em seu vídeo. “A menos que demos um basta nisso, o pós-modernismo fará com os Estados Unidos, assim como com todo o mundo ocidental, o que já fez com suas universidades.”

Notas

  1. Prager University”, ou PragerU, é uma iniciativa do apresentador norte-americano Dennis Prager. Criada para confrontar a hegemonia de esquerda nas universidades estadunidenses, essa organização produz um provocador “ensaio digital” por semana.
  2. A crítica de Jordan Peterson no vídeo acima está em perfeita consonância com o que São João Paulo II ensinou em sua encíclica Centesimus Annus, respondendo se seria o capitalismo “a estrada do verdadeiro progresso econômico e civil”: “Se por capitalismo”, ele explicou, “se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de ‘economia de empresa’, ou de ‘economia de mercado’, ou simplesmente de ‘economia livre’. Mas se por capitalismo se entende um sistema onde a liberdade no setor da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa” (n. 42). A essa opinião subscrevemos integralmente, como é possível verificar num episódio do programa “Ao vivo com Padre Paulo Ricardo” (Nota da Equipe CNP).

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O incontestável primado de São Pedro
Doutrina

O incontestável primado de São Pedro

O incontestável primado de São Pedro

Não cabe dúvida alguma. Manifestamente, São Pedro aparece nos Evangelhos como o Apóstolo principal: entre os seus companheiros gozava de uma preeminência incontestável.

Pe. Leonel Franca18 de Julho de 2018
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A promessa e a entrega do primado a Pedro não é um fato isolado no Evangelho. Toda a narração histórica do ministério de Cristo conspira em atribuir no colégio dos Doze um lugar de preeminência ao futuro chefe da Igreja. Dir-se-ia que os evangelistas, tão sóbrios em informações sobre os outros Apóstolos, não perdem a oportunidade de falar de Pedro, de referir suas palavras, de registrar os sinais de predileção com que o distinguia o Salvador [1].

Pela primeira vez apresenta-se a Cristo o humilde pescador da Galileia: “Tu és Simão”, diz-lhe Jesus, “tu te chamarás Cefas, isto é, Pedra” (Jo 1, 42). Era a imposição de um nome novo, conforme o costume de Deus [2], rica de significados e de promessas.

Durante sua pregação apostólica, é a barca de Pedro a preferida por Cristo para doutrinar as turbas (cf. Lc 5, 1-4); se se demora em Cafarnaum, na casa de Pedro é que se hospeda (cf. Mt 8, 14; Mc 1, 29; Lc 4, 38); é Pedro quem, quase sempre, fala em nome dos Apóstolos; é a Pedro, como o principal do grupo, que se dirigem os coletores de impostos para saber se o Mestre pagava o tributo do Templo, e Jesus paga a taxa legal por si e por Pedro (cf. Mt 17, 24-27).

Ao escrever suas memórias, em tempos posteriores, são os próprios evangelistas que se empenham em salientar este lugar preponderante de Simão no colégio apostólico. Quatro catálogos dos Apóstolos oferece-nos o Novo Testamento (cf. Mt 10, 2-4; Mc 3, 16-19; Lc 6, 14-16; At 1, 13). A ordem em que se sucedem os outros nomes varia de um para outro; mas em todos eles, assim como Judas, o traidor fecha sempre a enumeração, assim também Pedro, invariavelmente, ocupa o primeiro lugar: o lugar de honra.

Nem é casual coincidência. S. Mateus observa expressamente: “Primeiro, Simão que se chama Pedro”. Primeiro em quê? Em idade? Nenhum indício positivo o insinua, nem a velhice foi certamente o critério adotado pelos historiadores sagrados, que alteram a ordem dos outros nomes e mencionam João antes de outros Apóstolos mais idosos. Prioridade de vocação? Tampouco. A eleição para o apostolado foi simultânea para os Doze (cf. Mt 10, 1; Mc 3, 13-15). A vocação inicial de Pedro para discípulo, se foi anterior à de muitos Apóstolos, não foi absolutamente a primeira. André e outro discípulo seguiram antes os passos do Messias (cf. Jo 1, 35-42). Um segundo chamado de Cristo feito nas bordas do lago Tiberíades e narrado pelos Sinóticos apresenta para os quatro Apóstolos Simão, André, João e Tiago uma simultaneidade moral que não permite estabelecer nenhuma prioridade cronológica.

Voltemos ainda ao ministério de Cristo. Quando, nas circunstâncias mais solenes de sua vida — na ressurreição da filha de Jairo, manifestação de sua onipotência; na Transfiguração do Tabor, irradiação de sua glória; na agonia do jardim das oliveiras, mistério de suas dores —, Jesus escolhe como testemunhas a três dos seus Apóstolos, Pedro é ainda invariavelmente nomeado em primeiro lugar (cf. Mc 5, 37; 9, 12; 14, 33 e lugares paralelos). Às vezes todo o colégio apostólico é compreendido pelo historiador sagrado numa expressão coletiva; só Pedro é singularmente designado: “Pedro e os que o acompanhavam” (Mc 1, 36), nem mais nem menos como dizem de um rei e o seu séquito, de um chefe militar e de sua escolta: “Davi e os que o seguiam” (Mc 2, 25); “O centurião e os que o  acompanhavam” (Mt 27, 54) [3].

Não cabe, pois, dúvida alguma. Manifestamente, S. Pedro aparece-nos como o Apóstolo principal: entre os seus companheiros gozava de uma preeminência incontestável. Era este um simples fato ou também um direito? Era uma simples ascendência moral, devida às qualidades do seu caráter e análoga ao “primado moral que exercem espontaneamente os leaders das câmaras deliberativas, ou os deputados que se impõem pelo seu caráter e influência”? Ou era, pelo contrário, uma superioridade querida por Cristo, sancionada por livre vontade, firmada nas suas promessas? Abramos o Evangelho e saibamos ler.

Evidentemente, não se deve falar aqui de uma supremacia de jurisdição efetivamente exercida por Pedro durante a vida mortal do divino Mestre. Jesus, vivo e presente entre os discípulos, era o seu único e natural superior. O que importa determinar é se Cristo havia prometido um verdadeiro primado de jurisdição a algum dos Doze e se as expressões registradas pelos evangelistas não são mais do que os reflexos dos raios desta futura primazia.

“Impossível”, dizem os adversários do Papado que, sem perder tempo, já o querem impugnar no primeiro dos papas. “Uma ascendência jurídica prometida pelo Mestre”, continuam, “não se concilia com as brigas dos discípulos sobre qual deles era o maior, menos ainda se harmoniza com os ensinamentos explícitos do Salvador, que condena qualquer prelazia no colégio apostólico”.

Um fato e uma doutrina — eis o que nos opõem. Analisemos o fato e expliquemos a doutrina.

O fato: a disputa pelos primeiros lugares

Como harmonizar a disputa dos discípulos com a promessa de uma primazia feita por Cristo a Pedro? Uma questão resolvida pelo Salvador podia ainda ser objeto de controvérsia entre os Doze? Seria necessário não conhecer a rudeza dos Apóstolos para ver aí uma séria dificuldade. Quantos ensinamentos ouviram eles, claros, repetidos uma e muitas vezes, sem compreender! Quantas vezes não insistiu o Messias no caráter espiritual do seu reino! E poucos momentos antes da Ascensão não se sai um dos discípulos com a pergunta impertinente: “É agora, Senhor, que ides restituir o reino de Israel?” (At 1, 6).

“Cristo aparece a S. Pedro na via Ápia”, por Annibale Carracci.

Haverá no Evangelho profecia menos equívoca, mais compreensível, mais repetida pelo Salvador, que a de sua Paixão e Morte? “É necessário que o Filho do Homem sofra, que seja reprovado pelos anciãos, príncipes dos sacerdotes e escribas, que seja morto e ao terceiro dia ressuscite” (Lc 9, 22.44; 18, 31-33). A predição foi renovada insistentemente em outras ocasiões, iluminada em mil lugares diversos. Mas aquelas almas rudes, que sonhavam com os triunfos temporais do messianismo popular, eram resistentes ao escândalo da cruz. Quando se realizaram os prenúncios do Mestre, perturbadas e abatidas, no que deveria ser um reforço de prova da divindade do Messias viram só o naufrágio de todas as suas esperanças. A mensagem pascal da Ressurreição encontrou-os ainda humilhados e incrédulos: “Stulti et tardi corde ad credendum” — “Ó estultos e lentos do coração para crer” (Lc 24, 25).

No nosso caso, a explicação é ainda mais simples. As palavras de Cristo a Pedro (cf. Mt 16, 18s) continham apenas, como veremos, uma promessa. Seguiu-as, logo em seguida, uma grave repreensão do Senhor ao mesmo Apóstolo, que, voltando a pensamentos humanos, tentava dissuadi-lo das humilhações da cruz. O que seria mais natural, portanto, do que pensarem os outros que se tratava apenas de uma promessa condicionada, revogada logo pela severa repreensão de Cristo? A sucessão do primado achava-se, assim, novamente aberta às suas ambiciosas esperanças.

Oh! Como transparece aqui a psicologia da nossa frágil natureza humana! Somos espontaneamente inclinados a crer em tudo quanto agrada e lisonjeia as nossas ambições secretas. A mesma evidência, quando contraria os sonhos dos nossos íntimos desejos, não consegue entrar-nos na alma. Imbuídos de preconceitos judaicos sobre a temporalidade do reino messiânico, os discípulos alimentavam com amor a esperança das honras e do poderio terreno. Preferidos aos demais pelo Messias, nenhum, talvez, havia entre eles que, de si para si, não tivesse sonhado com alguma dignidade futura, com alguma “pasta ministerial” do reino restaurado de Davi. E um dia, quando a mãe de João e Tiago, na simplicidade indelicada do seu afeto materno, ousou abertamente pedir ao Senhor que reservasse para os filhos os dois primeiros lugares ao lado do seu trono, levantou-se entre os companheiros um rumor geral de indignação e protesto (cf. Mt 20, 24). A petição imprudente ferira vivamente as ambições rivais que mais de um nutria com secreta complacência.

Não surpreende, pois, que as promessas do primado, encontrando naquelas almas ainda não visitadas pelo divino Espírito tão resistente barreira psicológica, fossem pouco a pouco negligenciadas e esquecidas a ponto de, ainda na Última Ceia, se acenderem novamente entre os discípulos discussões sobre o primado. Descerá mais tarde sobre eles o Espírito Santo, Espírito de verdade e de amor, de luz e de caridade, prometido por Cristo aos seus Apóstolos para sugerir-lhes tudo quanto “lhes havia ensinado”. Depois da vinda do Paráclito já não haverá entre os Doze rivalidades nem brigas sobre “qual deles será o maior”. Apóstolos e fiéis serão um só coração e uma só alma sob o poder supremo de Pedro.

A doutrina: Jesus condena a prelazia no colégio apostólico?

Mais simples ainda é a explicação da doutrina de Cristo. Entre os gentios, os reis exercem dominação sobre os súditos. Entre vós não há de ser assim; antes, o que é maior entre vós faça-se como o mais pequeno e o que manda [logo, há de haver quem manda!] como o que serve (Lc 22, 25-26) [4]. Por acaso quis Cristo, com estas palavras, excluir qualquer jurisdição entre os Apóstolos? De modo nenhum. O que elas contêm, sim, é um ensinamento novo, um ensinamento profundo sobre a noção de autoridade.

Para os pagãos, a soberania era uma ostentação honorífica, uma distinção mundana, uma dominação férrea sobre os súditos escravizados. Nada disso há de ser o poder em mãos cristãs. A autoridade é um ministério, um serviço público: é, antes de tudo, um dever, o dever de consagrar-se como servo ao bem comum dos governados. Longe, pois, a ostentação; longe as honrarias vãs que só lisonjeiam a vaidade e o orgulho de quem as recebe. O autoritarismo pagão, isto é, a pretensão de impor a todo custo o próprio capricho, deve ceder o lugar à verdadeira autoridade, que só tem razão de ser nas necessidades e exigências do bem público [5]. Eis o novo e profundo conceito ensinado pelo divino Mestre.

Equivalem estas palavras a eliminar o poder de jurisdição numa sociedade legitimamente constituída? Já o dissemos: de modo nenhum. Quereis a prova? Lede alguns versículos abaixo e vereis que Cristo promete aos Doze uma situação privilegiada entre os fiéis: os Doze se assentarão um dia em doze tronos para julgar as tribos de Israel (cf. Lc 22, 30). Continuai a ler algumas linhas e ouvireis o mesmo Cristo conferir a um só a missão de confirmar os seus irmãos na fé (Cf. Lc 22, 32). É uma autoridade no sentido cristão da palavra: um ministério para o bem público dos fiéis. E, no entanto, é uma prerrogativa concedida a um só. O discípulo privilegiado é Pedro.

Duvidais ainda? No mesmo trecho de S. Lucas, a fim de exemplificar a lição que acabara de dar, Jesus aplica a si mesmo a regra da humildade: “Qual é maior, o que está à mesa ou o que serve? Não é porventura o que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22, 27). O Jesus que assim fala é o mesmo que afirmou categoricamente: “Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem: porque o sou” (Jo 13, 13). Dirá agora o nosso protestante que no Filho de Deus não havia verdadeira autoridade, mas só “a superioridade moral do mais humilde”?

A supremacia de Pedro no colégio apostólico é, portanto, uma realidade evidente. Só uma investidura assegurada pela promessa de Cristo pode explicar como, no seio das ambições rivais dos discípulos, Pedro gozasse daquela preeminência atestada unanimemente por toda a história da vida de Jesus. Reconhece-o a própria crítica liberal de Alfred Loisy:

Entre os Doze, havia um que era o primeiro, não apenas por conta da prioridade de sua conversão ou do ardor de seu zelo, mas devido a uma espécie de nomeação do Mestre, que foi aceita e cujas consequências se fazem ainda sentir na história da comunidade apostólica. Esta foi uma situação, de fato, criada aparentemente pelos agitados momentos do ministério galileu, mas que, pouco antes da Paixão, se figura como aceita e ratificada por Jesus [6].

Ainda que não houvesse outros motivos, já nos seria lícito supor com grande probabilidade uma designação de Pedro para futuro chefe da Igreja, feita pessoalmente pelo próprio Salvador. Mas temos textos formais e explícitos que excluem toda a dúvida.

O que até aqui dissemos tem por finalidade ilustrar a verossimilhança desta promessa, deduzida de toda a narração evangélica e, ao mesmo tempo, mostrar como a perícope de S. Mateus que passaremos logo a estudar (cf. Mt 16, 16-19), longe de se achar “em manifesto antagonismo com todo o Novo Testamento” ou “bloqueada pelo silêncio universal das Escrituras Sagradas”, enquadra-se muito naturalmente contexto geral dos evangelhos, formando um todo harmônico, homogêneo e coerente.

Notas

  1. S. Pedro é nomeado no Novo Testamento 171 vezes; depois vem S. João, 46 vezes. A observação é de Vladimir Soloviev (cf. La Russie et l'Église universelle, Paris, 1889, p. 154, nota 2), o maior filósofo russo do século passado, convertido ao catolicismo.
  2. Três vêzes em toda a Escritura mudou Deus o nome dos homens e em todas três se tratava de elevar um particular à dignidade de chefe dos eleitos. Mudou-o a Abraão, “quia patrem multaram gentium constitui te” (Gn 17, 5); mudou-o a Jacó, “appellavit eum Israel dixitque ei... Gentes et populi nationum ex te erunt” (Gn 35, 10). Mudou-o finalmente a Pedro: “Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam” (Mt 16, 18).
  3. Simon et qui cum illo erant” (Mc 1, 36); “David et qui cum eo erant” (Mc 2, 25); “Centurio et qui cum eo erant” (Mt 27, 54); cf. Lc 8, 45; 9, 32; At 2, 14; 5, 29; Mc 16, 7.
  4. Na hipótese protestante, Cristo houvera posto muito mais simplesmente termo à contenda entre os discípulos, dizendo-lhes: sereis todos iguais. Em vez, porém, de insinuar a paridade, Cristo insiste sobre a primazia: o que é maior. E aduz a comparação consigo mesmo.
  5. A S. Pedro aproveitou a lição divina de Jesus. Vede como ele nos descreve o múnus do superior eclesiástico: “Apascentai o rebanho de Cristo que vos foi confiado, tende cuidado nele, não por força, mas espontaneamente segundo Deus, nem por amor do lucro vergonhoso, mas de boa vontade, nem como se quisésseis ter domínio sobre a herança do Senhor, mas fazendo-vos de boa vontade o modelo do rebanho. E quando aparecer o príncipe dos pastores recebereis a coroa incorruptível da glória” (1Pe 5, 2-4).
  6. Alfred Loisy, L’Évangile et l’Église, Paris, 1902, p. 90.

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A assombrosa luta épica entre o Padre Pio e Satanás
Santos & Mártires

A assombrosa luta épica
entre o Padre Pio e Satanás

A assombrosa luta épica entre o Padre Pio e Satanás

O demônio tenta a todos os cristãos, mas “o caso do Padre Pio é especial porque sua luta não era apenas espiritual, mas tinha também momentos extremamente físicos”.

Pablo J. Ginés,  Religión en LibertadTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Julho de 2018
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A história do Padre Pio contra o demônio “é uma saga épica, um corpo a corpo entre um monge e seu adversário” — palavras do veterano vaticanista Marco Tosatti, autor de Padre Pio contro Satana: la battaglia finale (ainda sem tradução para o português).

A fonte principal do jornalista foram as cartas das pessoas que conheceram o santo de Pietrelcina e as que este escrevia, bem como todos os textos da Positio para a sua canonização.

Por ocasião do lançamento de uma versão espanhola do livro, o site Religión en Libertad pôde conversar um pouco com Tosatti a respeito da importância do santo e de sua luta peculiar, única, com o Maligno.

Marco Tosatti explica a importância “épica” da luta do Padre Pio para a nossa época.

— Por que é tão popular e relevante a figura do Padre Pio de Pietrelcina?

— Sem dúvida, na Itália ele é um dos santos mais amado pelo povo. É difícil entrar em uma loja, em um restaurante, em um lugar público e não encontrar imagens dele. Creio que isso se deve a que o Padre Pio é um dos santos da história que mais graças e intercessões realizou.

Li os oito volumes da Positio, a compilação de documentos sobre ele que serviram para o processo de canonização, e existem centenas de testemunhos de pessoas, da Itália e de outros países, que receberam favores extraordinários. Foi protagonista de fenômenos assombrosos: bilocação, curas, leitura de almas com um simples olhar e coisas do tipo… Isto o torna extraordinário, diferente dos outros santos, e muito popular. Ao redor de todo o mundo se criam hoje grupos de oração inspirados no Padre Pio.

— E o que tem de especial a relação do Padre Pio com o demônio? Afinal de contas, o demônio não tenta a todos os cristãos?

— O caso do Padre Pio é especial porque sua luta não era apenas espiritual, mas tinha também momentos extremamente físicos. Tanto é que os frades que com ele viviam escutavam os barulhos da luta vindos de sua cela e, na manhã seguinte, encontravam os ferros da cama retorcidos, como se uma força sobrenatural os tivesse dobrado. Viam ainda o Padre Pio com contusões e golpes, como se o tivessem espancado.

O superior chegou a pedir-lhe, quando ele ainda era um jovem frade, antes de ser enviado a San Giovanni Rotondo, que rezasse ao Senhor pedindo que não permitisse ao demônio fazer tantos ruídos, já que os outros irmãos ficavam apavorados. Era algo muito visível. Isso acontecia com o Padre Pio quando ele lutava para arrancar almas das mãos do demônio. De fato, houve muitos santos que lutaram com o demônio, mas o Padre Pio é especial porque sua luta foi contínua, física, evidente, a ponto de a verem inclusive outras pessoas…

Além disso, do meu ponto de vista enquanto jornalista e escritor, vejo como épica a batalha entre o Padre Pio e o demônio, a qual, encarada até mesmo sem a perspectiva da fé, se reveste de um valor literário muito grande. E isso desde que ele era criança, quando teve a visão de um homem muito grande, um homem perverso, que era o demônio e queria combatê-lo.

— O que significa para nós, para os nossos tempos, esta experiência do Padre Pio?

— Não sou um milenarista, mas acredito, sim, que é possível estarmos em uma época especial. A Virgem de Fátima dizia que nos encontramos em uma batalha decisiva entre as forças do bem e o demônio, forças que atacam a família e os valores naturais básicos. Parece que Deus quer, por meio do Padre Pio, dar um sinal de que esta batalha já começou e é também sobrenatural.

— Mas os pecados sexuais, pessoas com uma vida familiar ruim, maus pais, adultérios… Tudo isso sempre existiu. Qual é, então, a novidade?

— Sim, pecados sexuais e contra a família sempre existiram; mas, por exemplo, quando havia algum Papa ruim, pérfido, criminoso, como Alexandre Borgia, ele cometia essas coisas, mas não alterava a doutrina, não dizia que esses pecados eram normais. A novidade dos últimos séculos é o individualismo desenfreado, que busca não só pôr a fé em dúvida, mas ainda convencer o homem de que ele é seu próprio “legislador”, seu próprio “deus”, que não precisa descobrir o bem para cumpri-lo, pois pode criar para si mesmo sua própria “lei”.

— Seu livro contém uma segunda parte com exemplos de outros santos que tiveram também um contato muito próximo com o demônio, como Eustáquia de Pádua, Cristina de Stommeln e Mariam Baouardy. Por quê?

— São santos que selecionei porque creio ilustrarem que, embora tenha um amplo campo de ação, o demônio está limitado por Deus. Por exemplo, o que sabemos de Mariam Baouardy está atestado em documentação científica da época. Assim como muito do que sabemos sobre o Padre Pio. É como se o mundo quisesse fechar os olhos para o sobrenatural, mas o sobrenatural não se deixa esconder. Vemos que Deus se serve do demônio, de forma misteriosa, como um instrumento, um instrumento estranho, vá lá, mas que serve à santificação das pessoas.

Vemos gente de grande santidade pessoal, mas que sofre sob o poder do demônio, às vezes até mesmo possessos, durante um tempo, embora mantendo-se livres na alma e na vontade. Sempre me chamou a atenção a familiaridade com que o demônio, no Livro de Jó, se aproxima do trono de Deus, e Ele o recebe tranquilamente, e conversam… O demônio não passa de outro instrumento de Deus!

— Do mal Deus tira coisas boas. É um mistério…

— Sim, é um mistério. É como ver um bordado pela parte de trás: parece-nos um caos, um emaranhado de fios e cores. Mas o bordador, que o vê de cima, costurando o desenho, sabe bem o que faz.

— Nas últimas décadas, multiplicou-se o número de exorcistas na Igreja Católica, com cursos, formações, e eles se mantêm em contato pela internet.

— Sim, dado que o povo tem pedido exorcistas com insistência… Escrevi um livro de entrevistas com o padre Amorth (Memórias de um exorcista, 2010). Ele me explicou que há trinta anos, na França, Bélgica, Áustria e Alemanha, não havia um único exorcista. Os bispos não acreditavam no demônio. Mas viram tantos casos, tantos pedidos, que agora há quatro exorcistas em Turim, vários em Paris… Sem contar esses cursos para centenas de sacerdotes, que chegam até os Estados Unidos.

— E há algo que estejamos aprendendo, algo de novo sobre o diabo no século XXI?

O demônio está sempre à procura de almas, disse-me o padre Amorth. E essa é a sua grande batalha. Mas ele faz o seu principal trabalho sem chamar atenção, de forma ordinária. O diabo não quer se manifestar. Inclusive para os exorcistas é difícil discernir muitos casos, porque demônio tenta se ocultar. Isso é interessante. Já dizia Baudelaire: a melhor estratégia do demônio é fazer-nos crer que ele não existe.

— Mas tampouco é saudável enxergar o demônio em todo e qualquer lugar…

— De fato, é preciso manter um equilíbrio. O padre Amorth dizia: “De todos os que me procuram com problemas, apenas um por cento precisa mesmo de um exorcista”. Creio que essa é a medida. Sim, o demônio trabalha de forma ordinária e eficaz, sem fenômenos extraordinários, mediante as guerras, o ódio, destruindo as famílias, com o aborto… Também aí precisamos estar presentes.

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