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Um Cardeal contra a ditadura do relativismo
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Um Cardeal contra
a ditadura do relativismo

Um Cardeal contra a ditadura do relativismo

Muito antes de o Cardeal Ratzinger denunciar a “ditadura do relativismo”, um prelado inglês dedicara sua vida a lutar contra a mesma coisa. Mas na sua época o nome do inimigo era outro.

Hermann Geissler,  EWTNTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2018
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No Consistório de 15 de maio de 1879, John Henry Newman foi criado Cardeal da Santa Igreja Romana. Leão XIII, que há pouco fora eleito Papa, quis conferir pessoalmente a dignidade de Cardeal ao famoso convertido, a quem ele carinhosamente chamava na audiência “meu Cardeal”.

Ao receber o biglietto com a notícia de sua elevação ao cardinalato, três dias antes do Consistório acima mencionado, Newman falou às pessoas presentes na residência do Cardeal Howard, em Roma. Seu discurso se tornaria célebre.

Depois de agradecer ao Santo Padre por tão grande honra, ele disse humildemente que cometera “muitos erros” em sua vida e que não possuía nada “da elevada perfeição que caracteriza os escritos dos santos”. Acrescentou, no entanto, ter agido sempre com “uma intenção honesta, sem interesses pessoais, uma têmpera de obediência, uma disposição a ser corrigido, um horror ao erro, um desejo de servir a Santa Igreja e, por misericórdia de Deus, uma justa medida de sucesso”.

O recém-eleito Cardeal resumiu, então, o núcleo essencial de sua missão como pastor e teólogo:

Alegro-me em dizer que a um grande mal desde o princípio eu me opus. Resisti por 30, 40, 50 anos, com o melhor que estava ao meu alcance fazer, ao espírito de liberalismo em religião [1]. Nunca a Santa Igreja precisou tão intensamente como agora de defensores contra esse erro, quando infelizmente ele se espalhou como uma armadilha por todo o mundo; e, nessa grande ocasião, quando é natural para alguém em minha posição olhar para o mundo, para a Santa Igreja e para o seu futuro, eu espero que não seja fora de propósito renovar o protesto que eu tão frequentemente tenho feito contra ele.

Para celebrar a memória desse grande Cardeal, seria apropriado mencionar certos estágios de sua vida, com o propósito de ilustrar seu exemplar compromisso no serviço da Verdade.

Conversão: Deus e dogma

Newman, em foto mais jovem.

O Cardeal Newman nasceu em Londres, a 21 de fevereiro de 1801. Foi criado na tradição anglicana e, na juventude, tinha uma forte inclinação religiosa, que se expressava na leitura da Bíblia. Desde a mais tenra idade, a Sagrada Escritura forneceu-lhe altos padrões morais, mas seu potencial intelectual exigia algo mais preciso e mais claramente definido.

Bem cedo, quando contava apenas 14 anos, ele foi tentado pela descrença e pela autossuficiência. Queria ser um homem honrado, mas sem acreditar em Deus. “Lembro-me que queria ser virtuoso sem ser religioso”, escreve. “Eu não havia entendido o que significava amar a Deus.” Enquanto o jovem estudante lutava com essa tentação, Deus bateu-lhe à porta do coração.

Durante as férias de 1816, ele leu Force of Truth, de Thomas Scott, e o conteúdo do livro deixou-lhe uma profunda impressão. Experimentou em seguida sua “primeira conversão”, que ele mesmo considerava uma das graças mais significativas de sua vida. A experiência envolvia uma consciência aguçada da existência e da presença de Deus, bem como do mundo invisível.

Em sua Apologia pro vita sua, Newman confessou que essa experiência teve uma grande influência em sua personalidade,

isolando-me dos objetos que me rodeavam, confirmando-me na desconfiança da realidade dos fenômenos materiais e fazendo com que concentrasse todos os meus pensamentos em dois seres, dois únicos seres, de evidência luminosa e absoluta, eu e meu Criador. [2]

Ele também escolheu da obra de Scott duas frases que marcariam toda a sua vida: “É preferível a santidade à paz” e “O progresso é a única evidência da vida” [3].

Depois dessa primeira conversão, Newman procurou amar a Deus sobre todas as coisas e seguir a Verdade sem concessões:

Aos quinze anos (no outono de 1816), operou-se uma grande mudança nos meus pensamentos. Sofri o influxo de um credo bem definido, meu espírito ressentiu a impressão do que era um dogma, impressão que, graças a Deus, nunca mais me deixou, nem se ofuscou. [4]

Ele começou a perceber, então, a importância dos grandes dogmas cristãos: a Encarnação do Filho de Deus, a obra da Redenção de Cristo, o dom do Espírito que habita na alma da pessoa batizada, a fé que não pode permanecer como uma simples teoria, devendo exprimir-se em um programa de vida.

O Movimento de Oxford

Depois de seus estudos no Trinity College, em Oxford, Newman foi eleito fellow do Oriel College. Tornou-se ministro anglicano e, depois, vigário de Santa Maria, igreja da Universidade de Oxford. No Oriel College ele conheceu alguns representantes da Alta Igreja Anglicana e começou a se interessar pelos Padres da Igreja. Neles descobriu o frescor e a honestidade da Igreja primitiva, que tinha de lançar raízes em um mundo pagão.

O Cardeal Newman em Roma.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais insatisfeito com a situação espiritual de sua confissão religiosa e preocupado com a crescente influência do liberalismo em Oxford e por toda a Inglaterra. Para combater essas tendências, Newman, juntamente com alguns amigos, fundou o Movimento de Oxford em 1833. Seus defensores denunciavam o distanciamento da nação da prática da fé e lutavam por um retorno ao Cristianismo primitivo por meio de uma sadia reforma dogmática, espiritual e litúrgica.

Newman resume o princípio fundamental do Movimento de Oxford com as seguintes palavras:

Minha luta era contra o liberalismo. Por liberalismo entendia o princípio antidogmático e seus desenvolvimentos. […] Desde os quinze anos, o dogma tem sido o princípio fundamental da minha religião; não conheço outra; não posso conceber a ideia de nenhuma outra religião. Religião de puro sentimento é um sonho e um escárnio. Piedade que prescinde da existência de um Ser Supremo é o mesmo que amor filial sem pais. [5]

Fica claro, a partir disso, que a doutrina do liberalismo que Newman rejeitava é idêntica à concepção relativista da religião e da moral.

Publicando tracts (“panfletos”) fáceis de disseminar, o Movimento de Oxford se esforçava por penetrar as consciências dos eclesiásticos, bem como dos simples fiéis, que se encontravam entre os extremos do sentimentalismo e do racionalismo.

Newman percebeu que a polêmica contra o liberalismo religioso exigia uma doutrina fundamental sólida. Ele estava convencido de ter encontrado a base para tanto nos escritos dos Padres, que ele admirava como os verdadeiros arautos e mestres da fé cristã, representantes daquela religião antiga “que praticamente desaparecera desta terra e que devia ser ressuscitada”.

Enquanto o Movimento de Oxford se expandia, Newman desenvolveu a teoria da Via Media. Com isso ele pretendia demonstrar que a Comunhão Anglicana era a legítima herdeira do Cristianismo primitivo e a verdadeira Igreja de Cristo, já que não possuía nenhum sinal nem dos erros doutrinais dos protestantes nem da corrupção e dos abusos que ele acreditava existir na Igreja de Roma.

Em direção à Igreja Católica

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

A Via Media de Newman estava calcada no dogma, no sistema sacramental e no antirromanismo. Entretanto, estudando a história da Igreja no século IV, Newman fez uma grande descoberta: percebeu o Cristianismo do seu próprio século refletido em três grupos religiosos daquele período: nos arianos, os protestantes; nos ortodoxos, a Igreja de Roma; nos semiarianos, os anglicanos [6]. Essa constatação suscitou-lhe as primeiras dúvidas a respeito da Comunhão Anglicana.

Pouco tempo depois, ele leu um artigo no qual a posição dos donatistas africanos à época de Agostinho era comparada à dos anglicanos. Newman não conseguia esquecer a frase: Securus judicat orbis terrarum, citada por Santo Agostinho [7]: “A Igreja universal, em seus juízos, está segura da Verdade”, na tradução do próprio Newman.

Ele percebeu que os conflitos doutrinários na Igreja antiga eram resolvidos não só com base no princípio da antiguidade, mas também no da catolicidade: a opinião da Igreja como um todo é um decreto infalível. Consequentemente, “a teoria da Via Media ficava absolutamente pulverizada”.

Fiel ao princípio de respeitar a Verdade, Newman decidiu retirar-se em Littlemore, um pequeno vilarejo próximo de Oxford, para alguns anos de oração e estudo. Ele começou a juntar as peças de uma reflexão que há anos o ocupava: se a Igreja Católica Romana faz parte da sucessão apostólica, como justificar aquelas doutrinas suas que não pareciam fazer parte do patrimônio de fé legado pelo Cristianismo primitivo?

O princípio do desenvolvimento autêntico que ele formulou habilitava-o a justificar vários novos ensinamentos na vida da Igreja: os dogmas tardios eram desenvolvimentos autênticos da Revelação original. Ele ilustrou esse argumento, crucial para o seu futuro, em um ensaio intitulado An Essay on the Development of Christian Doctrine.

Nesta obra-prima teológica, há uma passagem em que, rejeitando a ideia de que verdade e erro em matéria religiosa seriam supostamente uma questão de opinião e de que a salvação não dependeria de uma profissão correta da fé, Newman reafirma o que costumava chamar de princípio dogmático:

De que há, portanto, uma verdade; de que há uma só verdade; de que o erro religioso é, em si mesmo, de natureza imoral; de que seus defensores, a menos que o façam involuntariamente, são culpados em defendê-lo; de que ele é de se temer; de que a busca pela Verdade não é a gratificação da curiosidade; de que sua obtenção não tem nada do entusiasmo de uma descoberta; de que a mente está sujeita à verdade e, portanto, não lhe é superior, estando aquela obrigada não a dissertar sobre esta, mas a venerá-la; de que a verdade e a falsidade são colocadas diante de nós para provar os nossos corações; de que nossa escolha é um terrível desenho do destino no qual está inscrita ou a nossa salvação ou a nossa condenação; de que “quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica”; de que “quem quiser salvar-se deve pensar assim a respeito da Trindade” (cf. Símbolo Atanasiano), e não de outro modo; de que, “se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência, buscando-a como se procura a prata, se a pesquisares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus” (Pr 2, 3-5). Esse é o princípio dogmático, que tem força.

Enquanto Newman assim procedia com seus estudos sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, ele percebeu que a Igreja de Roma era a Igreja dos Padres, a verdadeira Igreja de Cristo.

Em sua Apologia ele escreveu:

Tudo isso levou-me a examinar mais atentamente o que não duvido fosse de muito objeto das minhas considerações, isto é, o encadeamento de argumentos por meio do qual o espírito progride das suas primeiras ideias religiosas até às últimas; cheguei à conclusão de que em verdadeira filosofia não há meio termo entre ateísmo e catolicismo, e de que um espírito consequente consigo mesmo, nas circunstâncias em que se acha neste mundo, deve abraçar um ou outro. [8]

Em 9 de outubro de 1845, Newman abraçou a fé católica e foi recebido na Igreja — “no único redil de Cristo” [9], como ele escreveu — pelo beato Dominic Barberi, um passionista italiano.

“Testes” pela Verdade

O Cardeal Newman, já em idade avançada.

Depois de ordenar-se padre católico, Newman fundou o Oratório de São Filipe Néri em Birmingham. Em suas muitas atividades pastorais e teológicas, trabalhou sobretudo para formar intelectual e espiritualmente os fiéis católicos, seus confrades e novos convertidos. De fato, ele estava convencido de que os grandes desenvolvimentos culturais e sociais da época exigiam uma fé que fosse capaz de demonstrar as razões para se ter esperança.

Em meio a numerosas dificuldades e desentendimentos de vários lados, ele trabalhou incansavelmente para incutir cultura nos leigos, “pessoas do mundo para o mundo”, mas que fossem iluminados por uma fé radiante, que eles mesmos seriam capazes de defender.

Veio à luz em 1870 uma obra sua intitulada An Essay in Aid of a Grammar of Assent. Neste outro clássico, Newman analisa filosoficamente o ato de assentimento da mente humana às verdades reveladas, procurando defender o direito das pessoas comuns à segurança nessa matéria, ainda que elas não sejam capazes de justificar e formular a fé por si mesmas. Nesse ensaio, o autor mostra de modo convincente e oportuno como a mente pode alcançar segurança, tanto em geral quanto na área da fé.

Na seção que conclui o livro, Newman nos dá como legado uma bonita passagem na qual resume o difícil teste pela Verdade, comparando-a com a religião natural, as promessas feitas aos ao povo de Israel e as várias religiões que havia espalhadas pelo Império Romano. Esta passagem, particularmente importante no mundo de hoje, onde o Cristianismo é chamado a se afirmar e espalhar em uma sociedade pluralista e multirreligiosa, diz o seguinte:

A religião natural é baseada no sentido de pecado; ela reconhece a doença, mas não é capaz de encontrar, só o que ela faz é procurar, o remédio. Esse remédio, tanto para a culpa quanto para a impotência moral, encontra-se na doutrina central da Revelação, a Mediação de Cristo.

É assim que o Cristianismo é o cumprimento da promessa feita a Abraão e das revelações mosaicas. Foi deste modo que, desde o começo, ele foi capaz de ocupar o mundo e dominar cada classe social que seus pregadores alcançavam; foi por isso que o poder romano, bem como as inúmeras religiões por ele abraçadas, não lhe puderam resistir; foi esse o segredo de sua energia perene e de seus martírios intermináveis; é por isso que, no presente, ele é tão misteriosamente poderoso, apesar dos novos e temíveis adversários que lhe obstruem o caminho.

O Cristianismo traz consigo aquele dom de estancar e curar a chaga profunda da natureza humana, fato que conta mais para o seu sucesso do que uma enciclopédia repleta de conhecimento científico e uma livraria inteira de controvérsias, e por essa razão ele deve durar enquanto durar a natureza humana. Trata-se de uma verdade vital que não envelhecerá jamais.

Algumas pessoas falam do Cristianismo como se fosse uma coisa da história, com influências apenas indiretas sobre os tempos modernos, mas eu não posso consentir em que ele seja uma religião meramente histórica. Suas fundações certamente se encontram em gloriosas memórias passadas, mas seu poder está no presente. Não se trata de “saudosismo”; nós não o contemplamos em conclusões retiradas de documentos mudos e eventos mortos, mas através da fé exercida sobre objetos eternos, da posse e do uso de dons sempre recorrentes.

Nossa comunhão com o Cristianismo está no invisível, não no obsoleto. Até os dias de hoje seus ritos e cerimônias estão continuamente revelando a intervenção ativa daquela Onipotência em que há muito tempo começou a religião. Primeiramente e acima de tudo está a Santa Missa, na qual Ele, que morreu uma vez por nós sobre a Cruz, traz de volta e perpetua, através de sua presença literal nela, aquele único e mesmo sacrifício que não se pode repetir.

Depois, há a verdadeira entrada dEle, em corpo, alma e divindade, no corpo e na alma de cada adorador que dEle se aproxima para receber esse dom — um privilégio mais íntimo do que se convivêssemos com Ele durante sua estadia temporária e de longa data sobre a terra.

Há então, além disso, a sua permanência pessoal em nossas igrejas, elevando toda liturgia terrena a um antegozo do céu.

Tal é o modo como se professa o Cristianismo e, eu repito, o próprio fato de ele “adivinhar” as nossas necessidades constitui, em si mesmo, uma prova de que ele é realmente o suprimento delas.

Contra o liberalismo religioso

Concluímos retornando ao discurso de Newman, feito quando de sua elevação ao Colégio de Cardeais. Naquela ocasião, ele renovou seu protesto contra o liberalismo religioso, dando uma descrição precisa daquilo em que ele consiste — uma descrição cujo caráter profético é óbvio em nossa época:

Liberalismo em religião é a doutrina de que não existe nenhuma verdade positiva em religião, mas de que um credo é tão bom quanto qualquer outro, e é esse o ensinamento que está ganhando força e substância dia após dia. É inconsistente com qualquer reconhecimento de uma religião como verdadeira. Ensina que todas devem ser toleradas, pois todas são uma questão de opinião.

A religião revelada não é uma verdade, mas um sentimento e um “gosto”; não se trata de um fato objetivo, milagroso; e é direito de cada indivíduo fazê-la dizer apenas o que lhe manda a fantasia.

A devoção não necessariamente se funda sobre a fé. Os homens podem ir a igrejas protestantes e a católicas, podem se alimentar das duas e pertencer a nenhuma delas. Podem confraternizar juntos em pensamentos e sentimentos espirituais, sem ter quaisquer visões de doutrina em comum, nem ver a necessidade disso.

Visto que, então, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e privada, nós devemos necessariamente ignorá-la nas relações humanas. Se uma pessoa “veste” uma nova religião a cada manhã, ninguém tem nada a ver com isso. Pensar sobre a religião de uma pessoa é tão impertinente quanto pensar em suas fontes de renda ou na gestão de sua família. A religião em nenhum sentido é o vínculo da sociedade.

Hoje nós somos testemunhas de uma mentalidade, difundida em muitos ambientes, que sustenta precisamente essas ideias, denunciadas por Newman, com consequências muito graves para a causa da Verdade, para o diálogo ecumênico e interreligioso, para a liturgia e a espiritualidade, bem como para a dimensão social e cultural da fé.

O Beato Cardeal Newman pode lembrar a todos, pastores e fiéis leigos, que a Verdade é um tesouro muito precioso a ser aceito com fé, proclamado com honestidade e defendido com força. “Normalmente a Igreja nada tem a fazer”, assim conclui o Cardeal Newman o seu discurso, “a não ser cumprir com seus próprios deveres, com confiança e em paz, esperando ver a salvação de Deus”.

Referências

  1. “Desde o fim do século XVIII a palavra [Liberalismo] tem sido aplicada mais e mais a certas tendências na vida intelectual, religiosa, política e econômica, que implicam uma emancipação parcial ou total do homem em relação à ordem divina, sobrenatural e moral. […] [O Liberalismo Católico], em geral, advoga largueza na interpretação do dogma, descuido ou desconsideração com os decretos disciplinares e doutrinais das congregações romanas, simpatia pelo Estado mesmo em suas ações contra a liberdade da Igreja, e uma disposição em considerar como clericalismo os esforços da Igreja em proteger os direitos da família e dos indivíduos ao livre exercício da religião.” (Gruber, H. [1910]. Liberalismo. Em: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company)
  2. John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 32.
  3. Ibid., p. 33.
  4. Ibid., p. 31.
  5. Ibid., p. 91.
  6. Cf. Ibid., pp. 167s; 197s.
  7. Cf. Ibid., p. 170.
  8. Ibid., p. 266.
  9. Ibid., p. 307.

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Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias
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Bispos anglicanos querem
ideologia de gênero em suas liturgias

Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias

Diretriz pastoral recém-publicada pela Igreja da Inglaterra orienta sacerdotes a oferecer cerimônias parecidas com o batismo para pessoas transgêneras e suas “novas identidades”.

Doug Mainwaring,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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A Igreja Anglicana, a maior denominação cristã no Reino Unido, está evitando chamar sua recém-instituída bênção para “transgêneros” de um “segundo batismo”, mas a orientação é para que seus sacerdotes ofereçam cerimônias parecidas com o sacramento para aqueles que anunciarem sua nova identidade sexual.

Em uma diretriz pastoral publicada nesta semana, o clero anglicano é orientado a chamar os homens por seus novos nomes femininos, e as mulheres por seus novos nomes masculinos. O documento declara: “O rito do ministro de se dirigir à pessoa trans usando pela primeira vez o nome que ela escolheu, pode ser um momento poderoso na liturgia”.

“Deve-se notar que o ato de dar ou adotar um novo nome tem uma longa história na tradição judaico-cristã, atestada pela Escritura”, diz o documento. “Em alguns círculos cristãos, por exemplo, existe o costume de os fiéis adotarem um nome adicional ou o nome de um santo no momento de sua confirmação.”

O clero também é aconselhado a respeitar os pronomes do gênero escolhido pela pessoa, ainda que eles não correspondam à realidade.

Denominado Afirmação da Fé Batismal, o rito convida as pessoas já batizadas e confusas com o próprio gênero a “renovarem publicamente os compromissos firmados no batismo e dá a possibilidade, aos que passaram por uma grande transição, de dedicarem novamente suas vidas a Jesus Cristo”.

Para as pessoas “transgêneras” ainda não batizadas e que procuram ingressar na Igreja da Inglaterra, a nova orientação descreve o batismo como o “contexto litúrgico natural para reconhecer e celebrar-lhes a identidade”.

Ao invés de criar um novo sacramento, os bispos anglicanos estão recomendando que o já existente sacramento do batismo e a afirmação dos votos batismais sejam deformados não apenas para acomodar mas também para celebrar a disforia de gênero dentro de suas igrejas.

A diretriz emitida pela Casa Episcopal da Igreja Anglicana na terça-feira (11) adverte os pastores a imporem as mãos sobre o fiel e a rezar usando o novo nome de transgênero por ele escolhido. Os pastores também são orientados a incorporar a esse rito a aspersão de água benta e a unção com óleo consagrado.

Andrea Minichiello Williams, chefe-executiva da organização evangélica Christian Concern e leiga membro do Sínodo Geral da Igreja Anglicana, criticou a nova orientação, dizendo que se trata de uma continuação da “trajetória devastadora [da instituição] rumo a uma franca negação de Deus e de sua Palavra”.

“A finalidade do batismo é configurar uma pessoa a Jesus, quando ela começa uma vida no seguimento dEle”, defende Andrea. “Usar uma afirmação do batismo para celebrar uma transição de gênero vira isso de ponta cabeça e encoraja as pessoas a seguirem seus próprios sentimentos e a viverem com identidades contrárias ao modo como Deus as criou.”

Não é sinal de amor desviar as pessoas — e, mais amplamente, a sociedade — para os mitos e as falsidades da ideologia de gênero”, ela concluiu.

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O impressionante martírio de Santa Luzia
Santos & Mártires

O impressionante
martírio de Santa Luzia

O impressionante martírio de Santa Luzia

Popularmente conhecida como protetora dos olhos, Santa Luzia deu um belo testemunho de pureza antes de ser martirizada e “só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor”.

Beato Tiago de Varazze12 de Dezembro de 2018
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O nome Luzia (ou Lúcia) vem de lux, “luz”. A luz é bonita de se ver porque, segundo Ambrósio, ela está por natureza destinada a ser graciosa para a visão. Ela se difunde sem se sujar, por mais sujos que sejam os lugares em que se projeta. Seus raios seguem linha reta, sem a menor curva, e sem demora ela atravessa imensas extensões.

Daí ser apropriado o nome de Luzia para aquela virgem bem-aventurada que resplandece com o brilho da virgindade sem a mais ínfima mácula, que difunde calor sem nenhuma mescla de amor impuro, que vai direto a Deus sem o menor desvio, que sem hesitação e sem negligência segue em toda sua extensão o caminho do serviço divino. Lúcia também pode vir de lucis via, “caminho da luz”.

Lúcia, virgem de Siracusa, de origem nobre, ouvindo falar por toda a Sicília da fama de Santa Ágata, foi até o túmulo dela com a mãe, Eutícia, que havia quatro anos sofria de hemorragias sem esperança de cura. Naquele dia, lia-se na Missa a passagem do Evangelho na qual se conta que o Senhor curou uma mulher que padecia a mesma doença (cf. Mt 9, 20-22; Mc 5, 25-29; Lc 8, 43-48).

“Martírio de Santa Luzia”, atribuído a Elisabetta Sirani.

Lúcia disse então à mãe: “Se acreditas no que foi lido, deves crer que Ágata está na presença dAquele por quem ela sofreu. Portanto, tocando o túmulo dela com fé, logo estarás completamente curada.”

Quando todo o povo partiu, mãe e filha ficaram orando perto do túmulo. O sono apossou-se de Lúcia, que viu diante dela, de pé, Ágata rodeada de anjos e ornada de pedras preciosas dizendo-lhe: “Minha irmã Lúcia, virgem toda devotada a Deus, por que pedes a mim o que tu mesma podes conseguir, neste instante, para tua mãe? Fica sabendo que ela acaba de ser curada pela fé.”

Lúcia despertou e disse: “Mãe, tu estás curada. Em nome daquela por quem acabas de obter a cura, peço-te que não me procures um esposo, e que meu dote seja distribuído aos pobres.” Respondeu a mãe: “Depois que eu fechar os olhos, tu podes dispor de teus bens como quiseres”. Lúcia replicou: “Se me dás alguma coisa ao morrer, é porque não podes levá-la contigo; dá-me enquanto estás viva e serás recompensada.”

Voltando para casa, passaram todo o dia a vender uma parte dos bens, distribuindo o dinheiro aos pobres. A notícia da partilha do patrimônio chegou aos ouvidos do noivo, e ele perguntou a razão daquilo à mãe de Lúcia. Esta respondeu que sua filha havia encontrado um investimento mais rentável e mais seguro, daí estar vendendo seus bens.

O insensato, crendo tratar-se de um comércio plenamente humano, passou a colaborar na venda daqueles bens, buscando os melhores negócios. Quando soube que tudo o que fora vendido tinha sido dado aos pobres, o noivo levou-a à justiça, diante do cônsul Pascásio, acusando-a de ser cristã e de violar as leis imperiais.

Pascásio convidou-a a sacrificar aos ídolos, mas ela respondeu: “O sacrifício que agrada a Deus é visitar os pobres e prover às suas necessidades, mas como não tenho mais nada a dar, ofereço a Ele a mim mesma.”

Pascásio retorquiu: “Poderias dizer essas coisas a um cristão insensato como tu, mas a mim, que executo os decretos dos príncipes, é inútil argumentar assim.”

Lúcia rebateu: “Tu executas as leis de teus príncipes; eu executo a lei do meu Deus. Tu temes os príncipes, eu temo a Deus. Tu não gostarias de ofendê-los; eu evito ofender a Deus. Tu desejas agradá-los; eu anseio ardentemente agradar a Cristo. Faz então o que julgares útil para ti, e eu farei o que sei que me será bené­fico.”

Pascásio replicou: “Tu dilapidaste teu patrimônio com uns depravados e agora falas como uma meretriz.” Lúcia retrucou: “Pus meu patrimônio num lugar seguro e nunca conheci os que depravam espírito e corpo.”

Pascásio perguntou-lhe: “Quem são esses corruptores?” Lúcia respondeu: “Os que corrompem o espírito são vós, que aconselhais as almas a abandonarem o Criador. Os que corrompem o corpo são os que preferem os gozos corporais às delí­cias eternas.” Pascásio ameaçou-a: “Vais parar de falar quando começares a ser fustigada”, zo que Lúcia respondeu prontamente: “As palavras de Deus nunca terão fim.”

“Então tu és Deus?”, perguntou-lhe Pascásio. “Eu sou escrava do Deus que disse: quando estiverdes em presença de reis e de juízes, não vos preocupeis com o que dizer. Não sereis vós a falar, pois o Espírito Santo falará por vós” (Mc 13, 11), respondeu Lúcia. “Então o Espírito Santo está em ti?”, tornou Pascásio. “Os que vivem em castidade são templos do Espírito Santo”, respondeu-lhe.

Pascásio afirmou: “Então vou mandar que te levem a um lupanar, para que sejas violada e percas o Espírito Santo.” Lúcia: “O corpo só se corrompe se o coração consentir. Se fizeres com que eu seja violentada, será contra minha vontade e ganharei a coroa da pureza. Jamais terás meu consentimento. Eis meu corpo, ele está disposto a toda sorte de suplícios. Por que hesitas? Começa a me atormentar, filho do diabo.”

Então Pascásio mandou vir uns depravados, aos quais disse: “Convidai o povo todo e torturai-a até a morte.” Mas quando quiseram levá-la, o Espírito Santo a fez ficar imóvel e tão pesada que não conseguiram forçá-la a se mover. Pascásio mandou chamar mil homens e amarrar seus pés e suas mãos, mas eles não foram capazes de movê-la de modo algum. Aos mil homens ele acrescentou mil parelhas de bois, mas a virgem do Senhor permaneceu imóvel. Então convocou feiticeiros para movê-la com seus sortilégios, mas eles nada conseguiram.

Pascásio então perguntou: “Que malefícios são esses? Por que uma moça não é movida por mil homens?” Lúcia respondeu: “Não são malefícios, e sim benefícios de Cristo. E ainda que acrescentasses dez mil homens, tu não me verias menos imóvel.” Acreditando Pascásio na opinião segundo a qual se poderia livrar uma pessoa de malefícios jogando urina sobre ela, mandou que se fizesse isso com Lúcia, mas ela continuou sem se mover.

Furioso, Pascásio mandou acender em torno dela uma grande fogueira e jogar em seu corpo óleo fervente, misturado com pez e resina. Depois desse suplício, Lúcia exclamou: “Obtive uma trégua no meu martírio para que os crentes não tenham medo de sofrer e os incré­dulos tenham mais tempo para me insultar.”

Vendo Pascásio irritadíssimo, seus amigos enfiaram uma espada na garganta de Lúcia, que apesar disso não perdeu a palavra: “Eu vos anuncio que a paz foi restituída à Igreja, porque hoje Maximiano acaba de morrer e Diocleciano, de ser expulso do seu reino. Da mesma forma que minha irmã Ágata foi eleita protetora da cidade de Catânia, assim também fui eleita guardiã de Siracusa.”

Enquanto a virgem assim falava, chegaram uns funcionários romanos que prenderam Pascásio, agrilhoaram-no e levaram-no ao César, pois este ficara sabendo que ele tinha saqueado toda a província. Chegando a Roma, Pascácio compareceu diante do Senado, foi declarado culpado, condenado à pena capital e executado.

Quanto à virgem Lúcia, não foi tirada do lugar em que sofrera e só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor. Então todos os presentes disseram: Amém. Ela foi sepultada naquele mesmo lugar, onde foi construída uma igreja. Seu martírio ocorreu no tempo de Constantino e de Maxêncio, por volta do ano 310 do Senhor.

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 77-80.

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Rezar pelo telefone ou pelo breviário?
Liturgia

Rezar pelo telefone ou pelo breviário?

Rezar pelo telefone ou pelo breviário?

Que problema pode haver em usar um breviário eletrônico? Entenda nesta reflexão por que, embora “seja muito prático rezar com um breviário no próprio telefone ou no tablet”, os livros litúrgicos têm a sua razão (teológica) de ser.

Mons. Charles Pope,  Community in MissionTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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É difícil superestimar a conveniência de rezar a Liturgia das Horas com um breviário digital. Ele não é só conveniente: é também de grande ajuda para descomplicar as dificuldades que temos frequentemente na hora de rezar com o livro tradicional. Por exemplo:

  • Os salmos a rezar são os do dia ou do Comum?
  • Usamos o Comum dos Pastores ou o dos Doutores da Igreja?
  • As orações e antífonas das férias do Advento têm preferência sobre as do Santoral?
  • Hoje é Memória ou Festa?

Usar corretamente as fitinhas marca páginas pode ser um desafio, e as complexas “regras” durante a Oitava de Natal são quase um pesadelo.

A disponibilidade desses breviários on-line diminuiu a chance de não conseguirmos rezar a Liturgia das Horas só por não termos à disposição o nosso livro de orações. Hoje em dia não há quase ninguém que não esteja com o celular em mãos.

Logo, que problema pode haver em usar um breviário eletrônico? O problema é a perda de “sacralidade”.

Dizer que algo é “sagrado” indica não somente que se trata de algo santo, mas de algo que foi “separado” para servir a um propósito específico. Por exemplo, os cálices usados na Missa não são copos como quaisquer outros. Eles são separados para um uso especial: conter o Preciosíssimo Sangue de Cristo. Seria um erro utilizá-los em casa para um jantar ou uma festa. Também seria errado usar como cálices para conter o Preciosíssimo Sangue copos comuns trazidos de casa. As coisas sagradas têm normalmente um único uso ou são utilizadas para fins que dizem respeito a Deus e ao culto divino.

Isso também se aplica aos livros e textos sagrados. Via de regra, espera-se que, na liturgia, os sacerdotes leiam as orações e as leituras diretamente dos livros sagrados como o Lecionário, o Evangeliário e o Missal. Especialistas em liturgia e Conferências episcopais costumam torcer o nariz para o uso de livros digitais. Por exemplo, os bispos da Nova Zelândia baniram o uso de iPads como substitutos do Missal durante a liturgia. A explicação é que “os iPads e outros dispositivos eletrônicos admitem uma variedade de usos como, por exemplos, jogar, conectar-se à internet, assistir a vídeos e checar e-mails. “Isso por si só”, decidiram os bispos, “torna inapropriado o uso desses aparelhos na liturgia”.

O Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, é de igual aparecer: “Talvez seja muito prático rezar com um breviário no meu próprio telefone ou tablet; mas não é digno: é dessacralizar a oração”. Não se trata de uma instrução formal do Cardeal, enquanto autoridade oficial na matéria, mas a opinião devia fazer-nos parar para pensar, mesmo se se trata da recitação privada da Liturgia das Horas.

Alguns talvez pensem que objeções como essas são coisa de gente “rigorosa” ou “puritana”. A mim me parece que elas têm algum sentido. Um texto sagrado, como norma geral, merece um livro sagrado onde ele esteja preservado e do qual seja lido.

É claro, normas gerais não são normas absolutas, de modo que pode haver exceções, e algumas até bem generosas, dado o ritmo e a mobilidade da vida moderna, além da suposta necessidade de ter muitas coisas ao alcance de um dedo. Pode ser que você esteja viajando ou queira ter acesso rápido a algumas orações para poder rezar ao longo de um dia atarefado. Talvez a complexidade do Ofício Divino, que pode ser um obstáculo para os leigos com pouca formação litúrgica, possa ser superado com o uso de um aplicativo de celular para rezar sem muitos rodeios.

Mas esforçar-se por proteger a norma geral sobre o uso dos livros sagrados pode ter, certamente, resultados muito valiosos. Quero mencionar apenas dois.

Antes de tudo, reforçamos a ideia de sacralidade, tão desprezada hoje em dia.

Em alguma medida, nossas ações sagradas deviam parecer, ser sentidas e soar como algo sagrado e “posto à parte” das coisas ordinárias. Por exemplo, as igrejas deveriam ser diferentes, soar diferentes e até mesmo ter um cheiro diferente do mundo que as rodeia. A função principal das igrejas é ser um lugar de adoração; por isso, elas não deveriam ter apenas o aspecto de um saguão de eventos.

A liturgia deveria ter em si mesma um caráter sagrado. No passado, isso se enfatizava pelo uso do latim, de estilos próprios de música e por gestos e tons de voz específicos. Muito disso se perdeu hoje em dia, e é muito difícil ou até controvertido tentar recuperá-lo. Mesmo que as línguas vernáculas e um uso mais variado de estilos musicais possam ter o seu lugar, a qualidade de ser “diferente” e “separado”, própria das coisas sagradas da Igreja e da liturgia, reduziu-se gravemente.

Rezar o breviário diretamente dos livros sagrados é um pequeno passo na direção certa. E isso é ainda mais importante na recitação pública do breviário; mas, mesmo na recitação privada, é importante fazer desse tempo sagrado uma experiência que está, ao menos em alguma medida, “separada” das coisas comuns.

Em segundo lugar, ajuda-nos a lembrar que a nossa oração deve ser também sacrifício.

Vivemos numa época em que as pessoas insistem indevidamente em que tudo tem de ser conveniente, fácil e rápido — e, com frequência, ficam indignadas quando as coisas não são assim.

Haverá circunstâncias em que será útil ter acesso imediato aos textos do breviário, mas não nos deveríamos esquecer de que, na mentalidade bíblica, oração e sacrifício andam juntos. A ideia de uma oração sem sacrifício é algo típico do Ocidente moderno. A oração bíblica implicava oferecer um “sacrifício de louvor”. A ação de graças se fazia pelo sacrifício de coisas como frutos e pela libação de vinho e óleo.

Exigir que a adoração seja conveniente, rápida e de “baixo custo” não costuma ser sinal de um coração que transborda de amor (cf. Lc 7, 44-47).

É claro, não queremos com isso que toda oração e adoração se torne tão onerosa e difícil a ponto de desmotivar as pessoas. No entanto, alguns pequenos sacrifícios, como o uso do livro sagrado, mesmo na recitação privada do breviário, podem ser um ato de amor e um modo de contornar esse apego excessivo ao “conveniente”.

Como eu tenho o breviário em mãos todos os dias, sinto como se carregasse comigo todo o Povo de Deus enquanto rezo por ele e pela Igreja Católica. Eu simplesmente não consigo ter essa sensação ao rezar com o meu iPhone.

Muitos mais poderia ser dito, mas isso basta por ora. Por favor, encare essas orientações como normas gerais ou observações; elas não são absolutas. Há exceções, e não devemos presumir que, quem não segue esse modo pensar, é por isso um “ímpio”. Contudo, faríamos muito bem a partir de agora em levar em conta o sentido de nossas mais pequenas ações; isso é parte de uma vida reflexiva.

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“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero
Sociedade

“Definitivamente satânica”: um
exorcista fala da ideologia de gênero

“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero

Este exorcista está convencido de que “a forma como essa coisa de gênero tem se espalhado é demoníaca”, por mais que as pessoas não enxerguem, ou se recusem a fazê-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2018
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Crianças “treinadas” desde cedo para “descobrir” a própria sexualidade ou questionar o próprio “gênero”, pais punidos pelo Estado por não aceitar que seus filhos recebam a “educação sexual” tendenciosa da escola, programas de TV cada vez mais abertamente ideológicos e pervertidos, inclusive para o público infantil… A lista de investidas que os ideólogos de gênero têm promovido nos últimos anos, em todas as áreas, parece não ter mais fim. Talvez seja necessário, em um futuro próximo, isolar-se numa caverna para escapar à sua influência.

Um episódio recente de promoção dessa agenda — protagonizado pela famosa cantora Celine Dion, cuja posição favorável à família e contra o divórcio já foi elogiada em outros tempos por sítios católicos — acendeu o alerta de muitos para o poder de sedução e de manipulação dessa ideologia. A artista fez campanha para a linha internacional de roupas infantis “NuNuNu”, inaugurando uma marca com a finalidade de “liberar as crianças dos papéis tradicionais de menino e menina”.

Não fosse isso o suficiente, a empresa em questão tem em seu histórico um mural de fotos para lá de controverso, com máscaras sem rosto, espelhos refletindo caveiras, bodes segurando livros infantis, crianças com tatuagens de piratas e anéis sombrios.

Para o monsenhor John Esseff, padre há 65 anos e exorcista experiente, que conversou com a escritora católica Patti Armstrong, colunista de National Catholic Register, “a forma como essa coisa de gênero tem-se espalhado é demoníaca”. O sacerdote exerce seu ministério na diocese de Scranton, no estado norte-americano da Pensilvânia, já foi diretor espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ajudou a fundar e dirigir um instituto de formação para exorcistas.

“Quando uma criança nasce”, ele se pergunta, “quais as primeiras coisas que se dizem dela? Que é um menino ou que é uma menina. É a coisa mais natural do mundo de se dizer. Dizer que não há nenhuma diferença, ao contrário, é algo satânico. Eu não sei nem mesmo quantos gêneros deve haver agora, mas há apenas dois criados por Deus.”

Ainda que o demônio esteja em guerra com a humanidade desde o princípio, o padre John destaca que os ataques satânicos neste período da história têm-se tornado mais intensos. “O maligno sente que, de alguma forma, ele pode fazer essas coisas sem ser reconhecido. Ele é um mentiroso, e há grandes mentiras sendo contadas.”

Diante das fortes declarações do exorcista, houve quem sugerisse na internet que religiosos contrários à ideologia de gênero estariam acusando de “satanismo” a cantora Celine Dion. De fato, tanto o comercial quanto a marca apoiada por ela encontram-se repletos de elementos sombrios e perturbadores. Mas, ainda que não fosse o caso, nem por isso a proposta veiculada se tornaria menos perigosa. Muito pelo contrário, quanto mais disfarces usa o demônio, maior o seu poder de infiltração e conquista.

Trata-se, a propósito, de um grande erro da nossa época em relação ao mal: achar que a ação do demônio limita-se a rituais ocultistas, a possessões ou a manifestações malignas evidentes e indisfarçáveis. Não, o que o sacerdote acima está alertando é que Satanás age de modo sutil, muitas vezes “sem ser reconhecido”.

Como consequência de as pessoas não mais acreditarem na Verdade, não mais terem fé na Revelação divina, não mais levarem a sério o Credo e os preceitos da religião cristã, não mais escutarem a Palavra de Deus, elas acabam dando ouvidos às mentiras e ilusões do inimigo de Deus — entre as quais se inclui justamente a ideologia de gênero.

O Papa Bento XVI notou certa vez, com perspicácia, que por trás dessa ideia de que, à parte sua sexualidade como dado natural, o ser humano poderia moldar como bem entendesse o seu “gênero”, está uma “revolução antropológica”, uma noção não só herética de humanidade, mas avessa à própria razão natural. Não estivessem já confundidos pelas ideologias e obstinados em sua malícia, os homens de nossa época seriam facilmente curados com uma simples aula de catequese. Se desde crianças tivessem aprendido que o ser humano é corpore et anima unus — “uno de corpo e alma”, na expressão do Catecismo (n. 362) —, não se deixariam enganar por uma ideia tão maluca e distante tanto do bom senso quanto da realidade das coisas.

Ideias como essa, no entanto, não são apenas “mentirinhas” de mau gosto, contos sem nenhuma influência no dia-a-dia das pessoas… Quantas vidas não foram e não estão sendo “transtornadas”, no sentido mais literal da palavra, por uma teoria supostamente “científica” e com ares de modernidade!

Ponhamos de vez em nossa cabeça: a falta de fé e, com ela, as heresias e apostasias de nosso tempo não são inofensivas, ao contrário do que nossa época liberal tem sido levada a acreditar. Não é preciso invocar espíritos maus ou praticar rituais satânicos para estar a serviço do Anticristo. Na verdade, nunca foi tão fácil pertencer a esse corpo maligno que, “macaqueando” o Corpo místico de Cristo, a Igreja, constrói um verdadeiro império, e de proporções mundiais.

Se Santo Tomás de Aquino já falava, no século XIII, do Anticristo como cabeça dos maus (cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 8), nunca como agora esse organismo teve contornos tão nítidos, tão visíveis e tão… humanos. Na educação, nos governos civis, nos meios de comunicação, o satânico está por toda parte — e a ideologia de gênero é apenas um instrumento, muito poderoso e destruidor, desse sistema perverso.

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