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O incontestável primado de São Pedro
Doutrina

O incontestável primado de São Pedro

O incontestável primado de São Pedro

Não cabe dúvida alguma. Manifestamente, São Pedro aparece nos Evangelhos como o Apóstolo principal: entre os seus companheiros gozava de uma preeminência incontestável.

Pe. Leonel Franca18 de Julho de 2018
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A promessa e a entrega do primado a Pedro não é um fato isolado no Evangelho. Toda a narração histórica do ministério de Cristo conspira em atribuir no colégio dos Doze um lugar de preeminência ao futuro chefe da Igreja. Dir-se-ia que os evangelistas, tão sóbrios em informações sobre os outros Apóstolos, não perdem a oportunidade de falar de Pedro, de referir suas palavras, de registrar os sinais de predileção com que o distinguia o Salvador [1].

Pela primeira vez apresenta-se a Cristo o humilde pescador da Galileia: “Tu és Simão”, diz-lhe Jesus, “tu te chamarás Cefas, isto é, Pedra” (Jo 1, 42). Era a imposição de um nome novo, conforme o costume de Deus [2], rica de significados e de promessas.

Durante sua pregação apostólica, é a barca de Pedro a preferida por Cristo para doutrinar as turbas (cf. Lc 5, 1-4); se se demora em Cafarnaum, na casa de Pedro é que se hospeda (cf. Mt 8, 14; Mc 1, 29; Lc 4, 38); é Pedro quem, quase sempre, fala em nome dos Apóstolos; é a Pedro, como o principal do grupo, que se dirigem os coletores de impostos para saber se o Mestre pagava o tributo do Templo, e Jesus paga a taxa legal por si e por Pedro (cf. Mt 17, 24-27).

Ao escrever suas memórias, em tempos posteriores, são os próprios evangelistas que se empenham em salientar este lugar preponderante de Simão no colégio apostólico. Quatro catálogos dos Apóstolos oferece-nos o Novo Testamento (cf. Mt 10, 2-4; Mc 3, 16-19; Lc 6, 14-16; At 1, 13). A ordem em que se sucedem os outros nomes varia de um para outro; mas em todos eles, assim como Judas, o traidor fecha sempre a enumeração, assim também Pedro, invariavelmente, ocupa o primeiro lugar: o lugar de honra.

Nem é casual coincidência. S. Mateus observa expressamente: “Primeiro, Simão que se chama Pedro”. Primeiro em quê? Em idade? Nenhum indício positivo o insinua, nem a velhice foi certamente o critério adotado pelos historiadores sagrados, que alteram a ordem dos outros nomes e mencionam João antes de outros Apóstolos mais idosos. Prioridade de vocação? Tampouco. A eleição para o apostolado foi simultânea para os Doze (cf. Mt 10, 1; Mc 3, 13-15). A vocação inicial de Pedro para discípulo, se foi anterior à de muitos Apóstolos, não foi absolutamente a primeira. André e outro discípulo seguiram antes os passos do Messias (cf. Jo 1, 35-42). Um segundo chamado de Cristo feito nas bordas do lago Tiberíades e narrado pelos Sinóticos apresenta para os quatro Apóstolos Simão, André, João e Tiago uma simultaneidade moral que não permite estabelecer nenhuma prioridade cronológica.

Voltemos ainda ao ministério de Cristo. Quando, nas circunstâncias mais solenes de sua vida — na ressurreição da filha de Jairo, manifestação de sua onipotência; na Transfiguração do Tabor, irradiação de sua glória; na agonia do jardim das oliveiras, mistério de suas dores —, Jesus escolhe como testemunhas a três dos seus Apóstolos, Pedro é ainda invariavelmente nomeado em primeiro lugar (cf. Mc 5, 37; 9, 12; 14, 33 e lugares paralelos). Às vezes todo o colégio apostólico é compreendido pelo historiador sagrado numa expressão coletiva; só Pedro é singularmente designado: “Pedro e os que o acompanhavam” (Mc 1, 36), nem mais nem menos como dizem de um rei e o seu séquito, de um chefe militar e de sua escolta: “Davi e os que o seguiam” (Mc 2, 25); “O centurião e os que o  acompanhavam” (Mt 27, 54) [3].

Não cabe, pois, dúvida alguma. Manifestamente, S. Pedro aparece-nos como o Apóstolo principal: entre os seus companheiros gozava de uma preeminência incontestável. Era este um simples fato ou também um direito? Era uma simples ascendência moral, devida às qualidades do seu caráter e análoga ao “primado moral que exercem espontaneamente os leaders das câmaras deliberativas, ou os deputados que se impõem pelo seu caráter e influência”? Ou era, pelo contrário, uma superioridade querida por Cristo, sancionada por livre vontade, firmada nas suas promessas? Abramos o Evangelho e saibamos ler.

Evidentemente, não se deve falar aqui de uma supremacia de jurisdição efetivamente exercida por Pedro durante a vida mortal do divino Mestre. Jesus, vivo e presente entre os discípulos, era o seu único e natural superior. O que importa determinar é se Cristo havia prometido um verdadeiro primado de jurisdição a algum dos Doze e se as expressões registradas pelos evangelistas não são mais do que os reflexos dos raios desta futura primazia.

“Impossível”, dizem os adversários do Papado que, sem perder tempo, já o querem impugnar no primeiro dos papas. “Uma ascendência jurídica prometida pelo Mestre”, continuam, “não se concilia com as brigas dos discípulos sobre qual deles era o maior, menos ainda se harmoniza com os ensinamentos explícitos do Salvador, que condena qualquer prelazia no colégio apostólico”.

Um fato e uma doutrina — eis o que nos opõem. Analisemos o fato e expliquemos a doutrina.

O fato: a disputa pelos primeiros lugares

Como harmonizar a disputa dos discípulos com a promessa de uma primazia feita por Cristo a Pedro? Uma questão resolvida pelo Salvador podia ainda ser objeto de controvérsia entre os Doze? Seria necessário não conhecer a rudeza dos Apóstolos para ver aí uma séria dificuldade. Quantos ensinamentos ouviram eles, claros, repetidos uma e muitas vezes, sem compreender! Quantas vezes não insistiu o Messias no caráter espiritual do seu reino! E poucos momentos antes da Ascensão não se sai um dos discípulos com a pergunta impertinente: “É agora, Senhor, que ides restituir o reino de Israel?” (At 1, 6).

“Cristo aparece a S. Pedro na via Ápia”, por Annibale Carracci.

Haverá no Evangelho profecia menos equívoca, mais compreensível, mais repetida pelo Salvador, que a de sua Paixão e Morte? “É necessário que o Filho do Homem sofra, que seja reprovado pelos anciãos, príncipes dos sacerdotes e escribas, que seja morto e ao terceiro dia ressuscite” (Lc 9, 22.44; 18, 31-33). A predição foi renovada insistentemente em outras ocasiões, iluminada em mil lugares diversos. Mas aquelas almas rudes, que sonhavam com os triunfos temporais do messianismo popular, eram resistentes ao escândalo da cruz. Quando se realizaram os prenúncios do Mestre, perturbadas e abatidas, no que deveria ser um reforço de prova da divindade do Messias viram só o naufrágio de todas as suas esperanças. A mensagem pascal da Ressurreição encontrou-os ainda humilhados e incrédulos: “Stulti et tardi corde ad credendum” — “Ó estultos e lentos do coração para crer” (Lc 24, 25).

No nosso caso, a explicação é ainda mais simples. As palavras de Cristo a Pedro (cf. Mt 16, 18s) continham apenas, como veremos, uma promessa. Seguiu-as, logo em seguida, uma grave repreensão do Senhor ao mesmo Apóstolo, que, voltando a pensamentos humanos, tentava dissuadi-lo das humilhações da cruz. O que seria mais natural, portanto, do que pensarem os outros que se tratava apenas de uma promessa condicionada, revogada logo pela severa repreensão de Cristo? A sucessão do primado achava-se, assim, novamente aberta às suas ambiciosas esperanças.

Oh! Como transparece aqui a psicologia da nossa frágil natureza humana! Somos espontaneamente inclinados a crer em tudo quanto agrada e lisonjeia as nossas ambições secretas. A mesma evidência, quando contraria os sonhos dos nossos íntimos desejos, não consegue entrar-nos na alma. Imbuídos de preconceitos judaicos sobre a temporalidade do reino messiânico, os discípulos alimentavam com amor a esperança das honras e do poderio terreno. Preferidos aos demais pelo Messias, nenhum, talvez, havia entre eles que, de si para si, não tivesse sonhado com alguma dignidade futura, com alguma “pasta ministerial” do reino restaurado de Davi. E um dia, quando a mãe de João e Tiago, na simplicidade indelicada do seu afeto materno, ousou abertamente pedir ao Senhor que reservasse para os filhos os dois primeiros lugares ao lado do seu trono, levantou-se entre os companheiros um rumor geral de indignação e protesto (cf. Mt 20, 24). A petição imprudente ferira vivamente as ambições rivais que mais de um nutria com secreta complacência.

Não surpreende, pois, que as promessas do primado, encontrando naquelas almas ainda não visitadas pelo divino Espírito tão resistente barreira psicológica, fossem pouco a pouco negligenciadas e esquecidas a ponto de, ainda na Última Ceia, se acenderem novamente entre os discípulos discussões sobre o primado. Descerá mais tarde sobre eles o Espírito Santo, Espírito de verdade e de amor, de luz e de caridade, prometido por Cristo aos seus Apóstolos para sugerir-lhes tudo quanto “lhes havia ensinado”. Depois da vinda do Paráclito já não haverá entre os Doze rivalidades nem brigas sobre “qual deles será o maior”. Apóstolos e fiéis serão um só coração e uma só alma sob o poder supremo de Pedro.

A doutrina: Jesus condena a prelazia no colégio apostólico?

Mais simples ainda é a explicação da doutrina de Cristo. Entre os gentios, os reis exercem dominação sobre os súditos. Entre vós não há de ser assim; antes, o que é maior entre vós faça-se como o mais pequeno e o que manda [logo, há de haver quem manda!] como o que serve (Lc 22, 25-26) [4]. Por acaso quis Cristo, com estas palavras, excluir qualquer jurisdição entre os Apóstolos? De modo nenhum. O que elas contêm, sim, é um ensinamento novo, um ensinamento profundo sobre a noção de autoridade.

Para os pagãos, a soberania era uma ostentação honorífica, uma distinção mundana, uma dominação férrea sobre os súditos escravizados. Nada disso há de ser o poder em mãos cristãs. A autoridade é um ministério, um serviço público: é, antes de tudo, um dever, o dever de consagrar-se como servo ao bem comum dos governados. Longe, pois, a ostentação; longe as honrarias vãs que só lisonjeiam a vaidade e o orgulho de quem as recebe. O autoritarismo pagão, isto é, a pretensão de impor a todo custo o próprio capricho, deve ceder o lugar à verdadeira autoridade, que só tem razão de ser nas necessidades e exigências do bem público [5]. Eis o novo e profundo conceito ensinado pelo divino Mestre.

Equivalem estas palavras a eliminar o poder de jurisdição numa sociedade legitimamente constituída? Já o dissemos: de modo nenhum. Quereis a prova? Lede alguns versículos abaixo e vereis que Cristo promete aos Doze uma situação privilegiada entre os fiéis: os Doze se assentarão um dia em doze tronos para julgar as tribos de Israel (cf. Lc 22, 30). Continuai a ler algumas linhas e ouvireis o mesmo Cristo conferir a um só a missão de confirmar os seus irmãos na fé (Cf. Lc 22, 32). É uma autoridade no sentido cristão da palavra: um ministério para o bem público dos fiéis. E, no entanto, é uma prerrogativa concedida a um só. O discípulo privilegiado é Pedro.

Duvidais ainda? No mesmo trecho de S. Lucas, a fim de exemplificar a lição que acabara de dar, Jesus aplica a si mesmo a regra da humildade: “Qual é maior, o que está à mesa ou o que serve? Não é porventura o que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22, 27). O Jesus que assim fala é o mesmo que afirmou categoricamente: “Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem: porque o sou” (Jo 13, 13). Dirá agora o nosso protestante que no Filho de Deus não havia verdadeira autoridade, mas só “a superioridade moral do mais humilde”?

A supremacia de Pedro no colégio apostólico é, portanto, uma realidade evidente. Só uma investidura assegurada pela promessa de Cristo pode explicar como, no seio das ambições rivais dos discípulos, Pedro gozasse daquela preeminência atestada unanimemente por toda a história da vida de Jesus. Reconhece-o a própria crítica liberal de Alfred Loisy:

Entre os Doze, havia um que era o primeiro, não apenas por conta da prioridade de sua conversão ou do ardor de seu zelo, mas devido a uma espécie de nomeação do Mestre, que foi aceita e cujas consequências se fazem ainda sentir na história da comunidade apostólica. Esta foi uma situação, de fato, criada aparentemente pelos agitados momentos do ministério galileu, mas que, pouco antes da Paixão, se figura como aceita e ratificada por Jesus [6].

Ainda que não houvesse outros motivos, já nos seria lícito supor com grande probabilidade uma designação de Pedro para futuro chefe da Igreja, feita pessoalmente pelo próprio Salvador. Mas temos textos formais e explícitos que excluem toda a dúvida.

O que até aqui dissemos tem por finalidade ilustrar a verossimilhança desta promessa, deduzida de toda a narração evangélica e, ao mesmo tempo, mostrar como a perícope de S. Mateus que passaremos logo a estudar (cf. Mt 16, 16-19), longe de se achar “em manifesto antagonismo com todo o Novo Testamento” ou “bloqueada pelo silêncio universal das Escrituras Sagradas”, enquadra-se muito naturalmente contexto geral dos evangelhos, formando um todo harmônico, homogêneo e coerente.

Notas

  1. S. Pedro é nomeado no Novo Testamento 171 vezes; depois vem S. João, 46 vezes. A observação é de Vladimir Soloviev (cf. La Russie et l'Église universelle, Paris, 1889, p. 154, nota 2), o maior filósofo russo do século passado, convertido ao catolicismo.
  2. Três vêzes em toda a Escritura mudou Deus o nome dos homens e em todas três se tratava de elevar um particular à dignidade de chefe dos eleitos. Mudou-o a Abraão, “quia patrem multaram gentium constitui te” (Gn 17, 5); mudou-o a Jacó, “appellavit eum Israel dixitque ei... Gentes et populi nationum ex te erunt” (Gn 35, 10). Mudou-o finalmente a Pedro: “Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam” (Mt 16, 18).
  3. Simon et qui cum illo erant” (Mc 1, 36); “David et qui cum eo erant” (Mc 2, 25); “Centurio et qui cum eo erant” (Mt 27, 54); cf. Lc 8, 45; 9, 32; At 2, 14; 5, 29; Mc 16, 7.
  4. Na hipótese protestante, Cristo houvera posto muito mais simplesmente termo à contenda entre os discípulos, dizendo-lhes: sereis todos iguais. Em vez, porém, de insinuar a paridade, Cristo insiste sobre a primazia: o que é maior. E aduz a comparação consigo mesmo.
  5. A S. Pedro aproveitou a lição divina de Jesus. Vede como ele nos descreve o múnus do superior eclesiástico: “Apascentai o rebanho de Cristo que vos foi confiado, tende cuidado nele, não por força, mas espontaneamente segundo Deus, nem por amor do lucro vergonhoso, mas de boa vontade, nem como se quisésseis ter domínio sobre a herança do Senhor, mas fazendo-vos de boa vontade o modelo do rebanho. E quando aparecer o príncipe dos pastores recebereis a coroa incorruptível da glória” (1Pe 5, 2-4).
  6. Alfred Loisy, L’Évangile et l’Église, Paris, 1902, p. 90.

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Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?
Doutrina

Jesus tinha
a intenção de fundar uma Igreja?

Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?

Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos todo o Evangelho é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura e de caráter social: a Igreja.

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)25 de Junho de 2019
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I. O problema. — Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos o Evangelho e que depois se confirma plenamente nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de São Paulo é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura, de caráter social. É todo o Evangelho, e não somente um conjunto de textos mais ou menos numerosos, que nos fala de uma obra desta natureza.

Contra esta maneira de conceber a obra de Jesus levantaram-se, nos séculos passados, tanto racionalistas como modernistas. Assim afirmou Loisy: “Cristo anunciou a vinda do Reino, e eis aqui o que acabou surgindo: a Igreja” (L’Evangile et l’Eglise, 1902, p. 111). Se isto fosse assim, a Igreja de que nos falam tantas vezes os Atos dos Apóstolos, a Igreja de que com tanta frequência fala São Paulo, teria surgido contra a vontade de Jesus; seria obra dos primeiros cristãos, e não obra de Jesus. Qual destas duas concepções é a verdadeira? Tal é o problema eclesiológico fundamental que devemos resolver antes de qualquer outro. Para isso, será necessário explicar previamente o significado exato da palavra Igreja nas Sagradas Escrituras.

1. A palavra “igreja” no Antigo Testamento. — No Antigo Testamento, Israel é o povo de Deus, o reino de Deus. Destas duas denominações, a primeira tem um significado solene, especial: Israel é o povo convocado ou congregado por Deus: em hebraico, é o Qahal Yahvé, que a versão chamada dos Setenta (concluída no final do séc. II a.C.) traduz pela palavra grega εκκλησία. O termo hebraico Qahal significa qualquer reunião de homens, e só se traduz por εκκλησία na versão dos Setenta quando indica a reunião ou assembleia de todo o povo de Israel. Nos outros casos (por exemplo, assembleias de uma cidade particular), Qahal se traduz por ὄχλος ou συναγωγή.

Citemos alguns exemplos do Antigo Testamento em que aparece esta expressão. No Deuteronômio, chama-se “dia da assembleia” ou “da igreja” ao dia em que o povo de Israel, congregado no monte Sinai, recebeu a aliança de Javé, prometeu observar a Lei e assim foi constituído “povo de Javé” (cf. Dt 9, 10; 18, 16). Em outras passagens do mesmo livro, indicam-se as condições que há-de reunir quem quiser formar parte da “igreja” ou comunidade de Javé (cf. Dt 23, 1-3.8). Moisés proferiu diante de toda a comunidade de Israel ou “igreja” as palavras do seu cântico (cf. Dt 31, 30). No Livro de Josué se diz: “De tudo o que Moisés havia prescrito não se omitiu uma palavra sequer nessa leitura feita por Josué diante de toda a assembleia [igreja] de Israel” (Js 8, 35). No primeiro Livro dos Reis — terceiro, na nomenclatura da Vulgata —, a “igreja de Israel” é todo o povo congregado para a dedicação do templo de Salomão (cf. 1Rs 8, 14; 22, 55). Assim poderíamos multiplicar os exemplos até chegar às oitocentas vezes em que se fala da palavra “igreja” na tradução grega dos Setenta.

Os judeus do tempo de Jesus, como nos dizem os especialistas na matéria, usavam a palavra “igreja” para indicar a assembleia escolhida por Deus do povo de Israel, para o culto do Deus verdadeiro (cf. Salaverri, De Ecclesia, em Sacrae Theologiae Summa, vol. 1, n. 145). Por conseguinte, esta palavra será a mais adequada para designar a assembleia do novo Israel de Deus, se Cristo quis verdadeiramente fundar uma sociedade religiosa.

“Cristo apresentando as chaves a S. Pedro”, de Carlo Giuseppe Ratti.

2. A palavra “igreja” no Novo Testamento. — No Evangelho, esta palavra só aparece em duas passagens muito próximas entre si do evangelho de São Mateus: no capítulo 16 (v. 18): “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”; e no capítulo 18 (v. 17), onde Cristo, ao falar da correção fraterna, depois da correção privada e ante testemunhas, em caso de não se conseguir o resultado esperado, diz a seus discípulos: “Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano”. 

No entanto, em outros livros do Novo Testamento se encontra muitas vezes a palavra “igreja”: 23 nos Atos dos Apóstolos, 63 em São Paulo, 5 nas outras epístolas dos Apóstolos e 20 no Apocalipse.

Mas, afinal, esta desproporção tão surpreendente entre os evangelhos e os demais livros do Novo Testamento em que se narra a vida da comunidade primitiva não parece corroborar a opinião dos que afirmam que os textos de São Mateus refletem o sentir da comunidade primitiva, mas não a intenção de Jesus de fundar uma Igreja?

II. Orientação histórica. 1. Opiniões errôneas. — De fato, assim creem todos os racionalistas e modernistas, sejam os que afirmam que Jesus Cristo julgava iminente o fim do mundo e que, portanto, não poderia falar de uma “Igreja” como sociedade futura e duradoura (escatologistas); sejam aqueles que sustentam que Jesus Cristo pregou um reino apenas para Israel e continuava acreditando na permanência da sinagoga, sem pretender formar uma sociedade nova (particularistas); sejam enfim os que defendem que Jesus pretendia unicamente nos ensinar nossas relações filiais com Deus Pai, sem nenhuma organização de caráter externo e social (espiritualistas).

Como concebem, pois, estes autores que a ideia de uma Igreja como sociedade aparecesse nos tempos apostólicos, coisa que não podem negar, por encontrar-se tão claramente no livro dos Atos e nas epístolas de São Paulo? As respostas a esta pergunta são numerosas e bastante distintas entre si, mas podemos reduzi-la a estas três principais: 

a) Teoria evolucionista. — Os discípulos de Cristo, pensam alguns, chegaram a organizar-se em sociedade graças à tendência natural e inata ao homem de agrupar-se quando vários indivíduos buscam um mesmo ideal. Assim se formaram as inúmeras sociedades comerciais, literárias, deportivas etc. que surgem em todos os lugares. Desta maneira, foram aparecendo pouco a pouco, já no tempo do Apóstolos, sociedades locais formadas pelos discípulos de Jesus. Por uma evolução também natural, as diversas sociedades de uma nação, província etc. foram, por sua vez, agrupando-se em outras sociedades maiores. A paixão do mundo ou a ambição de alguns chefes influenciou muito nestas uniões parciais, que chegaram de modo mais ou menos rápido, ainda que imperceptível, a formar uma sociedade única sob o mando do chefe daquela igreja que, logicamente, tinha de absorver as demais: a da cidade em que residia a suprema autoridade civil, Roma. Nos tempos dos Apóstolos, não se tinha chegado ainda a esta unidade total de organização, embora em São Paulo apareça já este desejo de uniformizar as diversas comunidades, e o manifesta principalmente ao comparar a Igreja com um corpo único, dentro de uma pluralidade de membros. Aparece, assim, já em São Paulo uma unidade interna e mística, embora ainda não uma unidade jurídica.

b) Teoria eclética. — Sabemos, pensam outros, que se chama “eclético” todo sistema formado por uma seleção de outros vários. Assim, a sociedade judaica, com sua organização presbiteral e religiosa, e a sociedade romana, com sua organização monárquica e civil, determinou a constituição da Igreja como sociedade ao mesmo tempo religiosa e jurídica; esta constituição, porém, foi completamente alheia à vontade de Cristo.

c) Teoria modernista. — Para outros ainda, a constituição da Igreja como sociedade foi uma consequência natural, mas contrária à mente e à vontade de Cristo, do movimento religioso que a pregação do Mestre acabou suscitando. Surgiu quando a crença de Jesus Cristo, compartilhada por seus discípulos, de que o fim do mundo chegaria logo, começou a ser posta em dúvida. Passavam os anos, e a parusia simplesmente não vinha… Foi natural que, então, todo os que aceitavam a doutrina de Jesus se sentissem unidos por uma mesma doutrina e um mesmo fracasso, e pensaram assim em dar consistência e duração a sua ideias religiosas.

III. Doutrina católica. 1. O que a Igreja diz de si mesma. — No entanto, o Magistério eclesiástico ensina como verdade de fé que Cristo fundou a Igreja. Assim diz o Concílio Vaticano I: “Para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé e nela perseverar constantemente, Deus instituiu, por meio de seu Filho Unigênito, a Igreja” (DH 3012). E em outro lugar: “O eterno Pastor e guardião das nossas almas […] resolveu fundar a Santa Igreja” (DH 3050). Implicitamente afirma o mesmo Concílio que Jesus a fundou como sociedade, ao definir que Cristo constituiu a São Pedro cabeça visível de toda a Igreja militante e que lhe entregou um primado de verdadeira e própria jurisdição (cf. DH 3056s), já que tais atos pressupõem uma vontade plenamente consciente de fundar uma sociedade.

Contra a doutrina modernista, o Papa São Pio X condenou explicitamente a seguinte proposição: “Foi alheio à mente de Cristo constituir a Igreja como sociedade que devia durar sobre a terra por longo decurso de anos” (DH 3452). Veja-se também o juramento proposto pelo mesmo Papa contra os erros do modernismo (cf. DH 3540).

2. Valoração teológica. — Em consonância com os documentos do Magistério que acabamos de expor, podemos afirmar que é verdade de fé divina e católica que Cristo quis estabelecer a sua Igreja na terra como verdadeira sociedade.

3. Ensinamento bíblico. — Ora, já dissemos que a vontade de Cristo de querer estabelecer uma Igreja-sociedade, mais que de alguns textos concretos, flui de todo o Evangelho, no qual vai aparecendo como Ele escolhe os Apóstolos, como os instrui para um fim concreto, como os reveste de poderes especiais para a sua missão, como estabelece sobre os demais uma autoridade suprema e como promete sua assistência indefectível nos ofícios de que os encarrega.

Há porém um texto capital em toda a eclesiologia, que afirma taxativamente esta vontade de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).

a) A Igreja, o povo de Deus no Novo Testamento. — A frase de Jesus: “Edificarei a minha Igreja” deve ter produzido um sentimento de estupor nos discípulos, já que a palavra “igreja” sempre aparece no Antigo Testamento como obra, não de um homem, mas de Deus. O Mestre se punha no lugar de Deus! Mas pelo menos Pedro, que acabara de confessar que Jesus era “o Filho do Deus vivo”, por revelação do Pai, podia compreender muito bem a razão íntima desta substituição: Cristo era Deus e, como Deus, ia estabelecer uma Igreja que seria continuação e, simultaneamente, cumprimento cabal daquela igreja ou congregação do povo de Deus no Antigo Testamento. A palavra divina se cumpriria, não já no Israel da carne, mas no Israel do espírito, como diz São Paulo (cf. Rm 9, 6ss; 1Cor 10, 18).

Mas como unir o verbo “edificar” com o substantivo “igreja”, que significa, como vimos antes, povo sagrado, escolhido por Deus? Ora, é que “o povo de Deus” é também “a casa de Deus”, segundo uma imagem muito repetida no Antigo Testamento (cf., por exemplo, Nm 12, 7; Jr 12, 7; Os 8, 1.3.8.15). Daí que a metáfora “edificarei a minha Igreja” equivalha, evidentemente, a dizer: “Formarei o meu povo escolhido, à maneira de um arquiteto que constrói um edifício”. Eis a firme vontade de Cristo de fundar a sua Igreja, isto é, de instituir uma sociedade na terra sobre São Pedro.

b) A Igreja, Reino dos céus. — Em seguida, o Senhor promete ao mesmo Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mt 16, 18). Não vamos nos deter aqui em estudar o alcance desta metáfora no que se refere a São Pedro; mas podemos, sim, adiantar que este Reino de Deus, expressão que pode ter um significado mais ou menos amplo segundo o contexto, neste lugar específico, em virtude do perfeito paralelismo com a frase anterior e a seguinte: “Tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”, só pode significar o Reino de Deus existente na terra, já que Pedro, o Apóstolo que Jesus tem diante de si, será a autoridade suprema deste Reino.

Reino de Deus, Reino dos céus e Igreja não são, pois, realidades distintas, mas a mesma realidade sob dois aspectos distintos. E nisto o Novo Testamento corresponde harmonicamente ao Antigo: com efeito, assim como o povo escolhido era o Reino de Deus no Antigo Testamento, assim também, no Novo, a Igreja de Cristo é o Reino de Deus na terra. Portanto, quando Cristo fala do Reino de Deus na terra, fala em realidade de sua própria Igreja.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 560-565, nn. 67-77.

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Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”
Doutrina

Eucaristia:
“até os demônios crêem, e tremem”

Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”

“Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: ‘Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?’”

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Junho de 2019
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A “rotina” pode fazer com que, muitas vezes, percamos um pouco a noção do que sejam a Santa Missa, a Eucaristia e a recepção da Comunhão sacramental. Os abusos litúrgicos que acontecem, aos montes, em tantas de nossas paróquias também acabam não contribuindo muito para fazer brilhar o mistério que aí se realiza. O seguinte testemunho do Mons. Charles Pope (tradução e grifos nossos), no entanto, talvez nos ajude a considerar melhor a grandeza do que estamos a celebrar nesta semana de Corpus Christi:

Foi quase 15 anos atrás, na velha igreja de Santa Maria, aqui no Distrito de Columbia, celebrando Missa em latim (na Forma Extraordinária do Rito Romano). Era uma Missa solene [...na qual] algo bem interessante estava prestes a acontecer.

Como vocês devem saber, a antiga Missa em latim é celebrada ad orientem (isto é, voltada ao “leste litúrgico”). O padre e todo o povo voltam-se para a mesma direção. O que isso significa para o celebrante, na prática, é que o povo fica às suas costas. Era o momento da consagração. Nessa hora, o padre deve fazer uma leve inclinação, com seus antebraços sobre a mesa do altar e a Hóstia em seus dedos.

Também como deve ser, as veneráveis palavras da consagração foram ditas em voz baixa, mas clara: Hoc est enim Corpus meum (“Isto é o meu Corpo”). A sineta tocava enquanto eu me ajoelhava.

Mas atrás de mim notei uma espécie de perturbação; uma voz agitada ou como um sussurro veio dos primeiros bancos atrás de mim, à minha direita, e então um gemido ou murmúrio. “O que foi isso?”, eu me perguntei. Não se parecia mesmo com um som humano; parecia mais o grunhido de um grande animal, como um javali ou um urso, juntamente com um resmungão que também não parecia humano. Elevei a Hóstia e novamente me perguntei: “O que foi isso?” Silêncio, então. Como celebrante na antiga Missa latina, não me era fácil virar para olhar. Mas eu ainda pensava: “O que foi isso?”

Era o momento da consagração do cálice. Mais uma vez eu me inclinei levemente, pronunciando clara e distintamente, mas em voz baixa: Hic est enim calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti; mysterium fidei; qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum. Haec quotiescumque feceritis in mei memoriam facietis (“Tomai e bebei dele todos vós, pois este é o Cálice do meu Sangue, do Sangue da nova eterna aliança, mistério da fé, o qual será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados. Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim”).

Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: “Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?” De repente irrompeu um ruído como de uma briga e alguém saiu gemendo como se tivesse sido machucado. As portas se abriram e fecharam. Depois, silêncio.

[...] Eu não podia virar para olhar pois estava elevando o Cálice bem acima da minha cabeça. Mas eu percebi naquele instante que uma pobre alma atormentada pelo demônio havia se deparado com Cristo na Eucaristia e não podia suportar sua presença real sendo exibida para todos verem. Vieram-me à mente, então, as palavras da Escritura: “Até os demônios crêem, e tremem” (Tg 2, 19).

[...] Mas assim como São Tiago usou essas palavras para recriminar a pouca fé de seu rebanho, também eu tinha com o que me acusar. Por que um homem perturbado pelo demônio estava mais consciente da Presença Real e mais impressionado por ela do que eu estava? Ele ficou movido em um sentido negativo e fugiu. Por que não estava eu mais movido do que ele, em um sentido positivo? E quanto aos outros fiéis, que estavam nos bancos? Eu não duvido de que todos ali acreditávamos, com a inteligência, na Presença Real. Mas é algo bem diferente e muito mais belo ser movido até as profundezas da própria alma! É tão fácil ficarmos sonolentos na presença do Divino, esquecendo-nos da Presença milagrosa e impressionante que está à nossa disposição.

Registre-se que, naquele dia, quase 15 anos atrás, ficou ainda mais claro para mim que eu segurava em minhas mãos o Senhor da glória, o Rei dos céus e da terra, o justo Juiz e Dominador dos reis da terra. — Estaria o Senhor verdadeiramente presente na Eucaristia? — É melhor que você acredite, pois até os demônios o fazem!

Ao ler o relato desse sacerdote, é inevitável que nos venham à mente os inúmeros trechos do Evangelho em que os demônios reagem de modo muito similar à presença de Nosso Senhor. Em comentário a essas passagens, os Doutores da Igreja nos ensinam que, embora não tenham fé divina e sobrenatural, os maus anjos têm um certo conhecimento da divindade de Cristo, e por isso não lhe podem ser indiferentes. Santo Agostinho diz, por exemplo, que Jesus se manifestou aos demônios “não enquanto vida eterna e luz que ilumina os piedosos, mas por certos efeitos temporais de seu poder e por sinais ocultos de sua presença, mais perceptíveis aos espíritos angélicos, mesmo que malignos, do que à fraqueza humana” [1]; e São Jerônimo, por sua vez, que “tanto os demônios como o Diabo mais suspeitavam do que compreendiam que Ele era o Filho de Deus” [2].

Ou seja, os mesmos espíritos malignos que dois mil anos atrás reagiam com fúria e gritos à presença do Deus feito carne, são retratados respondendo com igual ódio e indignação à presença real de Jesus na Eucaristia. Que o fato acima seja verídico ou não, é o de menos: ninguém é obrigado a crer nas palavras de um padre. Mas ao ensino do Senhor e da sua Santa Igreja de que, “sim, na Eucaristia está verdadeiramente o mesmo Jesus Cristo que está no Céu e que nasceu, na terra, da Santíssima Virgem Maria” [3] — nisto sim, todos estamos obrigados a crer, por fidelidade a Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar.

“Problemático” falar disso, não? Pouco “ecumênico”, alguém diria. Mas não é de hoje: as palavras de Cristo sobre sua presença no Santíssimo Sacramento, desde o discurso do pão da vida até as recentes manifestações magisteriais sobre a Eucaristia, sempre foram uma grande “pedra de tropeço”. — Que haja quem acredite piamente que o próprio Deus, Criador do céu e da terra, se fez homem, já é grande absurdo… — assim pensa o mundo. — Agora, que haja, nesse grupo já seleto de pessoas, um grupo mais ousado ainda a ponto de proclamar que Deus, além de se fazer homem, ainda se esconde sob a aparência de um simples pedaço de pão, é escândalo em cima de escândalo.

Aquele grupo que crê na Encarnação são os cristãos; este grupo que crê também na transubstanciação são os católicos. De modo que, se para o mundo, os cristãos já são loucos, para os próprios cristãos, nós, católicos, somos o ápice da loucura. Por crermos na Eucaristia, os protestantes nos têm por fanáticos e idólatras, que se prostram diante de uma “bolacha”; por causa desse dogma em especial, somos “como que o lixo do mundo, a escória de todos” (1Cor 4, 13).

E como os católicos somos chamados a reagir a tudo isso? Com luto, lágrimas e depressão? Não, muito pelo contrário!

Neste dia de Corpus Christi, somos convocados, isso sim — principalmente por se tratar de dia de preceito —, a tomar as ruas de nossas cidades e, cheios de fé, proclamar nosso amor ao Santíssimo Sacramento com orações, cantos e muita alegria. Alegria principalmente por saber que o mesmo Jesus de Nazaré, que caminhou entre os homens dois mil anos atrás, continua realmente vivo em nossas igrejas, “habitando no meio de nós” todas as vezes que o sacerdote católico pronuncia as veneráveis palavras da consagração: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. Alegria por saber que, assim como Cristo, cabeça da Igreja, teve de passar por sua via crucis recebendo o desprezo do mundo, agora é a vez dos católicos, enquanto membros do seu corpo, passarem pela mesma execração pública.

Mas, ainda que nos ataquem com virulência, que nos chamem de idólatras e caçoem de nossa santa religião — mesmo se com isso os zombadores acabem se assemelhando aos demônios do Evangelho, e da história acima contada —, só o que nos deve encher o coração é um profundo desejo de que todos, sem exceção, venham a desfrutar um dia da mesma dádiva que nós, católicos, temos a graça de possuir… porque deve ser uma tremenda miséria entrar em um templo cristão e não ver, ao fundo, ocupando o centro de todas as atenções, a presença eucarística de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Referências

  1. De Civitate Dei IX, 21, citado por Santo Tomás de Aquino, Catena aurea (In Matth., c. VIII, l. 8). Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 323.
  2. Id., p. 323.
  3. Catecismo de São Pio X, n. 595.

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Silêncio, a especialidade de Deus
Espiritualidade

Silêncio, a especialidade de Deus

Silêncio, a especialidade de Deus

Quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Pe. Raul PlusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2019
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À alma que quer ouvir os chamamentos divinos é necessário o recolhimento, em primeiro lugar, por causa da discrição de Deus.

Deus age sempre da mesma maneira: apraz-lhe ocultar-se. Só o descobrem os que estão atentos.

Às vezes as pessoas acham estranho que tantos cheguem a duvidar da existência de Deus. Acaso não prova a Criação que haja um Criador? Sim, certamente, mas se a razão afirma que Deus existe, a experiência não o percebe. O soberano Senhor oculta-se atrás das causas segundas. Ele, que é a causa total, não quer ser a causa única. Desde o seu distante quartel general ele tudo dirige; mas os homens, em contato sensível apenas com os intermediários, esquecem o chefe supremo de quem tudo depende. Toda causa segunda seria de uma indigência absoluta se Deus não lhe desse o poder de produção; mas como essa causa aparece em primeiro plano, o homem não vê mais do que a ela. É preciso refletir para descobrir a Deus.

Deus põe em tudo esta sublime discrição. Ele passeia por sua obra em todo tempo e lugar, mas procede como no Paraíso terrestre: sua marcha é silenciosa, e é preciso estar atento para perceber seu passo, que quase não faz barulho na areia, ali, muito perto, atrás do pequeno bosque.

Se tal discrição divina é palpável na ordem natural, quanto mais patente é, todavia, na ordem sobrenatural!

O Verbo decide vir à terra para encarnar-se. Credes que o fará impondo-se pelo brilho e pela pompa, e proclamando de certo modo: “Atenção! Entendei bem quem é que vos fala!”? De maneira alguma. Uma virgenzinha de quinze ou dezesseis anos, em uma pequena e insignificante aldeia de um pequeno país. Chama-se Maria; ninguém a conhece, salvo algumas amigas de seu povoado, Nazaré. Estando um dia em oração, recebe a proposta de chegar a ser Mãe de Deus. Duas palavras de aceitação: Ecce… Fiat! “Eis aqui… Faça-se!” — Neste mesmo instante o Verbo se faz carne.

Durante nove meses permanece oculto no seio de sua mãe como todo filho de homem… Vai nascer. Discretamente, sem publicidade alguma.

Ele tem de partir por causa do censo. Já sabeis o restante: o nascimento no campo, a manjedoura à meia-noite. Escutai: “Enquanto, sob um céu puro e no silêncio da terra, a noite estava na metade do seu curso, em segredo, longe do tumulto dos homens, o Verbo eterno do Pai assume a natureza humana e aparece aos homens, enquanto nos céus ressoava o hino: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”.

Observemos as expressões: “No silêncio da terra, à noite, em segredo, longe do tumulto”. Eis aqui Deus.

E Deus age de igual maneira ao longo de toda a história evangélica: trinta anos de vida oculta; quando fala, não é para se anunciar, mas para dar testemunho do Pai; para semear seus ensinamentos, escolhe, de preferência, os humildes povoados à beira do caminho; quando vai ensinar coisas de maior profundidade, limita voluntariamente o seu auditório: Nicodemos e a mulher do poço de Jacó, o discurso antes e depois da Ceia. Quando mostra uma única vez algo de sua glória, não leva consigo mais do que três testemunhas. Se seus milagres podem granjear-lhe em excesso o favor das multidões, desaparece, como depois da multiplicação dos pães, ou manda guardar silêncio o agraciado. Recorre a seu poder de taumaturgo apenas para confirmar sua palavra. Os Apóstolos realizarão obras de mais brilho do que as suas.

Nada mais silencioso e, ao mesmo tempo, discreto do que a transubstanciação e a presença eucarística! Pronunciam-se algumas palavras, e a substância do pão já não existe. Jesus aí está sobre o altar, e na obscuridade do tabernáculo irá permanecer dia após dia, sem buscar atrair ruidosamente atenção! Se o vão visitar, é bom; mas, se não vai ninguém, tampouco reclama: tudo passa como se Ele não estivesse ali. Ter-se-ia notado alguma mudança no bairro, se o Salvador do mundo não se encontrasse ali abaixo, na igrejinha no fim da rua?

Levam uma criança à igreja. Vão-na batizar. O que significa isto? Que a SS. Trindade irá entrar nessa alma pequenina. Ouvi-o bem: a SS. Trindade, Deus, o Ser supremo, e no entanto quem pensa na importância desse ato?

Quando um rei, um imperador ou um chefe de Estado vai a uma cidade, quantos preparativos! quantas distinções! quanta gente em movimento! Mas aqui, nada.

Quanta discrição, por parte do Salvador, no governo da Igreja! No Evangelho, a grande personagem é o Pai. Uma vez concluída a Redenção, a grande personagem é o Espírito Santo, e já o dissemos antes: Spiritus docebit vos, “o Espírito vos há-de ensinar”. Nosso Senhor, como Mestre, “fracassa” com os Apóstolos. Depois de três anos de convívio, fogem todos no momento da agonia, um o trai, outro o nega. Será preciso que desça o Espírito Santo. Só então os medrosos do Horto das Oliveiras serão valentes e saberão enfrentar o martírio. Quanta sede tem Jesus de fazer-se pequeno, de evitar aparecer! Durante a sua vida, eclipsa-se diante do Pai; depois de sua morte, fa-lo-á diante do Espírito Santo.

Há mais, porém. A Igreja que Ele estabeleceu na terra e à qual confiou as chaves do Reino de Deus, não a irá governar senão por meio de outra pessoa; não aparecerá senão o seu Vigário. Ele está ali, evidentemente, por seu Espírito Santo, preservando a Igreja de todo erro, dando aos chefes escolhidos luz e força. Mas aqui também, quantas gentes passarão ao lado da Igreja de Jesus Cristo sem reconhecer a Jesus Cristo! E isso, sem dúvida, por culpa da insignificância ou da indignidade de um grande número de seus membros, mas também porque a boa semente nem sempre germina com êxito em meio à cizânia, e o Senhor estima, mais do que os brilhantes triunfos de uma divindade da Igreja que se imponha a todos, os humildes esforços de uma Igreja divina, cuja divindade aparece apenas aos que refletem mais ou aos que são mais puros.

Se esta é a maneira habitual de Deus agir, não será preciso tê-la em conta quando se trata de uma obra realizada nas profundezas da alma, ou seja, dos convites da graça?

Jesus ressuscitado entrou no Cenáculo sem que ruído algum denunciasse a sua chegada. Com maior razão, quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. Está a alma em estado de graça? Deus se encontra já no coração da praça. Ali, convida incessantemente à fidelidade. Não espereis estrépito, mas gemitus, dirá S. Paulo, uma humilde e silenciosa modulação o mais serena possível. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Ah! razão tem de sobra o autor [1] que descreve assim a ação de Deus em nossos corações: “Da mesma maneira que a água impregna a esponja docemente e sem ruído, o divino Espírito penetra sem violência na alma disposta a recebê-lo. Não se impõe; propõe-se. As visita forçadas repugnam à sua infinita delicadeza. Sua voz é doce, amiga do recolhimento e da paz. Para escutá-la, é preciso que se faça silêncio no interior”.

Referências

Notas

  1. O Pe. Augusto Drive, 4.º Diretor Geral do Apostolado da Oração, em seu excelente opúsculo Wes Dieu sous la conduite de Marie (nota do autor).

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Pornografia: um problema de saúde pública
Sociedade

Pornografia:
um problema de saúde pública

Pornografia: um problema de saúde pública

Finalmente a sociedade está se dando conta de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2019
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Enquanto uns poucos especialistas isolados, claramente comprometidos com certas agendas, insistem em defender a indústria pornográfica, o resto da sociedade está se dando conta rapidamente de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Mês passado, por exemplo, um relatório elaborado no Reino Unido descrevia como o consumo de pornografia estava transformando as escolas em “campos de batalha”, onde as meninas se sentem impelidas a comportar-se como atrizes pornô e os rapazes vêem a vida com base no lixo que consomem online. Testemunhos como este são norma entre os adolescentes:

Tudo o que a gente vê nas redes sociais está reforçando o que há de pior na “cultura jovem”. Imagens de mulheres em poses provocativas com mensagens do tipo: “É assim que toda mulher quer ser vista”… Um amigo meu queria que a namorada se vestisse como uma atriz pornô e fizesse o que faz uma atriz pornô. A pornografia está muito acessível. A gente vê rapazes assistindo a vídeos no celular dentro de sala de aula e até nos ônibus.

Além do que, outro grande estudo, divulgado mês passado, detalha a destruição causada na nossa cultura pela pornografia e confirma o consenso crescente de que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública. O estudo, que entrevistou 6.463 estudantes (2.633 homens e 3.830 mulheres), entre 18 e 26 anos, indica que quase 80% deles já foram expostos à pornografia (cifra que eu julgo até muito baixa). Os efeitos disto são enormemente preocupantes. Um dos resultados da pesquisa evidencia o que temos alertado há já algum tempo: a pornografia atua como uma droga, e os usuários tendem a procurar conteúdos cada vez mais pesados e hard-core, a fim de satisfazer o próprio vício. Eis o que o estudo diz:

Tolerância/intensificação: Os efeitos adversos mais comuns da pornografia, reconhecidos pelos próprios usuários, são: a necessidade de estímulos mais prolongados (12%) e de estímulos sexuais mais numerosos (17,6%) para poder chegar ao orgasmo, e uma diminuição do prazer sexual (24,5%) […]. O presente estudo também sugere que a exposição prematura pode estar associada a uma potencial dessensibilização a estímulos sexuais, como indicado pela necessidade de estímulos mais prolongados e numerosos para alcançar o orgasmo durante o consumo de material explícito, e também pelo decréscimo generalizado da satisfação sexual. Constataram-se ainda várias mudanças de padrão no consumo de pornografia durante o período de exposição: escolha de um gênero diferente de material explícito (46%), uso de materiais que não concordam com a própria orientação sexual (60,9%) e a necessidade de utilizar conteúdos mais extremos, isto é, violentos (32%).

Curiosamente, o estudo também chegou à conclusão de que 10,7% dos homens e 15,5% das mulheres confessaram assistir diariamente a filmes pornôs e reconheceram estar viciados, sem que haja, na prática, nenhuma diferença na taxa de adicção entre homens e mulheres. Via de regra, quem está viciado em pornografia demora para admitir que está com problema; por isso, é bastante alto o número de usuários dispostos a reconhecer que se sentem viciados em pornografia.

Mesmo entre os que não se consideram viciados, o estudo indica que são comuns sintomas típicos de abstinência: 51% já tentaram parar ao menos uma vez, dos quais 72,2% já experimentaram um ou mais sintomas de crise de abstinência, incluindo solidão, perda de libido, insônia, irritabilidade, ansiedade, tremedeiras, impulsos agressivos, depressão, sonhos eróticos e distúrbios de atenção.

Como era de esperar, quanto mais cedo uma pessoa é exposta à pornografia, maiores são as chances de ela sofrer alguns de seus efeitos negativos, sendo maiores as probabilidades entre os que foram expostos aos 12 anos ou antes. E tenhamos em mente que a idade média em que os jovens descobrem a pornografia continua a cair e encontra-se, atualmente, na faixa dos 11 anos. Os autores do estudos sugerem, cautelosos, que futuras pesquisas poderão indicar os prejuízos a longo prazo causados em adultos expostos à pornografia ainda muito cedo. Com efeito, a maioria dos participantes do estudo afirmou que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública, com muitas consequências negativas para a sociedade, mas se negou a apoiar qualquer política que restrinja o acesso a esse tipo de material. Os vícios, como toda a gente sabe, são difíceis de superar.

Como eu já disse antes e continuarei a dizer até as pessoas caírem em si: a pornografia é o inimigo número um das nossas comunidades, das nossas igrejas, das nossas famílias e dos nossos casamentos. Muitos cristãos têm treinado para as próximas batalhas nesta guerra cultural; muitas comunidades têm-se preparado para os perigos externos do totalitarismo secular. No entanto, a pornografia, infiltrando-se em nossos lares pelas telas de qualquer aparelho conectado à rede, está envenenando os relacionamentos e espaços de que vamos precisar, se quisermos sobreviver ao massacre cultural que enfrentaremos nos próximos anos.

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