[Algumas pessoas talvez achem perturbadores os relatos abaixo, que contam um pouco da história do fundador da revista pornográfica mais famosa do mundo, a Playboy. Por isso, muito embora o texto não contenha trechos propriamente lascivos, não o recomendamos a menores de idade. Evidentemente, também não recomendamos o documentário Segredos da Playboy, mencionado pelo autor do texto. Para nós, é suficiente conhecer em breves pinceladas a vida de Hugh Hefner — até para que entendamos de que se alimenta a indústria pornográfica: de carne e de almas humanas.]

O documentário Segredos da Playboy, da rede A&E, que conta a vida de Hugh Hefner numa série de dez episódios, é mais do que uma amostra da devassidão presente na cultura pop. Trata-se, na verdade, de uma lição profunda sobre como uma vida pode causar destruição ao buscar uma visão falsa de liberdade.

Hefner se considerava “um cara muito moral” e, acima de tudo, “um filósofo playboy”. Nesse sentido, todas as suas ações eram aparentemente justificadas como um meio de abolir a “repressão” religiosa tanto de seus pais metodistas quanto da cultura norte-americana em geral, para enfim a substituir por uma liberdade total. A série, no entanto, revela a cada episódio o quão distorcido se tornou o reino de autossatisfação de Hefner, à medida que informantes revelam como todas aquelas vidas foram arruinadas por overdoses de drogas, suicídios, exploração sexual e outros excessos.

Sondra Theodore, que namorou Hefner por cinco anos entre as décadas de 1970 e 1980, disse: “Eu vi menina após menina aparecer, com um rosto jovem e adorável, e toda essa beleza simplesmente sumir. Nós não éramos nada para ele. Ele era como um vampiro. Ele sugou a vida dessas garotas por décadas”.

De acordo com o que dizem seus confidentes mais próximos, Hefner estava tão focado em aproveitar ao máximo cada momento que ele comia de dois a três quilos de M&Ms e bebia 40 latas de Pepsi por dia, além de passar muitas horas jogando em seu fliperama ou na piscina — como uma criança que se recusa a crescer.

Em uma entrevista ao Los Angeles Times em 1992, Hefner disse: “Grande parte da minha vida tem sido uma espécie de sonho adolescente da vida adulta. Como se você ainda fosse um menino, à la Peter Pan, e pudesse ter a vida perfeita que sempre quis ter: essa é a vida que eu inventei para mim”.

Mas não eram só fantasias inocentes de infância que Hef queria viver. O documentário cita vários de seus funcionários dizendo que ele lhes exigia prescrições para quaaludes, um barbitúrico forte conhecido como a “droga do estupro”, mas que Hefner apelidou de “abridor de pernas”. Ele pegava então as receitas de seus funcionários e colocava os frascos numa gaveta do próprio quarto, onde guardava além disso cocaína, anfetaminas e maconha.

Os funcionários relatam que Bill Cosby, também acusado de usar quaaludes para diminuir as inibições das mulheres ao sexo, estava regularmente presente na mansão, assim como o estuprador Roman Polanski. Uma garota de 15 anos alega que Cosby a estuprou usando quaaludes na Mansão da Playboy. P. J. Masten, uma ex-coelhinha da Playboy, disse à CNN que conhece pessoalmente pelo menos 12 outras coelhinhas, além dela mesma, que foram drogadas e estupradas por Cosby. Segundo ela, as pessoas só não diziam nada porque Cosby era conhecido como o “melhor amigo” de Hefner.

Hugh Hefner em 1970.

O documentário descreve, também, pelo menos um caso de Hefner tentando dormir com uma garota menor de idade. A entrevista com a filha de seu ex-médico revela que ele supostamente a convidou (sem sucesso) para uma orgia quando ela tinha 17 anos.

Apesar de essas acusações — do uso de drogas para seduzir jovens modelos a dormir com Hefner — remontarem aos primeiros dias da Playboy, “namoradas” recentes de Hefner relataram experiências semelhantes. Holly Madison, famosa por Girls Next Door (o reality show da Playboy), disse em seu livro que Hefner lhe ofereceu quaaludes antes de fazerem sexo pela primeira vez. No Sunday Mirror, as irmãs gêmeas Karissa e Kristina Shannon contaram que, durante a primeira relação delas com Hefner, aos 19 anos, “ele nos disse que as drogas ajudariam com nossa ansiedade”. Então, ele teria dado a elas quaaludes, o que as fez se sentirem “relaxadas e confusas”, antes de serem “convocadas ao quarto dele”.

Depois que acabou, elas disseram: “Foi assustador e nojento. Sentimo-nos imundas, enojadas, como se nossos corpos não fossem nossos… Eram quase 5 da manhã quando voltamos para o nosso quarto naquela primeira noite e concordamos: ‘Ele é o diabo. Ele tem uma alma negra. Ele está indo para o inferno’”. Esse mesmo comentário, sobre Hefner ser o diabo, foi repetido por outra colega que se suicidou e em cujo local de morte havia a seguinte mensagem, em letras grandes, na parede: “Hugh Hefner é o diabo”.

Agora que ele faleceu, as gêmeas disseram que, embora tenham “namorado” Hef por dois anos no início de 2010, elas ficaram felizes por ele estar morto, pois outras garotas seriam poupadas daquela experiência.

Hef agia como se fosse seu dono. Se infringíssemos as regras dele, seis guardas nos arrastariam para nosso quarto e não nos deixariam sair. Hef chamava isso de “prisão HMH”, as iniciais de seu nome. Ele atacava jovens vulneráveis como nós. Ele lhes oferecia o mundo e depois as mantinha presas em sua casa, que era como uma prisão dourada. Quando Hef morreu, parte de nós se sentiu triste, mas outra parte disse: “Tudo bem, de agora em diante nenhuma garota será abordada e arruinada como nós fomos”.

Sem o dinheiro e a fama, Hefner provavelmente teria sido chamado de cafetão, canalha e viciado em drogas. Em vez disso, ele viveu como um celebrado ícone cultural até sua morte na idade avançada de 91 anos — o cara que tornou a pornografia elegante e sofisticada.

Porém, a coisa mais interessante sobre Hugh Hefner talvez seja o fato de que ele pensou profundamente nas coisas em que acreditava, e tudo o que ele fez foi realizado de acordo com essas crenças. Acima de tudo, ele acreditava em “liberdade”, e com isso ele se referia à completa autonomia individual. As pessoas não podiam dizer a ele o que fazer — fosse isso comer (literalmente) quilos de M&Ms, ter uma dúzia de namoradas ao mesmo tempo, cheirar cocaína em seu pijama até às 6 da manhã ou qualquer outra coisa.

O fundador da Playboy, mais próximo ao fim da vida.

Seu ativismo político pela liberação sexual e legalização das drogas foi baseado nessa mesma visão errônea de liberdade. De fato, ao mesmo tempo que recebia prêmios por defender a liberdade de expressão (ou seja, pornografia), Hefner silenciava jornalistas, denunciantes e ex-funcionários. O documentário mostra como Hefner tinha câmeras ativas em todos os cantos da casa, na piscina e até atrás de arbustos, a fim de pegar jornalistas, e outras pessoas que poderiam decidir se voltar contra ele mais tarde, fazendo coisas que elas não gostariam que fossem divulgadas ao público. Essa também foi supostamente uma tática de outro abusador em série de mulheres jovens: Jeffrey Epstein.

Mas a ironia desse modelo de “liberdade como autonomia” é que, no fim das contas, se você consegue tudo o que deseja a todo instante, você termina escravizando não apenas todas as pessoas ao seu redor, como a sua própria vontade. De acordo com a empregada de Hefner, ele dizia às funcionárias domésticas que estas não deveriam lhe dirigir a palavra, não deveriam o olhar nos olhos, nem tampouco esperar que ele aprendesse seus nomes. Como as jovens meninas, elas eram apenas meios para um fim.

Hefner disse certa vez: “Uma das grandes ironias em nossa sociedade é que celebramos a liberdade e, em seguida, limitamos as partes da vida em que deveríamos ser mais livres” — com isso ele se referia à relação sexual e ao direito de expressão. Ele também dizia: “Se um homem tem o direito de encontrar Deus do seu jeito, ele tem o direito de ir ao diabo do seu jeito também”.

A tradição cristã, porém, entende a liberdade não como uma capacidade de escolher entre o bem ou o mal que desejamos, mas como a capacidade de escolher o bem. A princípio, isso pode soar como uma contradição, ou como se Deus estivesse dizendo: “Você é livre para fazer o que eu disser para você fazer”. Mas, se você foi criado por um ser inteligente que lhe deu um propósito, então cumprir esse propósito — sem ser impedido por más ideias, forças externas ou impulsos internos incontroláveis — é mesmo a liberdade.

Um barco criado para flutuar rio abaixo, por exemplo, não está livre se as rochas obstruírem seu caminho ou se o rio secar. Ele é livre quando cumpre sua finalidade (telos), viajando desimpedidamente. Se o barco estivesse consciente, contudo, e tentasse sair do rio e viajar por terra, poderíamos apenas supor que seu verdadeiro propósito não estava mais claro ou acessível a ele.

Da mesma forma, se você cede imediatamente a cada desejo só porque o sentiu, e depois se torna viciado justamente em saciar esses impulsos, você deixa de ser livre. Você passa a procurar algo que se opõe ao seu propósito — já que o prazer momentâneo não é a sua finalidade — e, por isso, fica impedido de viver como seu verdadeiro “eu”.

Considerar livre alguém como Hugh Hefner, que se relacionava sexualmente com um cachorro enquanto terminava sua 40.ª Pepsi e 20.ª carreira de cocaína do dia, é obviamente uma ilusão. Seu corpo pode até ter sido livre em sua capacidade de realizar os próprios desejos, mas sua vontade era escrava. E como qualquer pessoa cuja vontade é escravizada, seja um viciado em opiáceos ou alguém que não consegue parar de jogar videogame até as 3 da manhã todas as noites, Hefner sem dúvida sentiu sua falta de controle, sua falta de liberdade real.

A descrição dele como um vampiro é adequada, pois ele precisava sugar a bondade que experimentava na vida de outras pessoas. Sua alma — separada de Deus — não tinha mais muito para explorar. Por isso, não consigo pensar em nenhuma imagem melhor para ilustrar essas duas visões conflitantes de liberdade do que Jeremias 17, 5-8:

Eis o que diz o Senhor:
“Maldito o homem que confia em outro homem,
que da carne faz o seu apoio
e cujo coração vive distante do Senhor!
Assemelha-se ao cardo da charneca
e nem percebe a chegada do bom tempo,
habitando o solo calcinado do deserto,
terra salobra em que ninguém reside.
Bendito o homem que deposita a confiança no Senhor,
e cuja esperança é o Senhor.
Assemelha-se à árvore plantada perto da água,
que estende as raízes para o arroio;
se vier o calor, ela não temerá,
e sua folhagem continuará verdejante;
não a inquieta a seca de um ano,
pois ela continua a produzir frutos”.

Criados para encontrar nossa vida nele, nós somos como uma árvore à beira de um rio quando confiamos no Senhor; por outro lado, somos como um arbusto estéril no deserto se buscamos nossa força fora dele. Esse arbusto estéril poderia ter a ilusão de liberdade se escolhesse aquele local no deserto. Também poderia experimentar um nível de florescimento se conseguisse sugar todas as outras vidas ao seu redor, como Hefner fez. Mas a verdadeira liberdade e florescimento existem em encontrar nosso propósito no amor a Deus e ao próximo, plantando-nos à beira do rio da vida.