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Onde está o céu de Deus?
Espiritualidade

Onde está o céu de Deus?

Onde está o céu de Deus?

Ao rezarmos o Pai-Nosso, elevamos o coração a Deus, que “está nos céus”. Mas o que, exatamente, queremos dizer com isso? Por acaso Deus se encontra mesmo acima das nuvens, em algum lugar físico que não conseguimos enxergar?

Santo Tomás de AquinoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Setembro de 2017Tempo de leitura: 6 minutos
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IV. "… que estais nos céus…"

6. O valor da confiança. — Entre as disposições necessárias ao orante, a confiança desempenha um papel fundamental: "Peça com fé", escreve São Tiago, "sem nenhuma vacilação" (Tg 1, 6). Por isso, ao ensinar-nos a orar, o Senhor alude primeiro aos motivos que nos podem gerar confiança, a saber: (a) a bondade do Pai, e por isso diz "Pai nosso", conforme o que se lê no Evangelho segundo Lucas: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lho pedirem" (Lc 11, 13); e (b) a dimensão de seu poder, e por isso diz "que estais nos céus", como cantamos no Salmo: "Levanto os olhos para vós, que habitais nos céus" (Sl 122, 1).

7. Os três fins desta expressão. — Ora, as palavras "que estais nos céus" podem servir a três propósitos:

a) Antes de tudo, à preparação de quem irá rezar, <pois assim manda o Eclesiástico>: "Antes da oração, prepara a tua alma" (Eclo 18, 23). De modo que por "céus" entenda-se a glória celeste, como se lê em São Mateus: "Será grande a vossa recompensa nos céus" (Mt 5, 12). Ora, essa preparação deve consistir tanto na (i) imitação das coisas celestes, porquanto o filho tem o dever de imitar o pai, como escreve São Paulo: "Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial" (1Cor 15, 49), quanto na (ii) contemplação das realidades do céu, pois os homens costumam pensar com mais frequência no que diz respeito a seu pai e às coisas que amam, de acordo com o Evangelho segundo Mateus: "Porque onde está o teu tesouro, lá também está o teu coração" (Mt 6, 21). Por isso dizia o Apóstolo: "Nós, porém, somos cidadãos dos céus" (Fl 3, 20). A preparação requer, ademais, (iii) que se dirija a atenção às coisas do alto, de modo que não peçamos àquele que está nos céus senão bens espirituais: "Buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado" (Cl 3, 1) [1].

b) A expressão "que estais nos céus", em segundo lugar, pode referir-se à facilidade que Deus tem de nos ouvir, uma vez que está próximo de nós. Nesse sentido, as palavras "que estais nos céus" significam "que estais nos santos", nos quais Deus habita [2], segundo o profeta Jeremias: "Mas vós, Senhor, estais entre nós" (Jr 14, 9). Os santos, com efeito, recebem <nas Escrituras> o nome de "céus", conforme o Salmo: "Narram os céus a glória de Deus" (Sl 18, 2). Ora, Deus habita nos santos pela (i) fé, como testemunha a Epístola aos Efésios: "Que Cristo habite pela fé em vossos corações" (Ef 3, 17) [3]; pela (ii) caridade: "Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele" (1Jo 4, 16); e pela (iii) observância dos Mandamentos: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada" (Jo 14, 23).

c) Finalmente, a expressão "que estais nos céus" pode dizer respeito à capacidade que tem Deus de nos ouvir, de modo que por "céus" entendamos o céu físico, não no sentido de estar Deus encerrado nos céus corpóreos, pois "o céu e os céus dos céus não vos podem conter" (1Rs 8, 27), mas a fim de conotar que ele é (i) penetrante em seu olhar, pois do alto tudo contempla, segundo o Salmo: "Porque o Senhor olhou do alto do seu santuário" (Sl 101, 20); (ii) sublime em seu poder: "No céu estabeleceu o Senhor o seu trono" (Sl 102, 19); e (iii) estável em sua eternidade: "Vós, porém, Senhor, sois eterno" (Sl 101, 13) e "vossos anos não têm fim" (v. 28), o que também é dito nos Salmos em referência a Cristo: "Seu trono terá a duração dos céus" (Sl 88, 30). E o Filósofo afirma em I Sobre o Céu que, devido à sua incorruptibilidade, todos consideram o céu morada de espíritos [4].

8. Três motivos para confiar. — As palavras "que estais nos céus", portanto, transmitem-nos um tríplice motivo para orarmos com confiança, a saber: quanto ao poder divino, à familiaridade daquele a quem se pede e à conveniência do pedido.

a) O poder daquele a quem se pede está aqui implicado, se por "céus" entendermos os céus corpóreos [5]. Ora, ainda que Deus não esteja contido em nenhum lugar físico, como está escrito: "Porventura não enche a minha presença o céu e a terra?" (Jr 23, 24), dizemos, em todo o caso, que ele está presente nos céus corpóreos a fim de expressar duas coisas: de um lado, a extensão de seu poder; de outro, a sublimidade de sua natureza. (i) Afirmamos, pois, a extensão do poder divino contra os que opinam que tudo ocorre por necessidade em virtude <do movimento> dos corpos celestes [6]. Ora, de acordo com essa opinião, seria inútil pedir a Deus o quer que fosse. Isso porém é absurdo, uma vez que ele está nos céus como Senhor do firmamento e das estrelas: "Nos céus estabeleceu o Senhor o seu trono" (Sl 102, 19), como diz o Salmo. (ii) Referimo-nos ainda à sublimidade de sua natureza contra aqueles que, em oração, imaginam a Deus sob figuras e imagens corpóreas. Dizemos, pois, que ele está nos céus, a mais elevada das coisas sensíveis, a fim de expressar que a transcendência divina tudo excede, inclusive o desejo e entendimento humanos. Por isso, tudo quanto que se possa pensar ou querer está abaixo da grandeza de Deus. Por isso, diz-se no Livro de Jó: "Deus é grande demais para que o possamos conceber" ( 36, 26), nos Salmos: "O Senhor é excelso sobre todos os povos" (Sl 112, 4) e em Isaías: "A quem poderíeis comparar Deus?" (Is 40, 18).

b) A familiaridade de Deus, por sua vez, aqui está compreendida, se a palavra "céus" for tomada no sentido de "santos". Com efeito, muitos disseram que, por ser altíssimo, Deus não se ocupa dos problemas humanos. No entanto, cumpre levar em consideração que ele não só está perto, mas intimamente próximo de nós [7], já que os céus em que ele habita são os santos, <no dizer das Escrituras>: "Narram os céus a glória de Deus" (Sl 18, 2); "Mas vós, Senhor, estais entre nós" (Jr 14, 9). Ora, isso inspira aos que rezam uma dupla confiança, baseada (i) na proximidade de Deus, como dizem os Salmos: "O Senhor se aproxima dos que o invocam" (Sl 144, 18) e o Evangelho: "Quando orares, entra no teu quarto" (Mt 6, 6), ou seja, no teu coração; e (ii) no patrocínio dos outros santos, por cuja intercessão podemos conseguir o que pedimos, conforme se lê em Jó: "Chama, pois, algum defensor" ( 5, 1) e em São Tiago: "Orai uns pelos outros para serdes curados" (Tg 5, 16).

c) A oração torna-se também conveniente e idônea em virtude da expressão "que estais nos céus", na medida em que o termo "céus" designa os bens espirituais e eternos em que consiste a bem-aventurança. E isso por duas razões. Em primeiro lugar, porque assim somos (i) estimulados a desejar as coisas celestes. Com efeito, o nosso desejo deve inclinar-se para onde o nosso Pai se encontra, pois é ali que está guardada a nossa herança: "Buscai as coisas lá do alto" (Cl 3, 1), <renascidos>, nas palavras de São Pedro, "para uma herança imarcescível, reservada nos céus" (1Pd 1, 4) [8]. Em segundo, porque assim (ii) somos instruídos a levar uma vida celeste, a fim de nos assemelharmos ao Pai, que está nos céus: "Qual o homem celestial, tais os homens celestiais" (1Cor 15, 48). E estas duas coisas, o desejo e a vida celestes, fazem-nos idôneos para pedir e tornam conveniente a nossa oração.

Notas

  1. Como se sabe, a prática eficaz e frutuosa da oração requer basicamente dois tipos de preparação: a) uma remota, que não é mais do que "o cuidado que se deve pôr em levar uma vida em conformidade com a oração" (A. Tanquerey, Compendio de Teología Ascética y Mística. Trad. esp. de Manuel M. Rubio. 4.ª ed., Madrid: Palabra, 2002, p. 369, n. 689), o que exige, entre outras coisas, silêncio, recolhimento habitual, fuga da vã curiosidade, guarda do coração e mortificação dos sentidos — externos e internos —, aprender a entregar-se ao que se está fazendo etc. (cf. A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, p. 639, n. 482); b) outra próxima, referente tanto às circunstâncias (tempo, lugar) quanto às disposições (postura, estado de atenção ou dissipação) que precedem de modo mais ou menos imediato o início da oração.
  2. Abundam no Novo Testamento as referências ao fato de que Deus, uno e trino, habita nas almas que se encontram em estado de graça (cf., por exemplo, Jo 14, 23; 1Jo 4, 16; 1Cor 3, 16s; 6, 19; 2Cor 6, 16; 2Tm 1, 14). Esta presença recebe o nome de inabitação trinitária e consiste numa modalidade especial da chamada presença de imensidade, pela qual Deus está efetivamente em tudo e em todos, na medida em que a) dá o ser a todas as criaturas, b) vê sem cessar tudo o que criou e c) tem submetido ao seu poder tudo quanto existe. O que a inabitação acrescenta a essa forma de presença é que Deus passa a estar em uma alma justificada, não só como Autor e Criador, mas também a título de Pai, uma vez que a graça santificante, fazendo-nos participar da natureza divina (cf. 2Pd 1, 4), constitui-nos verdadeiramente filhos de Deus, e de Amigo, já que é impossível que tal graça subsista sem a caridade, que não é senão uma amizade entre Deus e o homem (cf. S. Th. II-II, q. 23, a. 1; A. Royo Marín, op. cit., p. 58s, n. 41).
  3. Em S. Th. III, q. 62, q. 5, ad 2, ao comentar esta passagem da Epístola aos Efésios, Santo Tomás afirma que é a virtude de Cristo (virtus Christi) que se une a nós pela fé. Com efeito, uma vez que a humanidade santíssima de Nosso Senhor, unida hipostaticamente à pessoa divina do Verbo, é o instrumento de que ele se serve para transmitir-nos a vida sobrenatural da graça, todas as vezes que dele nos aproximamos com fé, a exemplo da hemorroíssa de que nos fala o Evangelho (cf. Mt 9, 20ss; Mc 5, 25-34; Lc 8, 43-48), abrimo-nos ao influxo daquela força salutar (cf. Lc 6, 19) com que ele, ao menor toque, curava enfermidades e expulsava demônios. "Cada vez", portanto, "que nos dirigimos a ele pelo contato de nossa fé vivificada pela caridade, sai de Cristo uma virtude santificante que tem sobre nossas almas uma influência benéfica" (A. Royo Marín, op. cit., p. 81, n. 59).
  4. Cf. Aristóteles, De Cælo I․3, 270b5-10.
  5. Como explica o Aquinate em S. Th. I, q. 68, a. 4, co., as Escrituras empregam o termo "céus" em três acepções distintas. Num primeiro sentido, próprio e natural, designa qualquer corpo sublime, luminoso atual ou potencialmente, e incorruptível por natureza; divide-se em céu empíreo, aquoso ou cristalino e sidério, o que parece corresponder, em certa medida, ao que entendemos hoje por céu astronômico ou sideral. Pode significar ainda o que participa das propriedades do corpo celeste, ou seja, da sublimidade e luminosidade, e nesta acepção designa, por exemplo, o espaço compreendido entre as águas e a Lua. Num terceiro sentido, "céu" se diz em sentido metafórico para expressar ora a própria Trindade, ora o conjunto de bens espirituais em que consiste a bem-aventurança eterna (isto é, o gozo fruitivo e a visão de Deus face a face), como se mencionará pouco mais abaixo, no item c deste mesmo número (cf. A. Royo Marín, Teología de la Salvación. Madrid: BAC, 1956, pp. 473-478, nn. 323-326).
  6. O Aquinate se opõe a esta doutrina também em De iudiciis astrorum, uma pequena carta — endereçada possivelmente a Reginaldo de Piperno — na qual afirma que, embora se possa admitir que a virtude dos corpos celestes se estende a produzir certas modificações nos corpos inferiores, nem por isso se deve sustentar que a vontade humana está sujeita à necessidade dos astros. "Do contrário", escreve ele, "pereceria o livre-arbítrio, sem o qual não se atribuiria ao homem nem o mérito das boas obras nem a culpa das más. E por isso todo cristão deve sustentar com certeza que tudo quanto depende da vontade do homem, como é caso de todas as obras humanas, não está sujeito à necessidade dos astros; e por isso se diz em Jeremias: 'Nem temais os sinais celestes, como os temem os pagãos' (Jr 10, 2)".
  7. Cf. Agostinho de Hipona, Conf. 3․6․11 (PL 32, 688).
  8. A citação está incompleta também no original. Omitem-se as palavras iniciais "incorruptível" e "incontaminável".

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A teologia por trás do uso do véu na Igreja
Espiritualidade

A teologia por trás
do uso do véu na Igreja

A teologia por trás do uso do véu na Igreja

O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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A nobre língua latina, que alimentou a piedade durante séculos; a serenidade do canto gregoriano; o esplendor dos paramentos sacerdotais e a visível ênfase na natureza sacrificial da Missa, em que o Senhor da glória torna presente de novo sua oferenda na Cruz em benefício dos vivos e dos mortos — em maior ou menor grau, todas essas coisas e outras mais desapareceram rapidamente depois do Concílio Vaticano II, sob o ilusório pretexto de que o “homem moderno” precisava de algo mais imediatamente acessível do que solenidade, silêncio e sacralidade. Isso foi sem dúvida um grande erro, como leigos, sacerdotes e até bispos têm afirmado de modo cada vez mais franco nas últimas décadas. Em grande medida, o trabalho de restauração tem sido relegado ao nível das bases.

Em debates sobre as reformas pós-conciliares, católicos tradicionais muitas vezes insistem no banimento do latim, do canto gregoriano, da celebração ad orientem e da recepção da Comunhão de joelhos. Isso não surpreende, já que essas mudanças são as mais perceptíveis, e foi muito profundo seu crescente efeito sobre a natureza do culto católico. Porém, houve outras mudanças sutis que com o passar do tempo também afetaram nosso modo de compreender a Fé. Um exemplo é o abandono da genuflexão na seguinte passagem do Credo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine, et homo factus est. Da mesma forma, a maioria das pessoas já não curva a cabeça por reverência quando é pronunciado o santíssimo nome de Jesus.

Corte de uma pintura de José Gallegos y Arnosa.

Uma dessas mudanças foi a extinção quase completa do uso do véu pelas mulheres nas igrejas, quando estão em momento de oração. Antes do Concílio, quando alguém entrava numa igreja para assistir à Missa, via todas as mulheres com a cabeça coberta, fosse por boinas, gorros, véus ou toalhas de renda. Embora ocasionalmente possamos ver hoje mulheres de véu ou chapéu numa Missa Novus Ordo (esse número é maior em países não ocidentais que ainda não foram tomados pelo espírito moderno), em geral, o costume desapareceu fora de locais em que a Missa tradicional em latim sobreviveu ou retornou. E mesmo nestes locais o costume não é de modo algum praticado universalmente. Mulheres que adotam uma postura defensiva podem afirmar que o direito canônico não exige o uso do véu, que o bispo não o autoriza e que o pároco não o menciona. Na verdade, aqueles que olham para o uso do véu como sinal de uma era em que (creem eles) as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe alegram-se com o fato de o véu ter sido marginalizado.  

Porém, antes de descartarmos a mudança como exemplo de algo ultrapassado que foi deixado de lado por não ser mais relevante, temos de analisar o que significava o costume em si e se ele simboliza uma verdade importante, tão válida para nós como para nossos predecessores. Os costumes de piedade popular muitas vezes carregam consigo raízes religiosas e humanas mais profundas do que podemos pensar inicialmente. Neste mundo agitado, coisas boas do passado são muitas vezes abandonadas porque as pessoas se esqueceram de uma verdade fundamental que precisa, mais do que nunca, ser escutada e seguida.

O ensinamento do Apóstolo

A tradição do uso do véu pelas mulheres nas igrejas tem como fundamento as palavras de São Paulo: 

Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. Com efeito, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos (1Cor 11, 7-10). 

A palavra costumeiramente traduzida por “véu” é exousia, que significa “poder” ou “autoridade” [1]. Uma tradução bem literal da passagem ficaria assim: “a mulher deve ter um poder [ou autoridade] sobre sua cabeça”. Ocasionalmente, vemos o texto transformado numa paráfrase: “um poder sobre sua cabeça, simbolizado por um véu”. Isso está mais claro, mas ainda podemos nos perguntar: por que um véu? Temos de voltar à tradição da Igreja para encontrar a resposta.

De acordo com alguns Padres e Doutores da Igreja, essa passagem se refere aos anjos que encobrem seu rosto quando estão na presença de Deus adorando-o diante de seu trono [2]:

Eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!” (Is 6, 1-3).

Os anjos cobrem ou vendam seu rosto como sinal de reverência perante o poder e a majestade gloriosos de Deus; estão sob sua autoridade. São Paulo estaria dizendo, então, que assim como os anjos cobrem seu rosto diante do trono de Deus, também as mulheres deveriam cobrir sua cabeça para adorar. Mas por que apenas as mulheres? Os homens não estão também na presença de Deus? A resposta pode ser encontrada numa série de analogias que São Paulo realiza numa passagem anterior do mesmo capítulo. “Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, senhor de Cristo é Deus” (1Cor 11, 3). Isto é, Cristo está para o Pai como o marido está para Cristo, e o marido está para Cristo assim como a mulher está para o marido — numa sequência de autoridade decrescente. Observemos como é notável a última parte dessa analogia: em seu relacionamento com o marido, a mulher cristã é comparada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em sua relação com o Pai. Portanto, o sentido último da vocação de uma mulher como esposa e mãe é participar, imitar e manifestar o mistério da missão de Cristo: sua entrega é um reflexo do sacrifício de Cristo. 

Uma imitação específica de Cristo e da Igreja

Para esclarecer ainda mais o sentido dessa passagem, temos de levar em conta o que São Paulo diz aos Efésios ao acrescentar outra dimensão ao simbolismo. “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (Ef 5, 22-24). O marido está para a mulher assim como Cristo está para a Igreja. A partir disso, vemos que do mesmo modo uma esposa é chamada a imitar e participar do trabalho da Igreja, que segue Cristo e este segue o Pai. Um grande mistério sobrenatural é prefigurado nas coisas terrenas: a obediência das esposas está enraizada na obediência de Cristo ao Pai e na submissão da Igreja ao Senhor, e brota delas.

A obediência a que uma mulher se submete no matrimônio é uma escolha, uma resposta do seu coração a um dom do Senhor; assim como uma religiosa promete obediência a seus superiores como parte da vocação de servir a um só Senhor. A obediência da esposa está inserida no contexto de um sacramento; não é uma questão de dependência natural ou de inferioridade. Uma esposa se submete ao seu marido principalmente por amor a Deus e em obediência ao chamado dele. O sacrifício de si, mantido pela graça de Deus e corretamente entendido pela esposa, não ameaça sua condição de igualdade em relação ao marido [3].

O Filho é igual ao Pai (como afirmou Orígenes e foi posteriormente definido); no entanto, o Filho é obediente ao Pai. Uma coisa tão suavemente conhecida em muitas relações de amor humano está, além da imaginação, presente nos segredos centrais do céu. Pois o Filho em seu eterno agora deseja a subordinação, e ela lhe pertence. Ele quer que sejam assim; com obediência e de modo filial Ele é inseparável do Pai, assim como o Pai é, com autoridade e modo paternal, inseparável dele. E todas as três Pessoas são eternamente inseparáveis — e iguais [4].

No interior da Santíssima Trindade, a distinção de Pessoas não põe em perigo a unidade da Divindade, compartilhada igual e essencialmente por Pai, Filho e Espírito Santo. Na Trindade, essa hierarquia-na-igualdade é refletida na ordem da salvação ocasionada pelo envio de Cristo pelo Pai, na relação esponsal entre Cristo e a Igreja e, novamente, na ordem do matrimônio.

“A Virgem da Anunciação”, por Antonello de Saliba.

A ferida da rebelião pecaminosa foi curada pela morte de Cristo e a salvação da homem foi obtida precisamente por meio da obediência à vontade de Deus, que teve início com o fiat da Virgem Maria (“Faça-se em mim segundo a vossa palavra”). De modo semelhante, visto como uma participação no mistério de Cristo e de sua Igreja, o relacionamento da esposa com seu marido é salvífico; para ser mais preciso, é um sacrifício livremente consagrado ao único sacrifício de Cristo e inserido nele. Todos os cristãos são chamados a imitar a Virgem, a se unirem a Cristo e mutuamente nele, mas essa vocação tem naturezas distintas para homens e mulheres. Embora Maria seja o arquétipo para todos os cristãos, a vida dela como modelo da verdadeira feminilidade apresenta certas verdades aplicáveis particularmente às mulheres. O véu e qualquer outro símbolo associado às mulheres deve ser considerado à luz do fiat da Virgem, seu abandono à vontade de Deus, o ato por meio do qual ela esmagou a cabeça da serpente — assim como a submissão de Cristo à vontade do Pai “até a morte” significou a derrota de Satanás. “Eis aqui a escrava do Senhor.” “Não a minha, mas a vossa vontade seja feita.” Ao se oferecer, a Virgem se tornou a “ajudante” necessária para que o novo Adão, o grande Sumo Sacerdote, oferecesse o único sacrifício por todos: seu Corpo e Sangue. 

A corresponsabilidade do marido

Para obtermos um quadro completo, temos de nos lembrar do referido ensinamento que São Paulo transmite aos maridos no capítulo 5 da Carta aos Efésios. O Apóstolo diz que os maridos devem representar Cristo; devem servir como cabeça da igreja doméstica. O que isso significa? A verdadeira autoridade vinda dos sacramentos vivificantes tem pouco a ver com a compreensão que o homem caído tem do poder e do governo sobre outros em benefício próprio. 

Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir (Mt 20, 25-28). 

Os maridos devem agir como Cristo Rei — o Rei entronizado na Cruz: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). A autoridade do marido é legítima quando exercida segundo a imitação de Cristo. Santo Tomás de Aquino apreende bem esse ponto: “A esposa sujeita-se a Deus submetendo-se ao seu marido sob Deus” [subiicitur viro sub Deo], ou seja, ela é submissa ao marido na medida em que ele mesmo está “sob Deus”, isto é, governando de acordo com os mandamentos de Deus [5].

Portanto, em todo matrimônio marido e mulher são chamados a imitar e manifestar um ao outro e ao mundo o amor de Cristo e da Igreja, ele mesmo moldado pelo mistério de amor que existe no interior da Santíssima Trindade. Essa imitação e manifestação só pode ocorrer pela graça de Deus, o Deus que é Amor; ela requer oração constante, além de discernimento, paciência e perseverança. O equilíbrio entre hierarquia-na-igualdade e igualdade-na-hierarquia só pode ser mantido pela consciência permanente de nossa vocação para amar — governar e servir mediante o amor e pelo amor. O relacionamento adequado entre marido e mulher e o precioso dom da procriação foram afetados pela Queda (cf. Gn 3, 16), como podemos ver nos homens que abusam de sua autoridade como maridos e em homens que são muito tímidos ou efeminados para assumir suas responsabilidades. Podemos ver todo tipo de problema: homens que governam para satisfazer seu egoísmo; homens que se recusam a governar pelo bem de qualquer pessoa; mulheres que se recusam taxativamente a ser governadas; mulheres que agem como capachas e não questionam abusos de autoridade. Creio que esse é o motivo pelo qual achamos tão estimulante e encorajador o exemplo de um bom casamento no qual os cônjuges vivem em paz e alegria. Ele mostra que isso pode realmente ser feito por meio do esforço humano determinado e a graça de Deus resultante de nossas súplicas.

Deste modo, na teologia de São Paulo o véu é um símbolo de consagração e autossacrifício. Assim como a Igreja se submete a Cristo e Cristo Filho obedece ao Pai, uma esposa está “sob” o poder e a proteção de seu marido. Do ponto de vista litúrgico, faz sentido que a mulher porte um sinal exterior dessa verdade interior, um símbolo público e visível de sua vocação como esposa, especialmente quando está perante o Senhor em adoração. O véu dá testemunho silencioso da dignidade e poder dela em sua submissão ao marido. Em sentido lato, ele é sacramental: um simples objeto que simboliza uma profunda realidade espiritual. Assim como as religiosas dão testemunho ao mundo por meio de seu hábito (incluindo o véu), da mesma forma as esposas dão testemunho da natureza especial do matrimônio cristão ao cobrirem sua própria cabeça na Missa. Esse belo símbolo dá à esposa uma oportunidade de viver sua vocação de modo mais pleno por fazer com que ela e outras pessoas, inclusive suas filhas, recordem seu traço de humildade mariana. Podemos ir mais longe: esse delicado símbolo daquilo que é exemplo perfeito da “pequenez” teresiana pode ser um meio poderoso de reparação para aqueles que se rebelam contra sua identidade ou são infiéis ao seu chamado.

Tradição codificada em símbolos

Considerando o que vimos, é possível explicar outro detalhe de 1Cor 11 que pode passar despercebido. No início do capítulo, o Apóstolo insiste em que os cristãos de Corinto devem preservar as instruções que ele lhes transmitira. “Eu vos felicito, porque em tudo vos lem­brais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti. Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, e o senhor de Cristo é Deus.”

Parte da sagrada tradição que ele transmitiu a eles é o ensino sobre as esposas e a submissão delas aos maridos, e é nesse contexto que o “poder” simbolizado pelo véu entra em sua exortação. Em outras palavras, São Paulo exorta todos a se esforçarem para “imitar Cristo” (1Cor 11, 1) a fim de preservar as tradições que contêm e confirmam a boa doutrina e uma vida santa. “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Ts 2, 15). Esse é com certeza um ensinamento ao qual devemos nos aferrar no mundo moderno. A atual desintegração da vida familiar ocorre, até certo ponto, porque a tradição apostólica da hierarquia familiar não tem sido preservada nem pela família nem pela própria hierarquia eclesiástica.

O ensinamento de São Paulo parece deixar claro que o uso de algo que sirva para cobrir a cabeça só possui sentido “sacramental” pleno para mulheres casadas ou comprometidas  (incluindo religiosas que são casadas com Cristo e noviças que estão se preparando para esse casamento místico). Quando a estudamos de modo contextualizado, vemos que a recomendação segundo a qual “a mulher deve ter um véu sobre sua cabeça”, entendida  como símbolo do poder do homem (exousia), refere-se não ao homem e à mulher enquanto tais, mas às mulheres casadas relativamente aos seus maridos. (Também notamos, porém, que o mesmo capítulo dá instruções aplicáveis a todas as mulheres; São Paulo alterna entre as mulheres em geral e as casadas, dizendo coisas diferentes apropriadas a cada grupo.) Por essa razão, o costume tradicional de todas as mulheres usarem véu na igreja parece se justificar no chamado natural e sobrenatural de cada mulher a ser esposa — seja de Cristo, na vida religiosa, seja de um marido em um casamento cristão. Mesmo antes de esse chamado ser atualizado, e ainda que isso jamais ocorra, trata-se de uma realidade ontológica e espiritual que precisa ser reconhecida, honrada e inserida no grande mysterium fidei celebrado na Santa Missa.

Razões práticas

Também há razões práticas para o uso do véu, e como elas se aplicam tanto às mulheres casadas como às solteiras, corroboram a antiga convenção que prescrevia o uso do véu por todas as mulheres na igreja.

Antes de mais nada, o uso do véu pode evitar a distração tanto para quem o usa como para outras pessoas. Quantas vezes não nos pegamos olhando para outras pessoas na igreja, em vez de nos concentrarmos na oração? O véu pode ser útil às mulheres. Aquelas que estão protegidas e cobertas por ele podem se concentrar melhor [6], recordando-se qual é a principal razão pela qual estão na igreja: trata-se de um momento sagrado, e estou aqui para adorar a Deus.

Outra razão para o uso do véu na igreja é certa “privacidade”, uma necessidade de estar a sós com Deus, em vez de manter uma postura de intimidade e sociabilidade com outras pessoas. Na Missa, o divino Esposo visita a alma cristã esponsal; deveríamos estar preparados para a visita dele. A moderna ênfase desmedida na dimensão social do culto frequentemente leva a uma perda de contato com a única realidade que torna todo o resto real: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que deveria ser recebido com plena e absoluta atenção da alma. O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Uma mulher que usa véu diz ao seu próximo: estamos aqui reunidos para adorar a Deus. Assim, ela presta um serviço aos outros, ajudando-os a se lembrarem o que é realmente a Missa. No final das contas, outras mulheres podem seguir-lhe o exemplo.

Portanto, há muitas razões que mostram a conveniência do uso do véu. Para as esposas, sobretudo, tem a mesma natureza que o hábito tem para as religiosas: é um sinal de seu chamado à consagração ao Senhor, com e por meio de seu marido. Em vez de ser um sinal de opressão das mulheres, é sinal de um amor genuíno e comprometido, assim como a Cruz é o maior sinal de amor já dado à humanidade.

Até esse modesto costume de nossos ancestrais é, então, parte de uma renovação litúrgica mais ampla e bem-sucedida que incorpora o passado adequadamente, compreende as verdadeiras necessidades do presente e preserva a beleza e o simbolismo do culto católico para os séculos vindouros. 

Notas

  1. Segundo Ronald Knox, alguns comentadores afirmam que Paulo está tentando, por meio dessa palavra grega, cunhar uma palavra hebraica que signifique o véu usado tradicionalmente por uma mulher judia.
  2. Esses anjos, usualmente identificados como querubins, são descritos dessa forma por Isaías, Ezequiel e o Apocalipse de São João, e sistematicamente em toda a tradição rabínica judaica. Para referências bíblicas, ver Cornélio a Lápide, Commentaria in Scripturam Sacram (Paris: Vives, 1868), 18: 355-56.
  3. A doutrina segundo a qual as mulheres não são iguais aos homens é herética e análoga à heresia do subordinacionismo, que nega a igualdade entre o Filho e o Pai. Isso está claro na encíclica Casti Connubii, do Papa Pio XI, que ensina que homens e mulheres possuem “igualdade na diferença” e “igualdade em chefia e subordinação”.
  4. Charles Williams, citado em Mary McDermott Shideler, The Theology of Romantic Love, Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Co., 1962, 81-82.
  5. Cf. Lectura super primam epistolam ad Corinthios, c. XI, l. 3, n. 612.
  6. Obviamente, estou falando de um véu mais longo, e não da versão estilo “toalhinha” que vemos às vezes. Não precisa ser feito de renda (embora esse tecido tenha a conveniência de poder ser afixado ao cabelo), mas pode ter o comprimento de um lenço comum de um material leve. Há também a questão dos chapéus. Embora seja verdade que chapéus possam cumprir a função de cobrir a cabeça (e de fato já cumpriram), pertencem mais ao mundo da moda do que à esfera da vida sacramental e litúrgica. Eles não possuem o peso simbólico pleno do véu.

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Eu estava indo para o Inferno!
Testemunhos

Eu estava indo para o Inferno!

Eu estava indo para o Inferno!

Com uma Igreja muda a respeito do pecado, foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente…

Pedro Penitente16 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Eu ainda me lembro do dia da minha conversão. Era julho, e eu estava de férias, na casa de alguns parentes, sentado diante de uma tela de notebook e lendo o livro “Preparação para a morte”, de Santo Afonso Maria de Ligório. Como fui me deparar com essa obra eu já não me lembro mais. Sei que o trecho que mexeu comigo estava num capítulo sobre os maus hábitos, e ele dizia o seguinte:

...o mau hábito os privou da luz. Diz Santo Anselmo que o demônio procede com certos pecadores como aquele que tem um passarinho preso por um cordel.

Ele o deixa voar, mas, quando quer, o faz cair por terra. Tal semelhança — afirma o santo — é aplicável àqueles que são dominados pelo mau hábito. Alguns há, acrescenta São Bernardino de Sena, que pecam sem que a ocasião se apresente. Compara-os este grande santo aos moinhos de vento que qualquer aragem faz girar e que continuam em movimento mesmo que não haja grão para moer, e, às vezes, até rodam contra a vontade do dono. Estes pecadores, observa São João Crisóstomo, vão forjando maus pensamentos, sem ocasião, sem prazer, quase contra sua vontade, tiranizados pela força do mau hábito.

Porque, segundo disse Santo Agostinho, o mau hábito se converte logo em necessidade. O costume, segundo nota São Bernardo, se muda em natureza. Daqui se segue que, assim como ao homem é necessário respirar, assim parece que o pecado se torna necessário para aqueles que habitualmente pecam e se fazem escravos do demônio.

Quando li aquelas palavras, senti-me perdido. Era a mim que elas se referiam! A mim, mais um infeliz fruto da educação liberal desta época; a mim, que tive um contato muito precoce com pornografia e ainda no começo da minha juventude aprendi a me masturbar, e a achar que não havia mal nenhum naquilo; a mim, que já olhava para todas as mulheres à minha volta como objetos sexuais à disposição, como as prostitutas dos filmes pornográficos a que eu assistia… 

Eis que eu estava ali. O “passarinho preso por um cordel”, o viciado que peca “sem que a ocasião se apresente”, o infeliz atormentado por “maus pensamentos”, o escravo do demônio… era eu, era eu

Que vergonha a minha, mas ao mesmo tempo… “eu preciso mudar”, disse a mim mesmo, “não posso continuar nessa situação”, “tem de haver uma saída”. Daquele dia em diante lembro-me de ter tomado a peito a batalha pela castidade. Eu não acreditava de verdade que aquilo fosse possível, porque, desde que meu corpo se tinha despertado para a sexualidade, eu a havia vivido de forma distorcida e depravada. Mas decidi “pagar pra ver” e, com a graça de Deus, pouco a pouco fui sendo transformado e redimido.  

De lá para cá muitos anos se passaram, muitas recaídas eu experimentei, mas hoje estou de pé e buscando dia após dia forças, nos sacramentos e na oração, para não voltar a essa situação terrível com que comecei minha juventude. Minha juventude, que poderia ter sido muito pior, que poderia ter sido arruinada, não fosse este santo do século XVII chamado Afonso me alertar, através de um arquivo “pdf”, que eu, com meu mau hábito, estava sendo escravizado por Satanás… 

Por isso, esse testemunho é, em primeiro lugar, um canto de gratidão a Deus e a Santo Afonso, instrumento dEle em minha vida. 

Mas esse testemunho também é um grito de socorro: foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente… Sim, porque esse “puxão de orelhas”, ou melhor, esse verdadeiro “chacoalhão”, eu não o iria receber jamais do pároco da minha cidade, nem no púlpito, nem no confessionário. Se eu me aconselhasse com ele para saber o que fazer, talvez ele me dissesse para “não me preocupar” com isso, para aproveitar a minha juventude ou algo do tipo. 

A começar pelo fato de que muitos padres hoje, infelizmente, não pregam nem atendem confissões: o púlpito foi abandonado pela transformação do sacerdote em “mais um” do povo, e o confessionário foi substituído pelas “salinhas” de consulta psicológica (e nelas, talvez, a gente escute com mais facilidade justamente o contrário do que ensina a doutrina de sempre da Igreja). Na Missa, o que temos são as homilias “motivacionais”, cheias de obviedades humanas e vazias de fé divina, cuja mensagem central você acha em um livro de autoajuda qualquer. Combinadas com a eloquência, essas palavras “bonitas” talvez até arranquem aplausos e lágrimas da “plateia” que as escuta; conversão, porém, verdadeiro arrependimento dos próprios pecados e confissão… disso nada se fala. Alguns padres hoje estão mais para coaches que verdadeiros curas de almas.

Como consequência disso, o que temos em nossas igrejas é um punhado de gente que, ou por ignorância ou por malícia mesmo, leva a vida como “escravos do demônio”. As pessoas vivem afundadas em seus maus hábitos, não se sentem minimamente incomodadas com o estilo de vida mundano que têm, e vão à igreja por puro hobby, como quem vai a um clube (às vezes até trajados a rigor). A conversão que eles conhecem é a do “bom-mocismo”: importa comportar-se, ter boas maneiras, não usar drogas e ser amigo de todo o mundo. No restante cada um é livre para fazer o que bem entende, desde que não incomode ninguém.

Esse infelizmente é o cenário de muitas paróquias Brasil e mundo afora. Como em muitas delas a Tradição da Igreja simplesmente desapareceu, como o vínculo que nos une — a nós, católicos do século XXI — com os fiéis católicos de todos os séculos anteriores, com os santos dos tempos passados, foi dissolvido sem que ninguém desse notícia, o que restou a muitas pessoas foi buscar recursos na internet e descobrir ali o que anos de frequência paroquial lhes sonegaram. 

Entenda-me bem: não se trata de defender aqui uma espécie de “catolicismo de internet”. (A imagem que vem à mente, com a expressão, é a de um indivíduo egoísta, sentado em frente a uma tela de computador, disposto a apontar o dedo para o mundo inteiro, exceto para si mesmo; a convocar uma “cruzada” contra os infiéis dentro da Igreja, ao mesmo tempo que evita “cruzar” com os próprios defeitos para mudá-los.) Nesse campo todo cuidado é pouco. Não podemos esquecer que a Igreja é uma realidade viva ainda hoje, na sua hierarquia, nos sacramentos e nos sacerdotes que os administram. Continua sendo verdade que unus Christianus, nullus Christianus, “um cristão sozinho não é cristão nenhum”. 

Mas eu também preciso pensar na grande providência que é a internet para a formação dos católicos hoje. Com ela, hoje, temos acesso fácil, instantâneo e gratuito a uma verdadeira biblioteca de bons livros católicos, que nos põem em contato com a fé de sempre e nos dão uma lufada de ar fresco, uma verdadeira libertação da falta de catequese, e até mesmo da má formação, que tantos de nós recebemos em nossa infância, seja dentro de casa, seja nas nossas paróquias. 

Não fosse esse instrumento, eu muito provavelmente ainda estaria deitando e rolando nos vícios do meu começo de juventude… Em outras palavras, eu estaria indo para o Inferno

Esse drama que eu estava vivendo, no entanto, é o drama atual de muitíssimas pessoas (católicas batizadas!), que se encontram na mesmíssima situação de miséria em que eu estava dez anos atrás. Quando elas ouvirão a voz da verdade (se é que terão a chance de ouvi-la)? Quando procurarão o sacramento da Confissão e voltarão para a amizade de Deus (se é que o farão)? Até que despertemos de nossa letargia, de nossa mudez e de nossa covardia em pregar a doutrina de sempre da Igreja, para salvar os vivos, talvez Deus precise continuar ressuscitando os mortos...

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Por que ficou tão difícil defender o óbvio?
Sociedade

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

É normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador...

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Continuamos a cambalear por conta dos golpes desferidos pela cultura da morte. O ataque à vida, e particularmente à família, instituição que gera e alimenta a vida, prossegue implacavelmente. Agora, nossos governos e tribunais deram o nome de “casamento” a um tipo de relacionamento antinatural e estéril, que noutra época não se poderia mencionar num ambiente respeitoso. Ser enxovalhado dessa maneira pode ser desorientador, e temos visto até pessoas boas começando a falar como se tivessem sido atingidas na cabeça muitas vezes.

Infelizmente, temos de admitir: nós aceitamos ser encurralados. Todavia, podemos mudar o ímpeto dessa luta, assumindo, em primeiro lugar, o controle da conversa, para que não sejamos controlados por chavões que servem apenas como distração; temos, por isso, de afastar o debate da palavra “casamento”, da qual tanto se abusa, e focar na palavra “matrimônio”, que pressupõe um vínculo que dá origem à maternidade. E não nos esqueçamos de acrescentar o adjetivo “santo”, que aponta para a sacralidade do ato diante de Deus.

Dessa maneira, levamos a discussão de volta ao princípio do que é uma família e qual é o seu papel na sociedade. Ao longo de toda a história humana, do mundo antigo ao moderno, a família sempre foi o “tijolo” fundamental da civilização. E é o que constrói, de fato, não apenas as quatro paredes do lar, mas também as paredes que protegem a cidade. Portanto, destruir a família equivale a destruir a sociedade, e redefinir a família é essencialmente o mesmo que destruí-la.

Se realmente quisermos ganhar essa batalha, deveríamos ler muito mais G. K. Chesterton, por exemplo. Na verdade, todos deveriam lê-lo. Chesterton é um defensor da fé, da família, da vida e — o que é especialmente necessário para os dias de hoje — ele é um defensor da normalidade. Afinal, é mesmo normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É mesmo normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador. Por isso Chesterton pode ajudar bastante.

Fundamentalmente, protegemos o lar porque é um lugar de liberdade, ainda que às vezes seja difícil defini-la. A esse respeito, Chesterton argumenta que o mundo fora da casa — o escritório, a empresa, o banco, a loja — é mais regrado e restritivo, além de ser menos respeitoso com a dignidade humana e a liberdade do que o lar. Vejam que o comércio está sempre preocupado com a moda, assim como a chamada “vida social”. Ambos estão sempre em busca do prazer, o que é bem diferente da felicidade; trata-se de uma questão de gosto, o qual acaba conduzido justamente pela moda. Assim, as pessoas terminam mais presas ao pequeno, estranho e badalado mundo fora do lar do que ao vasto, belo e permanente mundo dentro do lar.

Chesterton diz: “Reclamo da tendência antidoméstica porque ela é tola. As pessoas não sabem o que estão fazendo, porque não sabem o que estão desfazendo”. Toda discussão, acrescenta ele, é “uma evasão ou fuga isolada” que não pretende enfrentar o seguinte: para que serve uma família e como ela está sendo destruída.

Mas como chegamos a este ponto? Chesterton viu há mais de um século que isso aconteceria. O colapso moderno da família, diz ele, deve-se à “emancipação sexual”. Essa expressão abrange muitas coisas que estão interligadas: a perda dos papéis distintos do homem e da mulher, do marido e da esposa, do pai e da mãe; a desonra às promessas matrimoniais, que levou ao divórcio, à segunda união e a crianças com um ou três pais; a relutância à própria realização dos votos, que gerou a epidemia de “coabitação”, a qual, por sua vez, perpetua a infidelidade, a ilegitimidade e o abuso violento; a praga da pornografia, que tenta fazer do sexo algo solitário; e, agora, a mais recente novidade, o escárnio chamado “casamento homossexual”. Tudo isso é parte da “emancipação sexual”, ou seja, “sexo sem sexo”, a vã tentativa de nos libertarmos não apenas do vínculo matrimonial, mas das consequências e responsabilidades da intimidade matrimonial. É também a completa negação do fato evidente de que o sexo gera bebês e o melhor lugar para eles é uma família.

No entanto, destruímos a família e o fizemos sem pensar no que a substituiria. Chesterton diz: “Ninguém jamais discutiu qual seria a alternativa à Família. A única opção óbvia é o Estado… A terrível punição para a emancipação sexual não é a anarquia, mas a burocracia.”

Temos de fazer com que as pessoas entendam isso. Quando uma sociedade está inflamada pela luxúria, deve encontrar uma maneira de manter a ordem enquanto gratifica a si mesma. Inicialmente, a medida é sutil, mas de repente passa a ser oficial. A emancipação sexual leva à escravidão. Embora a escravidão da luxúria seja um aprisionamento pessoal, a emancipação sexual em larga escala põe a sociedade num estado de servidão. O crescimento do governo implica a perda da liberdade, pois o Estado substitui o papel dos pais. 

E isso também leva a ataques contínuos contra aqueles que ainda vivem em família, pois o Estado obriga as empresas privadas a disponibilizar contracepção e aborto, a educação pública impõe mentiras para as crianças e as novas leis e camadas de burocracia implementam à força a redefinição do matrimônio e da família. As novas leis se intrometem em todos os aspectos de nossa vida, particularmente na dimensão mais sagrada e importante dela: nossa relação com Deus. A emancipação sexual é inimiga da liberdade e, particularmente, da liberdade religiosa.

É por isso que a Igreja defende a família. Ela é o tijolo fundamental da sociedade, mas a religião é o cimento que mantém os tijolos unidos. A Sagrada Família é o modelo de família humana e também foi atacada pelo Estado quase imediatamente. A Igreja ocupa a posição ingrata de ter de salvar almas numa sociedade ímpia que quer destruí-las. Diz Chesterton: “Quando Deus é suprimido, o governo torna-se Deus.” Mas este não é o Deus que adoramos. 

De qualquer modo, não devemos nos desesperar agora. Afinal, não apenas temos o Deus único e verdadeiro ao nosso lado, mas temos uns aos outros. Chesterton recorda que há mais pais do que policiais. Em outras palavras, a família ainda é maior que o Estado. É a hora da coragem, do sacrifício e da alegria da batalha.

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Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?
Sociedade

Os nossos direitos
ou os de Deus primeiro?

Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?

Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender? É o que queremos explicar, neste texto, aos católicos do Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender?

A quem ainda não está acompanhando toda a querela judicial em torno do filme blasfemo, remetemos nossos leitores às duas matérias que já produzimos a esse respeito: a primeira lançando um olhar mais espiritual sobre o caso e a segunda analisando o problema da “liberdade de expressão” (que discutiremos mais a fundo aqui). 

Um resumo do caso

Ministro Dias Toffoli.

Para resumir a história, desde o final do ano passado, prevaleceu a decisão de primeira instância que negara o pedido feito pelo Centro Dom Bosco de retirar da Netflix a referida produção cinematográfica. O caso sofreu, porém, uma reviravolta nesta semana: em segunda instância, o desembargador Benedicto Abicair, da 6.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, acolheu o recurso dos católicos e, antes mesmo de analisar o mérito da questão, determinou que o serviço de streaming retirasse do ar, ao menos provisoriamente, o filme em questão. 

Mas a decisão teve curto prazo, pois na noite mesmo de ontem, 9 de janeiro, o ministro Toffoli voltou à decisão inicial da Justiça. O argumento do magistrado é de que o Supremo já firmara entendimento sobre “a plenitude do exercício da liberdade de expressão como decorrência imanente da dignidade da pessoa humana” e como “meio de reafirmação/potencialização de outras liberdades constitucionais”. Toffoli foi além e disse que, quanto ao respeito à fé cristã, “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã, cuja existência retrocede há (sic) mais de 2 mil anos, estando insculpida na crença da maioria dos cidadãos brasileiros”.

Desse último argumento falaremos mais adiante. Por ora, voltemos à questão inicial. Por que essa postura, vinda do órgão mais importante do Poder Judiciário, era esperada? Por que é que, dados os pressupostos políticos e jurídicos sob os quais vivemos, infelizmente não se poderia esperar uma atitude diferente do Estado brasileiro? 

Católicos “liberais”

Por um motivo muito simples: vivemos em um Estado liberal. (Esqueçam neste texto a associação desse termo com a economia. Não é de liberdade econômica que queremos falar, mas de liberdade de expressão, no sentido mais amplo do termo.) A ideia por trás é esta exposta por Toffoli: se não pudermos nos expressar livremente, não podemos ser plenamente humanos, não somos “gente completa”. 

Mas é evidente que essa liberdade não é nem pode ser irrestrita, mesmo numa sociedade como a nossa. Assim (embora saibamos que as novelas globais já desceram bastante o nível nos últimos anos), ninguém defenderá (nem os ministros do Supremo) que exibir um filme pornográfico em horário nobre, na TV aberta, seja simples consequência da “plenitude do exercício da liberdade de expressão”. E ninguém o fará porque toda liberdade precisa de limites, sob o risco de ferirmos, por exemplo, a inocência da infância e da juventude (mais do que ela já está ferida, e justamente por conta de uma liberdade mal entendida). 

A pergunta é que limites a sociedade brasileira (e, representando-a, as autoridades civis) está disposta a colocar à tal liberdade de expressão. O que se deduz não só da fala do ministro Toffoli, mas da posição de muitíssimos cristãos católicos é que a ofensa ao cristianismo, o ultraje às verdades da fé, a blasfêmia, em suma, não seriam uma razão justa para tanto. A opinião preponderante é: “Não precisamos concordar com a ‘brincadeira’ do Porta dos Fundos, mas, também, quem não quiser assistir a ela, que não assista, não precisamos ‘censurar’ as pessoas só porque não concordam conosco etc. etc.” A filosofia de muitos católicos batizados, nesse sentido, é não a do Magistério da Igreja, mas a da Revolução Francesa: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.”

Os que pensam assim terão de nos desculpar, mas esse não é o sentir da Igreja Católica, nunca foi e jamais poderá ser. (O autor da frase acima, a propósito, Voltaire, era inimigo declarado de Cristo e da sua Igreja.) Não é verdade que todos são livres para dizer o que bem entenderem e, de nossa parte, seria necessário tolerar o achincalhe à fé cristã, a zombaria de tudo o que temos por mais sagrado… e, ainda por cima, em silêncio e de braços cruzados. 

Muitas vezes, nós só aceitamos essa leniência e consequente mordaça porque já fomos seduzidos pelo grande erro de nossa época: o de que tanto faz a questão religiosa e, portanto, Deus é adorado igualmente tanto no terreiro de macumba quanto na paróquia da minha casa; o de que cada pessoa tem a “sua” verdade, então que cada um viva a sua, ninguém incomode ninguém e está tudo certo. Ou seja, o mal que precisa ser primeiro denunciado e extirpado de nossos corações e famílias chama-se relativismo. Se Jesus Cristo é Deus e nós, católicos, cremos nisso verdadeiramente, se nós gastamos tempo transmitindo essa verdade aos nossos filhos, como podemos ficar indiferentes a produções que o retratam como um beberrão dissoluto? Como pode a nossa fé na divindade de Cristo conviver com a negligência diante das ofensas a essa verdade?

Não, se Jesus Cristo é Deus, Ele tem o direito de ser respeitado.

Agora, se Ele é apenas mais um fundador de religião, como Maomé, como Buda, como Confúcio, então todas as religiões merecem o mesmo respeito (e, consequentemente, o mesmo desprezo). Chesterton dizia que “de um católico espera-se que respeite todas as religiões exceto a sua”. Muito bem, respeitar todas as religiões não dá problema para ninguém, se todas são falsas (falamos disso em nosso primeiro texto a respeito do pecado de blasfêmia). O problema é quando, na ânsia de ofender todos os deuses, você termina ofendendo o único que existe, o único que é verdadeiramente, o único que pode realmente reagir e nos punir por esse desprezo. O problema é quando a Verdade vem nos pedir contas... de como gastamos nossa liberdade.

Mas nós realmente cremos? Cremos de fato que a blasfêmia, a irreverência, a exposição ao ridículo de Deus (como fizeram os algozes de Cristo e como fizeram os “porteiros dos fundos”) são uma ofensa à Verdade e, como tal, não têm o direito de existir, nem de ser veiculadas e exibidas ao público? Cremos, em suma, que os direitos de Deus estão acima dos nossos?

Não, nós não cremos. Porque somos relativistas liberais, preferimos a liberdade à verdade. E é por isso que nossas crianças estão sendo corrompidas tão cedo; é por isso que nossos jovens não conseguem mais discernir o que é bom e o que é mau; é por isso que nossos adultos sofrem com uma “crise de sentido” tremenda e avassaladora. Porque fomos ensinados a ser livres, mas sem conhecer antes a linha que separa o solo firme do precipício

Somos “campeões em liberdade”, ninguém pode negar, fazemos o que bem entendemos e dane-se o que pensam ou deixam de pensar os outros. Mas também somos prostitutos e beberrões, drogados e desbocados, cruéis e mentirosos… Com a diferença de que, nisso, somos escravos, terrivelmente escravos. Escravos porque estamos presos nesse modo de vida, não sabemos (nem fomos ensinados) a levar a vida de outro modo, a vida inteira fomos vítimas da “liberdade de expressão” desta geração perversa e da falta de vigilância dos pobres dos nossos pais.

Por isso, será mesmo verdade que um vídeo besta não tem poder de influência sobre uma geração? O ministro Dias Toffoli diz que “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar os valores da fé cristã”. A premissa do jurista está certa, de fato, mas a conclusão está errada. Está certa a premissa porque, com base na promessa de Nosso Senhor, se as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (cf. Mt 16, 18), muito menos a Porta dos Fundos! Mas a conclusão está errada porque, se o filme em questão não pode “abalar os valores da fé cristã” em absoluto, ele pode, sim, abalá-los nas crianças, nos jovens, enfim, em todas as pessoas que lhe deram, dão e darão audiência. Não é só Deus que se ofende com a blasfêmia que lhe fazem (como se fosse pouco); também os homens, criados à sua imagem e semelhança, sofrem terrivelmente, nesta e na outra vida, com o pecado com que colaboram.

Alguma sugestão sobre o que fazer? 

Mas o que fazer quando é a própria Constituição que parece dar aval à liberdade sem limites dos zombadores? 

Bom, comece-se pelo fato de que, seja qual for o culto que os juristas brasileiros têm prestado à Constituição Federal, eles mesmos são os primeiros a torcê-la e retorcê-la para os seus próprios propósitos, tão logo surja a primeira oportunidade. Foi assim que, por obra dos mesmos ministros do STF, a família natural foi transformada no arranjo que se lhe queira dar (por unanimidade) e as crianças com anencefalia foram consideradas indignas de viver (por maioria de votos). Para os que estão no poder, formados num modo marxista e, portanto, liberal de pensar, a verdade não existe; tudo não passa de um jogo de interesses. Quem tem a toga dita as regras do jogo.

Portanto, se tivéssemos bons juristas, com um bom Direito na mente, trabalhando nos órgãos máximos da Justiça, facilmente teríamos uma solução muito melhor e mais adequada ao problema em questão. No fundo, com uma concepção jurídica verdadeira, que levasse em conta o Direito Natural, muitíssima coisa que pensamos ser inevitável poderia tranquilamente ser revertida.

Mas, enquanto isso não acontece, o que nos resta é, primeiro, confiar nossa causa à Justiça divina (a única que não falha); e, segundo, fomentar um verdadeiro movimento cultural a fim de que as pessoas recebam uma formação jurídica íntegra e os católicos que exercem esse mister honrem de fato a tradição religiosa a que pertencem (um estudo das encíclicas sociais do Papa Leão XIII, especialmente a Libertas, seria um ótimo começo): afinal, será preciso muito mais do que uma ação judicial para vencer a cultura da morte e a difusão da blasfêmia. Sim, porque, no “maior país católico do mundo”, certamente há advogados, promotores e juízes católicos… Mas, se eles existem, por que é que não fazem nada ou, pior, até reagem negativamente aos que fazem alguma coisa?

Porque, assim como a separação moderna e laicista entre Estado e Igreja, nossos católicos separam sua vida privada e suas funções públicas, sua fé e seu trabalho, seus direitos e os de Deus, sua liberdade e a verdade na qual dizem crer.

Enquanto isso acontecer, enquanto continuarmos na ilusão de que podemos servir ao mesmo tempo a Jesus Cristo e à Revolução Francesa, ao Deus uno e trino e à “deusa liberdade”, a blasfêmia, a indecência e tudo o que advém de uma liberdade desenfreada se tornará, pouco a pouco, o pão que comemos todas as manhãs. E então, por não termos defendido os direitos de Deus, os católicos terminaremos confinados às sacristias e sem direitos, exceto um: o de ficarmos calados.

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