A festa [1] de Santa Maria Madalena é ocasião oportuna para recordar a centralidade do amor no coração do Cristianismo. À parte as várias discussões exegéticas e históricas sobre quem foi Maria Madalena e em que trechos essa personagem aparece nas Escrituras, a cena célebre a que se deve recorrer no dia de hoje é, sem dúvida, a passagem em que Nosso Senhor, já ressuscitado, aparece à santa de Magdala, recompensando a sua espera amorosa junto ao Seu túmulo.

Conta o Evangelho que, “no primeiro dia da semana, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo" (Jo 20, 1). Tendo avisado a Pedro e João o acontecido, eles – que “ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos" (Jo 20, 9) –, tão somente entraram no sepulcro, “voltaram para casa" (Jo 20, 10).

Tendo partido os Apóstolos, no entanto, não fez o mesmo Maria. O Evangelista diz que ela "tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando" (Jo 20, 11). São Gregório Magno, em comentário a este versículo, sublinha “quão forte era o amor que inflamava o espírito dessa mulher, que não se afastava do túmulo do Senhor, mesmo depois de os discípulos terem ido embora. Procurava a quem não encontrara, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do seu amor, sentia a ardente saudade daquele que julgava ter sido roubado" [2].

O Papa ensina, a partir dessa atitude de Maria, uma lição valiosa: que só recebem de Nosso Senhor as graças aqueles que as pedem insistentemente e as esperam pacientemente. O amor de Maria, que não se contenta enquanto não contempla a face de Cristo, move-nos a olhar para as demoras de Deus como fonte de salvação e oportunidade para aumentarmos o nosso amor para com Ele.

“Ela começou a procurar e não encontrou nada; continuou a procurar, e conseguiu encontrar. Os desejos foram aumentando com a espera, e fizeram com que chegasse a encontrar. Pois os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos. (...) Por isso afirmou Davi: 'Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?' (Sl 41, 3)." [3]

São Francisco de Sales, por sua vez, explicando que “quem ama verdadeiramente, quase não tem prazer senão na coisa amada" [4], coloca na boca de Maria Madalena os apelos da esposa do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é meu, e eu sou dele" (Ct 2, 16); “Dizei-me, vistes porventura aquele a quem minha alma ama?" (Ct 3, 3). Comentando o mesmo Evangelho, ele destaca que nem o fato de conversar com os anjos pôde consolar o seu coração enamorado: “A gloriosa amante Madalena depara com os anjos no sepulcro, e estes ter-lhe-ão falado em tom angélico, isto é, com suavidade, a fim de apaziguarem o tormento em que se encontrava. Mas ela, chorosa, não encontrou consolo nem nas suas palavras doces, nem no esplendor das suas vestes, nem na graça celeste do seu porte, nem na beleza amável do seu rosto. Pelo contrário, lavada em lágrimas, dizia: 'Levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram'." [5]

Mesmo vendo Cristo sob o aspecto de jardineiro, São Francisco de Sales comenta que ela não se pôde contentar. “Cheia da morte do seu Senhor, não deseja flores, pelo que o jardineiro lhe é indiferente; [ela] tem no coração a cruz, os cravos, os espinhos, e procura o seu Crucificado". E o doutor da Igreja empresta a ela estas belas palavras: “Meu caro jardineiro, (...) se por acaso plantastes o meu bem-amado Senhor trespassado, qual lírio amachucado e seco, entre as vossas flores, dizei-me depressa, que eu irei buscá-Lo." [6]

Qual não foi a alegria dessa mulher ao ouvir a voz de Jesus chamando por seu nome! “Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: Rabuni! (que quer dizer: Mestre)" (Jo 20, 16).

São Gregório Magno remata: “Era ele quem Maria Madalena procurava exteriormente; entretanto, era ele que a impelia interiormente a procurá-lo" [7]. Se Maria procurava ardentemente o rosto de Deus, era por iniciativa do próprio Jesus que o fazia, o mesmo Jesus que disse: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair" (Jo 6, 44). Se também nós, não ignorando os apelos de Cristo, que bate à porta do nosso coração, nos lançarmos à espera amorosa e paciente diante do sacrário, o lugar em que o sacerdote deposita o seu Corpo glorioso, veremos a face do Senhor. Perseveremos, com confiança, pois “quem perseverar até o fim, esse será salvo" (Mt 10, 22).

Referências

  1. Homilia XXV, 1 (PL 76, 1189).
  2. Ibid., 2 (PL 76, 1190).
  3. Tratado do amor de Deus, V, 7.
  4. Idem.
  5. Idem.
  6. Homilia XXV, 5 (PL 76, 1193).