À medida que passa o tempo e se aproxima a Páscoa, somos chamados a chorar não só por nossos pecados, mas principalmente pelos vários sofrimentos que Cristo, nosso Senhor e Salvador, suportou por causa deles. Por que, meus irmãos, nos importamos tão pouco com esse assunto, como normalmente é o caso? Por que estamos habituados a deixar este período passar como qualquer outro, sem pensar mais em Cristo do que em outras ocasiões, ou, pelo menos, sem nos emocionarmos mais por sua causa? Não estou certo em dizer que é assim? E, se assim for, não tenho motivos para perguntar por que isso acontece? Não nos comovemos quando ouvimos a história da amarga Paixão que Jesus Cristo, o Filho de Deus, sofreu por nós. Não lamentamos os nossos pecados, que a causaram, nem temos qualquer simpatia por ela. Não sofremos com Ele. Se vamos à igreja, ouvimos o sermão e depois vamos embora, sem nos angustiarmos; se nos angustiamos, é apenas por um momento. E muitos nem sequer vão à igreja, pois, para eles, é claro, este tempo sagrado e solene é como qualquer outro. Comem, bebem, dormem, levantam-se e cuidam dos seus negócios e diversões, como de costume. Não pensam naquele que morreu por eles onde quer que estejam, “quer comam, quer bebam, ou façam qualquer outra coisa” (1Cor 10, 31). De modo algum “vivem — para usar as palavras de São Paulo — pela fé no Filho de Deus, que os amou e se entregou por eles” (Gl 2, 20).

Lamentavelmente, não há como negá-lo. No entanto, se é verdade que o Filho de Deus desceu do Céu, pôs de lado a sua glória e se submeteu ao desprezo, ao tratamento cruel e à morte pelas mãos de suas próprias criaturas — daqueles que criou, preservou até aquele dia e sustentava na vida e na existência —, será razoável que um acontecimento tão grandioso não nos comova? Não é óbvio que devemos nos encontrar em um estado mental de profunda impiedade, a menos que tenhamos um pouco de gratidão, compaixão, amor, reverência, autocensura, humildade, arrependimento e desejo de mudança, em virtude do que Ele fez e sofreu por nós? Ou, melhor dizendo, será que um Benfeitor tão grandioso não merece de nós uma gratidão transbordante, uma profunda simpatia, um amor fervoroso, uma reverência profunda, uma autocrítica amarga, um arrependimento sincero, um desejo ardente e um anseio por um coração novo? Quem poderia negar tudo isso? Por que então, ó meus irmãos, isso não acontece? Por que as coisas estão como estão? Ai de nós! Prevejo com tristeza que continuará a passar o tempo, e passarão a Quaresma, a Sexta-feira Santa e o Domingo de Páscoa, bem como as semanas seguintes, e muitos de vós permanecereis exatamente como estais agora — sem vos aproximardes do Céu, sem vos aproximardes de Cristo nos vossos corações e nas vossas vidas, sem ficardes impressionados de forma duradoura ou transformadora ao pensar na sua misericórdia e nos vossos próprios pecados e deméritos.
Mas por que isso acontece? Por que compreendeis tão pouco o Evangelho da vossa salvação? Por que os vossos olhos são tão turvos e os vossos ouvidos tão moucos? Por que tendes tão pouca fé? Por que há tão pouco do Céu nos vossos corações? Meus irmãos, se eu tivesse de expressar o meu pensamento numa única palavra, diria que é por uma só razão: porque meditais muito pouco. Não meditais e, por isso, não ficais impressionados.
O que significa meditar sobre Cristo? É simplesmente pensar nele de forma habitual e constante, bem como nas suas ações e sofrimentos. É tê-lo em mente como alguém a quem podemos contemplar, adorar e dirigir-nos quando nos levantamos, quando nos deitamos, quando comemos e bebemos, quando estamos em casa e fora de casa, quando estamos trabalhando, caminhando ou descansando, quando estamos sozinhos e também quando estamos acompanhados. Isso é meditar. E por meio disso, e nada menos do que isso, os nossos corações começarão a sentir o que devem sentir. Nós temos corações de pedra, tão duros quanto o asfalto. Por isso a história de Cristo não causa neles nenhuma impressão. Ainda assim, se quisermos ser salvos, precisamos ter corações ternos, sensíveis e cheios de vida; os nossos corações precisam ser quebrados, precisam ser revolvidos como terra, cavados, regados, bem cuidados e cultivados, até que se tornem como jardins, jardins do Éden, aceitáveis ao nosso Deus, jardins nos quais o Senhor Deus possa andar e habitar. Eles devem ficar cheios, não de espinhos e sarças, mas de plantas perfumadas e frutíferas, com árvores e flores celestiais. O terreno árido e estéril deve irromper em fontes de água viva. Essa mudança deve ocorrer em nossos corações se quisermos alcançar a salvação; em suma, precisamos obter o que não temos por natureza: fé e amor; e como podemos alcançar isso, pela graça de Deus, a não ser por meio da meditação piedosa e proveitosa ao longo do dia?
São Pedro descreve o que quero dizer quando, ao falar de Cristo, afirma o seguinte: “Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes nele, sem o verdes ainda, e isso é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa” (1Pd 1, 8).
Cristo se foi, e já não podemos vê-lo. Jamais o vimos, apenas lemos e ouvimos falar dele. Diz um velho ditado: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Não há dúvida de que assim será, assim deve ser conosco no que diz respeito ao nosso bendito Salvador, a menos que nos esforcemos continuamente ao longo do dia por pensar nele, no seu amor, nos seus ensinamentos, nos seus dons e nas suas promessas. Devemos recordar o que lemos sobre Ele nos Evangelhos e nos livros santos; devemos recordar o que ouvimos na igreja; devemos pedir a Deus que nos permita fazer isso, que abençoe nosso esforço e nos faça agir com simplicidade, sinceridade e reverência. Em suma, devemos meditar, pois tudo isso é meditação; e isto até mesmo a pessoa mais simples pode fazer, e fará, se tiver vontade de fazê-lo.

Ora, direi duas coisas sobre essa meditação, ou reflexão sobre os atos e sofrimentos de Cristo: a primeira delas seria óbvia demais para mencionar, mas, se eu não a mencionasse, daria a impressão de tê-la esquecido, o que não é o caso. É o seguinte: essa meditação não é nada agradável no início. Eu sei disso. As pessoas a considerarão muito enfadonha no início, e suas mentes se distrairão facilmente com outros assuntos. Isso é verdade, mas refleti sobre o seguinte: se Cristo achou que a vossa salvação valia o grande sacrifício de se submeter voluntariamente ao sofrimento por vós, não deveríeis pensar (já que isso vos diz respeito) que a vossa salvação vale o pequeno sacrifício de aprender a meditar sobre esses sofrimentos? Pode-se pedir menos de vós do que, depois de Ele ter feito o trabalho, apenas acreditar nele e aceitá-lo?
E a minha segunda observação é a seguinte: só aos poucos a meditação consegue abrandar os nossos corações endurecidos, e a história das provações e sofrimentos de Cristo consegue realmente nos comover. Não basta pensar em Cristo uma ou duas vezes para que isso aconteça. É por meio da perseverança silenciosa e constante, com os pensamentos voltados para Ele, que aos poucos conquistaremos um pouco de calor, luz, vida e amor. Não perceberemos essa mudança em nós mesmos. Será como o desabrochar das folhas na primavera. Não vemos as folhas crescer, não podemos detectar isso apenas pela observação. Mas cada dia que passa contribui para o seu crescimento e, talvez, todas as manhãs possamos dizer que elas estão maiores do que ontem. O mesmo acontece com as nossas almas: não exatamente todas as manhãs, mas em determinados períodos, podemos perceber que estamos mais vivos e piedosos do que antes, embora durante esse intervalo não tenhamos consciência de que estávamos progredindo.
Agora, portanto, a título de exemplo, direi algumas palavras sobre a humilhação voluntária de Cristo, para vos sugerir pensamentos que deveis, de fato, cultivar em vós mesmos em todos os momentos, mas sobretudo neste tempo tão sagrado do ano; pensamentos que, na sua modesta medida (se Deus quiser), vos prepararão para ver Cristo no Céu e, nesse ínterim, vos prepararão para vê-lo na sua festa da Páscoa. O dia da Páscoa ocorre apenas uma vez por ano; é breve, como os outros dias. Que possamos valorizá-lo, que possamos aproveitá-lo ao máximo, que possamos apreciá-lo! Que ele não passe como os outros dias, sem deixar nenhuma fragrância para que dele nos lembremos!
Portanto, meus irmãos, neste momento, antes que cheguem os dias solenes, repassemos algumas das privações do Filho de Deus feito homem, as quais devem ser objeto de vossa meditação durante estas semanas sagradas.

Ele parece falar principalmente aos pobres, pois veio na pobreza. São Paulo diz na passagem: “Vós conheceis a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de vos enriquecer por sua pobreza” (2Cor 8, 9). Os pobres não devem pensar que só eles enfrentam dificuldades e que ninguém mais as enfrentou. O Deus Altíssimo, Deus Filho, que reinava com o Pai desde toda a eternidade, sumamente bem-aventurado, Ele, sim, Ele mesmo, tornou-se um homem pobre e padeceu as mesmas dificuldades dos pobres. Quais são as dificuldades dos pobres? Suponho que sejam estas: têm más condições de moradia, roupas ruins, comida insuficiente ou de má qualidade, poucos prazeres ou diversões, são desprezados, dependem de outros para viver e não têm perspectivas para o futuro. Ora, como era a situação de Cristo, o Filho do Deus vivo? Onde Ele nasceu? Num estábulo. Suponho que poucos homens tenham de passar por uma indignidade tão grande: nascer, não num ambiente tranquilo e confortável, mas em meio aos animais. E qual foi o seu primeiro berço, se assim podemos chamá-lo? Uma manjedoura. Assim foram os primórdios de sua vida na terra, e essa situação não melhorou com o passar dos anos. Ele diz em uma ocasião: “As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9, 58). Ele não tinha lar. Quando começou a pregar, Ele era o que hoje seria chamado, pejorativamente, de vagabundo. Algumas pessoas são obrigadas a dormir onde lhes é possível; em boa medida, parece ter sido esse o caso do nosso bendito Senhor. Ouvimos falar de Marta, que foi acolhedora para com Ele, e de outros. Porém, apesar de não termos muitas informações a respeito, parece que sua vida foi mais difícil que a de qualquer camponês. Ele passou quarenta dias no deserto: onde pensais que Ele dormia? Em cavernas esculpidas na rocha. E quem eram os seus companheiros? Companheiros ainda piores do que aqueles entre os quais Ele havia nascido. Ele nasceu numa gruta e passou quarenta noites numa gruta, mas, pelo menos à época do seu nascimento, os animais entre os quais se encontrava eram mansos: o boi e o jumento. Mas, durante os quarenta dias de tentação, Ele “esteve em companhia dos animais selvagens” (Mc 1, 13). Essas cavernas no deserto estão repletas de criaturas ferozes e venenosas. Cristo dormiu aí; e, sem dúvida, não fosse pela mão invisível de seu Pai e por sua própria santidade, elas o teriam atacado.
Além disso, o frio é mais uma das dificuldades que nos afligem sensivelmente, e Cristo também o suportou. Ele passava noites inteiras em oração nas montanhas. Levantava-se antes do amanhecer e ia a lugares solitários para orar. Passava a noite no mar.
O calor é um sofrimento que não nos afeta muito em nosso país, mas é muito intenso nas regiões orientais, onde nosso Salvador viveu. Os homens ficam em casa quando o sol está forte, para que este não lhes faça mal. Porém, lemos que Ele se sentou junto ao poço de Jacó ao meio-dia, pois estava cansado da viagem.
Observai também este outro aspecto, ao qual já me referi. Ele viajava constantemente durante o seu ministério, e viajava a pé. Certo dia, entrou em Jerusalém montado num jumento, para cumprir uma profecia.

Ele também sentiu fome e sede. Quando estava sedento junto ao poço, pediu à mulher samaritana que lhe desse água para beber. Ele sentiu fome no deserto, quando jejuou quarenta dias. Noutra ocasião, quando estava empenhado em suas obras de misericórdia, Ele e os seus discípulos não tiveram tempo para comer pão (cf. Mc 6, 31). E, de fato, como estava sempre viajando, raramente tinha a certeza de que teria uma refeição. E qual era o tipo de alimento que tomava? Jesus passava muito tempo nas proximidades de um mar interior ou lago, chamado mar de Genesaré, ou Tiberíades, e Ele e os Apóstolos viviam de pão e peixe, uma dieta tão frugal quanto a dos homens pobres de hoje, ou ainda mais frugal. Em uma ocasião bem conhecida, ouvimos falar de cinco pães de cevada e dois peixes pequenos. Após a sua Ressurreição, providenciou para os Apóstolos “brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão” (Jo 21, 9), provavelmente a refeição habitual deles.
Contudo, vale a pena notar que, apesar da penúria, Ele e os Apóstolos tinham o costume de dar algo aos pobres. Eles se recusavam a tirar o máximo proveito do pouco que tinham. Quando o traidor Judas se levantou e saiu para entregá-lo, e Jesus falou com ele, alguns dos Apóstolos pensaram que Ele estava dando instruções sobre a esmola que devia ser dada aos pobres. Isso revela como Ele costumava agir.
É desnecessário acrescentar que Ele dependia bastante dos outros. Às vezes, homens ricos o hospedavam. Em outras ocasiões, como já disse, pessoas piedosas o serviam com os seus bens (cf. Lc 8, 3). Ele vivia, segundo suas próprias benditas palavras, como os corvos, que Deus alimenta, ou como a erva do campo, vestidas por Deus.
Preciso dizer que Ele tinha poucos prazeres e poucas diversões? Parece inadequado falar desse assunto no caso de alguém que veio de Deus e que tinha pensamentos e hábitos diferentes dos nossos. No entanto, existem prazeres inofensivos que Deus nos dá aqui para compensar as dificuldades da vida. Nosso Senhor foi exposto ao sofrimento e poderia ter recebido também alguma compensação por isso, mas Ele se conteve. Alguém já observou que Ele nunca é descrito como um homem alegre, e muitas vezes lemos sobre os seus suspiros, lamentos e lágrimas. Ele era um “homem das dores, experimentado nos sofrimentos” (Is 53, 3).
Vejamos agora outros sofrimentos maiores pelos quais Ele passou quando se tornou pobre. Alguns deles foram o desprezo, o ódio e a perseguição do mundo. Ainda na infância, Maria teve de fugir com Ele para o Egito a fim de impedir que Herodes o matasse. Quando Ele voltou, já não era seguro morar na Judeia, e isso o levou a ser criado em Nazaré, um lugar infame, onde a Virgem Maria estava quando o anjo Gabriel lhe apareceu. Não preciso dizer como Ele foi desprezado e perseguido pelos fariseus e sacerdotes quando começou a pregar, sendo obrigado a fugir várias vezes para salvar a vida, que eles estavam determinados a tirar.

Outro grande sofrimento do qual Nosso Senhor não se eximiu foi aquilo que, em nosso caso, chamamos de luto: a dor pelo falecimento de parentes ou amigos. Certamente, não foi fácil para Ele suportar isso, pois tinha apenas um parente próximo na terra e poucos amigos. Mas até mesmo esse sofrimento Ele experimentou pelo nosso bem. Lázaro era seu amigo, e Ele o perdeu. Sabia que poderia ressuscitá-lo, e assim o fez. Ainda assim, chorou-o amargamente, por alguma razão, de modo que os judeus disseram: “Vede como Ele o amava” (Jo 11, 36). Mas um luto maior e mais verdadeiro, por assim dizer, foi o seu ato original de humilhação, ao deixar a sua glória celestial e descer à terra. Obviamente, isso é um grande mistério para nós do início ao fim. Mesmo assim, Ele com certeza se dignou a falar, por meio do seu Apóstolo, sobre o fato de ter “se esvaziado” de sua glória (cf. Fl 2, 7). Podemos considerar, portanto, com justiça e reverência, que Ele passou por uma perda indescritível e maravilhosa ao ser, por algum tempo, como que destituído de sua herança e feito à semelhança da carne pecaminosa.
Mas todas essas coisas foram apenas o começo das dores que Ele suportou. Para enxergarmos a plenitude delas, precisamos olhar para a sua Paixão. Na angústia experimentada por Ele, vemos todas as suas outras dores concentradas e superadas, embora eu não deva falar muito disso agora, visto que sua hora “ainda não chegou”.
Mas observarei o seguinte: primeiro — algo muito admirável e terrível —, o medo avassalador que Ele teve dos seus sofrimentos antes que eles acontecessem. Isso revela a magnitude deles, mas, além disso, parece que Ele havia decidido passar por todas as provações por nós e, entre elas, a provação do medo. Ele diz: “Agora, a minha alma está perturbada. Mas que direi? Pai, salva-me desta hora... Mas é exatamente para esta hora que eu vim” (Jo 12, 27). E quando a hora chegou, esse terror marcou o início dos seus sofrimentos e foi a causa da sua agonia e do seu suor de sangue. Ele orou: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia, não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). São Lucas acrescenta: “Ele entrou em agonia e orava ainda com mais insistência, e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra” (Lc 22, 44).
Depois, Ele foi traído e entregue à morte por um dos seus próprios amigos. Que golpe amargo! Ele já se sentia bastante solitário sem isso, mas, nessa provação final, um dos doze Apóstolos, seu amigo íntimo, traiu-o, e os outros o abandonaram e fugiram. Embora mais tarde São Pedro e São João tenham recobrado um pouco a coragem e o seguido, logo o próprio São Pedro cometeu um pecado ainda pior, negando-o três vezes. O grau de afeição que Ele sentia por eles, e o modo como se achegou a eles quando sua provação se aproximava, com um movimento natural do coração, embora eles o tivessem decepcionado, fica claro nas palavras que Ele lhes dirigiu na Última Ceia: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer” (Lc 22, 15).

Logo depois, começaram os seus sofrimentos. Este santo e bendito Salvador, Filho de Deus e Senhor da vida, foi entregue, tanto na alma como no corpo, à malícia do grande inimigo de Deus e do homem. No Antigo Testamento, Jó foi entregue a Satanás, mas dentro de limites prescritos: primeiro, o Maligno não poderia tocar nele; depois, embora tenha sido autorizado a tocar nele, não poderia tirar-lhe a vida. Mas Satanás tinha poder para triunfar, ou pelo menos pensava que estava triunfando, sobre a vida de Cristo, que confessou aos seus perseguidores: “Esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22, 53). Sua cabeça foi coroada e dilacerada com espinhos e ferida com varas; seu rosto foi profanado com cusparadas; os ombros foram sobrecarregados com a pesada Cruz; as costas foram rasgadas e cortadas com chicotes; as mãos e os pés foram perfurados com pregos; o lado, por desprezo, foi ferido com uma lança; a boca ficou seca por uma sede intolerável; e a alma ficou tão obscurecida que Ele clamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46) E assim Ele ficou pendurado na Cruz por seis horas, todo o seu corpo ferido, exposto quase nu aos olhos dos homens, “não fazendo caso da ignomínia” (Hb 12, 2), e insultado, escarnecido e amaldiçoado por todos que o viam. Com certeza somente a Ele se aplicam, em sua plenitude, as palavras do profeta: “Ó vós todos os que passais pelo caminho, atendei e vede se há dor semelhante à dor que me atormenta, com que o Senhor me afligiu no dia sua ardente cólera” (Lm 1, 12).
Quão pequenas são, comparadas a essas, as nossas tristezas! Quão pequenas são as nossas dores, as nossas dificuldades, as nossas perseguições, comparadas àquelas que Cristo voluntariamente suportou por nós! Se Ele, que não tinha pecado, passou por tudo isso, não é de admirar que nós, pecadores, tenhamos de suportar, se assim for, a centésima parte disso. Quão vis e miseráveis somos, por compreendermos tão pouco esses sofrimentos, por nos impressionarmos tão pouco com eles! Ai de nós! Se os sentíssemos como deveríamos, é claro que eles seriam para nós, em tempos como o que se aproxima, muito piores que a morte ou a dolorosa doença de um amigo. Num período como este, não deveríamos ser capazes de desfrutar deste mundo; deveríamos perder o prazer pelas coisas terrenas; deveríamos perder o apetite, ficar com o coração partido, e apenas por uma questão de dever, comer, beber e continuar com o nosso trabalho. O tempo sagrado em que em breve entraremos seria uma semana de luto, como quando há um cadáver numa casa.

É claro que não podemos sentir isso simplesmente porque desejamos e devemos. Não podemos nos obrigar a ter esse sentimento. Não exorto este ou aquele homem a senti-lo, pois não está ao seu alcance fazê-lo. Não conseguimos suscitar esses sentimentos em nós mesmos ou, se conseguimos, é melhor não fazê-lo, por se tratar de algo forçado, o que é ruim. O sentimento profundo é apenas o complemento natural ou necessário de um coração santo. Mas, embora não possamos ter esse sentimento por vontade própria e de imediato, podemos trilhar o caminho para alcançá-lo. Podemos crescer em graça até que esse sentimento se manifeste. Enquanto isso, podemos praticar uma abstinência exterior dos prazeres e confortos legítimos da vida, a fim de nos prepararmos para ter esse sentimento; uma abstinência que praticaríamos espontaneamente se já o tivéssemos. Podemos meditar sobre os sofrimentos de Cristo e, por meio dessa meditação, seremos gradualmente levados, com o passar do tempo, a ter esses sentimentos profundos. Podemos rogar a Deus que faça por nós o que não podemos fazer por nós mesmos; que nos faça sentir, que nos dê o espírito de gratidão, amor, reverência, humildade, temor piedoso, arrependimento, santidade e fé viva.

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