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Por que “padre e freira não casa” mesmo?
Doutrina

Por que “padre e freira não casa” mesmo?

Por que “padre e freira não casa” mesmo?

É tempo de recordar uma verdade de fé “inconveniente”, mal compreendida, mas nunca tão necessária como hoje: a vida consagrada é a “melhor parte”. E inclusive os que se casaram têm muito a aprender com isso.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Setembro de 2019
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Alguém poderia objetar, a respeito de um artigo recente sobre as “almas gêmeas”, que nem todos têm uma. “Sim, porque, se isso fosse para todo o mundo, o que seria dos celibatários e das pessoas de vida consagrada?”

Bom, não é que essas pessoas não tenham alma gêmea. Na verdade, elas já encontraram “outra alma”: a de Cristo, unidas com a qual elas de mais nada necessitam. É por isso que “os Santos Padres consideram esse vínculo de perfeita castidade como uma espécie de matrimônio espiritual da alma com Cristo”, com alguns chegando a “comparar com o adultério a violação dessa promessa de fidelidade” [1].

Mais correto, portanto, seria caminhar não na negação, como normalmente se faz (“padre não casa”, “freira não casa”), mas dizer, com o Evangelho, que é Jesus o esposo desses homens e mulheres (cf. Mt 9, 15), os quais “se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12). E, como já dissemos em nossa matéria anterior, por mais que nesta vida tantos se casem e se dêem em casamento, a verdade é que todos, sem exceção, fomos feitos para esse outro “casamento”, que é nossa união com Deus na vida eterna. Por isso, São Cipriano louvava assim esse estado de vida: 

O que nós havemos de ser todos, já vós o começastes a ser. Possuís já neste mundo a glória da ressurreição; vós passais através do mundo sem as manchas do mundo. Enquanto perseverais castas e virgens, sois iguais aos anjos de Deus [2].

Uma verdade de fé…

Com base em tudo isso, avancemos um pouco mais e lembremos uma verdade de fé divina expressamente definida no Concílio de Trento: 

Se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor e mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema [3]. 

Dito pela boca do Apóstolo: 

Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido. Digo isto para vosso proveito, não para vos estender um laço, mas para vos ensinar o que melhor convém, o que vos poderá unir ao Senhor sem partilha. Se alguém julga que é inconveniente para a sua filha ultrapassar a idade de casar-se e que é seu dever casá-la, faça-o como quiser: não há falta alguma em fazê-la casar-se. Mas aquele que, sem nenhum constrangimento e com perfeita liberdade de escolha, tiver tomado no seu coração a decisão de guardar a sua filha virgem, procede bem. Em suma, aquele que casa a sua filha faz bem; e aquele que não a casa, faz ainda melhor (1Cor 7, 32-38). 

Explicado por Santo Tomás de Aquino: 

Como diz Jerônimo, errou Joviniano ao defender que a virgindade não deve ser preferida ao matrimônio. Seu erro, antes de mais nada, é refutado pelo exemplo de Cristo, que escolheu mãe virgem e que conservou, ele próprio, a virgindade. É rechaçado também pelo ensinamento do Apóstolo que aconselhou a virgindade como um bem superior. Mas a razão também rechaça esse erro. Em primeiro lugar, porque o bem divino é superior ao bem humano. Em segundo lugar, porque o bem da alma é mais excelente que o do corpo. Em terceiro lugar, porque o bem da vida contemplativa é preferível ao bem da vida ativa. Ora, a virgindade se ordena ao bem da alma na sua vida contemplativa, que é “pensar nas coisas de Deus”. O casamento, ao contrário, está voltado ao bem do corpo, que é a multiplicação corporal do gênero humano e pertence à vida ativa, dado que os casados devem “pensar nas coisas que são do mundo”, segundo o Apóstolo. Portanto, sem dúvida alguma, a virgindade é melhor que a continência conjugal [4].

Mesmo assim, apesar de estar no Concílio de Trento, nas Escrituras, na Suma Teológica e numa plêiade de escritos dos Santos Padres, já podemos prever contra-argumentos, reações negativas e “rasgação de vestes” ao que aqui vai dito. Foi assim, pelo menos, da última vez que tocamos nesse assunto. Procuremos então identificar o problema, e remediá-lo.

…“inconveniente”…

A começar pela “coceira” que nos dá, à nossa época, tão dada a luxúrias, ouvir falar da virgindade que ela tão tranquila e despreocupadamente perdeu e entregou ao mundo, como se nada valesse. É o primeiro dos nossos incômodos: ouvir falar da pureza que não temos

Mas, ao invés de nos irritarmos e esbravejarmos com a simples realidade das coisas, por que não colocar a mão na consciência, fazer penitência por nossos pecados e procurar resgatar, de hoje em diante, a pureza que perdemos? Foi o que fizeram Santa Maria Madalena e Santa Maria Egipcíaca, Santo Agostinho e São Jerônimo. Este último, por exemplo, que tantos louvores cantou à virgindade cristã, escreveu certa vez: “Se elevo a virgindade até os céus, não o faço por possuí-la, mas por admirar o que não tenho” [5]. Ou seja, uma coisa é ser miserável, outra é condescender com a própria miséria; uma é não ser perfeito, outra é desprezar a perfeição. 

Além desse problema moral, pode haver também um intelectual, de falta de fé. Aqui vale sempre lembrar: estamos nos dirigindo a católicos, dos quais se espera que tenham um mínimo de submissão filial à Igreja, ainda mais em se tratando de uma verdade de fides divina, “de fé divina”, que consta claramente nas próprias Sagradas Escrituras. 

Que tenhamos “dificuldades” com esse ensinamento, e que procuremos contorná-las com um bom exercício racional de teologia, é muito sadio e proveitoso; mas “dez mil dificuldades não fazem uma dúvida” [6]: a Revelação, ou nós a aceitamos por completo, ou estaremos rejeitando a sua própria fonte divina. (Nesse caso, uma igreja protestante qualquer pode muito bem servir para nós, até porque uma das primeiras coisas que Lutero jogou fora foi justamente o celibato e a virgindade consagrados.)

…mal compreendida…

Cuidemos de explicar, também, o que não estamos dizendo, para que não haja nenhum mal entendido.

Primeiro, ninguém está dizendo que o casamento seja algo ruim. O Apóstolo mesmo diz: “aquele que casa a sua filha faz bem”, “não há falta alguma em fazê-la casar-se”. E não só porque Deus criou o homem e a mulher, ainda no Gênesis, mas o casamento foi elevado por Nosso Senhor à dignidade de sacramento, tornando-se um verdadeiro caminho de santidade para aqueles que o recebem na fé. Ilustra-o uma história interessante, contada por João Paulo I em uma de suas (poucas) audiências gerais, sobre o (hoje beato) Frederico Ozanam: 

No século passado, viveu na França Frederico Ozanam, grande professor. Ele ensinava na Universidade de Sorbonne, era eloquente, ótima pessoa! Era seu amigo Lacordaire, que dizia: “É tão excelente, é tão bom, far-se-á sacerdote e este chegará a ser grande bispo!” Não foi assim. Encontrou uma jovem cheia de qualidades e casaram-se. Lacordaire não ficou satisfeito e disse: “Pobre Ozanam! Também ele caiu na armadilha!” Dois anos mais tarde, Lacordaire veio a Roma e foi recebido por Pio IX. “Venha cá, padre — disse-lhe — venha. Sempre ouvi dizer que Jesus instituiu sete sacramentos; agora vem o padre e muda as cartas na mesa: diz-me que instituiu seis sacramentos... e uma armadilha! Não, Padre, o matrimônio não é armadilha, é um grande sacramento!” [7].

Segundo, ninguém está dizendo que todos deveriam entrar na vida religiosa. Até porque, como haveria pessoas se consagrando inteiramente a Deus, sem antes serem geradas fisicamente e educadas religiosamente no seio de boas famílias católicas?

Aqui é importante voltar ao Apóstolo: “Quereria que todos fossem como eu; mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele” (1Cor 7, 7). Ou seja, por excelente que seja o estado de vida religioso, nem todos são chamados a ele; para cada um Deus reservou uma vocação específica. E esse “problema”, como já fizemos questão de explicar noutro lugar, não se resolve com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para cada um, é preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Pode ser, é verdade, que nem todos tenham trilhado o caminho melhor e mais santo para chegar ao lugar em que se encontram. Muitas vezes são as circunstâncias da vida, mais do que a busca de Deus e o impulso da graça, que levam as pessoas a definirem seu estado de vida. Mas mesmo nesses casos não se pode ignorar a misteriosa ação da Providência divina, que atua, senão querendo, ao menos permitindo tudo o que nos acontece. É por isso que, aos que já “se resolveram” na vida, o Apóstolo manda que “cada um tenha sua mulher, e cada mulher tenha seu marido” (1Cor 7, 2). Para os que ainda não o fizeram, no entanto, é o tempo de discernir com prudência e maturidade a vontade de Deus para suas vidas.

Terceiro, ninguém está dizendo que todos que estão na vida religiosa são santos nem que, por outro lado, todos os casados estão fadados a ter um “coração dividido” ou a levar uma vida medíocre. Contra isso estão o testemunho de numerosos santos e santas da Igreja que se santificaram no Matrimônio — Santa Isabel de Portugal, Santa Francisca Romana, São Luís e Santa Zélia Martin — e, ao mesmo tempo, o triste fato de que também as almas dos religiosos estão em risco de se perder eternamente, se eles não corresponderem às exigências de sua vocação. “Quando se compara o matrimônio com a virgindade — explica o Pe. Royo Marín — e se assinala a superioridade desta sobre aquele, não se estabelece a comparação entre as pessoas, mas só entre os estados” [8].

…mas nunca antes tão necessária

A objeção que muitas outras pessoas fazem, porém, é quanto à oportunidade de se falar essas coisas. Elas podem até aceitar que a vida consagrada seja superior à matrimonial, mas não concordam com que isso seja proclamado aos quatro cantos, “de cima dos telhados”, talvez porque imaginem que isso “desencoraja” de algum modo os casais, ou semea tentações em suas mentes, fazendo-os sonhar com um estado de vida que não é o seu e a deplorar a situação em que Deus os colocou… 

Bom, na verdade, para um homem e uma mulher mal resolvidos, qualquer coisa pode servir de pretexto para idealizar uma outra vida, com condições ideais de “temperatura e pressão”, e outras circunstâncias dentro das quais elas “com certeza” serviriam melhor a Deus e buscariam com mais afinco a santidade de vida... Mas tudo isso não passa de ilusão. Lembremo-nos nesse sentido de uma advertência de São Francisco de Sales: 

Não há vocação alguma que não tenha as suas contrariedades, as suas amarguras e os seus desgostos. Exceto aqueles que se resignam plenamente com a vontade de Deus, todos gostariam de trocar a própria condição com a dos outros. Aqueles que são bispos não desejariam sê-lo; os que são casados desejariam não o ser; e os que não o são, gostariam de o ser. Donde vem esta inquietação geral dos espíritos senão de certa alergia que nós sentimos perante a obrigação e de um espírito não bom, que nos faz supor que os outros estão melhor do que nós [9]?

“Alergias” à parte, falar da excelência da vida consagrada é lembrar o fim para o qual fomos criados. “A continência ‘por amor do reino dos Céus’ tem particular importância e particular eloquência para aqueles que vivem a vida conjugal” [10], ensina S. João Paulo II. Nenhum casal deveria se sentir desencorajado ou desanimado ao lembrar a dimensão sobrenatural do próprio sacramento que receberam (ou receberão). Se Deus deu à Igreja esse tesouro tão precioso que é a virgindade e o celibato por causa do Reino dos céus, é para lembrar inclusive às pessoas casadas que o casamento definitivo para o qual fomos feitos não é deste mundo, não acontecerá aqui; os esposos estão unidos em santo Matrimônio “até que a morte os separe”, mas a união para a qual todos fomos criados é outra.

É por isso que Nosso Senhor, em casa de Marta e Maria, depois de repreender o “ativismo” da primeira, disse: “Maria escolheu a melhor parte (optimam partem), e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 42). Nossa época pode até ser “igualitarista”, mas Jesus não está minimamente preocupado com nossos queixumes politicamente corretos. A vida contemplativa é superior, ponto final

Mas vejam todos como a agitada Marta aprendeu bem a lição e veio a tornar-se Santa Marta. Ela olhou para o exemplo da irmã e, mesmo em meio às panelas da cozinha e demais afazeres da casa, aprendeu a viver para buscar o unum necessarium. Por isso, mesmo na correria do dia a dia — pois eles têm uma casa a prover e filhos a educar —, aprendam os homens e as mulheres casados a separar um tempo para se sentar aos pés do Senhor e ouvi-lo; não se deixem seduzir pelo frenesi do dinheiro a qualquer custo, pondo de lado o amor conjugal, o aconchego do lar ou até mesmo a existência e a salvação dos próprios filhos; aprendam a viver em espírito, enfim, aquilo a que os religiosos estão obrigados por voto. Porque, no fim das contas, estejamos casados ou vivendo só para Deus e sem nenhuma preocupação terrena, o que importa é amarmos e não tirarmos os olhos do Céu

Só não caiamos na tentação de menosprezar o que Deus mesmo fez questão de deixar como herança preciosa à sua Igreja. Os padres e as religiosas, ao renunciarem ao casamento terreno, são um testemunho vivo de que esta vida não é a última palavra. O hábito religioso e eclesiástico é uma voz que clama no deserto do nosso materialismo e diz: “Há outro mundo!”, “Existe vida sobrenatural!”, “Não fomos feitos para esta vida!”

Por isso, todo católico deveria sentir crescer o seu coração ao avistar, pelas ruas de sua cidade, uma irmã com sua veste gasta ou um sacerdote com sua “mortalha” preta. Se não nos entusiasmamos mais com a vocação sagrada, separada, desses homens e mulheres, é porque primeiro deixamos de nos entusiasmar pela vida eterna, e pelo matrimônio celeste que, um dia, todos celebraremos com Deus. Os errados e descompassados somos nós. E o que tem de mudar não são eles, tampouco a disciplina da Igreja... somos nós.

Referências

  1. Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas, 25 mar. 1954, n. 16.
  2. São Cipriano, De habitu virginum, 22 (PL 4, 462), citado em Sacra Virginitas, n. 28.
  3. Concílio de Trento, 24.ª Sessão, Doutrina e cânones sobre o sacramento do Matrimônio, 11 nov. 1563, cân. 10 (DH 1810).
  4. Santo Tomás de Aquino, STh II-II, 152, 4 c.
  5. São Jerônimo, Epístola 48, 20 (PL 22, 509).
  6. John Henry Newman, Apologia pro vita sua ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 312.
  7. Papa João Paulo I, Audiência Geral, 13 set. 1978.
  8. Pe. Antonio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. II: Los sacramentos. Madri: BAC, 1965, p. 533.
  9. São Francisco de Sales, Oeuvres, ed. Annecy, t. XII, 348-9, apud Papa João Paulo I, Discurso ao Clero Romano, 7 set. 1978.
  10. Papa S. João Paulo II, Audiência Geral, 14 abr. 1982, n. 2.

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Transubstanciação: um guia para iniciantes
Doutrina

Transubstanciação:
um guia para iniciantes

Transubstanciação: um guia para iniciantes

Ao longo dos séculos a Igreja se apropriou de um sólido arcabouço conceitual e filosófico que lhe permitiu explicar de forma racional o mais belo e profundo dos mistérios que ela guarda: o Santíssimo Sacramento.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Novembro de 2019
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A presença real de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia é um dos maiores mistérios da nossa fé. De fato, quando o sacerdote celebra a Missa segundo o rito romano tradicional, ele sussurra estas palavras enquanto consagra o Precioso Sangue: Mysterium fidei. Ao longo dos milênios, a Igreja Católica meditou com amor sobre esse mistério, e seus grandes teólogos, embora reconhecendo com humildade os limites da razão para sondar o que é divino e sobrenatural, foram, não obstante, capazes de apresentar uma defesa razoável dele contra todas as objeções que a incredulidade e a heresia lhe fizeram

No mundo moderno, onde imperam o materialismo, o cientificismo e o ceticismo, a mudança misteriosa chamada pela Igreja de transubstanciação possui seus escarnecedores e pretensos desmistificadores — até mesmo em suas fileiras há dissidentes ocultos ou de facto, como os modernistas que povoam muitas universidades, seminários ou chancelarias católicas. Como católicos que procuram compreender e viver a fé de modo mais profundo, precisamos nos apropriar da sensata filosofia da realidade que fornece à Igreja matérias-primas para definições dogmáticas. Se fizermos isso, teremos maiores chances de chegar a um pensamento lúcido sobre essa admirável obra de Deus e, deste modo, atingir uma posição que nos permita falar dela para outras pessoas.

É por essa razão que ofereço aqui um guia para iniciantes sobre a transubstanciação. Não será uma leitura fácil. Os mistérios da fé desafiam nossa razão limitada e débil até o ponto de ruptura, mas sem rompê-la. Ao contrário de um músculo, que fica cansado ou mesmo machucado pelo uso, nossa mente se fortalece à medida que a usamos, como Aristóteles afirmou há muito tempo. Menciono Aristóteles, o filósofo racional por excelência, não apenas por ser meu filósofo grego favorito (todos devem ter um favorito), mas porque na realidade ele legou a Santo Tomás as ferramentas conceituais para debater a transubstanciação. Embora o mistério jamais deixe de ser uma maravilha e um milagre que supera todo o pensamento humano, pode ser explicado à mente de modo que não mais pareça uma contradição ou impossibilidade colossal.

Um breve manual de filosofia

Como é fundamental para a doutrina da Igreja sobre a transubstanciação a distinção entre “substância” e “acidente”, qualquer um que procure compreender de modo mais profundo os sagrados mistérios fará bem em empregar um pouco de tempo para compreender a que se referem esses termos.

A distinção entre “substância” e “acidente”, apesar do aspecto técnico dos termos, baseia-se na experiência cotidiana. Embora o uso moderno restrinja com frequência o significado de “substância” aos elementos ou substâncias químicas, e o de “acidente” a um evento não intencional e geralmente prejudicial, seu sentido filosófico é muito amplo. A palavra “substância” diz respeito a qualquer ente individual, a qualquer coisa que exista em e por si mesma — como, por exemplo, um homem, um cavalo, uma planta, uma pedra — e tem uma natureza própria (diferentemente de um banco, por exemplo, que, embora tenha uma definição, não possui natureza própria, mas é o resultado de uma arte que junta diferentes substâncias naturais).

O termo “substância” deriva de sua função: é “aquilo que está por baixo” (latim substantia; grego hypostasis), em contraste com o “acidental” (latim accidens; grego: symbebekos), “aquilo que sucede à, acontece com, pertence à” substância. Uma substância existe em si, ao contrário do que existe numa substância. Cor, formato, peso, conhecimento, virtude, paternidade, filiação são exemplos de coisas que existem numa substância, não em si mesmas. Cor, formato e peso existem verdadeiramente, mas como pertencentes a algo que é colorido, tem formato ou peso. Nunca vemos a brancura, mas antes um cavalo branco ou uma cadeira branca; nunca vemos a justiça, mas antes um homem justo ou uma lei justa [1]. Quando dizemos que alguém tem 1,82m de altura, queremos dizer que seu tamanho é uma quantidade de sua substância: ele tem 1,82m de altura. A paternidade não existe separada de uma pessoa em relação a outra. O conhecimento só tem existência na mente daquele que conhece; é um acidente próprio de sua alma. 

Há dois tipos de acidente: o genérico (acidente não próprio) e o acidente próprio, também conhecido como “propriedade”. Acidentes não próprios podem vir a ser e desaparecer na mesma substância. É o que acontece com um homem pálido, que pode ficar moreno por causa do bronzeamento, ou com um homem sem conhecimento musical, que pode se tornar um músico e, pela falta de treinamento, pode perder esse hábito. Um acidente próprio, por outro lado, está enraizado em e deriva da natureza de uma substância, de modo que está sempre presente quando a substância está presente (por exemplo, a capacidade de rir ou de falar, que deriva da natureza racional do homem). São chamados acidentes porque existem apenas numa substância, mas são chamados propriedades porque são próprios de certo tipo de substâncias e sempre as acompanham. Portanto, seria um equívoco definir “acidente” como aquilo que pode ser ou não ser; alguns acidentes são permanentes e outros, mutáveis. A noção importante na definição de “acidente” é a seguinte: ele existe em, ou é próprio de, um sujeito subjacente. (A única exceção é o mistério da Eucaristia, no qual, pelo poder divino, os acidentes do pão e do vinho existem sem um sujeito subjacente, como veremos abaixo.)

Acidentes são, portanto, sempre distintos da substância, que é a fonte de sua existência. Se não existisse nenhum animal racional, não haveria nenhum fundamento para as propriedades da fala e do riso ou para acidentes como alto, corajoso, musical etc [2].

Como obtemos nosso conhecimento sobre a realidade por meio dos nossos sentidos, só conseguimos perceber diretamente as características acidentais das coisas. Não obstante, a existência da substância é inferida facilmente a partir de nossa experiência dos entes individuais (este homem, este cavalo) e da impossibilidade de uma qualidade abstrata (brancura, musicalidade, justiça, altura) existir separada de um sujeito ou indivíduo modificado por ela. Os acidentes que percebemos apontam para um nível mais fundamental de existência que lhes permite existir. Uma pessoa pode mudar de cor ou de peso, adquirir ou perder virtudes sem deixar de ser a mesma pessoa; substância é o princípio permanente que subjaz a todas as outras características.

Isso nos leva a um sentido mais amplo de substância: aquilo que verdadeiramente é, o fundamento essencial, ao contrário daquilo que é mutável ou derivado. Neste sentido, a natureza ou essência de uma coisa é às vezes chamada de “sua substância”, porque a natureza ou essência é aquilo que faz uma coisa ser o que ela é — e, por extensão, a existência [ou o ser] de uma coisa pode ser chamada de substância. Quando o termo “substância” é usado nesses sentidos ampliados, já não significa a contraparte ou o fundamento com respeito aos acidentes; deste modo, quando Deus é chamado de substância, ou as Pessoas da Trindade são chamadas de hypostases, ou falamos da união hipostática entre as naturezas humana e divina em Jesus Cristo, não sugerimos que haja acidentes correspondentes próprios da existência de Deus ou do Verbo. Coisas que são acidentes na alma de uma criatura racional (como seu conhecimento e suas virtudes) são, em Deus, idênticas ao seu ser. 

O termo “substância” foi incorporado à teologia cristã desde muito cedo em controvérsias a respeito da Encarnação e da Santíssima Trindade. O Concílio de Niceia (325), ao defender a divindade de Cristo, afirma que o Filho é homoousian (latim consubstantialis) — isto é, da mesma substância, da mesma essência divina — em oposição aos arianos, que o chamavam homoiousian, “de substância parecida” [3]. Na Idade Média, quando o mistério da Eucaristia como verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo foi questionado por Berengário de Tours, os termos substância e acidente foram empregados para formular a doutrina ortodoxa.

O milagre da transubstanciação

Por ser o mistério central de nossa fé, “fonte e ápice da vida cristã”, a Igreja considera a Sagrada Eucaristia o objeto de sua mais profunda adoração e mais rigorosa vigilância [4]. Temos de pressupor duas verdades a fim de compreender por que a Igreja usa o termo “transubstanciação” para o milagre que ocorre no momento da consagração: primeiro, que a Eucaristia é realmente o Corpo e o Sangue de Cristo; segundo, como contrapartida necessária, que pão e vinho realmente se transformam em Corpo e Sangue.

Ambas as verdades são ensinadas na Sagrada Escritura [5] e atestadas de modo inequívoco pelos Padres da Igreja do Ocidente e do Oriente. Os autores gregos se referem à mudança que ocorre nos dons como metousiosis, ou mudança de uma substância (ousia) em outra; até hoje os teólogos ortodoxos orientais que permanecem fiéis à herança patrística estão fundamentalmente de acordo com o dogma católico, mesmo que usem uma terminologia diferente e menos precisa [6]. O termo latino transubstantiatio apareceu no final do século XI e foi apresentado oficialmente no IV Concílio de Latrão (1215). Opondo-se às heresias eucarísticas dos autodenominados reformadores, o Concílio de Trento (1545-1563) reafirmou solenemente a doutrina, observando que seu significado, senão o termo especial, foi sempre e em todos os lugares a fé comum da Igreja.

A substância de uma coisa é o que ela é de modo mais fundamental enquanto certo tipo de coisa (por exemplo, o pão resulta da mistura de farinha, óleo, sal etc.), distinguindo-se de seus vários acidentes ou características (cor, sabor, cheiro, formato, tamanho, localização e assim por diante) [7]. Normalmente, os acidentes de uma coisa indicam sua substância; a cor e o sabor do pão nos levam a realizar a esperada inferência de que é pão. A transubstanciação é justamente considerada milagrosa no sentido mais forte do termo, isto é, trata-se de algo que está completamente fora do curso ordinário da natureza, porque nessa mudança misteriosa os acidentes ou características do pão e do vinho permanecem, enquanto a substância interior, a realidade essencial, torna-se algo completamente diferente. Como ensina o Concílio de Trento, no momento da consagração, em virtude das palavras eficazes de Nosso Senhor proferidas por seu ministro, a substância inteira do pão é transformada na substância inteira do Corpo de Cristo, e a substância inteira do vinho é transformada na substância inteira do Sangue de Cristo. Pão e vinho enquanto tais deixam de existir, e a plena realidade de Cristo se torna presente sob suas aparências, cuja permanência nos dá a possibilidade de consumir os dons divinos. Os acidentes do pão e do vinho, portanto, permanecem sem qualquer substância à qual possam inerir, e a substância de Jesus Cristo se torna presente sem que os seus acidentes ou características sejam sensíveis para nós.

Devemos nos maravilhar com a conveniência dos meios escolhidos por Nosso Senhor: pão e vinho são fontes evidentes de nutrição para o corpo. Portanto, simbolizam perfeitamente o alimento espiritual que a alma recebe na Sagrada Comunhão. Os acidentes duradouros desses alimentos permitem que o comungante receba de modo incruento o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor e, consequentemente, sua alma e divindade, de um modo adequado a nós e às nossas capacidades. Quando recebemos a Sagrada Comunhão, o Senhor do céu e da terra vem habitar em nós do modo mais íntimo, abençoando nossa alma e corpo com a santidade de sua divina humanidade. Enquanto o corpo humano transforma o alimento comum em sua própria substância, ao recebermos Cristo dignamente nós somos envolvidos por sua graça e transformados gradualmente em sua imagem e semelhança.

Como por meio das palavras da consagração o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor se tornam verdadeiramente presentes enquanto carne e sangue do Senhor ressuscitado no céu, a hóstia consagrada necessariamente contém também — “por concomitância”, para usar a linguagem de Santo Tomás e do Concílio de Trento — seu Sangue, Alma e Divindade, pois estes são inseparáveis daqueles [8]. Eles sempre acompanham o Corpo (o verbo concomitare significa apenas atender, acompanhar, ir junto). O mesmo vale para o vinho, que é transformado em Sangue de Cristo em virtude das palavras da consagração, mas no qual estão presentes, por concomitância, o Corpo, a Alma e a Divindade do Salvador. Essa é a razão pela qual a comunhão apenas sob uma espécie, pão ou vinho, não diminui em nada a recepção do Cristo inteiro, Verbo feito carne, ainda que a significação do valor de sinal do sacramento seja mais completa na recepção sob as duas espécies, algo que a Igreja Católica considerou adequado limitar ao sacerdote que oferece o sacrifício [9].

Objeções e respostas

Alguns levantaram a objeção de que o uso de “substância e acidente” na definição do mistério da Eucaristia faz uso ilegítimo de categorias filosóficas pagãs que não foram reveladas na Sagrada Escritura ou não são encontradas explicitamente antes dos pensadores escolásticos da Idade Média. Em seus esforços para defender o mais sagrado dos mistérios, a Igreja, assim dizem, cingiu-se a distinções humanas discutíveis em vez de se satisfazer com um simples ato de fé na presença de Cristo.

Alguém poderia responder, de início, que os termos “Encarnação” e “Trindade” também não são mencionados na Sagrada Escritura, mas não são menos verdadeiros por causa disso. Porém, para ser mais preciso, essa objeção não consegue perceber que a distinção entre substância e acidente deriva da experiência comum e da estrutura da realidade. A Igreja usa terminologia filosófica sempre que capta alguma verdade inquestionável sobre o mundo em que vivemos ou a fé que professamos. O Papa Paulo VI, na encíclica Mysterium Fidei, de 1965, explicou que a Igreja encontrou uma linguagem universal com a qual pode apresentar e defender com sucesso seus ensinamentos: 

Essas fórmulas, como as outras que a Igreja usa para enunciar os dogmas de fé, exprimem conceitos que não estão ligados a uma forma de cultura, a determinada fase do progresso científico, a uma ou outra escola teológica, mas apresentam aquilo que o espírito humano, na sua experiência universal e necessária, atinge da realidade, exprimindo-o em termos apropriados e sempre os mesmos, recebidos da linguagem ou vulgar ou erudita. São, portanto, fórmulas inteligíveis em todos os tempos e lugares (n. 24).

Mesmo que a Igreja não imponha a física aristotélica per se, percebe que o mistério da Eucaristia pode ser corretamente definido em termos originalmente apresentados por Aristóteles. Ela definiu de modo solene que a maravilhosa e singular mudança que ocorre no momento da consagração é chamada, de forma mais apropriada e correta, transubstanciação. Respondendo ao Sínodo de Pistoia (1786), que afirmou que a teoria da transubstanciação é uma “questão puramente escolástica”, o Papa Pio VI reafirmou, ao contrário, que todos os fiéis deveriam ser instruídos nela

A encíclica Mysterium Fidei, do Papa Paulo VI, emitiu um severo alerta contra a desvalorização ou substituição do termo “transubstanciação”, condenando particularmente duas inovações: a “transfinalização” (isto é, a ideia de que as palavras da consagração mudam a finalidade ou propósito do pão e do vinho, que então passam a desempenhar a função de estimular a fé no amor de Cristo) e a “transignificação” (isto é, a ideia de que as palavras da consagração mudam o sentido do pão e do vinho, que então ganham um significado simbólico ausente na comida humana comum). Tais teorias fazem eco aos erros dos reformadores protestantes, que negaram a real transformação do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo e, consequentemente, rejeitaram a Presença Real ou negaram a completa transformação dos dons, insistindo em que depois da consagração, pão e vinho permanecem, junto ou ao lado do Corpo e do Sangue recém-apresentados (uma teoria conhecida como consubstanciação). Foram precisamente tais heresias que o Concílio de Trento anatematizou a fim de salvaguardar o mais profundo mistério do amor divino. Além disso, quando rejeita a consubstanciação, a Igreja está na verdade defendendo a razão, pois dizer que a mesma coisa é tanto a substância inteira de Cristo e a substância inteira de pão é uma contradição em termos: uma impossibilidade metafísica. 

Outra objeção é assim apresentada: Deus não estaria nos “enganando”, uma vez que Jesus Cristo está realmente presente, mas não pode ser percebido de modo algum como presente? Por que o Salvador escolheria dar-se a nós sob aparências diferentes e enganosas? 

A resposta prática é a seguinte: considerando a intenção do Senhor de nos alimentar consigo, só poderíamos comer seu Corpo e beber seu Sangue de modo digno se fossem disponibilizados ao modo de comida e bebida comuns. Mas a resposta mais profunda é que a Eucaristia, como mistério supremo da fé, convida-nos a depositar toda a nossa confiança na inerrante Palavra de Deus, o Deus da misericórdia, que dignou-se vir ao mundo como uma criança indefesa, cuja divindade não poderia ser reconhecida pelos sentidos humanos (cf. Jo 1, 9-13; Mt 16, 17). A presença oculta de Cristo no altar é a um tempo o maior gesto de misericórdia para com os pecadores (cf. Mt 26, 28) e o maior desafio para os discípulos, que devem discernir Cristo na fração do pão (cf. Lc 24, 35), ou não o encontrarão em lugar algum, mesmo que Ele apareça e caminhe ao lado deles. Se temos de exercitar a virtude sobrenatural da fé para aceitar todos os mistérios de nossa santa religião — a Trindade, a Encarnação, o nascimento virginal, a ressurreição —, temos de exercer essa virtude sobretudo ao adorarmos e nos aproximarmos do Deus escondido sob as humildes aparências dos dons consagrados. Nosso Senhor disse a Tomé: “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que, mesmo sem ter visto, creem” que verdadeiramente ressuscitei dos mortos (Jo 20, 29). Ele nos diz em cada Missa: “Felizes aqueles que, mesmo sem ter visto, creem” que estou realmente aqui, no meio de vós, cumprindo minha promessa de estar “convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). 

Uma pessoa com treinamento filosófico poderia objetar que uma substância não pode mudar sem seus acidentes ou aparências também mudarem; deste modo, se pão e vinho deixarem de existir, sua aparência também deverá deixar de existir, e se Jesus se fizer presente, sua aparência também deverá estar presente. 

Santo Tomás responde: Deus é a causa primeira e absoluta de tudo o que existe — inclusive da existência das substâncias e seus acidentes —, e qualquer que seja a causa primeira e absoluta de um ente composto também será a causa de seus aspectos ou componentes tomados um a um. Portanto, Ele é capaz, em sua onipotência, de fazer com que uma substância exista por si mesma sem as suas características sensíveis costumeiras, e de sustentar os acidentes separados de seu sujeito habitual. O Criador que traz à existência e mantém nela tanto o ferro como seus acidentes (superfície brilhante, dureza, durabilidade) pode, se quiser, fazer com que as características do ferro permaneçam, ao mesmo tempo que retira a substância que subjaz a elas. Não deveria ser difícil aceitar que Ele pode fazer isso quando consideramos que Deus, ao criar o mundo, os anjos e cada alma humana, criou o ente a partir do nada (ex nihilo) — um ato que ultrapassa qualquer milagre. A objeção só é válida até onde chega nossa experiência comum, pois a Eucaristia é uma exceção absoluta, sobre a qual temos de ser instruídos por Nosso Senhor e seus Apóstolos. Em relação a todos os outros entes, é verdade que substância e acidentes sempre estão juntos, mas no mistério do Santíssimo Sacramento Deus quis que ficassem separados por um ato de seu poder invencível

Há outra objeção ligada a essa: como o Corpo de Cristo pode estar em mais de um local simultaneamente? Cristo não seria multiplicado de forma impossível nas muitas hóstias? 

Resposta: somente os acidentes do pão e do vinho estão divididos e distribuídos, e apenas os acidentes podem perecer com o tempo, tal como sucede no estômago do comungante. O Salvador glorificado no céu, sem sofrer divisão ou mudança, faz-se inteiramente presente na Eucaristia, que é verdadeiramente uma porque sua substância é verdadeiramente uma. O ensinamento de São Paulo — “O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (1Cor 10, 16-17) — mostra que o mesmo e único Pão da Vida, o próprio Jesus (cf. Jo 6, 35), é recebido pelos cristãos sob as aparências daquele pão físico que pode ser partido e distribuído. Embora a comparação seja limitada, até um simples homem pode estar presente ao mesmo tempo em diferentes lugares e segundo modos distintos: numa chamada telefônica por conferência, uma pessoa está presente para si de um modo e presente para outros de outra maneira, sem que ela deixe de ser a mesma pessoa. Na Sagrada Eucaristia, Nosso Senhor está presente de um modo sacramental que permite a multipresença ou multilocalização. 

Finalmente, algumas pessoas acham que a doutrina da transubstanciação se tornou indefensável diante da “ciência moderna”. As ciências empíricas dos séculos recentes, no entanto, não fizeram nada mais que fornecer uma grande quantidade de informações detalhadas sobre o mesmo mundo no qual os antigos e os medievais viveram, o mesmo mundo em que todos vivemos e que experimentamos. Jamais poderá haver qualquer conflito sobre o curso normal dos acontecimentos e a constituição ordinária das substâncias no mundo natural. Assim como a pessoa religiosa que comunga sente sabor do pão, mas sabe por fé que recebe a Jesus Cristo, a análise química feita numa hóstia consagrada (Deus não permita que isso ocorra) apontaria obviamente para as características acidentais do pão — coisa que o católico sempre soube. Nem os cinco sentidos do homem nem os mais avançados instrumentos da ciência empírica podem atingir a substância interna das coisas; eles só conseguem conhecer e registrar os acidentes, as aparências, as qualidades e as quantidades, que, na Eucaristia, continuam sendo o que eram antes da transubstanciação.

A hostilidade que um empirista moderno pode manifestar em relação à Eucaristia tem raízes numa rejeição axiomática, prévia, da existência de Deus ou da própria possibilidade de haver milagres, isto é, eventos que não se enquadram nos acontecimentos ordinários que obedecem às leis e ao curso da natureza. Esses erros devem ser combatidos num campo de batalha mais amplo. Uma vez demonstrada a existência de Deus e as perfeições infinitas de sua natureza, torna-se impossível negar a possibilidade de milagres, pois como o Deus que cria e sustenta todas as coisas pode fazer o que quiser com elas, e como Jesus Cristo é verdadeiro Deus, segue-se imediatamente que Ele pode realizar o milagre da transubstanciação por meio do poder infinito de sua divindade, um poder ao qual o sacerdote tem acesso especial por meio de sua conformação sacramental a Cristo, Sumo Sacerdote.

A recente pesquisa do Pew Research Center que indicou um enorme colapso da fé dos católicos na Presença Real certamente nos mostra ao menos duas coisas: primeiro, o modo como a maioria dos católicos têm prestado culto a Deus não os ajuda a captar as verdades dogmáticas que a Igreja confessa; segundo, todos os católicos — independentemente da riqueza ou pobreza com que nossas liturgias retratam os mistérios da fé — precisamos fazer mais do que ir à igreja uma vez por semana, se quisermos conhecer, amar e viver nossa sagrada religião. O estudo é parte disso, e Santo Tomás de Aquino é nosso guia de confiança.

Notas

  1. Uma expressão como “Veremos a justiça?” significa: veremos a coisa justa ser feita nesta situação?
  2. Há também dois níveis de substância. Substância primeira é aquilo de que temos falado: uma coisa individual dotada de existência, aquele determinado homem, cavalo ou árvore. Substância segunda é o gênero ou espécie de um indivíduo. “Animal” ou “planta” podem ser chamados de substância, mas como no mundo só há animais e plantas individuais, “substância” refere-se, de modo mais apropriado, a coisas que realmente existem, e não às espécies ou gêneros delas.
  3. A expressão “um i não faz diferença” é uma indelicadeza racionalista contra a precisão teológica dos nossos antepassados. Um i faz toda diferença entre o cristianismo e o paganismo elegante de Ário. 
  4. Ver Lumen Gentium 11, Catecismo da Igreja Católica 1324. Dificilmente poderíamos culpar a doutrina oficial da Igreja por muitas vezes serem deficiente essa adoração e vigilância, particularmente nas últimas décadas. Esse fenômeno resulta mais da decadência da autoridade, da falta de disciplina eficaz e da gradual perda do senso de Tradição entre os fiéis, tal como Romano Amerio documentou em seu livro Iota Unum
  5. Ver, inter alia, Jo 6, 48-60; Mt 26, 26-28; Mc 14, 22-24; Lc 22, 19-20; 1Cor 10, 16-17; 11, 23-29.
  6. Naturalmente, eles consideram sua imprecisão linguística uma grande virtude, mas este não é o lugar para iniciar um debate sobre os motivos pelos quais estão equivocados.
  7. Embora o pão não seja uma substância produzida pela natureza, mas uma mistura de ingredientes naturais reunidos pelo homem e submetida a cozimento, o resultado final não é um mero conglomerado de ingredientes, a menos que algo dê errado no processo; é um algo reconhecível de modo consistente, para o qual não temos dificuldade de assinalar um nome. 
  8. Inseparáveis agora que Cristo está ressuscitado e a morte não tem mais domínio sobre Ele. A humanidade que recebemos na Eucaristia é ressurrecta, glorificada, completa e imperecível. Quando na Quinta-Feira Santa Jesus celebrou a Eucaristia pela primeira vez, a humanidade recebida pelos discípulos era passível (capaz de sofrer). Santo Tomás chega inclusive a dizer que, se a Eucaristia tivesse sido oferecida durante o intervalo entre a morte de Cristo e a ressurreição, a hóstia teria contido o Corpo com a Divindade, mas sem o Sangue ou a Alma, e o cálice teria contido o Sangue com a Divindade, mas sem o Corpo ou a Alma. Tudo isso é simplesmente a aplicação do princípio de que a Eucaristia contém a substância de Cristo tal como Ele é
  9. Desde o Concílio Vaticano II, a prática da comunhão sob duas espécies [para os fiéis] foi amplamente disseminada na Igreja latina. Está além do escopo deste artigo a defesa da tradição e a crítica a essa peça de antiquarismo.

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Tchau, moral! Adeus, virtude!
Sociedade

Tchau, moral! Adeus, virtude!

Tchau, moral! Adeus, virtude!

O ser humano não consegue viver sem um critério de como agir. Como o homem moderno rejeitou o cristianismo herdado de seus antepassados, restou-lhe apenas uma opção: eliminar a moral e a virtude da vida pública e substituí-las por simulacros.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2019
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Faz muito tempo que nossa nação renunciou ao ensino da moralidade [1]. Hoje, a palavra “moral” é pouco pronunciada, pois foi substituída por “valores”, um termo mais subjetivo e agradável aos ouvidos do que seu predecessor, que evoca padrões objetivos e um comportamento ordenado. A sorrateira mudança para “valores” ocorreu quase sem esforço depois que forças seculares expulsaram Deus de nossos sistemas escolares e da esfera pública.

Compreende-se melhor a moral quando uma ordem estabelecida confere a ela uma finalidade, e essa necessidade durante muito tempo foi suprida pela crença no Deus criador de um universo ordenado. Ora, não é de admirar que o comportamento humano tenha sofrido desvios preocupantes, uma vez que secularistas proeminentes passaram a negar a existência de qualquer finalidade no mundo ou na vida humana.

Agora a sociedade secular está presa numa armadilha criada por ela mesma. Por um lado, defende com ferocidade o direito de um indivíduo a “definir seu próprio conceito de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana”, segundo as infames palavras do juiz Anthony Kennedy [2]. Se uma pessoa quiser matar um bebê in utero, redefinir o matrimônio ou remodelar sua sexualidade, nenhuma lei ou instituição poderá impedi-la

Por outro lado, deve haver um código para regular o comportamento até certo ponto, a fim de evitar a anarquia. Portanto, no lugar da moral, que (aliada ao seu outro complemento esquecido: a virtude) outrora moldou o comportamento humano adequado desde dentro, os secularistas impõem leis externas para regular nosso comportamento a partir de fora.

Essas leis são de dois tipos: leis de consentimento e de controle. 

Atualmente, as leis de consentimento governam as relações sexuais, e agora que o matrimônio não é mais o território adequado para a sexualidade, elas têm se tornado cada vez mais necessárias. Sendo o consentimento o único padrão, os atos sexuais já não podem mais ser considerados certos ou errados. A única coisa que importa é saber se as partes envolvidas estão de acordo com o ato. A sexualidade humana é hoje governada por decisões subjetivas de indivíduos, e não por padrões objetivos preservados por uma ordem criada. Isso explica por que atualmente todo tipo de atividade sexual é permitido. Em nosso mundo secular, só pode haver crime quando uma pessoa não está de acordo com tal atividade. 

Leis de controle não limitam uma pessoa, mas uma situação, tal como a competência para possuir uma arma ou aumentar o preço do aluguel. Naturalmente, sempre houve leis desse tipo, e elas não são más em si mesmas. Porém, a versão atual delas se tornou imperativa para secularistas que, por causa de seus princípios, não podem dizer a uma pessoa como viver de acordo com a moral.

Consequentemente, a única alternativa deles é controlar situações potenciais, limitando a oportunidade que uma pessoa tem para prejudicar outra. Pela lógica secularista, não podemos ensinar a um homem o mandamento: “Não matarás”. Em vez disso, temos de dizer: “Não possuirás uma arma”. Negligencia-se discretamente o fato de as leis de controle serem uma imposição da vontade de uma pessoa sobre outra.

Em nosso mundo secular, há apenas uma forma de proteger os seres humanos de ações escandalosas: uma lei externa que obriga a pessoa a obedecer ou a sofrer as consequências. Se as pessoas aderissem aos padrões de consentimento e controle, viveríamos em harmonia. Ao menos é o que se espera. 

Na tradição católica, em contrapartida, a lei e as consequências penais são o último recurso para reprimir uma conduta imoral. Segundo essa tradição, há muitas ações imorais em si mesmas, para além da violação de consentimento. Sem dúvida alguma, o código moral cristão, tal como a lei civil, contém diversas formas negativas: “Não farás [isto ou aquilo]”. Não obstante, essas normas fazem parte de uma visão mais ampla a respeito do sentido da vida humana e, consequentemente, do modo como os seres humanos devem e não devem se comportar. 

Em vez de simplesmente coagir a vontade, tal como o faz a lei civil, o código moral cristão recorre ao intelecto, persuadindo-nos a aceitar como verdadeira uma visão a respeito da maneira como deveríamos viver. A obediência a esse código também tem uma recompensa positiva: a vida eterna com Deus no Céu. A lei civil subsiste para reprimir aqueles que rejeitam esse código.

A moralidade cristã se fortalece ainda mais quando as pessoas religiosas se esforçam para adquirir virtudes, ou o hábito de realizar boas ações. Tornamo-nos virtuosos ao realizar atos de virtude repetidas vezes, enraizando-os em nosso próprio ser. Pessoas realmente virtuosas não dependem mais de proibições negativas porque estão sempre motivadas a fazer a coisa certa em todas as situações. Pessoas virtuosas atingem um nível ainda mais elevado quando amam Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, escreve São Paulo: “Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei… Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 18.22-23).

Além da moral, nosso mundo secular descartou também a virtude, já que esta também implica um modo correto de viver. Em seu lugar, temos hoje campanhas de autoestima e exortações insípidas em prol da amabilidade. Essa defesa é bem-intencionada, mas é ineficaz porque carece de um fundamento razoável que explique por que as pessoas deveriam agir desta ou daquela maneira. O apelo não é direcionado ao intelecto, nem mesmo à vontade, mas às emoções, o que equivale a edificar a própria casa sobre a areia.

O ensino da moralidade e da virtude não é — nem jamais foi — uma garantia de que todas as pessoas se tornarão santas e jamais agirão de forma equivocada. Porém, o ensino delas aumenta a probabilidade de os indivíduos escolherem viver de forma íntegra, porque eles recebem de três fontes (as virtudes, a moral e a lei), e não apenas de uma, a motivação para agirem assim. Quando reduzimos nossas defesas, nos tornamos mais vulneráveis ao ataque.

Não podemos esperar que a lei civil faça o trabalho realizado outrora por uma ordem moral razoável e por uma formação virtuosa do caráter. O experimento norte-americano [3] deu certo porque essas coisas estavam presentes durante a formação do país e em sua expansão, mesmo antes da chegada do primado do direito a algumas localidades anteriormente instáveis. A rejeição da moralidade e da virtude pela América secular pode bem ser o passo que arruinará nosso grande experimento.

Notas

  1. O autor fala desde os Estados Unidos. Mas, de modo geral, as considerações feitas por ele se encaixam como uma luva também em nossa situação (Nota da Equipe CNP).
  2. Anthony Kennedy foi, até 2018, juiz associado da Suprema Corte dos Estados Unidos, função equivalente à dos ministros de nosso Supremo Tribunal Federal (Nota da Equipe CNP).
  3. Como já dito, o autor fala a partir do lugar onde vive. A expressão “experimento norte-americano” (em inglês, the American experiment) faz referência a um conjunto de ideias que orientou a independência dos Estados Unidos em 1776, e que pode ser encontrado principalmente nos escritos dos chamados “pais fundadores” dos EUA (os Founding Fathers). À parte, porém, essa particularidade, o que aqui vai escrito se aplica perfeitamente bem a qualquer sociedade. Nenhuma nação pode prosperar, no verdadeiro sentido do termo, se não estiver edificada sobre “uma ordem moral razoável” e “uma formação virtuosa do caráter” (Nota da Equipe CNP).

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Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso
Espiritualidade

Nem uma sequer
de nossas amizades é por acaso

Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso

“Nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram”. Se temos bons companheiros na jornada desta vida, então temos o próprio Deus, visível e encarnado, caminhando conosco.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2019
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É consequência quase que natural, de um processo sério, maduro e verdadeiro de conversão, afastar-se das más amizades que se tinha antes e aproximar-se de outras pessoas que tenham em comum a vida de oração e a busca das virtudes. 

A razão disso é muito simples e consta na própria Sagrada Escritura: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). Não é possível começar a seguir a Cristo e continuar levando a vida do mesmo modo, de mãos dadas com o mundo e com os mundanos. Os que se fazem amigos de Deus devem fazer-se, isto sim, inimigos do mundo — porque o contrário também é verdadeiro: quem se entrega ao mundo, a última coisa que quer ouvir falar é de Deus, de sua Igreja e dos Mandamentos (cf. Tg 4, 4).

Numa sociedade pagã como a nossa, então, é cada vez mais contrastante o modo como o mundo se comporta com o que nos manda o simples Decálogo. Está tudo estampado, às claras, na maneira como as pessoas se vestem, na linguagem com que falam, nas músicas que escutam, nas coisas que admiram…

Só para dar um exemplo muito concreto: as músicas mais ouvidas nos serviços de streaming de música (e também nas rádios), o que se tornaram senão pornografia auditiva pura e simples? As referências abertas ao que deveria ser o mais íntimo dos atos humanos, a incitação ao adultério, à degradação da mulher e ao próprio abuso de menores... nunca foram tão virulentas. E as pessoas não estão escutando isso (como se fosse pouco…); elas estão “curtindo” também, e divulgando, e colocando essas músicas para serem tocadas nas festas de família, de formatura e de casamento, de modo que também seus filhos são colocados, na maior tranquilidade, para cantar e dançar as baixarias que lhes vão aos ouvidos. 

Ora, quando o pecado se torna assim público, como não exigir dos cristãos um rompimento igualmente público com determinados ambientes e grupos de pessoas, de “amigos” ou até mesmo de parentes próximos? Não se trata justamente daquela “fuga das ocasiões perigosas”, básica para vivermos não só, mas principalmente a delicada virtude da castidade cristã? Não vale aqui o ditado segundo o qual é “impossível não queimar-se no meio de uma fogueira” [1]?

À parte a roupagem nova de que o problema se reveste hoje, também Santa Teresa d’Ávila podia se interrogar, em seu tempo, a respeito das más amizades (Caminho de Perfeição, c. 6): “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo? É amor que há de acabar com a vida, pois, se um não guarda a lei divina, e, por conseguinte, não ama a Deus, diferentes hão de ser os seus destinos” [2].

Palavras difíceis de escutar estas, especialmente para uma época que deixou de acreditar na eternidade e no Inferno: “Diferentes hão de ser os seus destinos”. Mas a boa-nova de Cristo comporta essa divisão: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mt 10, 34-36). 

Radical essa divisão, alguém poderá objetar. E, no entanto, como já dito, essa inimizade não é invenção de nenhum ser humano, tampouco da Igreja; trata-se de um decreto divino mesmo, inscrito na própria natureza das coisas, tal como se apresentaram após a Queda. Na célebre frase de Santo Agostinho: “Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus — a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si — a celeste” [3].

Comentando a passagem de Gn 3, 15: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”, São Luís Maria Grignion de Montfort ainda diz o seguinte em seu Tratado sobre a verdadeira devoção à Santíssima Virgem (n. 52):

Deus estabeleceu apenas uma inimizade — porém irreconciliável —, que haverá de durar e chegará mesmo a aumentar na razão mesma em que o mundo se for aproximando do fim. Esta inimizade é entre Maria, Sua Mãe imaculada, e o diabo; entre os filhos e os servos da Santíssima Virgem e os filhos e seguidores de Lúcifer [4].

Desenganemo-nos, portanto, tentando conciliar o inconciliável. “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo?” É inevitável, entre os amigos de Deus e os que não querem saber dele, o distanciamento, a separação e, tantas vezes, até o ódio. (Não de nossa parte, porquanto Nosso Senhor nos pede que amemos inclusive nossos inimigos. Além disso, por mais afundada no pecado que esteja uma pessoa, sua alma imortal também foi comprada pelo Sangue de Cristo, e é nosso dever trabalhar por seu resgate, com oração, sacrifícios e, se houver esperança de emenda, também com apelos e “chamadas de atenção” [5].)

Mas também é verdade uma coisa: as pessoas que não estão na graça de Deus geralmente são as primeiras a não quererem para si a companhia dos justos. E por quê? Porque o comportamento destes é uma reprovação visível do modo como elas procedem. A roupa modesta da moça católica é a condenação explícita da roupa indecente da moça mundana, ainda que não lhe saia uma palavra da boca sequer. O católico que sai de um grupo de WhatsApp porque não concorda com a pornografia que seus contatos lhe mandam, excita o ódio destes mesmo sem fazer alarde algum. A família numerosa gerada por um casal católico aberto à vida é o “escândalo” da paróquia, e por aí vai. 

É lamentável, de fato, que tantos de nosso convívio, e até de nossa casa, estejam tão próximos de nós fisicamente, mas ao mesmo tempo tão distantes espiritualmente… Como já dito, porém, é isso o que acontece naturalmente quando se amam e se querem coisas opostas. Não adianta “forçar a barra” e querer estabelecer uma amizade a todo custo, pois nem os laços de sangue nem a proximidade física podem sanar o problema da discórdia, isto é, quando duas pessoas não têm o coração no mesmo lugar.

Por outro lado, que alegria não experimentamos quando fazemos um amigo, um único que seja, com o qual temos a graça de compartilhar os mesmos amores e as mesmas aversões (idem velle, idem nolle, como diz o adágio latino, “querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas”). C. S. Lewis escreve que “a expressão típica de começo de amizade seria esta: ‘O quê? Você também? Eu pensava que era o único!’” [6]. Se o que os amigos têm em comum, então, é a busca por Deus, essa alegria é potenciada pela graça, e desde já o que se experimenta é um verdadeiro prelúdio da glória celeste, pois é este o destino comum para o qual eles caminham juntos

Para falar a verdade, o único modo de os amores humanos não descambarem para a idolatria é estando constantemente permeados pelo sobrenatural; a única forma de ordenarmos nossos afetos da forma devida é colocando-os sempre diante da Cruz de Cristo; a única maneira de amarmos retamente as pessoas neste mundo é procurando amar a Deus de todo o coração, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento (cf. Dt 6, 5; Lc 10, 27).  

Do contrário, assim como com qualquer coisa deste mundo, ficaremos sempre insatisfeitos e “saturados” de algum modo, porque nossa alma foi criada para um outro tipo de amizade, a amizade com Deus, fora da qual todas as nossas amizades não passam de “parcerias”, “coleguismos”, destinadas ao mesmo fim das coisas materiais: o túmulo. É por isso que Santa Catarina de Sena aconselhava: “Se quiserdes que uma amizade dure, se quiserdes beber por muito tempo neste copo, deixai que ele se encha sempre na fonte de água viva; de outro modo, não podereis mais saciar vossa sede” [7]. 

Aqui mora o cuidado, também, de não deixarmos as boas amizades que temos se perderem por falta de referência a Cristo, nosso Amigo primeiro e fundamental, com “a” maiúsculo. Assim como na vida de perfeição, não basta que deixemos de lado as más companhias, que nos levam para o pecado; é preciso que transformemos o convívio com nossos amigos de fé em um desejo comum cada vez mais intenso pelas coisas celestes, em uma doação mútua cada vez mais generosa de bens espirituais… E isso exige esforço, luta constante e sabe-se lá quantas “doses” (tantas vezes dolorosas) de correção fraterna!

O importante é não nos esquecermos da miséria de nossa condição e da meta para a qual caminhamos. Estamos numa peregrinação difícil, é verdade, a montanha íngreme que queremos subir tantas vezes se agiganta à nossa frente e parece impossível subir… Mas, se temos bons companheiros para nos ajudar nessa jornada, que nos encorajam a seguir adiante, que não nos deixam desanimar quando tudo já parece estar perdido, que não nos deixam voltar atrás quando teimamos em confiar menos na graça que em nossas próprias debilidades, então temos o próprio Deus, visível, encarnado, caminhando conosco

Pois também Ele não desiste de nós; o que Ele mais quer é a nossa salvação eterna; e é Ele quem, em sua providência, nos presenteia com boas amizades:

Do ponto de vista de Deus, [...] nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram, quer se encontrem ambas em estado de graça, quer só uma tenha a vida divina e possa por sua orações, sua atitude e seu exemplo levar a outra a retomar o caminho reto da eternidade. Não foi por acaso que José foi vendido por seus irmãos aos mercadores ismaelitas; Deus tinha decidido desde toda a eternidade que eles passariam ali a tal hora, nem mais cedo, nem mais tarde. Não foi por acaso que Jesus encontrou Madalena, ou Zaqueu, ou que o centurião romano se encontrava no Calvário [8].

Assim também, (não duvide!) não é por acaso nem um sequer de seus amigos!

Referências

  1. Pe. Antonio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. 1. Madri: BAC, 1996, p. 446.
  2. Santa Teresa d’Ávila. Caminho de Perfeição (c. 6). Trad. das Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 53.
  3. Santo Agostinho, De Civitate Dei, XIV, 28.
  4. São Luís M. Grignion de Montfort. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Trad. de Raul Martins. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 36.
  5. Falamos de “esperança de emenda” porque, se previrmos que nossa correção fraterna será inútil ou, ainda, virá a causar mais prejuízo do que benefício a outra pessoa, Santo Tomás de Aquino ensina que é melhor abster-se (cf. STh II-II, 33).
  6. C. S. Lewis. Os quatro amores. Trad. de Estevan Kirschner. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017, p. 92.
  7. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange. O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 26.
  8. Ibid., p. 33.

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Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!
Família

Marido e mulher,
vocês pertencem um ao outro!

Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!

Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Novembro de 2019
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Nas rubricas da celebração do matrimônio presente no Book of Common Prayer [1], o homem, ao colocar a aliança no dedo da mulher, é orientado a dizer: “Com esta aliança, eu te desposo; com meu corpo, eu te venero; e com todos os meus bens terrenos, eu te provejo: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Os cônjuges doam-se a si mesmos porque pertencem um ao outro. O respeito mútuo entre eles e sua união ao longo da vida são uma ratificação da aliança escrita, naquele dia, em seus corações pelo dedo ardente do Espírito Santo; escrita com a palavra de todo seu ser e o peso absoluto do passado, do presente e do futuro, testemunhando a imortalidade da alma humana e a origem divina do seu amor. Se votos como esse não são possíveis, os seres humanos não podem ser considerados animais racionais, muito menos filhos de Deus.

O voto nupcial é uma imitação da fé da Virgem Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Essa declaração perpétua — dita por Eva a Adão, por Sara a Abraão, por Rebeca a Isaac, por Raquel a Jacó, por Maria a José, por Cristo a seu Pai, e pela Igreja a Cristo — é o atestado solene de amor eterno, o triunfo do amor sobre a morte. “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6, 3).

É por isso que, para o cristão, o divórcio não é apenas cruel e errado, mas impossível e inconcebível. Tornar-se a vida e o destino de alguém, por meio de um “sim”, e depois dizer “não”, é apagar a liberdade genuína da vontade e aniquilar a própria identidade enquanto portadora de promessas. A liberdade só pode sobreviver em uma atmosfera de amor, e o amor em um contexto de compromisso incondicional; do contrário, em uma tempestade de acaso ou em um deserto de incerteza, eles não sobrevivem. 

Nos votos matrimoniais seriamente intencionados, o homem torna-se da mulher e a mulher torna-se do homem — nas palavras de São Paulo, “já não vos pertenceis” (1Cor 6, 19). Como pai e filho, esposo e esposa são interdependentes. Se o pai nunca tivesse existido, a possibilidade do filho também desapareceria. O divórcio do que é intrinsecamente unido é tão impossível quanto separar a racionalidade da humanidade. Nesse sentido, a rejeição do amor prometido (divórcio) é como a negação da fé religiosa (apostasia), que, por sua vez, é uma imagem da rejeição da razão (niilismo).

Pensemos na dedicação da Virgem Maria ao seu Filho. Ele pediu tudo a ela, e ela em nada lhe faltou. Quando um homem e uma mulher se comprometem diante de Deus, eles o fazem em vista de uma bem-aventurança futura da qual não desfrutamos no presente. A grandeza da fé consiste nessa entrega livre e incondicional a um amor que não vemos, mas em cuja palavra solene confiamos.

Imaginemos a esposa de um jovem que partiu para a guerra. Ela sabe que pode não tornar a vê-lo nunca mais; ela sabe que nada pode lhe dar certeza de sua fidelidade no exterior. Mas, se ela o ama, manterá o compromisso assumido na expectativa do reencontro

A Escritura diz que Jacó “serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram alguns dias, tão grande era o amor que lhe tinha” (Gn 29, 20). Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

No caso de nosso Divino Amado, Ele deseja se tornar conhecido por nós: Ele não nos deixou órfãos. Para compreender essa realidade, basta nos perguntarmos: por que a Encarnação? Por que as parábolas e a Paixão de Jesus Cristo? Por que milagres? Por que santos e estudiosos? Não são esses os buquês, as cartas de amor, as manifestações apaixonadas de Deus ao homem? Além disso, se Deus cria o universo em um transbordar fecundo de sua perfeita bondade, acaso tornará impossível para nós encontrá-lo? E quando for encontrado, acaso tornará impossível para nós permanecer com Ele?

Ao contrário dos sonhos efêmeros e das trágicas quedas do amor humano — que, por sua própria natureza, permanece sujeito à mudança —, o amor de Deus é imutável e eterno: Ele é fiel, Ele não trairá seus filhos. Estes lhe pertencem, e Deus quer que retornem a Ele, como o pai quer o filho pródigo de volta em seus braços, sob seu teto. Começamos nossa vida mortal em um estado de alienação em relação a Deus, de modo que toda a nossa vida é uma peregrinação para encontrar o caminho de volta para Ele. O Pai espera por nós com um banquete e, por nossa causa, Ele permitiu o sacrifício, não de um bezerro gordo, mas de seu próprio Filho, a fim de que possamos retornar a Ele com confiança e descansar a cabeça fatigada em seu peito, como o pobre mendigo Lázaro repousando no seio de Abraão.

Neste mundo, só o que nos resta é procurar a estrela e segui-la: precisamos seguir qualquer que seja a luz visível para nós com a fé inabalável dos Magos. Thomas Valpy French, avô do monsenhor Ronald Knox, escreveu estas palavras sobre suas batalhas espirituais: “Confesso que tenho estado bastante perplexo... só posso concluir que, quando a luz total não é dada, é preciso aceitar a melhor luz que se tem, e seguir em frente lentamente, com alguma hesitação, mas com confiança ainda maior”. É também nisso que consiste a atitude de permanecer na esperança e ser fiel às promessas de alguém, exspectantes beatam spem et adventum Salvatoris nostri Iesu Christi, “esperando com alegria a vinda de Nosso Salvador Jesus Cristo”.

Notas

  1. Nota de tradução: o Book of Common Prayer é o livro de orações e celebrações utilizado pela Igreja Anglicana. Embora não seja um rito católico, o texto citado expressa de modo bem explícito a realidade da entrega mútua que se realiza no matrimônio.

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