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Santa Teresinha revela, em 5 passos, como recebia a Sagrada Comunhão
Santos & Mártires

Santa Teresinha revela, em 5 passos,
como recebia a Sagrada Comunhão

Santa Teresinha revela, em 5 passos, como recebia a Sagrada Comunhão

“Ofereci-me a Jesus, não como uma pessoa que deseja receber sua visita para a própria consolação, mas, ao contrário, para dar prazer àquele que se dá a mim.”

Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face27 de Fevereiro de 2018
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Não posso dizer que tenha recebido muitas vezes consolações durante minhas ações de graças. Talvez seja este o momento em que menos as tenho… Acho isso muito natural, pois ofereci-me a Jesus, não como uma pessoa que deseja receber sua visita para a própria consolação, mas, ao contrário, para dar prazer àquele que se dá a mim.

  1. Imagino minha alma como um terreno livre; peço à Santíssima Virgem para tirar os entulhos que o possam impedir de estar livre.
  2. Em seguida, suplico-lhe levantar ela mesma uma vasta tenda, digna do Céu, que a orne com seus próprios adornos.
  3. Depois, convido todos os Santos e Anjos a virem fazer um magnífico concerto. Parece-me que, ao descer ao meu coração, Jesus fica contente de se ver tão bem recebido, e fico contente também…
  4. Tudo isso não impede que as distrações e o sono venham me visitar.
  5. Mas, ao sair da ação de graças, vendo que a fiz tão mal, tomo a resolução de ficar o dia todo em ação de graças...

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de “História de uma alma”, Manuscrito A, 80r. In: Obras completas, escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 157.

Notas

  • A imagem acima, de um pintor anônimo do século XVII, retrata a “Comunhão de Santa Teresa” — mas a de Ávila, evidentemente, não a de Lisieux. Como esta também era carmelita, no entanto, e este trecho de sua biografia é sobre uma Comunhão sua, a obra ilustra bem o conteúdo do texto.

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Não pode ser pequeno o que ofende a um Deus tão grande
Espiritualidade

Não pode ser pequeno
o que ofende a um Deus tão grande

Não pode ser pequeno o que ofende a um Deus tão grande

“Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja!”, exclamava Santa Teresa d’Ávila. “Tanto mais que não pode ser pequena coisa, já que se volta contra tão grande Majestade!”

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Julho de 2019
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Em um episódio ao vivo recente sobre pecados veniais (abaixo), Padre Paulo Ricardo explicou a importância do combate a essas faltas que, por “leves” que sejam — e, portanto, não chegarem a ferir de morte a vida da graça em nós —, são verdadeiras ofensas a Deus, com as quais não podemos “brincar”, pois, como se nada fossem. 

Para entender melhor a gravidade de um só pecado venial, talvez nos fosse necessário sair de nossos raciocínios carnais e consultar um pouco a sabedoria dos santos, os quais, justamente pelo muito que amaram a Deus, tinham horror à menor das coisas que pudessem desagradá-lo.

Esses homens e mulheres viviam da fé (cf. Rm 1, 17); suas existências estavam ancoradas nas realidades sobrenaturais, invisíveis a olhos humanos. Nós, porém, movidos como somos pelos sentidos, damos mais valor às tragédias deste mundo do que às que se passam no interior de nossas almas. Assim é porque pequena, fraca, quase insignificante, é a nossa fé.

Mas um Cardeal Newman, por exemplo — cuja canonização a Igreja já confirmou para o próximo dia 13 de outubro —, assegurava que, para a Igreja Católica, “é preferível o sol e a lua caírem do céu, a terra desaparecer, os milhões de seres humanos que a povoam morrerem de fome na pior das agonias, até onde possa chegar a aflição temporal, a admitir que uma só alma, não digo, se perca, mas cometa um único pecado venial” [1]. Nisso crê a Igreja, de fato, ciente de que “nada acontece no mundo exterior que não tenha acontecido dentro de uma alma” [2]. É aí que se passa o verdadeiro drama da humanidade; é aí que acontece a mais importante de todas as batalhas; é aí que se decide deveras o futuro do homem. 

E se muitos de nós, dizendo-nos católicos, não mais cremos nisso; se muitos de nós achamos a preservação das florestas ou do mico-leão dourado mais importante do que a salvação das almas; o respeito às culturas humanas, mais do que o cumprimento do mandato de Nosso Senhor de evangelizar todos os povos; o combate das catástrofes e misérias naturais, mais do que o combate à desgraça espiritual do pecado… somos nós que nos distanciamos do que é a Igreja. Não foi ela que mudou — porque a Igreja, em sua essência, sendo continuação da Encarnação do Verbo de Deus na história, é a mesma ontem, hoje e pelos séculos (cf. Hb 13, 8) —, mas nós que miseravelmente mudamos, abandonando a fé que nos legaram os Apóstolos, os mártires e os santos de todos os outros séculos.

Vejamos, por exemplo, com que zelo a grande Santa Teresa de Jesus pedia a suas irmãs que se preservassem das mínimas faltas, por amor a Deus. Cuidando antes de distinguir “entre (i) os pecados veniais de pura fragilidade, cometidos por surpresa ou com pouca advertência e deliberação, e (ii) os que se cometem friamente, dando-se perfeita conta de que com isso se desagrada a Deus” [3], ela não deixava de deplorar profundamente essa última espécie de faltas:

Quanto aos [pecados] veniais, cuidai muito para não fazê-los. Refiro-me aos que se cometem com advertência, pois, de outra maneira, quem estará livre de cometer muitos? Mas há uma advertência irrefletida. E há outra tão rápida que, na prática, cometer o pecado venial e refletir sobre ele são uma única coisa. Sequer chegamos a entender o que fazemos. 

Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja! Tanto mais que não pode ser pequena coisa, já que se volta contra tão grande Majestade e uma vez que sabemos que Ele está nos observando! Isso me parece pecado premeditado, como se alguém dissesse: “Senhor, farei isto mesmo que vá contra Vós; sei que o estais vendo, que não o desejais e o compreendo, mas quero antes seguir o meu capricho e o meu apetite do que a Vossa vontade.” Não creio que haja pouco em coisas deste teor, por mais leve que seja a culpa, mas muito, e muitíssimo [4].

I. Concentremo-nos, primeiro, nos pecados veniais inadvertidos, a respeito dos quais se perguntava Santa Teresa: “Quem estará livre de cometer muitos?” A distinção é importante contra a ilusão de que o ser humano, na sua ascensão até Deus, pudesse desenvolver uma espécie de impecabilidade, como se deixasse de ser “livre” à medida que crescesse na união com Ele, ou como se pudesse ter, já nesta vida, a plena segurança de não mais o ofender. 

Contra essa ideia, o Concílio de Trento alerta que “nesta vida mortal, também se santos e justos, alguma vez os cristãos caem ao menos em pecados leves e quotidianos, que se chamam também veniais, sem por isso deixar de ser justos” [5], ajuntando que dessas faltas inadvertidas, cometidas por fragilidade, só “por especial privilégio de Deus” os homens podem ser poupados, como o foi a Virgem Maria, e como o pode ter sido, também, São José, seu Esposo castíssimo [6]. 

Esses pecados, explica ainda o Pe. Royo Marín, nós “nunca o poderemos evitar de todo, e Deus, que conhece muito bem o barro de que somos feitos, apieda-se facilmente de nós”. Só o que nos cabe fazer com relação a eles é “tratar de diminuir seu número até onde seja possível e evitar o desalento, que seria fatal para o avanço na perfeição e que supõe sempre um fundo de amor próprio mais ou menos dissimulado” [7].

Essa verdade lança uma luz extraordinária sobre nossa própria vida, porque nos recorda que a graça de Deus é um tesouro precioso que trazemos em vasos de barro (cf. 2Cor 4, 7). Embora seja, de fato, muito mais difícil para um santo “de sétima morada”, por exemplo, cometer um pecado mortal, ou mesmo um pecado venial plenamente advertido e deliberado — dado o progresso espiritual em que se encontra —, nesta vida ninguém pode se sentir absolutamente seguro nesse ponto. 

É por isso que, respondendo se a caridade nesta vida pode ser perfeita, no sentido de o coração do homem estar elevado sempre e atualmente para Deus, Santo Tomás de Aquino explica tratar-se de uma perfeição possível apenas na pátria celeste (cf. STh II-II 24, 8 c.). Noutro lugar ele explica ainda que, no estado de viator em que nos achamos (isto é, de viandantes, a caminho do Céu), a caridade pode, sim, ser perdida (cf. STh II-II 24, 11 c.). “Essa segurança não a teremos em vida”, advertia Santa Teresa, “porque constituiria grande perigo” [8]. Em outras palavras, o ser humano, por mais luzes e graças que tenha recebido de Deus, nesta vida ainda pode enganar-se, fazer mal a si mesmo e perder a glória do Céu.

Isso é importante para andarmos sempre desconfiados de nós mesmos e não nos esquecermos que, se viermos a nos salvar, será por pura misericórdia de Nosso Senhor, ao mesmo tempo que, se nos perdermos, será por nostra culpa, nostra maxima culpa, e de mais ninguém.

II. Voltando, porém, aos pecados veniais cometidos com pleno juízo do que se está fazendo, prestemos atenção ao realismo com que Santa Teresa os descreve. Esta santa Doutora diz que é como se nos aproximássemos de Deus e lhe disséssemos: “Senhor, farei isto mesmo que vá contra Vós; sei que o estais vendo, que não o desejais e o compreendo, mas quero antes seguir o meu capricho e o meu apetite do que a Vossa vontade.”

Explicado assim o pecado venial, não há como não nos saltar aos olhos a sua malícia. Se à pessoa que ama contrista o mínimo ato ofensivo à pessoa amada, as faltas “leves” que de propósito fazemos questão de cometer contra Nosso Senhor nada mais são do que sinais de pouco amor… Dentro de um casamento, atitudes assim, repetidas e não reparadas, vão pouco a pouco minando o relacionamento e tornando impossível a união própria do sacramento, e na vida espiritual não é diferente. O Pe. Royo Marín explica que “quando os pecados veniais se cometem friamente, dando-se perfeita conta, com plena advertência e deliberação”, eles “representam um obstáculo insuperável para o aperfeiçoamento da alma” e torna-se como que “impossível dar um passo firme no caminho da santidade” [9].

Por isso, só o que nos resta é exclamar com Santa Teresa: “Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja!” Talvez, agora, sintamo-nos meio que forçados a dizer essas palavras, sem conseguir penetrar muito a profundidade delas. A nossos sentimentos talvez parecerá um “exagero”, uma “extravagância”, lidar assim com as faltas que tantos de nós já transformamos até em “pecados de estimação”, por assim dizer. Mas isso só acontece — convençamo-nos de uma vez para sempre — porque estamos muito distantes do que somos chamados por Deus a ser, e é para essa direção (a mesma que seguiram os santos), que devemos olhar, não para nós mesmos, não para nosso egoísmo.

Peçamos, pois, a Deus que nos envie sem cessar as suas graças, para irmos compreendendo cada vez mais a malícia do pecado — não só do pecado mortal, mas também a malícia das “pequenas” ofensas, dos “pequenos” descuidos, das “pequenas” negligências. Pois é só na aparência que essas coisas são insignificantes: não pode ser realmente pequeno um pensamento, uma palavra ou uma ação que ofenda a um Deus tão grande.

Referências

  1. Card. John Henry Newman, Apologia pro vita sua (c. 7). London: Oxford University Press, 1913, p. 339.
  2. Fulton Sheen, A paz da alma. Trad. port. de Oscar Mendes. São Paulo: Molokai, 2015, p. 7.
  3. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana. Madri: BAC, 2015, pp. 288-289.
  4. Caminho de Perfeição, XLI, 3.
  5. Concílio de Trento, Decreto sobre a justificação, s. VI, 13 jan. 1547 (DH 1537).
  6. Ibid. (DH 1573).
  7. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., loc. cit.
  8. Caminho de Perfeição, XLI, 9.
  9. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., loc. cit.

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O que vestimos importa sim, senhor!
Doutrina

O que vestimos importa sim, senhor!

O que vestimos importa sim, senhor!

O modo como nos apresentamos não é uma “particularidade” espiritualmente irrelevante. Também com isso nós manifestamos ao mundo ou a vida de Jesus ou um espírito contrário ao dEle.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Julho de 2019
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Todos os anos, ao entrarmos nos meses mais quentes do ano [1], volta à tona o problema da modéstia no vestir — agora ainda mais, dado que no Ocidente as pessoas parecem ter perdido até mesmo as mais elementares posturas morais e costumes sociais que antes garantiam um mínimo de autorrespeito e consideração pelos outros. Nós precisamos de nada menos que uma revolução moral, uma reconstrução de nossos mais básicos conceitos de virtude. Nem é necessário dizer que será um trabalho custoso, e que nós não seremos capazes de “virar a maré” da cultura geral (a qual seria mais acertadamente descrita, a esse ponto, como uma “anticultura”). Todavia, de modo algum é impossível reconstruir esses conceitos dentro das comunidades cristãs, contanto que haja uma vontade corajosa de tratar, com clareza e serenidade, dos assuntos que estão em jogo. É o que procurarei fazer em linhas gerais. 

De acordo com S. Tomás de Aquino, a noção de modéstia no vestir, no falar e no modo de se comportar deriva da noção de moderação, de fazer algo de uma maneira adequada, bem sopesada, e que observe um meio entre os extremos (cf. STh II-II 168; 169). No caso em exame, os extremos são, por um lado, a indecência (de longe muito mais comum nos dias de hoje) e, por outro, uma afetação de virtude e uma inibição malsã.

Como todas as virtudes morais, o hábito da modéstia não só capacita a pessoa para querer e escolher o que é certo a esse respeito, mas também a impele a fazê-lo; a modéstia torna-se uma segunda natureza, uma disposição a agir. Tomás nos recordaria, também, que essa virtude nos ajuda a apreciar os bens corporais em seu devido lugar. Quando o exigem as pessoas, o lugar e a ocasião, as paixões do apetite concupiscível são boas, instrumentos de ação virtuosa queridos por Deus.

A pessoa modesta é aquela cujas ações e aspecto externo consistentemente refletem autodomínio, bom juízo do que seja apropriado, um controle firme dos próprios sentimentos, bem como uma habilidade serena de expressar a si mesmo e de “ser” quem se é sem necessidade de alarde. Por isso, a verdadeira modéstia começa na alma para só depois chamar a atenção dos olhos ou dos ouvidos alheios. Essa modéstia interior consiste em regular toda a própria vida de uma maneira que seja calma, gentil, reverente e pura. Vestir roupas modestas ou evitar danças imodestas é algo que simplesmente “transborda” dessa condição interior.

As sociedades modernas, no Ocidente, descartaram a modéstia mais importante para a saúde básica do convívio social: a de vestir-se e comportar-se de modo a não despertar o tipo errado de atenção do sexo oposto — uma atenção animalesca, possessiva e reducionista. Na verdade, o que se ostenta, obviamente, é o vício oposto.

Infelizmente, muitos cristãos sinceros que querem levar uma vida casta parecem estar inconscientes da ligação que existe entre a pureza de coração e a modéstia exterior, entre o compromisso com a virtude e a forma de apresentar o próprio corpo às outras pessoas — uma ignorância ainda mais surpreendente quando se considera a obviedade dessa associação, que foi compreendida com muita clareza por todas as épocas, com exceção da nossa.

Por exemplo, existem jovens católicos que procuram viver a pureza, mas que continuam a se vestir como seus pares do mundo, com estilos de roupa provocativos ou inapropriados. É possível ver isso vividamente nas Jornadas Mundiais da Juventude, onde, além da imodéstia, também é bastante comum uma impressionante falta de consciência a respeito do que seja apropriado para um evento sagrado e solene. 

Nesse quesito, as pessoas de hoje parecem ter adotado um critério único: o conforto físico. Qualquer coisa que possa causar o mais remoto dos desconfortos ou dos incômodos é imediatamente rejeitada. Como resultado, ao se vestirem em dias de alta temperatura, os cristãos de maneira geral com muita frequência caem nos mesmos maus hábitos de seus pares mundanos, que não pensam nem no que é agradável a Deus, nem no que ajudará a si próprio e aos outros a viver a castidade, mas tão-somente no que é “mais fresco” ou “mais prático” de se usar. Como parte pequena de um ascetismo sadio, os cristãos devem rejeitar esse tipo de complacência e bajulação do corpo. São Paulo descreve aqueles que cremos como pessoas que “trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo” (2Cor 4, 10).

Quem nunca se impressionou com fotografias antigas e em preto e branco de nossos antepassados, os quais, debaixo de um calor sufocante de verão, usavam roupas longas e amplamente cobertas? Embora eu não sugira que voltemos ao mesmo guarda-roupas que eles tinham, digo que sim, nós faríamos bem em imitar-lhes o vigor e a propriedade. É óbvio que se deve levar em consideração circunstâncias de temperatura e de atividades, como longos passeios ao ar livre, mas há soluções modestas e imodestas para qualquer que seja a situação. Com os materiais modernos de que dispomos, vestir-se modestamente não significa vestir-se “de modo opressivo”; há à disposição, por exemplo, roupas que cobrem os ombros e chegam até os tornozelos, sendo ao mesmo tempo de um material leve, opaco e agradável.

Nós não podemos fazer de conta que o modo como tratamos nosso corpo, o modo como comemos e nos vestimos, o modo como nos apresentamos, o modo como nos comportamos, não importando se o fazemos com disciplina ou desleixo, educação ou irreflexão, responsabilidade ou ingenuidade, sejam “particularidades” espiritualmente irrelevantes. Trata-se, ao contrário, de coisas essenciais: elas também irão manifestar a vida de Jesus ao mundo, ou promover um espírito contrário ao dEle. O modo como alguém trata, exibe e faz uso de seu corpo revela muito dos trabalhos de sua própria alma: quem ela (ou ele) pensa ser, o que pensa a respeito de si mesma ou dos outros, o que espera de si e dos outros. De mais maneiras do que normalmente as pessoas imaginam, as aparências não enganam: o meio é a mensagem.

Como acontece com qualquer tópico de importância, também para este a Revelação divina tem as suas orientações: 

Quero que as mulheres usem traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade. Seus enfeites consistam não em primorosos penteados, ouro, pérolas, vestidos de luxo, e sim em boas obras, como convém a mulheres que professam a piedade (1Tm 2, 9-10). 

Há uma maneira de se comportar e de se apresentar que é inseparável do modo de vida cristão; é um dos sinais que, neste mundo, distingue aqueles que crêem. A modéstia, assim como a paz, ainda que seja um bem da alma em primeiro lugar, não pára na alma, mas tem um efeito sobre todos os aspectos da vida em sociedade. O mundo moderno carece de modelos de autocontrole e de autoapresentação digna; os cristãos podem e devem ser este exemplo. A própria falta de excesso faz com que valha a pena fazer conhecida a sua presença.

A virtude da religião, por meio da qual damos de volta ao Deus infinito aquilo que somos capazes de dar, inclui a oferta a Ele daquilo que somos, nossos corpos e almas, como expressão de um amor fiel. É por isso que a modéstia é, ao mesmo tempo, consequência e salvaguarda da religião

S. Tomás diz que a santidade denota duas coisas: permanecer puro e permanecer firme. “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8): felizes aqueles que, por amor a Deus e com todo o seu ser, preservam firmemente a pureza de alma e de corpo. A visão face a face de Deus, a grande meta e alegria da vida cristã, é a razão última pela qual devemos manter não só nossos corações, mas também nosso falar, nosso agir e nosso apresentar-se, puros, sem mácula, simples e sóbrios. Ao fazer isso, nosso modo de vida é conformado ao de Nosso Senhor Jesus Cristo, tornando presente, em um mundo decaído e sujo, alguma coisa da límpida inocência, da paz serena e do frescor incorruptível do Espírito Santo.

Notas

  1. O autor do texto fala, evidentemente, a partir do hemisfério norte (onde o nosso inverno é verão). O Brasil, no entanto, particularidades regionais à parte, é ele todo “um país tropical”, de modo que as considerações aqui a respeito da modéstia no vestir servem-nos como uma luva o ano todo, e não somente nos meses mais quentes do ano. Também por isso, tomamos a liberdade de dar a esta tradução um título diferente do original: em inglês, este era A Christian’s guide to modesty in the hot summer months (lit.: “Um guia cristão para a modéstia nos meses quentes de verão”).

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Afinal, Jesus fundou a Igreja para quê?
Doutrina

Afinal, Jesus fundou a Igreja para quê?

Afinal, Jesus fundou a Igreja para quê?

“Construir um mundo novo”, promovendo assistencialismo, ou salvar as almas, conduzindo-as à santidade? Para que foi instituída a Igreja, dois mil anos atrás, sobre o fundamento dos Apóstolos?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)9 de Julho de 2019
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I. O problema. — A Igreja foi fundada por Cristo sobre os Apóstolos para continuarem a sua missão. E esta preposição para indica um fim, uma finalidade a ser cumprida. Ora, depois de termos estudado a Igreja como sociedade, podemos compreender melhor o fim que lhe assignou o seu divino Fundador. Agora, pois, é chegada a hora de tratarmos a fundo deste problema e dele deduzirmos todas as suas consequências.

II. Classes de fim.1. O fim último da Igreja: a glorificação de Deus. — Sendo a Igreja obra de Cristo, perguntar-se pelo fim da Igreja é o mesmo que perguntar-se para que Jesus Cristo instituiu a Igreja. No nosso modo habitual de agir, os homens costumamos ter uma série de fins subordinados aos quais nos dirigimos. Assim, o carpinteiro trabalha a madeira para construir uma porta ou uma janela; e, em última instância, para ganhar o dinheiro necessário ao seu sustento e ao de sua família. 

Também na Igreja, obra de Jesus Cristo, podemos distinguir um fim imediato e um fim último. O fim último da Igreja, como o de toda a Criação, é a glória de Deus, fim altíssimo que ela realiza ao refletir em si mesma os atributos divinos: o poder, a bondade e a misericórdia de Deus. Este reflexo de Deus na Igreja, que podemos chamar “glória objetiva” de Deus, se manifesta de mil maneiras e, sobretudo, nos sacramentos da Igreja, os quais produzem tanto a destruição do pecado (no Batismo e na Penitência) quanto o aumento da vida sobrenatural (nos chamados “sacramentos dos vivos”, sacramenta vivorum, quer dizer, destinados aos que já estão em estado de graça).

Em segundo lugar, a Igreja dá glória a Deus — glória que podemos chamar “subjetiva” — ao lhe oferecer um sacrifício de louvor e, antes de tudo, por meio do santo sacrifício da Missa, e também em todas as orações e sacrifícios com os quais louvam o nome de Deus os sacerdotes e fiéis da Igreja e lhe oferecem sacrifícios de expiação pelos pecados dos homens.

Evidentemente, não podemos aqui estudar mais a fundo esta primeira classe de fim da Igreja sem, com isso, invadir o campo da teologia dogmática, principalmente a sacramental, sem contar o da ascética e da litúrgica; no entanto, cremos ser necessário fazer ao menos uma rápida alusão a este respeito, porque sem isso a questão da finalidade da Igreja ficaria necessariamente incompleta.

2. Fim imediato da Igreja: a salvação dos homens. — De uma maneira breve e precisa nos diz qual é o fim imediato da Igreja o preâmbulo da constituição dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano I: “O eterno Pastor e guardião das nossas almas (cf. 1Pd 2, 25), querendo perpetuar a salutar obra da redenção, resolveu fundar a Santa Igreja” (DH 3050). Perpetuar a obra da redenção, ou seja, tornar efetiva a salvação sobrenatural para todos os homens: eis aqui o fim imediato da Igreja. Esta afirmação não contém nada que já não saibamos: se a Igreja é a continuação de Cristo na terra e se, além disso, Cristo veio ao mundo para salvar todos os homens, a obra de Cristo não pode ter uma finalidade distinta do fim do próprio Cristo. Foi para isto que o divino Fundador constituiu na Igreja o tríplice poder de governar, ensinar e santificar, e prometeu sua assistência perene aos sucessores dos Apóstolos, para que até o fim do mundo pudessem eles ajudar as almas a encontrar o caminho da salvação.

III. Orientação histórica. 1. Doutrinas errôneas. — Os protestantes, que afirmam que a justificação do homem se deve somente à fé e à ação imediata do Espírito Santo, que atua na alma do fiel ao ler este a Palavra de Deus, rejeitam a mediação da Igreja na consecução da salvação. A Igreja tem, sim, o ministério de tornar mais fácil o contato do homem com a Palavra de Deus por meio da pregação; mas, uma vez realizada esta função, ela já não tem outra finalidade. Parece-lhes que a teoria católica “anula” o contato imediato entre Cristo e o homem e “diminui” o valor da ação redentora de Cristo.

2. Solução católica e doutrina da Igreja. — Mas nós, católicos, distinguimos dois aspectos essencialmente distintos na obra salvífica de Cristo: de um lado, a Redenção, que apenas Cristo realizou pelo sacrifício da cruz; e, de outro, a aplicação desta obra redentora a todos os homens. No primeiro sentido, como há um só Deus, “há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos” (1Tm 2, 5s). Mas, no segundo sentido, Jesus Cristo quis por libérrima vontade (Ele bem poderia, é claro, ter disposto as coisas de outra maneira) instituir a Igreja, a fim de que nela encontremos a santificação, ou seja, a vida da graça, que é neste mundo o penhor mais seguro de nossa felicidade perpétua no céu, vida sobrenatural que, no homem, radica no conhecimento e no amor de Deus pela fé e pela caridade.

Afirma-o claramente o proêmio do Concílio Vaticano I, que citamos mais acima (cf. DH 3050). E também o Papa Pio XII, na Encíclica “Mystici Corporis”, escreveu que Jesus Cristo quis fundar a Igreja “para perdurar na terra a obra salutífera da Redenção” (n. 63). E mais à frente: “O seu fim é altíssimo: a contínua santificação dos membros do mesmo Corpo para a glória de Deus e do Cordeiro” (n. 68), onde se expressa o duplo fim, imediato e último, da Igreja.

IV. Valoração teológica. — Já que esta verdade está contida claramente na Sagrada Escritura, como veremos mais adiante, e por ser objeto de ensinamento do Magistério ordinário como algo pertencente à fé, podemos dizer que é verdade de fé divina e católica a afirmação de que o fim da Igreja é a santificação dos homens. 

1. Ensinamento bíblico. — Os testemunhos da Sagrada Escritura que demonstram este ponto são muito numerosos. Em primeiro lugar, não há verdade mais frequentemente repetida no Novo Testamento do que esta: Cristo veio para salvar o mundo, para a santificação dos homens: 

  • “Ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1, 21);
  • “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10); 
  • “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 17); 
  • “Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância” (Jo 10, 10); 
  • “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4, 12); 
  • “Deus enviou seu Filho […], a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a sua adoção” (Gl 4, 4s); 
  • “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter envia­do ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por Ele […], para expiar os nossos pecados” (1Jo 4, 9s).

Pois bem, quando Cristo envia solenemente os Apóstolos mundo afora, Ele o faz para que tanto eles quanto os seus sucessores continuem a mesma missão de Cristo: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20, 21); “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28, 18s). Ao instituir o sacrifício do Novo Testamento na Última Ceia, Jesus manda os Apóstolos fazerem em memória sua o que Ele mesmo fez, ou seja, perpetuarem o sacrifício eucarístico até a segunda vinda do Senhor (cf. Lc 22, 19s; 1Cor 11, 23-36). E os Apóstolos, por sua vez, se consideram ministros de Cristo, dispensadores, administradores, embaixadores dos mistérios de Deus e de sua Palavra (cf. 1Cor 3, 5; 4, 1; 2Cor 4, 18.20).

Por conseguinte, se a finalidade da vinda de Cristo a este mundo foi a santificação de todos os homens, também o será a finalidade da Igreja, continuadora de sua missão na terra. Terão também o mesmo fim os que são embaixadores de Cristo e administradores dos seus mistérios.

2. Crítica da solução protestante. — A solução protestante que afirma ter a Igreja como finalidade única o ministério da Palavra e a pregação do Evangelho contradiz abertamente a Sagrada Escritura. São Paulo, por exemplo, insiste em suas cartas em falar de um verdadeiro poder de santificação conferido ao ministro da Igreja: não, obviamente, como causa principal ou por direito próprio, mas como causa instrumental e por direito recebido de Cristo, na medida em que o ministro da Igreja é vigário de Cristo na terra. É por isso que ele diz: “Que os homens nos conside­rem, pois, como simples ope­rários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1), “operários com Deus” (1Cor 3, 9).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 797-800, nn. 603-613.

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Salvem os leões, matem os bebês!
Sociedade

Salvem os leões, matem os bebês!

Salvem os leões, matem os bebês!

Eles produziram “O Rei Leão”, mas, pelo visto, não aprenderam nada: saiba como é possível que a Disney, ao mesmo tempo que defenda a preservação dos leões africanos, esteja numa guerra feroz pelo “aborto legal” nos EUA.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2019
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A Disney lançará nos próximos dias a tão aguardada versão live action do clássico infantil “O Rei Leão”. Para alavancar a empolgação (ou o hype) da turma, o estúdio encampou recentemente uma campanha pela proteção dos leões africanos, em vista da queda no número desses felinos. Segundo relatórios, hoje no mundo existem cerca de 20 mil leões selvagens, metade do que havia quando a história de Simba, Timão e Pumba foi vista pela primeira vez nos cinemas, 25 anos atrás. Com a campanha Protect the Pride (Proteja os Leões), a Disney pretende reverter esse quadro e conscientizar as pessoas a preservarem mais o meio ambiente.

Nada contra. O cuidado com os animais é uma causa nobre e merece nossa atenção, sobretudo quando alguma espécie se acha em risco. A Criação não é — atenção — um objeto qualquer sobre o qual o homem pode exercer um domínio arbitrário e irresponsável. Como “obra boa de Deus” (Gn 1, 4), o meio ambiente deve ser acolhido como um dom, pois dele os homens retiram seu sustento, nele trabalham e edificam a sua “casa comum”.

A variedade das espécies, a beleza dos biomas e a vida que brota desses lugares refletem a onipotência divina, que livremente se dispôs a criar tudo isso. Daí que Santo Agostinho apontasse a Criação como uma das provas da existência de Deus: “Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, que não está sujeito à mudança?” [1]

A reflexão da Igreja dedica, por isso mesmo, todo um capítulo da doutrina social ao cuidado com o ambiente. Baseado no testemunho das Escrituras, o Magistério afirma que “a natureza, obra da criação divina, não é uma perigosa concorrente” [2] ou uma ameaça ao ser humano, como postulam algumas ideologias modernas. Em vez disso, a Providência divina criou “tudo com medida, quantidade e peso” (Sb 11, 20), a fim de que cada organismo desempenhasse o seu papel, segundo a sua própria natureza dentro do cosmos. 

E, no meio desse cosmos, o homem foi especialmente desejado por Deus, que o criou “à sua imagem e semelhança” para governar sabiamente todas as coisas, como um verdadeiro rei (cf. Gn 1, 26-27). A dignidade do homem sobre a natureza, portanto, não se fundamenta em uma ideologia especista, mas corresponde à lei natural, que rege as coisas deste mundo. Sendo uma criatura “semelhante” a Deus, o homem precisa agir com sabedoria, usar sua inteligência e vontade para o bem, para a realização do projeto divino. Disso depende, em grande parte, a harmonia da Criação.

O filme do “Rei Leão” defende a mesma coisa, através da metáfora. Durante um passeio pelo reino, o pai de Simba ensina-lhe que um rei, no exercício de sua tarefa, nunca deve fazer simplesmente o que quiser, nunca pode realizar “o que lhe dá na telha”. Ao contrário, um verdadeiro rei deve reinar sabiamente, preservando a ordem das coisas, que fazem parte de um “delicado equilíbrio”. Isso significa que todos estamos ligados ao “ciclo da vida”.

Mas há um rei, e ele precisa exercer esse reinado justamente para manter o equilíbrio do mundo. “O Rei Leão” deixa bem claro que, quando um rei não exerce a sua vocação, não assume a sua dignidade a pretexto de uma vida mansa e hippie — esquecendo-se, assim, de sua própria identidade —, então tudo se perde, tudo se corrompe, tudo vira anarquia.

Sem dúvida, a iniciativa da Disney tem o seu mérito. Mas há um problema, um enorme problema. É que o estúdio, o mesmíssimo estúdio que já fez a cabeça de milhões de crianças e agora luta pela preservação dos leões africanos, está, ao mesmo tempo, numa guerra feroz pelo “aborto legal” nos Estados Unidos.

Sim, é isso mesmo. A Walt Disney Pictures, cujo público é majoritariamente formado por crianças, decidiu advogar o pseudodireito de matar bebês no ventre das mães, depois que o governador da Geórgia assinou a chamada “lei do batimento cardíaco”, proibindo abortos quando forem reconhecidos os sinais vitais do feto. Numa entrevista, o CEO da Disney, Bob Iger, ameaçou deixar de filmar nesse estado americano enquanto a lei estiver em vigor.

Não é estranho? Não é escandaloso? Não é absurdo? 

Disney, Netflix, Warner e tantas outras empresas que embarcaram nessa “barca furada” pelo direito ao aborto apenas estão servindo, mesmo que inconscientemente, a um projeto macabro de desconstrução da natureza humana. Após cederem ao lobby de ONGs e outras organizações, esses estúdios agora precisam formar a mentalidade de seu público para o ecocentrismo, segundo o qual a vida de um leão na selva tem mais valor que a de um bebê no ventre de suas mães. Afinal de contas, no dizer de alguns teólogos, o homem seria uma “célula cancerígena”, da qual a “Mãe Terra” deveria necessariamente se livrar.

Numa perspectiva ecológica sadia, o ventre materno é o mais indefeso dos ecossistemas e, portanto, o mais necessitado de proteção. No feto está a esperança para as futuras gerações, um pequeno irmão da nossa sociedade. Os ecoideólogos, porém, nivelam por baixo a natureza humana como se nela não houvesse uma dignidade singular, advinda de sua “imagem e semelhança” com Deus. Para os defensores dessa ideia, aliás, o Deus cristão não passa de uma invenção medieval que deve ser superada por um novo tipo de religião naturalista, que não reconhece a dignidade humana. Não haveria, pois, Deus algum acima dos céus, tampouco um homem à sua “imagem e semelhança” na terra. Em vez disso, devemos buscá-los na Gaia “Mãe Terra”, nos espíritos das florestas e em outras entidades pagãs.

O Magistério da Igreja tem rejeitado esse tipo de ecologia porque, na verdade, o que ela propõe é “eliminar a diferença ontológica e axiológica entre o homem e os outros seres vivos, considerando a biosfera como uma unidade biótica de valor indiferenciado”, onde se chega a “eliminar a superior responsabilidade do homem, em favor de uma consideração igualitária da ‘dignidade’ de todos os seres vivos” [3].

O que a Disney e as outras fundações não percebem é que a violação da natureza humana, com o propósito de fazer um controle populacional — que visa a construção de uma “nova era”, de uma “nova religião” e de uma sociedade onde os homens vivam simbioticamente com o planeta — em nada contribui com a preservação de leões, baleias e outras espécies em extinção.

Se não podemos fechar os ouvidos à linguagem do meio ambiente, existe, por outro lado, “uma ecologia do homem”, e ele também “possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece” [4]. Porque se o homem é privado da sua eminente dignidade, e se isso acontece já desde a concepção, então é assim que sua ação no mundo perderá o sentido, perderá o respeito pelo “delicado equilíbrio” da natureza. O rei precisa reinar.

Parece incrível que a Disney despreze as lições do próprio filme que produziu. Em “O Rei Leão”, o vilão Scar não só assassina seu irmão, o rei Mufasa, mas também planeja a morte de Simba, seu sobrinho. Depois, ele usurpa a Pedra do Reino com a promessa de uma “nova era”, onde leões e hienas estariam juntos, num “grande e glorioso futuro”. Scar dispensa os conselhos do “sacerdote” Rafki, rompe com a natureza e a tradição, instaurando uma nova ideologia igualitária e progressista. 

Mas Scar é tão falso quanto sua própria ideologia. E o resultado de seu governo é o total desequilíbrio, de modo que todas as espécies padecem: as manadas se retiram para outras savanas, as fontes e os rios secam, faltam alimentos para os leões e as hienas. É o caos.

Apenas quando Simba retorna e recupera a sua dignidade real é que a natureza toda retoma o equilíbrio. E esse despertar de Simba veio pela intervenção de Rafki, que lhe desferiu um golpe na fronte, fazendo-o recordar-se do que havia aprendido com seu pai. Ele era o verdadeiro rei e deveria assumir essa dignidade para que as outras criaturas também tivessem a sua redenção.

Ao militar pelo aborto e a política do controle populacional, ao defender essa “nova era” de uma política igualitária e de uma religião naturalista, a Disney se coloca ao lado de Scar e seus sequazes, ou seja, ao lado dos falsos líderes da história humana, passando do rei do Egito até chegar a Herodes, Nero e os ditadores do último século, todos sanguinários que não respeitaram a lei natural das coisas, impondo falsos deuses e matando os primogênitos, seja nas águas do rio Nilo, seja nos campos de concentração, seja nas clínicas da Planned Parenthood.

O vilão Scar, na nova produção da Disney.

Vale a pena recordar o que dizia o então Cardeal Ratzinger a respeito de sua infância à sombra do Terceiro Reich, na Alemanha dos anos 1930. Naquela época, a família Ratzinger já notava como o cristianismo era substituído por um novo culto à “santa natureza”, com festejos aos solstícios e outros fenômenos naturais. O propósito do governo era, afinal, abandonar a “estranha religião judaico-cristã”, com suas ideias sobre pecado e redenção, e no lugar colocar a cultura germânica natural. Na sua cidade, os símbolos do ano litúrgico foram trocados por uma “Árvore de Maio”, que simbolizava a vida. O resto todos conhecem. Todos sabem como esse culto pagão, essa falsa defesa da natureza, essa ideia equivocada sobre vida, levou milhões à morte, num dos crimes mais bárbaros da história.

Hoje em dia, diz Ratzinger, “quando ouço as críticas ao cristianismo pela destruição da identidade cultural de um local, invadido por valores europeus, percebo como as argumentações são semelhantes, e muitas frases floreadas me soam familiares” [5]. E soam familiares porque se trata das mesmas ideias, embora estejam com um novo verniz. 

Por trás de todo esse ecologismo, esse igualitarismo, esse neopaganismo, existe um desprezo diabólico por Deus e pelo homem. Existe, no fundo, um desejo de poder, de dominação irresponsável, incrédula, que precisa destronar o verdadeiro Deus para colocar-se a si mesmo no lugar, como Scar fez no filme “O Rei Leão”. E precisa matar os herdeiros, e matá-los já no ventre. Aliás, a cena em que Scar planeja o assassinato de Mufasa e de Simba foi toda inspirada nas marchas nazifascistas. Ele queria a “nova era”.

Mas o rei verdadeiro deve regressar. E aqui está o papel profético dos católicos, de todos os cristãos. Nós, como o “sacerdote” Rafki, devemos despertar as consciências dos homens, trazendo-os de volta à dignidade de batizados, de filhos de Deus, e, ao mesmo tempo, denunciando toda essa artimanha contra a vida, toda essa cultura da morte, que tolhe a existência humana desde a sua base. “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade”, dizia São Leão Magno [6]. Somente desse modo o “delicado equilíbrio” da natureza pode ser verdadeiramente salvo, somente assim os leões africanos terão seu habitat protegido.

Somente quando o homem, filho de Deus, assumir a sua vocação e respeitar a dignidade de todos os seus irmãos homens, desde o feto até o ancião, é que haverá uma verdadeira ecologia.

Referências

  1. Serm. 241, 2: PL 38, 1134.
  2. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 451.
  3. Ibid., 463.
  4. Papa Bento XVI, Discurso, 22 de setembro de 2011.
  5. Joseph Ratzinger. Lembranças da minha vida. 2.ª ed., São Paulo: Paulinas, 2007, p. 17.
  6. Serm. 21, 3: CCL 138, 88; PL 54, 192-193.

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