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Uma resposta à “coronafobia”
Igreja Católica

Uma resposta à “coronafobia”

Uma resposta à “coronafobia”

Ao contrário do que nos querem fazer crer os meios de comunicação, não, nós não vivemos uma situação “sem precedentes”. Para os católicos, nenhuma tragédia é absolutamente nova, pois nossa própria religião nasceu no rude desconforto da Cruz.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Ao lado da pandemia do coronavírus, identificamos alguns meses atrás algo a que demos o nome de “pandemia do medo”. Um autor católico norte-americano chamou o fenômeno de “coronafobia”. Em suas palavras

O coronavírus domina as notícias em todo o mundo, provocando uma histeria raramente vista em tempos modernos. Embora o vírus ainda tenha de mostrar sua fúria de forma plena, a reação a ela tornou-se louca. Dois espetáculos estão ocorrendo: o coronavírus e o medo do coronavírus, que pode ser chamado de “coronafobia”. Neste momento, o segundo é o mais destrutivo.

Não se trata de negar a importância de tomar as medidas razoáveis para conter esse mal. Trata-se, antes, de reconhecer que o mundo, quando se afasta da em Cristo, perde igualmente a razão. Sem pretender analisar a oportunidade desta ou daquela medida prudencial, adotada seja pelas autoridades civis, seja pelas eclesiásticas, para conter a atual pandemia, o que queremos é refletir sobre a resposta que os católicos ainda podem e devem dar a tudo o que está acontecendo

E por que os católicos, de modo especial? Porque, apesar de ser esta a “primeira pandemia da era digital”, por assim dizer, a Igreja Católica tem história tanto de resistência às pestes (assim se chamavam as epidemias) quanto de sobrevivência às eras. Passaram o Império Romano e Constantinopla, a peste negra e a gripe espanhola, mas a Igreja, fundada na promessa de seu divino Fundador de que não prevaleceriam contra ela as portas do inferno, permanece firme ao longo dos séculos.

E, no entanto, os templos fechados e as Missas públicas suspensas talvez tenham dado a muitos a impressão contrária. Em muitos lugares, infelizmente, somou-se a esses fatos uma teologia que parecia não dar importância aos sacramentos e acabava transformando a Igreja num item “não essencial”, um artigo de luxo dispensável em tempos de crise. Onde esteve a Igreja quando a humanidade mais parecia precisar dela?

Sem querer negar que, visivelmente, em muitíssimos lugares ao redor do globo, sacerdotes trabalharam duro para oferecer Deus às pessoas; leigos e instituições movidas pela caridade católica se sacrificaram para minimizar os efeitos trágicos desta pandemia e de sua consequente quarentena, também não há dúvida de que essa tem sido uma hora particularmente especial para fortalecer nossos laços com a Igreja invisível, que está principalmente no Céu; hora de buscar mais a unidade vertical que a horizontal; hora de receber com ainda mais força o influxo da graça divina, que vem do alto.

Ao contrário do que nos querem fazer crer os meios de comunicação, não, nós não vivemos uma situação “sem precedentes”. Para os católicos, nenhuma tragédia é absolutamente nova, pois sua Igreja nasceu não no conforto de um escritório ou de uma sala de estar, mas no rude desconforto da Cruz

No Japão, durante muitos séculos, os católicos precisaram manter a fé numa difícil realidade: sem os sacerdotes e os sacramentos que deles dependem, só o que lhes restou foi o sacramento do Batismo e as orações que os missionários lhes haviam ensinado. Foi com muita emoção que, gerações mais tarde, quando o país finalmente readmitiu a vinda de missionários cristãos, um grupo de católicos sobreviventes acolheu um sacerdote. As cenas iniciais do filme Silêncio, de Martin Scorsese, ilustram bem do que estamos falando: católicos sedentos pelo sacramento da Penitência e pelo perdão dos pecados, pela Santa Missa e pelo sacramento da Eucaristia. 

Esse desejo que os católicos japoneses nutriam pelos sacramentos nos ensina que não devemos acostumar jamais o nosso coração a ficar longe de nossas igrejas. Que elas estivessem fechadas até há poucos dias e que, sem culpa nossa, não as pudéssemos frequentar, era uma coisa; que transformemos isso agora no “novo normal” — palavras de ordem nesses dias de trevas — é outra bem diferente. Não podemos deixar que as atuais circunstâncias nos afundem espiritualmente, tornando-nos insensíveis às coisas de Deus.

O verdadeiro normal, a norma do cristão católico deve ser uma só, com ou sem coronavírus: ritmar a própria vida com trabalhos e descansos, mas todos tendo em vista a glória de Deus. Assim como Ele criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou, a nós cabe dedicar em todos os dias um tempo para esse sadio repouso da alma que é a oração — e honrar de modo especial o dia do Senhor, que é o domingo, ou voltando à Missa, se for possível, ou aumentando nossa sede de Eucaristia, se ainda houver restrições ao nosso redor.

De fato, nesses dias em que a Igreja visível pareceu esconder-se de algum modo, quantos não redescobriram o poder da oração silenciosa, das preces feitas em família e do serviço a Deus nos trabalhos domésticos mais humildes? Em quantas casas a tragédia do coronavírus não moveu as consciências, não despertou as pessoas para o que há de essencial na vida, não freou o ritmo frenético e irrefletido com que tantos gastavam as próprias vidas? Quantos de nós não abrimos os olhos para a sede existencial que trazemos dentro no peito: a sede de uma água que só Deus nos pode conceder? Nada disso pode ser ignorado. 

No entanto, chegado o momento de retornar a nossas igrejas e retomar o culto público a Deus, algo precisa mudar no mais íntimo de nós. Para nossa reflexão pessoal, podem muito bem servir as seguintes palavras que a mística italiana Luisa Piccarreta atribui a Nosso Senhor, em revelação privada a ela, um século atrás:

Ah, minha filha! Quando permito que as igrejas fiquem desertas; os ministros, dispersos; e as Missas, reduzidas, significa que os sacrifícios se tornaram para mim ofensa; as orações, insultos; as adorações, irreverências; e as confissões, passatempos sem fruto. Assim, não encontrando mais a minha glória, mas ofensas, nem o bem deles, não me servindo mais, eu os retiro. Mas esse apartar os ministros do meu santuário significa, ainda, que as coisas chegaram ao fundo do poço e que a diversidade dos flagelos se multiplicará. Quanto é duro o homem, quanto é duro (Libro di Cielo, v. 12, 12 fev. 1918 [34])!

Ponhamos de lado, por um instante, nossa curiosidade com essa revelação e sua destinatária, e detenhamo-nos no conteúdo de sua mensagem. Não nos deveriam inquietar essas palavras? De fato, com que desprezo temos tratado os dons de Deus e com quais abusos temos celebrado os seus sacramentos?! Em quantos lugares as Missas se transformaram em verdadeiros festivais de sacrilégios que circundam o “sacrifício perfeito e santo” de Nosso Senhor? Sim, porque não basta que as Missas sejam rezadas validamente e Cristo seja oferecido no altar, se não procuramos conformar nossas vidas ao sacrifício que celebramos… Será que nos tornamos os homens externos do Antigo Testamento, os fariseus da época de Jesus, que honram a Deus só com os lábios, estando com o coração longe de sua santíssima vontade?

Por essas e muitas outras coisas, nossa principal preocupação nesses dias atípicos deve ser tornar-nos os católicos que até aqui nos recusamos a ser. Oxalá nosso “isolamento” do mundo, ao longo de todo esse ano, se converta, ao fim e ao cabo, num verdadeiro afastamento da mundanidade. Pois de nada nos terá adiantado isolar-nos fisicamente do mundo se continuarmos com o coração nele. De nada nos terá adiantado viver esses dias difíceis para combater um vírus, se não combatermos com muito mais força e cuidado o vírus da nossa inconformidade com a vontade de Deus. Pois o coronavírus tira a vida do corpo, mas o nosso pecado mata em nós a vida da graça.

Só trava essa batalha, porém, aquele que crê. A fé católica bem crida, a fé católica bem vivida, é a única vacina efetiva para o problema que temos enfrentado ao longo de todo esse ano. Ela é o antídoto do desespero, a injeção da esperança sobrenatural. 

Enquanto o mundo literalmente se esconde de medo da morte, os católicos cantam, desde a Páscoa: “Ó morte, onde está tua vitória?” (1Cor 15, 55). Enquanto o mundo, apavorado, foge do sofrimento, nossa fé nos ensina a abraçar com alegria seja qual for a cruz que nos advenha, pois os fios de nossa cabeça estão todos contados (cf. Lc 12, 7) e Deus vela por nós com afeto verdadeiramente paterno. Enquanto o mundo se pergunta aterrorizado que ano tem sido esse, os católicos sabem que o coronavírus é só o início das dores (cf. Mt 24, 8) e, ainda assim, são capazes de se alegrar, porque foi seu Senhor quem disse: “Quando começarem a acontecer essas coisas, reanimai-vos e levantai vossas cabeças, porque se aproxima a vossa libertação” (Lc 21, 28).

Humanamente falando, tudo parece estar indo por água abaixo. Por isso mesmo, é a hora da fé, da fé sobrenatural, hora de confiarmos nas promessas de Deus, e em nada mais. Eis a nossa resposta ao coronavírus, eis a nossa resposta à “coronafobia”.

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Uma Quaresma contra o orgulho
Espiritualidade

Uma Quaresma contra o orgulho

Uma Quaresma contra o orgulho

Além de ser o mais pesado dos pecados e uma grande pedra de tropeço no caminho da santidade, o orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo. Aproveitemos esta Quaresma para combater essa obstinação.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Sou extremamente obstinada. Não tenho a força de vontade que tinha na juventude, mas ainda é uma batalha contínua. Nosso Senhor, em sua misericórdia, teve de me “quebrar” várias vezes. Pessoas obstinadas são incrivelmente independentes; muitas vezes pensamos poder fazer algo sozinhas, ou já o fazemos nós mesmas. Isso nos torna propensas a pecados profundamente arraigados no orgulho. O orgulho é o pecado mais pesado e a principal pedra de tropeço no caminho da santidade, e é por isso que Cristo, de fato, precisa “quebrar” certas almas, inclusive a minha.

O caminho para a santidade não pode ser conquistado pelo orgulho. Só o alcançamos pela humildade, que está na disposição de colocar a Deus no centro de nossas vidas e a sua vontade acima da nossa. Para pessoas obstinadas, é uma luta, já que muitas vezes queremos fazer “do nosso jeito” ou saber por que Deus nos está pedindo algo antes mesmo de o fazermos. O Espírito Santo não irá operar livremente em nós e através de nós enquanto estivermos procurando estar sob controle e pondo nossa vontade no centro de tudo. Em algum momento, todos temos de dizer, como Nosso Senhor no Jardim de Getsêmani: “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39).

Todos somos fracos. Cada pessoa é capaz de uma escuridão incrível. Parte do que nos leva a julgar os pecados alheios é a crença falsa de que nunca mais cometeremos pecados graves. Esquecemos que, em determinadas circunstâncias, todos somos capazes de cometer pecados terríveis. A ideia de que nunca entraríamos em tal escuridão vem do orgulho e da falsa crença de que estamos no controle de tudo.

Em The School of Jesus Crucified [“A Escola de Jesus Crucificado”], o Frei Inácio do Lado de Jesus afirma:

Quase sempre acontece de os sentimentos interiores de orgulho precederem a prática de pecados graves. Pedro não tinha consciência da própria fraqueza. Preferiu a si mesmo antes dos outros; confiava em si como se fora incapaz de pecar, gabando-se de que nenhuma tentação o separaria de Jesus. Ele nem sequer deu fé à garantia do Divino Mestre de que o iria negar três vezes. Iludido pela vã confiança em suas próprias forças, esqueceu-se de orar e recorrer a Deus; e Deus, em sua justiça, permitiu-lhe cair no castigo de seu orgulho. Não há nada mais perigoso do que confiar na própria força e em sentimentos de fervor! Estamos cheios de malícia e somos capazes de cometer os crimes mais atrozes, a menos que Deus nos ampare.

É verdade que podemos não ser propensos aos mesmos pecados que os outros, mas ainda somos propensos a pecar. Confiar em nossas próprias forças e esquecer nossas fraquezas sempre leva ao pecado do orgulho, o qual nos abre para uma série de outros pecados. O orgulho leva à cegueira espiritual e nos impede de permanecer dóceis à ação do Espírito Santo em nossas vidas.

Por isso é, de fato, misericordioso e justo que Deus nos permita cair por causa dos nossos pecados, especialmente o orgulho. Encontrar-nos com o rosto em terra nos reorienta de volta à Via Crucis e ao caminho da santidade que todos somos chamados a percorrer. Mesmo que tenhamos certeza do caminho que Deus nos está chamando a trilhar, podemos facilmente cair no orgulho ao decidirmos, por nós mesmos, qual a melhor forma de responder ao chamado de Deus. A maneira como percorremos o caminho é tão essencial quanto o próprio caminho. É por isso que, muitas vezes, pessoas com força de vontade precisam cair de novo e de novo. Cada queda funciona como o refinamento e o distanciamento necessários da nossa própria vontade. Cada queda nos leva a uma maior humildade.

A Quaresma é uma oportunidade para pedir a Deus que nos revele onde estamos deixando de colocar a sua vontade acima da nossa. É o momento de entrar na escuridão que habita em nós e permitir que Cristo faça brilhar sua luz reparadora nos lugares em que nos escondemos por medo e vergonha. As práticas quaresmais da oração, do jejum e da esmola nos livram das distrações e do autoengano que frequentemente usamos para fugir de Deus.

“O Homem das Dores nos braços da Virgem”, de Hans Memling.

De muitas maneiras a Quaresma nos deve “quebrar”. Deve ser difícil. Este tempo é um momento de enfrentarmos a nós mesmos e ao maligno, para que possamos dedicar-nos totalmente ao seguimento de Cristo. Aprendi com o passar dos anos que não é fácil se deixar “quebrar”. Na verdade, é doloroso. Com frequência, evitamos esse processo ou buscamos falsificações que nos preservam de enfrentar as dificuldades necessárias ao crescimento em santidade. Entretanto, se realmente desejamos a santidade e a promessa de vida eterna, não há outro caminho.

Temos de morrer para nós mesmos, e isso significa — por meio da ação do Espírito Santo — conhecer a nós mesmos, especialmente nossas fraquezas e falhas de personalidade. No meu caso, ter obstinação é um dom apenas quando está ordenado a Deus; caso contrário, as pessoas obstinadas tendem a “passar por cima” dos que estão à sua volta. Todos somos obstinados às vezes e vemos o rastro destrutivo que isso deixa para trás. Mesmo que o processo de autoconsciência seja doloroso, sabemos que é realizado com o fogo do amor de Deus. Podemos confiar que, se nos submetermos a Ele, a alegria estará à nossa espera do outro lado da escuridão que, neste momento, precisamos atravessar.

Uma das maneiras que encontrei para ter clareza de visão sobre minha pessoa e a batalha espiritual que se desenrola ao meu redor é pedir a orientação de Nossa Senhora das Dores. Como passamos grande parte da Quaresma voltados para a Paixão de Nosso Senhor, agora é momento de entrar no doloroso e Imaculado Coração de Maria, onde podemos encontrar refúgio e verdadeiro conhecimento sobre nós mesmos e tudo o que Deus nos pede. Ela caminha para a escuridão conosco. Como Mãe dolorosa, está conosco no deserto. Ela é a nossa Mãe humilde, que ajudará a nos afastarmos do orgulho e nos submetermos à vontade de Deus e ao seu desígnio para cada um de nós.

Esta Quaresma é uma oportunidade para nos esvaziarmos de nossa própria obstinação e orgulho, para que possamos ser discípulos fiéis de Jesus Cristo. Não será um processo fácil; mas, com a nossa Mãe dolorosa a nos conduzir à união com Deus através da nossa própria escuridão, encontraremos o caminho da alegria e da paz. Assim sairemos desta Quaresma livres dos pecados, fraquezas e falhas de caráter que nos assolam. Nas próximas semanas, Nossa Senhora das Dores nos pode conduzir no caminho da perfeição através do deserto em que nos achamos.

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Sete Salmos contra os pecados capitais
Oração

Sete Salmos
contra os pecados capitais

Sete Salmos contra os pecados capitais

Você sabe o que são os Salmos penitenciais? Rezando os cânticos de Davi ao longo dos séculos, a Igreja identificou sete em especial para aumentar em nós o arrependimento dos pecados e o espírito de luta contra as más inclinações de nossa carne.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Já faz muito tempo que os Salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 são associados a devoções penitenciais. Ninguém menos que Santo Agostinho os teria recitado em seu leito de morte. Mas eles também são recomendados no combate aos sete pecados capitais — soberba, avareza, ira, luxúria, gula, inveja e preguiça —, sendo cada um desses vícios associado a um salmo em particular. 

As fórmulas de oração abaixo foram retiradas da obra Coeleste Palmetum, do Pe. Wilhelm Nakatenus (1617-1682); sua versão latina encontra-se à disposição no site Preces Latinae; e a tradução portuguesa a seguir é de nossa equipe. 

Por tratar-se de uma devoção privada, essas orações podem ser rezadas da forma como cada fiel achar mais conveniente: quem percebe em si uma inclinação maior a determinado pecado capital, por exemplo, pode rezar apenas o salmo e a oração correspondentes a ele; quem deseja incorporar essa prática às suas orações vocais habituais, pode rezá-la por completo etc.


Antífona. — Não recordeis, Senhor, os nossos delitos, ou os de nossos pais, nem tomeis vingança de nossos pecados.

1) Reza-se o Salmo 6. Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a soberba. — “Nosso Senhor Jesus Cristo humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. E eu, vilíssimo verme da terra, eu que sou pó e cinza, o maior dos pecadores, que mil vezes mereci o inferno, não me envergonho de ser orgulhoso? Sede-me propício, Senhor: reconheço e detesto minha execrável arrogância. Não me lanceis, eu imploro, com o soberbo Lúcifer e seus asseclas no abismo do inferno. Convertei-vos e livrai minha alma, ajudai-me e salvai-me por vossa misericórdia! Preferi doravante viver rejeitado na casa de Deus a morar nas tendas dos pecadores (cf. Sl 83, 11)”.

2) Reza-se o Salmo 31(32). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a avareza. — “Que há para mim no céu e que desejei de vós sobre a terra, Deus de meu coração e minha herança para sempre? Não se sacia o olho com o que vê, nem basta ao ouvido o que ouve: serei saciado quando aparecer a vossa glória! Ai de mim, que com tanto esforço tenho servido até agora a Mamon! De que me aproveitará lucrar o mundo inteiro, se vier a perder minha alma? Dormiram o seu sono todos os opulentos, e nada encontraram em suas mãos. Confessarei contra mim a minha injustiça ao Senhor, e vós perdoareis, espero, a impiedade de meu pecado. Do pobre doravante terei compaixão, hei de restituir o que devo e me consagrarei mais ferventemente ao vosso serviço. Ajudai-me, Senhor, vós que cumulais de benefícios a minha vida (cf. Sl 102, 5)”.

3) Reza-se o Salmo 37(38). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a ira. — “‘Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura! Não tem misericórdia para com o seu semelhante, e roga o perdão dos seus pecados! Quem, então, lhe conseguirá o perdão de seus pecados?’ (Ecle 28, 3ss). Com estas palavras, Senhor, me falais pelo servo, vosso filho, Sirac. E eu, de agora em diante, acaso ousarei alimentar ira ou ódio contra alguém? Perdoai-me, Senhor, perdoai-me minha malícia e obstinação, na qual perseverei até hoje. De coração, desculpo e perdoo agora o que quer que contra mim já tenham feito; e rogo suplicante, Senhor, que em vossa cólera não me repreendais nem em vosso furor me castigueis. Oxalá, como um surdo, doravante não ouça e, como um mudo, não abra mais a boca, quando meus inimigos contra mim se levantarem e me fizerem violência os que perseguem minha alma. Não me abandoneis, Senhor Deus meu, não vos aparteis de mim, ‘porque vós sois a minha esperança’ (Sl 70, 5)”.

4) Reza-se o Salmo 50(51). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a luxúria. — Pai, pequei contra o céu e contra vós, por isso não sou digno de ser chamado vosso filho. Que farei eu, miserável? Não permanecerá o vosso Espírito num homem carnal. Ah! tende piedade de mim, tende piedade. À vossa bondade atribuo que não me conte entre os tantos milhares de réprobos a quem a abominável peste da luxúria ainda hoje precipita no inferno. Irei eu pecar novamente? Hei de conculcar outra vez, por amor a desejos bestiais, o vosso preciosíssimo Sangue, ó Jesus, derramado em purificação de meus crimes? Longe de mim, ó Jesus, longe de mim! Peço-vos, ó Filho da castíssima Virgem Maria: livrai-me do espírito de fornicação. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. De vossa face não me rejeiteis nem me priveis de vosso Santo Espírito”.

5) Reza-se o Salmo 101(102). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a gula. — “Ai de mim, miserável, que vos abandonei a vós, Senhor Deus, fonte de água viva, e abri para mim cisternas de prazeres terrenos, cisternas rachadas que não podem reter água (cf. Jr 2, 13)! Em verdade, esqueci-me de comer meu pão, o pão da vida, que contém em si todo o deleite e a suavidade de todo sabor, e busquei encher o ventre com bolotas de porcos (cf. Lc 15, 16). Ainda tinham comida em suas bocas os filhos de Israel quando a ira de Deus caiu sobre eles: e a mim tantas vezes me perdoastes, que pela intemperança da comida e da bebida desfigurei em mim vossa imagem, ó Deus, fazendo-me semelhante às bestas! Oxalá de agora em diante eu coma cinzas como se fossem pão e misture lágrimas à minha bebida; que o meu alimento seja fazer em tudo a vossa vontade, vós, que nos ‘dais de beber das torrentes de vossas delícias’ (Sl 35, 9)”.

6) Reza-se o Salmo 129(130). Ao final, diz-se um Glória e a seguinte oração contra a inveja. — “De tal modo, meu Deus, amastes o mundo, que destes o vosso Filho unigênito, para que todo o que crê em vós não pereça, mas tenha a vida eterna. Vós fazeis o Sol nascer sobre bons e maus e cair a chuva sobre justos e injustos. E eu, enquanto a fortuna toca a outros, rasgo-me de inveja e desejo que tudo suceda segundo a minha vontade, mas entristeço-me com a mínima felicidade do próximo? Oh, malícia desumana! Oh, vírus infernal! Perdoai-me, clementíssimo Pai, que eu até hoje tenha pecado nisso. Benigna é a vossa misericórdia. Fazei, a partir deste momento, que eu vista, como um eleito de Deus, vísceras de misericórdia e benignidade e, acima de tudo, que eu busque ter caridade, que é o vínculo da perfeição (cf. Col 3, 14)”.

7) Reza-se o Salmo 142(143). Ao final, diz-se um Glória, a Antífona do início e, por fim, a seguinte oração contra a acídia. — “Quando, meu Deus, começarei, como é justo, a amar-vos e louvar-vos de todo o meu coração, com toda a minha alma e com todas as minhas forças, a vós que com caridade perpétua me amastes e me desposastes para sempre? Ai! Dormitou minha alma por tédio. Ai de mim, porque tenho sido até agora tão tíbio no vosso serviço, que com justiça posso temer que comeceis a vomitar-me de vossa boca (cf. Ap 3, 16). Mas tende piedade, Senhor: ‘Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós. Estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós. Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer’; o vosso bom Espírito, porém, me conduzirá pelo caminho reto. ‘Por amor de vosso nome, Senhor, conservai-me a vida’ (Sl 142, 11)”.

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O fantasma do arianismo na Igreja de hoje
Doutrina

O fantasma
do arianismo na Igreja de hoje

O fantasma do arianismo na Igreja de hoje

Como ervas daninhas, as heresias vêm e vão. A questão é que elas voltam de maneiras diferentes. É o caso do arianismo, que hoje chega até nós de modo escondido, como um parasita, e disfarçado, sob a forma de humanismo materialista.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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[Este texto é de autoria do Pe. Dwight Longenecker. Foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

As heresias são como ervas daninhas. Elas continuam voltando. A questão é que elas voltam de formas diferentes

No século IV, o arianismo fazia parte do grande debate sobre a divindade de Cristo e, portanto, sobre a definição do dogma da Santíssima Trindade. Essa heresia começou com o ensino de Ário em meados do século III e se espalhou por todo o Império. Missionários da parte oriental foram para o norte, e as tribos góticas foram convertidas ao arianismo.

O arianismo se desenvolveu não apenas como um problema teológico, mas também como um grande cisma. Os arianos tinham suas próprias igrejas, seus próprios bispos e seus próprios poderes temporais — como o rei gótico Teodorico, o Grande, que governava a Itália por volta do ano 500 — para os apoiar. No cerne do arianismo estava uma negação da cristologia nicena. Em resumo, eles acreditavam que Jesus era o “Filho de Deus”, mas não a Segunda Pessoa da santa e indivisa Trindade, que assumiu a carne humana de sua bem-aventurada Mãe. Ele era, em vez disso, um ser criado — um semideus e, portanto, subordinado a Deus Pai.

S. Atanásio, que lutou contra o arianismo, notou que os arianos eram teólogos sutis. Eles usavam uma linguagem ambígua e falavam em termos vagos. Estavam mais interessados no cuidado pastoral do que no dogma. Também eram, em sua maioria, os mais letrados e das classes dominantes. O arianismo era uma forma de cristianismo muito mais confiável. Um Jesus como ser criado, subordinado ao Pai, era mais palatável intelectualmente do que a autêntica doutrina da Encarnação, que levou a dificuldades intelectuais a respeito da Santíssima Trindade.

Hoje, o arianismo assume uma forma diferente e chega até nós sob a forma de humanismo. Por “humanismo” quero dizer aquele sistema de crenças que toma o homem como medida de todas as coisas. Este humanismo é um conglomerado de diferentes crenças modernistas, mas o resumo de tudo é o materialismo: este mundo físico é tudo o que existe, a história humana é tudo o que importa e o avanço da raça humana, neste reino material, é a única coisa pela qual devemos lutar.

O arianismo atual é uma interpretação do cristianismo de acordo com essa filosofia materialista e humanista. Claramente, Jesus Cristo, como o Filho divino de Deus e Segunda Pessoa coeterna da Santíssima Trindade, não se encaixa aqui. Em vez disso, Jesus seria um bom mestre, um rabino sábio, um belo exemplo, um mártir de uma causa nobre. No máximo, ele seria um ser humano “tão realizado e autorrealizado que ‘se tornou divino’”. Em outras palavras, “Jesus seria um ser humano tão completo que nos revela a imagem divina, à qual todos fomos criados — e, portanto, nos mostra como Deus é”. Em certo sentido, essa “divinização” de Jesus teria acontecido como resultado das graças que recebeu de Deus, da vida que levou e dos sofrimentos que suportou.

Esse cristianismo diluído é a forma moderna do arianismo. O contexto cultural da heresia e sua expressão são diferentes, mas a essência dela é a mesma de sempre: “Jesus Cristo é um ser criado. Sua ‘divindade’ é algo que se desenvolveu ou foi adicionado à sua humanidade por Deus”.

A diferença entre Ário e os hereges modernos é que Ário foi realmente explícito em seus ensinamentos. Os hereges modernos não. Eles habitam nossos seminários, nossos mosteiros, nossas casas paroquiais e presbitérios. Eles são do clero modernista que domina as principais denominações protestantes, mas também são numerosos dentro da Igreja Católica. Eles não são uma seita ou denominação separada. Ao contrário, eles infestam a verdadeira Igreja como um parasita horrível.

Muitos deles nem mesmo sabem que são hereges. Eles foram mal catequizados desde o início. Suas crenças sobre Jesus Cristo permaneceram confusas e fora de foco. Eles mantêm suas crenças em uma névoa sentimental, na qual sentem, de modo muito vago, que o que acreditam é “cristão”, mas não querem se aprofundar. Isso acontece porque eles foram ensinados a ver o dogma como um causador de divisão. Eles mantêm suas crenças deliberadamente vagas e focam nas “preocupações pastorais”, para evitar questões difíceis.  O dogma faria parte de uma época anterior na Igreja; hoje, nós amadurecemos e superamos esse tipo de questiúncula. “Deus, afinal, não pode ser colocado em uma caixa. Ele é maior do que tudo isso…”.

Apesar disso, eles se sentem totalmente à vontade recitando o Credo niceno todas as semanas (N.T.: onde ele é recitado todas as semanas, claro; no Brasil, o costume é que se recite o Credo apostólico) e celebrando o Natal do Filho de Deus e o grande Tríduo Pascal — usando todas as palavras do cristianismo niceno tradicional, enquanto reinterpretam essas palavras de uma forma que agrade a Ário. Então, quando falam de Jesus Cristo, o Filho divino de Deus, o que realmente querem dizer é o que eu escrevi acima: “Que, de uma maneira linda, Jesus era um ser humano tão perfeito que nos revela como Deus é”.

A Virgem Maria, então, se torna “uma boa e pura moça judia que lidou com uma gravidez não planejada com grande coragem e fé”. A crucificação se torna “a trágica morte de um jovem e corajoso defensor da paz e da justiça”. A ressurreição significa que, “de alguma forma misteriosa, ao seguir seus ensinamentos, os discípulos de Jesus continuaram a acreditar que Ele estava vivo em seus corações e na história”.

Agora, o que realmente me interessa é que esses arianos modernos (e tenho certeza de que o mesmo se pode dizer da versão ariana do século IV) não são pecadores perversos e imundos. São boas pessoas. São pessoas articuladas e educadas. São pessoas abastadas. São pessoas bem conectadas. São pessoas “cristãs” boas, sólidas e respeitáveis. Caramba, até mesmo os imperadores eram arianos em seus dias! Eles eram as pessoas no topo da hierarquia socioeconômica. Além disso, sua versão ariana da fé parece muito mais razoável, sensível e crível do que a ortodoxia intelectualmente escandalosa de Atanásio, Basílio, Gregório e da Igreja histórica através dos tempos.

Reconheço esses hereges pelo que são: lobos em pele de cordeiro. Eles podem se apresentar como bons cristãos, respeitáveis, devotos e sinceros. Tudo bem. Mas são hereges. São mentirosos, e as pessoas que mais acreditam em suas mentiras são eles mesmos. Se conseguirem o que querem e suas heresias sutis prevalecerem, destruirão a fé.

De minha parte, quero manter a fé histórica de Niceia com Atanásio, Basílio e Gregório e com os santos e mártires. Não me importo nem um pouco se o mundo pensa que essa fé é “antiga” ou “esquisita”, “infelizmente rígida”, “dogmática demais” ou “inacessível aos cristãos modernos”. Os arianos provavelmente usaram todos esses argumentos.

Eu afirmo o Credo niceno: não me importo em dizer “consubstancial com o Pai”, mantenho a clareza e simplicidade dessas palavras e não acho que elas precisem ser “reinterpretadas”.

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Estamos protegidos contra os demônios?
Espiritualidade

Estamos protegidos
contra os demônios?

Estamos protegidos contra os demônios?

“Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta.”

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Trazemos a seguir o relato de mais um caso acompanhado pelo Monsenhor Stephen Rossetti, exorcista da Arquidiocese de Washington, e publicado em seu blog Catholic Exorcism. A tradução para o português foi feita por nossa equipe:

“Júlia” cresceu numa boa família católica. Ela foi para a faculdade e começou a namorar um jovem que estava fortemente envolvido com ocultismo. Ela participava desses rituais e também adotava outros comportamentos pecaminosos.

Pela graça de Deus, na universidade ela teve contato com um grupo de jovens católicos bastante engajados na Igreja, e isso mudou sua vida. Ela terminou com o namorado, começou a assistir à Missa e buscou a Confissão. As coisas estavam melhorando.

Poucos meses depois de sua conversão, ela acordou pela manhã com marcas horríveis nas costas. Parecia que uma besta lhe tinha arranhado. Demônios começaram a atacá-la. À noite, eles a assediavam e abusavam dela. Ela tinha dificuldade para entrar numa igreja ou ir à Missa. Ela sabia que seu passado voltara para atormentá-la.

Duas amigas da universidade queriam ajudar. Elas entraram em seu quarto à noite e puderam ver o que estava acontecendo. Elas decidiram dormir no quarto dela para ajudá-la durante os ataques demoníacos.

Infelizmente, essas jovens, embora bem intencionadas, não estavam espiritualmente preparadas para o que encontraram. Uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual e, pouco depois, deixou a universidade. A outra ficou tomada de raiva, ameaçou cometer suicídio e também deixou a universidade. A família de Júlia recomendou-lhe um exorcista, que iniciou o rito.

Júlia notou que, quando voltou para a casa da família, os demônios não entraram com ela. O padre explicou que a casa fora abençoada: estava cheia de sacramentais, incluindo crucifixos, estátuas sagradas e, muitas vezes, era aspergida água benta. Os pais eram católicos fervorosos.

No capítulo 6 da Carta aos Efésios, S. Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (v. 11). Aquelas duas jovens não estavam preparadas. Os pais de Júlia, sim.

A fé em Deus e em Jesus Cristo é a armadura que nos protege. À medida que a fé se esvai nestes tempos secularizados, temo que nossos lares e famílias estejam desprotegidos. À medida que a fé se esvai em nossa nação, o que será dela?

O que nos deve chamar a atenção nesse relato, em primeiro lugar, é como as pessoas, sobretudo os mais jovens, por falta de discernimento na hora de fazer amizades, têm se aproximado do mal e se tornado suscetíveis a ele. Em outros tempos, as famílias costumavam ter critério para admitir estranhos em seu convívio — e ensinavam seus filhos a fazer o mesmo: “Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Não se começa uma amizade, muito menos um relacionamento amoroso, com alguém, só porque aparecem afinidades circunstanciais ou gostos marginais em comum. As pessoas são mais, muito mais, do que os jogos com que se divertem, as músicas que escutam ou as séries a que assistem. Ser amigo, no sentido verdadeiro do termo, é compartilhar convicções filosóficas, religiosas e morais fundamentais, que tocam o próprio sentido da existência humana.

O adágio bíblico é conhecido: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). No caso de Júlia, uma má companhia foi o suficiente não só para corrompê-la, mas para deixar marcas ainda mais profundas em sua alma.

Em segundo lugar, é sempre bom lembrar: diferentemente de Deus, os demônios não são seres onipotentes; tudo o que fazem está condicionado à ação permissiva de Deus e à sua bondosa Providência. Tampouco eles têm o poder de “obrigar” as pessoas a fazer o que não querem. Assim, quando lemos, das amigas de Júlia, que uma se entregou ao uso de drogas e à promiscuidade sexual, e outra chegou a tentar suicídio, ninguém pense que isso se deva a uma espécie de influência demoníaca irresistível. Mesmo as mais intensas tentações e obsessões demoníacas não são capazes de nos tirar o livre-arbítrio. O próprio Autor Sagrado, quando registra que “Satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes” (Lc 22, 3), não quis dizer com isso que o traidor de Cristo havia se tornado uma “marionete” nas mãos do inimigo. O pecado de Judas foi consciente e deliberado: ele sabia o que estava fazendo. Se o Evangelho se refere aqui a uma possessão literal, pode muito bem ser que ela tenha acontecido até como consequência da gravidade do pecado cometido por Judas. 

Por último, a lição principal de toda a história: a importância da bênção da Igreja, dos sacramentais, das imagens sagradas e da oração para proteger-nos da ação do inimigo. Nunca é demais insistir nesta passagem, que a liturgia da Igreja põe toda terça-feira nos lábios de seus sacerdotes, nas Completas: “Sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). Se dormimos, o inimigo de nossas almas não dorme. Se não nos protegemos, ele investe contra nós e sai bem sucedido. A batalha espiritual já está acontecendo ao nosso redor. Fingir que ela não é real, ou ignorá-la, só será pior para nós. Precisamos nos armar, com tudo o que Deus nos concedeu através de sua Igreja, para sairmos vitoriosos nesse combate. 

Isso significa que devemos, sim, munir-nos de água benta e de outros materiais abençoados — como imagens, velas e terços —, sem nunca esquecer, no entanto, que a principal proteção contra o mal nós a levamos na alma, quando cremos em Deus e procuramos rezar, receber os sacramentos da Igreja e levar uma vida conforme os Mandamentos. Uma coisa não exclui, nem diminui a importância da outra, pois somos formados de corpo e alma

Por isso, vale a pena perguntar: a sua residência já foi abençoada por um padre? Você se preocupa em pedir a um sacerdote que abençoe as imagens ou velas que compra para rezar? Tem sempre consigo, em casa, um pouco de água benta? 

Caso tenha respondido “não” a alguma das perguntas acima, comece hoje mesmo a cultivar o hábito contrário e deixe-se cercar pela bênção de Cristo, que Ele quer derramar em nós não através de curandeiros espíritas e benzedeiros sem credenciais — pois isso é superstição [1] —, mas através dos sacerdotes da Igreja, cujo ministério Ele mesmo instituiu para levar ao mundo a sua salvação.

Notas

  1. Para consultar qual seja a posição da Igreja perante o fenômeno do curandeirismo, cf. Fr. Boaventura Kloppenburg, Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, pp. 34-36.

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