Uma resposta à “coronafobia”
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Uma resposta à “coronafobia”
Igreja Católica

Uma resposta à “coronafobia”

Uma resposta à “coronafobia”

Ao contrário do que nos querem fazer crer os meios de comunicação, não, nós não vivemos uma situação “sem precedentes”. Para os católicos, nenhuma tragédia é absolutamente nova, pois nossa própria religião nasceu no rude desconforto da Cruz.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Ao lado da pandemia do coronavírus, identificamos alguns meses atrás algo a que demos o nome de “pandemia do medo”. Um autor católico norte-americano chamou o fenômeno de “coronafobia”. Em suas palavras

O coronavírus domina as notícias em todo o mundo, provocando uma histeria raramente vista em tempos modernos. Embora o vírus ainda tenha de mostrar sua fúria de forma plena, a reação a ela tornou-se louca. Dois espetáculos estão ocorrendo: o coronavírus e o medo do coronavírus, que pode ser chamado de “coronafobia”. Neste momento, o segundo é o mais destrutivo.

Não se trata de negar a importância de tomar as medidas razoáveis para conter esse mal. Trata-se, antes, de reconhecer que o mundo, quando se afasta da em Cristo, perde igualmente a razão. Sem pretender analisar a oportunidade desta ou daquela medida prudencial, adotada seja pelas autoridades civis, seja pelas eclesiásticas, para conter a atual pandemia, o que queremos é refletir sobre a resposta que os católicos ainda podem e devem dar a tudo o que está acontecendo

E por que os católicos, de modo especial? Porque, apesar de ser esta a “primeira pandemia da era digital”, por assim dizer, a Igreja Católica tem história tanto de resistência às pestes (assim se chamavam as epidemias) quanto de sobrevivência às eras. Passaram o Império Romano e Constantinopla, a peste negra e a gripe espanhola, mas a Igreja, fundada na promessa de seu divino Fundador de que não prevaleceriam contra ela as portas do inferno, permanece firme ao longo dos séculos.

E, no entanto, os templos fechados e as Missas públicas suspensas talvez tenham dado a muitos a impressão contrária. Em muitos lugares, infelizmente, somou-se a esses fatos uma teologia que parecia não dar importância aos sacramentos e acabava transformando a Igreja num item “não essencial”, um artigo de luxo dispensável em tempos de crise. Onde esteve a Igreja quando a humanidade mais parecia precisar dela?

Sem querer negar que, visivelmente, em muitíssimos lugares ao redor do globo, sacerdotes trabalharam duro para oferecer Deus às pessoas; leigos e instituições movidas pela caridade católica se sacrificaram para minimizar os efeitos trágicos desta pandemia e de sua consequente quarentena, também não há dúvida de que essa tem sido uma hora particularmente especial para fortalecer nossos laços com a Igreja invisível, que está principalmente no Céu; hora de buscar mais a unidade vertical que a horizontal; hora de receber com ainda mais força o influxo da graça divina, que vem do alto.

Ao contrário do que nos querem fazer crer os meios de comunicação, não, nós não vivemos uma situação “sem precedentes”. Para os católicos, nenhuma tragédia é absolutamente nova, pois sua Igreja nasceu não no conforto de um escritório ou de uma sala de estar, mas no rude desconforto da Cruz

No Japão, durante muitos séculos, os católicos precisaram manter a fé numa difícil realidade: sem os sacerdotes e os sacramentos que deles dependem, só o que lhes restou foi o sacramento do Batismo e as orações que os missionários lhes haviam ensinado. Foi com muita emoção que, gerações mais tarde, quando o país finalmente readmitiu a vinda de missionários cristãos, um grupo de católicos sobreviventes acolheu um sacerdote. As cenas iniciais do filme Silêncio, de Martin Scorsese, ilustram bem do que estamos falando: católicos sedentos pelo sacramento da Penitência e pelo perdão dos pecados, pela Santa Missa e pelo sacramento da Eucaristia. 

Esse desejo que os católicos japoneses nutriam pelos sacramentos nos ensina que não devemos acostumar jamais o nosso coração a ficar longe de nossas igrejas. Que elas estivessem fechadas até há poucos dias e que, sem culpa nossa, não as pudéssemos frequentar, era uma coisa; que transformemos isso agora no “novo normal” — palavras de ordem nesses dias de trevas — é outra bem diferente. Não podemos deixar que as atuais circunstâncias nos afundem espiritualmente, tornando-nos insensíveis às coisas de Deus.

O verdadeiro normal, a norma do cristão católico deve ser uma só, com ou sem coronavírus: ritmar a própria vida com trabalhos e descansos, mas todos tendo em vista a glória de Deus. Assim como Ele criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou, a nós cabe dedicar em todos os dias um tempo para esse sadio repouso da alma que é a oração — e honrar de modo especial o dia do Senhor, que é o domingo, ou voltando à Missa, se for possível, ou aumentando nossa sede de Eucaristia, se ainda houver restrições ao nosso redor.

De fato, nesses dias em que a Igreja visível pareceu esconder-se de algum modo, quantos não redescobriram o poder da oração silenciosa, das preces feitas em família e do serviço a Deus nos trabalhos domésticos mais humildes? Em quantas casas a tragédia do coronavírus não moveu as consciências, não despertou as pessoas para o que há de essencial na vida, não freou o ritmo frenético e irrefletido com que tantos gastavam as próprias vidas? Quantos de nós não abrimos os olhos para a sede existencial que trazemos dentro no peito: a sede de uma água que só Deus nos pode conceder? Nada disso pode ser ignorado. 

No entanto, chegado o momento de retornar a nossas igrejas e retomar o culto público a Deus, algo precisa mudar no mais íntimo de nós. Para nossa reflexão pessoal, podem muito bem servir as seguintes palavras que a mística italiana Luisa Piccarreta atribui a Nosso Senhor, em revelação privada a ela, um século atrás:

Ah, minha filha! Quando permito que as igrejas fiquem desertas; os ministros, dispersos; e as Missas, reduzidas, significa que os sacrifícios se tornaram para mim ofensa; as orações, insultos; as adorações, irreverências; e as confissões, passatempos sem fruto. Assim, não encontrando mais a minha glória, mas ofensas, nem o bem deles, não me servindo mais, eu os retiro. Mas esse apartar os ministros do meu santuário significa, ainda, que as coisas chegaram ao fundo do poço e que a diversidade dos flagelos se multiplicará. Quanto é duro o homem, quanto é duro (Libro di Cielo, v. 12, 12 fev. 1918 [34])!

Ponhamos de lado, por um instante, nossa curiosidade com essa revelação e sua destinatária, e detenhamo-nos no conteúdo de sua mensagem. Não nos deveriam inquietar essas palavras? De fato, com que desprezo temos tratado os dons de Deus e com quais abusos temos celebrado os seus sacramentos?! Em quantos lugares as Missas se transformaram em verdadeiros festivais de sacrilégios que circundam o “sacrifício perfeito e santo” de Nosso Senhor? Sim, porque não basta que as Missas sejam rezadas validamente e Cristo seja oferecido no altar, se não procuramos conformar nossas vidas ao sacrifício que celebramos… Será que nos tornamos os homens externos do Antigo Testamento, os fariseus da época de Jesus, que honram a Deus só com os lábios, estando com o coração longe de sua santíssima vontade?

Por essas e muitas outras coisas, nossa principal preocupação nesses dias atípicos deve ser tornar-nos os católicos que até aqui nos recusamos a ser. Oxalá nosso “isolamento” do mundo, ao longo de todo esse ano, se converta, ao fim e ao cabo, num verdadeiro afastamento da mundanidade. Pois de nada nos terá adiantado isolar-nos fisicamente do mundo se continuarmos com o coração nele. De nada nos terá adiantado viver esses dias difíceis para combater um vírus, se não combatermos com muito mais força e cuidado o vírus da nossa inconformidade com a vontade de Deus. Pois o coronavírus tira a vida do corpo, mas o nosso pecado mata em nós a vida da graça.

Só trava essa batalha, porém, aquele que crê. A fé católica bem crida, a fé católica bem vivida, é a única vacina efetiva para o problema que temos enfrentado ao longo de todo esse ano. Ela é o antídoto do desespero, a injeção da esperança sobrenatural. 

Enquanto o mundo literalmente se esconde de medo da morte, os católicos cantam, desde a Páscoa: “Ó morte, onde está tua vitória?” (1Cor 15, 55). Enquanto o mundo, apavorado, foge do sofrimento, nossa fé nos ensina a abraçar com alegria seja qual for a cruz que nos advenha, pois os fios de nossa cabeça estão todos contados (cf. Lc 12, 7) e Deus vela por nós com afeto verdadeiramente paterno. Enquanto o mundo se pergunta aterrorizado que ano tem sido esse, os católicos sabem que o coronavírus é só o início das dores (cf. Mt 24, 8) e, ainda assim, são capazes de se alegrar, porque foi seu Senhor quem disse: “Quando começarem a acontecer essas coisas, reanimai-vos e levantai vossas cabeças, porque se aproxima a vossa libertação” (Lc 21, 28).

Humanamente falando, tudo parece estar indo por água abaixo. Por isso mesmo, é a hora da fé, da fé sobrenatural, hora de confiarmos nas promessas de Deus, e em nada mais. Eis a nossa resposta ao coronavírus, eis a nossa resposta à “coronafobia”.

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A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara
Santos & Mártires

A procissão eucarística de
Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

“Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra, e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos”: o momento de sua morte.

K. V. TurleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Logo após eclodir a Grande Guerra, Charles de Foucauld quis retornar do deserto do Saara para a França. Ele desejava unir-se ao exército francês como capelão militar. Entretanto, o bispo a que estava subordinado instruiu-o a permanecer em Tamanrasset, uma pequena vila na atual Argélia.

Foucauld obedeceu ao que mais tarde revelaria ser sua sentença de morte.

Em 1914, o império da França se estendeu a grandes partes do norte da África — e estava agora sob ataque. O Império Otomano, lutando ao lado da Prússia, exigiu a expulsão de todos os infiéis das terras do Islã e a restauração do califado. Algumas tribos do Saara responderam ao apelo para a jihad, encorajadas a fazê-lo por um ordem religiosa muçulmana conhecida como Senussi. Foucauld vivia longe de qualquer ajuda militar francesa, em um eremitério improvisado. Nas primeiras horas do dia 1.º de dezembro de 1916, uma gangue armada de fanáticos Senussi saiu à procura do eremita cristão.

Foucauld estava realmente muito longe de casa. Nascido em Estrasburgo, em 15 de setembro de 1858, numa rica família aristocrática francesa, teve uma infância infeliz. Aos 6 anos, tornou-se órfão. Posteriormente, na escola, aprendeu pouco. Entrementes, tornou-se agnóstico. Por fim, a família o alistou nas forças armadas, na esperança de disciplinar a rebeldia do jovem. A esperança, porém, mostrou-se inútil. As intermináveis horas de vida no quartel só pareciam piorar as coisas: sua atenção centrava-se agora exclusivamente no prazer. Para a família, ele estava se tornando a passos largos um constrangimento; para os militares, um risco.

Por fim, Foucauld foi despedido em desgraça do exército. Quando finalmente veio o chamado para seu regimento deixar a França e ir para a Argélia, ele insistiu em levar sua última amante. Mas havia um limite de tolerância para os militares franceses.

Lançado de volta à vida civil, ele surpreendentemente descobriu que os antigos prazeres agora o entediavam. E apesar de toda sua indiferença, a vergonha de ser expulso do exército queimava dentro dele. Logo se viu na Argélia, oferecendo-se como voluntário para uma perigosa missão como espião dos franceses. Trajado como um judeu norte-africano e desejoso de fazer as pazes com a família e o país, Foucauld aventurou-se em territórios então não mapeados do Marrocos, para fazer registros detalhados da terra e de seus povos.

Dois anos depois, em 1884, Foucauld voltou para a França como herói. Por fim, graças à publicação de um livro de memórias de suas aventuras, tornou-se celebridade em Paris, sendo homenageado por seus serviços ao país com uma medalha de ouro conferida pela Sociedade Geográfica de Paris. Mas ele também retornara da África estranhamente mudado. Os dias passados, vividos em uma cultura estranha, e as noites passadas sob a vastidão do céu do deserto haviam deixado nele sua marca. Ele vira os muçulmanos prostrados no chão, cinco vezes por dia, em oração, e, impressionado, se perguntou se sua religião era a verdadeira. Voltou para a França em busca de respostas.

Inicialmente, a inquietação interior parecia apenas aumentar. Ele estudou o Islã, mas decidiu que a verdade não estava lá. Andava pelas ruas de Paris pensando e meditando o tempo todo. No final de outubro de 1886, viu-se nas ruas outra vez quando, ao raiar do dia, avistou uma igreja aberta. Entrou e viu um confessionário com um padre dentro. Aproximou-se e perguntou se poderia falar com ele. Uma voz, tão firme como sábia, o contrariou e, em vez disso, ordenou-lhe que se ajoelhasse e confessasse. Ele se ajoelhou e confessou tudo. Naquela manhã, depois de ouvir a Missa e receber a Sagrada Comunhão, Foucauld renasceu.

Daquele dia em diante, havia para ele um único ideal, o qual queimaria tão ferozmente quanto seus desejos passados, mas agora este era o fogo do Amor divino. Nos magníficos céus noturnos do deserto e na devoção religiosa dos estrangeiros, Foucauld vislumbrou indícios de transcendência; agora, ele finalmente encontrara a própria Verdade na fé católica de seus ancestrais, de sua família, de seu país. Em mais de um sentido, ele havia voltado para casa.

Depois de passar um tempo num mosteiro cisterciense nos Alpes e noutro mosteiro na Síria, ainda inseguro de sua vocação, caminhou para a Terra Santa. Por fim, foi ao mosteiro das clarissas, em Jerusalém. Trabalhou como porteiro por um tempo, morando em um barraco encostado à parede do convento e fazendo trabalhos manuais, absorvido sempre em orações. Foi na Terra Santa que lhe foi revelada sua vocação. Ele percebeu que, a partir de então, deveria buscar a vida oculta de Nazaré com todas as suas muitas vicissitudes.

Ordenado em 1901, voltou para o norte da África, estabelecendo-se no sul da Argélia, eventualmente em Tamanrasset, para viver entre a tribo mais pobre da região: os tuaregues. Ele sonhava em começar uma comunidade religiosa baseada em seu ideal de busca pelo lugar mais baixo. No entanto, ninguém o entendeu nem houve quem quisesse juntar-se a ele. Até a morte, ele trabalharia pelas almas entre os tuaregues muçulmanos, mas nenhum deles se converteu à fé cristã.

Em seu pequeno oratório, a quilômetros de qualquer outro, Foucauld fazia longas vigílias diante do Santíssimo, rezando pela conversão das terras por onde havia viajado e pelos povos entre os quais agora vivia. Ele escreveu:

Sagrado Coração de Jesus, obrigado por este tabernáculo, o primeiro em terras dos tuaregues! Que este seja o primeiro de muitos e anuncie a salvação a muitas almas! Irradiai, deste tabernáculo, sobre todos que estão ao seu redor, pessoas que vos cercam, mas não vos conhecem.

Ele permanecia estático diante do Santíssimo Sacramento; sua inquietação foi acalmada por um fogo interior que continuou a arder tão intensamente como quando ele o sentiu a primeira vez, naquela manhã decisiva de outubro, no confessionário de uma igreja parisiense. Agora, no calor ardente do deserto, sua fé deveria aperfeiçoar-se ainda mais. Tendo procurado permanecer escondido e desconhecido, em Tamanrasset seu desejo foi atendido — por um tempo, ao menos. Aos olhos do mundo, ele agora não tinha importância.

Mas o olhar do mundo mudaria com a guerra, e olhos cheios de ódio caíram sobre o eremita. A partir de então, houve quem decretasse que tanto o homem quanto sua missão deveriam ser destruídos.

Na manhã de 1.º de dezembro de 1916, havia uma testemunha ocular entre cavaleiros distantes, que saíram do deserto e chegaram ao eremitério de Tamanrasset.

A mesma testemunha viu o sacerdote ser arrastado de seu refúgio, silencioso e sem resistência, com o que parecia ser uma profunda expressão de paz. Ele o viu ser forçado a ajoelhar-se, enquanto lhe ofereciam a chance de renunciar ao seu Salvador, isto é, de confessar a Shahada. O padre recusou-se a fazê-lo e, posteriormente, foi baleado na cabeça. Seu corpo, ainda ajoelhado e com as mãos amarradas nas costas, foi deixado na areia, enquanto seus assassinos saqueavam a casa e o oratório; depois, embriagaram-se com o vinho do altar. No dia seguinte, quando estes partiram, os tuaregues que viviam nas proximidades vieram enterrar o homem que passaram a considerar como amigo.

Três semanas depois, uma patrulha militar francesa passou por Tamanrasset. A população local mostrou ao comandante a cova improvisada. Os soldados ergueram solenemente uma cruz de madeira simples sobre o lugar.

O relatório militar subsequente afirmou o seguinte:

Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos. Morreu na primeira sexta-feira de dezembro, dia consagrado ao Sagrado Coração, e da maneira que desejou, pois sempre aspirou a ser tratado com ódio por ser cristão e sofrer uma morte violenta, aceita com amor pela salvação dos infiéis de sua terra de eleição, a África.

Antes de o exército partir naquele dia, o oficial fez uma inspeção final do que restava do eremitério. Deparou-se com uma custódia, jogada na areia pelos assassinos do padre. O que eles não entenderam, e o que este católico francês percebeu imediatamente, foi que ela ainda continha as espécies sagradas.

Quando a patrulha militar se reuniu para partir, o comandante avançou solenemente com a custódia envolvida respeitosamente em um pano de linho. Então, ao som de uma única batida de tambor, os soldados começaram a marchar de volta para as vastidões do deserto de onde tinham vindo. Mas desta vez, à frente deles, em sua sela, cavalgava o oficial, segurando a custódia com o Santíssimo Sacramento exposto.

À medida que esta singular procissão eucarística prosseguia sob o Sol escaldante e sobre as areias do deserto, sopradas pelos ventos quentes do Saara, começou-se lentamente a cobrir o túmulo de Charles de Foucauld. — “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer…” (Jo 12, 24).

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Aprendendo com a castidade de São José
Doutrina

Aprendendo com a
castidade de São José

Aprendendo com a castidade de São José

Nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Com São José, no entanto, podemos aprender o que ela realmente significa.

Pe. Roger J. LandryTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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São muitas as virtudes atribuídas pela piedade cristã a São José que, sobretudo durante este Ano Josefino, os católicos são chamados a meditar com mais profundidade e a imitar com mais atenção. José é justo, fiel, obediente, humilde, homem de oração, silencioso, caridoso, trabalhador, providente, protetor, corajoso, zeloso, prudente, paciente, leal e simples. 

No entanto, uma de suas virtudes mais importantes para estes nossos tempos é a castidade. A Igreja a apresenta na Ladainha dos “Benditos”, proclamada durante a adoração a Jesus no Santíssimo Sacramento, chamando a São José “castíssimo” — título dado somente a Ele e a Nossa Senhora. Trata-se de uma tradução do latim castissimus, superlativo que pode traduzir-se como “o mais”, “muito” ou “supremamente” casto. Contra qualquer tentação de minimizar essa virtude, São José nos inspira a ser castos ao máximo

Vivemos numa época em que, provavelmente, nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Muitos fora da Igreja, e alguns até mesmo dentro dela, veem este ensinamento como algo tão antiquado quanto a moda vitoriana; um caminho de repressão, e não de amor; um campo de treinamento para puritanos, e não para santos. 

Os revolucionários sexuais — que alardearam o direito ao sexo com quem, quando, onde e como quisermos (cultura que tem contribuído para a epidemia de famílias, casamentos e corações partidos, doenças sexualmente transmissíveis, crimes e abusos sexuais, tráfico humano, prostituição e pornografia, vícios sexuais, gravidez na adolescência e abortos…) — afirmam que a castidade é contra nossa biologia, porque acorrenta um desejo natural, e é contra nossa natureza racional, porque nos restringe a liberdade. Faz parte das “más notícias”, não das boas. 

Ao contrário do que muitos acreditam de maneira equivocada, a doutrina da Igreja sobre a castidade não “asfixia” a mais veemente das experiências humanas. Trata-se antes de uma sabedoria que procura controlar estas “chamas”, impedindo-as de destruir o amor verdadeiro (que é para onde Deus quer que seja dirigido nosso desejo sexual), de modo que possamos amar genuinamente os outros como Cristo nos amou. Longe de ser negativamente apudorada, a Igreja não poderia ter maior estima pelo amor humano e pela castidade que o possibilita.

Em meio a este mal-entendido generalizado e às zombarias que se fazem ao ensinamento católico sobre a sexualidade humana (para não falar da crescente miséria devida à sua rejeição), é ainda mais urgente que Igreja ajude católicos e não católicos a recuperar, valorizar e proteger a verdade e a beleza do amor humano casto. O Ano de São José é um momento especial para os fiéis aprenderem a viver melhor o chamado de Deus à castidade

A necessidade é premente. São Paulo, logo após dar aos cristãos em Tessalônica um resumo da vocação cristã — “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4, 3) —, diz-lhes, ato contínuo, esclarecendo este chamado, que se abstenham da porneia, termo grego referente a todo pecado sexual, geralmente traduzido como “impureza”. 

Visto que a santidade é o pleno florescimento do amor na pessoa humana, não se pode amar verdadeiramente a menos que se seja casto. A castidade é indispensável para nos tornarmos plenamente humanos, santos e eternamente felizes. O evangelho da castidade, portanto, é parte essencial da missão da Igreja para a santificação e a salvação do gênero humano. 

Para atender a esse chamado, é essencial saber o que é castidade. Mesmo entre clérigos, religiosos, consagrados e catequistas, a castidade costuma ser confundida com a continência (abstinência da atividade sexual) ou o celibato (renúncia voluntária ao uso da sexualidade). Quando o Catecismo enfatiza que “todos os fiéis de Cristo são chamados a levar uma vida casta, segundo o seu estado de vida particular” (§ 2348) e que “as pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal” (§ 2349), muitos casais ficam a coçar a cabeça, perguntando-se como podem ser “castos” e, ao mesmo tempo, constituir família. O motivo da confusão, provavelmente, decorre do fato de o termo “castidade” ser frequentemente utilizado no contexto da educação sexual de adolescentes (chamados à castidade na continência), ou na descrição das promessas ou votos feitos por padres e religiosos (chamados à castidade na continência celibatária).

A confusão aponta para a urgência e a importância de todos, na Igreja, compreenderem o que é a castidade e como todos os batizados (casais, solteiros, padres, consagrados, pessoas com atração pelo mesmo sexo e pelo sexo oposto) são chamados a ela.

O primeiro passo no ensino da Igreja sobre a castidade encontra-se no Catecismo, o qual descreve a castidade como vocação, dom de Deus e graça, mas, ao mesmo tempo, fala dela como “fruto do trabalho espiritual” (§ 2345) que inclui a “aprendizagem do domínio de si”, para que a pessoa domine suas paixões e encontre paz, em vez de deixar-se dominar por elas (§ 2339). Está fundamentalmente ligada à virtude da temperança, ou autocontrole. Esse autodomínio é uma “obra de grande fôlego” que, prossegue, “nunca poderá considerar-se total e definitivamente adquirida. Implica um esforço constantemente renovado, em todas as idades da vida” (§ 2342). Mas, ao final, é uma “integração conseguida da sexualidade na pessoa, e daí a unidade interior do homem no seu ser corporal e espiritual” (§ 2337). 

A castidade, portanto, é uma “escola de doação da pessoa” (§ 2346) que “conduz à comunhão espiritual” (§ 2347), fundada na castidade de Cristo, que está na base de toda amizade, para não falar de outras relações.

Mas esse olhar para a castidade como integração e harmonização do desejo sexual nunca pareceu adequado ao Papa São João Paulo II. O impulso sexual tem como objetivo, escreveu ele em vários ensaios pré-papais, levar-nos em êxtase para fora de nós mesmos, para a comunhão com os outros e com Deus, para reconhecer que não somos autossuficientes. 

Moderar o desejo sexual não é o ponto principal; precisamos orientá-lo da forma adequada, para que realmente estabeleça comunhão ao invés de destruí-la. A castidade não está ligada fundamentalmente à temperança, escreveu ele em sua obra de 1960, Amor e responsabilidade, mas sim ao amor. Em contraste com a luxúria, que “reduz” a outra pessoa aos valores do corpo ou às suas zonas erógenas e que “usa” os outros para a própria gratificação emocional ou física, a castidade é o hábito moral que eleva a atração e as interações com a outra pessoa para a sua dignidade total, em corpo e alma

Em suas catequeses papais sobre o amor humano no plano divino, popularmente chamadas Teologia do Corpo, São João Paulo II ensinou que a virtude da castidade está igualmente ligada às virtudes da pureza e da piedade. A pureza impacta nossa visão: “Bem-aventurados os puros de coração”, ensinou Jesus, “porque verão a Deus” (Mt 5, 8). 

A pureza nos permite ver Deus nos outros, reconhecer um reflexo da imagem de Deus. A piedade é o hábito que nos ajuda — uma vez que nos lembramos ou reconhecemos que nenhuma outra pessoa é um “mero mortal” — a tratá-la de acordo com a imagem de Deus que nela está inscrita. Ligada à piedade, a castidade nos ajuda a ver e a tratar o outro como sujeito sagrado, e não como objeto sexual.

A castidade, portanto, está conectada a todas essas quatro virtudes (autodomínio, amor, pureza e piedade). É o que nos ajuda a manter nosso amor romântico (eros) capaz do amor de amizade (philia) e do verdadeiro amor cristão auto-sacrificial (agape). Viver castamente não relega as pessoas a uma “vida sem amor”, mas torna possível o amor verdadeiro, por meio da integração coerente de eros com philia e agape

São José nos mostra este tipo de amor casto em grau máximo. Ao contrário de algumas artes cristãs que o retratam com a idade do bisavô de Maria, José era certamente jovem o suficiente para viajar pelo deserto duas vezes e ser um tekton (“construtor”, muito mais do que um carpinteiro), um dos trabalhos fisicamente mais exigentes das profissões antigas. No entanto, embora fosse jovem e viril e vivesse com a mulher mais atrativamente virtuosa de todos os tempos, ele manteve seu amor “castíssimo” por ela, vendo a Deus dentro dela durante a gravidez e, depois, reverenciando-a com amor puro

São José é modelo de cavalheiro cristão, que regula e canaliza seu amor à esposa de acordo com a vocação e o bem integral dela, e não com seus próprios desejos e necessidades. 

É por isso que os cristãos de todos os tempos o bendizem diante do Filho eucarístico de Deus, reconhecendo que a forma mais adequada de louvor é a imitação.

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Eles combateram o bom combate!
Santos & Mártires

Eles combateram o bom combate!

Eles combateram o bom combate!

O homem materialista de hoje não consegue vislumbrar uma “boa briga” que não seja por capital e latifúndio. Mas a história da Igreja e da cristandade mostra que o “bom combate” de verdade tem motivações muito mais nobres e elevadas...

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Em vários exemplos das Escrituras e também da vida dos santos, vemos homens de Deus travando uma batalha, muitas vezes terrível, contra homens perversos

Não à toa, o principal livro do Antigo Testamento, os Salmos, está cheio de invocações dos justos pedindo proteção a Deus contra seus perseguidores. A ideia de que militia est vita hominis super terram, ou seja, “é uma luta a vida do homem sobre a terra” ( 7, 1), perpassa toda a literatura judaica e cristã. 

Assim, para prestar culto ao único Deus verdadeiro, o povo de Israel precisou enfrentar com coragem a idolatria, as imoralidades e as práticas supersticiosas de seus vizinhos. Falhou inúmeras vezes, é verdade, chegando mesmo a se entregar aos erros que devera combater. Mas a todo momento o Autor Sagrado faz questão de reconduzir as mentes dos israelitas à vocação divina com que nasceram. Afinal, não foi para uma mera estabilidade mundana e prosperidade material que os filhos de Abraão se fixaram na Terra Prometida. Deus “deu-lhes as terras dos gentios, e desfrutaram o trabalho doutros povos, para que guardassem os seus mandamentos, e buscassem a sua lei” (Sl 104, 44s).

O capitão do exército do Senhor aparece a Josué perto de Jericó (cf. Js 5, 13-16). Obra de Ferdinand Bol.

Cenário semelhante, com desafios muito parecidos, se repete na história da Igreja ao longo dos séculos. Os reinos cristãos medievais da Europa nasceram ou com o batismo dos antigos governantes bárbaros — vide Clóvis, o primeiro rei da França —, ou com verdadeiras guerras de resistência aos inimigos da fé — vide a Batalha de Ourique, com Dom Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. A catolicidade de nossa nação mesma se deve ao trabalho incansável, contínuo e perseverante dos povos ibéricos cristãos, que muito antes de descobrirem estas terras tiveram de defender as suas dos hereges muçulmanos [1]. Tivessem os cruzados medievais cruzado os braços ante a ameaça islâmica, o Brasil talvez acabaria com uma estrela e a Lua crescente na bandeira — e jamais se chamaria “Terra de Santa Cruz”.

A natureza religiosa e transcendente desses embates antigos é muitas vezes ridicularizada nas aulas de História. O homem materialista dos tempos modernos não consegue vislumbrar uma “boa briga” que não tenha acontecido, no fim das contas, por capital e latifúndio. É a narrativa marxista dos acontecimentos, hegemônica em nossas faculdades e redações — visão tacanha de mundo, que explica o espírito “pacifista” de nossa época e a verdadeira “capitulação cultural” que padecemos. 

Muito antes de nos prostrarmos aos inimigos visíveis da civilização cristã, porém, nossa primeira rendição enquanto sociedade foi ao diabo. Eis a primeira grande tragédia que precisa ser deplorada.

Comece-se pela negação ou minimização das verdades de nossa fé. Hoje, muitas vezes dentro da própria Igreja, a existência dos demônios, por exemplo, é totalmente relativizada. (Isso lhes dá, convenhamos, muito mais liberdade para agir.) E se eles não passam de uma fantasia da cabeça de senhorinhas piedosas, não existe combate espiritual neste mundo. Aliás, a ideia mesma de “combate”, “batalha”, “guerra” é muito violenta e não caberia mais numa apresentação contemporânea da fé cristã. A oração a São Miguel Arcanjo, composta pelo Papa Leão XIII, estaria completamente ultrapassada.

Infelizmente, quiseram introduzir noções como essa na liturgia. 

A eliminação na Liturgia das Horas de versículos e capítulos inteiros dos Salmos ditos imprecatórios ilustra bem o problema. Na tradução brasileira dos livros litúrgicos, a transformação de “Deus dos exércitos” (Deus sabaoth) num vago “Deus do universo”, tanto no Sanctus da Missa quanto no hino litúrgico Te Deum, vai na mesma linha. Nosso Senhor fala no Evangelho que certa espécie de demônios “só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Mas, curiosamente, mesmo com a ideia de que o atual Lecionário contivesse a maior quantidade possível de perícopes evangélicas, essa passagem, presente também em Mc 9, 29, simplesmente não consta em lugar algum das leituras do Missal de Paulo VI — como tantas outras cujo conteúdo poderia desagradar aos homens de hoje. 

Como consequência não só do espírito por trás dessas omissões, mas também do lamentável relaxamento disciplinar da nossa época, o jejum e a oração praticamente desapareceram do discurso e da prática de muitos católicos. Antigamente, os católicos jejuavam rigorosamente em todos os dias da Quaresma. Na Idade Média, os exércitos de cavaleiros cristãos, antes de ir à guerra (para proteger sua pátria e religião), se reuniam nas igrejas, ouviam Missa e faziam vigílias e jejuns, cientes de que a vitória nos seus combates vinha de Deus, e não de forças humanas. 

Hoje, todavia, as pessoas se horrorizam quando descobrem que têm de se abster de carne um dia na semana. (E só o fazem quando deparam com algum dos poucos pregadores que tocam no assunto; do contrário, nada saberiam.) Do hábito da oração nem se fale… 

Sem isto e sem jejum, porém, estamos com o flanco aberto aos inimigos de nossa alma, dos quais o pior de todos não é nem mesmo o demônio, mas nossa própria carne. Como ensinava Santo Tomás de Aquino

Há que rezar com insistência, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126, 1); “Consciente de não poder possuir a sabedoria [continência], a não ser por dom de Deus” (Sb 8, 21); “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne.

Aqui descobrimos, então, o grande segredo dos mártires e dos heróis da fé de outros tempos. Como explicar que eles tenham sido capazes de resistir às mais cruéis torturas, às mais terríveis ameaças, senão pelo fato de que eles mesmos, em suas vidas, foram preparados espiritualmente para o combate a ser travado? O rei Davi começa assim o Salmo 142: Benedictus Dominus, Deus meus, qui docet manus meas ad proelium, et digitos meos ad bellum, “Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestrou minhas mãos para a luta, e os meus dedos treinou para a guerra” — palavras perfeitamente aplicáveis à multidão de santos e santas da Igreja.

Antes dos perseguidores, os primeiros algozes dos mártires e confessores eram os demônios e a sua própria carne. Antes de ser odiados pelo mundo, eles viveram uma batalha ferrenha para se manter na graça de Deus, macerando seus corpos com jejuns e sofrimentos, e lutando — às vezes até fisicamente, como demonstra a vida de um Santo Antão e de um Padre Pio — contra os próprios espíritos das trevas. Ora, quem era um Nero, um Henrique VIII ou um Stálin, em comparação com a maldade do diabo? 

Os santos e mártires da Igreja não eram, pois, homens e mulheres quaisquer. No escondimento de suas vidas, recolhidas e mortificadas, esses guerreiros foram realmente forjados por Deus, até se tornarem aquele “gigante exultante em seu caminho” de que fala a Sagrada Escritura (cf. Sl 18, 6). Muito mais que as personagens “heroicas” que vemos nos filmes — muito mais que um Rocky, um Rambo ou algum dos “Vingadores” —, é para esses heróis da fé e da caridade que devemos dirigir o olhar; é em suas biografias que devemos buscar inspiração para nossa existência.

Assim, lendo seus feitos e procurando imitar suas virtudes, quem sabe um dia não poderemos dizer com o Apóstolo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4, 7)? Nada pode haver mais glorioso que batalhar para cumprir, neste mundo, a vontade do Rei que não é deste mundo.

Notas

  1. Hillaire Belloc é um desses autores que coloca o islamismo no rol das heresias cristãs, ao invés do das simples religiões pagãs. Pois os muçulmanos crêem na virgindade de Maria, por exemplo, e reconhecem Jesus como um profeta, mas se recusam a abraçar a integridade do depósito da fé confiado à Santa Igreja.

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Santo André e São Silvestre: princípio e fim de uma “catedral”
LiturgiaSantos & Mártires

Santo André e São Silvestre:
princípio e fim de uma “catedral”

Santo André e São Silvestre: princípio e fim de uma “catedral”

Na bela catedral que é o calendário litúrgico católico, encontram-se São Silvestre Abade, num extremo, e Santo André Apóstolo, no outro. Como todas as obras de Deus têm um sentido, também este arranjo dos santos não é em vão...

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Como sabe qualquer pessoa que já tenha usado alguma vez um missal, seja o de altar seja o manual, o Missale Romanum tradicional [1] é dividido em diferentes seções: 

  • o “Próprio do Tempo” (ou ciclo temporal), começando com o 1.º Domingo do Advento e culminando com o Último Domingo depois de Pentecostes; 
  • o “Próprio dos Santos” (ou ciclo santoral), começando com a vigília de Santo André (para quem usa a edição anterior à reforma de 1955) ou a comemoração de São Saturnino seguida da festa de Santo André (quando se segue a edição de 1962) e terminando com o abade São Silvestre Gozzolini em 26 de novembro; 
  • os “Comuns”, começando com as vigílias dos Apóstolos (pré-1955) ou os Papas (pós-1955) e terminando com a Bem-aventurada Virgem Maria; 
  • as Missas votivas; 
  • e por último orações diversas, a Missa de Defuntos e Missas locais.

Ainda que os missais nem sempre tenham sido organizados desta forma [2], é óbvio que o ciclo temporal — tal como existe há bastante tempo — faz todo o sentido: dizemos que o ano litúrgico da Igreja começa com o tempo do Advento e termina com o último Domingo depois de Pentecostes. Mas, tomando S. André como o início oficial do ciclo santoral [3] e S. Silvestre Abade como seu fechamento oficial, podemos perceber uma conveniência similar na forma como esse ciclo é disposto no Missale Romanum?

Antes de proceder, duas observações. Primeiro, o abade São Silvestre Gozzolini, OSB (1177–1267), fundador dos “silvestrinos”, é um acréscimo relativamente recente no calendário geral, tendo sido introduzido pelo Papa Leão XIII em 1890. Como consequência, ele não é encontrado nos calendários de algumas dioceses e de várias Ordens religiosas [4]. Entretanto, para a vasta maioria dos católicos que rezam segundo o usus antiquior, o último santo no ciclo santoral é, de fato, S. Silvestre Abade.

Segundo, ainda que os comentadores medievais da Escritura (como Guilherme Durando) digam muito pouco sobre a relação entre os ciclos temporal e santoral, e muitos detalhes sejam inicialmente obra do acaso ou da praticidade, sabemos que a liturgia, da forma orgânica como se desenvolve sob o cuidado da divina Providência, muitas vezes deixa entrever uma impressionante conveniência no arranjo ou disposição de suas partes, a qual vai muito além do escopo limitado das intenções humanas [5]. É por isso que em qualquer aspecto da liturgia podemos abordar a questão da conveniência e esperar encontrar respostas plausíveis, assim como os alegoristas medievais podiam olhar para os atos cerimoniais [da Missa] — o ósculo sobre o altar, o ato do sacerdote de se voltar para a assembleia, os sinais da cruz feitos por ele — e ver neles representações das fases da vida de Cristo, ou de sua dolorosa Paixão [6]. É razoável, pois, explicar simbolicamente o porquê de o ciclo tradicional dos santos começar ou terminar deste e daquele modo. 

Comecemos pelo fim. Como explica o St. Andrew’s Daily Missal, S. Silvestre “deveu sua vocação religiosa à vista do cadáver de um parente. Primeiro ele viveu uma vida solitária, mas depois fundou um mosteiro sob a Regra de S. Bento”. A história levemente macabra de sua conversão é tematizada na Coleta de sua festa: 

Clementíssime Deus, qui sanctum Silvéstrum Abbátem, saéculi huius vanitátem in apérto túmulo pie meditántem, ad erémum vocáre et praecláris vitae méritis decoráre dignátus es: te súpplices exorámus; ut, eius exémplo terréna despiciéntes, tui consórtio perfruámur aetérno. Per Dóminum nostrum. — Ó Deus clementíssimo, que vos dignastes chamar à solidão o bem-aventurado abade Silvestre pela meditação piedosa das vaidades do mundo em presença de um túmulo aberto, e o adornastes de notáveis merecimentos de vida, fazei que, desprezando como ele as coisas do mundo, gozemos da vossa eterna companhia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não nos surpreende encontrar o tema do “desprezo pelas coisas do mundo” em nossa busca pelo unum necessarium; trata-se de uma marca característica da espiritualidade litúrgica tradicional. Nós o encontramos presente, por exemplo, na poderosa Secreta do Último Domingo depois de Pentecostes, que diz, em parte: ómnium nostrum ad te corda convérte, ut a terrénis cupiditátibus liberáti, ad coeléstia desidéria transeámus, “convertei para vós o nosso coração, para que, libertos da cupidez terrena, cresçamos nos desejos do céu”. 

A Coleta de S. Silvestre assume, porém, uma conveniência peculiar, por cair na estação do outono. Ao menos nos climas do hemisfério norte, o fim do ano litúrgico coincide com o período em que o mundo natural escurece e dorme. A vegetação perde muito de sua verdejância, como se a cor verde do tempo de Pentecostes fosse desaparecendo devido à distância que tomou de sua origem (“Quando o Filho do Homem voltar, ainda encontrará fé sobre a terra?”); as folhas mudam de cor e caem no chão, como tantos corpos de seres mortais prestes a se decompor em seus túmulos. Notável por suas associações melancólicas, o outono é a estação em que a natureza se transforma a fim de preparar-se para o longo inverno — o qual precede, por sua vez, o tempo pascal da primavera e sua analogia sobrenatural com a Ressurreição. De fato, o mês de novembro é vivido como o mês dos mortos, e devemos ver nisso uma associação não meramente acidental com a festa de Todos os Santos [7]. 

O Próprio dos Santos no Missal tradicional, de fato, parece concentrar nossa atenção no que podemos chamar de “escatologia pessoal”: cada um de nós deve vigiar, com sobriedade, em preparação para a vinda de Cristo, nosso Juiz. A nota escatológica do final do ano é acentuada pelos Evangelhos das festas de S. Cecília, em 22 de novembro (a parábola das dez virgens, de Mt 25,1-13), e do Papa S. Clemente em 23 de novembro (Mt 24,42-47: “Vigiai, pois não sabeis a hora...”). A perícope das virgens é repetida, então, em 25 de novembro, com a festa de S. Catarina de Alexandria. Acrescente-se a isso a intensidade das orações escolhidas para São João da Cruz, em 24 de novembro (ao invés do dia 14 de dezembro, como é no Missal de Paulo VI), e é possível vislumbrar um tema crescente de mortificação, com um olhar sobre nossa mortalidade pecaminosa e a imortalidade por que ansiamos.

“Vanitas”, por Domenico Fetti.

Ao invés de envolver o fim do ano litúrgico com o triunfalismo transcendental e teilhardiano de “Cristo, Rei do Universo”, a festa de S. Silvestre em 26 de novembro empresta a essa conjuntura uma nota mais sóbria, introspectiva e retrospectiva, como a de um memento mori: Vê o cadáver no caixão aberto e contempla teu próprio fim; medita sobre isto como preparação para o início do Advento, quando celebramos a vinda daquele que salva o homem do pecado e da morte; olha para além das pompas e vaidades do que o mundo considera valioso, e fixa teus olhares na santidade, na imitação dos muitos santos que, começando com o precursor São João Batista, procuraram o deserto, ou melhor, procuraram Deus, que os chamou e enobreceu. 

Há algo de irônico ou paradoxal na forma como a liturgia tradicional põe termo ao ano e o começa de novo — como que ilustrando estas linhas de T. S. Eliot: “É assim que acaba o mundo / Com um gemido e não com um estrondo” (This is the way the world ends / Not with a bang but a whimper, in: The Hollow Men). Ao menos é assim que o mundo termina na morte de cada um de nós, no momento em que expiramos pela última vez. A quietude do túmulo conduz à quietude de uma estação fria, que traz aos nossos olhos uma família pobre, um estábulo, uma manjedoura, uma criança envolta em panos e nenhum prospecto de vitória divina — a não ser pela quase que imperceptivelmente crescente luz do dia.

Voltando-nos para o início do ciclo santoral, encontramos tradicionalmente a festa de Santo André Apóstolo em 30 de novembro. Como o Próprio dos Santos cuida de recordar, venerar e invocar os discípulos do Senhor, é sumamente apropriado que o primeiro dos santos seja André, o primeiro dos discípulos do Senhor em seu ministério público. A Igreja bizantina dá a ele o epíteto litúrgico oficial de Πρωτόκλητος (“Protocletos”), isto é, “o primeiro a ser chamado”, e nós vemos na disposição do calendário romano uma prioridade e proeminência análogas.

Santo André, retratado por Pompeo Batoni.

Desta forma, o ciclo dos santos, tal como impresso no missais, reflete a prioridade da vocação do discípulo de Cristo — “Vem e segue-me” — e a autorrenúncia e via crucis que ela necessariamente exige, enquanto seguimos Jesus rumo à eterna glória. Devemos seguir a Ele, “em quem habita toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9), e não ao vazio das coisas deste mundo. A vida cristã como um todo não é senão uma passagem através do deserto para alcançar a fraternidade da terra prometida — e desta passagem o ciclo santoral, tanto no geral quanto em seus detalhes, é uma representação vívida. 

A festa do Apóstolo André tem sido celebrada por mais de um milênio; a do Abade S. Silvestre, por apenas um século e um quarto. Mas se olhamos para o calendário litúrgico como sendo a construção de uma grande catedral — como a de Milão, por exemplo, que começou em 1386 e foi oficialmente terminada em 1965, levando quase 600 anos para ser completada —, vemos como seu desenvolvimento adiciona pedra depois de pedra, escultura depois de escultura, até que toda a estrutura seja finalizada. Ao adicionar S. Silvestre Gozzolini ao ciclo santoral, o Papa Leão XIII adicionou uma pedra final apropriada à sua estrutura, tornando-o ainda mais frutuoso espiritualmente para todos que se beneficiam do usus antiquior.

Como um post-scriptum, pode-se apontar com tristeza que a forma como o novo Missal Romano arranja o ciclo santoral se afasta do padrão, estável por mais de 500 anos, a começar pela cúspide de dezembro e terminar na última semana de novembro. Em uma jogada ilustrativa da fusão entre aggiornamento e secularização, o novo ciclo santoral se conforma ao calendário secular hegemônico, começando no dia 1.º de janeiro (com o dia 2, na verdade) e encerrando-se com o dia 31 de dezembro, ainda que estas datas não tenham nenhum significado especial no ano litúrgico, que se desdobra do Advento até o tempo depois de Pentecostes. O usus antiquior, tanto em seu ciclo temporal quanto santoral, dá testemunho consistente de uma estrutura do tempo mais antiga e com mais autoridade.

Notas

  1. Como fica evidente com a leitura do texto, o autor está falando do Missale Romanum até a reforma litúrgica realizada depois do Concílio Vaticano II. Daí a menção ao tempo “depois de Pentecostes” (equivalente ao nosso “Tempo Comum”; per annum, em latim), às “vigílias” litúrgicas (a maior parte das quais foi desaparecendo ao longo do século XX) e a santos não mais presentes no calendário litúrgico atual (N.T.).
  2. Na Idade Média, não havia uniformidade na disposição dos missais. Os mais antigos dos livros litúrgicos começavam o ciclo temporal com a vigília de Natal e terminavam com o Advento (se o tivessem; alguns não o tinham), e as festas dos santos se inseriam entre as Missas do Próprio do Tempo. Obviamente, não se tratava de um arranjo satisfatório, já que as coisas mudam de acordo com o ciclo temporal todos os anos. Mais tarde, quando se separaram as Missas temporais e dos santos, era possível encontrar livros onde S. André era o primeiro santo e outros em que era S. Hilário, em 14 de janeiro — já que todos os santos de 26 de dezembro a 13 de janeiro se encontravam dentro do ciclo temporal (N.A.).
  3. Falo primeiro de André porque a vigília dessa festa, que era observada até as drásticas mudanças do Papa Pio XII em 1954, vinha em primeiro lugar e obviamente tinha precedência sobre a comemoração de S. Saturnino. Portanto, o mais correto é dizer que o Santoral Romano começa com S. André. O dano colateral da remoção dessa vigília inclui a perda do evangelho que lhe era exclusivo: Jo 1,35-51. Como que para fazer uma reparação por isso, o Missale Romanum de 1962 incluiu uma nova Missa votiva pelas vocações prevendo este Evangelho (N.A.).
  4. Os franciscanos, por exemplo, juntamente com um grande número de dioceses italianas, observam neste dia S. Leonardo de Porto-Maurício; os dominicanos nunca receberam essa festa, mas têm um de seus beatos neste dia e, antes de 1911, vigorava a oitava de S. Catarina de Alexandria; os carmelitas tinham as oitavas da Apresentação da Bem-aventurada Virgem Maria e de S. João da Cruz; os cistercienses também nunca receberam essa festa etc. Ela acabou removida sem escrúpulos pelo Consilium [ad exsequanda Constitutione de Sacra Liturgia], em sua revisão do calendário geral no final da década de 1960 (N.A.).
  5. Se aqueles que dispuseram as partes tinham em mente uma intenção determinada não faz diferença, pois eles estão trabalhando com peças que, no fim das contas, é Deus quem lhes proporciona, e estas são orquestradas por Ele dentro de um todo maior não só do que as suas partes, mas até mesmo do que a soma total de suas partes (N.A.).
  6. É indefinido, ademais, o número de tais interpretações, pela mesma razão que a Escritura pode legitimamente ser interpretada de várias formas diferentes (até infinitas, pode-se dizer), como S. Agostinho explica em De doctrina christiana (N.A.).
  7. No mesmo sentido é necessário, por razões simbólicas, que Cristo Rei aconteça no final de outubro, antes desta estação de declínio (N.A.).
  8. Cf., a esse respeito: P. Kwasniewski, “Between Christ the King and ‘We Have No King But Caesar’”, in: OnePeterFive.com, 25 out. 2020; “Não temos outro rei senão... Cristo!”, em nosso Blog (16 nov. 2020).

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