Ó Maria, minha Mãe, ensinai-me a viver convosco escondido à sombra de Deus. 

1. — A liturgia celebra com entusiasmo o nascimento de Maria e faz dele uma das festas mais populares da devoção mariana. “A vossa natividade, ó Virgem Mãe de Deus — canta o Ofício — encheu de alegria o mundo inteiro porque de vós saiu o Sol da justiça, Cristo nosso Deus”. O nascimento de Maria é o prelúdio do nascimento de Jesus, porque com ele inicia-se a realização do grande mistério do Filho de Deus feito homem para salvação da humanidade. 

Como poderia passar despercebido ao coração dos remidos o dia natalício da Mãe do Redentor? A Mãe prenuncia o Filho, diz que o Filho está prestes a vir, que as promessas divinas, preconizadas há séculos, estão para se cumprir. O nascimento de Maria é a aurora da nossa redenção; a sua aparição projeta uma luz nova sobre toda a humanidade: luz de inocência, de pureza, de graça, antecipação esplendorosa da grande luz que inundará a terra quando aparecer Cristo, Lux mundi (“Luz do mundo”). 

Maria, preservada do pecado em previsão dos méritos de Cristo, não só anuncia que a Redenção está próxima, mas traz consigo as suas primícias, pois é a primeira pessoa remida pelo seu divino Filho. E por ela, toda pura e toda cheia de graça, a Santíssima Trindade lança finalmente um olhar de complacência sobre a terra, porque aí encontra finalmente uma criatura em quem pode refletir a sua beleza infinita

“A Educação da Virgem”, por Alonso Cano.

Depois do nascimento de Jesus, nenhum nascimento foi tão importante aos olhos de Deus, nem tão importante para o bem da humanidade, como o de Maria. No entanto este nascimento permanece completamente na obscuridade: nada nos dizem dele as Sagradas Escrituras, e quando procuramos no Evangelho a genealogia de Jesus, encontramos apenas a que se refere a José, ao passo que, se excetuarmos a alusão à sua descendência de Davi, nada de explícito se diz acerca da genealogia de Maria. As origens da Senhora ocultam-se no silêncio, como se ocultou no silêncio toda a sua vida. A Natividade de Maria fala-nos de humildade: quanto mais quisermos crescer aos olhos de Deus, mais nos devemos esconder aos olhos das criaturas; quanto maiores coisas quisermos fazer por Deus, mais devemos trabalhar no silêncio e no escondimento.

2. — No Evangelho, a figura de Maria está quase completamente encoberta pela do seu divino Filho. Os evangelistas dizem-nos dela só o necessário para apresentar a Mãe do Redentor e, com efeito, ela só entra em cena quando se inicia a narração da Encarnação do Verbo. A vida de Maria confunde-se, perde-se na de Jesus: Maria viveu verdadeiramente escondida com Cristo em Deus. E notemos que viveu na sombra não só nos anos da sua infância, mas também nos dias da sua maternidade divina, nos momentos de triunfo do seu Filho e também quando uma mulher, entusiasmada pelas maravilhas que Jesus realizava, levantou a voz no meio da turba, gritando: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram” (Lc 11, 27). 

Que a festividade mariana que hoje celebramos seja pois para nós um convite à vida escondida, a escondermo-nos com Maria em Cristo e com Cristo em Deus. Muitas vezes o próprio Deus, através das circunstâncias ou das disposições dos superiores, encarrega-se de nos fazer viver na sombra; devemos então mostrar-nos muito gratos e valermo-nos destas ocasiões para progredirmos cada vez mais na prática da humildade e do escondimento. Outras vezes, porém, o Senhor pode confiar-nos cargos, ofícios, obras de apostolado que nos ponham em evidência; pois bem, nessas circunstâncias devemos procurar desaparecer o mais possível. Não nos devemos, é certo, recusar a agir, mas devemos proceder de modo a sabermos eclipsar-nos logo que a nossa atividade deixe de ser estritamente necessária para o bom êxito das obras que nos foram confiadas. Tudo o resto: os louvores, os aplausos, o relato dos sucessos ou a desculpa dos fracassos, não nos deve interessar; perante tudo isto, a nossa tática deve ser a de nos retirarmos com santa naturalidade. Uma alma de vida interior deve ter a ânsia de se esconder quanto puder à sombra de Deus porque, se algo de bom pôde fazer, está convencida de que tudo foi obra de Deus, e por isso procura, com zelo delicado, que tudo redunde unicamente para glória sua.

“O Nascimento da Virgem”, por Carlo Maratta.

A vida oculta e humilde de Maria deve ser o modelo da nossa e se, para a imitar, tivermos de lutar contra a tendência sempre renascente do orgulho, recorramos confiadamente à sua ajuda maternal e Maria nos fará triunfar de toda a vanglória. 

Colóquio. — “Quando no mar deste mundo me sinto baloiçar entre procelas e tempestades, fixo os olhos em vós, ó Maria, fulgente estrela, para não ser submergido pelas ondas.

Quando se levantam os ventos das tentações, ou embato nos escolhos das tribulações, levanto o olhar para vós e chamo por vós, ó Maria. Quando a cólera, a avareza ou as seduções da carne sacodem a frágil barquinha da minha alma, olho sempre para vós, ó Maria. E se, perturbado pela enormidade das culpas, confundido pela fealdade da minha consciência, aterrado pela severidade do juízo, me sentisse arrastado para a voragem da tristeza, para o abismo do desespero, ainda levantaria os olhos para vós, invocando-vos sempre, ó Maria! 

Nos perigos, nas angústias, nas perplexidades, pensarei sempre em vós, ó Maria, invocar-vos-ei sempre. Não vos aparteis, ó Virgem, da minha boca, não vos aparteis do meu coração; e, para obter o apoio das vossas súplicas, fazei que eu nunca perca de vista os exemplos da vossa vida. Seguindo-vos, ó Maria, não me desvio, pensando em vós não erro, se vós me sustentais não me canso, se me sois propícia chegarei ao termo” (São Bernardo).

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de “Intimidade Divina: Meditações sobre a Vida Interior para Todos os Dias do Ano”, 2.ª ed., Porto: Edições Carmelitanas, 1967, pp. 1471–1474.