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Homilia Dominical

O amor que Deus pede de nós

Se devemos amar a Deus com todo o nosso ser, como nos diz o Evangelho deste domingo, de que forma podemos fazer isso na prática? Essa exigência não está acima de nossa capacidade? É o que Padre Paulo explica na homilia deste domingo.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 22, 34-40)

Naquele tempo, os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Jesus respondeu: “‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.

Neste 30º Domingo do Tempo Comum, a Igreja proclama o Evangelho de São Mateus, capítulo 22, versículos de 34 a 40 , em que Nosso Senhor, interrogado por um fariseu acerca do maior Mandamento da Lei, responde: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”. Em seguida, acrescenta um segundo Mandamento, semelhante ao primeiro: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Embora saibamos que o cristianismo é a religião do amor e já tenhamos ouvido essas palavras inúmeras vezes, encontramos grande dificuldade em colocá-las em prática. Afinal, a exigência de amar a Deus com todo o nosso ser pode parecer um fardo maior que nossas forças. Logo, para compreendermos esse Mandamento, precisamos reconhecer que o amor cristão não começa em nós, mas no próprio Deus.

Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, define a caridade como uma amizade entre Deus e o homem. Essa definição é fundamental, pois toda amizade pressupõe reciprocidade: não podemos dizer que somos amigos de alguém se o amamos, mas não somos amados de volta. O mesmo acontece em nossa relação com Deus. Como nos recorda a Primeira Carta de São João, Deus nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 19), e nossa caridade consiste em corresponder a esse amor, cuja maior manifestação encontra-se no sacrifício de Cristo na Cruz: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Diante de tamanha demonstração de amor, a primeira resposta que deve brotar de nosso coração é a gratidão. Contudo, embora Deus nos tenha amado infinitamente, nossa capacidade de corresponder a esse amor é limitada. Como, então, cumprir o Mandamento de amá-lo de todo o coração? O primeiro passo consiste em possuir uma fé firme e profunda no amor com que fomos amados. Sem essa certeza, continuaremos enxergando esse Mandamento como uma exigência terrível, como se precisássemos encontrar em nós mesmos as forças necessárias para amar a Deus.

O segundo passo consiste em combater a idolatria. No livro do Êxodo, capítulo 20, o primeiro Mandamento do Decálogo aparece formulado por meio desta proibição: “Não terás outros deuses”. É por isso que o Catecismo da Igreja Católica, ao apresentar o primeiro Mandamento da Lei de Deus, ensina: “Amar a Deus sobre todas as coisas”. Esse é o mínimo que devemos oferecer ao Senhor: não colocar nenhuma criatura em seu lugar. Quando atribuímos às coisas criadas uma importância que pertence somente a Deus, caímos na idolatria. Por isso, a vida cristã exige um combate constante contra os falsos deuses que construímos para nós mesmos, a fim de que Deus ocupe verdadeiramente o primeiro lugar em nosso coração.

Entretanto, esses são apenas os primeiros passos, pois a caridade exige crescimento contínuo. Enquanto vivermos neste mundo, sempre poderemos amar a Deus com maior intensidade. A plenitude do Mandamento somente será alcançada no Céu; aqui na terra, porém, devemos buscar incessantemente essa perfeição.

Nesse caminho, uma de nossas maiores inimigas é a tibieza, isto é, a mornidão espiritual de quem possui um amor fraco, remisso e desprovido de fervor. Muitas pessoas passam anos praticamente no mesmo estado espiritual e, embora não cometam pecados mortais, também não se tornam mais santas, porque permanecem acomodadas numa caridade medíocre, sem realizar atos fervorosos de amor.

Se queremos compreender essa necessidade de crescimento, devemos recordar a diferença entre as virtudes humanas e as teologais. Nas virtudes humanas, a perfeição encontra-se no justo equilíbrio. A fortaleza, por exemplo, situa-se entre a covardia e a temeridade: quem possui coragem de menos é covarde; quem se arrisca excessivamente torna-se temerário. Com as virtudes teologais — fé, esperança e caridade —, entretanto, acontece algo diferente. Não existe uma medida máxima de fé, esperança ou amor que devamos evitar ultrapassar. Pelo contrário, precisamos crer cada vez mais profundamente em Deus, crescer na esperança e progredir na caridade, pois podemos amá-lo cada vez mais, sem jamais incorrer em excesso. Por isso, precisamos tomar a firme resolução de abandonar a tibieza e de manifestar nossa caridade em atitudes concretas, realizadas com devoção e fervor. Existem, sobretudo, três formas pelas quais podemos crescer no amor a Deus.

A primeira consiste em pedir perdão ao Senhor pelos nossos pecados. Para o pecador, uma das primeiras manifestações de amor é reconhecer as próprias faltas e arrepender-se sinceramente delas — não apenas dos pecados graves e das faltas ainda não perdoadas, mas também dos veniais e daqueles que já receberam o perdão divino. Muitas pessoas imaginam que só podem pedir perdão por um pecado enquanto ele ainda não foi confessado. No entanto, mesmo depois de recebermos a absolvição sacramental, podemos recordar nossas faltas durante a oração, refazer nosso exame de consciência e renovar o arrependimento pelos nossos pecados do passado.

Isso não significa alimentar um complexo de culpa ou cultivar uma atitude doentia diante do pecado. Pelo contrário, quando realizado por amor, esse exercício torna-se fonte de verdadeira saúde espiritual, pois quem ama deseja pedir perdão pelas ofensas cometidas contra a pessoa amada. Assim, ao recordarmos nossas faltas, contemplamos a grandeza da misericórdia divina, e o arrependimento transforma-se gradualmente em gratidão, à medida que reconhecemos o quanto fomos amados e perdoados por Deus. 

A segunda forma concreta de crescer no amor a Deus consiste em conformar nossa vontade à vontade divina. Isso começa pela observância dos Mandamentos, mas não se limita ao cumprimento daquilo que Ele expressamente nos ordenou. Precisamos também aprender a reconhecer, acolher e adorar sua vontade nos acontecimentos de nossa vida, agradecendo por tudo aquilo que Ele nos concedeu ou permitiu: pelas graças recebidas, pelas aprovações e conquistas, pela família que nos foi dada, por nossa vocação, por nossas características físicas e até mesmo pelas doenças e dificuldades.

Diante dos sofrimentos e das provações mais amargas, somos chamados a inclinar humildemente a cabeça e dizer: “Eu adoro a vossa divina vontade, mesmo naquilo que eu não compreendo”. Trata-se de um verdadeiro ato de submissão amorosa, pelo qual o homem, tantas vezes endurecido em sua própria vontade, reconhece a soberania de Deus e acolhe seus desígnios, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

A terceira forma de crescer na caridade consiste em desejar o aumento da glória de Deus na terra, trabalhando pela conversão de nossos irmãos. Todo verdadeiro discípulo é missionário, pois aquele que encontrou o amor divino não pode permanecer indiferente à salvação dos outros. Ao nos dedicarmos a essa missão, crescemos em nossa condição de discípulos, oferecendo ao Senhor, como expressão de nosso amor, as almas que procuramos conduzir à sua amizade. São preciosos presentes destinados a alegrar o seu Coração.

Compreendendo essas três formas de crescermos no amor a Deus, voltemos nossa atenção ao segundo Mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Nosso Senhor afirma que ele é semelhante ao primeiro porque o homem é semelhante a Deus e, por essa razão, deve ser amado em Deus e por causa de Deus. O amor fraterno constitui, portanto, um sinal evidente da sinceridade de nossa caridade. Como nos recorda São João, quem diz que ama a Deus, a quem não vê, mas não ama o irmão, a quem vê, é mentiroso (cf. 1 Jo 4, 20).

Todavia, é necessário distinguir a verdadeira caridade da mera filantropia vaidosa. Podemos realizar boas obras e demonstrar preocupação com os outros movidos, no fundo, apenas pelo desejo de satisfazer nossa própria vaidade. Nesse caso, embora nossas ações pareçam generosas, não constituem a verdadeira caridade cristã, pois esta tem Deus como sua razão fundamental.

Por isso, devemos aprender a aproximar-nos de nossos irmãos como nos aproximaríamos do Santíssimo Sacramento, reconhecendo neles uma ocasião concreta de servir e amar a Deus. Quando encontramos um irmão necessitado, somos chamados a lavar nele as chagas de Cristo, oferecendo-lhe um amor sincero, fervoroso e desinteressado. Dessa maneira, o amor ao próximo torna-se uma oportunidade de crescer na amizade com Nosso Senhor.

Todas essas atitudes nos recordam que a vida espiritual exige crescimento. Assim como o organismo humano deve desenvolver-se até alcançar sua maturidade, também nossa alma precisa progredir na santidade. Contudo, existem pessoas que, embora convertidas há muitos anos, permanecem espiritualmente estagnadas, como se sofressem de uma espécie de “nanismo espiritual”.

Essa estagnação nasce frequentemente da tibieza de quem acredita já fazer o suficiente, contentando-se com o cumprimento de obrigações mínimas, como se a vida espiritual pudesse ser reduzida a uma espécie de salário mínimo oferecido a Deus. O Mandamento do amor, porém, não estabelece um limite depois do qual possamos descansar satisfeitos: enquanto estivermos nesta terra, devemos crescer continuamente na caridade.

Portanto, renovemos nossa fé no amor infinito com que Deus nos amou e correspondamos a Ele com gratidão, destruindo os ídolos que ainda ocupam nosso coração e abandonando a tibieza. Que esse amor se manifeste concretamente no arrependimento de nossos pecados, na conformidade com a vontade divina, no zelo pela conversão das almas e no exercício de uma caridade sincera para com o próximo. Assim, crescendo de graça em graça e de amor em amor, caminharemos para a perfeição da caridade, até alcançarmos um dia, no Céu, a estatura de Cristo.

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