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Homilia Dominical

Três passos para se configurar à vontade de Deus

Para nos configurar à vontade de Deus e produzir frutos de amor, precisamos dar três passos bem concretos: obedecer aos Mandamentos, cumprir os deveres do nosso estado de vida e submeter-nos à vontade manifesta de Deus nas adversidades cotidianas.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 21, 33-43)

Naquele tempo, Jesus disse aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo: “Escutai esta outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas, e construiu uma torre de guarda. Depois, arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro. Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos. Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram. O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número do que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma. Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho, pensando: ‘Ao meu filho eles vão respeitar’. Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!’ Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram. Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?” Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo”. Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?’ Por isso, eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”.

Neste 27º Domingo do Tempo Comum, a Igreja proclama o Evangelho de São Mateus, capítulo 21, versículos de 33 a 43, em que Jesus conta a parábola dos vinhateiros assassinos e explica como funciona a vinha de Deus.

Para compreender esses ensinamentos, é necessário recordar que, no Antigo Testamento, essa vinha era o povo de Israel. Na primeira leitura deste domingo, o profeta Isaías mostra que o Senhor cuidou de sua vinha e esperou dela frutos saborosos; no entanto, ela produziu uvas selvagens. Eis a grande decepção d’Aquele que preparou o seu povo e esperava dele bons frutos.

Jesus retoma essa mesma imagem no Evangelho, mas acrescenta um elemento importante: o povo de Deus havia sido confiado a pastores, isto é, aos líderes de Israel. Ele, então, dirige-se especialmente aos sacerdotes e aos anciãos do povo, representados pelos vinhateiros encarregados de cuidar da vinha, para indicar que o problema não estava apenas nos frutos ruins que ela produzia, mas também naqueles que, tendo recebido a missão de cultivá-la, acabaram prejudicando-a.

Na parábola, esses vinhateiros chegam ao extremo de matar o filho do dono da vinha, numa clara alusão ao próprio Cristo e àquilo que estava prestes a acontecer: Jesus seria morto na Cruz, entregue aos romanos precisamente pelos sumos sacerdotes e chefes do povo.

Mas como aplicar essa realidade à Igreja de nossos dias? Antes, vamos recordar que ela é a continuidade desse povo, dessa vinha de Deus. No capítulo 15 do Evangelho de São João, o próprio Jesus declara: “Eu sou a videira, e vós, os ramos” (Jo 15, 5). Dessa forma, a vinha iniciada no Antigo Testamento alcança uma realidade nova e extraordinária: Deus se fez homem para que, enxertados em Cristo e unidos a Ele, pudéssemos produzir os frutos de amor que o Pai espera de nós.

Ao contemplarmos os dois mil anos de história da Igreja, encontramos a dolorosa realidade descrita por Isaías: cristãos que, chamados a produzir frutos maduros e saborosos, produziram uvas azedas e selvagens. Encontramos igualmente pastores — padres e bispos — que deveriam conduzir o povo à santidade e ajudá-lo a oferecer a Deus os frutos esperados, mas que se comportaram como os maus vinhateiros do Evangelho. 

Entretanto, na história da Igreja, encontramos também os frutos maduros e saborosos da santidade, manifestados na vida daqueles que verdadeiramente amaram a Deus. E é justamente esse o fruto que Cristo espera de sua vinha: o amor. Para produzi-lo, porém, precisamos entender o que verdadeiramente significa amar.

Costumamos dizer que amar é querer o bem do outro, e isso é verdade; contudo, o amor não se limita à benevolência. Amar implica desejar a união com aquele que se ama. Por esse motivo, Jesus nos apresenta a imagem da videira e dos ramos: como o ramo só pode produzir frutos permanecendo unido à videira, nós só podemos produzir os frutos do amor se permanecermos unidos a Cristo.

Mas como realizar concretamente essa união? Depois de falar da videira e dos ramos, Jesus diz aos discípulos: “Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15), indicando que a verdadeira amizade supõe uma profunda comunhão de vontades. 

Algo semelhante acontece no matrimônio: os sentimentos podem inicialmente aproximar duas pessoas, mas o amor se enraíza e se torna sólido quando ambos passam a amar as mesmas coisas, a buscar os mesmos objetivos e a viver uma verdadeira concórdia de coração. O mesmo se verifica nas amizades: elas amadurecem e permanecem à medida que os amigos aprendem a querer e a amar as mesmas coisas. Não por acaso, Santo Tomás de Aquino recorda que a amizade é essencial à vida.

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Cristo deu a vida por nós e manifestou-nos aquilo que Ele deseja. Ser seus amigos significa, portanto, acolher a sua vontade e adequar a nossa vida a ela. É assim que, permanecendo n’Ele, podemos produzir os frutos que Deus espera de nós.

Os antigos resumiam essa realidade na expressão latina “Idem velle, idem nolle”, isto é, “querer as mesmas coisas, rejeitar as mesmas coisas”. Todavia, com Deus não se trata de buscar um meio-termo entre duas vontades, como muitas vezes acontece nas relações humanas. A vontade divina é perfeita e sumamente boa; logo, somos nós que devemos aprender a moldar a nossa vontade à de Cristo. Afinal, querer o que Ele quer é o caminho seguro para crescermos em sua amizade e no verdadeiro amor.

Na vida cristã, esse configurar-se à vontade de Deus acontece concretamente por meio de três passos. O primeiro é cumprir os Mandamentos. Se desejamos produzir os frutos de amor que Jesus espera de sua vinha, é preciso abandonar o pecado mortal e obedecer à Lei de Deus. Não podemos pretender ser amigos de Cristo enquanto deliberadamente rejeitamos aquilo que Ele deseja. Por isso, quem se encontra em pecado mortal precisa recorrer à Confissão e voltar à amizade com Deus. 

O cumprimento dos Mandamentos é o primeiro sinal de que a nossa vontade começa a entrar em sintonia com a vontade divina. Caso contrário, nós nos tornamos como o ramo separado da videira: incapaz de produzir frutos e destinado a secar. O segundo passo consiste no cumprimento dos deveres de estado. Cada pessoa possui obrigações próprias de sua condição de vida. O sacerdote possui deveres que não são os mesmos de um pai ou de uma mãe de família; da mesma forma, casados e solteiros têm responsabilidades próprias de sua vocação e circunstâncias.

Uma mãe precisa educar os filhos, aconselhá-los e prestar-lhes os cuidados necessários. Não faria sentido, por exemplo, ela abandonar essas responsabilidades para tentar viver como uma monja contemplativa. É evidente que todos nós somos chamados à oração; no entanto, a vida espiritual jamais pode servir de pretexto para negligenciarmos a vontade de Deus manifestada nos deveres concretos de nossa vocação.

Também é preciso tomar cuidado para não abandonar a oração, relegando-a apenas aos momentos em que não houver outros compromissos. Quem deseja verdadeiramente rezar precisa reservar tempo para Deus sem abandonar os deveres que Ele próprio lhe confiou, mesmo que isso exija sacrifício e esforço.

Há, por fim, um terceiro passo, muitas vezes esquecido: a vontade manifesta de Deus, que se revela nas circunstâncias concretas da nossa vida. Precisamos pedir ao Senhor a graça de reconhecer esses acontecimentos cotidianos que acabam contrariando nossos caprichos, desejos e projetos.

Ora, existem acontecimentos que não podemos mudar. Diante deles, podemos revoltar-nos, passar a vida entristecidos e resmungando, ou reconhecer que, se Deus permitiu determinada situação, é para retirar dela algum bem. “Omnia in bonum”; “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8, 28). Se determinada dificuldade pode ser evitada ou contornada, devemos nos esforçar para fazê-lo. Entretanto, quando não há outro jeito, somos chamados a acolher essa situação adversa, abraçando a vontade divina.

É aqui que alcançamos uma comunhão mais profunda de vontades. Começamos pelos Mandamentos, deixando de ofender a Deus, avançamos pelo cumprimento dos deveres próprios de nosso estado de vida, e chegamos, enfim, à aceitação amorosa das pequenas contrariedades e acontecimentos imprevistos pelos quais Deus deseja fazer-nos crescer espiritualmente.

Até mesmo uma dificuldade cotidiana pode transformar-se em um ato de amor. Diante do calor de Cuiabá, por exemplo, posso oferecer aquele pequeno sofrimento a Cristo e dizer: “Senhor, eu abraço este calor em honra das gotas de suor que Vós derramastes na carpintaria de Nazaré. Eu vos amo, Jesus”. Assim, por meio desses atos simples e generosos, crescemos no amor e aprendemos a unir cada vez mais a nossa vontade à de Nosso Senhor.

Deus plantou uma vinha, esperando dela frutos, e, para produzi-los, devemos permanecer juntos a Cristo e conformar a nossa vontade à d’Ele. Assim, sustentados pela graça do Espírito Santo, somos capazes de cumprir os Mandamentos, ser fiéis aos deveres do nosso estado de vida e acolher, com amor, a vontade de Deus manifestada nas circunstâncias e contrariedades de cada dia.

Que Deus nos conceda a graça de permanecermos unidos a Cristo e de produzir, cada vez mais abundantemente, os frutos de amor que Ele espera de sua vinha.

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