Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 5, 1-12a)
Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.
Neste domingo, 1º de novembro, a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos, refletindo sobre a santidade à luz do Evangelho das Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12). Embora a bem-aventurança plena só será alcançada no Céu, a fé católica nos ensina que a santidade pode começar ainda nesta vida, pois Deus deseja que sejamos libertados de nosso egoísmo e transformados por seu amor já aqui neste mundo.
Essa é uma diferença importante entre a doutrina católica e a mentalidade protestante. Para os protestantes, o ser humano permanece pecador durante toda a vida, alcançando a santidade somente no Paraíso, pela misericórdia divina. Contudo, nós, católicos, sabemos que a graça de Deus pode nos purificar profundamente e conduzir-nos a uma verdadeira união de amor com Ele, como testemunha a vida de inúmeros santos e santas.
Para compreendermos melhor esse caminho, vamos recorrer aos ensinamentos de Santa Teresa d’Ávila, que recebeu uma visão extraordinária acerca da alma em estado de graça. A santa contemplou-a como um magnífico castelo de cristal, em cujo centro habita o Rei, que é Deus. Dele, irradia uma luz maravilhosa, que não pertence à ordem natural das coisas criadas, mas representa a vida sobrenatural, isto é, a participação da alma na própria vida divina.
Essa luz corresponde à graça que recebemos por meio dos sacramentos, especialmente pelo Batismo e pela Confissão. Quando cometemos um pecado mortal, porém, ela se apaga e as trevas invadem o castelo. Santa Teresa descreve essa condição como um lugar obscuro e fétido, tomado por animais peçonhentos e criaturas repugnantes.
No entanto, há um detalhe fundamental nessa visão: mesmo quando a alma está mergulhada nas trevas, o Rei continua no centro do castelo, porque Deus sustenta continuamente todas as criaturas na existência. O pecado mortal nos priva da vida sobrenatural, mas, pelo arrependimento sincero e pela Confissão, essa luz pode ser novamente acesa, marcando o início do caminho da santidade.
Santa Teresa ensina que, para alcançarmos a união com Deus, precisamos percorrer as diferentes Moradas do castelo interior, aproximando-nos progressivamente do Rei que habita em nossa alma. Trata-se de um caminho de interiorização, no qual devemos deixar de procurar Deus apenas nas realidades exteriores para encontrá-lo no íntimo de nosso coração.
Infelizmente, ao iniciarmos essa caminhada, não encontramos imediatamente a luz divina. Na Primeira Morada, deparamo-nos com as nossas paixões desordenadas, como a ira, a vaidade, a gula, a avareza e os desejos egoístas. Mesmo depois de uma boa Confissão, percebemos que ainda carregamos numerosas imperfeições. Isso não significa que a graça esteja ausente, mas que sua ação ainda é pouco perceptível.
Foi também para ajudar as pessoas a atravessar essa primeira etapa da vida espiritual que escrevi o livro Um olhar que cura. Reconhecer nossas misérias não deve nos desanimar; pelo contrário, deve fortalecer nossa determinação de prosseguir, porque, como ensina Santa Teresa, não podemos permanecer indefinidamente nas Primeiras Moradas; precisamos avançar em direção ao centro do castelo.
Mas como fazer isso concretamente? O primeiro passo é assumir uma verdadeira vida de oração, profunda e perseverante. Não me refiro apenas às manifestações exteriores da fé, mas à oração interior, que nos conduz ao encontro com Deus no íntimo da alma.
Santa Teresa compreendeu essa verdade ao ler as Confissões, de Santo Agostinho, que reconhecia ter procurado Deus nas coisas exteriores, quando Ele, na verdade, estava dentro de sua alma: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eu te procurava fora, e estavas dentro”. De fato, Deus é mais íntimo de nós do que nós mesmos, sustentando nossa existência e comunicando-nos sua vida sobrenatural quando estamos em estado de graça.
E o que fazemos para cultivar a oração interior? Precisamos alimentar nossa alma com a Sagrada Escritura, as pregações, os ensinamentos dos santos e a meditação das verdades de fé. Aquilo que ouvimos exteriormente deve ajudar-nos a reconhecer a verdade que Deus já faz resplandecer em nosso interior. Por isso, não existe santidade sem uma vida perseverante de oração. Em outras palavras, ninguém pode ser santo sem rezar, e rezar muito.
O segundo passo consiste em obedecer aos Mandamentos, porque não podemos crescer na santidade enquanto permanecemos voluntariamente no pecado mortal, que destrói a vida sobrenatural da alma. Todavia, a obediência constitui apenas o fundamento dessa caminhada: quem deseja avançar pelas Moradas do castelo precisa aprender a amar com generosidade.
Pensemos, por exemplo, em um marido que trabalha, sustenta a família e permanece fiel à esposa, mas não lhe demonstra carinho. Quando ela reclama da falta de atenção, ele responde: “Já cumpri todas as minhas obrigações de esposo! Não me faça perder a paciência”. Embora cumpra seus deveres, sua atitude está longe de expressar um amor verdadeiramente generoso.
O mesmo acontece em nosso relacionamento com Deus. Não basta perguntar o que somos obrigados a fazer, porque o verdadeiro amor nos leva a oferecer mais do que aquilo que é exigido. Se devemos participar da Santa Missa aos domingos, por que não desejar participar também durante a semana? Se somos obrigados a nos confessar ao menos uma vez por ano, por que não buscar esse Sacramento mensalmente? Também nossos deveres familiares e profissionais devem ser realizados com generosidade, procurando amar a Deus em cada pessoa que encontramos.
Encontramos um belo exemplo dessa disposição em São Luís e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, que os considerava mais dignos do Céu do que da Terra, pois viviam inteiramente para o Senhor e procuravam conduzir seus filhos à eternidade.
Essa entrega generosa exige um esforço considerável, sobretudo nas primeiras etapas da vida espiritual, quando a ação da graça ainda é pouco perceptível. Combatendo, então, nossas paixões, perseverando na oração e renunciando ao egoísmo, Deus vai conduzindo, com o tempo, a nossa alma de maneira cada vez mais profunda, purificando seu amor por meio das cruzes e provações. Assim, à medida que avançamos pelas Moradas, reconhecemos com maior clareza a luz divina em nosso interior e desejamos pertencer inteiramente ao Senhor.
Nesse processo, nosso relacionamento com Deus também se transforma. Inicialmente, amamos como servos, obedecendo aos Mandamentos por obrigação. Depois, começamos a amar como filhos, desejando espontaneamente agradar ao nosso Pai. Do mesmo modo que um filho se dedica aos negócios da família porque os considera também seus, aquele que cresce na santidade deixa de calcular o quanto precisa fazer pelo Senhor, desejando entregar-lhe toda a sua vida. Porém, existe uma forma de amor ainda mais elevada: o amor esponsal, no qual a alma deseja unir-se a Deus com a mesma intimidade e entrega de uma esposa ao seu esposo. Já não se trata apenas de obedecer ou servir generosamente, mas de alcançar uma união tão profunda com Ele que nossa vontade se torne inteiramente conforme à sua.
Essa realidade é aquilo que Santa Teresa chama de união transformante. A alma se une tão intimamente ao Rei que já não deseja possuir vontades ou projetos separados dos d’Ele. Tudo passa a ser vivido por Deus e para Deus, de modo que se realiza aquilo que São Paulo afirma na Carta aos Gálatas: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
Essa é a perfeição espiritual descrita por Santa Teresa na Sétima Morada, quando a alma, transformada pelo amor divino, alcança a verdadeira liberdade, que não consiste na possibilidade de escolher o mal, mas em estar plenamente liberta da escravidão do pecado.
Imagine o amor de um filho por sua mãe. Se alguém lhe ordenasse que não a odiasse nem atentasse contra sua vida, ele consideraria tal proibição desnecessária, pois a ama profundamente e estaria disposto a dar a própria vida por ela. Da mesma forma, o santo que alcançou a perfeição do amor já não deseja ofender a Deus, pois foi libertado da escravidão do pecado. Sua liberdade não foi destruída, mas aperfeiçoada pela graça divina, que purifica seu coração e o conduz à união com o Senhor.
Eis o caminho da santidade ensinado por Santa Teresa d’Ávila: entrar no castelo interior pela porta da oração, obedecer aos Mandamentos e crescer na generosidade, permitindo que a graça divina transforme progressivamente nosso amor. Começamos amando como servos, avançamos para o amor filial e, finalmente, somos chamados à união esponsal com Deus, até que Cristo viva plenamente em nós.
Essa santidade não está reservada apenas à vida futura, mas pode ser alcançada ainda neste mundo, como testemunham os milhares de santos e santas que corresponderam generosamente à graça divina. É essa realidade que celebramos na Solenidade de Todos os Santos, ao contemplarmos nossos irmãos e irmãs mais velhos na fé, que já estão na glória celeste e, com suas vidas, indicam-nos o caminho que somos chamados a percorrer.
Seu testemunho também nos recorda que vale a pena combater o egoísmo, abraçar as cruzes e entregar-nos inteiramente ao amor de Deus, pois a graça divina é capaz de transformar nosso coração e conduzi-lo à perfeição da caridade. Portanto, nesta grande solenidade, alegremo-nos pela multidão daqueles que estão na felicidade eterna, pedindo que o exemplo deles nos encoraje a perseverar no caminho da santidade a fim de que, um dia, possamos igualmente ouvir o convite do Pai Celeste para entrarmos na bem-aventurança eterna que Ele preparou para nós.




















