Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 11, 25-30)
Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.
Neste 14.º Domingo do Tempo Comum, a Igreja proclama o Evangelho de São Mateus, capítulo 11, versículos de 25 a 30, que nos apresenta duas das mais belas palavras de Cristo. Primeiro, seu louvor ao Pai por revelar aos pequeninos os mistérios do seu Reino. Em seguida, o convite ou brado do Redentor: “Vinde a mim vós todos que estais cansados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”.
Para compreender esta passagem, é importante olharmos para o seu contexto. Pouco antes, Nosso Senhor fora repudiado pelos chefes de Israel, que chegaram a atribuir ao demônio a realização de seus milagres. Os que deviam conduzir o povo se haviam convertido em pastores verdadeiramente perversos, incapazes de reconhecer o Messias.
Por isso, compadecido das multidões, que eram como “ovelhas sem pastor”, Jesus escolhe os Doze e envia-os em missão. Quando os discípulos retornam trazendo notícias dos frutos da sua evangelização, o Senhor exulta de santa alegria por terem acolhido os humildes, isto é, os de coração simples e dócil, totalmente o contrário do que estavam fazendo os sábios e entendidos da época.
Em seguida, Jesus afirma que apenas Ele, o Filho, conhece o Pai e, por isso, é o único que o pode dar a conhecer aos outros. Aos segredos do coração de Deus só tem acesso quem entra na intimidade de Cristo. Trata-se do mesmo mistério proclamado no Prólogo do Evangelho de São João: o Filho, que vive desde sempre voltado para o seio do Pai, veio nos revelar quem Deus é (cf. Jo 1, 18).
Se o Filho conhece o Pai porque vive com Ele em perfeita comunhão não só de vontade como de substância, também nós, cuja vida tem de ser reflexo da de Cristo, somos convidados a repousar sobre o Coração d’Ele. Aqui, a imagem do discípulo amado reclinado no peito de Jesus durante a Última Ceia é como que a representação em miniatura do que a vida espiritual deve ser.
É na intimidade de Cristo que se conhece o que é o amor do Pai e como ele deve ser correspondido. Também a Eucaristia, de modo ainda mais particular, chama-nos a estreitar essa relação de intimidade. Não é à toa que o altar reúne em si tanto a mesa da Última Ceia quanto o Calvário, onde o Coração de Cristo foi traspassado por amor aos homens.
O convite presente no Evangelho de hoje, Jesus o dirige especialmente aos que estão cansados e sobrecarregados. Ora, o maior peso que podemos nos impor é o de buscar a felicidade longe de Deus. E é isso que faz o pecado: ele nos promete liberdade, mas nos acorrenta a senhores cada vez piores. Como o filho pródigo, procuramos satisfazer com bens finitos e passageiros nosso desejo infinito por um bem que não passa. Daí se originam nossos sentimentos tão frequentes de vazio, tristeza e desilusão… São os fardos do nosso egoísmo, das nossas paixões desordenadas e, em última análise, da nossa inimizade com Deus que vão tornando a vida cada vez mais pesada.
No lugar deles, Jesus nos oferece um jugo leve, o da caridade, do amor vivido em união com Ele. Naturalmente, ninguém é capaz por si só de amar como Cristo ama. Mas quem está unido a Ele tem, por isso mesmo, a força sobrenatural da graça. E quando vivemos na graça divina, nossa cruz não desaparece, mas já não a carregamos sozinhos.
Quem segue a Cristo, ainda que tenha muito que suportar, tem na cruz um motivo mais de alívio que de tormento, porque é uma cruz para ser levada na companhia do Senhor, que está dentro de nós como um cirineu ajudando-nos a carregá-la.
E, como a vida dos santos o demonstra, o amor faz do sacrifício um caminho de liberdade, de modo que aquilo que aos olhos do mundo parece pesado é, para quem ama, leve e suave.
Notemos também que o descanso prometido por Nosso Senhor está reservado para os humildes. Precisamos reconhecer nossa pobreza e indigência, abandonar toda prepotência e voltar-nos a Deus como filhos pródigos de volta à casa do Pai. Cristo acolhe quem dele se aproxima com confiança e arrependimento sincero e o introduz em sua própria intimidade. Nela, o discípulo aprende que o descanso cristão não está na ausência da cruz, mas na presença do amor.
O Evangelho de hoje é, numa palavra, um convite pessoal de Cristo. Ele está ainda hoje de braços abertos, chamando para junto de si a todos que andam cansados de buscar a felicidade onde ela não se encontra. Quem aceita esse convite se aproxima do seu Sagrado Coração, o único refúgio em que se pode aprender a mansidão e descobrir as profundezas do amor de Deus, por cuja graça não há fardo impossível de carregar, por mais pesado que seja.
Portanto, o verdadeiro descanso, que Cristo veio nos dar, só será alcançado se abandonarmos o fardo do pecado e tomarmos sobre nós o jugo suave da humildade, que fez o filho pródigo voltar para casa e dizer ao Pai: “Recebe-me como empregado”. Então, poderemos reclinar nossa cabeça no peito do Senhor, que é “manso e humilde de coração”, e ali encontraremos descanso, porque é suave o jugo do amor, e leve o fardo da caridade.



























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