Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 20, 19-23)
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.
Celebramos neste domingo a solenidade de Pentecostes, o dia em que o Espírito Santo foi derramado sobre os Apóstolos reunidos no Cenáculo com Maria, a Mãe do Senhor. Cinquenta dias após a Ressurreição de Cristo, a Igreja nasce publicamente pela força do Espírito e inicia sua missão no mundo.
Para compreender a importância de Pentecostes, precisamos entender antes por que temos necessidade do Espírito Santo. A resposta pode ser resumida numa frase: somente pelo Espírito Santo podemos participar da própria vida de Deus. Para explicar essa verdade, é importante nos precavermos contra dois erros muito comuns que deturpam nossa compreensão da realidade.
O primeiro erro é o materialismo, visão segundo a qual só o que existe é a matéria. Tudo, em última análise, reduz-se à energia, organização biológica, processos físico-químicos etc. Não haveria, portanto, nem alma nem espírito, nem verdade eterna nem sentido transcendente. O homem seria apenas um organismo mais, certamente complexo, mas destinado, no fim das contas, à decomposição.
Essa mentalidade, que permeia toda a cultura contemporânea, tem consequências dramáticas. Ensina-se às novas gerações que a felicidade consiste em satisfazer necessidades materiais: prazer, conforto, consumo, sucesso, experiências sensíveis. No entanto, o coração humano permanece vazio. Por isso vemos tantas pessoas cercadas de bens, mas mergulhadas na tristeza, na ansiedade e no desespero.
A razão é simples. O ser humano foi criado para algo maior. As realidades mais importantes — o amor, a verdade, o sentido da vida — não podem ser medidas, pesadas ou tocadas. O coração humano pede o eterno, e nenhuma realidade material é capaz de satisfazê-lo plenamente.
O segundo erro é o panteísmo. Se o materialismo afirma que tudo é matéria, o panteísmo afirma que tudo é divino, ou seja, Deus e o universo seriam uma única realidade. Nós seríamos como pequenas “porções” de uma grande divindade universal.
Isso, ao menos à primeira vista, pode até parecer espiritual, mas no fundo conduz ao mesmo vazio do materialismo. Afinal, se, ao fim e ao cabo, o “eu” se dissolve numa espécie de “todo divino”, então ele deixa de existir como pessoa. Não há verdadeira salvação numa dissolução panteística da própria identidade. Quer reduzidos à matéria, quer dissolvidos num “espírito universal”, o resultado para nós é sempre o mesmo: o desaparecimento da pessoa humana.
A fé católica supera esses dois extremos. Deus não é matéria, nem o universo é Deus. Há uma distinção infinita entre o Criador e a criatura. Deus é eterno, perfeitíssimo e infinitamente feliz em si mesmo. Ele, sendo um só em natureza, é trino em pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deus é, numa palavra, comunhão eterna de amor.
Ora, foi esse Deus quem livremente decidiu nos criar, a fim de participarmos de sua própria felicidade. Mas como uma criatura, limitada por definição, poderia participar da vida e felicidade divinas? Como transpor o abismo entre Deus e o homem?
A resposta é: por meio de Jesus Cristo. O Filho eterno de Deus se fez homem no tempo. Sem deixar de ser o que era, assumiu o que não era. Em Jesus Cristo, as naturezas divina e humana estão unidas, sem confusão nem separação, numa só Pessoa. Por isso Ele é, por excelência, a ponte entre o Céu e a terra, o único e verdadeiro Pontífice que reconcilia com Deus Pai a humanidade, ferida pelo pecado de Adão.
Entretanto, resta ainda uma pergunta. Como nós nos unimos a Cristo? Aqui entra o mistério de Pentecostes. O Espírito Santo é derramado sobre a Igreja para nos unir a Jesus e configurar o nosso coração ao dele. E assim como a alma mantém unidas as partes que constituem um só corpo, assim o Espírito Santo, que é a alma da Igreja, nos mantém unidos, misteriosa mas realmente, a Cristo como membros à cabeça.
Por isso, as orações litúrgicas repetem com frequência: “Na unidade do Espírito Santo”. É o Espírito quem nos une a Deus Pai por meio do Filho encarnado. A grande obra do Espírito Santo é conformar-nos a Jesus, iluminando-nos a inteligência pela fé e inflamando-nos o coração pela caridade. Daí que o primeiro sinal da presença do Espírito Santo na alma seja o amor a Jesus.
Tornou-se costume falar de amor ao próximo sem fazer qualquer referência ao que o fundamenta, que é o do amor a Deus. Ora, a verdadeira caridade não pode nascer senão do amor sobrenatural a Nosso Senhor. Amamos o próximo, numa palavra, porque amamos a Cristo e, vendo a Cristo no próximo, queremos servi-lo nele.
Nesse sentido, a solenidade de Pentecostes não é mera recordação de um acontecimento passado. Trata-se de uma realidade viva, na medida em que o Espírito Santo continua sendo derramado sobre a Igreja e sobre as almas por Ele justificadas. Por isso, convém-nos pedir neste domingo uma renovação profunda da graça recebida no Batismo e na Crisma. O Espírito Santo já habita na alma de quem vive em estado de graça, é verdade; mas é necessário abrir cada vez mais o coração à sua ação transformadora.
O Espírito vem de modo especial aos humildes, razão por que a liturgia o chama de Pater pauperum, “Pai dos pobres”, isto é, daqueles que reconhecem sua indigência e, por isso mesmo, sua radical necessidade de Deus; daqueles, enfim, que tem o coração vazio de orgulho e de egoísmo e, por isso, capaz de ser preenchido pela graça e pelo amor divino.
Peçamos, pois, com humildade e confiança: “Vinde, Espírito Santo”. Que Ele aumente em nós a fé, fortaleça nossa união com Cristo e faça crescer em nosso coração o amor verdadeiro, que só o Céu pode nos dar.
A finalidade da vida cristã — lembremos por último — não é só melhorar moralmente nem alcançar certo equilíbrio emocional. O fim último do homem é muito maior: participar, nesta vida pela graça e na outra pela glória, da própria vida de Deus. E isso só é possível por Cristo, com Cristo e em Cristo, na unidade do Espírito Santo.



























O que achou desse conteúdo?