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Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
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Texto do episódio
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Evangelho para Procissão de Ramos
(Mt 21, 1-11)

Anúncio do Evangelho da Paixão do Senhor
(Mt 26, 14- 27,66)

Neste Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a Igreja proclama dois Evangelhos, o Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém, triunfante, sendo aclamado com ramos de oliveira (Mt 21, 1-11), e o Evangelho em que Jesus é então condenado à morte e crucificado no Calvário (Mt 27, 11-54). Parecem dois Evangelhos desconexos, mas se olharmos para Jesus como nosso sumo e eterno sacerdote, iremos ver que Ele vai oferecer a Deus o seu sacrifício perfeito e que sua entrada na cidade santa é como a procissão de entrada do sacerdote que sobe ao altar do sacrifício. Vamos, portanto, refletir a respeito desse sacrifício sacerdotal que celebramos em cada Santa Missa; sacrifício primeiramente oferecido por Jesus, de forma cruenta, há dois mil anos, e renovado substancialmente de forma incruenta em todas as Missas.

Em primeiro lugar, precisamos entender que oferecemos sacrifício ao Senhor por três motivos: por causa da adoração, quando reconhecemos o nosso nada diante de Deus; por causa da ação de graças, pois recebemos tudo do Criador; e por causa da súplica, quando pedimos as graças necessárias para continuarmos servindo ao Senhor. Esses três elementos estão fundamentados na própria natureza das coisas. Mesmo se não tivéssemos pecado, ainda assim teríamos de oferecer sacrifícios a Deus, pois isso está presente na própria natureza racional das coisas. Mas, com o nosso pecado, eis que surgiu uma quarta necessidade para oferecermos sacrifício: a reparação. Mas, nesta reflexão, vamos nos limitar ao culto de adoração a Deus.

Alguém poderia objetar dizendo que os sacrifícios são típicos do Antigo Testamento, quando oferecíamos carneiros e touros no altar, e que agora Jesus quer que o adoremos “em espírito e em verdade”. Santo Tomás de Aquino, porém, explica que o sacrifício externo e físico também é necessário, porque nós não somos anjos. Citando São João Damasceno, Santo Tomás nos recorda de que temos uma natureza dupla: espiritual e corporal:

Como escreve São João Damasceno, já que somos compostos por duas naturezas — a intelectual e a sensível —, oferecemos dupla adoração a Deus: uma espiritual, que consiste na devoção interna de nossa mente, e outra corporal, que consiste na humilhação exterior de nosso corpo. E porque em todos os atos de latria o exterior se refere ao interior como o secundário ao principal, a mesma adoração exterior se subordina à interior, para que, mediante os atos corporais de humildade, o nosso afeto se sinta impelido a submeter-se a Deus, pois o natural em nós é chegar ao sensível pelo inteligível [1].

Isso implica a necessidade de ações concretas, exteriores. Quando fazemos uma genuflexão, por exemplo, estamos concretamente dizendo a Deus que nada somos e que reconhecemos a sua grandeza. 

Oferecemos o nosso melhor, assim como no Antigo Testamento: o melhor carneiro, sem mancha. Ninguém oferecia cobras, lagartos, répteis, aranhas ou insetos a Deus, porque eram animais tidos como asquerosos. Então, o homem pegava aquilo que ele via de mais belo, um animal bonito, como a ovelhinha sem mancha e a aniquilava em holocausto, queimando-a completamente até as cinzas. Sim, esse ato externo deveria conduzir o sacerdote ao ato interior de se apresentar a Deus como um nada, um pobre necessitado da misericórdia divina.

De fato, não somos nada diante do Senhor: ao nos criar, Deus não se enriqueceu em seu ser, pois Ele é o ser infinito; ao criar a inteligência dos anjos e dos homens, o Senhor não ficou mais sábio, pois Ele é a sabedoria infinita — e, se Ele aniquilasse toda a inteligência criada, em nada diminuiria a quantidade e a qualidade da sua sabedoria e inteligência infinitas. Eis aí, portanto, o sentido da nossa adoração, pois Deus nos criou por puro amor e gratuidade. Nossa genuflexão, portanto, é um pequeno sacrifício externo que expressa esse sacrifício interno. 

Desde o início de sua vida, Jesus já havia se oferecido como sacrifício, sua entrega não aconteceu somente na Cruz. São Paulo nos diz o seguinte: “Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz: ‘Não quiseste sacrifício nem oferta, mas formaste-me um corpo; holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis que venho — pois é de mim que está escrito no rolo do livro — para fazer, ó Deus, a tua vontade’.” (Hb 10, 5-7). Ou seja, Ele quer o sacrifício da alma. Desde o início, Cristo veio para cumprir a vontade do Pai. Seu sacerdócio não começou no Calvário, mas já na gruta de Belém. Jesus ofereceu seu sacrifício de amor ao Pai quando foi apresentado no Templo por Maria e José diante do velho Simeão; quando, perdido, ensinava aos doutores da Lei; e quando, em oração e súplica, aprendia o ofício de carpinteiro com São José em Nazaré. Nosso Senhor disse com toda clareza que veio a este mundo a fim de atear o fogo do seu amor, como nos diz o Evangelho de São Lucas, capítulo 12, versículo 50. E Ele quer que subamos com Ele para Jerusalém, ou seja, que elevemos nosso coração ao Pai. Na sua homilia do Domingo de Ramos de 2011, o Papa Bento XVI fez uma meditação sobre o “sursum corda”, “corações ao alto”, afirmando que, ao subir para Jerusalém, Jesus quer elevar consigo os nossos corações. 

O coração, segundo a concepção bíblica e na visão dos Padres, é aquele centro do homem onde se unem o intelecto, a vontade e o sentimento, o corpo e a alma; é aquele centro, onde o espírito se torna corpo e o corpo se torna espírito, onde vontade, sentimento e intelecto se unem no conhecimento de Deus e no amor a Ele. Esse ‘coração’ deve ser elevado. Mas, também aqui, sozinhos somos demasiado frágeis para elevar o nosso coração até à altura de Deus; não somos capazes disso. É precisamente a soberba de o podermos fazer sozinhos que nos puxa para baixo e afasta de Deus. O próprio Deus tem de puxar-nos para o alto; e foi isso que Cristo começou a fazer na Cruz. Desceu até à humilhação extrema da existência humana, a fim de nos puxar para o alto rumo a Ele, rumo ao Deus vivo. Jesus humilhou-se: diz hoje a Segunda Leitura. Só assim podia ser superada a nossa soberba: a humildade de Deus é a forma extrema do seu amor, e este amor humilde atrai para o alto [2].

Eis um verdadeiro sacrifício de adoração, oferecido por Cristo para elevar-nos ao Pai. No entanto, é importante entendermos que a morte de Cristo na Cruz, ou seja, a ação ativa dos soldados de Pilatos, de Herodes e de Caifás de matar Jesus não foi um sacrifício, mas um crime. Foi um deicídio: mataram a Deus que se fez homem. Na Santa Missa, não revivemos o assassinato de Cristo — Ele já morreu de uma vez por todas —; mas revivemos o seu sacrifício como vítima, que aceita interiormente oferecer-se na Cruz por nós. 

No Horto das Oliveiras, quando Jesus estava para ser preso pelos soldados do Templo e São Pedro, para defendê-lo, decepou a orelha de um dos soldados, o Mestre disse algo muito significativo: “Guarda a tua espada no seu lugar; pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão. Ou pensas que eu não poderia rogar a meu Pai, e ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26, 52-53). Jesus está simplesmente mostrando aqui que os poderes deste mundo são totalmente impotentes diante do poder divino — doze legiões de anjos correspondem à metade de todo o exército romano da época. Ora, é Jesus mesmo quem se entrega em sacrifício, ninguém o coage. Ele diz: “Ninguém tira minha vida, mas eu a dou livremente” (Jo 10, 18). Este é o sacrifício: Jesus transforma o crime que cometeram contra Ele em amor, é o que Cristo faz em seu coração. Na Última Ceia, Ele disse: “Isto é meu corpo que é dado. Isto é meu sangue que é derramado” (Mt 26, 26-28). Sim, livremente Ele escolheu ser vítima dessa grande injustiça para dela tirar a justiça maior. Portanto, é a disposição interna de Nosso Senhor que faz com que a Cruz seja um sacrifício. 

Sim, na Cruz, claramente vemos Jesus como vítima, dilacerado e aniquilado, mas o que não vemos é o oferecimento presente em seu coração, com o qual Ele diz: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Não sabemos o que se passa no profundo da sua alma quando Ele suspira: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). Ora, todas essas palavras de Jesus expressam sua disposição interior de se entregar, de ser verdadeiro sacerdote. Desse modo, poderíamos dizer que, na Cruz, a vítima é visível, mas o sacerdote é invisível. Mas na Missa acontece o contrário: vemos o sacerdote, mas não a vítima. É claro que o padre celebrante é o próprio Cristo, que é visível nos seus ministros ordenados. Tudo isso nos leva a enxergar o seguinte: é o amor que faz com que a Cruz seja redentora. Sim, na Missa, temos a realização do mesmo sacrifício sacramental, pois a vítima é a mesma; o sacerdote é o mesmo, só a forma de agir é diferente, não mais de modo incruento — é o que nos diz o Concílio de Trento (cf. Denzinger-Hünermann, n. 1743). Vemos que Ele se aniquila diante do Pai: “Embora fosse Deus, não se apegou ciosamente ao ser igual a Deus, mas se esvaziou” (Fl 2, 6-7). Esse esvaziamento é a sua adoração, o seu sacrifício, a sua disposição interior. 

Portanto, seja como sacerdote, seja como fiel, precisamos nos unir a Ele na Missa. O momento mais sublime da celebração só pode ser o momento da Consagração, pois Jesus vivo e glorioso entrega-se sacramentalmente em sacrifício de amor. Cristo não está sendo assassinado outra vez. Mas o corpo separado do sangue, nas espécies do Pão e do Vinho consagrados, é uma representação do Cristo morto, uma representação mística e sacramental da morte de Cristo, embora, quando o padre diz: “Isto é o meu corpo”, Cristo já esteja ali presente e glorioso do jeito que Ele está no Céu. Cristo glorioso no Céu oferece e continua a oferecer o mesmo sacrifício ao Pai, adorando, dando ação de graças, suplicando e reparando os nossos pecados. Como sacerdote invisível, Jesus está lá oferecendo esse sacrifício.

Precisamos nos unir a Ele. Então, os sacerdotes, que oferecem o sacrifício eucarístico, devem se colocar no lugar do burrinho que levou Jesus para Jerusalém, sabendo que Nosso Senhor estará montado sobre seu sacerdócio. Ao se aniquilarem desse modo, eles estarão também oferecendo um sacrifício e unindo-se ao de Cristo. Da mesma forma, os fiéis, ao se ajoelharem na consagração, estão manifestando o seu nada. Portanto, meus irmãos, subamos ao altar neste domingo, sabendo que acompanhamos o nosso sumo e eterno sacerdote num oferecimento de amor, porque Ele oferece seu amor imenso a Deus e a nós. Vamos, então, unir-nos a Ele em adoração, ação de graças, súplica e reparação.

Notas

  1. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 84, a. 2.
  2. Bento XVI, Homilia na Celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, 17 de abril de 2011.

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