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O pastoreio e o amor indiviso a Cristo

Neste Domingo do Bom Pastor, Jesus afirma que Ele é a única porta pela qual entram os verdadeiros pastores das ovelhas. Com isso, Nosso Senhor nos ensina — como bem observou Bento XVI — que “a única subida legítima rumo ao ministério do pastor é a cruz”.

Texto do episódio
01

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 10, 1-10)

Naquele tempo, disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer. Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas. Todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

Neste 4º Domingo da Páscoa, conhecido como o Domingo do Bom Pastor,  a Igreja proclama o Evangelho de São João, capítulo 10, versículos do 1 ao 10. Trata-se de uma parábola que, desde o início, pode parecer enigmática não apenas para nós, do século XXI — que estamos distante desse contexto de pastoreio — mas também para aqueles que a ouviram pela primeira vez.

Jesus começa falando de um redil, isto é, o lugar onde as ovelhas são recolhidas. Sabemos que, na época, os pastores viviam muitas vezes de forma nômade e, sobretudo no inverno, precisavam reunir as ovelhas em um espaço protegido. Em alguns casos, esse redil nem possuía uma porta propriamente dita, e o próprio pastor se colocava na entrada, tornando-se ele mesmo a “porta”.

Então, nesse contexto, Jesus afirma algo que, à primeira vista, pode nos causar estranheza: “Eu sou a Porta das ovelhas” (Jo 10, 7). Se entendemos que o redil simboliza a Igreja, fica claro que é por meio dessa Porta — Nosso Senhor — que entram tanto as ovelhas quanto os verdadeiros pastores.

E o caminho de Jesus, com toda clareza, é a Cruz: o seu caminho pascal de Paixão, Morte e Ressurreição. Ele mesmo disse: “Eu sou o Caminho” (Jo 14, 6); e aqui, Ele diz: “Eu sou a Porta” (Jo 10, 7). Logo, é por Ele que entramos, é por Ele que somos salvos e é por Ele que fazemos parte do número daqueles que caminham para a vida eterna.

O Papa Bento XVI, na homilia do Domingo do Bom Pastor de 2006, observou o seguinte:

‘Eu sou a porta’ (Jo 10, 7). É através dele que se deve entrar no serviço de pastor. Jesus põe em evidência de maneira muito clara esta condição fundamental, afirmando: ‘Quem... sobe por outro lado, é um ladrão e salteador’ (Jo 10, 1). Esta palavra, ‘sobe’, anabainei, em grego, evoca a imagem de alguém que escala um recinto para ir, ultrapassando, aonde legitimamente não poderia chegar. ‘Subir’ aqui pode-se ver também a imagem do carreirismo, da tentativa de chegar ‘ao alto’, de procurar uma posição por meio da Igreja: servir-se, não servir.
É a imagem do homem que, através do sacerdócio, quer tornar-se importante, ser uma personagem; a imagem daquele que tem em vista a sua própria exaltação e não o humilde serviço a Jesus Cristo. No entanto, a única subida legítima rumo ao ministério do pastor é a cruz. Esta é a autêntica ascese, esta é a verdadeira porta. Não desejar tornar-se pessoalmente alguém mas, ao contrário, servir o outro, servir Cristo e, assim, através dele e com Ele, colocar-se à disposição dos homens que Ele procura, que Ele quer conduzir pelo caminho da vida. Entra-se no sacerdócio através do Sacramento e isto significa precisamente: mediante a entrega de si mesmo a Cristo, a fim de que Ele disponha de mim; a fim de que eu o sirva e siga o seu chamamento, mesmo que este venha a entrar em oposição com os meus desejos de auto-realização e estima. Entrar pela porta, que é Cristo, quer dizer conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, para que a nossa vontade se una à sua e o nosso agir se torne um só com o seu [1].

Aqui, Bento XVI está seguindo a tradição do Profeta Ezequiel, que pregou contra os maus pastores de Israel, ou seja, aqueles que só cuidam de si mesmos e aproveitam-se das ovelhas.

Já Jesus é o pastor que “dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10, 11). Esse é o método de Cristo. Santo Tomás, ao comentar esse trecho do Evangelho, fica perplexo diante da ideia de um pastor que entrega a vida pelas ovelhas:

Em relação aos pastores terrenos, não se exige do bom pastor que se exponha à morte para defender o rebanho. Mas já que a salvação espiritual da grei tem mais importância que a vida corporal do pastor, cada pastor espiritual deve aceitar a perda de sua vida pela salvação do rebanho [2].

No plano natural, isso pareceria absurdo: o pastor dar a própria vida pelas ovelhas, sendo que sua vida é muito mais valiosa do que a delas. Mas aqui não se trata de uma vida qualquer — trata-se da vida eterna. Por isso, vale a pena perder a vida biológica para salvar a vida sobrenatural. E é exatamente isso que Cristo faz. Portanto, Ele pode dizer: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Essa abundância de vida nasce do sacrifício, da entrega de amor. Essa é a característica do sacerdócio cristão, em que os pastores, os sacerdotes, são chamados a oferecerem-se como vítimas. E é isso que diferencia os bons dos maus pastores.

Continuando seu comentário ao Evangelho, Santo Tomás de Aquino observa que, enquanto existem vários pastores — os Apóstolos, os bispos, aqueles que participam do ministério —, a Porta é apenas uma. Isso significa que o acesso é exclusivo: somente por Cristo se entra e somente por Cristo somos salvos. Ele, somente Ele, conhece o Pai; por isso, não existe outra forma de entrar:

Cristo disse que o pastor entra pela porta e que ele é a porta. Aqui diz ser ele o pastor; é preciso então que ele entre por si mesmo. Entra, na verdade, por si mesmo porque se manifesta a si e por si mesmo conhece o Pai. Nós, porém, entramos por Ele, porque por Ele somos cumulados de beatitude.
Contudo, atenta em que nenhum outro, exceto Ele, é porta, porque nenhum outro é luz verdadeira, mas apenas por participação: ‘Não era a luz, isto é, João Batista, mas veio para dar testemunho da luz’ (Jo 1, 8). De Cristo, porém, diz: ‘Era a luz verdadeira que ilumina a todo homem’ (Jo 1, 9). Por esse motivo, ninguém diz ser porta; é propriedade exclusiva de Cristo. Quanto a ser pastor, comunicou-o a outros e deu a seus membros; Pedro é pastor, os outros apóstolos foram pastores, e todos os bons bispos também. ‘Dar-vos-ei’, diz a Escritura, ‘pastores segundo meu coração’ (Jr 3, 15). Os prelados da Igreja, que são filhos, são todos pastores; no entanto, diz no singular: eu sou o bom Pastor, para seguir a virtude da caridade. Ninguém é bom pastor, se não se tornar pela caridade um só com Cristo e membro do verdadeiro pastor [3].

Embora pareça estranho, nos dias atuais, é preciso dizer o óbvio: nós, padres, precisamos amar Jesus e crescer nesse amor. Jesus deve ser o nosso tudo. Ele deve ser a razão dos nossos sacrifícios apostólicos, o combustível do nosso celibato, a razão de ser do nosso ministério. 

Nos últimos tempos, as pessoas tentam “baratear” o sacerdócio católico, tornando-o mais palatável ao mundo moderno. Começam pela disciplina do celibato, propondo a ordenação de homens casados. Embora os homens casados possam servir a Cristo e a Igreja, precisamos ter claro que o sacerdócio católico é um “dar à vida” por amor a Cristo, um amor indiviso, exclusivo, que faz o sacerdócio brilhar na sua verdadeira natureza.

Precisamos rezar para que os padres sejam verdadeiramente aqueles que amam a Cristo com o coração indiviso. Os padres precisam pensar, crer e viver aquilo que diz São Paulo: “Caritas Christi urget nos”, “O amor de Cristo nos impele” (2Cor 5, 14). Este deve ser o combustível de um padre: unir-se ao amor de Cristo. E a forma de amar Jesus, muito concretamente, é dar a vida pelas ovelhas que Cristo nos deu.

Mas, se buscamos amar as ovelhas pelas ovelhas, logo virá  o desânimo e o fracasso do sacerdócio. É necessário a verdadeira caridade: amar as ovelhas por amor a Cristo.

Neste domingo do Bom Pastor, rezemos para que Deus renove o amor dos seus sacerdotes e chame tantos jovens generosos para se entregar amorosamente a Cristo, dando a vida por suas ovelhas. Que nunca deixemos de ter bons pastores e que nunca cesse de ser verdade aquela promessa de Deus no Antigo Testamento: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15).

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