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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 3, 16-18)

Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.

Neste domingo da Santíssima Trindade, em que proclamamos o Evangelho de São João, capítulo 3, versículos de 16 a 18, a Igreja nos convida a contemplar o maior de todos os mistérios: o fato de que Deus é amor. O Pai ama o Filho desde toda a eternidade, e o amor entre ambos é o Espírito Santo. Não se trata de uma teoria abstrata nem de um problema matemático, mas da própria vida íntima de Deus, revelada claramente na plenitude da história da salvação, com a Encarnação de Deus Filho.

Cristo não veio simplesmente ensinar uma fórmula catequética sobre a Trindade. Deus nos revelou quem Ele é enviando o Filho ao mundo e derramando o Espírito Santo sobre a Igreja. É pela ação das Pessoas divinas que entramos no mistério trinitário.

Ao mesmo tempo, Deus permanece em luz inacessível. Ele se revela, mas não se deixa possuir pela nossa inteligência. Nesta vida, conhecemos a Deus de modo limitado, “como num espelho e em enigma” (1Cor 13, 12) conforme as palavras de São Paulo. Apenas no Céu, pela luz da glória, nós o veremos face a face, sem mediação alguma, tal como é em si mesmo. Se Ele se manifestasse plenamente a nós agora, sua beleza nos atrairia de tal modo, que a nossa liberdade, sem poder resistir ao sumo Bem, como que desapareceria. Eis por que Ele se revela a nós sem destruir a possibilidade e o mérito da fé, compreendida como um ato livre.

São João afirma em seu Evangelho: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito” (Jo 3, 16). Deus mostrou-nos o seu amor na Cruz, mas nos dá a liberdade de crermos nele ou de o rejeitarmos. Com efeito, crer também significa, entre outras coisas, acolher o amor revelado em Cristo.

No entanto, ninguém é capaz de abraçar deveras tal amor sem o auxílio do Espírito Santo. É Ele quem ilumina o coração, tornando possível a fé, e faz nascer em nós o amor sobrenatural por Jesus Cristo. Ora, até os demônios “creem”, isto é, sabem que Deus existe, de maneira que o problema deles não está tanto na inteligência quanto na vontade, que recusa o único amor que os poderia ter feito felizes.

Aliás, Santo Agostinho concebe a humanidade dividida em duas cidades: de um lado, a dos homens, construída pelo amor de si até o desprezo de Deus; de outro, a de Deus, construída pelo amor de Deus até o desprezo de si. Uma e outra coexistem não só no mundo, mas até mesmo dentro da Igreja. Há cristãos que vivem centrados em si mesmos, enquanto outros, dóceis à graça, buscam viver fiéis ao Evangelho. — A qual cidade pertencemos? Eis a pergunta que nos devemos fazer hoje.

O Senhor nos chama: “Tomai sobre vós o meu jugo”, pois não há amor verdadeiro sem cruz. Seguir a Cristo exige renúncia, entrega e transformação interior. Mas Deus não pede que carreguemos nossa cruz sozinhos. O Espírito Santo está conosco, fortalece-nos e torna leve, apesar de todas as suas exigências, o fardo do amor. É Ele quem nos dá capacidade de amar sem as nódoas do egoísmo.

Para entrar de verdade na vida trinitária, é necessário antes de tudo viver em estado de graça. Quem está afastado de Deus pelo pecado grave, precisa reconciliar-se o mais rápido possível pelo sacramento da Confissão, em virtude do qual a amizade divina, rejeitada pelo pecador, é por fim restaurada. Além disso, é preciso pedir sem cessar a graça atual, já que ninguém pode amar a Deus apenas com as próprias forças. O amor sobrenatural é, por definição, um dom divino. Por isso, a atitude correta é a do mendigo espiritual, que se prostra diante de Deus e pede com humildade: “Senhor, eu quero vos amar de verdade”.

A Solenidade da Santíssima Trindade nos recorda, em suma, a nossa vocação mais profunda: participar da própria vida de Deus. O Pai enviou ao mundo o Filho e o Espírito Santo a fim de nos resgatar do egoísmo e nos introduzir na comunhão eterna do amor divino. Somos chamados, pois, a abandonar a lógica da cidade dos homens para viver segundo a caridade de Cristo. Quem acolhe na fé o amor de Deus unitrino e, desse modo, ama os irmãos, começa, já neste mundo, a participar da vida eterna.

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